Legenda: Manifestantes durante protesto contra o aumento de tarifas do transporte público, em São Paulo (SP), em 2013



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LIVRO DE SOCIO


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CAPÍTULO 9 - Movimentos sociais
LEGENDA: Manifestantes durante protesto contra o aumento de tarifas do transporte público, em São Paulo (SP), em 2013.
FONTE: Eduardo Knapp/Folhapress

ESTUDAREMOS NESTE CAPÍTULO:


Como os indivíduos buscam transformar as condições sociais, econômicas, políticas e culturais por meio dos movimentos sociais, o porquê do surgimento de tais movimentos na sociedade e o que os distingue como ação coletiva. Veremos que os movimentos sociais transformam-se nos diferentes momentos e lugares. Assim, tiveram um papel importante, tanto contestando os Estados autoritários em diversas partes do mundo como reagindo às formas de exclusão social no contexto da globalização. Com base na discussão sobre classes sociais, analisaremos como elas dão origem aos movimentos sociais contemporâneos, que buscam propor alternativas para uma sociedade mais igualitária.
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Movimentos sociais na pauta das Ciências Sociais

O que são movimentos sociais? Neste capítulo, vamos explorar um mundo em erupção. Isso porque, assim como vulcões ativos, os movimentos sociais podem agir e interferir a qualquer momento. Essa comparação é ilustrativa, pois esses movimentos são fenômenos que envolvem forças sociais e se formam no interior da estrutura social.


As Ciências Sociais se preocupam com a participação dos indivíduos na sociedade - e, consequentemente, com uma das bases para o exercício da cidadania, conforme vimos no Capítulo 8. Essa participação ocorre, entre outras vias, por meio dos movimentos sociais, os quais possibilitam a transformação da realidade.
Os movimentos sociais foram inicialmente explicados pelos comportamentos coletivos, ou seja, pelo conjunto de ações espontâneas de muitos indivíduos e grupos. Estudos sociológicos mais recentes, no entanto, reconheceram nesses movimentos uma forma de luta política organizada para construir os direitos dos cidadãos. Distinguem-se, nesse sentido, os movimentos sociais duradouros daqueles que se apresentam apenas como uma revolta ou uma reação passageira a uma situação ou fato. Um movimento social pode começar de modo espontâneo, mas à medida que vai se instituindo e se consolidando com pautas de reivindicação que levam a avanços sociais ele se constitui como movimento social no sentido dado pelas Ciências Sociais. Eles precisam de certa institucionalização e reconhecimento social. Além disso, muitas vezes estão ligados às classes subalternas, aos grupos menos favorecidos, em situação de desvantagem social.
FONTE: Filipe Rocha/Arquivo da editora
Um movimento social afirma-se por mobilizar grupos ou uma coletividade em uma luta contra um adversário e pelo controle da mudança, explica o sociólogo francês Alain Touraine (1925-). Essas mobilizações são provocadas por uma grande variedade de motivos sociais.
Vale perguntar o que faz com que movimentos de natureza variada e com interesses tão distintos sejam classificados como "sociais". Será que toda ação coletiva é um movimento social? Qualquer ação de um grupo - como os lobistas que atuam junto ao Parlamento, defendendo interesses de grupos como fazendeiros, industriais ou banqueiros - constitui um movimento social? A ação desenvolvida pela torcida organizada de um time de futebol, por ser coletiva, pode ser considerada um movimento social? Gangues de rua, por agirem coletivamente, podem ser consideradas movimentos sociais? A resposta a essas questões é não.
Movimentos sociais se formam quando as pessoas se organizam e lutam contra diferentes tipos de opressão, intervindo para que haja uma mudança social.
LEGENDA: Charge do cartunista Henfil, da década de 1980.
FONTE: Henfil/Acervo do artista
Glossário:
lobista: aquele que, no Poder Legislativo, faz lobby, ou seja, ocupa-se de influenciar a aprovação das leis conforme interesses de grupos específicos.
Fim do glossário.

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LEGENDA: Armandinho, tirinha de Alexandre Beck, publicada em 2013. A tirinha aborda a importância dos pequenos atos e da organização e união das pessoas em torno de ideais coletivos.
FONTE: Alexandre Beck/Acervo do artista
Nem toda ação coletiva se transforma em movimento social. Uma ação coletiva caracteriza-se, sim, por um conjunto de ações empreendidas por grupos ou categorias sociais em circunstâncias adversas ou não. Porém, para que uma ação coletiva seja considerada um movimento social é indispensável outro elemento: o objetivo de alcançar um fim específico com intenção de transformar a realidade social. Não basta, portanto, a ação de um conjunto de pessoas para que exista um movimento social. É preciso que essa ação seja organizada por indivíduos ou grupos que visem a uma finalidade especificamente social, como, por exemplo, combater as desigualdades e a discriminação relacionadas às diferenças de renda, gênero, etnia ou país de origem. Dessa forma, a consciência dos problemas sociais adquirida coletivamente e em contínua difusão entre os indivíduos é uma das principais características de um movimento social.
Os movimentos sociais podem se transformar de acordo com componentes culturais, ambientais, econômicos e políticos. Podemos identificar entre suas causas mais comuns a organização contra a exploração e a discriminação resultantes das desigualdades sociais geradas ao longo da história - muitas delas decorrentes da má distribuição da renda, da desigualdade nas relações de gênero, da xenofobia, do racismo para com grupos de diferentes etnias. Para exemplificar, citamos alguns movimentos sociais contemporâneos: o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, o Movimento de Trabalhadores Sem Terra, o Movimento Estudantil, o Movimento Feminista.
Movimentos sociais, classes e pobreza
Um dos autores que mais influenciaram os movimentos sociais na história contemporânea foi Karl Marx (1818-1883). Sua teoria social, de base econômica, centra-se nas relações de produção - aquelas estabelecidas no processo produtivo entre os donos dos meios de produção (fábricas, bancos, terras, entre outros) e os trabalhadores. Para Marx, essas relações são marcadas por uma tensão latente em decorrência de interesses distintos das diferentes classes sociais, seja em relação aos privilégios, seja em relação à participação no poder. A teoria marxista considera a luta de classes como ação coletiva, uma vez que a consciência de pertencer a uma classe social aparece quando os antagonismos da sociedade são percebidos, o que pode levar ao conflito. A luta de classes é considerada a própria práxis coletiva capaz de levar a transformações. Desse modo, as grandes mudanças não dependem exclusivamente da vontade dos indivíduos; há a força do social, além de fatores políticos, culturais, econômicos que envolvem toda a sociedade.
Glossário:
práxis: palavra de origem grega que significa 'ação prática'. Para Marx, significa o próprio movimento da história, as ações reais dos indivíduos que procuram vencer as contradições da sociedade capitalista.
Fim do glossário.

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As classes sociais são tema recorrente de discussão nas teorias sociológicas, que destacam diversos conceitos de classes, como estudado no Capítulo 2. Classes sociais são agrupamentos que se relacionam cotidianamente, produzindo e reproduzindo a estrutura social. As classes referem-se a grupos sociais que se diferenciam conforme: a posição econômica que ocupam na produção; a posse de riquezas; a escolha da profissão; os estilos de vida; o acesso ao consumo. Vale ressaltar que as classes sociais são complementares, no sentido de que uma não existe sem a outra. No âmbito de cada uma das classes existe a noção de pertencimento, a defesa de interesses comuns na sociedade. Mas, como analisa o historiador britânico Edward Thompson (1924-1993), a classe não se define apenas em termos econômicos. Ela é construída na experiência entre homens e mulheres, ou seja, na História. É uma formação social e cultural que não pode ser definida de modo abstrato, mas em termos das relações entre as classes. Só na sociedade capitalista as diferenciações sociais assumem a "forma" de classe, pelo fato de que o pertencimento a uma classe é determinado pela propriedade (ou controle) dos meios de produção ou pela exclusão dessa propriedade ou controle. Essa condição concreta e subjetiva, ao mesmo tempo, de estar e perceber a sua posição na estrutura social gera o fenômeno da consciência de classe, quando há identidade e defesa dos interesses comuns.
FONTE: Filipe Rocha/Arquivo da editora
Desse modo, congregando interesses na forma de reivindicações, os movimentos se estruturam para enfrentar os problemas comuns a determinadas classes sociais e promover a ação política. Contextos de vulnerabilidade reúnem os ingredientes básicos para a eclosão de movimentos que visam à transformação social. Um dos problemas mais graves e comumente abordados pelos diversos movimentos sociais, no Brasil e no mundo, é o da pobreza, como vimos em outros capítulos, que assume configurações distintas de acordo com a época e a sociedade, conforme o grau de desigualdade socioeconômica e a escassez ou não de recursos.
LEGENDA: Litografia produzida em 1919 pelo artista gráfico El Lissitzky para os bolcheviques, que instalariam, no lugar do antigo Império Russo, um governo de inspiração marxista: a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Com elementos visuais, o cartaz de propaganda mostra a união popular (representada pela cunha vermelha) rompendo a resistência da elite russa (círculo branco).
FONTE: Michael Nicholson/Corbis/Latinstock

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Nos anos 1990, no Brasil, como vimos no Capítulo 8, o sociólogo Betinho liderou um movimento que desembocou em uma grande campanha nacional denominada Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, com o intuito de combater a fome no país. A campanha resultou de um movimento em prol da cidadania e pelo direito ao alimento em uma época de grande arrocho salarial, de desemprego e carência de políticas sociais.
Os movimentos sociais não apenas combatem insuficiências e problemas que atingem amplos segmentos populacionais, como a falta de condições para garantir a subsistência ou a discriminação. Eles também se voltam às novas questões que se apresentam: a precarização do trabalho e a perda de direitos conquistados, a redução de amparo social do Estado, a falta de moradia digna, entre outros fatores que conduzem a diversas formas de exclusão social, provocada pelas disparidades presentes na sociedade capitalista.
LEGENDA: Morador atravessa ponte improvisada sobre um córrego poluído em área do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro (RJ), em 2014.
FONTE: Mario Tama/Getty Images
LEGENDA: Área de moradias precárias, à margem de canal poluído, em Antananarivo, capital de Madagascar, em 2013.
FONTE: Thomas Mukoya/Reuters/Latinstock
Por essa razão, a pobreza deve ser compreendida como um fenômeno complexo, relacionado à falta de bens e de oportunidades sociais. A exclusão social não se refere mais somente à dificuldade de sobrevivência alimentar, mas também à falta de condições para ter uma "vida digna", com acesso à educação, à moradia, ao trabalho, à renda, à comunicação, ao transporte, à informação. A satisfação dessas e outras condições permite às pessoas participarem e usufruírem de bens e serviços oferecidos pela sociedade e serem reconhecidas como portadoras de direitos.
Pobreza e exclusão social são resultados concretos das desigualdades que fazem surgir os movimentos sociais.
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Pausa para refletir
Ao depararmos com os dados da exclusão social, vemos o paradoxo da persistência da pobreza e das condições precárias de vida, apesar dos avanços da ciência e da tecnologia.
Rendimento e acesso ao saneamento básico são indicadores a serem levados em conta ao se estudar a exclusão social. Podemos destacar também a escolaridade, a desigualdade social, o índice de emprego formal, os indicadores de violência, entre outros.
O mapa abaixo e o da página ao lado trazem informações sobre dois indicadores de exclusão social: rendimento per capita abaixo da linha da pobreza (R$ 70, em 2010) e domicílios sem banheiro ou sanitário de uso exclusivo. É possível observar uma extensa faixa, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, que contrasta com as áreas em que esses indicadores apresentam melhores resultados, o que realça as disparidades existentes entre as regiões brasileiras.

1. Diante desse quadro de desigualdade, pobreza e exclusão, qual é a importância dos movimentos sociais? O que eles podem mudar na realidade de falta de moradia digna e de rendimentos adequados, por exemplo?


2. Você conhece organizações não governamentais (ONGs), movimentos sociais e grupos organizados que buscam resolver ao menos um dos problemas listados acima (não apenas os do mapa) que compõem a exclusão social no Brasil? Quais? O que sabe sobre eles?

FONTE: IBGE/Censo 2010. Créditos: Banco de imagens/Arquivo da editora


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FONTE: IBGE/Censo 2010. Créditos: Banco de imagens/Arquivo da editora

Características dos movimentos sociais

Como vimos, as manifestações coletivas podem ou não se transformar em movimentos sociais. Retomemos um exemplo dado no Capítulo 8: no ano de 2005, nos subúrbios de Paris (capital da França), jovens pobres e filhos ou netos de imigrantes muçulmanos, moradores da periferia, organizaram uma série de protestos. Eles mostravam-se revoltados com as dificuldades que enfrentavam: desemprego, condições de vida precárias, discriminação e exclusão social. Reivindicavam a inclusão digital, isto é, o acesso universal às tecnologias da informação. Esses episódios, no entanto, não constituíram movimentos sociais organizados, pois se resumiram a protestos passageiros.
Outro exemplo foram as manifestações em junho de 2013 no Brasil. Inicialmente, foram promovidas por um grupo organizado (o Movimento Passe Livre) em razão do aumento das tarifas de transporte coletivo em diversas cidades brasileiras. No entanto, conforme cresceram, foram-se incorporando diversas outras reivindicações e deixaram de seguir apenas a pauta do MPL. Após o aumento de tarifa ser revogado, em pouco tempo as manifestações relacionadas especificamente ao acesso ao transporte público diminuíram.
Os movimentos sociais também não podem ser confundidos com movimentos messiânicos, religiosos ou político-partidários, embora esses formulem e apresentem publicamente reivindicações de mudanças políticas e sociais.
FONTE: Filipe Rocha/Arquivo da editora
Glossário:

messiânico: diz-se do movimento fundamentado na ideia de que um indivíduo ou grupo está destinado a salvar a humanidade dos males e problemas.

Fim do glossário.

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Isso não significa que os participantes de um determinado movimento social não professem uma fé ou não estejam ligados a um partido político. De modo geral, os movimentos sociais se definem como não partidários ou não religiosos e buscam somar forças com aqueles que vivenciam uma mesma condição, independentemente das suas filiações partidárias ou religiosas. Para se atribuir um caráter "social" a movimentos surgidos no interior das sociedades, algumas características devem ser identificadas.
Boxe complementar:
Principais características dos movimentos sociais
· Voltam-se para as transformações das condições econômicas, sociais e políticas da sociedade, visando principalmente situações de necessidade social.
· São capazes de ação coletiva, ou seja, desencadeiam grandes mobilizações por necessidades sociais comuns, como moradias, escolas, centros hospitalares, postos de saúde, estradas, saneamento, entre outras coisas.
· Dispõem de componentes ideológicos, visões de mundo que os inspiram e se desenvolvem por meio deles. Baseiam-se em valores, na consciência social sobre determinadas situações e na crença de ser possível modificá-las.
· São capazes de somar forças sociais, como a opinião pública, os meios de comunicação, instituições locais e internacionais.
· Dependem de uma organização para sua formação e desenvolvimento.
· Embora não pretendam conquistar o poder do Estado, procuram tornar públicas suas reivindicações em manifestações. Esse aspecto político pode levar a um confronto com as autoridades de Estado e também com forças de segurança privada, dependendo dos objetivos e métodos de manifestação.
· Em geral, declaram-se apartidários e laicos, evitando sua utilização para fins político-partidários ou religiosos.
· Muitas vezes, dão destaque à figura de suas lideranças. Um exemplo é o movimento negro nos Estados Unidos durante a década de 1960, sob a liderança de Martin Luther King (1929-1968), responsável por mobilizar comunidades negras no sul do país na luta pelos direitos civis.
· Agem por meio de redes de movimentos. Essas redes articulam vários atores sociais e podem se caracterizar: pelo pluralismo organizacional e ideológico, como no caso dos movimentos pacificistas; por componentes de transnacionalidade, como os de defesa dos direitos humanos e do meio ambiente; pela atuação em diferentes campos, como os movimentos de combate à síndrome da imunodeficiência adquirida (Aids), que acionam as dimensões de saúde pública, cultural e política da sociedade.
· Estabelecem novos canais de comunicação dos indivíduos com a sociedade e o Estado.
· São históricos e sujeitos a mudanças; por isso, as mudanças sociais também os transformam.
· Implicam a formação de uma identidade cultural, ou seja, de algo comum a todos os seus integrantes.
Fim do complemento.
A questão da identidade
Os estudos sociológicos vêm encontrando nos movimentos sociais o papel de formar identidades dos atores na sociedade. Quando falamos em identidade, nesse contexto, nos referimos ao processo no qual um ator social se reconhece e constrói uma referência de ação com base em algum atributo cultural ou conjunto de valores. Identidades resultam de situações de confronto e comparações com o outro, pois, na maioria das vezes, não é possível integrar ou articular visando à ação sem antes diferenciar e distinguir. Nós também, enquanto indivíduos, firmamos nossa identidade em comparação com o(s) outro(s).

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Portanto, a construção da identidade no interior de um movimento social se deve tanto à identificação de seus participantes com uma mesma causa como à sua resistência à lógica da dominação, com o objetivo de redefinir sua posição na sociedade. Um exemplo é o caso do movimento feminista e pelos direitos da mulher, que combateu e combate o machismo, o patriarcalismo e suas estruturas de produção e reprodução sociais.
Autores da Sociologia, da Antropologia e da Ciência Política caracterizaram os movimentos sociais como sujeitos coletivos por sua capacidade de elaborar uma identidade com a causa que defendem, criando interesse por parte dos indivíduos que a ela se dedicam. Na luta e confronto constantes, eles organizam práticas coletivas. Atualmente, os movimentos sociais valem-se muitas vezes das tecnologias da informação e agem em rede, aproximando suas reivindicações e fortalecendo-as. Cada vez mais as redes sociais têm sido utilizadas como forma de comunicação rápida para informar e chamar os indivíduos para participar.
É comum que os movimentos sociais vivenciem situações de conflito, caracterizadas pelo enfrentamento decorrente de posições, ideias, interesses que divergem da ordem estabelecida. Na sociedade contemporânea esses enfrentamentos ocorrem, sobretudo, em áreas marcadas pela segregação com base na identidade, como nos conflitos que envolvem migrantes ou relacionados a povos sem território.
O sociólogo francês Alain Touraine explica os movimentos sociais como uma combinação de princípios de identidade, oposição e totalidade em relação à luta que desencadeiam. Vejamos sua explanação no quadro a seguir, usando como exemplo o movimento argentino das mães e avós da Praça de Maio e os movimentos operários do início do século XX.
LEGENDA: Marcha Mundial das Mulheres realizada na cidade de Bruxelas, na Bélgica, em 2016.
FONTE: Virginie Lefour/Agência France-Presse
Glossário:

patriarcalismo: designa o domínio do homem proprietário de terras ou dos bens de produção e, consequentemente, o de seus valores, que são impostos ao restante da sociedade, como vimos no Capítulo 3.

Fim do glossário.

Princípios inspiradores dos movimentos sociais


Princípios
Razões
Exemplos
Identidade
Lutamos em nome de quem?
a) no caso das mães e avós da Praça de Maio, a luta é pelos filhos e netos desaparecidos durante o último regime militar ditatorial argentino (1976-1983);

b) no caso dos movimentos operários do início do século XX, todos os que se vissem trabalhando em condições indignas.


Oposição
Lutamos contra quem?
a) luta contra os dirigentes e cúmplices dos regimes ditatoriais argentinos;

b) luta contra os proprietários e altos gerentes das indústrias, de modo geral, e os detentores do poder do Estado, no caso de movimentos socialistas ou anarquistas.


Totalidade
Lutamos por quê?
a) a busca por informações sobre o paradeiro dos desaparecidos e a luta pela condenação dos responsáveis pelos crimes e violações de direitos;

b) a melhoria da remuneração e das condições de trabalho, em todos os casos, e a deposição da classe dominante do controle do Estado e dos meios de produção, no caso de movimentos socialistas ou anarquistas.


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Pausa para refletir

Observe a charge abaixo:


LEGENDA: Charge de Lucas Fier, 2012.
FONTE: Lucas Fier/Acervo do cartunista

1. A charge faz uma crítica a quem e a que tipo de atitude? Por quê?


2. Qual é sua opinião com relação às reivindicações e à forma de ação dos movimentos sociais? Discuta com seus colegas e explique em sala de aula.
Breve história dos movimentos sociais

Os movimentos operários


Entre os movimentos sociais que tiveram origem na luta de classes, o movimento operário foi o que obteve maior reconhecimento como tal. Ele formou-se a partir do século XVIII, época em que aumentava a concentração de trabalhadores nas fábricas europeias. Submetidos a extensas jornadas de trabalho, à falta de direitos trabalhistas e ao despotismo de seus patrões, os operários organizaram-se para reivindicar mudanças nas condições de trabalho.
Movimento pioneiro na esfera operária, o luddismo, no início do século XIX, posicionava-se contra as máquinas na Inglaterra, sabotando-as como uma de suas formas de ação. Somava-se às reivindicações por melhores condições de trabalho outra preocupação: o aumento do desemprego em razão da mecanização da indústria. A dura repressão ao luddismo foi acompanhada pela acusação aos trabalhadores de que estariam dificultando a modernização da produção. Ainda assim, novas formas de luta emergiram ao longo do século XIX, mediadas pelos sindicatos.
FONTE: Filipe Rocha/Arquivo da editora
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Existem muitos movimentos operários, com singularidades em cada país, mas, de modo geral, todos buscam a melhoria das condições de trabalho por meio de uma ação política. Um dos instrumentos mais recorrentemente utilizados pelos movimentos operários em todo o mundo é a greve. Desde os primeiros tempos da industrialização, as paralisações dos trabalhadores constituíram uma forma de exigir condições mais dignas de trabalho, remuneração e assistência social. Com a consolidação da organização da classe operária no início do século XX, as greves passaram a criticar as próprias condições da sociedade, reivindicando transformações para além do ambiente de trabalho.
Desde o século XIX, o socialismo - sistema político que visa a uma sociedade igualitária e cooperativa - destacou-se por favorecer ações coletivas de indivíduos e grupos organizados. No entanto, após o fim da União Soviética e a queda de muitos regimes ligados a ela, o socialismo declinou como utopia social. Somado ao enfraquecimento de teorias como o anarquismo e o mutualismo, em fins do século passado, esse declínio trouxe o desafio de construir novas formas de contestação das desigualdades próprias do sistema capitalista.
LEGENDA: Greve , óleo sobre tela do pintor russo Boris Mihajlovitch Kustodiev (1878-1927).
FONTE: The Bridgeman Art Library/Keystone Brasil/Museu Estatal Russo, São Petersburgo, Rússia
Glossário:

utopia social: ideal de sociedade justa e igualitária na qual o bem-estar coletivo se realiza plenamente.

Fim do glossário.
Boxe complementar:
O Estado em xeque
Muitos movimentos operários exigiram - e muitas vezes obtiveram - garantias de proteção social e regulamentação do trabalho por parte do Estado. Outros, no entanto, se opuseram à própria existência dessa instituição.
O anarquismo é o mais conhecido conjunto de ideias a afirmar a emancipação do indivíduo em relação ao Estado. Para além do fim da estrutura hierarquizada de administração das propriedades privada e estatal dos meios de produção, os anarquistas almejavam acabar com qualquer forma de repressão, o que incluía leis e normas sociais então vigentes.
As várias correntes em que o anarquismo moderno se cindiu apresentam diferentes alternativas para uma sociedade sem Estado. O francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) propôs o mutualismo, um sistema social em que os trabalhadores, organizados individualmente ou em associações, realizariam a troca igualitária e o apoio mútuo e obteriam crédito livre por meio do Banco do Povo.
Já o coletivismo, fundado no pensamento do russo Mikhail Bakunin (1814-1876), propunha que todos os meios de produção fossem administrados por associações de trabalhadores. Algumas formas posteriores, como o anarcossindicalismo, acreditam na união em sindicatos como meio para que as classes trabalhadoras se organizem e reestruturem o modo de produção e a sociedade.
LEGENDA: Joseph Proudhon, em tela de Gustave Coubert, de 1865.
FONTE: The Bridgeman Art Library/Keystone Brasil/Museu d'Orsay, Paris, França
LEGENDA: O teórico anarquista Mikhail Bakunin, retratado pelo pintor Nikolai Ge em 1871.
FONTE: FineArtImages/Leemage/Agência France-Presse
Fim do complemento.

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Temas e protagonistas dos movimentos sociais contemporâneos
Transformações na produção agropecuária e industrial, mobilizações populares de proporções cada vez maiores, concentração da população nas cidades, alcance e variedade maiores dos meios e formas de comunicação (jornais, revistas, reuniões políticas como comícios e passeatas, internet e outros meios) impulsionaram a criação ou o reaparecimento de outros tipos de movimentos sociais.
Estudantes, mulheres, grupos étnicos, religiosos, pacifistas e ecológicos, entre outros, protagonizam, nas décadas mais recentes, movimentos sociais que buscam respostas a determinadas perguntas: quais são as formas institucionais que causam desigualdades e conflitos na sociedade? Quais são os principais valores e interesses da ação coletiva?
LEGENDA: Marcha das Mulheres Negras contra a violência de gênero, o racismo, o machismo e o genocídio de mulheres negras. Brasília, (DF), 2015.
FONTE: Evaristo Sa/AFP
Conforme podemos observar no quadro a seguir, o cientista político alemão Claus Offe (1940-) compara a forma predominantemente assumida pelos movimentos sociais em duas diferentes épocas para sintetizar as razões e valores que os inspiram à ação coletiva.
Os movimentos sociais nos séculos XIX e XX

Séculos XIX e XX


A partir da 2ª metade do século XX
Principais motivos
Crescimento econômico e distribuição mais igualitária da renda; segurança militar e social; controle social (participação do cidadão na gestão pública).
Preservação da paz e do meio ambiente; respeito aos direitos humanos; formas de trabalho não alienadas.
Principais valores
Liberdade e garantia do consumo privado e do progresso material.
Autonomia individual e respeito à identidade, em oposição ao controle do Estado e das instituições sociais.
Formas de ação
Movimentos organizados em torno de associações, que mediam as relações de maneira corporativista. Há competição política entre elas.
Movimentos pautados pela informalidade e espontaneidade. Protestos políticos orientados por demandas específicas.
FONTE: OFFE, Claus. New social movements: challenging the boundaries of institutional politics. Social Research, v. 52, n. 4, 1985. p. 817-868.
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Boxe complementar:

Encontro com cientistas sociais

No texto abaixo, o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos (1940-) leva-nos a indagar sobre os "excessos" vividos na sociedade contemporânea, na qual ainda há concentração de riqueza, populações inteiras que se refugiam para sobreviver e povos que morrem à míngua.

Ao identificar novas formas de opressão que extravasam das relações de produção e nem sequer são específicas delas, como sejam a guerra, a poluição, o machismo, o racismo ou o produtivismo, e ao advogar um novo paradigma social menos assente na riqueza e no bem-estar material do que na cultura e na qualidade de vida, os novos movimentos sociais (NMSs) denunciam, com uma radicalidade sem precedentes, os excessos de regulação da modernidade. Tais excessos atingem não só o modo como se trabalha e produz, mas também o modo como se descansa e vive; a pobreza e as assimetrias das relações sociais são a outra face da alienação e do desequilíbrio interior dos indivíduos; e, finalmente, essas formas de opressão não atingem especificamente uma classe social, e sim grupos sociais transclassistas ou mesmo a sociedade como um todo.

SOUSA SANTOS, Boaventura de. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. 2ª ed. São Paulo: Cortez, 1997. p. 258.
Glossário:
produtivismo: orientação ideológica do processo capitalista de procurar aumentar sempre a produção e o consumo de bens e serviços, a despeito de possíveis consequências negativas.
Fim do glossário.
· Para o autor, que tendência pode ser observada na atuação dos novos movimentos sociais que os diferencia de seus predecessores? Desenvolva a ideia demonstrando-a com exemplos de sua comunidade.
Fim do complemento.

Movimentos sociais na América Latina

Na América Latina dos anos 1960 a 1980 emergiram movimentos sociais no campo e na cidade, questionando os regimes políticos e as políticas econômicas em vigor. Naquele período, vários países latino-americanos estavam submetidos a ditaduras militares, tendo como pano de fundo a polarização das relações mundiais entre a então União Soviética e os Estados Unidos, no confronto político, militar, econômico e ideológico da Guerra Fria (1945-1989).
As políticas de Estado adotadas na maior parte dos países latino-americanos respondiam aos interesses norte-americanos: reprimiam internamente os movimentos de oposição (especialmente os de orientação socialista ou comunista); seguiam um modelo econômico fundamentado na concentração da renda e na relação de subordinação aos interesses de corporações e de países capitalistas desenvolvidos. No caso do Brasil, a política econômica desenvolvimentista no governo do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961) focava na indústria de base, transporte, energia, alimentação, sustentada no endividamento externo e na dependência econômica em relação àqueles países.
No Brasil, em 1964, um golpe de Estado iniciou uma sequência de governos militares que se estendeu até 1985. Durante esse período, o Estado seguia uma ordem política, econômica e social autoritária, que privava o povo de escolher livremente seus representantes, proibia ou reprimia manifestações populares e impedia as organizações sociais de reivindicarem livremente.
O regime militar mantinha-se mediante forte aparato policial, que aplicava a repressão e as punições para aqueles que o desafiavam. As resistências e o contexto social desfavorável fizeram surgir movimentos sociais de diversos tipos, que acabaram por abalar a base dos regimes militares. Por isso, a antropóloga brasileira Ruth Cardoso (1930-2008) os definia como movimentos anti-Estado.
FONTE: Filipe Rocha/Arquivo da editora

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Apesar do cerceamento à liberdade de expressão e de associação, ações coletivas organizadas questionaram o Estado como instrumento político de uma minoria privilegiada e trouxeram alternativas para transformar as estruturas de dominação. Muitos desses movimentos, mesmo sendo dissolvidos pelos governos militares quando seus membros foram exilados, mortos ou aprisionados, conseguiram deixar suas mensagens contrárias à ditadura.
Na década de 1970, constituíram-se movimentos sociais ligados a sindicatos, entre os quais o mais conhecido foi o dos metalúrgicos, no qual despontou a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva, eleito presidente da República em 2002. Outro tipo de movimento formou-se dentro das próprias empresas: nas comissões de fábrica, os trabalhadores agiam e se reuniam no local de trabalho de forma independente em relação aos sindicatos, visto que estes estavam sob intervenção ou corriam risco de sofrê-la.
Organizaram-se também movimentos pela saúde, moradia, creches, transporte coletivo, entre outras reivindicações. Dessa maneira, formou-se uma identidade política autônoma em relação ao sistema político, expressando os anseios das camadas sociais de renda mais baixa. Esses movimentos, chamados de "populares" e inseridos na luta de classes, se caracterizaram por cobrar ações estatais.
LEGENDA: Soldados do Exército em 1968, quatro dias depois do decreto do Ato Institucional nº 5 (AI-5), durante operação que prendeu cerca de 800 estudantes. Uma das intenções do AI-5 era o controle sobre a sociedade.
FONTE: Arquivo do jornal Folha de S.Paulo/Folhapress
LEGENDA: Ato grevista de metalúrgicos em São Bernardo do Campos (SP), ocorrido em 1979.
FONTE: Juca Martins/Olhar Imagem
O processo de urbanização no Brasil, intensificado nos anos 1970, ocorreu sem que o Estado garantisse o atendimento das necessidades básicas da população. Assim, com as grandes migrações do campo, as cidades concentraram população sem oferecer a todos serviços como segurança pública, energia elétrica, saúde, saneamento básico, educação, transporte, moradia, cultura. A falta de bens coletivos levou à eclosão de movimentos nos grandes centros urbanos. Além da movimentação nas fábricas, outras organizações populares, como Associações de Moradores, Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) - atuantes também no campo - e movimentos de desempregados somaram esforços no questionamento da estrutura política e econômica vigente.
Os movimentos sociais incitam a transformação da sociedade na medida em que pressionam o Estado a atender às necessidades da população.

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No meio rural brasileiro, a histórica concentração das terras nas mãos de grandes proprietários e o desenvolvimento do capitalismo levaram à reação dos que se viram à margem disso. A partir dos anos 1980, houve ações organizadas como a luta pela reforma agrária e o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), em defesa das populações que tiveram suas terras inundadas após a construção de hidrelétricas e represas. A terra, aliás, foi e continua sendo a bandeira de vários movimentos sociais. O mais conhecido deles é o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que pressiona o Estado a realizar a reforma agrária e chama a atenção da sociedade para a dificuldade de acesso à terra e meios para tirar dela seu sustento. O MST utiliza diversas formas de luta: ocupações e acampamentos coletivos, marchas pelas rodovias, greves de fome, ocupação de prédios públicos, vigílias, entre outras ações.
LEGENDA: Acampamento de integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), entre Dourados e Campo Grande (MS). Foto de 2015.
FONTE: Cassandra Cury/Pulsar Imagens
A articulação dos movimentos sociais e a sua experiência de luta colaboraram decisivamente, por exemplo, para a restauração da democracia e do Estado de Direito no país após as duas décadas de ditadura militar. Esse processo ocorreu por meio de uma transição gradual que, entre outras coisas, restabeleceu o pluripartidarismo, concedeu anistia aos perseguidos por motivos políticos e garantiu a volta de eleições diretas para presidente da República. A redemocratização, no entanto, só se completou com a promulgação da Constituição de 1988.
Os movimentos sociais, na conjuntura das ditaduras latino -americanas, foram fundamentais para que parte da população rural e dos grandes centros chegasse à participação política, ou seja, a se organizar, reivindicar e cobrar do Estado seus direitos. Entre essas cobranças, foram exigidos o direito de a população se manifestar socialmente - de poder, legitimamente, pressionar por mudanças - e a garantia do voto direto nas eleições para seus representantes.

LEGENDA: Multidão reunida na Praça da Sé, em São Paulo (SP), durante evento das Diretas Já, em 1984. O público podia acompanhar no placar quais deputados votavam a favor ou contra a emenda que poderia garantir a volta das eleções diretas para presidente.


FONTE: Luiz Carlos Murauskas/Folhapress

278


Nas últimas décadas do século XX, os movimentos sociais se multiplicaram. Em nome do direito à cidadania, pressionaram prefeitos, governadores e o governo federal a atender suas reivindicações. A transformação das necessidades da população em direitos é um dos aspectos fundamentais dos movimentos sociais.
A antropóloga e cientista política brasileira Eunice Durham (1932-) analisa que, desde a construção do Brasil como nação, o povo brasileiro esteve submetido a relações autoritárias e à política da troca de favores com seus representantes ou governantes, o que contribuiu para enfraquecer os direitos de cidadania. A importância de elevar as necessidades das classes populares à conquista de direito - à moradia, ao trabalho, à saúde, à educação, entre outros - está em assegurar que tais questões sejam tratadas na esfera pública, não na esfera privada.
LEGENDA: Professores da rede municipal de ensino ocupam plenário da Câmara municipal de Ouro Preto (MG), em paralisação pelo pagamento do piso salarial. Foto de 2014.
FONTE: Eliseu Damasceno/Futura Press
A transformação de necessidades em direitos graças à pressão legítima dos movimentos sociais redefiniu a cidadania.
Boxe complementar:
Movimentos sociais contemporâneos no Brasil
Um panorama geral dos movimentos sociais no Brasil de hoje é tecido pela socióloga brasileira Maria da Glória Gohn (1947-) em seu livro Movimentos sociais no início do século XXI (2011), centrado em dez eixos temáticos de lutas:

1. Movimentos nucleados na questão da moradia em defesa das condições de habitabilidade na cidade, em três frentes: articulação de redes sociopolíticas, movimentos populares dos sem-teto e contra a violência urbana (no trânsito, nas escolas, patrimônio público, entre outros lugares).


2. Estruturas institucionais de participação na administração pública (orçamento participativo e conselhos gestores, por exemplo).
3. Recuperação de estruturas ambientais e de equipamentos e serviços coletivos degradados.
4. Movimentos contra o desemprego, a favor do trabalho.
5. Solidariedade e apoio a programas com crianças e adolescentes nas ruas, usuários de drogas, pessoas com doenças crônicas e com deficiências.
6. Movimentos dos sem-terra na área rural, articulados com as cidades.
7. Movimentos étnico-raciais (indígenas e negros).
8. Movimentos envolvendo questões de gênero e de orientação sexual (mulheres, homossexuais e transgêneros).
9. Movimentos rurais pela terra, reforma agrária e acesso ao crédito para assentamentos rurais.
10. Lutas contra as políticas neoliberais e os efeitos da globalização.

Fim do complemento.


279
Debate



Há muitas formas de exclusão - as que se baseiam na renda, na inserção ocupacional, na etnia, no gênero -, e todas implicam discriminação social. Na leitura a seguir, são apresentadas as condições de ausência de cidadania que penalizam indivíduos e grupos na sociedade contemporânea:
[...] os desempregados de longo prazo; os empregados em empregos precários e não qualificados; os velhos e os não protegidos pela legislação; os pobres que ganham pouco; os sem-terra; os sem habilidades, os analfabetos, os evadidos da escola; os excepcionais físicos e mentais; os viciados em drogas; os delinquentes e presos; as crianças problemáticas e que sofrem abusos; os trabalhadores infantis; as mulheres; os estrangeiros, os imigrantes e refugiados; as minorias raciais, religiosas e em termos de idiomas; os que recebem assistência social; os que precisariam, mas não têm direito à assistência social; os residentes em vizinhanças deterioradas; os pobres que têm consumo abaixo do nível considerado de subsistência (sem-teto e famintos, entre outros); aqueles cujas práticas de consumo e lazer são estigmatizadas; os que sofreram mobilidade para baixo; os socialmente isolados; os sem amigos ou sem família.
SILVER, Hilary. Apud DUPAS, Gilberto. Economia global e exclusão social: pobreza, emprego, Estado e o futuro do capitalismo. São Paulo: Paz e Terra, 1999. p. 21.
· Discuta com seus colegas: que ações de movimentos sociais no Brasil e no mundo vocês acham que podem ajudar a melhorar a situação das pessoas em cada uma dessas condições? Por quê?
Movimentos sociais latino-americanos e o Estado neoliberal
Em meados dos anos 1970, as economias dos países desenvolvidos e também das nações da América Latina foram atingidas por uma crise mundial provocada pelo mercado do petróleo. Quando os países produtores do Oriente Médio uniram-se para fixar um volume de extração de petróleo, o custo dessa matéria -prima subiu, levando a uma queda de lucratividade no sistema capitalista. Essa crise contribuiu para fragilizar as ditaduras, principalmente por obrigar os Estados a modificar sua política econômica, pois os empréstimos externos ficaram mais escassos e os juros internacionais, mais caros. Setores conservadores passaram, então, a defender a proposição neoliberal, ou seja, a redução da participação do Estado nos assuntos econômicos, como visto nos Capítulos 5 e 8.
Glossário:
juro: de forma simplificada, é o valor do dinheiro comercializado. Ou seja, é a remuneração adicional paga por um indivíduo, instituição ou país que tomou um empréstimo ou comprou algo a prazo àquele que financiou o valor, ou seja, o tomador do dinheiro precisa pagar o montante original acrescido de um percentual a título de remuneração (o juro). Quando os juros sobem, o valor a ser pago por novos empréstimos também sobe.
Fim do glossário.
LEGENDA: Filas para comprar combustível após o súbito aumento do preço do barril de petróleo. Foto de 1973 na cidade de Nova York (EUA).
FONTE: AP Photo/Marty Lederhandler/Glow Images

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Para compreender a adesão mundial ao neoliberalismo - especificamente, de muitos países latino-americanos - é preciso considerar dois fatores ocorridos nos anos 1980 e 1990. Países da América Latina viram a inflação se elevar e a atividade econômica estagnar ou cair, ao mesmo tempo. Também as relações de forças entre as nações alteraram-se com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1991, e o abandono do sistema socialista - o único que se apresentava como alternativa ao capitalismo - em boa parte dos países que o adotavam. Abriu-se a possibilidade para a aceleração da globalização da economia capitalista e o fortalecimento da ideologia neoliberal.
As políticas neoliberais apresentam ações que tendem a reproduzir as desigualdades sociais, restringindo os direitos, tais como a estabilização monetária mediante o controle dos salários, a redução dos gastos públicos e a liberalização dos preços de venda das mercadorias. Por isso, vários movimentos sociais contrários aos efeitos da implantação dessas políticas constituíram-se na América Latina, desde o século XX até a atualidade.
Na Argentina, por exemplo, as políticas neoliberais provocaram a diminuição drástica da participação do setor industrial na economia e mudanças nas relações de trabalho que afetaram milhões de trabalhadores e parcelas da classe média. Isso ocasionou a formação de movimentos exigindo mudanças na política econômica do país, como o dos cartoneros (catadores de papelão) e o dos piqueteros (piqueteiros), que reunia trabalhadores desempregados. Constituíram-se formas de organização alternativas, como as cooperativas de trabalhadores para gerir empresas desativadas pelos patrões durante a crise que o país enfrentou a partir de 2001. Segundo o sociólogo argentino Héctor Palomino, a base desses movimentos estava em exigir do Estado o atendimento às necessidades de subsistência da população.
No México (mais precisamente no estado de Chiapas), no Equador e na Bolívia, destacaram-se os movimentos indigenistas. Esses movimentos buscavam alterar a relação entre o Estado e as comunidades indígenas - das quais provém parcela significativa da população desses países -, a fim de que estas obtivessem maior autonomia, reconhecimento e poder. Compostas de setores indígenas e das classes trabalhadoras (notadamente as camponesas), essas organizações sociais se colocaram contra as imposições de um sistema econômico excludente, que mantém parte da população em estado de pobreza. Além disso, valorizaram a diversidade cultural, em contraposição à homogeneização direta e indiretamente promovida pela economia globalizada.
Atualmente, muitos movimentos sociais combatem as novas formas de desigualdade e pobreza provocadas pelas políticas neoliberais.
LEGENDA: Manifestantes participam, em fevereiro de 2008, de cerimônia em La Paz, capital da Bolívia, em favor da nova Constituição do país, aprovada por referendo popular no ano seguinte. Entre outras mudanças, o texto concede mais autonomia aos povos indígenas e repudia toda forma de discriminação.
FONTE: Gaston Brito/Reuters/Latinstock
LEGENDA: Congresso Nacional Indígena ocorrido na Cidade do México, em 2014.
FONTE: Cristian Estrada/Politicasmedia 2014

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Pesquisa

Faça uma pesquisa para saber como, na América Latina, os movimentos sociais contemporâneos enfrentam a situação de exclusão e marginalidade das populações pobres. Busque exemplos em jornais, na internet ou em outros meios de comunicação. Os resultados da pesquisa, sistematizados por escrito, devem ser compartilhados oralmente com a turma.

A exclusão social e os movimentos sociais na atualidade

Os processos que excluem parcelas da população do acesso aos serviços e aos bens de consumo podem ser compreendidos no contexto das contradições do capitalismo, que apresentam os limites do próprio sistema ao dispensar trabalhadores e poluir o ar, o solo e a água do planeta, por exemplo. Nesse sentido, os movimentos sociais se configuram como tomada de consciência por parte dos que vivem sob essas contradições.
As muitas configurações da exclusão
O sociólogo francês Robert Castel (1933-2013) faz a seguinte interpretação da exclusão social:

Não há ninguém fora da sociedade, mas um conjunto de posições cujas relações com seu centro são mais ou menos distendidas: antigos trabalhadores que se tornaram desempregados de modo duradouro, jovens que não encontram emprego, popu - lações mal escolarizadas, mal alojadas, mal cuidadas, mal consideradas, etc. Não existe nenhuma linha divisória clara entre essas situações e aquelas um pouco mais aquinhoadas dos vulneráveis que, por exemplo, ainda trabalham, mas poderão ser demitidos no próximo mês, estão mais confortavelmente alojados, mas poderão ser expulsos se não pagarem as prestações, estudam conscienciosamente, mas sabem que correm o risco de não terminar... Os "excluídos" são, na maioria das vezes, vulneráveis que estavam "por um fio" e que caíram. [...]. Os "excluídos" não têm nada a ver com a escolha de uma política de flexibilidade das empresas, por exemplo - salvo que sua situação é, concretamente, a consequência dessa escolha. Encontram-se desfiliados.

CASTEL, Robert. As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário. Petrópolis: Vozes, 1998. p. 569.
A realidade descrita no trecho acima é a da "nova pobreza" presente na nossa sociedade, que atinge aqueles considerados "inúteis", "descartáveis", "invisíveis", dispensados do trabalho e impedidos de se inserir socialmente por meio dele. Trata-se de indivíduos e grupos que são "desligados" do sistema capitalista, mas que continuam dependentes de sua dinâmica.
Os fenômenos da inclusão e da exclusão sociais estão atrelados ao modo como a sociedade se organiza e concebe as diferentes responsabilidades de suas instituições, sobretudo as do Estado, ou seja, de como a sociedade considera a integração social. Inclusão e exclusão são lados da mesma moeda: ao mesmo tempo que há indivíduos e grupos deixados "de fora", outros se adaptam às condições de reprodução capitalista, ou seja, estão incluídos e usufruem a riqueza produzida. Aos excluídos, por sua vez, é vedada a possibilidade de desfrutar de bens e oportunidades, o que faz com que tenham condições de vida adversas.

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LEGENDA: Famílias sem-teto desocupam edifício no Rio de Janeiro (RJ), após intervenção policial, em 2015.
FONTE: Tânia Regô/Agência Brasil
Embora integradas pelas novas tecnologias de informação e de telecomunicações (internet, informatização, telefonia celular, entre outros meios), as ações na sociedade contemporânea provocam também a exclusão de países, regiões, cidades, bairros, grupos e comunidades. A nova lógica dominante do espaço ignora as áreas consideradas sem valor pelo capitalismo informacional, como regiões das Américas, da Ásia e boa parte da África. Sua população acaba sem infraestrutura tecnológica básica que lhe permita se comunicar, inovar, produzir, consumir e viver, situação que perpetua sua exclusão.
Boxe complementar:
A integração social em perspectiva
Émile Durkheim (1858-1917) considerava a integração social um imperativo para a existência e manutenção da sociedade. A integração social é a tendência de a sociedade manter-se com um grau baixo de confl itos quando suas partes se integram num todo harmonioso. Em uma sociedade pré-capitalista, isso ocorre pela chamada solidariedade mecânica, instituída pela semelhança entre os indivíduos, que executam as mesmas tarefas e, por isso, unem-se em torno dela.
Com o desenvolvimento da sociedade industrial moderna, ocorre a especialização de funções - a chamada divisão do trabalho social. Para Durkheim, nessa sociedade manifesta-se a solidariedade orgânica: como dependem uns dos outros para complementar suas funções, os indivíduos manteriam a coesão social. Porém, sem que se regule a divisão do trabalho, a sociedade fica sujeita a conflitos. Por causa desse aspecto, críticos de Durkheim alegam que sua teoria da integração estaria a serviço da ordem social e do poder vigente.
O decorrer da história mostra que diversos obstáculos - valores, costumes, tradições e ideologias que regem as relações entre as pessoas - impossibilitam, muitas vezes, a integração social harmoniosa e abrangente. O sociólogo brasileiro Florestan Fernandes (1920-1995) estudou, em 1953, o preconceito racial e a integração do negro à sociedade paulista num momento de transição da sociedade agrária escravista para uma capitalista urbana. Fernandes identificou a existência tanto de condutas e crenças internalizadas, que perpetuavam a exclusão social, quanto novas condições (como os concursos públicos, impessoais), que abriam brechas para a integração social dos afrodescendentes.
Os movimentos sociais reagem aos componentes de desintegração reunindo excluídos de mesma natureza. Na sociedade globalizada, a integração ocorre na heterogeneidade e nas particularidades locais, sociais e culturais, em uma comunidade de interesses que não se deve mais apenas à proximidade física ou pelo consenso nas ideias, mas pela diferenciação social e cultural.
FONTE: Filipe Rocha/Arquivo da editora
Fim do complemento.
283
Boxe complementar:

Intelectuais leem o mundo social

Em 2012, o cientista político Emir Sader (1943-) afirmava que a crise geral do capitalismo de 2008 voltava "como um bumerangue":

Ao salvar os bancos - ação que detonou a crise e foi o seu epicentro -, os governos acreditavam que salvariam as economias e os países. [...] a crise voltou como um bumerangue, tendo agora diretamente os governos como epicentro, pressionados pelo sistema bancário e pelos organismos que expressam seus interesses: FMI e Banco Central Europeu. Primeiro, em 2008, faliram bancos e outras instituições financeiras; depois foram os países, tendo a Grécia como caso paradigmático e que estende sua sombra sobre quase todos os Estados da zona do euro. [...]


As respostas se deram no marco das políticas neoliberais dominantes, combatendo centralmente os deficit públicos, e não os efeitos econômicos e sociais dessas políticas: a recessão e o desemprego. [...]

LEGENDA: Jovens inspirados no movimento Occupy Wall Street, em Bolonha, Itália, em 2011.


FONTE: Silvia Morara/Corbis/Latinstock
Se no primeiro ciclo da crise capitalista, em 2008, não houve grandes mobilizações populares, em 2011, surgiram novos protagonistas, entre eles os Indignados e os "ocupas". Os primeiros, nascidos na Espanha, onde tiveram sua expressão mais significativa de protesto contra as elites políticas, o esvaziamento da democracia liberal e a exportação da crise para o conjunto da população. Os "ocupas", surgidos em Nova York, estenderam-se para dezenas de cidades norte-americanas, além de Londres, e dirigiram-se mais diretamente aos bancos, difundindo a versão da oposição entre o 1% dominante e a grande maioria, os 99%. Ainda não são movimentos com grande apoio popular, mas têm um peso simbólico importante, que pode funcionar como uma chispa para estender a resistência aos ajustes neoliberais.
O movimento estudantil chileno conseguiu transformar suas reivindicações específicas - luta contra a privatização da educação - num tema nacional [...].
A Primavera Árabe trouxe um elemento novo à região: sua participação popular estava como que congelada e, de repente, multidões ocuparam praças para derrubar ditaduras. O movimento, iniciado em 2011, ainda deve ter longos desdobramentos [...] os processos em países como a Tunísia e o Egito estão longe de terminar.
SADER, Emir. Crise capitalista e novo cenário no Oriente Médio. In: HARVEY, David et al. OCCUPY: movimentos de protesto que tomaram as ruas. São Paulo: Boitempo; Carta Maior, 2012. p. 84-86.
· Com base nas informações do texto de Emir Sader, pesquisem matérias publicadas na mídia impressa e na internet sobre os movimentos surgidos a partir da crise de 2008. A partir das informações do texto e do material pesquisado, em equipes, reflitam e discutam sobre as questões abaixo:
a) Como explicar tão distintas manifestações populares ocorridas em diversas partes do mundo, seus reflexos e efeitos subsequentes? Há algo em comum entre elas? Essas mobilizações podem ser caracterizadas como movimentos sociais? Como analisá-las em conjunto com outros exemplos, incluindo no Brasil, em 2013, expressando uma frustração política de diferentes matizes?
b) Compilem anotações de sua pesquisa e apresentem-nas para a turma.
Fim do complemento.

284


Movimentos sociais na era da globalização
A intensificação, em escala mundial, das relações sociais na esfera político -econômica tende a favorecer a disseminação de causas sociais, gerando novos movimentos. Desse modo, acontecimentos locais - por exemplo, uma manifestação grevista - podem ser modelados por eventos desencadeados a milhares de quilômetros de distância.
Na era da globalização, a diversidade de movimentos sociais é enorme: há os de gênero, os étnicos, os ecológicos, os que buscam suprir as necessidades coletivas, entre outros. Nas últimas décadas, muitos deles se institucionalizaram, entraram em crise, desapareceram ou se transformaram, e um resultado disso é a proliferação das organizações não governamentais (ONGs) nos anos 1990.
[AS ONGS] desenvolvem projetos com as populações demandatárias [isto é, que necessitam] de bens e serviços, organizando-as em movimentos sociais. Para entrar em operação, tais projetos necessitam de qualificação, avaliações para que ganhem continuidade, etc. Ou seja, a ação coletiva de pressão e reivindicação, antes presente na maioria dos movimentos sociais latino-americanos, converteu-se nos anos [19]90 em ações voltadas para a obtenção de resultados, em projetos e parcerias que envolvem diferentes setores públicos e privados. Para complicar o cenário, a globalização e as mudanças na conjuntura política do Leste Europeu levaram a alterações nas políticas de cooperação internacional. As agendas das instituições internacionais deixaram de priorizar o desenvolvimento de projetos na América Latina - por considerarem que a transição para a democracia já se completara - e mudaram o sentido de seus programas. Estes devem demandar subsídios financeiros a seus próprios governos e, fundamentalmente, gerar receitas próprias. [... ] Os movimentos e as ONGs que sobreviveram se qualificaram para a nova conjuntura em termos de infraestrutura e do uso de modernos meios de comunicação, como a internet. A tecnologia chegou aos movimentos sociais e a institucionalização de setores e áreas das demandas e lutas é uma necessidade imperiosa para a sua sobrevivência.
GOHN, Maria da Glória. Teoria dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâneos. 3ª ed. São Paulo: Loyola, 2002. p. 17-18.
FONTE: Filipe Rocha/Arquivo da editora
Os movimentos sociais defendem os direitos e a cidadania: revelam novos valores, debatem questões como equidade e justiça social, propõem novas relações entre o Estado e a sociedade civil, reconhecem diferenças e conflitos inerentes à vida organizada em sociedade.
Com as transformações políticas, econômicas e sociais trazidas pela globalização, uma parcela dos movimentos passou a lutar contra o neoliberalismo. Movimentos globais de contestação questionam o favorecimento do comércio em detrimento dos valores humanos e dos direitos sociais, por aprofundar o quadro de exclusão social. Uma dessas ações que adquiriram visibilidade, reunindo vários movimentos sociais, foi o Fórum Social Mundial.
De caráter internacional, o Fórum Social Mundial se contrapôs às elites econômicas internacionais que se reúnem todos os anos no Fórum Econômico Mundial (FEM), em Davos, na Suíça, para discutir e tomar decisões sobre a economia mundial. Enquanto o foco da reunião do grupo de países desenvolvidos com maiores economias (G-8) e do FEM é o capital, a otimização dos lucros e os mercados mundiais, o Fórum Social Mundial tem por objetivo repensar o social e buscar alternativas para impedir e reverter a degradação das condições de vida no mundo
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