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momento microcósmico vislumbrei a magnitude da perda. Mas, em vez de ficar com mais raiva ou amortecido, dessa vez senti subitamente uma inexplicável liberação daquilo tudo. É claro que essa ufania e exaltação era passageira e logo foi seguida pela culpa e depois por uma série de emoções fabricadas pelo homem.
É verdade que nessa tradição eu não devia estar pensando em nada, muito menos em me deixar levar por emoções. Em minha defesa eu tinha atingido aquele caminho para o perdão apenas quando, em meditação, fui capaz de separar o "eu" de mim. Ou seja, concentrado naquele momento, em meio a tal tumulto interior, conseguia separar duas experiências: o que acontecia aqui e a minha reação ao que acontecia aqui. Pelo fato de carregar o testemunho simplesmente do que tinha acontecido, sem misturar com os meus sentimentos, com a minha opinião, com a minha reação, com o meu julgamento, aquilo simplesmente aconteceu.
Fez com que eu me lembrasse de uma breve conversa que tive com Grover antes.
- Isso deve ter sido um verdadeiro purgatório para essas pessoas - disse eu, pensando também que purgatório é uma visão teológica bem forte para os católicos romanos que viviam na Polônia.
Purgatório (do latim purgare, "limpar, purificar") é um lugar ou estado de tormento temporário, do qual Gregório, o Grande, escreveu "que a dor é mais intolerável do que qualquer um pode sofrer na vida", pelo qual a alma supostamente passa até ser purificada e então transferida para o céu.
- Como chamariam isso no budismo? - perguntei para Grover.
Estávamos caminhando pelo meio de filas e mais filas de alojamentos, alguns de madeira escura, outros de tijolos, mais marrons do que vermelhos. Tive a impressão de ainda poder sentir o cheiro da morte no ar. O sol da tarde criava sombras compridas. A sensação era de estar no corredor da morte.
- Será o bardo? — arrisquei.
Ele me corrigiu, disse que eu tinha confundido as minhas tradições budistas. De acordo com o budismo tibetano, o bardo é a fase entre uma vida e a seguinte e literalmente quer dizer "o que fica no meio" ou "estado intermediário".
- No zen não existe estado intermediário - explicou ele. -Entre o agora e o agora existe apenas o agora.
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Era uma distinção sucinta que eu ia lembrar sempre nas minhas viagens.
A cerimônia Bearing Witness na Sauna terminou com uma leitura do Kaddish do Pranteador, oração judaica para os mortos, primeiro em hebraico, depois em inglês: "Que haja paz abundante do céu, com o que há de bom na vida para nós e para toda a Israel. E digamos amém. Que Aquele que traz a paz para o universo traga paz para todos nós e para toda a Israel. E digamos amém."
Amém também para que aquela sensação de alívio, de libertação
- de um momento de coexistência pacífica com a atrocidade completa de Auschwitz e de todas as nossas perdas —, voltasse para mim o resto daquele dia, uma fragrância que cobria o fedor da morte.
Aquela noite, quando contei para os outros, em clima de quase confissão, sobre essa experiência de libertação de tantos pensamentos e sentimentos infernais, fiquei surpreso mas aliviado de ver que alguns deles meneavam a cabeça, compreendendo.
- Eu me sinto mais viva aqui do que em qualquer outro lugar
- confidenciou Aleksandra Kwiatkowska, estudante de fotografia, de 24 anos.
O seu comentário ficou ainda mais incoerente porque ela era uma loura linda, vibrante, alto-astral, inteligente e compassiva, que tinha um sorriso intenso. No seu tempo livre ela fazia trabalho voluntário numa clínica para crianças em sua cidade natal de Wroclávia, Polônia. Ela me disse que aquele era o seu segundo retiro em Auschwitz.
Eu quis saber por que se submeter a uma experiência tão devastadora emocionalmente como aquela, duas vezes.
- Cercada pela morte a cada passo? — perguntei, incrédulo. — Como pode se sentir mais viva? Como pode? - insisti. - Como?
- Eu não sei - respondeu ela, espantada com meu tom de interrogatório, como eu também estava. - Mas é isso... que acontece... é verdade.
E ela não disse mais nada.
Essa resposta não foi nenhum alento para mim. Fiquei mais perplexo e frustrado. As pessoas costumam perguntar como foi que aquilo aconteceu. Como foi que deixamos seis milhões de pessoas serem assassinadas? Quem poderia ser tão cruel para
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cometer coisa tão horripilante? O budista responde: "Eu não sei." Parece que se desliga.
Imaginei se ela raciocinava com o que os praticantes do zen chamavam de "mente do não sei". A frase sugere que existem coisas que nunca poderemos entender, e que só terão sentido quando pararmos de tentar entendê-las. Isto é, quando deixarmos de lado presunções e suposições, quando desistirmos de tentar compreender e imaginar tudo intelectualmente - resumindo, quando pusermos as nossas mentes em descanso e ficarmos simplesmente quietos, como dizem os budistas -, então veremos as coisas como elas são. Por quê? Porque paramos de julgar, de discriminar, de fazer distinções, de "nós" e "eles", e talvez mais concretamente ainda, de nós contra eles.
Não sei nada da mente do não sei. De onde venho, chamamos a isso de negação. O que sei é que mais cedo aquele dia, na meditação, a intensidade das emoções que percorriam meu sangue acionaram os hormônios que nos preparam para a luta ou a fuga e me encheram de raiva, lamento, culpa e desejo de vingança. Naquele momento eu tinha três opções. Uma era continuar com raiva e querendo vingança, o que só gerava mais sofrimento. A segunda era fugir correndo e me esconder daqueles sentimentos, o que era impossível. A terceira era aceitá-los como parte incompreensível do espectro da vida, inclusive a morte e o sofrimento, assim como a vitalidade e a felicidade. Nessa terceira via eu também podia me sentir "mais vivo".
Hermann Hesse tinha escrito algumas linhas sobre o sofrimento que pareciam um cartão da Hallmark a primeira vez que li. Agora as leio com respeito renovado: "Você sabe muito bem, lá no fundo, que existe apenas uma mágica, um poder, uma salvação... e que se chama amor. Bem, então ame o seu sofrimento. Não resista a ele, não fuja dele. E a sua aversão que provoca dor, nada mais."
Era uma lição difícil — para um judeu, para um polonês, para uma pessoa que pensa que precisa de respostas -, e honestamente ainda não aprendi. Mas fiz as pazes com os meus sentimentos sobre aquela página negra da história e estava disposto a viver sem saber, pelo menos por um tempo, pois sabia que teria momentos nas próximas semanas para continuar praticando.
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4 NA TERRA ONDE BUDA NASCEU
A índia e seu novo despertar para aquele que despertou
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