Maria Iara Santos Deodoro



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3.2.4 Superando seus Limites

Após o terceiro encontro que foi de muita emoção e descobertas, passei a semana muito aflita, para reencontrar com o grupo novamente para saber: como haviam passado a semana, qual o real efeito do encontro anterior, se é que havia causado algum. Mas no sábado, a chegada das mulheres mostrou-se que houve modificações sim. Percebi na maioria das mulheres a mudança, em algumas no andar, outras no vestir, no sentar, não sei, não consigo traduzir com palavras o que me foi dito com o corpo, até porque apesar de ser passível de tradução, a linguagem corporal necessita de tempo e estudo para entendermos o significado dos gestos. Como salienta Weil (2007) um


“dicionário total”, ainda que fosse exeqüível, dificilmente bastaria para você aprender a “ler” as atitudes corporais... Não é fácil chegar até a base, tal a quantidade de “assinatura” que lhe escondem o seu “alfabeto”. Precisamos ir devagar.” (2007: 20).
O autor nos traz o quanto é difícil, mas não impossível, compreender a linguagem corporal em oposição à síntese didática de um livro, o que desde muito pequenos fomos treinados através da alfabetização para compreendê-lo, diferente do alfabeto das atividades corporais, que em muito facilitaria nossas relações se tivéssemos desenvolvidas as duas habilidades. Assim teríamos a compreensão das partes para entendermos melhor o todo, referendando o princípio sistêmico de Morin (2000), ou seja, nosso entendimento ser humano seria pelas duas linguagens: falada e corporal.

Confesso que imediatamente fiquei tentada a continuar com o assunto anterior, uma vez que causou um efeito tão bom, mas optei em manter o planejado. Trouxe para o grupo a lenda “Oiá Transforma-se em Elefante” (anexo 02), o texto lido por Keila nos falou de determinação e superação, o grupo com muita facilidade o entendeu e o objetivo desse texto era perceber os momentos em que a superação estava presente em suas vidas e quantas vezes deixaram de realizar algo por falta de determinação. A partir das nossas reflexões sobre da lenda lida, surgiram relatos pertinentes ao tema, dentre eles uma das mulheres colocou: “Eu sempre fui de fazer muitos planos, todos ao mesmo tempo, e nunca consegui faze nada. Eu não sô de insisti muito, eu tento e quando não dá eu mudo para outra coisa.” (Zâmbia, 25 anos e 1 filho).

O relato acima mostra que Zâmbia tem dificuldades de auto-eco-organizar-se, e em conseqüência disto não consegue priorizar suas necessidades e realizá-las. A reflexão em grupo fez com que ela percebesse como se auto-organizar, notado por sua fala seguinte, “mas agora entendi, tenho que ter metas, escolho qual é a mais importante e faço até o fim, depois pego a outra.” A partir do que conversamos no grupo, Zâmbia percebeu que tem que ir aos poucos, estipular uma meta e ir até o fim, e só pensar em estipular outra depois de realizar a anterior.

Para testar a capacidade de determinação na busca da superação propus uma dinâmica, onde cada uma deveria entrar em um cercado de caixas com uma única abertura de entrada, uma cadeira do lado de dentro e outra do lado de fora, com apenas três regras para poder sair: Não poderia utilizar a mesma abertura de entrada; não poderiam derrubar as caixas; não poderia retirar as caixas do chão.

Algumas utilizaram-se da maneira mais difícil, outras encontraram o meio mais fácil, mas todas saíram. Aproveitando que a dança não é uma prática comum na vida delas, utilizei-me dela pra lançar mais um desafio, terminei nosso encontro com uma atividade de dança que exigiu delas muito raciocínio rápido e coordenação, para realizar movimentos seqüenciais. O paradigma da complexidade explica a ação das mulheres, dentro da cibernética30 e finalismo31 com dois fenômenos: o Mecanicismo32 (causa e efeito) que é a forma que administram-se os contratempos para chegar em algum lugar; e a Teleologia (causa final) que é a realização focando o final. E assim elas agiram, administrando cada uma do seu modo os contratempos impostos, e ao mesmo tempo estabeleceram uma meta, chegaram ao final.

Desta forma o objetivo desse encontro foi atingido, pois elas perceberam que são capazes de enfrentar muitos desafios, mas que também devem respeitar e conviver com seus limites, mas nunca antes de testá-los.


3.2.5 Visível ou invisível, a dor é real

O quinto e sexto encontros trouxeram para o grupo o tema saúde. Dividi a temática propositalmente em dois momentos, por entender da necessidade de abordar os mais variados tipos de doenças e dar um maior destaque para a saúde mental, espiritual e saúde feminina, abordando maternidade e sexualidade.

Para tanto contei com a colaboração de estudantes de enfermagem, nutrição e psicologia da UFRGS33 (Programa Conexões de Saberes) formando uma equipe interdisciplinar, que segundo Lück:
“A interdisciplinaridade, no campo da ciência corresponde necessidade de superar a visão fragmentadora de produção de conhecimento como também de articular e produzir coerência entre múltiplos fragmentos que estão postos acervo de conhecimentos da humanidade. Trata-se de um esforço no sentido de promover a elaboração de síntese que desenvolvam a contínua recomposição unidade entre as múltiplas representações da realidade.” (1994:59).
Neste sentido, a interdisciplinaridade faz-se necessária para auxiliar no desenvolvimento e funcionamento de cada disciplina dentro do conhecimento, interage com a outra visando o mesmo propósito que no caso do grupo das mulheres foi de levar as informações correspondentes cada disciplina para instrumentalizar auto-ecoorganização das participantes.

Essa equipe trouxe para o grupo, informações preciosas de como acessar alguns programas públicos de saúde, como prevenir e/ou controlar doenças como: hipertensão, diabetes, osteoporose, anemias, cânceres femininos etc, trabalhamos também duas lendas que tratam do assunto.

“Obaluaê tem suas Feridas Transformadas” (anexo 03), foi a lenda utilizada o quinto encontro, este é o orixá vinculado á saúde, doença, morte e vida, também conhecido aqui no Rio Grande Sul como Xapanã. Nessa dialógica o Orixá vincula acontecimentos antagônicos presentes no nosso dia-a-dia que deveriam se excluir, mas são inseparáveis durante a nossa existência como humanos. Durante a reflexão sobre a história de Obaluaê as mulheres falaram das feridas escondidas pelas palhas da roupas do Orixá, isso serviu de janela para falarmos das nossas feridas escondidas, feridas que ninguém vê, só sentidas por quem as tem. Algumas das mulheres conseguiram falar de suas feridas, enquanto outras apenas escutavam os relatos das companheiras, mas estampadas em suas faces estavam a dor de suas feridas, lembradas e mexidas naquele momento. Angola relatou:

Acho que a ferida que mais dói quando lembro e que me acompanha por muitos anos é a mágoa que tenho da minha mãe, ela me deu pra minha avó quando eu tinha três anos e só fui encontrar com ela de novo quando eu tinha dezoito anos, eu tava grávida de três meses e ela chegou na casa da minha avó dizendo que era minha mãe, eu nem lembrava mais dela. Hoje ela até aparece na minha casa, pra me visitar, ver os netos, mas é uma estranha pra mim, não tenho nenhum sentimento por ela, só revolta.”(Angola, 28 nos, 2 filhos.)

Perguntei então, como curar essas feridas? O silêncio instaurou-se entre nós, cabeças baixas, olhos molhados, feridas mexidas, sangrando, doloridas. Baixinho Chade, (20 anos, 1 filha) disse: “acho que não tem cura, tem que deixar elas quietas para não doer”. As vezes ta tudo bem, do nada ele fica brabo com alguma coisa, se eu não faço o que ele qué, ele já vem me batendo. Se eu não aceito aquilo e avanço nele, ele me bate de novo, eu sempre que tenho que pará por causa da guria, mas a vontade que eu tenho é de deixá ele arriado no chão.” Esta fala retrata a forma que a maioria das mulheres estão acostumadas a lidar com seus problemas, não mexer para não desencadear outros problemas, com a probabilidade de se transformar em violência, instaurando uma relação de retroatividade que segundo Morin, 2003: 35: “As retroações positivas são a ruptura da regulação do sistema e a ampliação de determinada tendência ou desvio para uma nova situação incerta.” Ou seja violência provoca mais violência.

Voltamos á historia de Obaluaê que mesmo com vergonha e medo de ser novamente humilhado entrou na festa, enfrentando á todos. Isso não significava que a ferida da vergonha tenha sido curada, mas ele começou a enfrentar o seu problema. Com essa reflexão algumas mulheres começaram a perceber a importância se auto-ecoorganizarem para enfrentar suas mais profundas dores.

O objetivo foi alcançado, elas perceberam que essa dor que era só delas é uma doença, e como esta deve ser tratada, e que não é algo tão simples como elas classificaram, o remédio de “não mexer”. Ao contrario, ele tem que ser discutido, enfrentado, pois se isso não levar á cura total, com certeza ao menos vai amenizar a dor e também trazer paz para conviver com a dor e consigo mesma, desta forma cuidando da própria saúde mental.

Como esse encontro foi um tanto tenso, pois reviveu sentimentos profundos e doloridos, terminamos com exercícios de relaxamento que serviu também como exemplo de promoção de saúde.

Já no segundo encontro sobre saúde (o sexto ao todo) aproveitei que era véspera do dia das mães e trabalhamos com a lenda de Iemanjá ( a grande mãe dos Orixás, símbolo maior de maternidade), “Iemanjá Vinga seu Filho e Destrói a Primeira Humanidade” (anexo 04). A partir da leitura da lenda, que normalmente é lida pela minha supervisora Keila, abriu-se espaço para reflexões sobre maternidade e tudo que dela depende, assim como a espiritualidade.

Assim como Iemanjá na lenda, as mulheres colocaram-se capazes de qualquer coisa para defender seus filhos, que a maternidade não modifica só o corpo, tudo fica diferente, uma força sobrenatural invade a mulher, sendo ela capaz de ações inexplicáveis em prol do filho. O medo de errar na educação e de não entender e identificar onde está o erro. Namíbia (30 anos, 2 filhos) disse: “é muito difícil ser mãe, eu não quero ser como minha mãe foi, não quero ter um monte de filhos para estar sempre faltando as coisas, com os meus dois já ta de bom tamanho, criando os dois sozinha eu já faço milagre, mas não deixo faltar nada para eles, eles não vão passar pelo que eu passei”. O relato citado denota a monoparentalidade e a busca por uma nova organização, diferente daquela que vivenciou com a mãe, essa mulher procura a auto-ecoorganização para dar conta de sua família.

Retomamos um pouco do que foi falado no encontro anterior sobre as feridas invisíveis e a Keila falou da consciência, da importância em saber o que não quer fazer, quando julgar algo errado procurar não repetir, e que o espaço do grupo serve para que todas juntas possamos refletir sobre as nossas dúvidas.

Como estávamos falando de maternidade, entramos no assunto da sexualidade, foi um momento de grande tumulto, todas riam e falavam ao mesmo tempo, aos poucos fui conseguindo acalmá-las e falamos sobre o direito ao seu próprio corpo e desejos sexuais. Surgiram relatos incríveis, inicialmente tímidos, mas logo sentiram-se a vontade de falar intimidades como Luanda: “eu nunca tive coragem de dizer pro meu marido que estava com desejo, sempre espero por ele.”;Chade: “quando não estou a fim eu não digo, finjo” ou, “eu odeio transar depois de apanhar, mas se não vou é pior”. E assim seguiram os relatos.

Esse foi o momento mais constrangedor que vivenciei no grupo. Não sabia o que dizer para aquelas mulheres que estavam se despindo e mostrando todo o seu sofrimento na minha frente. Não era o sofrimento de mãe, aquele que se compartilha com uma vizinha, uma amiga até mesmo com uma simples conhecida da família no supermercado; era o sofrimento da mulher e sua intimidade, a mesma mulher que venho provocando para que compareça em nossos encontros, e agora, não existe receita mágica para isso, foi provocada tem que ser trabalhada, apesar da minha momentânea excitação,

Diante daquele sofrimento, me auto-organizei e neste momento, percebi que estava no caminho certo, pois estava diante de um conjunto de fatores que correspondiam com os objetivos do grupo, mas talvez o mais forte deles era o fato de que aquelas mulheres queriam tudo aquilo que eu propus no primeiro encontro, ao ponto de revelarem os seus segredos mais íntimos e doloridos na perspectiva de uma auto-ecoorganização. Com a escolha desse tema, as mulheres sinalizaram a percepção da sua existência como sujeito singular e subjetivo e a partir dessa percepção, se mostra para o outro que começa a percebê-la.

E isto sim, o grupo pode proporcionar a elas, conhecimento, informação, reflexões que ajudem a rever seus princípios, passado por uma morfogênese que no paradigma da complexidade é o processo que incorpora coisas novas, reorganiza a forma de pensar. É isto o que essas mulheres precisam, incorporar novos conhecimentos as suas vidas, não ficando mais presas no que culturalmente lhes fora passado.

Quando já estávamos finalizando nossa conversa a Benin (30 anos, 3 filhos) perguntou: “Iara, no início tu falou em espiritualidade, o que tem a ver com saúde?” Expliquei a elas que o nosso corpo tem que nutrir-se com alimentos para não adoecer e sobreviver, nossa alma também precisa alimentar-se para não adoecer e ela se alimenta da nossa fé, nossa religiosidade (independente da religião) e de ações que nos deixam felizes como, por exemplo, dançar. Aqui no grupo nós alimentamos nossa alma toda a semana através das lendas, que nos fazem conhecer um pouco da história dos orixás e quando dançamos é outra forma de alimentarmos nossa alma, nosso espírito que diferente do corpo, não podemos vê-lo alimentado, mas podemos sentir através da nossa paz interior.

Neste dia terminamos nosso encontro com a dramatização da lenda da Iemanjá, onde pude observar que o objetivo de refletir sobre a maternidade, seus direitos sexuais, assim como a espiritualidade. A outra saúde foi assimilada e apresentada na dramatização.


      1. Apropriação do Espaço

A proposta neste sétimo encontro foi de permitir que as mulheres escolhessem o tema, assim como acontece no segundo encontro com o mesmo objetivo de observar como elas após alguns encontros estão apropriando-se do seu espaço de ser mulher. Foi uma grata surpresa pois elas, após um tempo de conversas entre si, chegaram em um consenso e o assunto escolhido foi “como eu me vejo hoje”.

Com a escolha deste tema as mulheres sinalizaram a percepção de sua existência, como sujeito singular e subjetivo, onde o pronome “Eu” é inserido no seu vocabulário pronome esse “que qualquer um pode dizer, mas ninguém pode dizê-lo meu lugar” (Morin, 2000: 120). Relacionando as mulheres do grupo com o que Morin nos aponta, percebo as mulheres se apropriando não só do espaço, mas também do seu “Eu” subjetivo, aquele que as identifica como únicas, mesmo que na multidão, não se refere a mais de uma pessoa, pois nele está registrado como eu sou internamente, sendo assim, só eu conheço.

Então, cada uma fez o seu relato, fiquei apenas observando assim como a Keila e a Marilene que estavam presentes. Algumas visivelmente estavam em um processo de transformação bem adiantado, outras nem tanto, mas todas relataram que em alguma coisa, de alguma maneira não são mais as mesmas, incorporaram o processo de auto-ecoorganização pois já haviam recebido algumas informações e adicionado novas idéias em suas vidas para produzir a auto-organização. Foi neste momento que a Luanda retoma a sua fala do primeiro encontro, quando disse: “gurias temos que participar do grupo da tia Iara, ela sempre nos ajudou, cuida dos nossos filhos com tanto carinho, agora ela precisa de nós.”

Ao lembrar a frase dita ela completa: “Quando eu disse isso pensei que eu fosse pagar um pouco da dívida de gratidão com a tia Iara, hoje me dou conta que não paguei a dívida e to devendo mais ainda. Esse grupo mudou minha vida totalmente, todo mundo já notou, meu marido não sai mais tanto como antes, e ele está até desconfiado e diz que não pode ser as minhas vindas no Odomode que me modificou tanto. E eu to aproveitando, né gurias!”. Outro relato interessante foi o da Uganda (32 anos, 3 filhos) que disse: “Fazia muito tempo que eu não saia com meu marido, por causa do meu filho que não quer ficar com ninguém pra gente poder passear sozinhos, e agora pela primeira vez, depois de quatro anos eu saí para namorar e deixei ele com a avó dele, ficou choramingando, dei um beijinho e saí. Foi uma noite maravilhosa.”

A Mali, que pouco falava, se pronunciou dizendo: “Nunca deixei faltar nada pros meus filhos e netos, crio eles desde bebezinhos, eu podia estar muito bem por que o que eu ganho daria muito bem para mim, mas com as crianças fica mais difícil, por isso nunca comprei nada para mim, só mesmo o necessário. Mas esta semana eu fiz uma loucura, comprei um perfume da Natura que tenho paixão, gastei vinte reais, mas me fez tão bem o presente que eu me dei. Se não fosse o grupo, as nossas conversas, nunca que eu faria isso.”

Os relatos acima denotam a auto-eco-organização das mulheres, cada uma da sua forma, com suas próprias estratégias em suas redes de apoio, mas todas obtiveram o objetivo a seu favor. Mostrando que realmente se apropriaram do espaço reservado a elas, estabelecendo uma relação de recursividade. Após os relatos, eu expressei minha alegria em vê-las transformando-se e permitindo-se realizar seus desejos. Mas não foram apenas elas que foram beneficiadas com o grupo, eu também aprendi muito com elas e algumas mudanças extremamente significativas também surgiram na minha vida. Creio que meu maior beneficio foi a partir dos encontros do grupo, passei a me permitir reservar um tempo só para mim, mesmo que não tenha nada para fazer, o tempo é meu, mesmo que seja para ver um filme ou ler um livro

Para terminarmos, como não utilizamos lendas, a professora Marilene propôs uma dinâmica de auto-estima, onde formamos uma roda e uma a uma entrava para o centro do círculo enquanto as outras falavam o que de bom percebiam na companheira, assim foi feito até que todas tenham entrado na roda e recebido palavras de estímulo, provocando assim a elevação da auto-estima.

Percebo neste encontro, o quanto estão diferentes as mulheres dos nossos primeiros encontros, apropriadas do espaço, do grupo e da instituição a qual transitavam sem o menor problema. Não existiam barreiras como portas, armários, tudo o que tinha na instituição já era bastante familiar. Assim como no grupo a resistência de comunicação entre as mulheres já não existia mais. A dinâmica da Professora Marilene Paré veio para reforçar que elas estão no caminho certo e que as palavras ditas, umas para as outras, eram um estímulo para que todas continuem se auto-ecoorganizando. O objetivo proposto de as mulheres se apropriarem do espaço criado para elas, foi plenamente atingido.




      1. Direitos são para quem os conhece

O tema dessa semana foi justiça e direitos, com a participação de estudantes do curso de Direito da UFRGS (Conexões de Saberes) que trouxeram esclarecimentos de leis e direitos para o grupo. Foi aberto um espaço para perguntas e entre elas as mais freqüentes foram as relacionadas com moradia, previdência, direitos da dona de casa etc.

Após a palestra dos estudantes de Direito e dos debates, fizemos a leitura da lenda “Xangô é Reconhecido Como Orixá da Justiça” (anexo 05) sobre Xangô, orixá ligado á justiça e protetor de juízes e advogados.

O objetivo desse encontro foi informar ás mulheres de que elas têm direitos e tem que lutar por eles, exigi-los e para isso conhecê-los. Durante a palestra das estudantes foi enfatizado que todas nós somos sujeitos de direitos, mas também de deveres. Que as leis foram criadas e devem ser cumpridas, mas muitas vezes depende de nós para que isso aconteça, não devemos ficar acomodadas achando que é sempre a mesma coisa, que a regra é uma só: “Direito é só para quem tem poder.” E nesta fala da Benin, identifiquei um princípio muito comum entre as mulheres do grupo, o de universalidade no qual uma regra serve para todos, generaliza.

Na interpretação da lenda de xangô as mulheres focaram-se no senso de justiça, na difícil tarefa de saber identificar quem é quem, e assim elas trouxeram a amizade, confiança, traição e entrega como palavras-chave para reflexão.

Quando estavam falando em amizade, surge a história de Quênia (38 anos, 4 filhos) uma das mulheres do grupo que, a pouco tempo, teve seu apartamento incendiado pelo namorado, enquanto ela e três filhos dormiam. Se não fossem os vizinhos todos teriam morrido, provavelmente. Foi feita uma lista para que os moradores do condomínio residencial ajudassem, afinal, tudo fora queimado na casa, segundo algumas mulheres do grupo que articularam a lista. A surpresa do grupo foi com as atitudes de algumas pessoas que se diziam amigas da Quênia, as mesmas que saíam com ela para festas e para beberem, deixaram a própria Quênia chocada em saber que aquelas a qual julgava amigas não deram importância ao que tinha acontecido com ela. As colocações feitas foram no sentido de que ela ficasse alerta em relação a amizade, sair para beber e dançar não significa amizade, é preciso uma certa reserva.

O grupo serve justamente para isso, uns ajudar aos outros, como apontam Zimerman e Osório:

A reunião multifamiliar favorece e potencializa a emergência e a circulação do emocional. No encontro entre as famílias, as emoções adquirem grande intensidade e ressonância, sejam sentimentos de gratidão, reconhecimento e reconciliação, como também de raiva, enfado, decepção ou mal-estar. As possibilidades de contenção grupal se amplia, e cada pessoa agora está acompanhada e estimulada na expressão de seus próprios sentimentos, devido a ser testemunha e co-participante da expressão dos sentimentos dos demais.” (1997, p.294).
E neste contexto o grupo organizou-se em prol da Quênia, que sofria pelas perdas materiais, mas principalmente pela possibilidade de perda da própria vida e dos filhos e agora de quem julgava ser amigo. Após nossas reflexões, como de costume a prática tem lugar reservado, neste encontro, optamos pela dramatização.

O grande grupo foi dividido em dois subgrupos, no primeiro tinham seis mulheres que dramatizaram “Em Busca dos Seus Direitos”, situação vivenciada por elas quando houve a reunião de distribuição dos apartamentos do condomínio onde moram, pois antes era uma vila, chamada Vila das Placas e transformou-se em condomínio residencial. Durante o processo de construção dos apartamentos, algumas pessoas tiveram que ir morar em outro lugar, ficando apenas quem realmente não tinha esse lugar. Uma família que conseguiu abrigo com parentes saiu da vila tempo antes do solicitado. Um ano depois, os primeiros apartamentos foram entregues para as pessoas que ficaram morando no local, pois assim a área que eles estavam morando seria utilizada para a construção do segundo lote de apartamentos destinados aos moradores que estavam residindo fora dali. Foi feito uma reunião para comunicar o início oficial da construção do segundo lote e a primeira família que saiu, antes da solicitação, não constava mais na lista, pois os demais moradores acreditavam que por eles terem saído com antecedência, não tinham mais interesse no apartamento, assim, a pessoa responsável pela família teve que lutar muito para ser incluído novamente na lista dos apartamentos.

Benin que na época fez um grande movimento contra a família, hoje se dá conta do que fez e disse: Se eu tivesse os esclarecimentos que tenho hoje, através do grupo, é certo que eu até ia ajudar aquela família, mas eu achava que eles tinham abandonado tudo e não tinham o mesmo direito que a gente ficou ali, passando o pão que o diabo amassou.” A partir da dramatização, foi criada uma nova visão sobre o tema tratado e pode-se perceber que neste contexto da dialógica de inclusão / exclusão, a família busca seus direitos para ser incluída como moradora daquela comunidade e as mulheres do grupo que vivenciaram esta situação, hoje com novas informações, tem uma diferente leitura dos fatos e percebem o quanto estavam erradas no posicionamento da família em questão.

O segundo grupo, com sete mulheres, dramatizou “Senso de Justiça”, retratando a lenda de Xangô reconhecido como orixá da justiça. Através das informações obtidas e das dramatizações realizadas, perceberam a importância do conhecimento de todo o contexto para formar uma opinião.



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