Português: contexto, interlocução e sentido


Fazer poético: ação e transformação



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Fazer poético: ação e transformação

A criação poética também é um tema essencial para o poeta mineiro.



Consideração do poema

[...]


Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
— Há mortos, há mercados? há doenças?
É tudo meu. [...]

Poeta do finito e da matéria,


cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.

[...]


Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí o meu canto.

[...]


ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. In: Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 94. (Fragmento). Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond (www.carlosdrummond.com.br).

Apresentando-se como “poeta do finito e da matéria”, em um desdobramento da ideia de que o objeto da sua arte é o tempo presente, o eu lírico afirma ter e saber tudo e transformar o mundo em matéria de poesia.

O que se observa é que Drummond, mesmo nos textos em que declaradamente trata da criação poética, continua a desenvolver um tema maior: a poesia em busca de si mesma. Essa busca assume duas faces: a “material” (do verso, da escolha das palavras, das rimas) e a do conteúdo, que a vincula aos outros eixos temáticos da obra do autor.

A “concha vazia” do amor

Na obra de Carlos Drummond de Andrade uma indagação se mantém presente desde o “Poema de sete faces”: a necessidade de compreender o sentimento, que se manifesta tanto no nível pessoal quanto no social (o “estar no mundo”).

Mais do que registrar emoções, reconhecer sentimentos, o poeta de Itabira quer compreendê-los, e isso só é possível por meio da análise.

Amar

Que pode uma criatura senão,


entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
[...]
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
[...]

ANDRADE, Carlos Drummond de. Claro enigma. In: Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 214. (Fragmento). Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond (www.carlosdrummond.com.br).

O sentimento, sempre presente, não surge como uma solução para as dores da vida. O amor se apresenta em uma “concha vazia”, incapaz de saciar a carência do eu lírico, que procura “mais e mais amor”. Essa é uma busca condenada ao fracasso, porque já nasce definida pela ausência, pela falta, pelo vazio.

A obra de Carlos Drummond de Andrade fica como um testemunho da busca, do desejo incessante de descobrir uma saída, mesmo que o percurso seja marcado pelo sofrimento e pela desilusão.


Página 67

TEXTO PARA ANÁLISE

E agora, José?

Neste poema, uma séria questão é colocada: como prosseguir?

E agora, José?


A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
E agora, José?

Está sem mulher,


está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?
[...]

Se você gritasse,


se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro


[...]
Você marcha, José!
José, para onde?

Utopia: qualquer descrição de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade. O termo passou a designar, por extensão de sentido, os sonhos, as fantasias irrealizáveis.

ANDRADE, Carlos Drummond de. José. In: Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 88-89. (Fragmento). Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond (www.carlosdrummond.com.br).



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Drummond em caricatura de Loredano, s. d.

©LOREDANO

1. Na primeira estrofe, o eu lírico apresenta José no cenário de uma festa que acabou. Que elementos sugerem o fim da festa?

a) A festa a que se refere o eu lírico tem sentido metafórico. Considerando o poema na sua totalidade e o fato de que foi escrito em 1942, explique o que a festa e o seu fim simbolizam.

b) Como José pode estar se sentindo nessa situ a ção? Justifique.

2. O eu lírico caracteriza seu José nos versos finais da primeira estrofe. Que traços o caracterizam?

a) O que representam as ações de José, no contexto do poema?

b) Essa descrição se opõe à situação de “fim de festa” em que se encontra José e o coloca diante do dilema tematizado no poema pela expressão “E agora, José?”. Por quê?

c) Embora o interlocutor tenha um nome — José —, o poema se refere a ele como “Você que é sem nome”. Explique o que ele simboliza no poema.

d) O eu lírico define José como alguém “que faz versos”. De que maneira essa caracterização revela que José representa também aqueles que se dedicam à poesia?

3. Na segunda estrofe, o paralelismo é empregado para caracterizar a vida de José no presente. Como ele é construído?

a) O uso dessas estruturas enfatiza um aspecto da vida de José. Qual?

b) Aquilo que não veio, “o bonde”, “a utopia” e “o riso”, é colocado em paralelo. Que efeito isso produz?

c) Essa enumeração de negativas, associada à repetição da expressão “E agora, José?”, contribui para aumentar a pressão exercida sobre José. Por quê?

4. Na terceira estrofe, os verbos estão flexionados no imperfeito do subjuntivo. O que o uso dessa estrutura linguística indica, considerando a pergunta que é reiterada ao longo do poema?

a) Essa estrofe marca uma gradação nas possibilidades de ação de José. Explique-a.

b) O que essa gradação sugere sobre a situação em que se encontra José?

5. O que estes versos indicam sobre José?

“Mas você não morre,


você é duro, José!”

> Esses versos, associados aos da última estrofe, permitem entender que o desfecho do poema caminha para duas direções: a da esperança e a da desesperança. Por quê?
Página 68

Cecília Meireles: a vida efêmera e transitória

Cecília Meireles (1901-1964) escreveu vários livros de poesia em que desenvolveu as tendências da corrente espiritualista da segunda geração. Na sua obra destacam-se Espectros (1919), Baladas para El-Rei (1925), Viagem (1939), Vaga música (1942), Mar absoluto (1945), Retrato natural (1949), Romanceiro da Inconfidência (1953), Canções (1956) e o livro de poesias infantis Ou isto ou aquilo (1964).

Sua sensibilidade manifestava-se na valorização da intuição e da emoção como formas de interpretar o mundo. O lirismo delicado que caracteriza sua poesia está intimamente ligado a imagens da natureza (a água, o mar, o ar, o vento, o espaço, a rosa, etc.) e do infinito, compondo uma atmosfera de sonho e de fuga.

Cantiga

Ai! A manhã primorosa


do pensamento...
Minha vida é uma pobre rosa
ao vento.

Passam arroios de cores


sobre a paisagem.
Mas tu eras a flor das flores,
Imagem!

Vinde ver asas e ramos,


na luz sonora!
Ninguém sabe para onde vamos
agora.

Os jardins têm vida e morte,


noite e dia...
Quem conhecesse a sua sorte,
morria.

E é nisto que se resume


o sofrimento:
cai a flor, — e deixa o perfume
no vento!

MEIRELES, Cecília. Viagem. In: Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1991. p. 115-116.



Arroios: regatos.

A vida é apresentada metaforicamente como uma rosa. O eu lírico cria a analogia a partir da ideia de que os seres humanos se apegam às aparências (à imagem), que estão destinadas a desaparecer com a passagem do tempo. A regularidade dos ciclos da natureza (vida e morte, noite e dia) comprova a transitoriedade da vida. Na última estrofe, revela-se a razão do sofrimento humano: as lembranças do passado (o perfume da rosa) continuam a existir, mesmo depois da destruição da forma que as gerou.

Recorrendo a formas poéticas simples como a cantiga, Cecília Meireles desenvolve temas como o amor, o tempo, a transitoriedade da vida e a fugacidade das coisas. Em sua poesia, a natureza marca os ritmos da vida.

A autora escreveu também o poema “Romanceiro da Inconfidência”, em que reconstitui a história da Inconfidência Mineira e mostra como o olhar do poeta consegue atribuir novas dimensões à história de um povo e de seu país.



Vinicius de Moraes: o cantor do amor maior

Mais conhecido pelas suas composições musicais, Vinicius de Moraes iniciou sua obra poética na década de 1930, com a publicação de O caminho para a distância (1933). Sua poesia, naquele momento, conservava ainda uma clara influência da estética simbolista.

Nas obras iniciais, Vinicius aproximou-se de temas trabalhados por outros autores da sua geração, como a religiosidade e a angústia associada à oscilação entre matéria e espírito.

Aos poucos, porém, seu interesse voltou-se para aspectos do cotidiano e para o relacionamento amoroso. Nos seus inúmeros poemas de amor, a influência da poesia camoniana é muito forte e pode ser observada na tentativa de analisar o amor, na preferência pelo soneto como forma poética, e no uso frequente de antíteses para expressar as contradições próprias desse sentimento.



Soneto de separação

De repente do riso fez-se o pranto


Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento


Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente


Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante


Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

MORAES, Vinicius de. O encontro do cotidiano. In: BUENO, Alexei (Org.). Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998. p. 337. Os direitos relativos ao uso do poema de autoria de Vinicius de Moraes foram autorizados pela VM EMPREENDIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS LTDA., além de: © VM e © CIA. DAS LETRAS (Editora Schwarcz).


Página 69

Em muitos sonetos de Vinicius de Moraes, o amor é apresentado como um sentimento poderoso e fugaz. É essa a ideia central do “Soneto de separação”, em que as antíteses mostram o impacto da perda do amor na vida das pessoas: o riso torna-se pranto, traz a dor, a tristeza. A tragédia, que provoca o espanto, é constatar que toda essa transformação acontece de repente, em um breve instante.

Das inúmeras obras de Vinicius, podemos destacar: Novos poemas (1938), Poemas, sonetos e baladas (1946), Pátria minha (1949) e a peça de teatro Orfeu da Conceição (1956).

TEXTO PARA ANÁLISE

O texto a seguir refere-se às questões de 1 a 4.

Texto 1

Canção excêntrica

A busca existencial é tematizada neste poema.

Ando à procura de espaço


para o desenho da vida.
Em números me embaraço
e perco sempre a medida.
Se penso encontrar saída,
em vez de abrir um compasso,
protejo-me num abraço
e gero uma despedida.

Se volto sobre meu passo,


é distância perdida.

Meu coração, coisa de aço,


começa a achar um cansaço
esta procura de espaço
para o desenho da vida.
Já por exausta e descrida
não me animo a um breve traço:
— saudosa do que não faço,
— do que faço, arrependida.

MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. v. 1, p. 336.



Descrida: descrente.

1. Qual é a busca individual tratada no poema?

> Considerando essa busca, como devem ser compreendidos os dois primeiros versos do poema?

2. O que a leitura do poema revela sobre os resultados dessa busca? Explique.

> Transcreva no caderno passagens do poema que revelam esses resultados.

3. Releia.

“Já por exausta e descrida


não me animo a um breve traço:
— saudosa do que não faço,
— do que faço, arrependida.”

> Esses versos revelam o estado de espírito do eu lírico feminino do poema diante dos resultados de sua busca. Como ele se caracteriza e que efeitos são gerados por seus sentimentos durante esse processo?

4. Observe os verbos do poema. Em qual tempo e modo estão flexionados predominantemente?

> Que relação se pode estabelecer entre o uso desse tempo verbal e essa busca?

O texto a seguir refere-se às questões de 5 a 9.

Texto 2

Soneto do maior amor

Neste soneto, as contradições do amor são apresentadas pelo eu lírico.

Maior amor nem mais estranho existe


Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada

E que só fica em paz se lhe resiste


O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere


E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer — e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante


Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

MORAES, Vinicius de. O encontro do cotidiano. In: BUENO, Alexei (Org.). Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998. p. 310. Os direitos relativos ao uso do poema de autoria de Vinicius de Moraes foram autorizados pela VM EMPREENDIMENTOS ARTÍSTICOS E CULTURAIS LTDA., além de: © VM e © CIA. DAS LETRAS (Editora Schwarcz).



Fenecer: tornar-se extinto, acabar.
Página 70

5. No primeiro verso do poema, o amor é definido como “estranho”. Por quê? Quais comportamentos comprovam essa estranheza?

> O que essas imagens sugerem sobre o sentimento amoroso caracterizado no poema?

6. Transcreva no caderno outras palavras e expressões que caracterizam esse sentimento.

a) De que maneira essas expressões enfatizam as contradições desse amor?

b) Qual é a relação estabelecida entre essas palavras ou expressões e o adjetivo estranho?

7. O amor deseja a resistência do coração? Por quê?

> Nesses versos, a apresentação de uma visão do amor que só tem valor se não se concretizar retoma uma tradição clássica. Explique.

8. Na terceira estrofe, as ações do amor explicitam as suas leis. Por que o amor deve ser fiel a essas leis?

> As ações definem o sentimento descrito como o “maior amor”. Explique o que seria, no poema, um amor “menor”.

9. Como podemos interpretar a paixão do amor por si mesmo?

Murilo Mendes: o católico visionário

A poesia de Murilo Mendes (1901-1975) revela tendências bastante distintas. Na sua produção inicial, a influência do olhar irreverente dos primeiros modernistas é marcante, mas foi também um entusiasmado seguidor da vanguarda surrealista, como vimos no Capítulo 2. Criou, porém, um estilo próprio, povoando o universo de sonhos surrealistas com imagens do catolicismo.

O sentido de humanidade e a consciência social são sempre associados, na poesia de Murilo Mendes, à dimensão espiritual. O catolicismo, religião seguida pelo poeta, era a base para essa reflexão.

O renegado

Cortina que vela a face de Deus,


O céu fecha-se violentamente sobre mim.
[...]

Que tenho eu com a sociedade dos meus irmãos?


Acaso serei responsável pela sua vida?
Sou o membro destacado de um vasto corpo.
Sou um na confusão da massa insaciável:
Entretanto vejo por todos, penso por todos, sofro por todos.
[...]

MENDES, Murilo. A poesia em pânico. In: PICCHIO, Luciana Stegagno (Org.). Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. v. 1, p. 289. (Fragmento).

O eu lírico fala da agonia da rejeição por Deus. A incapacidade de transformar a realidade é explicitada na série de perguntas que retomam aquele que foi o principal objetivo do projeto literário da segunda geração modernista: entender como se dá a relação entre o “eu” e o mundo.

As principais obras de Murilo Mendes são A poesia em pânico (1938), O visionário (1941) e As metamorfoses (1944).



Jorge de Lima: o católico engajado

O poema “Homenagem a Jorge de Lima”, de Murilo Mendes, permite conhecer algumas características da obra desse poeta.



Homenagem a Jorge de Lima

[...]
Inventor de novo corte e ritmo,


Sopras o poema de mil braços,
Fundas a realidade,
Fundas a energia.

[...]
Aplaca tua lira pedra e angústia:


Cantando clarificas
A substância de argila e estilhaços divinos
Que mal somos.

MENDES, Murilo. Parábola. In: PICCHIO, Luciana Stegagno (Org.). Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. v. 2, p. 555-556. (Fragmento).

A conclamação feita na abertura do livro de poesias Tempo e eternidade é um testemunho eloquente da filiação católica de Jorge de Lima (1893-1953): “Restauremos a poesia em Cristo”. O primeiro poema desse livro pode ser lido como uma apresentação de sua poética.

Distribuição da poesia

Mel silvestre tirei das plantas,


sal tirei das águas, luz tirei do céu.
Escutai, meus irmãos: poesia tirei de tudo
para oferecer ao Senhor.
Não tirei ouro da terra
nem sangue de meus irmãos.
[...]
A vida está malograda,
creio nas mágicas de Deus.
[...]

LIMA, Jorge de. Tempo e eternidade. In: BUENO, Alexei (Org.). Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. p. 321. (Fragmento). © by Maria Thereza Alves Jorge de Lima e Lia Corrêa Lima Alves de Lima.


Página 71

Jorge de Lima aprendeu com o mestre Manuel Bandeira a lição de que a poesia está nas coisas mais simples: o sal da água e a luz do céu. Mas relê a lição modernista pela lente do catolicismo e encontra matéria para poesia em tudo o que considera manifestação de Deus.



Poemas negros é a sua obra mais conhecida. Nela, as memórias do menino branco nordestino, que teve uma infância marcada pela convivência com negros, denunciam o preconceito profundo e disfarçado da sociedade brasileira. O mais conhecido desses poemas é “Essa negra Fulô”, que tematiza a relação entre os escravos e seus senhores, estabelecendo uma crítica à maneira como os negros eram física e emocionalmente torturados.

Na produção literária de Jorge de Lima, destacam-se: XIV alexandrinos (1914), O mundo do menino impossível (1925), Poemas escolhidos (1932), Tempo e eternidade (escrito em parceria com Murilo Mendes; 1945), Poemas negros (1947), Anunciação e encontro de Mira-Celi (1950) e Invenção de Orfeu (1952).



TEXTO PARA ANÁLISE

O texto a seguir refere-se às questões de 1 a 7.

O filho do século

Neste poema, as transformações do novo século e seus resultados são objeto de reflexão.

Nunca mais andarei de bicicleta


Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa “Danúbio Azul”
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardam-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora do fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos voos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.

MENDES, Murilo. O visionário. In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 239-240.



1. O poema apresenta dois momentos distintos. Quais são eles?

2. Na primeira parte, o eu lírico trata de situações que deixam de existir com a chegada do século XX. Quais são elas?

a) Como é o retrato do mundo composto por essas situações?

b) Ao descrever essas situações, o eu lírico utiliza as expressões nunca mais, nem e adeus. O que elas indicam sobre o que ocorreu em relação a essas situações com a mudança de século?

3. O poema está em um livro publicado em 1941, quando ocorria a Segunda Guerra Mundial. Transcreva em seu caderno as expressões que fazem referência à guerra.

a) Como o novo século é caracterizado na segunda parte do poema?

b) Que recursos de linguagem são utilizados nessa caracterização? Que efeito produzem?

4. Uma das características da poesia de Murilo Mendes é apresentar elementos de religiosidade. Levando em conta a possibilidade de os elementos do poema estarem relacionados ao catolicismo, o século XX poderia ser uma metáfora de quê?

a) “Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem”. O que esse gesto representa, no contexto da chegada do novo século?

b) Que efeito a negação do mundo que conhecia tem sobre o “filho” do século XX?

5. Releia: “Cairei no chão do século vinte”. Considerando tudo o que perde o “filho do século”, como interpretar o verbo cair nesse verso?

a) O termo chão foi usado em sentido metafórico. O que ele significa no poema?

b) Como o “chão” do século XX é caracterizado?

6. Releia os últimos cinco versos. Segundo eles, quais seriam as misérias mencionadas e que sugestão ele faz a elas?

> No “Apocalipse”, parte do Novo testamento, são mencionados quatro anjos cavaleiros que representam a guerra, a fome, a peste e a morte. Considerando essa informação, explique o que representam os anjos-aviões e o que significa o fato de carregarem o cálice?

7. Segundo a tradição católica, no momento de sua morte, Jesus teria dito: “Pai, por que me abandonastes?”. Relacione essa informação ao último verso do poema.

a) Qual o pedido feito a Deus no último verso?

b) No Novo testamento, Jesus é chamado de “O filho do homem”. Considerando o significado do poema, como pode ser interpretado seu título?
Página 72

Diálogos literários: presente e passado

Na atualidade, com a facilidade de divulgação promovida pela internet, cada vez mais novas vozes, oriundas das periferias das grandes cidades, lançam seu olhar crítico sobre o mundo em que vivemos. São muitos os autores com um olhar voltado para a pobreza e a violência urbana das favelas e dos bairros de periferia.

Esse retrato crítico da realidade em obras literárias, no entanto, não é recente. Como você viu, foi no Pré-Modernismo, principalmente com as obras de Euclides da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato, que se inaugurou uma tradição de abordar o subdesenvolvimento do Brasil e suas mazelas.

No próximo capítulo, você terá a oportunidade de constatar como essa denúncia dos problemas sociais do nosso país é retomada, posteriormente, nos romances produzidos pelos escritores da geração de 1930. Nas páginas das obras desse período, é possível observar a consolidação de uma consciência da miséria brasileira em distintas regiões do país a partir dos dramas de personagens como Fabiano, de Vidas secas, ou como os meninos de Capitães da Areia, de Jorge Amado.

Antes, porém, de conhecer um pouco mais a produção literária da geração de 1930, veja como a realidade retratada no poema de Dinha e o mundo descrito em Cidade de Deus, de Paulo Lins, dois autores contemporâneos, registram o cotidiano de personagens cujas esperanças deixaram de existir há muito tempo.

Dinha e a poesia da periferia de São Paulo

Ao Mais-Novo caído

Asseguro.


Com certeza pensou no filho.
no menino que seria
o dos teus olhos
pra sempre.
tua mãe também
quando ouviu teu nome
e tiros
pensou no menino dos olhos
dela.
com certeza
lembrou do batismo
bebê no colinho
abandonando, desde cedo,
o pai.

Asseguro.


Pensou na vida
inteira
pela frente
que era tua e queríamos
que vivesse

pensou, talvez, em mim


eu que sangro todo dia
tua vida e tua história
e que endereço a você
meus versos de guerra e sem glória
e divido com meus anjos
essa responsabilidade:
garantir tua existência
avançar em tua idade

roubada
até que se prove


o contrário
e você possa
descansar

em paz.


DINHA. Onde escondemos o Ouro. Livro II. São Paulo: Edições Me Parió Revolução, 2013. p. 9-10.

0072_001.jpg

ELOAR GUAZZELLI


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A cidade sem Deus de Paulo Lins

[...] Prendeu um choro, levantou-se, esticou-se para aliviar a dor de ter estado muito tempo na mesma posição, já ia perguntar ao amigo se estava a fim de descolar mais um trouxa, quando notou que a água do rio encarnara. A vermelhidão precedera um corpo humano morto. O cinza daquele dia intensificou-se de maneira apreensiva. Vermelhidão esparramando-se na correnteza, mais um cadáver. As nuvens apagaram as montanhas por completo. Vermelhidão, outro presunto brotou na curva do rio. A chuva fina virou tempestade. Vermelhidão, novamente seguida de defunto. [...]

Era a guerra que navegava em sua primeira premissa. A que se fez a soberana de todas as horas vinha para levar qualquer um que marcasse bobeira, lançar chumbo quente em crânios párvulos, obrigar bala perdida a se achar em corpos inocentes [...].

Busca-Pé chegou em casa com medo do vento, da rua, da chuva, do seu skate, do mais simples objeto, tudo lhe parecia perigoso. Ajoelhou-se diante da cama, jogou a cabeça no colchão, as mãos sobre ela, e numa súplica infinita pediu a Exu que fosse lá avisar a Oxalá que um dos seus filhos tinha a sensação de estar desesperado para sempre.

LINS, Paulo. Cidade de Deus. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 13-14. (Fragmento).

Encarnara: tornara-se vermelha.
Precedera: antecedera.
Párvulos: de pouca idade; crianças.

A atividade propõe aos alunos discutir a relação entre a imagem e os textos desta seção. Para tanto, é necessário que antes se faça uma discussão a respeito da foto, ressaltando a condição da criança que dorme na rua (ironicamente sobre uma calçada desenhada com o mapa do estado de São Paulo). Ao analisar os textos, é importante mostrar que todos eles tratam de questões que dizem respeito ao cotidiano das classes periféricas das grandes cidades: o sujeito assassinado no poema de Dinha e o cotidiano de morte no trecho de Cidade de Deus, de Paulo Lins. Na exposição oral que farão para a sala, é importante que os alunos relacionem essa questão também à tradição de reflexão crítica da literatura brasileira, que tem início no Pré-Modernismo. Seria interessante sugerir aos alunos que leiam também alguns dos textos do capítulo que vão estudar (além dos transcritos na seção) para que o embasamento da exposição que farão se dê de forma mais efetiva.

Pare e pense

Observe a imagem a seguir.



0073_001.jpg

Menino em situação de rua em São Paulo, 2011.

MARCOS ANDRÉ/OPÇÃO BRASIL IMAGENS

Agora, em grupos, você e seus colegas devem discutir as seguintes questões: O que a imagem mostra sobre a realidade? Que crítica é possível fazer a partir dela?

Em seguida, releiam os textos desta seção e identifiquem o tema abordado por eles, relacionando-os à imagem e à tradição apresentada na seção. Exponham oralmente a análise para a sala, utilizando trechos dos textos para justificar suas conclusões.
Página 74

Capítulo 5 - O romance de 1930

0074_001.jpg

Paisagem do sertão. Esta foto de Evandro Teixeira integra o livro Vidas secas: edição especial 70 anos. São Paulo: Record, 2008.

EVANDRO TEIXEIRA

Sugerimos que todas as questões sejam respondidas oralmente para que os alunos possam trocar impressões e ideias.

Leitura da imagem

1. Descreva, brevemente, a imagem de abertura.

2. Que impressão o espaço retratado provoca no observador?

3. O chão gretado aparece em primeiro plano. Que leitura da foto o fotógrafo sugere com esse destaque?

Seca: uma tragédia que nasceu com o Brasil

O jesuíta Fernão Cardim, viajando pelo Brasil no século XVI, foi o primeiro escritor a registrar o impacto da seca nordestina: “As fazendas de canaviais e mandioca muitas se secaram, por onde houve grande fome, principalmente no sertão de Pernambuco”. A seca, como se vê, já era um problema durante o pe ríodo colonial. De lá para cá, o problema permanece e a solução encontrada por milhares de nordestinos tem sido a migração para o Sul, principalmente após a inauguração da estrada Rio-Bahia, em 1949.



Da imagem para o texto

4. Os romances da geração de 1930 revelam, em toda a sua magnitude, os problemas de uma região assolada pela seca. O principal intérprete dessa região foi Graciliano Ramos.

Mudança

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.

Arrastaram-se para lá, devagar, sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a

Lembrar aos alunos que a presença de um artigo antes do adjetivo faz com que este desempenhe uma função substantiva (nomeie algo) e seja, assim, classificado morfologicamente como substantivo.
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cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.

Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. [...]

A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 71. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 9-10. (Fragmento).

Catinga: no texto, o mesmo que caatinga.
Escanchado: com as pernas abertas à maneira de quem monta a cavalo.
Quarto: quadril.
Cambaio: trôpego, com dificuldade para andar.
Aió: bolsa feita de fibras de caroá.
Pederneira: pedra que produz faíscas quando atritada por peças de metal. Usada na fabricação de espingardas e isqueiros.

a) Observe as duas primeiras frases do texto. Nelas, o narrador introduz informações sobre o espaço e as personagens. Que espaço é esse?

b) O que fazem as personagens nesse espaço?

5. O uso dos adjetivos, no primeiro parágrafo, é muito importante. Quais adjetivos se referem ao espaço nesse parágrafo?

a) Por que eles são importantes para a caracterização do espaço da narrativa?

b) Releia o último parágrafo. Analise o que as novas informações sobre o espaço sugerem a respeito da vida naquele local.

6. A primeira identificação das personagens é feita por meio de um adjetivo substantivado. Qual é o adjetivo?

a) Como pode ser explicada a escolha de um adjetivo substantivado para identificar as personagens?

b) Explique como os adjetivos cansados e famintos revelam o impacto do espaço sobre as personagens.

c) Você estudou uma outra estética literária em que os romances procuravam demonstrar o impacto do meio sobre as pessoas. Qual a estética e quais as semelhanças entre ela e esse texto? Explique suas colocações.

7. O segundo parágrafo é dedicado à apresentação das personagens. Que relação existe entre elas?

a) Que informações levam o leitor a concluir que essas personagens são retirantes? Justifique.

b) A cachorrinha chama-se Baleia. Pode-se afirmar que há certa ironia nesse nome? Por quê?

8. Os juazeiros aparecem em três momentos diferentes do texto. Transcreva em seu caderno essas passagens.

> Explique o que eles indicam no desenvolvimento da narrativa.

9. É correto afirmar que, no trecho transcrito, o espaço é um fator determinante na vida das personagens? Justifique.

A retomada de um olhar realista a

a Recordar com os alunos o contexto sociopolítico apresentado no Capítulo 4. Embora tenhamos feito uma divisão da produção literária em dois capítulos, para melhor caracterizar como a segunda geração modernista tratou da poesia e da prosa, o contexto em que esses poetas e escritores produziram suas obras foi o mesmo.

A qualidade das obras e o surgimento de autores importantes tornam os anos de 1930 a 1945 conhecidos como “a era do romance brasileiro”.

Essa tendência se anuncia em 1928, quando o paraibano José Américo de Almeida publica A bagaceira, que define uma nova tendência na ficção nacional: a apresentação crítica da realidade brasileira, que procura levar o leitor a tomar consciência da condição de subdesenvolvimento do país, visível de modo mais evidente em algumas regiões, como a Nordeste. Para tratar das questões sociais regionais, os romances escritos a partir de 1930 retomam dois momentos anteriores da prosa de ficção: o regionalismo romântico e o Realismo do século XIX.

Do regionalismo romântico, vem o interesse pela relação entre os seres humanos e os espaços que eles habitam, apresentado agora de uma perspectiva mais determinista. Do Realismo, é recuperado o interesse em estudar as relações sociais.

O romance de 1930 inova ao abandonar a idealização romântica e a impessoalidade realista, para apresentar uma visão crítica das relações sociais e do impacto do meio sobre o indivíduo. Essas raízes literárias que relacionam a ficção de 1930 às duas estéticas do século XIX fizeram com que os romances escritos nesse período fossem conhecidos como regionalistas ou neorrealistas.

Tome nota

São considerados regionalistas os romances que abordam a realidade específica de uma região, caracterizada por particularidades geográficas e por tipos humanos específicos, que usam a linguagem de um modo próprio e têm práticas sociais e culturais semelhantes.

Os escritores pretendiam caracterizar a vida sacrificada e desumana do sertanejo e compreender a estrutura socioeconômica que alimentava a política do coronelismo nordestino. Para eles, apontar tais problemas significava ajudar a transformar essa realidade injusta.

O comportamento dos indivíduos, subordinados ao espaço em que vivem, também é analisado, em uma tentativa de traçar de modo fiel o perfil social e psicológico dos habitantes de determinadas regiões brasileiras.



O projeto literário do romance de 1930

O projeto literário do romance da geração de 1930 foi claro: revelar como uma determinada realidade socioeconômica, no caso o subdesenvolvimento brasileiro, influenciava a vida dos seres humanos.


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O modo encontrado para mostrar isso foi fazer com que o enredo das obras nascesse da relação entre o contexto socioeconômico e o espaço (caracterizado de modo bem definido). A maioria dos autores do período se baseou no conhecimento pessoal da realidade nordestina para desenvolver esse projeto. O escritor Erico Verissimo foi uma exceção, pois suas obras se voltaram para a relação entre o homem e a sociedade a partir da amplidão dos pampas gaúchos.



Os agentes do discurso

O eixo da ficção brasileira na década de 1930 se deslocou do Rio de Janeiro e de São Paulo para Maceió, capital de Alagoas. Era lá que moravam os escritores José Lins do Rego, Rachel de Queiroz e Graciliano Ramos.

É natural que as condições de produção da literatura do período fossem favorecidas pela grande aproximação que havia entre esses autores. Ricardo Ramos conta sobre o pai:

[...] A nossa casa, na rua da Caridade, vivia fins de semana movimentados. Lá o grupo se reunia, muita gente à hora do almoço. Sem dúvida meu pai gostava desses encontros dominicais, pois se prolongaram no Rio, iriam durar toda a sua vida. [...]

RAMOS, Ricardo. Graciliano: retrato fragmentado. São Paulo: Siciliano, 1992. p. 41. (Fragmento).

Essa informação ajuda a compreender por que o projeto literário do romance de 1930 teve um desenvolvimento tão sólido e bem-sucedido: além de ser compartilhado pelos principais autores, também era objeto de discussão e análise constante entre eles.

A circulação dos romances foi favorecida pelo fortalecimento das editoras brasileiras. A Livraria José Olympio acolhia os escritores que, chegados ao Rio de Janeiro, buscavam uma referência para seus diálogos intelectuais.

Mais do que publicar autores de diferentes tendências ideológicas, como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Murilo Mendes, Marques Rebelo e Adalgisa Nery, a “Casa” José Olympio permitiu que o debate entre esses escritores acontecesse de modo democrático, ajudando assim a fortalecer a produção literária do período. Quem ganhava com isso era o público, que se via convidado a conhecer dezenas de romances e livros de poesia da “nova” geração.

O romance de 1930 e o público

A multiplicação de autores e romances torna mais difícil conseguir informações sobre o público leitor do período, porque o seu perfil é variado. A melhor indicação de como as obras da geração de 1930 foram recebidas, porém, são os números de venda alcançados por autores como Jorge Amado, José Lins do Rego e Erico Verissimo.

Esgotando sucessivas tiragens de seus romances, eles souberam criar um tipo de narrativa que caiu no gosto popular. Os enredos dinâmicos e a linguagem simples tornavam suas obras atraentes para o público num momento em que o contexto social e político fazia aumentar o desejo de conhecer melhor o Brasil. O surgimento de tantos novos romancistas que abordavam, por meio da ficção, aspectos da realidade socioeconômica acabava por atender às expectativas de diferentes leitores, contribuindo para consolidar o período como a fase áurea do romance modernista.

Linguagem: a “cor local”

De modo geral, o trabalho com a linguagem realizado pelos autores dessa geração busca trazer para as narrativas a “cor local”, ou seja, as informações sobre espaços, comportamentos e costumes, que permitem ao leitor reconhecer os aspectos típicos, característicos de uma região específica.



a A cena a seguir, extraída do romance O quinze, de Rachel de Queiroz, exemplifica como a cor local é inserida nos romances.

a Chamar a atenção dos alunos, na cena transcrita, para a diferença entre a “reza” de Dona Inácia (texto formal, marcado pela flexão de verbos na 2ª pessoa do plural, típica das orações da Igreja Católica) e a fala de Conceição (claramente oral, em tom de comentário, com reticências sugerindo pausas).

Depois de se benzer e de beijar duas vezes a medalhinha de S. José, Dona Inácia concluiu:

“Dignai-vos ouvir nossas súplicas, ó castíssimo esposo da Virgem Maria, e alcançai o que rogamos. Amém.”
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Vendo a avó sair do quarto do santuário, Conceição que fazia as tranças sentada numa rede ao canto da sala interpelou-a:

— E nem chove, hein, Mãe Nácia? Já chegou o fim do mês... Nem por você fazer tanta novena... Dona Inácia levantou para o telhado os olhos confiantes:

— Tenho fé em S. José que ainda chove! Tem-se visto inverno começar até em abril. [...]

QUEIROZ, Rachel de. O quinze. 14. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1971. p. 29. (Fragmento).

Inverno: nas regiões Norte e Nordeste, esse termo refere-se à estação das chuvas, que ocorre no verão e no outono.

Nessa cena, vemos o apelo para São José trazer a chuva. A religiosidade, principalmente em época de grande necessidade, é uma característica dos nordestinos. Conceição e sua avó também “falam” de modo natural, sem qualquer impostação ou rebuscamento linguístico. É o romance dando voz às personagens e, dessa maneira, tornando-as mais “reais”.

A inclusão de termos regionais também contribui para registrar referências que ajudam o leitor a construir uma representação mais fiel da região retratada nesses romances.

Literatura e contexto histórico

Considere as seguintes informações:

I. De 1919 a 1921, uma grande seca no Nordeste desencadeia o crescimento do êxodo rural.

II. Em 1920, foi criada a Caixa Especial de Obras de Irrigação de Terras Cultiváveis do Nordeste Brasileiro, mantida com 2% da receita tributária da União e outros recursos.

III. Em 1945, foi criado o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas, que substitui a Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas.



> Com base nessas informações, discuta com seus colegas as questões a seguir:

a) As informações apresentadas revelam que os problemas denunciados em obras como Vidas secas eram preocupações antigas e reais do Estado?

b) As medidas adotadas pelo Estado para combater os problemas causados pela seca surtiram efeito?

c) Relacione essas medidas a outras mais atuais que você eventualmente conheça.

Graciliano Ramos: mestre das palavras secas

Graciliano Ramos (1892-1953) apresenta, em sua obra, dois romances que sobressaem pelo modo surpreendente como apresentam diferentes níveis da miséria humana: aquela causada pela pobreza extrema em Vidas secas e a outra, fruto da ambição, em São Bernardo. Muito mais do que apenas romances regionalistas, os textos que nascem das mãos de Graciliano falam de problemas humanos universais.



A linguagem constrói o olhar realista

O cuidado com as palavras é um dos traços mais importantes da prosa de Graciliano Ramos. A economia no uso de adjetivos e advérbios, a escolha cuidadosa dos substantivos, todos os aspectos da construção de seus romances colaboram para a criação do “realismo bruto” que define o olhar neorrealista do autor. Observe, por exemplo, como o narrador de São Bernardo, Paulo Honório, fala sobre os funcionários que lhe serviam.

[...] Bichos. As criaturas que me serviram durante anos eram bichos. Havia bichos domésticos, como o Padilha, bichos do mato, como Casimiro Lopes, e muitos bichos para o serviço do campo, bois mansos. Os currais que se escoram uns aos outros, lá embaixo, tinham lâmpadas elétricas. E os bezerrinhos mais taludos soletravam a cartilha e aprendiam de cor os mandamentos da lei de Deus. [...]

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 81. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. p. 217. (Fragmento).



Taludos: bem desenvolvidos.
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Toda a apresentação dos trabalhadores é feita a partir do campo semântico criado pelo substantivo bichos, metáfora escolhida pelo narrador para caracterizá-los. O adjetivo domésticos e a locução adjetiva do mato estabelecem uma diferença no grau de civilidade de alguns deles.

Os demais funcionários não chegam sequer a ser identificados. A imagem (bois mansos) escolhida para resumir sua condição ajuda a compreender como as questões sociais aparecem nos romances de Graciliano Ramos. O narrador faz, nesse momento, uma particularização do campo semântico inicial: os bichos (funcionários de modo geral) passam a bois (somente os que trabalham nos campos). Desse ponto em diante, todas as informações dadas a seu respeito estarão contidas no novo campo semântico: suas casas sãocurrais e seus filhos, bezerrinhos.

Por meio da linguagem, o autor constrói seus protagonistas: homens atormentados, cheios de conflito, solitários, destruídos pela vida, como Paulo Honório. Outro personagem emocionalmente abalado é Luís da Silva, de Angústia, que, em 1ª pessoa, narra o desespero em que vive após assassinar o rival, Julião Tavares, que lhe roubara a noiva, Marina, às vésperas do casamento.



São Bernardo: retrato da destruição individual

O protagonista e narrador do romance São Bernardo, Paulo Honório, órfão, criado por uma negra analfabeta, luta para vencer na vida a qualquer preço. Conquista a fortuna e o prestígio desejados, mas descobre-se solitário e infeliz. Decide, então, fazer um balanço da própria vida na forma de uma narrativa. Surgem, nessa reconstrução de sua trajetória, os traços mais marcantes de uma personalidade “moldada” pelo contexto socioeconômico do qual fazia parte.

No centro da narrativa e do processo de autoanálise do protagonista, está seu casamento com Madalena, uma professora de origem pobre. Essa união é vista por ele como uma negociação qualquer, a ser decidida com base na possibilidade de lucro para os envolvidos.

[...] — A senhora, pelo que mostra e pelas informações que peguei, é sisuda, econômica, sabe onde tem as ventas e pode dar uma boa mãe de família. [...]

— O seu oferecimento é vantajoso para mim, seu Paulo Honório, murmurou Madalena. Muito vantajoso. Mas é preciso refletir. De qualquer maneira, estou agradecida ao senhor, ouviu? A verdade é que sou pobre como Job, entende?

— Não fale assim, menina. E a instrução, a sua pessoa, isso não vale nada? Quer que lhe diga? Se chegarmos a um acordo, quem faz um negócio supimpa sou eu. [...]

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 81. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. p. 101-102. (Fragmento).

Job: o mesmo que Jó. Na Bíblia (Livro de Jó), o demônio aposta com Deus que seria capaz de fazer seu mais dedicado fiel abandonar a religião. Essa personagem é Jó, que, testado pelo demônio, perde toda a sua riqueza de uma hora para a outra e nem assim abandona sua crença ou renega seu Deus. A expressão “paciência de Jó”, para designar uma pessoa extremamente paciente, deriva desse episódio bíblico.
Supimpa: excelente, muito bom.

As diferenças entre Paulo Honório e Madalena são evidentes: ele é um homem rude, que só pensa em acumular dinheiro, bens, propriedades. Ela é uma mulher educada, que se preocupa com o bem-estar dos trabalhadores, defendendo-os junto ao marido. As brigas constantes tornam insuportável a vida em comum.

Os conflitos entre essas personagens refletem a grande questão desenvolvida por Graciliano Ramos em São Bernardo: a tentativa do protagonista de ascender socialmente esbarra na sua incapacidade de se integrar à elite. Por trás da história desse sertanejo rude, surge uma representação inesperada da luta de classes, outra característica inovadora do romance de 1930: a burguesia falida aceita os novos-ricos como Paulo Honório, mas não sua integração socioeconômica.

[...] Coloquei-me acima da minha classe, creio que me elevei bastante. [...] Considerando, porém, que os enfeites do meu espírito se reduzem a farrapos de conhecimentos apanhados sem escolha e mal cosidos, devo confessar que a superioridade que me envaidece é bem mesquinha.


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[...] Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes. [...]

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 81. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. p. 218-221. (Fragmento).

Incapaz de se integrar aos seus semelhantes ou de ser aceito pela elite, Paulo Honório sofre e constata que, em nome da prosperidade econômica, destruiu a própria humanidade. Por meio de personagens como ele, Graciliano Ramos conduz seus leitores a uma análise progressiva da alma humana.



Vidas secas: a desumanização provocada pelo meio

Vidas secas é, no conjunto da obra de Graciliano Ramos, um livro singular em diferentes aspectos: é o único romance desse autor com foco narrativo em 3ª pessoa; não foi planejado como romance: nasceu de um conto, “Baleia”; seus capítulos foram escritos fora da ordem que receberam na edição final; não apresenta um aprofundamento da análise psicológica das personagens, como acontece em São Bernardo e Angústia.

O livro faz um retrato da dura existência no sertão nordestino. No início da narrativa, que você conheceu na abertura deste capítulo, Fabiano, sinha Vitória, os dois filhos e a cachorrinha Baleia procuram um lugar melhor para viver. Após longa caminhada pela caatinga, chegam a uma fazenda abandonada, onde resolvem se instalar.

A aridez do cenário se expande e atinge também o comportamento das personagens, caracterizado por falas monossilábicas e gestos voltados para a sobrevivência imediata. A animalização das personagens se manifesta de diversas formas nesse romance: as crianças não chegam a ser nomeadas (são referidas como “menino mais novo” e “menino mais velho”); como acontece com os animais, seu comportamento é determinado pela necessidade de sobreviver a um espaço inóspito.

Em uma passagem muito conhecida, o vaqueiro Fabiano questiona a própria humanidade para concluir, orgulhoso, que é um “bicho”.



0079_001.jpg

Boi morto pela seca no agreste. Município de Jataúba, Pernambuco, 2003.

RODRIGO LOBO/JC IMAGEM/ESTADÃO CONTEÚDO

[...]


— Fabiano, você é um homem, exclamou em voz alta.

[...] E, pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros. Vermelho, queimado, tinha os olhos azuis, a barba e os cabelos ruivos; mas como vivia em terra alheia, cuidava de animais alheios, descobria-se, encolhia-se na presença dos brancos e julgava-se cabra.

Olhou em torno, com receio de que, fora os meninos, alguém tivesse percebido a frase imprudente. Corrigiu-a, murmurando:

— Você é um bicho, Fabiano.

Isto para ele era motivo de orgulho. Sim senhor, um bicho, capaz de vencer dificuldades. [...]

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 71. ed. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 18. (Fragmento).

A questão central da obra está na relação entre o indivíduo e a sociedade, agora atravessada também pelo espaço dominado pela seca que empurra as pessoas para uma condição de vida completamente desumana e as torna vítimas de “patrões” inescrupulosos.

Vidas secas permanece, ainda hoje, uma obra assustadoramente atual no retrato que faz dos retirantes nordestinos que acalentam um único sonho: sobreviver.
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TEXTO PARA ANÁLISE

Leia o texto a seguir e responda às questões.

19

Paulo Honório reflete, com amargura, sobre a sua trajetória de vida.

Conheci que Madalena era boa em demasia, mas não conheci tudo de uma vez. Ela se revelou pouco a pouco, e nunca se revelou inteiramente. A culpa foi minha, ou antes, a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.

E, falando assim, compreendo que perco o tempo. Com efeito, se me escapa o retrato moral de minha mulher, para que serve esta narrativa? Para nada, mas sou forçado a escrever.

Quando os grilos cantam, sento-me aqui à mesa da sala de jantar, bebo café, acendo o cachimbo. Às vezes as ideias não vêm, ou vêm muito numerosas — e a folha permanece meio escrita, como estava na véspera. Releio algumas linhas, que me desagradam. Não vale a pena tentar corrigi-las. Afasto o papel.

Emoções indefiníveis me agitam — inquietação terrível, desejo doido de voltar, tagarelar novamente com Madalena, como fazíamos todos os dias, a esta hora. Saudade? Não, não é isto: é desespero, raiva, um peso enorme no coração.

Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão. [...]

O tique-taque do relógio diminui, os grilos começam a cantar. E Madalena surge no lado de lá da mesa. Digo baixinho:

— Madalena!

A voz dela me chega aos ouvidos. Não, não é aos ouvidos. Também já não a vejo com os olhos. [...]

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 81. ed. Rio de Janeiro: Record, 2005. p. 117-118. (Fragmento).



1. Como Paulo Honório caracteriza sua mulher?

> De quem é a culpa, segundo ele, pelo fato de Madalena nunca ter se revelado inteiramente?

2. No trecho a seguir, o adjetivo destacado qualifica tanto a “vida” quanto a “alma” do protagonista. Que significado o termo assume em cada expressão?

“[...] a culpa foi desta vida agreste, que me deu uma alma agreste.”



a) Que relação Paulo Honório estabelece, a partir desse recurso, entre sua trajetória e seu temperamento?

b) De que maneira a caracterização que ele faz de si mesmo é uma consequência do juízo que faz de Madalena, a quem considera “boa em demasia”?

3. Paulo Honório resolve escrever um livro para tentar compreender por que se sente atormentado. De que maneira, no trecho transcrito, ele deixa claro que essa intenção será frustrada?

a) O que o obriga a escrever?

b) Que sentimentos são desencadeados em Paulo Honório pelas lembranças?

c) A que a personagem atribui esses sentimentos?

4. Paulo Honório sempre se considerou inferior à esposa, por ela ser instruída e ele não. Transcreva em seu caderno o trecho em que isso fica evidente.

a) Por que esse trecho revela o seu sentimento de inferioridade?

b) Em que outro momento do texto ele sugere sua incapacidade com as palavras?

5. No último parágrafo, Paulo Honório vê e ouve Madalena de novo, embora ela não esteja lá, de fato. O que provoca essa sensação nele?

> Como a linguagem utilizada nesse parágrafo mostra que ele tem consciência de que a imagem não é real?

6. No romance, Paulo Honório percebe que, embora tenha enriquecido, não consegue se integrar à classe que tanto almejou. Explique por que e justifique suas afirmações com exemplos do trecho.

José Lins do Rego: lembranças de um menino de engenho

Nas obras que compõem o ciclo da cana-de-açúcar, José Lins do Rego (1901-1957) recria a realidade dos trabalhadores da região canavieira pernambucana a partir das suas recordações da infância na fazenda do avô. As narrativas deixam clara uma grande preocupação com a linguagem, construída para dar veracidade às cenas e às personagens. Menino de engenho é o romance que inaugura esse ciclo. O dia a dia de um engenho ganha realidade por meio do casamento perfeito entre a descrição do espaço e a fala das personagens, como no trecho a seguir.

Estavam na limpa do partido da várzea. O eito bem pertinho do engenho. Da calçada da casa-grande viam-se no meio do canavial aquelas cabeças de chapéu de palha velho subindo e descendo, no ritmo do manejo da enxada: uns
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oitenta homens comandados pelo feitor José Felismino, de cacete na mão, reparando no serviço deles. [...]

— Deixa de conversa, gente! — gritava seu José Felismino. — Bota pra diante o serviço. Com pouquinho o coronel está aqui gritando. [...]

Manuel Riachão puxava o eito na frente, como um baliza. Era o mais ligeiro. [...] Sempre na dianteira, deixando na bagagem os companheiros. O moleque Zé Passarinho remanchando, o último do eito. Não havia grito que animasse aquela preguiça alcoolizada. Também, ganhava dois cruzados, davam-lhe a mesma diária das mulheres na apanha do algodão.

— Tira a peia da canela, moleque safado! O diabo não anda! [...]

REGO, José Lins do. Menino de engenho. 66. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997. p. 58-59. (Fragmento).




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