A antipsiquiatria



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Introdução

Por estarmos lidando com tema tão polêmico e radical, optamos

por citar diversas vezes os autores em questão, tentando das voz a eles na divulgação de suas idéias.

Devido ao fato de o grupo já ter escrito o trabalho sobre antipsiquiatria (Laing, Cooper e Szazs, respeitando Basaglia que nega tal rótulo se considerando da Psiquiatria Democrática) antes da divisão de autores por grupos, utilizamos de tal texto como uma introdução assunto da antipsiquiatria.

A obra teórica de Franco Basaglia é bem vasta, resumi-la e analisá-la não resultaria em um texto pequeno, portanto pedimos a compreensão se nalgum momento fomos sintéticos demais ou se pulamos algum aspecto por nós considerado de menor importância.

A ANTIPSIQUIATRIA1

“Qualquer classificação de alguém sem seu consentimento é uma violação de sua integridade.”

J. P. Sartre2

A antipsiquiatria , uma feérica crítica a psiquiatria enquanto tal surgiu no seio da psiquiatria a partir da década de sessenta deste século, tendo como nomes de destaque: Ronald David Laing (1927 a 1889), David Cooper (1931 a 1986) e Thomas Stephen Szasz (1920 a ____).

Podemos destacar a negação que este movimento (a antipsiquiatria) faz da psiquiatria em frases como esta: “Acima de tudo, preocupei-me com a questão da violência na psiquiatria e concluí que, tal vez, a mais chocante forma de violência em psiquiatria é nada menos do que a violência da psiquiatria...” proferida pôr Cooper3.

Mas porque tamanha desfeita para com uma profissão supostamente honrada na nossa sociedade que publica livros, vende remédios, mantém nosocômios?

Para tal resposta, nos detivemos num olhar sobre a psiquiatria, um olhar histórico para compreender como ela se formou.

Com o Renascimento Comercial do fim da Idade Média (séculos XIV e XV) surgiu uma nova classe social , a burguesia. Com a Revolução Industrial (séc. XVIII) esta classe atingiu a proeminência econômica, e com a Revolução Francesa (1789 a 1799) e as Revoluções Liberais do século seguinte (1830 a 1848) lançaram as bases para a sua supremacia política enquanto classe hegemônica.

A vigência do modo de vida burguês para toda a sociedade impôs a primazia do lucro como sendo a meta básica e única de toda atividade humana, e a sujeição do homem aos ditames do capital, coisas até então inéditas nas sociedades humanas.

A existência de pessoas que não se inseriam no sistema produtivo, não dão lucro irá atrapalhar o processo de acumulação capitalista. Retira-los do meio social se torna assim imperativo.

Logo os pobres serão segregados longe da sociedade.

A exemplo dessa ação temos, como bem lembra o Professor Frayze, a fundação em Paris (1656, ou seja ainda antes da “Era das Revoluções”) do “Hospital Geral, isto é, uma instituição que engloba diversos estabelecimentos sob uma administração única e destinada a recolher todos os pobres da cidade.”4 A partir de então todas as demais cidades francesas possuirão esse famigerado Hospital Geral.

Assim, a pobreza é uma mal a ser sanado, o pobre não se encaixa na normalidade burguesa, ele é anormal, não segue a razão (do lucro) é um ente sem razão. Dessa visão da pobreza para a construção do conceito de loucura, foi um “pulinho”.

Em suma, “a loucura é percebida no campo formado pela própria miséria, pela incapacidade para o trabalho e pela impossibilidade de integrar-se no grupo” (burguês)5.

Assim o pobre/louco deve ser tratado/punido para se encaixar e pôr não se encaixar na ordem burguesa.

A punição emergia do discurso moral que afirmava ser o bom o trabalho, a produtividade, já o louco pôr não se dedicar a estes seria portador do mal, portanto passível de punição.

Mas qual o médico a cuidar desses improdutivos? Roy Porter lembra muito bem quando afirma: “...o aparecimento da medicina psicológica foi mais conseqüência do que causa do surgimento do asilo de loucos. A psiquiatria foi capaz de florescer depois - mas não antes - de grande número de internos encher os manicômios.”6 A psiquiatria surgia assim para trancafiar os loucos, ser o carcereiro do sistema político, social e econômico.

A partir dessa origem confinatória e punitiva, indubitavelmente que a psiquiatria iria se “modernizar”:



  • Benjamin Rush (1746/1813) nos Estados Unidos inventa (1812) a cadeira giratória (Tranquilizer e Gyrator);

  • A alternância de banhos quentes e frios (banhos forçados);

  • Manfred Sakel (1900/1957) implementou os choques insulínicos (1934);

  • Von Meduna (1896/1964) elaborou a convulsoterapia com o uso da cânfora, o cardizol ou metrazol para levar o paciente a ataques epilépticos artificiais;

  • Tecnologia de contenção: camisa-de-força, amarras especiais, camas com cinturões, camas chumbadas, quartos fortes, e etc...

  • Cerletti (1877/1963) e Bini (1908/1966), em Roma (1938), pesquisando com porcos descobriram a dosagem de eletricidade capaz de gerar uma convulsão no cérebro humano sem mata-lo, criando assim o eletrochoque convulsivante;

  • Egas Moniz (1874/1955), português, na década de trinta (1935) desenvolveu a lobotomia (leucotomia frontal), o que lhe valeu o Prêmio Nóbel de Fisiologia e Medicina (1949);

  • Psicofármacos para sedar os internos.

A lógica inerente a esses “avanços” transparece na medida em que a psiquiatria não consegue reintegrar os loucos a sociedade restando somente a ação confinatória. Para confiná-lo, quanto mais dócil ele permanecer melhor, portanto seda-lo, dopa-lo, ou lobotomiza-lo o pacifica (tornando-o um vegetal) e assim incomoda menos no hospício.

Ao denunciar e criticar essa prática desumana chamada psiquiatria pôr parte de próprios psiquiatras, surge a antipsiquiatria.

Em seu cerne ela vai se contrapor a psiquiatria, inicialmente colocando a questão da origem do sofrimento psíquico no âmbito social.

Ou seja se existe alguma entidade denominada loucura ela não esta organicamente no indivíduo como quer a psiquiatria e nem em anomalias do desenvolvimento infantil do indivíduo como o quer a psicanálise, mas ela esta no seio da sociedade que gerou essas pessoas (ditas loucas) logo, segundo a antipsiquiatria, é a sociedade que é louca.

O radicalismo (análise até a raiz do problema) da antipsiquiatria não poupa nem a psicanálise, pois quando esta perde o viés social comete ignomínias tais como afirmar que a origem da violência dos meninos de rua esta na carência de afeto paternal.

Mas voltando a sociedade, segundo a antipsiquiatria é ela a fonte do sofrimento psíquico.

A sociedade que conhecemos é a brasileira, vejamos um dado dela.




Metade da população brasileira recebe apenas doze porcento da renda nacional. Será que existem escolas, empregos, casas e sistema de saúde para essa metade da população?

Ou será que ficarão a margem da sociedade sem uma vida plena, levando vidas vazias, pois não são aceitos pela sociedade (capitalista) que valoriza aquilo que eles não tem (capital).

Avançando em outros aspectos a demonstrar a demência de nossa sociedade, iniciemos pôr Frayze:



  • “A impessoalidade de nossas relações humanas;

  • A indiferença afetiva e o isolamento aos quais o indivíduo esta sujeito em nossas sociedades industriais;

  • A vida sexual destituída de afetividade e reduzida ao coito;

  • A fragmentação da coerência de nossa conduta cotidiana devida ao fato de pertencermos e atuarmos em diversos grupos que nos impõem papéis contraditórios;

  • A perda de sentimento de engajamento no mundo social;”7

  • Desenraizamento do ser humano causado pelo êxodo rural;

  • “A característica do momento é que o espírito medíocre, sabendo-se medíocre, tem a ousadia de afirmar os direitos da mediocridade e de impô-los pôr toda a parte;”8

  • Nossa sociedade prega a fraternidade mas desde a escola impõem a rivalidade e a competividade;

  • Estimula necessidade pelos meio de comunicação sem dar condições de satisfaze-la;

  • e etc...

Notadamente, segundo a antipsiquiatria, nossa sociedade é insana, ou, na melhor das situações, possui muitas características insanas.

Mas qual será a instituição social que reproduz tal insanidade?

Qual é a instituição que reproduz, tão bem, para cada indivíduo o machismo, o racismo, e demais preconceitos? A família.

Afinal de contas se a sociedade é insana, sua célula básica também o será, e enquanto célula básica compete a ela, a família, reproduzir, pessoa a pessoa tal sociedade.

Podemos nos lembrar da seguinte questão, já muito citada, mas que coloca a análise na esfera da família: “A comunicação entre os membros de uma família é patológica porque um deles é psicótico, ou um deles é psicótico porque a comunicação é patológica?”9

Da família louca como que chegamos ao indivíduo louco, qual a gênese de tal situação para o indivíduo?

“Laing considera que as pessoas chamadas de esquizofrênicas ou loucas foram levadas, pelo tipo de relacionamento de sua família, a criar um “eu” falso. Este “eu” falso foi a maneira encontrada pela pessoa para tentar ser aprovada pelos outros. Assim, o “eu” da pessoa não chegou a se desenvolver. Foi reprimido. A psicose seria, para Laing e para Cooper, uma estratégia especial que a pessoa é obrigada a usar, para poder suportar uma situação muito pesada.”

“A crise de loucura, o dito “surto” esquizofrênico, é visto como uma viagem para o interior de si mesmo, onde a pessoa busca um refúgio. É um tentativa de retroceder no tempo e nas emoções, usada quando não há mais maneiras de suportar o mundo. O surto esquizofrênico é, então, a busca de uma vida diferente quando não há condições de manter os difíceis relacionamentos sociais a que a pessoa acostumou-se. Estes relacionamentos são tão difíceis para estas pessoas porque não se fazem com um “eu” autêntico, mas com um “eu” falso. A crise psicótica é uma tentativa de romper com uma vida que já esta, há muito, insuportável.”10

Já salientada a visão da loucura pela antipsiquiatria, vamos ver sua ação, as práticas asilares estruturadas conforme a psiquiatria são relegadas como ampliadoras, se não geradoras da loucura num processo iatrogênico.

Ficar circunscrito a normas rígidas da instituição que não possuem significado algum para o paciente o esvazia de sua dimensão humana.

A antipsiquiatria vai tentar desenvolver uma prática manicomial que respeite o ser humano.

Cooper vai dirigir na década de sessenta (1961 a 1965) no Shelly Hospital de Londres , o Pavilhão 21, reunindo doentes, enfermeiros e médicos em uma existência coletiva da qual todo vestígio de hierarquização desaparecera.

Cooper com Laing fundaram (1965) a Philadelphia Association, instituição antipsiquiátrica destinada a oferecer aos psicóticos lugares de acolhimento, onde pudessem ser acompanhados em seu esforço para reconstituir o seu “eu” autêntico.

O mais célebre desses “lares” foi o Kingsley Hall, centro histórico do movimento operário inglês, devido a carência de fundos, fechou (1970).

FRANCO BASAGLIA
Sua Vida

Franco Basaglia originário de uma família vienense nasceu no ano de vinte e quatro deste século.

Formou-se na clínica neuro-psiquiátrica de Pádua. Desenvolveu estudos na Comunidade Terapêutica de Maxwell Jones no Dingleton Hospital (Escócia).

Assumiu na década de sessenta a direção do Hospital Psiquiátrico da província de Gorizia na fronteira com a Iugoslávia. Dessa atuação deu origem no livro “A Instituição Negada”.

Em setenta ministrou várias palestras em diversos países europeus, em Cuba e nos Estados Unidos.

Funda em setenta e um, quando dirigente do Hospital Psiquiátrico Regional de Trieste, a associação Psiquiatria Democrática para unificar forças e criar um movimento contra a manutenção desse órgão marginalizador que é o hospício e difundir um modo de relação com o usuário de saúde mental mais horizontal e humano.

Sua esposa Franca Basaglia Ongario foi sua companheira de lutas participando como co-autora em diversos livros seus.

A grande vitória de seu movimento se deu quando em treze de maio de setenta e oito, fora aprovada a lei cento e oitenta que pode ser resumida no seguintes aspectos: desaparecimento do constrangimento jurídico-policial e gestão democrática da saúde mental, supremacia absoluta dos serviços externos, com nítida subordinação do momento hospitalar e fechamento dos hospitais psiquiátricos, com proibição de abrir e organizar outros.

Pouco depois de sua nomeação como coordenador dos serviços psiquiátricos da região do Lácio faleceu a vinte e oito de agosto de oitenta.
Sua Obra

“Eu não sou um antipsiquiatra porque este é um tipo de intelectual que rejeito. Eu sou um psiquiatra que quer dar ao paciente uma resposta alternativa àquela que foi dada até agora.”11 Dessa afirmação de Basaglia podemos ver que não quer ser incorporado ao grupo daqueles que estão sob o auspício desse rótulo: antipsiquiatria.

Entretanto, Basaglia possui uma grande área de intersecção com a antipsiquiatria. Concorda com esta quando coloca a origem do sofrimento psíquico na sociedade.

Para ele, a forma em que esta estruturada a sociedade, em que alguns detém o poder, e o controle sobre muitos (vide gráfico de distribuição de renda no Brasil), se faz necessária a existência de aparatos para efetivar tal dominação tais como a psiquiatria e seu lugar de realização o hospício.

Como exemplo disso temos: “O hospício é construído para controlar e reprimir trabalhadores que perderam a capacidade de responder aos interesses capitalistas de produção.”12

Logo, Basaglia será um dos mais veementes membros das lides anti-manicomiais.

Ainda em comparação com a antipsiquiatria, o psiquiatra italiano ratifica parcialmente a noção de responsabilidade que possui a família na perpetuação do mal-estar psíquico presente em nossa sociedade.

“O filho é pequeno e o pai grande, não só fisicamente mas grande na proporção da fantasia que o filho possui do pai. A criança dirige-se aos pais, quando pequeno, e sempre pergunta o porque disso ou daquilo. Certamente a atitude pedagógica dos pais recomendaria que, cada vez que o garoto perguntasse algo, o pai iniciasse uma discussão para abrir o mundo do garoto. Em vez disso, não digo em todas as famílias, mas na maioria, os pais respondem: “Coma e fique calado”. Vemos como desde a infância o garoto habituou-se a armazenar essa relação de poder e a inferiorizar-se, guardando-se para o momento em que ele poderá dominar também o seu filho. É uma relação em cadeia que nunca termina.”13

Ou seja, a família é responsabilizada enquanto estância reprodutora de relações de poder. Porém, diferentemente do que pensa a antipsiquiatria, seu papel é relativizado pois outras instituições da sociedade dividem com a família tal função.

“ ...a violência exercida pôr aqueles que empunham faca contra os que se encontram sob sua lâmina. Família, escola, fábrica, universidade, hospital: instituições que repousam sobre uma nítida divisão do trabalho (servo e senhor, professor e aluno, empregador e empregado, médico e doente, organizador e organizado). Isto significa que o que caracteriza as instituições é a nítida divisão entre os que têm o poder e os que não tem o poder. De onde se pode ainda deduzir que a subdivisão das funções traduz uma relação de poder e não-poder, que se transforma em exclusão do segundo pelo primeiro. A violência e a exclusão estão na base de todas as relações que se estabelecem em nossa sociedade.”14

Para nosso psiquiatra, as relações de poder estão na origem do sofrimento psíquico. Portanto acabar com os hospícios mas perdurando relações de poder entre médicos, psicólogos e enfermeiros para com pacientes, em muito pouco se avançará.

Nesse sentido, Basaglia critica as comunidades terapêuticas da antipsiquiatria que se erigiram na negação do hospício porém, mantém relações verticais de poder e controle sobre seus usuários. “Evidenciamos que a gestão da comunidade terapêutica, que procurava humanizar o manicômio, era igualmente um meio de controle social, era, como poderia dizer Marcuse, uma “tolerância repressiva.”15 E, clareando essas falhas, nas palavras de sua esposa: “O caráter menos político da experiência inglesa, inclusive no tocante à luta contra a hierarquização e a estrutura das funções, que na Inglaterra se limita puramente à realidade institucional.”16

Assim Basaglia nega as práticas asilares e correlatas e defende a busca, da liberdade e autodeterminação por parte dos portadores de sofrimento psíquico. Tal proposta irá chegar aqui no Brasil na forma de hospital dia, centros de convivência e cooperativas, onde o usuário passaria o dia desenvolvendo atividades para o seu engrandecimento, atividades por ele escolhidas, nada imposto, retornando para a sua casa a noite. Para aqueles sem casa, haveriam lares abrigados. Praticas já desenvolvidas pelos municípios de São Paulo e Santos mas que atualmente não existem mais.

No que concerne a psicanálise, Basaglia comunga com o olhar crítico da antipsiquiatria donde temos: “A psicanálise nasce como ciência no início do século. Eu me coloco o seguinte problema: o que fez a psicanálise pelo doente mental do manicômio durante um século? Teve muita importância na literatura, na arte, na história do pensamento do homem, mas nunca entrou no manicômio, sobretudo os médicos psicanalistas que tinham duas maneiras de curar: uma no manicômio e outra na tranquilidade do sofá do seu consultório.”17


Da Psicopatologia

Basaglia não se preocupou com a classificação das doenças.

Para ele o mais relevante era como lidar com esses doentes, que antes de serem doentes eram homens e com tal deveriam ser tratados.

Ao colocar a origem da loucura na sociedade Basaglia também sabe que não pode perder as demais dimensões dos ser humano para não incorrer em reducionismos como podemos ver por: “Se eu pensasse que a loucura é apenas um produto social, estaria ainda dentro de uma lógica positivista. Dizer que a loucura é um produto biológico ou orgânico, um produto psicológico ou social, são discussões que seguem a moda de determinado momento. Eu penso que a loucura, como todas as doenças, são expressões das contradições do nosso corpo, e dizendo corpo, digo corpo orgânico e social. É nesse sentido que direi que a doença, sendo uma contradição que se verifica no ambiente social, não é um produto apenas da sociedade, mas uma interação dos níveis nos quais nos compomos: biológico, sociológico, psicológico... Dessa interação participa uma quantidade enorme de fatores, cujas variáveis são difíceis de expor nesse momento. Eu acho que a doença em geral é um produto histórico-social. Algo que se verifica nessa sociedade em que vivemos, em que há uma história e uma razão de ser. Como dissemos, os tumores, por exemplo, são um produto histórico-social porque nascem nesse ambiente, nessa sociedade e nesse momento histórico, e podem ser um produto de alteração ecológica; produto de uma contradição. O tumor, na forma orgânica que nós estudamos, é outras coisa. O problema está na relação que existe entre nosso corpo orgânico e o corpo social no qual vivemos.”18

Pensando dessa forma, vendo os níveis em que se dá a doença, nosso psiquiatra vai de encontro aos postulados da Organização Mundial da Saúde quando esta define saúde como sendo o estado de bem estar biológico, psicológico e social do ser humano.

Para vermos como Basaglia relativiza o papel da doença e realça o ser humano por de atrás desta, temos: “Não é que nós prescindamos da doença, mas pensamos que, para estabelecer uma relação com um indivíduo, é necessário considerá-lo independentemente daquilo que pode ser o rótulo que o define. Relaciono-me com uma pessoa não pelo nome que tem, mas por aquilo que é. Assim, quando digo: este indivíduo é um esquizofrênico (com tudo quanto o termo implica, por razões culturais), relaciono-me com ele de um modo particular, sabendo que a esquizofrenia é uma doença contra a qual nada se pode fazer: minha relação não irá além daquilo que se espera diante da “esquizofrenicidade” do meu interlocutor. Assim se compreendo como, sobre estas bases, a velha psiquiatria relegou, aprisionou e excluiu esse doente, para o qual pensava não existirem meios nem instrumentos de cura. É por essa razão que se torna necessário enfocar esse doente de um modo que coloque entre parênteses a sua doença: a definição da síndrome já assumiu o peso de um juízo de valor, de um rótulo, que vai além do significado real da própria enfermidade. O diagnóstico tem o valor de um juízo discriminatório, o que não significa que procuremos negar o fato de que o doente seja, de alguma forma, um doente. É este o sentido de colocarmos o mal entre parênteses, ou seja, colocar entre parênteses a definição e o rótulo. O importante é tomar consciência daquilo que tal indivíduo representa para mim, de qual é a realidade social em que vive, qual o seu relacionamento com essa realidade.”19

Buscando a melhor forma de se lidar com os doentes sem incorrer em relações de poder, Basaglia critica a relação médico/paciente tradicional: “Quando falamos em cura, aliás, a pessoa que cura - o médico - não vê o curado como o sujeito de sua cura, mas sim como objeto de sua cura; então a cura passa a ser a reprodução objetiva do próprio médico. Em outras palavras, a cura não dá possibilidades à pessoa de se exprimir subjetivamente. Daí, dizemos que a cura é um controle, porque, no momento em que não há subjetividade de expressão, a reprodução objetiva é mercantilizada e a cura não dá resultado, retorna ao jogo objetivo da reprodução do capital.”20

Porém em outros momentos encontramos Basaglia mais crítico em relação a existência de uma entidade nosológica: “ ...exclusão ou expulsão da sociedade resulta antes da ausência de poder contratual do doente (ou seja, de sua condição social e econômica) que da doença em si. Que valor técnico ou científico pode ter o diagnóstico clínico com qual foi definido no momento do internamento? É possível falar de um diagnóstico clínico objetivo, decorrente de dados científicos concretos? Ou, antes, trata-se de uma simples etiqueta que, por trás da aparência de um julgamento técnico-especializado, esconde, mais ou menos veladamente, um significado mais profundo: o da discriminação? Um esquizofrênico rico internado numa clínica particular terá um diagnóstico inteiramente distinto do de um esquizofrênico pobre, internado à força num hospital psiquiátrico público.”21

Ou seja, retornamos ao uso social e político da psiquiatria, do manicômio e agora do diagnóstico para a coerção social.

Ainda na esfera da psicopatologia, Basaglia ao lutar para abolir os asilos manicomiais se deparou com uma “nova patologia”, qual seja, os doentes de instituição, pessoas que ficaram dez anos, quinze anos ou mais trancafiadas no hospício e que a doença esta agora cronificada neles (efeito iatrogênico).

Seu Legado Principal

Basaglia ao criticar as relações de poder, seja a nível macro, a instituição manicomial opressora, seja a nível micro, as relações entre os profissionais de saúde e seus usuários visando implantar novas práticas no trato com a saúde mental fez uma verdadeira revolução.

Tal revolução se torna mais relevante quando vemos que seus feitos são muito mais práticos de que teóricos, ou seja não só criticou mas principalmente inovou na ação concreta. O que nos recorda a seguinte frase: “Contra o pessimismo da razão, o otimismo da prática.”22

Sua ação foi pautada pela busca de relações horizontais com os portadores de sofrimento mental o que, serviu de paradigma de atuação para muitos.

A realização de diversas reuniões e assembléias diárias com usuários, médicos, psicólogos, enfermeiros e demais técnicos deu vez e voz àqueles, os primeiros, que sempre foram coercitivamente calados.

Tais encontros não eram momentos terapêuticos em si, mas momentos de decisão para esse coletivo.

O usuário tendo condições de opnar sobre seu próprio destino vias-se assim respeitado em sua dignidade humana, tinha seus desejos expressados, sua subjetividade por fim exteriorizada.

Essas assembléias fazem parte dos grandes avanços obtidos por Basaglia em Gorizia, porém se davam dentro dos muros da instituição.

Seu grande salto se dará em Trieste com a desativação do manicômio e com a gradual reinserção do internado em seu núcleo social. Para auxiliar o ex-interno foram desenvolvidos centros externos pela defesa da saúde (centros de saúde mental).
Concluindo, nos demais países do mundo, esses avanços não “cairão do céu”, alterar um sistema de saúde que esta incrustado em nosso âmago na forma de preconceitos (para com a loucura) demandará muito esforço e muita luta.

Porém se aceitamos essa morte em vida que é perpetuada diariamente nos manicômios e setores psiquiátricos de hospitais gerais vamos em frente, façamos o que sempre fizemos, recebamos nossos salários todos os meses e vamos para casa felizes.

Agora se queremos mudar teremos que fazer algo. Basaglia fez.

O mundo esta carente de homens como ele.

Pequena Sinopse Bibliográfica

Franco Basaglia A Psiquiatria Alternativa - 1982

(1924/1980) A Instituição Negada - 1968

O Que é Psiquiatria? - 1967

Crimes de Paz - 1975

Majoração do Desvio - 1977

O Navio que Naufraga - 1978

A Maioria Desviante -

Saúde dos trabalhadores -




Ronald Laing A Política da Família e Outros Ensaios - 1971

(1927/1989) O Eu Dividido - 1970

A Política da Experiência e Ave do Paraíso - 1967

Sanidade, a Loucura e a Família (co-autoria com

Aaron Esterson) - 1964

A Voz da Experiência - 1982

Sabedoria, Desrazão e Loucura - 1986

Sobre Loucos e Sãos (entrevista concedida ao

Jornalista Vicenzo Caretti) -

Laços -


O Eu e Os Outros - 1961

O Mundo do Menor Infrator -

Percepção Interpessoal - 1966

Experiência e Alienação na Vida Contemporânea -

A Psiquiatria em Questão

David Cooper Psiquiatria e Antipsiquiatria - 1967

(1931/1980) Razão e Violência (em parceria com Laing) - 1964

Morte da Família - 1971

Uma Gramática Para Uso dos Vivos - 1976

A Linguagem da Loucura -

Dialética da Libertação - 1967




Thomas Szasz Ideologia e Doença Mental - 1970

(1920/____) O Mito da Doença Mental - 1960

Ética da Psicanálise - 1975

A Fabricação da Loucura - 1971

Dor e Prazer - 1957

Esquizofrenia -

O Mito da Psicoterapia - 1978
Influência da Filosofia e Sociologia

Jean Paul Sartre A Psicanálise Institucional

O Ser e o Nada



Michel Foucaut História da Loucura na Idade Clássica

Vigiar e Punir

Doença Mental e Psicologia

Crise Atual da Medicina

O Nascimento da Clínica

Micro Física do Poder



Erving Goffman Asilos

Comportamento em Público



Herbert Marcuse Eros e Civilização

O Homem Unidimensional

Bibliografia
Basaglia, Franco. A Instituição Negada. Rio de Janeiro, Edições Graal, 1985.
_____________. A Psiquiatria Alternativa: Contra o Pessimismo da Razão, o

Otimismo da Prática. São Paulo, Editora Brasil Debates, 1982.


Beauchesne, Hervé. História da Psicopatologia. São Paulo, Martins Fontes, 1989.
Cooper, David. Psiquiatria e Antipsiquiatria. São Paulo, Editora Perspectiva, s.d.
Duarte Jr., João Francisco. A Política da Loucura: a Antipsiquiatria. Campinas,

Papirus, 1986.


Fiedenberg, Edgar. As Idéias de Laing. São Paulo, Cultrix, 1973.
Frayze-Pereira, João. O Que é Loucura. São Paulo, Brasiliense, 1985.
Porter, Roy. Uma História Social da Loucura. Rio de Janeiro, Jorge Zahar

Editor, 1990


Serrano, Allan Indio. O Que é Psiquiatria Alternativa. São Paulo, Brasiliense,

1986.
Szazs, Thomas. Ideologia e Doença Mental.




1 Texto escrito anteriormente a divisão dos grupos pôr autor, que valerá enquanto introdução de questionamentos à psiquiatria da antipsiquiatria anglo-americana.

2In Szasz, Thomas. Ideologia e Doença Mental, pg. 201.

3Cooper, D. Psiquiatria e Antipsiquiatria, pg. 13.

4 Frayze-Pereira, J. O Que é Loucura, pg. 63.

5 Idem, pg. 67/68.

6 Porter, Roy. Uma História Social da Loucura, pg. 27.

7Frayze-Pereira, ibidem pr. 31 e 32.

8 Ortega y Gasset. A Rebelião das Massas. New York, Norton, 1957, pg.15/16, citado in Friedenberg, Edgar. As Idéias de Laing, pg. 94.

9 Beauchesne, Hervé. História da Psicopatologia, pg. 140.

10 Serrano, Alan Indio. O Que é Psiquiatria Alternativa, pg. 71.

11 Basaglia, Franco. A Psiquiatria Alternativa, pg. 113.

12 Basaglia, F. idem, última capa.

13 Basaglia, F. ibidem, pg. 75.

14 Basaglia, F. A Instituição Negada, pg. 101.

15 Basaglia, F. A Psiquiatria Alternativa, pg. 87.

16 Basaglia, France. in Basaglia, F. A Instituição Negada, pg. 96.

17 Basaglia, F. A Psiquiatria Alternativa, pg. 56.

18 Basaglia, F. Idem, pg. 79/80.

19 Basaglia, F. A Instituição Negada, pg. 28.

20 Basaglia, F. A Psiquiatria Alternativa, pg. 93.

21 Basaglia. F. A Instituição Negada, pg. 107/108.

22 Basaglia, F. A Psiquiatria Alternativa, subtítulo.




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