Por que uma idéia de dois mil e quinhentos anos atrás pareceria hoje mais relevante do que nunca? Como os ensinamentos do Buda podem nos ajudar a resolver muitos problemas do mundo



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Por que uma idéia de dois mil e quinhentos anos atrás pareceria hoje mais relevante do que nunca? Como os ensinamentos do Buda podem nos ajudar a resolver muitos problemas do mundo? O jornalista Perry Garfinkel circunavegou o globo, encontrou o coração do budismo e os motivos de sua crescente popularidade - e acabou se descobrindo nesse processo.

Desgastado, meio entrevado com dores nas costas, desiludido com relacionamentos e com a própria religião, Garfinkel tinha esperanças de conseguir um grande furo jornalístico. Por isso, partiu em uma expedição geográfica, histórica e pessoal em busca das respostas para os maiores mistérios da vida.

Para entender o homem que nasceu Siddhartha Gautama, ele fez a peregrinação cronológica "nos passos do Buda", na índia. De lá, rastreou o curso histórico do budismo. Foi até o Sri Lanka, a Tailândia, China, Tibete, Japão, depois para San Francisco e para a Europa. Descobriu que os ensinamentos do Buda geraram um movimento mundial de "budismo engajado", a aplicação dos preceitos budistas na resolução de problemas contemporâneos sociais, ambientais, de saúde, políticos e outros.

Ao longo do caminho, Garfinkel conheceu uma grande variedade de praticantes do budismo - artistas tailandeses, freiras indianas, crianças de uma escola no Sri Lanka, arqueiros zen no Japão, monges Kung fu na China e entusiastas nos Estados Unidos. Entre dúzias de acadêmicos e líderes budistas, Garfinkel entrevistou Sua Santidade o Dalai Lama, experiência que o deixou extasiado. Como recompensa merecida pelos seus esforços, quase no fim de sua viagem, Garfinkel se apaixonou, num retiro do monge budista vietnamita Thich Nhat Hanh, no sul da França.

Neste livro original e interessante, Garfinkel separa os fatos da ficção, no budismo, compartilha suas descobertas e sua percepção aguda sobre tudo, desde o turismo espiritual aos engarrafamentos de trânsito na Ásia e ao caminho infinito para a iluminação do espírito.

PERRY GARFINKEL é colaborador do The New York Times desde 1986 e se especializou em viagens e tendências culturais. Jornalista veterano, tem feito coberturas das influências do Oriente no Ocidente há mais de trinta anos. Vive em Martha's Vineyard. Está no site www.buddhaorbust.com

Design de capa: David Tran

Foto da capa: Buddha, Kyle Kolker
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Perry Garfinkel

BUDA

OU DESAPEGO

Viagens pelo mundo em busca da Verdade, do significado da felicidade e do homem que encontrou tudo isso

Tradução de Alyda Christina Sauer

Título original

BUDDHA OR BUST

In Search of Truth, Meaning, Happiness

and the Man Who Found Them Ali

Copyright © 2006 by Perry Garfinkel Todos os direitos reservados.

Tradução da edição brasileira publicada mediante acordo com a Harmony Books, uma divisão da Random House, Inc..

Direitos para a língua portuguesa reservados

com exclusividade para o Brasil à

EDITORA ROCCO LTDA.

Av. Presidente Wilson, 231 — 8? andar

20030-021 - Rio de Janeiro, RJ

Tel.: (21) 3525-2000 - Fax: (21) 3525-2001



rocco@rocco.com.br

www.rocco.com.br

Printed in Brazil/Impresso no Brasil

preparação de originais FÁTIMA FADEL

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte. Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Garfinkel, Perry. ' m Buda ou desapego: Viagens pelo mundo em busca da verdade, do sig-

nificado da felicidade e do homem que encontrou tudo isso/Perry Garfinkel; tradução de Alyda Christina Sauer. - Rio de Janeiro: Rocco, 2007. il., mapa - (Arco do Tempo. Nos passos do budismo)

Tradução de: Buddha or bust: in search of truth, meaning, happiness and the man who found them ali Inclui bibliografia ISBN 978-85-325-2152-1

l.Garfinkel, Perry. 2. Budismo -Aspectos sociais. 3. Vida espiritual (Budismo). I. Título. II. Série.

CDD - 294.3 07-0337 CDU-294.3



Lillian K Garfinkel

Saiba você ou não — e suspeito que você não sabe

você é minha professora de budismo, mãe.



Ariana Garfinkel e Ryan Romeiser

Nunca existirá um pai que ame tanto afilha e

o genro mais do que eu amo vocês.
Sumário 5

AGRADECIMENTOS 9



Mapa **> 12

1 - SURGIMENTO DE BUDA 75

O conhecimento com 2.500 anos que hoje é mais relevante do que nunca

2 - BEM-VINDO À NOVA ERA (AXIAL) <** 34

Budafoi o primeiro baby boomer do mundo?

3 - DESCOBRINDO A VERDADE DE BUDA

PARA O SOFRIMENTO NA POLÔNIA «» 48

4 - NA TERRA ONDE BUDA NASCEU •**> 65



A Índia e seu novo despertar para aquele que despertou

5 - AINDA DERRAMANDO LÁGRIMAS 124



Sri Lanka antes e depois do tsunami

6 - Tatuagens, pega-varetas e imitação



de monges 147

A mistura criativa do budismo tailandês

7 - Para onde quer que vá, é lá que você está...



mesmo em hong kong 175

8 - despertar o gigante adormecido O budismo retorna lentamente para a China

9 - MANTER O CORAÇÃO SUTRA DO BUDISMO AINDA BATENDO NO JAPÃO «*> 224

10 - A VOLTA PARA O OM DOS LIVRES E BRAVOS 248

O budismo norte-americano é a ruga mais recente no rosto eternamente sorridente

11 - GAUTAMA VAI PARA A GÃLIA **> 276



Budismo com um toque francês

12 - ENTREVISTA COM O DALAI LAMA 291



Ele me cativou ao dizer alô

13 - RESPIRAR, SOLTAR O AR 315



A busca continua

VOCABULÁRIO BUDISTA BÁSICO «*> 321 REFERÊNCIAS =*° 325 BIBLIOGRAFIA **> 329

Agradecimentos

Ofereço uma profunda mesura de gratidão às seguintes pessoas. Este livro e eu não seríamos os mesmos sem elas.

Shaye Areheart, editora da Harmony Books, entendeu o que eu tinha em mente, até melhor do que eu mesmo.

Julia Pastore, editora sênior da Harmony, que me encorajou a investigar meus sentimentos mais a fundo, e fazer isso de uma forma oportuna.

Cary Wolinsky que começou tudo isso por ter a sabedoria de pôr água numa semente que tinha sido plantada muitos anos atrás.

A equipe da revista National Geographic: Bernard Ohanian, antigo editor associado que me animou a desenvolver uma idéia que se transformaria numa missão; Oliver Payne, editor de manuscritos, que vivia perguntando: "Como vai Buda?"; Alan Mair-son, redator, que me empurrava e questionava na fase da proposta; Heidi Schultz, pesquisadora contratada especialmente, que contribuiu muito com a minha investigação dos fatos; Erika Lloyd, antiga coordenadora editorial, uma felicidade trabalhar com ela; e principalmente Peter Porteous, editor sênior, que pressionou quando era necessário e teve paciência quando cabia, do primeiro rascunho até o último.

Steve McCurry, fotógrafo excepcional, que tolerou minhas sugestões de fotos... e sim, Steve, você pode recomendar um lead sempre que quiser.

Candice Furhman é a agente que eu sempre procurei.

Sue e Shel Mattison mantinham em ordem as minhas contas e a minha cabeça, e ficavam ligadas com o mundo por e-mail.

Alan Senauke, antigo diretor-executivo da Buddhist Peace Fellowship (BPF) em Berkeley, foi meu Garganta Profunda budista, oferecendo orientação, contatos e acesso a pessoas e lugares que eu nunca teria encontrado sozinho. Como agradecimento estou doando parte dos lucros com Buda ou desapego para a BPF.

Também quero agradecer aos amigos que me deram idéias, estímulo e inspiração de todas as formas, desde o início: Wes Nis-ker, Arlan Wise, Julie Berriault, Daniel Goleman, Joseph Golds-tein, Jon Kabat-Zinn, John Bush, Mirabai Bush, Joely Johnson, Mark Mazer, Liz e Mike Zane, e Sheila Donnelly Theroux.
Todos os seres vivos, quer saibam quer não, seguem este Caminho.

-O BUDA, SUTRA LÓTUS BRANCO



Libertem-se da escravidão mental; só nós mesmos podemos libertar nossas mentes.

- Bob Marley, "Redemption Song"

O artista precisa ter cuidado de nunca chegar

a um lugar quando ele considera estar em algum lugar.

Sempre temos de compreender que estamos constantemente

em estado de nos tornar. E se conseguimos permanecer

nesse reino, ficaremos bem.

- Bob Dylan no documentário

de Martin Scorsese

No Direction Home, parte 2, 2005

'.'


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SURGIMENTO DE BUDA



Um conhecimento com 2.500 anos que hoje é mais relevante do que nunca

Você não pode ter tudo que quer. E impossível e inalcançável Felizmente, existe outra opção. Você pode aprender a controlar a sua mente, para não entrar nesse ciclo infinito de desejo e frustração. Pode aprender a não querer o que quer, a reconhecer os desejos mas não ser controlado por eles.

- O BUDA

Os ensinamentos fundamentais de Gautama, como agora começa a ficar nítido para nós por meio do estudo das fontes originais, são muito claros e muito simples e estão em íntima harmonia com as idéias modernas. São, além de qualquer discussão, a realização de uma das inteligências mais penetrantes que o mundo já conheceu.

- H. G. WELLS, em OutlineofHistory

O homem que mais me ensinou sobre budismo não era um monge de cabeça raspada e manto amarelo. Ele não falava sânscrito e não vivia num mosteiro no Himalaia. Na verdade ele nem era budista. Era Carl Taylor, que sempre viveu em San Francisco e que parecia ter quarenta e muitos anos. Naquele momento parecia estar com frio, sentado bem reto numa cama com rodas nos jardins externos do asilo do Hospital Laguna Honda, próximo de Twin Peaks, San Francisco. Era uma tarde de verão de céu



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completamente azul, mas nessa cidade isso muitas vezes significa um frio que penetra nos ossos. Carl estava morrendo de câncer.

Eu passava uma semana com o Projeto de Asilos Zen, um grupo de voluntários budistas que assistiam à equipe da unidade do asilo com 24 leitos, uma das maiores instituições públicas de atendimento de internação nos Estados Unidos. O projeto, agora espalhado pelo mundo todo, utiliza dois ensinamentos centrais do budismo - a consciência do momento presente e a compaixão - como ferramentas para ajudar a levar certo grau de dignidade e humanidade àqueles que estão nos últimos estágios de suas vidas. Não são coisas fáceis de aprender.

Sentei ao lado de Carl e ajudei a arrumar o velho casaco de aviador que ele usava como cobertor. Tratava seu diagnóstico terminal com bravura resignada. Tentei conversar sobre trivialidades, mas não funcionou. Que palavras de consolo se pode oferecer para alguém que não viverá muito tempo e sabe disso?

- Que tipo de trabalho você faz... é... fazia?

Silêncio prolongado. Ele deu uma lenta tragada no cigarro. Passou uma eternidade enquanto observamos uma nuvem pequenina quebrar a monotonia azul e cruzar o céu.

— Eu não falo sobre o meu passado.

Muito bem. Fiz um esforço para manter a conversa e verifiquei mentalmente a minha lista de perguntas. Mas se não podia perguntar sobre o passado dele, e se não havia sentido em perguntar sobre o futuro, a única coisa que sobrava era o presente. E no presente eu estava aprendendo que não há perguntas; há apenas o existir. Isso me deixou constrangido a princípio: privado dessas perguntas o jornalista fica sem identidade.

Mas Carl parecia satisfeito apenas de me ver ali sentado, só a minha companhia já ajudava a aliviar um pouco do seu sofrimento. Depois que aceitei não ter nada a fazer, nenhum lugar para ir e talvez, o que era mais importante, não ter de representar ninguém, relaxei. Carl olhou para mim de soslaio e sorriu. Nós dois compreendemos que eu tinha acabado de aprender uma pequena lição. Juntos observamos outra nuvem passar.

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Naquela semana aprendi outras coisas do curso Budismo 101 - ensinamentos sobre a impermanência da vida, sobre o nosso apego a como queremos que as coisas sejam e a decepção que sentimos quando essas coisas não acontecem, sobre sofrimento físico e mental, sobre o valor do que os budistas chamam de sangha, cuja melhor tradução é comunidade. Mas acima de tudo vi como o aprendizado de um homem na índia há 2.500 anos tinha sido atualizado e adaptado ao mundo moderno.

No mundo inteiro hoje em dia há um novo budismo. Sua filosofia e prática estão sendo aplicadas para ampliar as terapias mentais e físicas, e para aprimorar as reformas ambientais e políticas. Os atletas usam o budismo para aperfeiçoar seu desempenho nos esportes. Por meio dele executivos de empresas aprendem a administrar melhor o estresse. A polícia se arma com ele para desmontar situações voláteis. Pessoas que sofrem de dores crônicas o aplicam como lenitivo. Como seus ensinamentos têm essa relevância contemporânea, o budismo hoje passa por um renascimento, mesmo em países como a índia, onde quase desapareceu, e na China, onde foi proibido.

O budismo não é mais só para os monges ou ocidentais com tempo de sobra e renda suficiente para ter acesso às coisas do Oriente. Cristãos e judeus o praticam. Afro-americanos meditam ao lado de nipo-americanos. Só nos Estados Unidos, o número de pessoas que se declaram budistas saltou de 400 mil em 1990 para mais de três milhões em 2001, escreve James Coleman, sociólogo da Universidade Politécnica Estadual da Califórnia, em The New Buddhism. E segundo um estudo de 2004 publicado no Journal for the Scientific Study ofReligion, um em cada oito norte-americanos — mais de 37 milhões de pessoas - acredita que os ensinamentos budistas tiveram uma influência importante na sua espiritualidade. O Projeto de Asilos Zen é um exemplo de "budismo engajado socialmente", um termo criado pelo monge budista Thich Nhat Hanh, que teve de se exilar do Vietnã na década de 1960 por suas atividades contra a guerra. Ainda "engajado" com a idade de 79 anos, ele viajou pelo seu país de origem três meses em 2005 - o 30° aniversário da tomada do Vietnã pelo Partido Comunista



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- divulgando os ensinamentos budistas onde um dia tinha sido um pária.

No sul da França, em seu centro de retiro Plum Village, ele recebe regularmente, entre outros grupos, palestinos e israelenses em oficinas de solução do conflito e negociação de paz. Tais sessões muitas vezes começam com animosidades, disse-me o reverendo Hanh, e com a mesma freqüência terminam com abraços.

-Tudo começa com um antigo ditado modificado: "Não faça só alguma coisa, sente-se" - ele disse com seu fiapo de voz.

Um homem muito magro, com orelhas grandes e olhos fundos, o reverendo Hanh estava sentado na varanda de sua cabana com vista para os vinhedos verdejantes de Bordeaux. Parecia incoerente estar conversando com ele no coração de uma região que atrai adoradores de Baco, não de Buda.

- Com todo esse trabalho engajado, primeiro temos de aprender o que o Buda aprendeu, para fazer com que a mente se imobilize. Depois não agimos; é a ação que nos leva.

De fato, a ação tinha me levado para uma expedição de proporções épicas, uma jornada ambiciosa e por vezes árdua em busca da presa da humanidade mais ameaçada e mais fugidia. Eu circunaveguei o globo à procura de nada menos do que a verdade, o sentido da vida e a felicidade. Fui atrás de um homem que quase meio bilhão de pessoas hoje em dia acredita firmemente que encontrou as três coisas... e mais ainda. Então naveguei pelo legado desse homem, mapeando a migração e mutação em mais de dois milênios das táticas bastante simples que ele desenvolveu para capturar esse objetivo.

Ele ficou conhecido por muitos nomes - Tathagata, Sakya-muni, Siddhartha Gautama —, mas é mais reconhecido pelo nome que homenageia a sua sabedoria: o Buda, "aquele que despertou".

Embora essa filosofia tivesse motivado o surgimento de uma religião praticada há muito tempo por toda a Ásia, e neste último século em regiões do Ocidente também, a minha busca não era de natureza religiosa. E agora, depois de estudar a vida dele, acredito

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que nem a do Buda era. Ele, como eu, como você, como qualquer pessoa que pensa, sente, se emociona, simplesmente queria respostas para perguntas que têm uma natureza tão universal que transcendem os ismos e que partem da alma do que significa ser humano. Perguntas que perseguem, assombram, desafiam, confundem, frustram, inspiram e motivam as pessoas praticamente desde o momento em que são desmamadas.

- Quem sou eu?

- Por que estou aqui?

- O que é essa coisa chamada vida? E a maior de todas:

- Como posso chegar ao próximo fim de semana com um pouco menos de sofrimento e um pouco mais de felicidade?

Verdade. Sentido da vida. Felicidade.

Eu questionava as três coisas e muito depressa chegava ao que me parecia ser uma conclusão bem plausível, de que nenhuma das três existia... quando o Buda apareceu para mim na forma da tarefa mais instigante de toda a minha vida. E já não era sem tempo.

A revista National Geographic aceitou a minha proposta de escrever uma grande matéria vagamente intitulada "Seguindo os passos de Buda". Controlando o meu ego, fiquei sabendo que consegui o contrato porque um dos maiores fotógrafos da revista, Steve McCurry (ele fotografou o famoso perfil da revoltada menina afegã de olhos verdes) já tinha uma coleção de imagens de monges e estátuas budistas cobrindo a Ásia. Deram-me um adiantamento polpudo, uma passagem de avião classe executiva de volta ao mundo sem limite de paradas e me alvejaram com todo o tipo de vacinas enquanto eu aplicava em mim mesmo as fantasias típicas de jornalista com matérias de capa e aparições no programa Larry King de entrevistas na televisão.

- Então nos vemos daqui a dez semanas - eles disseram.

Eu barganhei mais dez, ainda mais ajuda de custo para a viagem e depois de um tempo este livro que você está segurando. Mas o que realmente recebi em troca foi muito maior - nada que chegasse perto do verdadeiro despertar, mas certamente uma fiança cósmica para me livrar da prisão.



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...

Organizei a expedição pensando na cronologia do budismo. Partindo do lugar em que Buda nasceu na fronteira da índia com o Nepal, eu seguiria seus passos pela índia. Depois acompanharia a passagem dos ensinamentos, primeiro no Sri Lanka, depois pelo Sudeste da Ásia e a cadeia do Himalaia até a China e o Japão, acabando na Europa e nas Américas. Com isso eu ia mesmo circunavegar o globo, do mesmo modo que os budistas rodam em círculos três vezes os locais ou templos sagrados. O ângulo que eu queria era fazer a reportagem sobre o movimento do budismo engajado por todo o mundo, sobre o qual pensava que conhecia alguma coisa, mas que se revelou muito mais disseminado do que eu imaginava. Em Budismo engajado no Ocidente {Engaged Buddhism in the West), Christopher S. Queen, professor de religiões em Harvard, define socialmente o budismo engajado de forma bem simples. Para ele é "pôr em prática o dharma, ou os ensinamentos budistas, como solução para os problemas sociais". Tendo como ponta de lança uma rede internacional interligada de ONGs e instituições sem fins lucrativos - desde o Buddhist Peace Fellow-ship (BPF) em Berkeley, Califórnia, à International Network of Engaged Buddhists (INEB), com sede em Bangcoc; do Center for Contemplative Mind in Society em Northampton, Massachusetts, à Greyston Foundation em Yonkers, Nova York; dos Zen Peacemakers em Montague, Massachusetts, até a Community of Mindful Living de Thich Nhat Hahn, com filiais no mundo inteiro - os praticantes do budismo estavam saindo dos mosteiros, literal e figurativamente. Estabelecem centros de tratamento para AIDS/HIV no Camboja, participam de protestos pacíficos contra as execuções na Prisão Estadual de San Quentin ao norte de San Francisco, lançam-se em iniciativas de reforma do sistema prisional na Tailândia e mais. Monges e leigos estão ativamente procurando diminuir o sofrimento no mundo.

E eu ia cobrir isso tudo.

Pois até mesmo um amador como eu diria que obter esse sinal verde de reportagem era como ganhar a trifecta do budismo. Eu ia galgar muitos níveis de "mérito", cacifes altamente desejáveis a serem resgatados nesta vida ou na próxima. Meu trabalho ia ser o



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que os budistas chamam de "meio de vida correto", querendo com isso dizer que não só era meu dever não fazer mal a outros seres conscientes, mas também que o assunto do que eu ia escrever poderia beneficiar a humanidade e o meio ambiente. Eu entrevistaria alguns dos principais pensadores e praticantes do budismo, como se todos os dias freqüentasse um curso denominado "Ultimas palestras do dharma". Eu ia pisar em lugares onde o Buda pisou, sentar em cavernas onde ele sentou, atravessar plantações de arroz por onde ele passou... e Buda disse para seus seguidores que pelo simples fato de visitar esses lugares ganharíamos mérito e faríamos descobertas. Além do mais, eu estava sendo pago para fazer isso, poderia ver meu texto em uma das revistas mais respeitadas do mundo e com um pouco de sorte seria promovido à lista A de Convidados Interessantes para Jantares na pequena ilha onde moro. Será que o amor e o despertar estariam muito longe?

Na minha vida pessoal a oportunidade era excelente. As coisas começavam a entrar nos eixos. Até que enfim. A sensação que eu tinha era de que alguém tinha subitamente salpicado um pó mágico em mim e o efeito dele ia reverter a descida escorregadia por onde enveredara a minha vida. O que eu não sabia naquela época era que as coisas iam melhorar ainda mais. Por um tempo. E depois elas iam, bem, mudar. E mudar de novo.

Para entender o quanto essa expedição foi épica, temos de voltar para...

Julho de 2003, para o chão atapetado da sala de estar da casa da minha mãe em Nova Jersey, as minhas costas tendo um espasmo, minha mãe debruçada em cima de mim. Latitude zero, longitude zero na minha vida. Faz um ano desde a morte do meu pai e só agora está me alcançando o fato de eu sentir tanta saudade do homem que passei tanto tempo querendo afastar de mim. Eu tinha voltado para casa depois de ir ao ato de desvelar, a tradição judaica de visitar o túmulo um ano depois do enterro. Eu sou, para todos os efeitos, sem-teto, moro temporariamente num conjunto habitacional no Vale, a sala de espera de Los Angeles para o que já foram, os que querem ser e os que nunca vão ser. A mulher



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que namoro me deu o apelido de sr. Tartaruga. Eu podia arrumar tudo que possuo na Costa Oeste em meu Subaru Forester, e fiz isso muitas vezes. Essa mesma namorada, cujo estilo de vida típico de Los Angeles eu jamais poderia bancar e que nem ela pode, me botou para fora quando descobriu algumas impropriedades que tenho vergonha demais para repetir até para mim mesmo.

A minha pretensa carreira está sendo ejetada pela descarga do vaso sanitário. Dois projetos de ghostwriting pelos quais me mudei para a Califórnia foram para o espaço. O New York Times, para o qual vinha contribuindo desde 1986 ultimamente passou a rejeitar todas as idéias de matérias que eu propus. Já passaram meses desde a última vez que escrevi algo significativo. Confiei minha vida aos cartões de crédito enquanto esperava que esse Santo Graal do contrato com a Geographic se concretizasse. Mas estou perdendo a esperança. A idéia de que essa tentativa pode ter sido um exercício de auto-engano me projetou em queda livre no esquecimento, para não falar da obscuridade literária. Uma das frases que minha mãe costumava dizer fica sempre voltando como um mantra recorrente: "Perry, você não tem um penico para mijar."

E agora isso. Estou me contorcendo no chão, comendo fiapos do tapete. Minutos antes tinha me curvado em uma manobra desajeitada - estava de bicicleta e parei para me inclinar e recolher uma tartaruga que caminhava pelo meio da rua - e senti o que parecia um tambor rolando sobre o lado esquerdo das costas. E minhas costas ruíram. O lado esquerdo se esfarelou como um biscoito seco e não consegui mais ficar de pé. Não sei como consegui voltar para a casa da minha mãe a poucas quadras dali e agora estou caído no chão. Não me escapa a ironia de que foi a tentativa de salvar minha xará, a tartaruga, que provocou esse mal.

Não existe uma posição confortável. Conheço bem essa sensação. Esse é o terceiro "evento de coluna" em dois anos que me deixou tão debilitado que tive de ficar de cama por dez dias, com dosagem até o limite legal de Advil, reduzido a ir me arrastando até o banheiro porque não conseguia ficar de pé. E já mencionei a dor e o sofrimento?. Reconheci imediatamente a seriedade da situação e, na minha cabeça, já estou cancelando o vôo que tinha



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