Autobiografia de um Iogue


Capítulo 29 - Rabindranáth Tagore e eu comparamos sistemas de educação



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Capítulo 29 - Rabindranáth Tagore e eu comparamos sistemas de educação


- Rabíndranáth Tagore nos ensinou a cantar, para exprimir nos­sa alma, com naturalidade, sem esforço, como os pássaros.

Bhola Nath, de dezessete anos, inteligente jovem de minha escola de Ranchi, deu me esta explicação depois que eu o cumprimentara, cer­to, manhã, por seus cânticos melodiosos e inesperados. Com ou sem aprovação, dele fluíam sons como de um regato musical. Ele freqüenta­ra anteriormente a famosa escola de Tagore, “Shantinikêtan”(Porto de Paz), em Bolpur.

  As canções de Rabindranáth têm estado em meus lábios desde a minha infância   contei a meu companheiro.   Todos os bengalis, até mesmo os campônios analfabetos, deleitam se com seus versos sublimes.

Bhola e eu cantamos juntos alguns estribilhos de Tagore, o qual pos em música milhares de poemas hindus: alguns de sua própria au­toria e outros de origem antiga.

  Encontrei me com Tagore depois que ele recebeu o Prêmio No­bel de Literatura   observei após o nosso canto.   Senti me inclinado a visitá lo porque admirei sua coragem, não diplomática, quando tra­tou como bem entendeu os seus críticos literários.

Eu ri. Bhola, curioso, quis conhecer a história.

  Especialistas em literatura tosquiaram e esfolaram Tagore ru­demente pela introdução de um novo estilo na poesia de Bengala  comecei.   Ele mesclava expressões clássicas e familiares, desprezan­do todas as limitações prescritas, queridas aos ouvidos dos eruditos. Seus cânticos exprimem profundas verdades filosóficas, em termos emo­cionais muito atraentes, sem fazer caso das formas literárias aceitas.

“Um crítico influente e malévolo referiu se a Rabindranáth como um 'poeta pombo que vendia seus arrulhos em folhas impressas, por uma rúpia'. Mas a desforra de Tagore estava próxima; todo o mundo literário do Ocidente curvou se a seus pés em homenagem, logo após a tradução para o inglês de seu Gitânjali (Oferendas Líricas). Para apresentar lhe congratulações, nossos eruditos, inclusive seus antigos detra­tores, lotaram um trem que descarregou seu fardo em Shantinikêtan.

“Rabindranáth recebeu seus visitantes depois de obrigá los a uma espera deliberadamente longa, e então ouviu seus louvores em estóico silêncio. Por fim, o poeta virou contra eles suas próprias armas habi­tuais de crítica.

“  Cavalheiros   disse ele   as perfumadas homenagens com que incensam, aqui, se misturam incongruentemente aos pútridos odo­res de seu desprezo anterior. Será que existe alguma relação entre o Prêmio Nobel, a mim conferido, e suas faculdades de apreciação, repentinamente aguçadas? Ainda sou o mesmo poeta que desagradava aos senhores quando ofereci pela primeira vez minhas flores humildes no santuário de Bengala.

“Os jornais publicaram um relato do castigo audacioso que Tago­ré ministrou. Admirei as palavras francas de um homem não hipnoti­zado pela adulação   continuei.   Fui apresentado a Rabindranáth em Calcutá por seu secretário, o sr. C. F. Andrews219, que trajava simplesmente um Móti bengalês. Ao mencionar Tagore, este dizia, muito afetuosamente, gurudeva.

“Rabindranáth recebeu me com gentileza. Dele emanava uma aura de encanto, de cultura e de cortesia. Respondendo à minha pergunta sobre as influências literárias que sofreu, Tagore informou me que suas primeiras fontes de inspiração foram nossas epopéias religiosas e as obras de Vídyápáti, um poeta popular do século 14”.

Inspirado por estas recordações, comecei a cantar a versão de Ta­gore de uma velha canção de Bengala, “Acende a lâmpada de Teu amor”. Bhola e eu cantávamos alegremente, enquanto caminhávamos pelos ter­renos da Vídyaláya.

Aproximadamente dois anos após a fundação da escola de Ranchi, recebi um convite de Rabíndranáth para visitá lo em Shantinikêtan, a fim de trocarmos idéias sobre nossos ideais em matéria de educação. Parti, contente. Estava o poeta sentado em sua sala de estudo, quando entrei; pensei, então, recordando nosso primeiro encontro, que era ele um modelo de soberba virilidade, tão impressionante como qualquer pintor o poderia desejar. Sua face belíssima cinzelada, de nobre patrício, tinha por moldura cabelos longos e barba flutuante. Olhos grandes, comovidos; um sorriso angélico; e uma voz com timbre de flauta que era, literalmente, encantadora, Corpulento, alto e grave, ele combinava uma quase ternura de mulher com a deliciosa espontaneidade de uma criança. Nenhuma concepção idealizada de um poeta poderia achar en­carnação mais adequada do que este suave cantor.

Tagore e eu nos aprofundamos no estudo comparativo de nossas escolas, ambas fundadas fugindo às diretrizes ortodoxas. Descobrimos muitos aspectos idênticos   instrução ao ar livre, simplicidade, ampla liberdade para o desenvolvimento do espírito criador da criança. Rabin­dranáth, contudo, dava considerável ênfase ao estudo da literatura e da poesia, e a auto expressão através da música e do canto, conforme eu já notara no caso de Bhola. As crianças de Shantinikêtan observavam pe­ríodos de silêncio, mas não recebiam treinamento sistemático em ioga.

Lisonjeira atenção concedeu o poeta à minha descrição dos exercí­cios Yogôda para o reabastecimento da energia, e das técnicas iogues de concentração, ensinados a todos os meus estudantes em Ranchi.

Tagore contou me, desde o início, seus próprios esforços para edu­car-se.   Fugi da escola depois do quinto ano,   disse ele, rindo. Com­preendi, imediatamente, quanto sua inata delicadeza poética sofrera a afronta de uma atmosfera de lúgubre disciplina escolar.

  Eis por que abri Shantinikêtan sob a sombra das árvores e as glórias do céu.   Ele acenou eloqüentemente para um pequeno grupo que estudava no belo jardim.   Uma criança se encontra em seu am­biente natural entre flores e pássaros cantores. Aí ela pode mais facil­mente expressar a oculta riqueza de seus talentos individuais. A verda­deira educação não vem de fontes exteriores, inculcada por bomba de pressão, até se empanturrar o educando; ao contrário, ela ajuda a trazer à superfície a infinita reserva de sabedoria interior220.

Concordei, acrescentando:   Nas escolas comuns, os instintos idealistas e a adoração aos heróis, próprios dos jovens, morrem de fome numa dieta exclusiva de estatísticas e eras cronológicas.

O poeta falou afetuosamente de seu pai, Devendranáth, que inspirara os princípios de Shantinikêtan.

  Papai presenteou me com estas terras férteis, onde já construíra uma casa de hóspedes e um templo   disse me Tagore. Comecei minha experiência educacional aqui, em 1901, apenas com dez meninos, As oi­to mil libras que vieram com o Prêmio Nobel foram todas aplicadas na manutenção da escola.

O pai de Tagore, Devendranáth, muito conhecido como “Mahá­ríshi”, “grande sábio”, foi um homem notável, como se pode constatar em sua Autobiografia. Dois anos de sua idade adulta transcorreram em meditação no Himalaia. Seu avô, Dwarkanáth Tagore, fora célebre em Bengala por suas generosas obras de beneficência. Desta árvore ilus­tre, brotou uma família de gênios. Não apenas Rabindranáth; todos seus parentes distinguiram se em expressões criadoras. Seus sobrinhos, Go­gonendra e Abanindra, situam se entre os principais artistas221 da ín­dia. Seu irmão, Dwijendra, foi um filósofo de profunda visão, amado até pelos pássaros e animaizinhos dos bosques.

Rabindranáth convidou me para passar a noite na casa de hóspe­des. Ao crepúsculo, encantei me com o espetáculo do poeta junto a um grupo no pátio. O tempo voou para trás: a cena diante de mim asseme­lhava se à de um eremitério antigo   o alegre cantor, circundado por seus devotos, e todos aureolados por divino amor. Tagore tecia cada laço de amizade com as cordas da harmonia. Jamais agressivo, ele atraía e capturava os corações com irresistível magnetismo. Rara flor de poe­sia, desabrochada no jardim do Senhor, cativando os outros com um aroma sem artifícios!

Com sua voz melodiosa ' Rabindranáth nos leu alguns de seus pri­morosos poemas, de criação recente, Muitas de suas canções e peças teatrais, escritas para o deleite de seus estudantes, foram compostas em Shantiníkêtan. A beleza de seus versos, para mim, reside na arte de referir se a Deus em quase todas as estrofes, raramente mencionando, entretanto, o Nome sagrado. “Inebriado com a beatitude de cantar  escreveu ele   esqueço me de mim e Te chamo amigo, a Ti que és o meu Senhor”.

No dia seguinte, depois do almoço, eu disse um relutante adeus ao poeta. Regozijo me, hoje, de que sua pequena escola se tenha converti­do numa universidade internacional, Visva Bhárati222, onde estudiosos do mundo inteiro encontram um ambiente ideal.

“Onde a mente é destemida e a cabeça se mantém erguida; onde o conhecimento é livre;

onde o mundo não foi dividido em fragmentos pelas estreitas paredes domésticas;

onde as palavras brotam das profundezas da verdade;

onde o esforço infatigável estende seus braços para a perfeição;

onde o límpido regato da razão não se embrenhou, perdido, nas sombrias areias desérticas da rotina estagnada;

onde o espírito, guiado por Ti, avança rumo ao pensamento e à ação sempre mais amplos; dentro desse firmamento de liberdade, meu Pai, permite que minha pátria desperte!”223

Rabindranáth Tagore.



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