Coleção História em Debate 2 História Ensino Médio

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Capa

Coleção História em Debate


História em debate
Renato Mocellin, Rosiane de Camargo

Manual do Professor
2
Ensino Médio
História
Editora do Brasil

Página 1


Coleção História em Debate

História em debate

2

História - Ensino Médio

Renato Mocellin
Bacharel em Direito e licenciado em História pela UFPR
Pós-graduado em História da Arte pela PUC-PR
Mestre em Educação pela UFPR
Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná
Professor do Ensino Médio

Rosiane de Camargo
Licenciada em História pela UFPR
Pós-graduada em História do Brasil pela Faculdade Bagozzi (PR)
Professora do Ensino Fundamental e do Ensino Médio

4ª edição, São Paulo, 2016

Manual do Professor

Editora do Brasil


Página 2

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Mocellin, Renato
História em debate, 2 / Renato Mocellin, Rosiane de Camargo. – 4. ed. – São Paulo : Editora do Brasil, 2016. – (Coleção história em debate ; v. 2)
Bibliografia.
ISBN 978-85-10-06163-6 (aluno)
ISBN 978-85-10-06164-3 (professor)
1. História (Ensino médio) I. Camargo, Rosiane de. II. Título. III. Série.
16-02894
CDD-907
Índices para catálogo sistemático: 1. História : Ensino médio 907

© Editora do Brasil S.A., 2016


Todos os direitos reservados

Direção geral: Vicente Tortamano Avanso
Direção adjunta: Maria Lúcia Kerr Cavalcante de Queiroz

Diretoria editorial: Cibele Mendes Curto Santos
Gerência editorial: Felipe Ramos Poletti
Supervisão editorial: Erika Caldin
Supervisão de arte, editoração e produção digital: Adelaide Carolina Cerutti
Supervisão de direitos autorais: Marilisa Bertolone Mendes
Supervisão de controle de processos editoriais: Marta Dias Portero
Supervisão de revisão: Dora Helena Feres
Consultoria de iconografia: Tempo Composto Col. de Dados Ltda.

Coordenação editorial: Priscilla Cerencio
Edição: Luis Gustavo Reis
Assistência editorial: Andressa Pontinha, Carolina Ocampos e Rogério Cantelli
Coordenação de revisão: Otacilio Palareti
Copidesque: Ricardo Liberal
Revisão: Alexandra Resende, Ana Carla Ximenes, Elaine Fares e Maria Alice Gonçalves
Coordenação de iconografia: Léo Burgos
Pesquisa iconográfica: Elena Ribeiro e Maria Magalhães
Coordenação de arte: Maria Aparecida Alves
Assistência de arte: Samira Souza
Design gráfico: Alexandre Gusmão
Capa: Patrícia Lino
Imagem de capa: © Shiota, Chiharu/AUTVIS, Brasil, 2016. Fotografia: Nelson Almeida/ AFP Photo
Ilustrações: Alex Argozino, Christiane Messias, Cristiane Viana, Departamento de Arte e Editoração (DAE), Paula Radi e Vagner Coelho
Produção cartográfica: Alessandro Passos da Costa, DAE (Departamento de Arte e Editoração), Studio Caparroz e Sonia Vaz
Coordenação de editoração eletrônica: Abdonildo José de Lima Santos
Editoração eletrônica: Elbert Stein, Gabriela César e José Anderson Campos
Licenciamentos de textos: Cinthya Utiyama, Jennifer Xavier, Paula Harue Tozaki e Renata Garbellini
Coordenação de produção CPE: Leila P. Jungstedt
Controle de processos editoriais: Beatriz Villanueva, Bruna Alves, Carlos Nunes e Rafael Machado

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© Shiota, Chiharu/AUTVIS, Brasil, 2016./Fotografia: Nelson Almeida/AFP Photo

Visitante olha para a instalação Thank you Letters (Cartas de agradecimento), de Chiharu Shiota, durante a exposição Chiharu Shiota – Em busca do destino, em São Paulo, 2015.

Editrora do Brasil


Rua Conselheiro Nébias, 887 – São Paulo/SP – CEP 01203-001
Fone: (11) 3226-0211 – Fax: (11) 3222-5583
www.editoradobrasil.com.br
Página 3

Apresentação

CARTA AOS JOVENS ESTUDANTES

Somos bombardeados diariamente com centenas de informações. Elas são como ruídos que nos chegam pelos sentidos e são processados pelo cérebro. Já pensou se todas elas ficassem retidas na memória? Seríamos como supercomputadores. Mas como isso não é possível, nem necessário, elas são filtradas e apenas as mais relevantes permanecem.

A disciplina de História é repleta de informações. Elas não são dadas somente para você memorizá-las, mas também para que você possa refletir sobre elas, mudar sua vida e, consequentemente, a sociedade em que vive. Esta é a grande mágica da aprendizagem: transforma informações em conhecimento.

Este livro, por meio da abordagem temática, suscita diversas reflexões. Não são priorizados dados como nomes, datas e fatos, que podem ser descartados pelo cérebro por não serem significativos ou até mesmo podem ser acessados na internet e armazenados no computador.

Refletindo acerca dos temas propostos neste material, você será capaz de confrontar a realidade que conhece com outros contextos ou desenvolver uma nova maneira de olhar para a mesma questão. Nesse processo, poderá aplicar as novas informações históricas à sua realidade e modificá-la ou reconstruí-la.

Esperamos que esta coleção, um entre tantos recursos disponíveis de informação, possa auxiliá-lo nesse caminho.

Que ele seja agradável e proveitoso!

Os autores


Página 4

Organização do livro

Este livro está organizado em dez capítulos. No início de cada capítulo, você encontrará uma grande imagem, que representa o assunto que será trabalhado e uma introdução que inspira uma reflexão inicial.



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O texto principal, desenvolvido de forma clara e objetiva, começa sempre em uma nova página, facilitando sua localização nas aulas e no estudo em casa.

Os principais conceitos são aprofundados em quadros que favorecem o estudo e a compreensão.

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O Glossário, ao trazer a explicação dos termos em destaque, amplia o vocabulário.


Página 5

A seção Viajando pela história traz os acontecimentos organizados cronologicamente, facilitando assim a compreensão do tema estudado, são retomados conceitos e assuntos desenvolvidos no livro.



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Na seção Organizando ideias, em questões que envolvem análise e interpretação de textos e imagens, são retomados conceitos e assuntos desenvolvidos no livro.

Na seção Pausa para investigação há atividades de pesquisa e análise de temas cotidianos.

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Aspectos culturais específicos, relacionados ao assunto abordado no capítulo, são explorados na seção Resgate cultural.



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Página 6

A seção Debate interdisciplinar traz uma temática, tratada no capítulo, que dialoga com outras disciplinas, possibilitando a você relacionar os diferentes conhecimentos escolares entre si.



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Questões do Enem e dos principais vestibulares do país você encontra na seção Testando seus conhecimentos.



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Nas seções Para você ler, Para você assistir e Para você navegar, há sugestões de livros, filmes e sites sobre temas tratados no capítulo.


Página 7

Sumário

1 Direitos humanos 10
Direitos humanos: somos todos iguais? 12
A origem dos direitos humanos 15
A conquista dos direitos sociais 24
A terceira geração dos direitos humanos 26
Direitos de quarta e quinta gerações: Bioética e paz 30
Debate interdisciplinar: Em busca de direitos humanos ambientais 32
Testando seus conhecimentos 34

2 A dominação da América e a visão do outro 36
A visão do outro: europeus e americanos 38
A chegada dos europeus à América 42
A América antes dos europeus 47
A conquista da América 59
Debate interdisciplinar: Intercâmbio de alimentos entre a Europa e a América 72
Testando seus conhecimentos 74

3 Colonização da América: exploração e resistência 76
A América do século XXI 78
A empresa colonial espanhola 79
A empresa colonial portuguesa 88
A colonização da América Inglesa 93
Revolução Americana: a primeira reação americana contra a metrópole 97
Independências na América Espanhola 98
Independência da América Portuguesa 104
Debate interdisciplinar: A transformação dos metais 108
Testando seus conhecimentos 110

4 Direitos na América Latina: lutas e conquistas 112
A América independente 114
O regime neocolonial 116
Os conflitos na América Latina 119
O imperialismo na América Latina 127
As revoluções 133
O populismo 144
As ditaduras 145
As guerrilhas 148
Debate interdisciplinar: Che Guevara – da guerrilha para o mercado 150
Testando seus conhecimentos 152
Página 8

5 O imperialismo na Ásia 154
O imperialismo 156
A diversidade das ações imperialistas 158
China 160
Japão 164
A conquista da Índia 168
Debate interdisciplinar: Semelhanças e diferenças entre os sistemas linguísticos de China, Índia e Coreia 172
Testando seus conhecimentos 174

6 África: do escravismo ao imperialismo 176
A escravidão na África 178
O comércio de pessoas 182
O colonialismo europeu 183
O imperialismo e a partilha da África 185
Movimentos de resistência 191
Debate interdisciplinar: Extração de diamantes na África 194
Testando seus conhecimentos 196

7 As emancipações nacionais na Ásia e na África 198
Os processos de emancipação nacionais 200
Emancipações na Ásia 201
Emancipações na África 207
Debate interdisciplinar: África um rico continente 216
Testando seus conhecimentos 218
Página 9

8 A era da globalização 220
O que é globalização? 222
A globalização neoliberal 225
Globalização e localismo 228
Aspectos positivos e negativos da globalização 231
O Brasil na era da globalização 233
Globalização e direitos humanos 234
Debate interdisciplinar: A música e a transposição de barreiras 236
Testando seus conhecimentos 238

9 Direitos violados 240
Desrespeito aos direitos humanos 242
Miséria em toda parte 243
Violência: o valor da vida 250
Discriminação, intolerância e corrupção 258
Debate interdisciplinar: Fome × Obesidade – efeito dos dois extremos no organismo humano 262
Testando seus conhecimentos 264

10 Conquistas nas lutas pelos direitos humanos 266
Vivendo na era dos direitos 268
Novos sujeitos, novas abordagens 274
Debate interdisciplinar: ONGs e os direitos humanos 282
Testando seus conhecimentos 284

Referências 286

Manual do Professor 289


Página 10

1 Direitos humanos

Neste capítulo
Direitos humanos: somos todos iguais?
A origem dos direitos humanos
A conquista dos direitos sociais
A terceira geração dos direitos humanos
Direitos de quarta e quinta gerações: Bioética e paz


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Jewel Samad/AFP

Ativistas e comunidades muçulmanas exibem cartazes com mensagens relacionadas a direitos humanos, durante uma manifestação em solidariedade aos refugiados sírios e iraquianos. Nova York (EUA), 2015.

Os meios de comunicação referem-se constantemente aos direitos humanos, porém, na maioria das vezes, somente para alertar sobre a violação ou o desrespeito a eles.

Mas que direitos são esses que igualam todos os seres humanos? Como eles foram historicamente declarados? Quem elaborou os tratados e as convenções internacionais sobre direitos humanos e em que contexto?
Página 11

Por que, apesar de aceitos e discutidos por muitas sociedades, os direitos ainda são violados e, em alguns casos, sumariamente ignorados? Importante e polêmico, esse tema tem sido alvo constante de discussões nos âmbitos nacional e internacional. É preciso ter claro que esse assunto e todas as suas ações concretas afetam a todos os habitantes do planeta tanto individual como coletivamente. Essas e outras questões serão abordadas neste capítulo.


Página 12

Direitos humanos: somos todos iguais?

Para grande parte das pessoas do século XXI, alguns direitos são considerados fundamentais, como o direito à vida, à liberdade de escolha e de expressão, à saúde e à segurança, enfim, os direitos que garantem a satisfação das necessidades básicas de todo ser humano. São os chamados direitos humanos.

A discussão sobre os direitos humanos, tema debatido nas sociedades contemporâneas e nas relações entre os países, nem sempre esteve presente na história da humanidade.

Na Europa feudal do século X, por exemplo, não havia a noção de direitos individuais e coletivos, já que a sociedade feudal mantinha uma ordenação social diferente da que estamos sujeitos atualmente no Brasil. Naquela época, a Igreja Católica e a aristocracia feudal detinham o poder e, portanto, os direitos e privilégios. Esses privilégios não se estendiam aos camponeses, que realizavam todos os tipos de trabalho no regime de servidão feudal.

Historicamente, o tema direitos humanos começou a ser discutido a partir do século XVI, durante a transição do feudalismo para a sociedade burguesa, no período de formação do Estado Nacional Moderno.

No decorrer dos séculos, muitos lutaram e morreram pela liberdade de direitos, como votar e ser votado; contra a onipotência de reis que se julgavam representantes divinos e, portanto, acima de todos, podendo, inclusive, dispor da vida de seus súditos; também contra a segregação étnica ou a escravização, além de muitos outros motivos que incitaram diversas lutas para que fossem asseguradas as condições fundamentais de existência e igualdade a todos os seres humanos.

Essas lutas, porém, ainda não terminaram. Necessidades básicas, como moradia, alimentação e educação, não têm sido asseguradas à população de forma igualitária, o que abre precedentes para constantes manifestações com o objetivo de cobrar dos governantes solução para esses problemas.

Entende-se por direitos humanos o conjunto de princípios, de caráter universal e universalizante, formalizado no contexto do Estado liberal-democrático tal como ele se desenvolveu no mundo ocidental no curso do século XIX, que proclamam como direitos inalienáveis do homem os direitos à vida e às liberdades civis e públicas. Sua efetivação requer ação dos governos no sentido de protegê-los contra qualquer espécie de violação ou abuso. Compreendem prioritariamente os direitos civis, mas também os direitos sociais e políticos.

CARDIA, Nancy; ADORNO, Sergio. Das análises sociais aos direitos humanos. In: BROOKE, Nigel; WITOSHYNSKY, Mary (Org.). Os 40 anos da Fundação Ford no Brasil: uma parceria para a mudança social. São Paulo: Edusp; Rio de Janeiro: Fundação Ford, 2002. p. 206.

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Jacqueline Lau/Demotix/Corbis/Glow Images

Milhares de manifestantes seguem em direção ao Parlamento britânico em protesto contra as medidas de austeridade planejadas pelo governo. Os cartazes pedem melhores condições de moradia e educação, apoio aos imigrantes, fim do envolvimento do país em guerras, entre outros. Londres, Inglaterra, 2015.
Página 13

Organizando ideias

Professor, as orientações e respostas referentes a esta seção estão no Manual do Professor.

Em dupla, converse com o colega sobre as questões a seguir e depois debatam, em sala de aula, suas conclusões.

1. O que significa dizer que os direitos humanos foram conquistados por meio de lutas ao longo do tempo?

2. Juntos, pesquisem os principais fatos ocorridos no Brasil e no mundo noticiados pela imprensa no último mês. De acordo com as notícias que vocês encontraram, é possível concluir que atualmente os direitos humanos são efetivos para todas as pessoas? Justifiquem sua resposta exemplificando.

3. A charge a seguir foi criada por Angeli no ano de 1998. Analise-a e faça o que se pede.

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Angeli


Angeli. Declaração dos Direitos Humanos. A charge foi publicada no jornal Folha de S.Paulo em 11 de dezembro de 1998.

a) Que crítica à sociedade brasileira a charge expressa?

b) É possível afirmar que a charge retrata a realidade de parte da população brasileira? Justifique.

c) Elabore um pequeno texto estabelecendo relação entre a charge e o título “Direitos humanos: somos todos iguais?”.
Página 14

Viajando pela história

Direitos na Antiguidade

A noção de direitos humanos, ou direitos naturais, tal como os concebemos hoje, teve origem no século XVI. Isso não significa, porém, que antes desse período não houvesse pessoas preocupadas com as condições mínimas para que os seres humanos vivessem com dignidade.

O mais antigo documento que envolve direitos humanos encontrado até agora é o Cilindro de Ciro. O texto escrito pelo rei da Pérsia (atual Irã), Ciro II, foi gravado em um cilindro de barro em 539 a.C.

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Album Art/Latinstock

Cilindro de Ciro. Acervo do Museu Britânico, Londres.
Os decretos escritos pelo rei Ciro II foram gravados em língua arcadiana, em um cilindro de barro cozido. Esse objeto histórico foi descoberto em 1879 e traduzido em 1971.

O documento escrito por Ciro apresentava características diferenciadas para a época: declarava a liberdade de religião, libertava os escravos e lhes dava a oportunidade de participar do corpo de funcionários do reino. Por suas características humanitárias, é considerado precursor das declarações de direitos humanos.

Em Atenas, na Grécia, entre os séculos V e IV a.C., ocorreram as primeiras experiências democráticas relacionadas aos princípios que concediam aos cidadãos o direito de se expressar livremente e de participar das decisões da comunidade. Esse exemplo mostra preocupação com a liberdade de manifestação e de participação nas decisões políticas, mas o direito era restrito somente aos homens adultos, atenienses e livres.

Outro documento que merece destaque é o Pacto dos Virtuosos (Hifl-al-fudul), concluído por tribos árabes por volta de 590 d.C., considerado uma das primeiras alianças em prol dos direitos humanos. Ele foi elaborado por cinco tribos da cidade de Meca após uma guerra ocorrida na região, entre 586 e 590 d.C., com a finalidade de defender os oprimidos da cidade, além de restaurar seus direitos.

Documentos posteriores, como a Carta Magna da Inglaterra, de 1215, e a Carta de Mandén, de 1222, também são exemplos de textos relacionados aos direitos humanos.

A Carta de Mandén (ou Carta de Kurukan Fuga) é considerada a declaração constitucional do Império de Mali, fundado no século XI e unificado por Sundiata Keita, em 1222, imperador que a proclamou. Esse documento incorpora um conjunto de práticas cujos pontos principais são: o respeito pela vida humana, a solidariedade com a comunidade, a liberdade individual (em conformidade com a comunidade) e a oposição ao sistema de escravidão vigente na região. A carta é considerada um dos primeiros modelos de constituição e o primeiro documento escrito em território africano a abordar direitos humanos.

A Carta Magna, manuscrita, redigida em latim e assinada pelo rei João Sem Terra diante de barões e do alto clero em 1215, foi considerada o primeiro documento oficial com o propósito explícito de garantir as liberdades e direitos dos súditos e impedir os abusos de poder real. Em termos gerais, estabelecia que nenhum homem está acima da lei, nem mesmo o rei, por dádiva divina ou favores da igreja. Os 63 artigos exigiam direitos estamentais e limitação do poder real, a partir de um entendimento com a nobreza, prioritariamente com os barões e, em seguida, com os demais súditos. O princípio básico que inspirou a formatação final do documento foi a sujeição do poder do rei às liberdades individuais de seus súditos.

GUIMARÃES, Elisabeth da Fonseca. A construção histórico-sociológica dos direitos humanos. Revista ORG & DEMO, Marília: Unesp/Boitempo, v. 11, n. 2, p. 99, jul./dez. 2010.


Página 15

A origem dos direitos humanos

Entre os séculos XV e XVIII, a Europa passava por transformações advindas das Grandes Navegações, que incorporaram ao mundo conhecido até então as terras que hoje formam o continente americano e parte da Ásia.

As ideias e a organização político-social predominante, que permaneciam desde a Idade Média, passaram a ser questionadas por pensadores ingleses, como David Hume (1711-1776) e Thomas Hobbes (1588-1679), e por intelectuais chamados de iluministas, como John Locke (1632-1704), Voltaire (1694-1778), Jean-Jacques Rousseau (1712 -1778) e Montesquieu (1689-1755); eles propunham uma nova visão de mundo, com base no uso da razão e na libertação dos seres humanos de toda forma de opressão.

Nesse período, a sociedade era estamental, ou seja, não havia mobilidade entre uma camada social e outra. A nobreza detinha privilégios e o poder estava concentrado nas mãos dos reis; o sistema político dominante era o absolutismo. Os trabalhadores (sobretudo os camponeses) e os burgueses – nova classe relacionada ao comércio e à prestação de serviços e que também não tinha direitos assegurados, apesar do acúmulo de capital – passaram a questionar a arbitrariedade e as injustiças cometidas pelos nobres e pelos reis absolutistas, além de agir contra esses desmandos, dando origem às chamadas Revoluções Burguesas.

Coube aos pensadores liberais disseminar e fazer valer mecanismos capazes de frear o autoritarismo estatal dos absolutistas. De acordo com as ideias iluministas, a razão passou a ser o instrumento de conhecimento do mundo. Em uma sociedade não mais baseada no poder da Igreja Católica Romana, o direito divino dos reis começou a ser questionado.

Portanto, os primeiros direitos conquistados por meio das Revoluções Burguesas foram os direitos individuais, ou seja, aqueles considerados naturais.

Nesse período histórico, a caminhada rumo à conquista da liberdade e igualdade entre os seres humanos deu um primeiro, mas fundamental, passo por meio da luta pelo reconhecimento dos direitos civis e políticos, isto é, as prerrogativas dos indivíduos e grupos de indivíduos que não podem sofrer a intervenção despótica do Estado, podendo competir de maneira igualitária. [...]

A partir de então, a figura do indivíduo que só tem deveres a prestar em relação ao príncipe (súdito) começa a ser substituída pela do sujeito que possui direitos que devem ser respeitados pelos governantes (o cidadão). [...]

Em suma, estamos tratando aqui de uma mudança de eras, da substituição de uma “era dos deveres” por uma “era dos direitos”. [...]

Porém, assim como essa nova “era dos direitos” nasce por intermédio da conquista dos direitos civis e políticos, ela também tem uma precisa localização espacial, uma geografia própria –, seu berço encontra-se em três países precisos: Inglaterra, Estados Unidos e França.

Será exatamente no curso dos acontecimentos históricos que levaram esses três países à modernidade que subirão à tona as primeiras vitórias da luta incessante travada em nome da afirmação dos direitos da cidadania no mundo. [...]

MONDAINI, Marco. Os direitos humanos no período pré-Revolução Francesa: a conquista dos direitos civis e políticos I. In: ______________. Direitos humanos. São Paulo: Contexto, 2006. p. 22.




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