A voz do passado



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A VOZ DO PASSADO

Paul Thompson
História oral
Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira
PAZ E TERRA

© Paul Thompson 1978, 1988

Traduzido do original em inglês The voice of the past - oral history

Preparação: Carmem Simões Costa Revisão: Ana Mendes Barbosa e Luís Henrique Neiy

Capa: Isabel Carballo

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Thompson, Paul, 1935-

A voz do passado história oral/ Paul Thompson; tradução Lólio Lourenço de Oliveira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992

1. História - Metodologia 2. História oral 1. Título.

92-2845 CDD-907.2


Índices para catálogo sistemático:

1. História: Metodologia 907.2

2. História oral 907.2
Direitos adquiridos pela

EDITORA PAZ E TERRA S.A.

Rua do Triunfo, 177 01212 - São Paulo, SP

Tel. (011) 223-6522

Rua São José, 90 -11 andar, cj. 1111

20010-RiodeJaneiro,RJ

Tel. (021) 221-4066

que se reserva a propriedade desta tradução)

Conselho Editorial

Antonio Candido

Celso Furtado

Fernando Gasparian

Fernando Henrique Cardoso
1992

Impresso no Brasil! Printed in Brazil


ÍNDICE

Prefácio á primeira edição 9

Prefácio à segunda edição 12

Prefácio á edição brasileira 14

1. História e comunidade 20
2. Historiadores e história oral 45
3. A contribuição da história oral 104
4. Evidência 138
5. A memória e o eu 197
6. Projetos 217
7. A entrevista 254
8. Armazenamento e catalogação 279
9. Interpretação: a construção da história 299

Leituras complementares e notas 338


Modelos de perguntas 367
Índice remissivo 379
PREFÁCIO Á PRIMEIRA EDIÇÃO
Este é um livro que trata do método e do significado da história. Antes de mais nada, é uma introdução ao uso de fontes orais pelo historiador. Mas a utilização dessas fontes suscita, ela mesma, questões fundamentais, e decidi ocupar-me delas de iní­cio, caminhando passo a passo na direção dos capítulos seguin­tes, de caráter mais prático. Ao mesmo tempo, procurei escrever tendo em mente muitos tipos diferentes de leitor. Alguns podem estar mais diretamente interessados em como elaborar um pro­jeto, e em como coletar e avaliar o material de entrevistas. Estes encontrarão conselhos práticos nos capítulos 6 (Projetos), 7 (A entrevista) e 8 (Armazenamento e catalogação). Na verdade, seria aconselhável começar pelo trabalho de campo. A experiên­cia prática da história oral conduzirá, por si só, às questões mais profundas a respeito da natureza da história. Essas questões dizem respeito, em primeiro lugar, ao caráter da evidência. Até que ponto é conflável a evidência oral? Ela equivale às fontes documentais com que o historiador moderno está mais familiarizado? Essas questões críticas e imediatas são tratadas no capítulo 4 (Evidência). Mas são mais bem compreen­didas se colocadas dentro do contexto mais amplo do desenvolvi­mento da produção histórica. O capítulo 3 (A contribuição da história oral) oferece urna avaliação da produção recente e da contribuição que a evidência oral tem dado, ao oferecer novas

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perspectivas e revelar novos campos de pesquisa. O capítulo 2 (Historiadores e a história oral) vai ao encalço dessa questão no passado da própria história, examinando as variadas abordagens da evidência pelos historiadores, desde a primazia inicial da tra­dição oral até as eras do documento escrito e do gravador.


É inevitável, porém, que isto leve a um segundo conjunto de questões relativas à função social da história. De fato, ficou claro, ao escrever o capítulo 2, que a evolução das técnicas de estudo só podia ser explicada de maneira convincente dentro de um con­texto social determinado. E os problemas ao selecionar e avaliar a evidência oral já haviam apontado na mesma direção. Como escolhemos a quem ouvir? A história sobrevive como atividade social apenas por ter hoje um sentido para as pessoas. A voz do passado tem importância para o presente. Mas de quem é a voz - ou de quem são as vozes - que se deve ouvir?
Assim, embora se possa tratar do método e do significado como temas independentes, no fundo eles são inseparáveis. A es­colha da evidência deve refletir o papel da história na comuni­dade. Em parte, esta é uma questão política, a cujo respeito os historiadores só podem chegar a unia posição pessoal inde­pendentemente. Em conseqüência, muito embora mesmo aqui a maior parte da argumentação seja muito claramente humana e não política, o capítulo 1 (História e comunidade) foi escrito de uma perspectiva socialista. De minha parte, creio que as possibi­lidades mais ricas para a história oral se encontram no desenvol­vimento de uma história mais socialmente consciente e democrá­tica. Naturalmente, a partir de uma posição conservadora também se poderia fazer uma defesa vigorosa da utilização da história oral para a preservação da plena riqueza e do valor da tradição. O mérito da história oral não é o de trazer em si, necessariamente, esta ou aquela postura política, mas sim o de levar os historiadores a tomarem consciência de que sua atividade se exerce, inevitavel­mente, dentro de um contexto social e que tem implicações políticas.
Este é, pois, um livro prático sobre como fontes orais podem ser coletadas e utilizadas pelos historiadores. Mas tam­10

bem pretende instigar os historiadores a se indagarem sobre o que estão fazendo e por quê. A reconstrução que fazem do pas­sado baseia-se na autoridade de quem? E com vistas a quem ela é feita? Em suma, de quem é A voz do passado?


Ao escrever este livro, tive a felicidade de poder contar com a ajuda de muitos amigos e colegas, especialmente da Oral His­tory Society e da Universidade de Essex. Não é possível, aqui, registrar minha gratidão senão a poucos deles separadamente, mas a todos agradeço. Em dez anos de atividade de pesquisa e de projetos de estudantes, e de um círculo cada vez mais amplo de debates e conferências, experimentos, erros e êxitos, ergueu-se uma experiência coletiva amplamente compartilhada. Nisto tudo é que este livro se apóia. Sobretudo, ele se vale do trabalho con­junto, em pesquisa e, a seguir, em cursos de pós-graduação, a que Thea Vigne e eu nos dedicamos e em que exploramos as possibi­lidades da evidência oral na história social. Tenho com ela uma dívida enorme. Gostaria, também, de agradecer mais uma vez aos que foram mencionados no prefácio dos primeiros resultados da­quela pesquisa, The Edwardians, e particularmente a George Ewart Evans e Maty Girling. Quanto a este texto, sou especial­mente grato pelas contribuições específicas e pelos comentários a versões preliminares feitos por Keith Thomas, Gcoffrey Hawt­hom, Bill Williams, Colin Bundy, Trevor Lummis, Roy Hay, Mi­chael Winstanley, Gina Harkell, Joanna Bornat, Alun Howkins, Eve Hostettler, Natasba Burchardt e Raphael Samuel.
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PREFÁCIO À SEG UNDA EDIÇÃO
Muita coisa aconteceu nos dez anos decorridos desde que escrevi este livro. O trabalho que então se iniciava resultou em publicações importantes em história. Progredimos em nossa com­preensão da complexidade do processo da memória e da interpre­tação das fontes orais. Assistimos a uma vigorosa difusão de pro­jetos de comunidades locais e ao surgimento de novos movimentos de alfabetização de adultos, teatro e terapia de reminiscência. Aprendemos mais a respeito do passado da história oral. Estabe­lecemos vínculos mais sólidos com a sociologia da história de vida e congregamo-nos para constituir uma comunidade internacio­nal de historiadores orais.
Toda essa série de acontecimentos reflete-se nesta nova edi­ção. De modo particular, ampliei os três primeiros capítulos sobre história e comunidade, os historiadores e a história oral, e a contribuição da história oral; introduzi uma nova discussão sobre “subjetividade”, psicanálise e memória como terapia, em um ca­pítulo reescrito sobre evidência (4) e um novo capítulo sobre a memória e o eu (5); e reescrevi e ampliei o capítulo final sobre interpretação (9).
Gostaria de podei agradecer a todos os que me auxiliaram, no correr desses anos, na reelaboração e na experiência que se refletem nesta edição revista; mais do que nunca, porém, eles são tantos que é impossível mencioná-los individualmente. Aos ami­gos e colegas britânicos, a quem continuo a dever tanto, gostaria

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agora de acrescentar muitos de outros países, especialmente os inúmeros que tão generosamente me acolheram em viagens à Es­candinávia, Polônia, França e Itália, Bélgica e Espanha, América do Norte e China. Permitam-me apenas que mencione de ma­neira especial Ron Grele, pelo papel fundamental que desempe­nhou na criação de um fórum internacional para a história oral; e que registre meu débito pessoal muito especial para com Daniel Bertaux, Isabelle Bertaux-Wiame, Luisa Passermi e nossos de­mais amigos de Turim, com quem trabalhei em projetos conjun­tos de pesquisa nesses anos todos.


PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA

A primeira experiência da história oral como atividade orga­nizada é de 1948, quando o professor Allan Nevis lançou o The Oral History Project da Universidade de Colúmbia. Hoje, nessa mesma universidade, o Oral Histoiy Research Office possui uma coleção de mais de 6 mil fitas gravadas e mais de 600 mil pági­nas de transcrição. Esse material é consultado anualmente por mais de 2 500 pesquisadores, segundo informações do próprio órgão sediado na Universidade de Colúmbia, na cidade de Nova York.


O boom da história oral nos Estados Unidos se deu no final dos anos 60 e início dos 70, e originou a Oral History Association (OHA) em 1967, com sua publicação anual Oral History Review. Houve a proliferação de programas de história oral em outras umversidades (UCLA, Berkeley), centros de pesquisa e institui­ções ligadas aos meios de comunicação - como o New York Times Oral History Program, que foi estabelecido em 1972. A partir de 1970, coleções de história oral foram também incluídas no National Union Catalog: Manuscript Collections, da Biblio­teca do Congresso Norte-Americano.
A história oral está hoje consolidada em diversos países além dos EUA, Grã-Bretanha, Itália, Alemanha, Canadá, França; faz parte do currículo escolar nos diferentes níveis de aprendi­zado, ~ cursos sobre o método e teoria são oferecidos regular14

mente até por universidades tidas como “conservadoras” como as de Colúmbia e Oxford.


O envolvimento de Paul Thompson com a história oral ocorreu na década de 60, quando, historiador social, integrou a equipe do Departamento de Sociologia da recém-fundada Uni­versidade de Essex, colaborando inclusive tia elaboração da seu regimento. Nessa ocasião, ao estudar um período recente de his­tória social inglesa, sem documentação nos arquivos e com uma literatura insuficiente, descobriu a importância das pessoas como testemunhas do passado e, ao ouvi-las, descobriu que elas têm sempre alguma coisa interessante a dizer. Foi orientado nesse projeto pelo historiador George Ewart Evatis, que na época traba­lhava em rádio e entrevistava velhos moradores de determinada região. Ao utilizar os instrumentos de entrevista nos moldes so­ciológicos, Paul Thompson percebeu a riqueza e a importância da memória dos sujeitos anônimos, e como o jeito do entrevistado contar “estórias” sobre o passado era uma alternativa perfeita para a história social. Entretanto, nesse momento a história oral norte-americana estava voltada para os great men, enquanto que em Essex se buscava o testemunho de pessoas comuns, ordinary people, marginalizadas pelo poder, e de idosos já despossuídos de força para o trabalho - nunca considerados sujeitos da história pelos historiadores tradicionais. Por isso a história oral foi, no seu começo, também marginalizada na Grã-Bretanha.
A experiência de Essex tornou-se modelo adotado por histo­riadores orais de diversos países, influenciando inclusive pesqui­sadores norte-americanos. Segundo Paul Thompson, foi impor­tante para o movimento o caráter interdisciplinar da história oral, com sua origem no Departamento de Sociologia da Universidade de Essex, pois a confluência do trabalho de sociólogos e historia­dores resultou no avanço qualitativo da Ciência Social.
Enfrentando oposição dos historiadores mais tradicionais, a Oral History Society (OHS) foi fundada em 1973, na Grã-Bre­tanha. Seu boletim, inicialmente chamado Oral History Newslet­ter e feito de forma mambembe no próprio Departamento de So­15

ciologia, rapidamente se propagou. Após a criação da OHS, o boletim transformou-se no Journal of the Oral History Society Gradualmente, esse periódico foi aprimorando-se e tornando-se efetivamente um espaço destinado a artigos sobre o método e resultados de pesquisa com história oral que não teriam espaço em jornais e revistas convencionais.


Atualmente, a história oral na Grã-Bretanha envolve profis­sionais de diversas áreas. A exemplo da entidade americana, a Oral Histoty Society congrega elementos oriundos dos meios de comunicação, universidades, museus, centros de reminiscências etc. Digno de nota é o uso da história oral para a gerontologia, tendo o processo de reminiscências de pessoas idosas implica­ções sociais, inclusive. O Age Exchange Reminiscence Centre é uma instituição inglesa que tem realizado intensa atividade no campo da reminiscência, produzindo peças, livros e exposições baseadas em memórias de pessoas idosas. Essa instituição tam­bém se tornou um museu do cotidiano, com objetos e utensílios que datam do começo do século, onde as pessoas idosas são en­corajadas a manusear objetos que fizeram parte de suas vidas e a falar de suas experiências. Dessa forma, além de estimular a me­mória, o Centro permite o desfrute do lazer, do convívio, que se mostram, na verdade, atividades terapêuticas.
A voz do passado - história oral de Paul Thompson surgiu em 1978 e já é considerado hoje um clássico, por sua importante contribuição ao método e à teoria da história oral.

Sua publicação no Brasil coincide com a recente visita do historiador que aqui esteve a convite do Muséu da Imagem e do Som, órgão da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. O evento, cujo objetivo básico foi introduzir, contextualizar e pro­blematizar a discussão sobre história oral, possibilitou o amadu­recimento da questão e serviu também como catalisador das mul­tiplas experiências que vêm sendo desenvolvidas no país. Além disso, mostrou-nos, concretamente, a existência no Brasil de uma quantidade significativa de trabalhos que utilizam a história oral como instrumento de pesquisa e como fonte documental. Foram

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identificados 125 projetos de história oral em desenvolvimento, sendo que 49 individuais e 76 projetos institucionais. Posteriormente, no projeto Memória & Migração, os seminários técnicos, que apresentaram métodos e produtos finais de projetos de histó­ria oral, despertaram nos participantes grande interesse. Esses dados são relevantes, pois no Brasil não há tradições de valoriza­ção do patrimônio histórico nacional; a consciência e a ação ins­titucionais do setor público ou privado na preservação da memória nacional ainda se limitam, timidamente, à preservação de conjuntos arquitetônicos do país.


Nesse contexto, a história oral pode dar grande contribuição para o resgate da memória nacional, mostrando-se um método bastante promissor para a realização de pesquisa em diferentes áreas. É preciso preservar a memória física e espacial, como tam­bém descobrir e valorizar a memória do homem. A memória de um pode ser a memória de muitos, possibilitando a evidência dos fatos coletivos.
Uma das primeiras experiências com história oral no Brasil ocorreu em 1971, em São Paulo, no Museu da Imagem e do Som (MIS), que tem se dedicado à preservação da memória cultural brasileira. Outras experiências ocorreram no Museu do Arquivo Histórico da Universidade Estadual de Londrina, no Paraná (1972), e na Universidade Federal de Santa Catarina, onde foi implantado um laboratório de história oral em 1975. Porém, a experiência mais importante e enriquecedora tem sido a do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), sediado na Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, que dispõe de um Setor de História Oral desde a sua fundação em 1975. Indubitavelmente, o CPDOC é o exemplo da bem-sucedida experiência com história oral no Brasil, tanto no plano do seu acervo, constituído principalmente de entrevistas com personagens da história política contemporânea do país, como no plano de comunicações, palestras e publicações de sua equipe. Tampouco podemos deixar de destacar os projetos de his­tória oral e história de vida do Centro de Estudos Rurais e Ur­17

bano (CERU) da Universidade de São Paulo, e ainda o trabalho solitário, pioneiro e interdisciplinar de Ecléa Bosi, que em sua obra Memória e sociedade: lembranças de velhos (1979) recons­trói a história da cidade de São Paulo por meio do registro da memória de idosos.


Embora seja inegável o interesse que a história oral vem despertando no pesquisador brasileiro, a literatura disponível é ainda escassa e deixa muito a desejar. Apesar de algumas obras apresentarem bons resultados, elas não problematizam as ques­tões metodológicas, práticas e teóricas, O livro de Paul Thomp­son vem, portanto, preencher essa lacuna.

Um dos aspectos mais polêmicos das fontes orais diz res­peito a sua credibilidade. Para alguns historiadores tradicionais os depoimentos orais são tidos como fontes subjetivas por nutrirem-se da memória individual que às vezes pode ser falível e fantasiosa. No entanto ,a subjetividade é um dado real em todas as fontes históricas , sejam elas orais , escritas ou visuais. O que interessa em história oral é saber porque o entrevistado foi seletivo , ou omisso , pois essa seletividade com certeza tem o seu significado , Além disso, este século é marcado pelo avanço sem precedente nas tecnologias da comunicação. O que abalou a hegemonia do documento escrito.


Paul Thompson se refere a esses temas e conceitos de forma exaustiva em seu livro, que teve na segunda edição de 1988 acréscimo importante ao introduzir um capítulo sobre a subjetivi­dade, a psicanálise e a memória.
Paul Thompson é historiador-missionário que sabe ouvir as pessoas - característica fundamental do historiador oral - e tem o ideal de contribuir com seu trabalho na elaboração de uma memória mais democrática do passado. A história oral, para ele, e também um instrumento de mudança capaz de colaborar na cons­trução de uma sociedade mais justa.
A história oral possibilita novas versões da história ao dar voz a múltiplos e diferentes narradores. Esse tipo de projeto pro­picia sobretudo fazer da história uma atividade mais democrática,

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a cargo das próprias comunidades, já que permite construir a his­tória a partir das próprias palavras daqueles que vivenciaram e participaram de um determinado período, mediante suas referên­cias e também seu imaginário. O método da história oral possibi­lita o registro de reminiscências das memórias individuais; enfim, a reinterpretação do passado, pois, segundo Walter Benjamin, qual­quer um de nós é urna personagem histórica.


A publicação do presente livro é um passo decisivo para a consolidação da história oral no Brasil, considerando-se a diver­sidade temática e o número de projetos aqui existentes. Seria oportuno, a exemplo das experiências norte-americana e inglesa, entre outras, temios em perspectiva a criação de uma entidade que congregasse os historiadores orais no plano nacional, possi­bilitasse o aprofundamento de questões teóricas e metodológicas e a troca de experiências por meio de encontros e publicações. Enfim, a organização de um movimento que visasse principal­mente contribuir na recuperação e na preservação da memória nacional e, conseqüentemente, contribuir para a criação de uma consciência histórica.
Nosso passado é nossa memória, disse Borges.
Sônia Maria de Freitas

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HISTÓRIA E COMUNIDADE
Toda história depende, basicamente, de sua finalidade so­cial. Por isso é que, no passado, ela se transmitia de urna geração a outra pela tradição oral e pela crônica escrita, e que, hoje em dia, os historiadores profissionais são mantidos com recursos pú­blicos, as crianças aprendem história na escola, florescem socie­dades amadoras de história, e os livros populares de história estão entre os mais vigorosos best-sellers. Por vezes, a finalidade so­cial da história é obscura. Há acadêmicos que continuam fazendo pesquisa factual sobre problemas remotos, evitando qualquer en­volvimento com interpretações mais amplas ou com questões contemporâneas, insistindo apenas na busca do conhecimento pelo conhecimento. Possuem algo em comum com o ameno tu­rismo contemporâneo que excursiona pelo passado como se fosse mais um país estrangeiro para onde se evadir: uma herança de edifícios e de paisagens tão temamente apreciada que chega a ser quase desumanamente confortável, expurgada do sofrimento so­cial, da crueldade e do conflito, a ponto de transformar em verda­deiro prazer o trabalho dos escravos numa fazenda. Tanto este quanto aqueles cuidam de sua remuneração livre de interferência e, em troca, não estimulam qualquer tipo de contestação ao sis­tema social. No outro extremo, a finalidade social da história pode ser bastante espalhafatosa: utilizam-na para justificar a guerra e a dominação, a conquista territorial, a revolução ou a contra-revolucão, o domínio de uma classe ou raça por outra.

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Quando não existe história alguma disponível, ela é criada. O governantes brancos da África do Sul separam seus negros urbanos em tribos e homelands; os nacionalistas do País de Gale reúnem-se nos eisteddfods, congressos anuais de bardos galeses os chineses da revolução cultural foram obrigados a arquitetar a novas “quatro histórias” da luta popular; as feministas radicai ocuparam-se da história da ama-de-leite em sua busca de mãe sem instinto maternal. Entre esses dois extremos, há muitas outras finalidades, mais ou menos óbvias. Para os políticos, o passado é uma fonte de símbolos em que se apóiam: vitórias imperiais, mártires, valores vitorianos, marchas da fome. E quase igualmente notáveis são as lacunas na apresentação pública c história: os silêncios da Rússia sobre Trotski, da Alemanha Ocidental sobre a era nazista, da França sobre a guerra da Argélia.


Por meio da história, as pessoas comuns procuram compreender as revoluções e mudanças por que passam em suas próprias vidas: guerras, transformações sociais como as mudança de atitude da juventude, mudanças tecnológicas como o fim energia a vapor, ou migração pessoal para uma nova comunidade. De modo especial, a história da família pode dar ao indivíduo um forte sentimento de uma duração muito maior de vida pessoal, que pode até mesmo ir além de sua própria morte. P meio da história local, uma aldeia ou cidade busca sentido para sua própria natureza em mudança, e os novos moradores vindo de fora podem adquirir uma percepção das raízes pelo conhecimento pessoal da história. Por meio da história política e soei ensinada nas escolas, as crianças são levadas a compreender e aceitar o modo pelo qual o sistema político e social sob o vivem acabou sendo como é, e de que modo a força e o conflito têm desempenhado e continuam a desempenhar um papel nessa evolução.
O desafio da história oral relaciona-se, em parte, com essa finalidade social essencial da história. Essa é uma importai razão por que ela tem excitado tanto alguns historiadores e amedrontado tanto outros. Na verdade, temer a história oral como

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não tem fundamento. Veremos mais adiante que a utilização de entrevistas como fonte por historiadores profissionais vem de muito longe e é perfeitamente compatível com os padrões acadêmi­cos. A experiência norte-americana mostra muito claramente que o método da história oral pode ser perfeitamente utilizado de maneira social e politicamente conservadora; ou, até mesmo, levado aos li­mites da simpatia pelo fascismo, no retrato que John Toland fez de Adolf Hitler (Nova York, 1976).A história oral não é necessariamente um instrumento de mudança; isso depende do espírito com que seja utilizada. Não obs­tante, a história oral pode certamente ser um meio de transformar tanto o conteúdo quanto a finalidade da história. Pode ser utilizada para alterar o enfoque da própria história e revelar novos campos de investigação; pode derrubar barreiras que existam entre pro­fessores e alunos, entre gerações, entre instituições educacionais e o mundo exterior, e na produção da história - seja em livros, mu­seus, rádio ou cinema - pode devolver às pessoas que fizeram e vivenciaram a história um lugar fundamental, mediante suas pró­prias palavras.




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