Código da Vida



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O sociólogo Francisco de Oliveira, fundador do PT, disse há pouco tempo que o petismo, nascido dos movimentos contrários à ditadura, corrompeu-se no poder e que já se transformou em grupos de gângsteres, que brigam entre si para se conservarem perto do tesouro nacional por meio do uso estelionatado dos movimentos sociais. Lambuzaram-se ao comer o melado da República. Mas tão cedo não se afastarão da cumbuca. Luiz Gushiken, Ministro de Lula, de santidade zen, afirma que o PT, no segundo mandato, vai virar um ninho de serpentes, umas comendo as outras na disputa de maiores porções do mela­do.129 Montesquieu já havia advertido que o homem não é confiável no poder, e Lord Acton afirmou que o poder corrompe sempre.

Está, realmente, difícil acreditar que teremos, a curto prazo, dias melho­res na ética e na moralidade. A Câmara dos Deputados absolveu, em processo de lesões ao decoro parlamentar, dezenas de seus membros que confessada-mente receberam dinheiro de Marcos Valério para apoiar o Governo Lula. Eles fazem as leis! E nós, advogados, temos que afirmar que os legisladores são sábios. Dezenas deles, delinqüentes, mas sábios. CPIs que apenas dão shows para a televisão e demonstram agressiva, continuada e dolorosa incompetência. Algumas claramente cometem, de forma coletiva, os crimes de favorecimento previstos no Código Penal.130

O chefe da máfia na venda de ambulâncias superfaturadas ao Ministé­rio da Saúde, o tal de Darci Vedoin, declarou com absoluta convicção que 70% do Congresso Nacional pode ser comprado. Sabe das coisas. Começou a vida com uma indústria de fundo de quintal e chegou à grande montadora de ambulâncias, sua empresa a Planam. Comprando deputado federal um atrás do outro, montou a indústria de emendas orçamentárias para a venda de ambulâncias acima do preço real, muito acima, e destinadas a prefeituras, pagas pela União. A diferença, distribuía entre os deputados comprados, pes­soal do Ministério da Saúde e prefeitos. Dentro da filosofia petista, o crime de superfaturamento, isto é, de peculato, deve ser perdoado porque, afinal, as ambulâncias iriam prestar socorro a doentes pobres.

Lula já havia dito, e todo o mundo se lembra disso, que a Câmara dos Deputados tinha uns trezentos picaretas. Tanto Darci Vedoin quanto a tur­ma de Lula compraram os serviços deles e pagaram, um com propinas, ou­tra com o mensalão e cargos. Há, porém, uma diferença: Vedoin prestou um serviço ao Brasil ao contar a verdade, e Lula disse não saber de nada do que sua turma andou aprontando. No seu depoimento, no finalzinho, Vedoin declarou não gostar de ir a Brasília, porque lá tem muito bandido.

E posso afirmar que muitos políticos, incontáveis, tem no cérebro enor­me quantidade de massa branca, que a ciência moderna identifica como res­ponsável pelos mentirosos contumazes e compulsivos.131

Não me importam as últimas eleições, as reeleições de Lula e seus mensaleiros. Nem sequer fui votar. Tenho mais de 70 anos. A Constituição me poupa o dilema de falta de escolha. Sei apenas que a ausência de decência, a ausência de hombridade e de vergonha passaram a conviver no dia-a-dia do meu país.

Há ainda os puros, os poetas, os idealistas, como Gaudêncio Torquato, que, diante de tudo isso, afirmou: “A política chegou ao fundo do poço em ma­téria de moral. Mas não morreu a esperança de nascer uma flor no pântano”.

Tomara que tenha razão, que digam “amém” todos os anjos, porque te­remos mais longos anos pela frente com esse sistema político sem opções.

O Brasil virou um país autófago.

Lula e o PT, tal como Sérgio Mota no governo FHC, anunciaram que vão ficar no poder por mais vinte anos.

Quantas vidas adubarão o pântano para que possam as flores nascer depois de tanto tempo?



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Tratei de apressar minha aposentadoria. Alguns dos envolvidos na­queles escândalos ditos políticos, os do mensalão, quiseram que eu os defen­desse. Procuravam-me insistentemente. Queriam meus serviços de advo­gado. Acenavam com honorários fantásticos. Não gosto de discriminação, mas o francês tem uma boa expressão para designar gente desqualificada: acaille.132 Mandei dizer que minha advocacia estava fechada. Meu coração estava trancado, como o cofre de Biggleman.

Foi em um dos romances de Dan Brown133 que li sobre Biggleman, fabricante de cofres que projetou um inviolável. Para manter o seu projeto absolutamente secreto, construiu o cofre e trancou o projeto dentro dele. Ja­mais seria aberto.

Pesa muito, confesso que pesa, neste momento, o destino de ser brasi­leiro, embora glorioso para uso interno. É de Marcos Aguinis um livro intitu­lado O atroz encanto de ser argentino. É mais ou menos por aí que passa o ca­minho de minha aposentadoria, sem sair daqui. Jamais me mudaria para a Argentina. O maior poeta daquele país, Jorge Luis Borges, escreveu versos lindos sobre Buenos Aires, cidade em que nasceu e viveu. Mas, ao envelhecer, foi morar na Suíça. E seu discípulo, hoje um escritor esplêndido, Alberto Manguei, portenho legítimo, nascido na bela capital, tornou-se cidadão ca­nadense e vive no vale do Loire, França.

Meu amigo José Sarney confia em Lula sinceramente. Plena convicção, que ele diz lúcida. Acredito. Amigo velho é para acreditar, isto é, acredito que ele acredita, mas sem me comprometer com sua crença, que pode ser casti­gada um dia, como ele próprio já sofreu tristes castigos com políticos do Ma­ranhão por ele criados, engordados e por eles traído.

Para suas novas crenças, o destino já fez das suas: elegeu Senador o ex-Presidente Fernando Collor, que vai trabalhar com Sarney na mesma casa parlamentar. E apóia Lula, como todas as moscas em torno do período novo do governo velho. Pelo menos é o que indica o espetáculo de abertura do novo mandato sob escancaradas negociações de ministérios e cargos.

Não tanto quanto Gervásio, que discute quase passionalmente, tive uma conversa com Sarney depois da reeleição de ambos, a dele como Senador, e a do seu apoiado como Presidente:

— Afastando os interesses, as costuras, as meandrices da política, você acredita mesmo em Lula?

— Acredito com a mais absoluta certeza — respondeu-me, olhando-me nos olhos sem titubear. — E mais: vai melhorar muito no segundo man­dato, porque se livrou dos aloprados. Começou com o PAC, Plano de Acelera­ção do Crescimento.134

— Está bem. Não pretendo discutir com você. Mas lhe peço um favor de amigo velho e espero ser atendido.

— A você não nego nada. O que é?

— Quero que você me jure por tudo de mais sagrado que não permiti­rá a eleição do Lula, se ele a pretender e certamente pretenderá, para a Acade­mia Brasileira de Letras. Faça ao menos este enorme favor à gramática e à lín­gua portuguesa.

Ele sorriu.

Vocês se lembram de Tróia? Tudo passa, tudo acaba: etiam periere ruinae.135

Chega de política. Não volto mais a esse assunto. Fico nas previsões de Gervásio, que vê o Brasil sofrendo várias catástrofes, confrontando-as com as ponderações insinuadas por José Sarney: apenas a gramática corre o risco de sofrer.

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Chegou o dia marcado para receber o meu antigo cliente, que dera si­nais de vida e de saudade de seu advogado, pedindo uma audiência depois de tantos anos.

— Quanto tempo, Dr. Saulo! — exclamou Olavo Brás ao entrar em mi­nha sala.

— É verdade. Quase vinte anos. E seus filhos?

— Trouxe-os comigo. Estão aí na ante-sala. Depois, se me permitir, vou apresentá-los ao senhor. Eles não se lembram de nada. O garoto, agora com vinte e oito anos, já se formou em Direito. É seu colega. Disse que os profes­sores, na Faculdade, de vez em quando, falavam no senhor, e ele está curioso. Quer conhecê-lo, desde quando informei ser seu amigo de muitos anos. A menina formou-se em arquitetura.

— E sua ex-mulher?

— Morreu há dez anos. Continuou com o tratamento naquela época, mas passou a beber muito, levou vida desregrada. A saúde abalou-se em de­masia e não resistiu — disse ele, pedindo-me o óbvio: não tocar no velho assunto.

Entraram na minha sala um rapaz alto, muito simpático, ao lado da irmã, linda. Feitas as apresentações, o jovem advogado disse desembaraça­damente:

— Tenho realmente muito prazer em conhecer o senhor. Desde estu­dante, ouvi falar em sua advocacia. O senhor é muito respeitado no meio acadêmico e entre os colegas de sua geração.

Com esse carinho no meu ego, ele prosseguiu:

— Dr. Saulo, gostaria de saber se é verdade ter sido o senhor que conse­guiu introduzir na Constituição de 1988 o comando que acabou com a dis­tinção na qualificação dos filhos.

— É verdade. Primeiro escrevi muitos artigos de jornal, combatendo aquela bobagem do Código Civil de 1916: filhos adulterinos, filhos ilegítimos e legítimos, filhos incestuosos. Na minha opinião, filho é filho. Ponto. O adje­tivo era uma discriminação odiosa contra um ser humano que não teve a menor culpa pela condição em que foi concebido. Na época da Constituinte, consegui que alguns parlamentares incluíssem a solução na nossa lei maior.

— Minha dúvida — disse ele — é que alguns especialistas na matéria não têm informação exata sobre sua participação nessa conquista para os brasileiros. Agora estou satisfeito.

Incrível. Aquele menininho de vinte anos atrás, que conheci numa au­diência judicial, acariciado pela Clotilde, tremendo de medo para contar as coisas que sua mãe havia feito, estava ali, na minha frente, falando em Direito Constitucional e perguntando sobre o comando que proibiu a discriminação de filhos pelo Código Civil.

Eu estava certo ao decidir encerrar minha carreira. O tempo passou inexoravelmente. O Brasil pertence às gerações novas, e que elas dêem valor à decência e à verdade, à dignidade e à ética, à instrução, à educação e aos li­vros. Elas virão. O tempo está passando. Creio haver sementes na brisa.

O Sr. Olavo Brás, depois do cafezinho, pediu aos filhos que o esperassem lá fora, porque tinha que conversar comigo algo particular. Os jovens saíram.

— E a Doutora Clotilde, Dr. Nerval, Dr. Casé, Dra. Elizabeth, seu pes­soal todo daquela época?

— A Dra. Clotilde está em Londres. Casou-se com um empresário inglês. Trabalha na Embaixada do Brasil. O Dr. Nerval, infelizmente, morreu. O Dr. Casé está advogando aqui em São Paulo com um outro ex-integrante do escri­tório, Dr. Trevisan. E também tem um filho que se formou em Direito. Advoga em uma das grandes firmas de advocacia. A Dra. Elizabeth prossegue na profis­são, bem como o Dr. Maércio Sampaio. E a Dra. Mara, lembra-se? Está moran­do em Nova York e dirige um grande escritório de advogados naquela cidade.

— Há algum tempo, li nos jornais que aquele juiz da minha causa foi nomeado para o Supremo Tribunal Federal. É ele mesmo?

— É verdade. O Dr. Antônio Cézar Peluso é um dos melhores magis­trados e juristas deste país. O Supremo foi premiado com sua nomeação. O Brasil precisava de um homem assim naquela corte.

— Fico muito orgulhoso disso, Dr. Saulo. O ministro Peluso foi quem decretou a prisão daquela quadrilha dos jogos ilegais no Rio de Janeiro, aque­la dos bicheiros e caça-níqueis, com envolvimento de desembargadores fede­rais, políticos, procuradores da República e delegados de polícia. Homem de coragem.

— Foi ele mesmo. A pedido do Procurador-Geral da República, está tentando limpar os detritos da deterioração moral que se abateu sobre o país estimulada pelos exemplos de cima, que o Brasil não merece. Ninguém merece.

— E o Curador de Justiça, que funcionou no meu caso, que fim levou? Ele era uma pessoa de grande calor humano, inteligente, afável, causou-me uma impressão tão comovente, que até hoje não esqueci.

— O Dr. Munir Cury? Sua descrição é perfeita. Munir era gente de ver­dade. Nunca mais o vi. Soube que sofreu um desastre de carro, mas se salvou. Está aposentado.

— E o senhor vai também se aposentar?

— Vou. Sou bananeira velha. Já planejei tudo. Volto para o interior. Conservo o escritório apenas para acompanhar as últimas causas em anda­mento. Quando terminarem, fecho as portas. Vou conhecer, afinal, a liber­dade. O senhor já ouviu falar de Sofocleto?

— Não. Quem é?

— Um escritor espanhol, que, entre outras, deixou esta frase curiosa: A liberdade consiste em não usar relógio. Para advogado, que passa todos os dias submetido a prazos, é a meta mais perseguida no fim da vida.

O Sr. Olavo Brás não se lembrava mais de Sofocleto.

Epílogo

Levei um susto fora do normal ao receber um telefonema de minha ex-colega de escritório, Dra. Maria Clotilde Simigaglia, que está morando em Londres há mais de vinte anos, trabalha na Embaixada do Brasil e é casada com um inglês absolutamente simpático, chamado Roger Carpenter.

— Como está difícil falar com você. Telefono para Serra Negra, está em Ribeirão Preto. Telefono para Ribeirão Preto, foi para São Paulo. Voltou a tra­balhar? — reclamou quando atendi seu chamado.

— É minha peregrinação pelos consultórios médicos. Fui para São Paulo não para trabalhar, mas para ser internado no Incor — Instituto do Coração —, com outra fibrilação atrial.136 Novo choque no peito. E pronto. Estou de volta depois de uma semana. Mas o que há de tão urgente que você não pode me dizer por e-mail?

Clotilde e eu trocamos e-mails regularmente. Fiquei, pois, intrigado pelo telefonema. E ela, com voz pausada, passou a me contar algo espantoso, não conseguindo esconder sua emoção:

— Numa noite da semana passada, meu marido Roger e eu fomos à Royal Opera House assistir ao Bolshoi Ballet. Imperdível, sobretudo porque aqui apresentou Romeu e Julieta, sob a direção de Declan Dennellan e coreo­grafia de Radu Poklitaru. Sensacional. Sentamo-nos, e meu marido passou a falar português comigo, o que ele faz de vez em quando para treinar. Ao meu lado, um casal que me cumprimentou sorrindo. Eram brasileiros. Retribuí ao sorriso e desejei que ficasse apenas nisso.

Clotilde explicou ter certo receio de turistas brasileiros porque, estabe­lecido o contato, passa a sofrer vários tipos de interrogatórios sobre lojas, res­taurantes, passeios, roteiros turísticos, agravados com outros pedidos, quan­do descobrem que ela trabalha na Embaixada do Brasil.

— Terminado o espetáculo, um sorrisinho para o casal, rápido tchauzi­nho, meu marido e eu saímos e nos misturamos com o público e, na rua, re­solvemos tomar um capucino no Covent Garden, antes de pegarmos o trem para Billericay, em Essex, onde moramos atualmente. Conseguimos uma mesa e nos sentamos.

Covent Garden fica numa grande praça. Os fundos da Royal Opera House formam um dos lados da praça, onde acontece de tudo em arte popular, má­gicas, cantos, violinistas, malabaristas, bancas de flores. Serviu de cenário para o filme My Fair Lady, clássico dos musicais do cinema, com oito Oscars em 1964, estrelado por Audrey Hepburn e Rex Harrison, no qual acontecem coisas impossíveis. Uma rústica vendedora de flores se transforma numa grande dama apenas por estudar fonética. E o Covent Garden, depois de ser por tre­zentos anos um mercado de frutas e verduras com sua estrutura de vidro e me­tal, transformou-se num centro de restaurantes, lojas, pubs, cafés.

Clotilde continuava a mesma. Detalhista e precisa nas narrações. Mas desta vez senti que sua voz deixava transparecer muita emoção.

— De repente, o casal de brasileiros, que estava sentado ao meu lado lá na ópera, surge em nossa frente e com o mesmo sorriso simpático pergunta se podia dividir a nossa mesa. Disse sim, claro. Conversa vai, conversa vem, acabei falando que eu era de São Paulo, onde havia trabalhado com o Dr. Saulo Ramos em seu escritório de advocacia e que há vinte e tantos anos mu­dei-me para a Inglaterra, onde passei a trabalhar na Embaixada do Brasil. Contei tudo. Não sei por quê.

Fez uma pequena pausa. A ligação telefônica estava ótima. Permitia ou­vir sua respiração forte. Tentei desanuviar um pouco com uma brincadeira:

— E daí. Falou em Saulo Ramos, e a mulher, na frente do marido, disse que me amava?

— Deixe de piadas sem graça. O assunto é sério. Quando acabei de men­cionar seu nome, a senhora, chama-se Clarissa, disse que uma amiga dela, já fa­lecida, havia perdido uma ação em que o Dr. Saulo Ramos era advogado do ex-marido. Litígio sobre a guarda dos filhos, ou direito de visitas, em que o pai foi acusado pela ex-mulher de praticar libidinagem com as crianças.

— É você quem está brincando comigo. Isso aconteceu agora, mais de vinte anos depois? — Perguntei entre incrédulo e com medo de ter outra fibrilação atrial. Clotilde não iria brincar comigo inventando uma coisa dessas. E falou o nome verdadeiro do cliente, que neste livro chamei de Olavo Brás para não cometer um pecado ético contra a privacidade dele e de sua família.

— Ela me disse ter sido amiga da ex-mulher do nosso cliente desde a escola primária até o colegial. E que ela lhe confidenciou certa vez, e aos prantos, que o pai dela era um devasso, que explorava prostitutas, mantinha casas para esse tipo de negócio, inclusive alguns hotéis para salvar as aparên­cias. O pai da ex-mulher do nosso cliente era um molestador de crianças, um pedófilo, tinha tara por meninas, e a própria filha foi alvo dessa monstruosidade. Ela não conheceu a mãe, ele nunca falou nada sobre a mãe dela, que poderia ser qualquer uma daquelas mulheres exploradas pelo pai.

Clotilde se comovia cada vez mais. A voz foi ficando embargada. Teve que fazer nova pausa, tossiu e pediu desculpas antes de prosseguir:

— Essa senhora me contou que sua amiga, a ex-mulher do nosso cliente, ficou com tamanhos traumas desta infância desconexa, infeliz, cruel, que, de­pois de casada, acabou acusando o marido de fazer com seus filhos aquilo que o pai fazia com ela, num processo de transferência de situações confundidas no tempo e no espaço, em razão de avançada doença psíquica. Poderia até ser, disse a senhora, que ela tivesse formulado as acusações como forma de pedido de socorro para sua tragédia mental. Você se lembra bem daquele caso?

— Claro que me lembro. Com todos os detalhes. E mais. Seria surpresa para você, mas agora sou obrigado a confessar. Estou escrevendo um livro em que conto esta história com todos os lances, inclusive sua participação funda­mental na conquista da confiança das crianças. Apenas troquei os nomes.

— Que nomes você deu a eles?

— Somente a ele, o marido, chamei de Olavo Brás. Ela foi tratada como sua ex-mulher. Não me animei a dar-lhe outro nome para não ofender ou criar confusões com as eventuais mulheres homônimas residentes em São Paulo.

— Sabe o que mais essa senhora me disse?

— Conte logo, conte tudo.

— Que o Dr. Saulo Ramos, palavras dela, poderia ter salvado a amiga se tivesse se aprofundado mais no caso. Salvou apenas as crianças. E deixou a mãe afogar-se arrastada pelos mares revoltos de suas memórias sufocadas no passado. Eu também acho. Talvez em algum momento tenhamos falhado.

— Calma, Clotilde! Nós éramos advogados e não psiquiatras. Tínha­mos o dever de defender nosso cliente e defendemos com sucesso, esse su­cesso relativo que há no direito de família, em que nunca existe um vencedor absoluto nos litígios de qualquer espécie.

— Mas se tivéssemos investigado o pai dela. Ele esteve no escritório. Lembra-se?

Lembro-me e, inclusive, você teve uma péssima impressão dele, cha­mando-o de demônio.

— Gostei de ver. Sua memória está ótima. Mas creio que com um pouco mais de investigação teríamos, quem sabe, descoberto tudo e direcionado o tratamento psiquiátrico daquela infeliz. Aquilo que ela fez com o marido foi uma transferência do que um dia desejou fazer com o pai, denunciá-lo.

— Ela era tratada por uma das melhores médicas psiquiatras de São Paulo. Por que tínhamos que nos meter nisso?

— Porque poderíamos orientar a própria psiquiatra que, na audiência, em juízo, nos declarou que toda a vez que procurava saber de sua infância a mulher se fechava, se enraivecia, encerrava a consulta e ia embora. Logo, era precisamente nessa etapa da memória que o problema se localizava, a origem de tudo. Aquele pai depravado que deformou a formação mental da filha.

— Clotilde, tudo bem. Nós não poderíamos fazer nada. Se a psiquiatra não conseguiu, o advogado da parte contrária iria fazer o quê?

— Descobrir o fato. Com o fato descoberto, ela confessaria seu drama para a psiquiatra e iniciaria talvez o processo de cura.

— Está bem, minha querida Clotilde. Agora é tarde. Já se passaram mais de vinte anos. Não podemos fazer nada. A mulher já morreu.

— Espera, Saulo, minha conversa com aquela senhora ainda não aca­bou. Ela me contou o final macabro que teve aquele monstro. Um homem de Sergipe, pai de uma das meninas que ele explorava, veio a São Paulo atrás da filha, descobriu tudo e o matou depois de uma sessão de torturas horripilantes.

— Meu Deus! Que história inacreditável. Passe-me um e-mail contan­do tudo isso por escrito.

— Por quê? Você duvida de mim?

— Não, minha querida. Preciso deixar esse fato por escrito em meus arquivos. Quando publicar meu livro, muita gente vai duvidar. Um casal de brasileiros na Royal Opera House senta-se ao seu lado na mesma fila, des­cobre que você é brasileira. Sorrisinho. Depois, encontram-se num café na praça ao fundo do teatro, onde há dezenas de outros cafés e pubs, e comparti­lham a mesa. Em seguida, conta esta história, justamente para você, figura central dos acontecimentos descritos no meu livro. Vão dizer tratar-se de pura ficção. Mande-me o e-mail. Depois lhe mandarei uma cópia do livro, incluído este seu surpreendente final.

Ela prometeu e cumpriu. Mandou por escrito a narrativa deste incrível encontro. Com mais calma, descreveu o impacto causado pela incrível coin­cidência. Ou seria uma trama misteriosa do destino? É verdade, o destino às vezes se vinga da gente quando esquecemos o passado que ele engendrou e agitou para nos fazer sofrer. Quando pensamos estar em sossego com nossas memórias pacificadas, lá vem ele para demonstrar que nada é capaz de pre­venir seu retorno ao ponto em que rompemos alguma coisa que ele julgou inacabada.137 Não, nada disso! Prefiro lembrar de Mario Quintana: o destino é o acaso atacado de mania de grandeza.

Clotilde e seu marido saíram do Covent Garden e foram andando, em si­lêncio, até Strand. Despediram-se do casal de brasileiros, que estava em fim de férias. Iriam voltar para o Brasil. Emocionados, Clotilde e Roger caminharam até o ponto de ônibus 23, que os levou à estação de Liverpool Street, onde pe­garam o trem para Billericay. Em geral, pegam o trem expresso, mas naquele dia pegaram um pinga-pinga que vai deixando passageiros em dezenas de lugares.

No e-mail, Clotilde me contou que o trem, antes de sair do perímetro da grande Londres, trafegava por vários bairros que ela passou a olhar na­quele dia de forma diferente, embora seus pensamentos voassem pela janela. Era verão e ainda havia claridade, mesmo depois das 22 horas. Depois de pas­sar tantas vezes por Spitalfields, pela primeira vez olhou com atenção suas ruas estreitas, curtas, cheias de becos e lembrou-se de ter sido ali, há mais de cem anos, que Jack, o Estripador, assassinava mulheres esfaqueando-as na barriga e estripando-as. Sentiu um arrepio. Jack, o Estripador (Jack, The Ripper), nunca foi descoberto e até hoje a polícia de Londres não tem a me­nor idéia de sua verdadeira identidade. Daí o surgimento de várias versões lendárias sobre o famoso assassino.138


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