60 Obra: dicionário de sociologia autor: raymond boudon e outros



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Sistemas (teoria dos): Proposta em 1930 por L. von Bertalanffy (que elaborou a sua teoria geral em 1968), a noção de sistema serve para designar um objecto complexo formado por elementos distintos ligados entre si quer por relações de interacção quer por relações de interdependência. Tais elementos são considerados como subsistemas, ou seja, pertencem à mesma categoria que o conjunto de que fazem parte. O sistema, sendo aberto, está por outro lado situado num meio com o qual está em interacção (caso contrário, trata-se de um sistema fechado).

A ideia essencial é que o sistema constitui um todo de um grau de complexidade superior ao das suas partes, isto é, que tem propriedades próprias. A teoria dos sistemas propõe-se ao mesmo tempo traduzir o estado do sistema num momento (equilíbrio) e as leis de transformação de um estado para o outro introduzindo, entre outras, a noção de retroacção (em inglês feed-back).

Em física (mecânica, termodinâmica), em biologia e em cibernética, a teoria dos sistemas recebeu numerosas e fecundas aplicações. Actualmente, o problema consiste em encarar a possibilidade de alargar este tipo de análise aos sistemas sociais que têm a particularidade de serem hipercomplexos. Tentativas como a de M. Crozier e a de E. Friedberg (1977), ou a de A. Wilden (1972), mostram que, se é preciso evitar uma generalização demasiado apressada, a teoria dos sistemas pode, no entanto, ser de uma grande utilidade na análise dos processos estratégicos.

Y. C.
Sociabilidade: O termo "sociabilidade" designa ao mesmo tempo o estado que resulta imediatamente das faculdades do homem (estado de sociedade) e um traço de psicologia colectiva atribuído a grupos mais ou menos alargados. É esta última acepção que é introduzida nomeadamente por Mme. de Genlis (citada por Littré), no início do séc. XIX, quando escreve que "a temperança natural dos Franceses contribui muito para essa sociabilidade que os distingue". Definida por M. Agulhon (1977) como "a aptidão geral de uma população para viver intensamente as relações
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públicas", a sociabilidade apresenta uma série de conteúdos que o estudo dos caracteres nacionais, dos temperamentos regionais e das mentalidades sociais permite especificar. A nível doméstico, poder-se-á distinguir, como o propõe M. Forsé (1981), uma sociabilidade interna, centrada no lar, e uma sociabilidade externa, orientada para os amigos, as relações de trabalho, o meio social.

No entanto, a sociabilidade reveste sobretudo formas nas quais, sem razão, não se quis ver senão as figuras da frivolidade e da futilidade mundana. Com efeito, para além da elaboração dos materiais necessários à vida colectiva e dos conteúdos próprios aos modos de participação social, apercebemo-nos como pode operar-se a sublimação da troca numa sociabilidade sem fins práticos e inteiramente centrada em personalidades que estão empenhadas em puras relações de reciprocidade. Desta sociabilidade desligada de referências materiais, G. Simmel disse que ela é "a forma lúdica da socialização" (1918).

A conversa, que G. de Tarde defniu como "o exercício contínuo e universal da sociabilidade", é uma das componentes essenciais desse jogo social traduzido pela categoria analítica de Geselligkeit; "mãe da delicadeza", cria entre os conversadores uma igualdade fictícia, mas é no fundo discriminante pelo teor dos assuntos sobre que incide. Na verdade, a troca de conversas num café, num círculo, num salão, etc., é regulada por estratégias verbais saídas do processo de psicologização das relações sociais, assinalado por N. Elias.

Na medida em que os desníveis entre as condições se reduziram consideravelmente, reforçou-se a atenção à forma até tornar-se um verdadeiro imperativo categórico. "Não é um acaso de linguagem, escreve ainda Simmel, se toda a sociabilidade atribui tanta importância à boa forma." Os códigos de boas maneiras na época da III República exprimem essa importância assim como a preocupação de manter, senão de recriar, intervalos entre os grupos. Tanto como os efeitos da mobilidade sobre a Geselligkeit, eles manifestam a dimensão simbólica da vida colectiva, o carácter convencional da existência social e a tensão entre o demasiado subjectivo e o demasiado objectivo que atravessa toda a sociabilidade.

B. V.

- Agulhon (1977).


Socialismo: O termo "socialismo" apareceu nos escritos de diferentes autores nos anos 1830 (R. Owen, P. Leroux) para designar as doutrinas, críticas relativamente ao liberalismo económico, que apelam para uma organização económica que faz prevalecer o interesse geral por meio de um plano concertado. A partir desta altura, fortes divergências aparecem entre os socialismos qualificados de utópicos (C. Fourier) e o socialismo que se pretende científico (F. Engels), entre partidários de uma socialização dos meios de produção (P. J. Proudhon) e defensores da apropriação colectiva (Marx), entre estatistas e anarquistas. Após 1870, o termo "socialista" é retomado por associações operárias, partidos políticos, sindicatos operários; seguidamente, após 1920, para se diferenciar dos partidos comunistas. O termo foi utilizado em múltiplas significações e entrou em palavras compostas (radical-socialismo, social-democracia, nacional-socialismo, etc.) em situações sociais e políticas muito diversas. Sem corresponder actualmente a
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uma definição única, este termo designa uma orientação geral, uma tendência a privilegiar os organismos e administrações públicas de preferência às iniciativas privadas nas relações entre o político e o económico, a organização da propriedade, a gestão das empresas.

P. A.


- Droz (1974-1978), Kriegel (1964), Ligou (1962).
Socialização: Em sentido forte, socializar é transformar um indivíduo de um ser associal num ser social inculcando-lhe modos de pensar, de sentir, de agir. Uma das consequências da socialização é tornar estáveis as disposições do comportamento assim adquiridas. Esta interiorização das normas e valores tem igualmente por função tornar suas as regras sociais, que são por definição exteriores ao indivíduo, e aumentar a solidariedade entre os membros do grupo. Enquanto instrumento da regulação* social, permite a economia de sanções externas. O grupo não tem necessidade, neste sentido, nem de lembrar indefinidamente ao indivíduo a existência dessas regras nem de exercer sobre ele uma coacção para que elas sejam observadas: violá-las gera um sentimento de culpabilidade. Os estudos sobre a socialização tentam pôr em evidência os processos pelos quais um indivíduo interioriza conteúdos e estruturas e analisar os efeitos desta interiorização sobre o comportamento. Um dos objectivos destas pesquisas é fornecer uma solução ao problema da permanência, através das gerações, das culturas e subculturas específicas de certos grupos, dos comportamentos de indivíduos que foram submetidos aos mesmos tipos de aprendizagem, sejam eles linguísticos, cognitivos, políticos ou morais.

Estes estudos mostraram, nomeadamente, que existe uma forte semelhança de comportamentos políticos entre os filhos e seus pais, que certos valores, como o do sentido da solidariedade colectiva, são mais privilegiados na classe operária que o sucesso individual, que caracterizaria as classes médias. Pretendeu-se ver no sistema de valores interiorizado próprio da classe a que o indivíduo pertence a determinante do destino deste. Com efeito, esta definição da socialização supõe o primado da sociedade sobre o indivíduo, o exercício de uma coacção por parte de uma autoridade considerada como legítima e um objectivo definido ao nível social. Assenta, além disso, numa teoria rudimentar da aprendizagem como condicionamento. O indivíduo é, de facto, pensado como um ser passivo cujo comportamento se resume a uma reprodução de esquemas adquiridos. A esta visão determinista, pode opor-se uma concepção mais flexível que toma em consideração a relativa autonomia do indivíduo, a capacidade deste para adaptar as disposições adquiridas às situações vividas, e mesmo para modificar quando necessário as normas e valores interiorizados em função de certos problemas que é chamado a resolver.

M. C.

- Bernstein (1971), Bordieu, Passeron (1970), Durkheim (1922, 1925), Percheron (1974).


Sociedades (tipos de): A enumeração e a classificação das sociedades globais são uma das tarefas que os sociólogos se atribuíram desde a constituição da sua disciplina. Os inventários e as tipologias que daí resultaram manifestam, pela sua própria diversidade, a relatividade de uma empresa que está em primeiro lugar estreitamente dependente
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dos critérios escolhidos. Além disso, uma hierarquização das diferentes formas de organização social acha-se aí muitas vezes sub-reptícia ou abertamente associada.

A distribuição das sociedades entre diferentes tipos é solidária de qualificações ("tribal", "teocrática", "industrial"...) que condensam os traços específicos respectivamente comuns a agrupamentos humanos. Podemos classificar estes últimos em função do modo de ocupação do solo, do volume e da densidade. Distinguiremos assim as sociedades de caçadores e as de agricultores, opondo o nomadismo pastoril ao tipo de vida sedentária. É a partir deste ponto de vista, que é o da morfologia social, que É. Durkheim estabeleceu os grandes tipos de estrutura social. Da horda, simples justaposição de indivíduos às sociedades polissegmentárias complexas, passando pelo clã, pelas sociedades polissegmentárias simples, etc., foram "unidades sociais" que ele combinou, adiantando que as sociedades são tanto mais volumosas quanto mais avançadas. A divisão do trabalho forneceu a Durkheim um princípio geral de oposição entre a solidariedade mecânica e a solidariedade orgânica, do mesmo modo que a análise do acordo social levou F. Tönnies (1887) a distinguir o tipo comunitário e o tipo societário, categorias fundamentais que seguidamente cruzou com as noções genéricas de relações, agrupamentos e associações. É igualmente qualificando-as de primitivas ou modernas, de arcaicas ou desenvolvidas, de tradicionais ou industriais, de holistas ou individualistas, que historiadores, etnólogos e sociólogos distinguem os principais tipos de sociedades. Estas séries de oposição assentam na tomada em consideração de variáveis diferentes. Estas últimas são, por exemplo, essencialmente económicas na dupla tradicional/industrial concebida a partir das mudanças consecutivas à Revolução Industrial; a sua valorização corresponde, portanto, à do económico na sociedade moderna e é acompanhada de uma alteração dos caracteres originais das sociedades "tradicionais".

Simples ou complexa, a distribuição das sociedades em tipos distintos não chega, em última análise, a desligar-se de um esquema evolutivo. Se fica claro que o nomadismo pastoril não é "inferior" à vida sedentária, é igualmente evidente que a corrente principal da evolução histórica vai da caça para a agricultura, que traz consigo a fixação ao solo. Centrada no papel determinante dos modos de produção, a tipologia das sociedades globais em Marx reconduz-se também a uma sucessão dialéctica de tipos sociais que vão da sociedade primitiva - fundada no parentesco, na apropriação colectiva do solo e das ocupações "naturais" (caça, pesca, apanha) - à sociedade comunista sem classes. A diferenciação complica-se com a especificação dos modos de produção: escravista, feudal, germânica, asiática, capitalista, socialista.

A questão da escolha dos critérios e dos tipos intermédios coloca-se igualmente a partir do momento em que se pretende classificar politicamente as sociedades. Deste ponto de vista, é preciso ter em conta a utilização do espaço, a forma do governo e a estrutura da colectividade, assim como o sistema jurídico em vigor. Mas o critério fundamental será a atribuição do poder global.

A dupla preocupação de evitar toda a categorização prévia e de afinar ao máximo a tipologia das sociedades
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globais levou G. Gurvitch (1955) a distinguir uma enorme variedade de tipos sociais. Decompôs as sociedades arcaicas em quatro espécies, as sociedades históricas em seis (carismáticas, patriarcais, feudais...) e as que são posteriores à Revolução Industrial dão lugar a uma longa enumeração (sociedades democrático-liberais, dirigistas, planificadas...) de difícil exploração. Privilegiando os sistemas de valores e as orientações fundamentais, T. Parsons (1966) propôs também ele uma tipologia complexa. Voltamos pois à questão formulada por A. Giddens a propósito da pesquisa dos princípios estruturais: "Quais são os níveis de abstracção que valem a pena ser distinguidos no estudo das propriedades estruturais dos sistemas sociais?" Para lhe responder, abandonou o lado formal da tarefa para se pôr à procura "de elementos situados mais perto do conteúdo empírico". Definiu assim os princípios estruturais como "princípios de organização das totalidades societais" e, mais precisamente, como conjunto de "factores postos em jogo no alinhamento global das instituições de uma sociedade ou de um tipo de sociedade". A distribuição dos tipos de sociedades em três grupos que ele propõe (sociedade tribal/sociedade dividida em classes/sociedade de classes) tem o mérito de integrar um número bastante elevado de elementos distintivos, sem cair na esquematização demasiado sumária nem na interminável enumeração.

B. V.
Sociobiologia: Este termo designa ao mesmo tempo uma teoria dos comportamentos sociais dos animais, fundada na teoria da evolução, a etologia e a genética das populações, de que pretende ser a síntese, e a sua extensão ao homem.

Esta distinção é importante, porque o acolhimento que lhe foi feito é muito diferente: se a primeira foi em geral bem aceite, suscitando apenas discussões científicas normais, a sua aplicação ao homem foi objecto de violentas polémicas. Estes dois aspectos encontram-se nas obras do seu fundador, o especialista dos insectos sociais E. O. Wilson, cuja obra principal foi publicada em 1975.

Podemos tomar como ponto de partida um paradoxo: a vida em sociedade implica que certos indivíduos se sacrifiquem pelos outros. Se se admitir que este comportamento, como todos os outros, é geneticamente determinado, como é que o gene que o impõe pôde manter-se, e portanto ter sido seleccionado, uma vez que aquele que se sacrifica tem menos hipóteses de sobreviver, e portanto de se reproduzir? A resposta da sociobiologia é que a selecção, e portanto a evolução, incide de facto sobre genes e não sobre organismos. A reprodução nunca é idêntica; só os genes se transmitem. Se um indivíduo se sacrifica por parentes próximos, favorece a reprodução destes, e portanto a transmissão dos seus genes, em particular daqueles que eles têm em comum. O indivíduo pode ser altruísta, mas é-o para melhor permitir a perpetuação de um gene egoísta. Raciocínios deste tipo permitiram à sociobiologia explicar um grande número de comportamentos sociais, considerados como o produto de uma evolução cujo mecanismo principal é a evolução que incide sobre os genes e sobre as populações, intervindo os indivíduos apenas como transmissores dos genes. Enquanto a teoria sociobiológica incidia apenas sobre os animais, foi relativamente bem aceite, embora se lhe tenha oposto um certo número de objecções, como o


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facto de os genes jamais se exprimirem de maneira isolada, mas sempre em interacção com outros; é portanto difícil falar da tendência de um gene para reproduzir-se. Perguntou-se também como é que um gene poderia reconhecer que um outro organismo traz um gene semelhante.

Mas a sociobiologia não se fica por aí: pretende aplicar os mesmos raciocínios, e portanto transpor a mesma concepção do determinismo genético ao homem, tornando-se a sociologia apenas um dos ramos da sociobiologia. As hierarquias sociais, os papéis masculino e feminino, a homossexualidade, etc., são explicados pelo seu suposto papel na transmissão dos genes. Como todos os hereditarismos, dos quais ela é a forma mais recente, a sociobiologia afirma um determinismo biológico rigoroso: o homem, ou melhor, a sociedade humana, tais como os conhecemos, são os produtos da evolução, e portanto da selecção. Os traços que observamos são os que esta conservou, os que sobreviveram. Subentendido: é perigoso, ou impossível, tocar neles. Neste sentido, podemos interpretá-la como fundamentalmente conservadora, e não deixou de se lhe censurar tal facto.

Mas o essencial das objecções está noutro lado: ao fazer a transposição dos outros animais para o homem, não se estará a menosprezar uma característica humana específica e essencial, a cultura, produto de uma função simbólica, que não se encontra nos outros animais, ou só neles está sob uma forma rudimentar, e que permite, senão libertar totalmente dos determinismos biológicos, pelo menos modulá-los? Não se vê bem, por exemplo, como a preocupação de transmissão dos genes pode explicar a diversidade das culturas, ou mesmo simplesmente tomá-las em consideração. Donde uma das censuras mais frequentemente dirigidas à sociobiologia, a do etnocentrismo: tomar como "natureza humana" os humanos da nossa sociedade ocidental actual.

B. M.


- Sahlins (1976), Veuille (1986), Wilson (1975, 1978).
Sociologia: Uma grande diversidade caracteriza os objectivos e os métodos da sociologia. Ela apresenta-se como a própria génese da disciplina, a partir das tentativas de aritmética política de W. Petty nos sécs. XVII e XVII, dos quadros descritivos de J. P. Süssmilch, da matemática social de Condorcet. Esta diversidade é também patente entre os dois precursores, Montesquieu e J.-J. Rousseau, entre a ciência recentemente criada por A. Comte e a concepção que dela tem É. Durkheim. De chofre, a constituição da sociedade como objecto de análise provocou o aparecimento de múltiplos discursos sobre o carácter relativo, ou mesmo artificial, de enquadramentos sociais tidos até ao séc. XVIII como imutáveis e garantidos pela divina Providência.

A sociologia crítica, nomeadamente com a escola de Francoforte, encontra a sua origem no processo intentado pelos filósofos das Luzes à sociedade que eles intimaram a comparecer perante o tribunal da Razão. Após os abalos políticos do fim do século, a Revolução Industrial teve igualmente como efeito orientar a reflexão para a reorganização geral das disposições sociais. Este projecto "construtivista" inspirou no séc. XIX especulações de toda a espécie, umas ao lado da utopia, como em H. de Saint-Simon e sobretudo C. Fourier, outras apoiadas por uma filosofia da história do tipo da que foi formulada


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em 1936 por Comte na lei dos três estados.

A vontade de Marx de instituir uma sociedade sem classes tem igualmente a ver com esse desígnio de conjunto. Podemos, em última análise, ligar a esta visão global do social os trabalhos de Durkheim, de M. Weber e de V. Pareto. Nas suas obras, que constituem o corpus da sociologia clássica, são as grandes componentes e as principais tendências da sociedade moderna que são estudadas por vias diferentes, que se reúnem na integração sistemática de elementos tirados de todas as disciplinas constitutivas das ciências humanas: o direito, a história, a economia, a etnologia, etc.

Assim, num contexto duplamente marcado pelo positivismo de Comte e pelo evolucionismo de H. Spencer, os objectivos visados (a identificação de regularidades históricas, o enunciado das leis da evolução ou o estabelecimento de grandes relações funcionais) traduzem a preocupação de compreender o funcionamento da sociedade. Diferentemente das outras ciências, a sociologia não tinha de preocupar-se com delimitar o seu domínio de investigação.

Os trabalhos que incidem sobre questões nitidamente circunscritas não têm, no entanto, faltado no séc. XIX. Ao escolher estudar a democracia na América e depois o Antigo Regime e a Revolução, A. de Tocqueville escapava à urgência de uma "reorganização da sociedade europeia". Numa direcção inteiramente diferente, L. A. Quetelet aplicava-se a introduzir o número e a medida na ciência do homem. F. Le Play e os seus discípulos multiplicavam as monografias sobre pequenas unidades sociais. Estas pesquisas mostram bem a heterogeneidade dos quadros em que elas se inscrevem: a filosofia política, a sociologia quantitativa, a sociografia descritiva. Por razões que têm a ver com as suas orientações metodológicas ou ideológicas, exerceram menos influência que as filosofias sociais e os estudos gerais da sociedade.

O desenvolvimento destas últimas foi acompanhado de uma exigência de positividade e de objectividade que se viu satisfeita pelo recurso às ciências físicas ou biológicas para explicar os fenómenos sociais; daí derivam as metáforas mecanicistas e organicistas que abundam nas sociologias gerais. Por outro lado, a obsessão de afirmar a especificidade do social contra a singularidade subjectiva levou Durkheim a construir a sociologia fora de toda a referência à psicologia, tapando deliberadamente as vias fecundas abertas por G. de Tarde para a psicologia social. As vicissitudes, os falsos debates (indivíduo/sociedade) e as falsas querelas (qualitativo/quantitativo) que a sociologia conheceu, nomeadamente na França, devem relacionar-se com essas orientações primeiras. Devem sem dúvida ser tomadas em consideração, como fez P. Lazarsfeld, "as variações nacionais das acções sociológicas", assim como os constrangimentos institucionais e materiais a que estas últimas estão sujeitas. Mas nota-se em toda a parte uma partilha entre sociologia crítica e sociologia empírica, filosofia social e sociografia, pontos de vista especulativos e trabalhos descritivos. Também por todo o lado, ensaios e pesquisas distinguem-se pelo nível privilegiado - macrossociológico ou microssociológico -, o tipo de observação escolhido, a natureza dos indicadores retidos... Por todo o lado, enfim, o recorte, quer horizontal (por exemplo, a sociologia urbana) quer vertical (por
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exemplo, a mobilidade social), do terreno do sociólogo deu lugar a estudos especializados, sem que desapareça a procura de uma teoria geral, como testemunham T. Parsons e G. Gurvitch, etc. Numa época em que os media difundem informações que dão a cada indivíduo a ilusão de conhecer a sociedade em que vive, uma dupla advertência, histórica e metodológica, sobre o que é a sociologia se impõe.

Começou com a recapitulação dos contributos anteriores que integram as contribuições a que não se tinha prestado suficiente atenção (as de Tarde, de G. Simmel, de G. Mosca, por exemplo) e com a implementação de princípios explicativos claramente definidos, como os do individualismo metodológico conceptualizado por R. Boudon.

B. V.
Sociologismo: Este termo designa, não sem intenção pejorativa, um modo de interpretação sociológica que atribui à sociedade um poder explicativo total na análise das condutas humanas. Foi utilizado contra É. Durkheim e os durkheimianos para denunciar os excessos de um preconceito metodológico que visa sistematicamente explicar os elementos pelo conjunto. O sociologismo aparenta-se pois com o realismo totalitário (oposto por J. Piaget tanto ao individualismo atomista como ao interaccionismo relativista) que credita à estrutura social o que é recusado ao indivíduo. O individualismo metodológico é, de algum modo, a sua crítica.

B. V.
Sociometria: Embora esta palavra tenha em princípio uma significação muito geral (medida do social), acabou por identificar-se com as técnicas elaboradas por J. L. Moreno (1934) para captar e medir as relações interpessoais dentro de um grupo. O "teste sociométrico" consiste em perguntar a cada membro de um grupo restrito e natural (formado por pessoas que já se conhecem) com que outros membros do grupo desejaria associar-se (ou não associar-se) para determinada actividade ou em determinada situação. O apuramento desta sondagem permite conhecer, em função do volume das escolhas feitas ou recebidas e da sua reciprocidade, o estatuto de cada membro do grupo, identificar os líderes ou estrelas sociométricas, os isolados ou os excluídos, fazer aparecer pares (escolhas ou rejeições recíprocas), tríades, cadeias, cliques, que são subgrupos dentro de um grupo. O conjunto destas relações e destas configurações pode ser representado num sociograma que permite visualizar a estrutura das relações afectivas dentro do grupo e ter uma ideia da sua coesão. Na esteira de Moreno, o inquérito sociométrico foi alargado à percepção por cada indivíduo das escolhas ou rejeições emitidas pelos outros membros do grupo e mesmo das suas expectativas de escolha.

PH. BD.


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