Sumário prólogo capítulo



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CAPÍTULO 49
Eali estava, diante dos dois, a Sabedoria personificada: a ilustre e etérea imagem de uma mulher vestida com uma túnica escarlate e um manto azul-celeste, uma criatura de rosto angelical e beleza incomensurável, nascida da esperança do homem. Levitava a alguns metros do solo, na metade da sala, e uma brisa leve fazia ondular suas ricas vestes. De seus cabelos se desprendia uma luz cálida, branca como a neve. Seus olhos tinham a cor do céu, de manhã. Seu corpo era translúcido, tal como um holograma: podiam-se ver, através dela, as enormes colunas erguidas na entrada do templo. E sorria para eles com tal doçura, que nenhum dos dois pôde evitar que o pranto fluísse de seus olhos. Era o ser mais lindo que poderia existir sobre a Terra. Basta estar em sua presença para usufruir de um incrível sentimento de paz e bem-estar.

Logo, começaram a ouvir uma doce melodia que vinha de todas as partes. Hipnótica, dividia-se em outras, compostas de tons harmônicos. A música era viva e os harpejos se convertiam em pequenas fadas que se movimentavam pelo espaço infinito, sussurrando fórmulas matemáticas de ritmos perfeitos. Uma chuva iridescente de corpúsculos dourados caíra sobre a imaculada figura de mulher.

Então, ouviu-se uma voz suave, aveludada, que mais parecia o canto de um anjo às portas do céu. E a mulher perguntou:

- Quem sou eu?

Leonardo olhou ao seu redor, esperando que alguém respondesse, mas estava sozinho na Câmara do Trono. Cláudia e os guardiões haviam desaparecido. Compreendeu que estava em outro plano da realidade e que se tratava de uma prova que somente ele deveria enfrentar, ninguém mais. Teria que decifrar uma segunda charada para alcançar os conhecimentos ocultos da loja e herdar o nome de Hiram Abif. Basta responder corretamente. Arriscou a resposta que lhe parecia mais razoável.

- És a Sabedoria.

O espírito da mulher se agitou e em seus olhos ele descobriu o desconsolo e a consternação. Pensou que havia se equivocado. Era óbvio, pela reação daquele ser etéreo.

Ela insistiu pela segunda vez.

- Quem sou eu?

Muito mais cuidadoso, o bibliotecário refletiu alguns minutos. Não queria errar novamente. Estava indeciso entre a Mão da Natureza e a Virgem Maria, em razão de seu aspecto – as informações que tinha sobre as aparições marianas indicavam isso. Mas, na verdade, nenhuma das duas opções lhe inspirava total confiança. Intuiu que a pergunta tinha um duplo sentido. Havia algo mais, um sutil detalhe oculto por trás das palavras, um segredo tão evidente que jamais poderia vê-lo, ainda que estivesse bem à sua frente.

Ainda assim, apostou em uma das respostas que tomavam conta de seu cérebro – a que, na realidade, o havia conduzido até ali.

- És a Mãe da Natureza.

A mulher voltou a se entristecer e quase se volatizou em milhares de fragmentos luminosos. Cárdenas, apavorado, rogou pela permanência dela na sala, murmurando uma oração. Desejava ter uma nova oportunidade, mesmo que fosse a última. E parecia que alguém ouvira sua prece, pois a mulher falou pela terceira vez.

- Quem sou eu?

Procurou relaxar. Estava tenso demais para pensar com clareza. Continuar no Trono dependia da resposta, isso ele já assimilara, mas ignorava como aquilo tudo iria repercutir em sua relação com Cláudia. Tinha medo de perdê-la para sempre. Temia que lhe acontecesse o mesmo que a Salvador Riera. Perder Cláudia não cabia no pacto formalizado com Balkis, ainda que fosse tarde demais para voltar atrás. Deveria superar a prova ao preço que fosse e recuperar sua vida anterior.

Vasculhou o cérebro, na tentativa de encontrar uma solução para o enigma. Retomou a idéia de que o rito de iniciação encerrava um segredo e que as palavras deveriam ter outro significado. Era igual a uma daquelas perguntas capciosas, cuja resposta já está implícita de antemão. E a questão era: quem deveria responder, ele mesmo ou a mulher? A indagadora poderia lançar a dúvida a ambos.

"Quem sou eu?"

Seria, por acaso, um novo exame de consciência?

Leonardo contemplou, arrebatado, a beleza sem igual daquele rosto que lhe parecia tão familiar quanto edificante. Ela, por sua vez, observava com expectativa, aguardando que pudesse reconhecê-la entre as demais divindades sacras e pagãs. E naquele momento lembrou onde estava e o que tinha ido fazer. Aquela câmara, mutilada pelo tempo, mas valorizada graças à soberba arquitetura, era um lugar de culto, onde um punhado de homens guardava o modo de se comunicar com Deus. Era estranho o fato de ter tido contato com Ele, depois de superar a prova da escada. E esse era um detalhe de crucial importância.

Sem saber como, lhe veio à memória do fundamento primordial do sufismo — Riera tinha mencionado que Hiram professava essa religião — e também recordou um poema de Husayn al-Hallâqq, mestre sufi que tomou Jesus Cristo como modelo e que, à semelhança do Messias, foi crucificado por blasfêmia e por querer comparar-se a Deus. O poema dizia:

"Eu, que vi meu Senhor com o olho do coração, pergunto a Ele:

Quem sois vós? E ele me responde: Tu!"

Uma sensação febril e perturbadora atiçou seu desejo de responder e resgatou a voz de sua masmorra de silêncio. As palavras se amontoavam em sua garganta. E, finalmente, depois de aceitar a resposta do filósofo, respondeu à pergunta formulada por aquela criatura caída do céu.

— Vós sois eu, meu Senhor... E sois meu Deus.

A mulher sorriu, complacente. Era a resposta que ansiava escutar. A doce melodia de antes voltou e, com ela, a luz. As pedras dos muros se iluminaram até adquirir a força majestática do Sol, recobrando a vida das escuras inscrições lavradas na rocha durante milênios: milhares de fórmulas alquímicas e equações divinas, intercaladas com números mágicos e caracteres gramaticais, que seu cérebro foi assimilando como um imenso computador. As garatujas hieroglíficas abandonaram seu claustro de pedra para reagrupar-se ao redor de um universo de planetas que girava enlouquecido na metade da sala, dançando no espaço ao som da música das altas esferas. Seu corpo se viu envolvido por uma energia dourada de natureza voltaica e que aderiu a ele como uma segunda pele. Naquele instante, foi capaz de compreender o autêntico significado da vida, o porquê da natureza versátil do homem, o segredo dos grandes mistérios e o enigma da Criação. Por incrível que lhe parecesse, podia contemplar todos os lugares da Terra e ouvir as mentes de todos os seres que choraram o vazio de suas vidas e que estavam unidos entre si como elos de uma imensa cadeia de pedra. Foi como se sentisse a pulsação do mundo em seu próprio coração.

Estava falando com Deus.

Olhou a seu lado e viu que Cláudia estava ali, novamente. Tinha um estranho enfeite na cabeça, cobrindo seus ouvidos, semelhante ao que usavam as sacerdotisas ibéricas em seus rituais pagãos. Ela estava radiante, mais atraente e humana do que nunca. Era uma beleza espiritual que afastava qualquer pensamento obsceno, aproximando-a do misticismo de uma virgem protetora. E mais: sorria para ele com doçura.

Deram-se as mãos, selando assim o pacto que os obrigava a custodiar o segredo da câmara. Eles sabiam que Séphora e Khalib lhes haviam cedido seus cargos e atribuições e que nunca mais voltariam a vê-los. Mas isso era algo que não lhes pareceu importante.

Letras, números, notas musicais, figuras geométricas e astros giravam em torno deles, alimentando o espírito do saber e dotando seus cérebros de uma informação tão privilegiada como divina. Então, aconteceu que o conhecimento acumulado nas Artes Liberais, depois de sua dança iniciática, tomou conta de suas almas e fragmentou suas consciências em milhares de partículas, que absorveram a essência primordial de Deus.

O Grande Arquiteto os reconhecera como os Filhos da Viúva, descendentes de sua própria estirpe. E que aqui, Ele, em Sua eterna bondade, lhes entregara como herança sua filha predileta: a Sabedoria.



Jamais voltariam a ter sede de outra coisa que não fosse ciência, geometria e arte.

1Corporação de ofício: é uma associação de pessoas que tem um interesse comum em determi­nado trabalho, negócio ou profissão, cujo propósito é a ajuda mútua e a proteção. O termo é particularmente aplicado a dois tipos de associações que floresceram na Europa durante a Idade Média, as corporações de comerciantes e as de artesãos. Também é utilizado para referir-se aos mestres pedreiros de uma catedral. (N.A.)

2Literalmente, a traça e o caruncho. (N.T.)

3A Vulgata é uma tradução da bíblia para o latim, feita por São Jerônimo, a pedido do papa Dâ­maso I, em meados do século IV. Teve uma outra versão, denominada Nova Vulgata, solicitada, em 1965, pelo papa Paulo VI, no Concílio Vaticano II, mas concluída somente dez anos depois, sendo promulgada em 1979 pelo papa João Paulo II. (N.A.)

4 A autora se refere ao Esquadrão da Morte, que atuou a partir dos anos 60, por iniciativa do então detetive Mariel Moryscotte de Mattos, na Guanabara, e depois se difundiu pelo país inteiro, mas não tem se manifestado mais da mesma forma que não era formado por mercenários mas, sim, por policiais na ativa — conforme informações divulgadas à época, corroboradas por investiga­ções e julgamentos. (N.T.)

5 Também no Brasil se usa o termo "guilda" com a mesma acepção, ou seja, de uma associação de mutualidade entre praticantes de um mesmo ofício. Segundo o Houaiss, deriva de guilde, criada em 1282, a partir do latim medieval gilda, que, por sua vez ,vem de gilde, ou seja, reunião festiva. (N.T.)

6 Um outro nome da Ordem dos Templários, que atuou a partir de 1119, lutando nas Cruzadas. (N.T.)

7 Referência à tragédia que assolou os Estados Unidos, com o lançamento de dois aviões de pas­sageiros contra as torres gêmeas do World Trade Center, de Nova York. (N.T.)


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