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em condições de aparecer no tribunal amanhã.

Seja camarada e telefone a Abe e diga-lhe que falarei com ele depois da sessão.

- Sarah...

- O que é?

- Porque é que não me deixa dizer-lhe algo a respeito da ajuda financeira

que tem estado a dar ao caso?

- Porque não. Sabe? Ele tomou para consigo uma responsabilidade tão

grande que quero que pense que conta com o apoio de muita gente, através de

todo o mundo. Além do mais, ele não gosta desta mania dos judeus estarem

sempre a arrancar dinheiro para causas.

Capítulo quarto

- Antes de continuar o meu exame da testemunha, com a permissão do

Meritíssimo Juiz, Sir Adam Kelno gostaria de dirigir-se à corte.

- Queira desculpar-me pelo meu procedimento emocional de ontem,

Meritíssimo - disse ele com voz trémula.

- Essas coisas acontecem de vez em quando - disse Gilray. - Estou

certo de que o Sr. Smiddy e Sir Robert já lhe explicaram como são severas as

leis inglesas, a respeito do tipo de comportamento numa corte de Sua Majestade.

Com todo o respeito que sinto pelos nossos amigos americanos, não

permitiremos que um tribunal inglês seja transformado num circo. A corte

aceita as suas desculpas e admoesta-o que não poderá tolerar uma repetição de

tal procedimento.

- Obrigado, Excelência!

- Pode dar prosseguimento ao exame, Sir Robert.

Sir Robert apoiou-se nas pontas dos pés, esfregou as mãos, e foi tomando

força para a investida.

- Ontem, antes do descanso, o senhor declarou-nos, Sir Adam, que o

Dr. Voss tinha informado o senhor e o Dr. Lotaki que deviam preparar-se

para operações de remoção de órgãos mortos, e que o senhor tinha conversado

com os outros prisioneiros-médicos, menos com o Dr. Tesslar.

Admite tudo isto, não é?

- Sim.


- Queremos que nos diga, precisamente, qual a espécie de decisão, ou de

opinião, ou de acordo, a que chegaram.

- Tínhamos o exemplo de Dimshits, que foi mandado para a câmara de

gás e o Dr. Voss tinha-nos dito que esse seria o nosso destino caso não

cooperássemos... e não havia nenhuma razão para duvidarmos da sua palavra.

Também não havia dúvida alguma de que os pacientes seriam mutilados

por enfermeiros incompetentes. Decidimos salvar o maior número de

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vidas possível e ao mesmo tempo tentar induzir o Dr. Voss a terminar com

aquele tipo de experiências.

- Bem. Então, o senhor foi chamado, juntamente com o Dr. Lotaki, para

trabalhar no Alojamento V, onde deveriam remover testículos e ovários

mortos.

- Sim. :


- Quantas vezes, diria o senhor, que isto aconteceu?

- Umas dez vezes, ou menos. Não acima de uma dúzia. Não sei nada a

respeito do Dr. Lotaki. Certamente deve ter feito a mesma coisa.

- O senhor auxiliou-o alguma vez?

- Sim, uma ou duas vezes.

- Mas não uma dúzia de vezes?

- Certamente que não.

- Nem centenas?

- Não.

- E o senhor conseguiu fazer com que parassem essas experiências?

- Não completamente. Mas mostrávamo-nos sempre relutantes, de

maneira a obrigar o Dr. Voss a diminuir o número de experiências, mantendo-as

apenas como uma justificação do Alojamento V, para as autoridades

de Berlim.

- Alguma vez o Dr. Tesslar entrou no Alojamento V, enquanto o

senhor operava?

- Não, nunca.

- Nunca, nunca, nem uma só vez? Ele nunca o viu operar?

- Mark Tesslar nunca me viu operar.

Highsmith resmungou qualquer coisa ininteligível, a fim de dar ao júri

tempo para assimilar esta resposta.

- Nem uma só vez - repetiu para si mesmo, enquanto remexia os papéis

em cima da tribuna. - Foi, então, com o apoio completo dos seus colegas que

o senhor praticou todas essas operações, cujo número não excedeu uma dezena.

Isso no decurso de 15000 operações.

- Sim. Nós só removíamos órgãos destruídos pelos raios X. Se não os

removêssemos, poderiam tornar-se focos de tumores e de cancro. Para todos

os casos eu insisti para que as operações fossem registadas no livro cirúrgico.

- Infelizmente - disse Sir Robert - esse registo foi perdido para sempre.

Não nos deteremos nisso. O senhor poderá explicar ao Meritíssimo Juiz e aos

senhores jurados como foram essas operações praticadas?

- Bem, as vítimas estavam sempre num estado emocional extremamente

desequilibrado, por isso procurava confortá-las, garantindo-lhes que sem a

operação não teriam possibilidades de sobreviver. Empregava toda a minha

eficiência como cirurgião e utilizava os anestésicos que se encontravam à

nossa disposição.

- A respeito deste assunto dos anestésicos, o senhor sabe que este é um

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dos pontos do processo de difamação? O acusado declarou que o senhor

operava sem o uso de anestésicos.

- Isso é totalmente falso.

- O senhor poderia explicar-nos quais eram os anestésicos usados e como

eram empregados?

- Sim. Para operações abaixo do umbigo, eu achava que uma raquidiana

era preferível ao inalante.

- O senhor continua adoptando o mesmo critério? Faria a mesma coisa

em Sarawak, em Londres, em Varsóvia?

- Sim, pois acredito que uma raquidiana relaxa os músculos muito mais e

causa menos hemorragia.

- O senhor tinha algum assistente para ajudá-lo a fazer a anestesia, em

Jadwiga?

- Eu mesmo fazia tudo, pois não havia auxiliares suficientes. Aplicava

em primeiro lugar uma injecção de morfina para aliviar a dor e depois fazia a

raquidiana.

- Isso é um processo muito doloroso?

- Não, quando é administrado por um especialista; sente-se apenas a

picada da injecção.

- Onde é que o senhor dava a anestesia?

- Na sala de operações.

- Bem, agora queremos saber algo sobre os cuidados pós-operatórios.

- Eu disse a Voss que teria de cuidar desses pacientes até que estivessem

fora de perigo e ele concordou.

- E o senhor visitava-os com frequência?

- Sim, todos os dias.

- Lembra-se de ter havido algum caso que se tenha complicado?

- Apenas me lembro de estados normais de pós-operatórios, nas condições

precárias existentes em Jadwiga. Nos casos de amputação de órgãos a

coisa tornava-se mais difícil devido às implicações psíquicas pela perda de

glândulas sexuais, mas todos se sentiam tão felizes por estarem vivos que eu

era recebido com muito carinho e encontrava-os animados.

- Mas todos sobreviveram, não foi?

- Ninguém morreu devido a essas operações necessárias.

- Em virtude da sua competência, cuidado e atenção pós-operatórios?

Thomas Bannister levantou-se, lentamente.

- Não estará o senhor a conduzir a sua testemunha, Sir Robert?

- Desculpo-me ante o meu nobre colega. Permita-me refazer a pergunta.

O senhor teve alguma atitude especial para com essas pessoas?

- Eu levava-lhes refeições extras.

- Vamos focar um campo novo, por alguns instantes, Dr. Kelno.

O senhor era membro do movimento clandestino? ,

- Sim. Eu fazia parte do movimento nacionalista clandestino. Não do

movimento comunista. Eu sou um nacionalista polaco.

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- Então havia dois movimentos clandestinos?



- Sim. Os nacionalistas organizaram-se desde o momento em que

chegámos a Jadwiga. Preparávamos fugas. Mantínhamos contacto com o movimento

nacionalista em Varsóvia e em todo o resto da Polónia. Trabalhávamos

em postos-chaves como o hospital, as estações de rádio, os postos

de funcionalismo, para ver se conseguíamos mais rações e remédios. Fizemos

o nosso próprio rádio.

- Havia cooperação com o movimento comunista clandestino?

- Sabíamos que os comunistas planeavam tomar a Polónia depois da

guerra e muitas vezes eles entregaram a nossa gente às tropas SS. Tínhamos

que ter muito cuidado em relação a eles. Tesslar pertencia ao movimento

comunista clandestino.

- Quais eram as outras funções do movimento clandestino?

- Tentávamos melhorar as condições existentes com rações extras e

remédios. Construímos algumas instalações sanitárias. E, como a maioria dos

prisioneiros, uns 20000, trabalhavam nas fábricas fora do campo, o movimento

clandestino introduzia clandestinamente o que podia para dentro do

campo. Foi assim que conseguimos vacinas para deter as epidemias do tifo.

- Quantas vidas diria o senhor, que conseguiram salvar?

- Muitas.

- Milhares?

- Não posso fazer uma estimativa. ;

- O senhor mencionou um rádio para entrar em contacto com o mundo

exterior. Onde estava escondido?

- Na minha enfermaria, no Alojamento XX.

- Hummmmm - murmurou Highsmith. - Qual era o seu horário de

trabalho em Jadwiga?

- Vinte e quatro horas por dia, durante os sete dias da semana. Depois

das horas normais estabelecidas pelas SS, continuávamos a trabalhar nas

enfermarias e nos alojamentos. Eu dormia alguns minutos quando podia.

Abraham contemplava o júri enquanto Sir Robert e Adam construíam

aquele monumento de heroísmo, coragem e sacrifício. Depois olhou para

O’Conner, que não parava de escrever, e para Bannister, que estava totalmente

relaxado, contemplando a testemunha. Mais abaixo, a secretária de

Jacob Alexander, Sheila Lamb, escrevia freneticamente. Na mesa dos

associados, os estenógrafos eram substituídos periodicamente. Os repórteres

do Times, ambos advogados, tinham um lugar especial, separado das fileiras

repletas da imprensa, sempre aumentadas pelo número de jornalistas estrangeiros,

que chegavam a todas as horas.

- Nós já discorremos sobre a administração dos anestésicos na sala de

operações. O senhor era quem se encarregava disso. - Sir Robert repetiu para

dar ênfase àquele ponto. - Bem, o senhor vangloriou-se de alguma maneira

de ser muito rápido nas operações que praticava?

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- Não. Mas em Jadwiga tínhamos que trabalhar depressa. Mas não tanto



que acarretasse perigo para as vidas dos pacientes.

- O senhor lavava as mãos antes de todas as operações?

- Claro.

- E os seus pacientes eram também submetidos a algum tratamento de

higiene?

- Meu Deus, mas é lógico que sim.

- Nos casos de ovariotomia, aqueles que foram feitos por ordem de Voss,

quais foram os métodos cirúrgicos empregados pelo senhor?

- Bem, quando a raquianestesia começava a fazer efeito, a paciente era

retirada da maca e amarrada à mesa de operações.

- Amarrada? À força?

- Isto era necessário para a própria segurança da paciente.

- Numa operação do mesmo género, aqui em Londres, hoje em dia, o

senhor amarraria a paciente?

- Sim. É o padrão normal.

- Continue, por favor, Dr. Kelno.

- Bem, a mesa das operações pode ser inclinada.

- Quanto? Uns 30 graus?

- Não, não tanto. Quando se faz uma intervenção na região do baixo-ventre,

como na bacia pélvica, ao inclinar-se a mesa os intestinos descem no

sentido da inclinação, permitindo ao cirurgião uma visão mais ampla da área a

ser operada. Costumava fazer uma incisão abdominal, depois usava uns

afastadores para suspender o útero e outros para separar a trompa do ovário,

retirando-o depois.

- O que é que fazia ao ovário que retirava?

- Bem, eu não ficava com ele na mão. Geralmente era colocado nalgum

recipiente. Quando o ovário é removido deixa um pedículo, que é coberto

para prevenir uma hemorragia.

- Esse pedículo era sempre coberto?

- Sim, sempre.

- Quanto tempo leva uma operação deste tipo?

- Em circunstâncias normais, leva quinze a vinte minutos.

- Fazia tudo isso com instrumentos esterilizados?

- Naturalmente.

- E o senhor usava luvas de borracha?

- Eu uso luvas esterilizadas de algodão por baixo das luvas de borracha,

para que estas não escorreguem. São técnicas que diferem de cirurgião para

cirurgião.

- O senhor poderia dizer ao Meritíssimo Juiz e aos jurados se o paciente,

no seu estado de semiconsciência, podia observar tudo isso?

- Não. Nós colocávamos um biombo de pano esterilizado para o paciente

não poder observar o que se passava.

- Mas por que razão?

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-Para que o paciente não tossisse ou cuspisse para cima da ferida aberta.

- Então o paciente não podia ver nem sentir. E qual era o seu comportamento?

Ficava muito desesperado?

- Bem, Sir Robert, ninguém fica muito satisfeito ao ser operado, mas

também não há o que o senhor chamou “desespero”.

- E tendo essas operações sido efectuadas no campo de concentração de

Jadwiga, o senhor pode afirmar que usou técnicas normais em intervenções

cirúrgicas?

- Era uma situação bem mais complicada do que em circunstâncias

normais, mas a intervenção era feita por processos normais.

Depois da pausa para o almoço, Sir Robert Highsmith continuou o exame

de Sir Adam Kelno, fazendo-o contar como tinha conhecido Mark Tesslar,

desde os tempos de estudante, em Varsóvia. Descreveu como se tinham

encontrado novamente em Jadwiga, onde, segundo Kelno, Tesslar praticava

abortos nas prostitutas das SS, colaborando também, mais tarde, com as

experiências alemãs.

- O Dr. Tesslar tratava alguns dos pacientes nos centros médicos de

agrupamento?

- Ele morava no Alojamento III, em instalações particulares.

- Instalações particulares... Não como o senhor, que vivia com outros

60 prisioneiros?

- No Alojamento III ficavam muitas das vítimas das experiências. Pode

muito bem ter sido que Tesslar se ocupasse com elas. Não sei. Nós evitávamo-nos

e, quando nos encontrávamos, eu tornava esses encontros o mais

breves possíveis.

- Alguma vez se vangloriou perante ele por ter feito milhares de operações

experimentais sem usar anestésico?

- Não. Orgulho-me muito da minha competência como cirurgião e é

provável que tenha mencionado os milhares de intervenções cirúrgicas que

efectuei em Jadwiga.

- Cirurgias normais?

- Sim, normais. Porém as minhas palavras foram distorcidas. Eu adverti

Tesslar sobre os seus próprios crimes e disse-lhe que um dia teria que responder

por eles. Foi como se tivesse assinado a minha sentença de morte,

pois, quando cheguei a Varsóvia depois da guerra, ele já estava lá, e para

encobrir os seus próprios crimes tinha-me acusado. Eu tive que fugir.

- Sir Adam - o juiz interrompeu. - Gostaria de lhe dar alguns conselhos.

Tente, por exemplo, responder às perguntas de Sir Robert sem adiantar

informações que não estão a ser pedidas.

- Sim, Excelência!

- Quanto tempo ficou o senhor em Jadwiga?

- Até princípio de 1944.

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- Poderia dizer ao Meritíssimo Juiz e aos jurados em que circunstâncias



deixou o senhor o campo?

- Voss deixou Jadwiga para atender a sua clientela particular, de senhoras

de oficiais navais alemães. A sua clínica ficava em Rostock, perto do

Báltico. Ele levou-me consigo.

- Como prisioneiro?

- Como prisioneiro. Eu era conhecido como o “ cachorro de Voss”.

-Quanto tempo ficou o senhor em Rostock?

-Até Janeiro de 1945, quando Voss fugiu para o centro da Alemanha.

Não me levou com ele. Havia muita confusão entre os alemães. Eu fiquei na

área para tratar os prisioneiros e escravos, que agora deambulavam livres. Em

Abril, o exército russo chegou. A princípio muitos de nós fomos internados

em campos por não termos qualquer documentação. Depois fomos postos em

liberdade e eu voltei para Varsóvia. Cheguei num domingo de Páscoa, em

1945. Soube logo dos rumores a respeito das acusações feitas contra a minha

pessoa. O movimento nacionalista ainda existia, clandestinamente, e eu

consegui um bilhete de identidade falso para poder trabalhar como operário,

[ desentulhando a cidade. Logo que pude fugi para a Itália, para me reunir aos

polacos livres.

-O que aconteceu, então?

- Houve uma investigação e eu fui posto em liberdade. Vim para Inglaterra

e trabalhei no Hospital Polaco, em Tunbridge Wells. Fiquei lá até 1946.

- E depois, o que aconteceu?

- Fui detido e levado para a prisão de Brixton, enquanto os comunistas

[polacos tentavam conseguir a minha extradição.

- Quanto tempo ficou o senhor na prisão? - perguntou Sir Robert, com

a voz carregada de censura pelo modo brutal como os Ingleses tinham tratado

o seu cliente.

-Dois anos.

-E, depois dos dois anos de prisão, logo em seguida aos cinco anos de

campo de concentração em Jadwiga, o que aconteceu?

-O Governo inglês considerou-me inocente, com desculpas, e eu

alistei-me no serviço colonial. Fui para Sarawak, em Bornéu, em 1949.

Fiquei lá quinze anos.

-Como eram as condições em Sarawak?

-Primitivas e difíceis.

-E qual foi a razão que o levou a escolher tal lugar?

-O medo.

-Então o seu testemunho é que o senhor viveu 22 anos da sua vida,

parte como prisioneiro e parte como exilado, pagando por crimes que não

cometeu.


-Isso é a verdade.

- A que posto chegou o senhor no serviço colonial?

- Ao posto de oficial-médico ”sénior”. Rejeitei qualquer outro posto

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para poder dedicar-me às minhas pesquisas sobre desnutrição e também para

tentar elevar o padrão de vida dos nativos.

- O senhor escreveu teses sobre esses assuntos?

- Sim. : ;:

- Como foram recebidas?

- Eventualmente fui sagrado cavaleiro.

- Hummmmm... sim... - Sir Robert enfrentou o júri com um ar de desafio.

Depois disso o senhor voltou a Inglaterra?

- Sim.

- Estou bastante intrigado, Sir Adam. Hoje em dia, como é que um médico



com o título de cavaleiro, como o senhor, prefere trabalhar numa clínica

obscura, em Southwark?

- Eu só consigo comer dois frangos por dia. Não pratico a medicina por

dinheiro ou para ter um alto padrão social. Na minha clínica posso ser útil a

um maior número de pessoas que realmente necessitam de ajuda.

- Sir Adam. O senhor sofreu ou ainda sofre de algum mal contraído em

Jadwiga, em Brixton ou em Sarawak?

- Sim. Perdi quase todos os dentes, devido aos espancamentos feitos pela

Gestapo e SS. Sofro de varizes, hérnia, distúrbios estomacais devido a

disenteria reincidente, e tenho sintomas neurológicos de ansiedade e pressão

alta. Também sofro de insónias e mal funcionamento cardíaco.

- Que idade tem o senhor?

- Tenho 62 anos.

- Não tenho mais perguntas - disse Sir Robert Highsmith.



Capítulo quinto

Samantha parou na porta de uma casa de Colchester Mews, com os braços

ocupados por sacos de mantimentos do Harrods. Um motorista de táxi delicado

ajudou-a, trazendo o resto das compras.

Abe estava esticado no sofá, e no chão estava uma pilha de jornais espalhados.

”Herói ou monstro” (Evening News).

”O dilema do médico de Jadwiga” (Herald),

”O médico do campo infernal, testemunha” (Daily Worker).

”Sir Adam continua” (Times).

”Eu não tive escolha” (Mail).



O Mirror, o Standard, o Telegraph, o Post de Birmingham, o Sketch, todos

relatavam os acontecimentos com muita seriedade, sem nenhum

comentário nos editoriais. Os jornais ingleses não fazem como os jornais do

resto do mundo. Têm o cuidado de não julgar um homem antes que o tribunal

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o faça. Nos casos em que possa acontecer haver um julgamento prévio da



imprensa, prejudicando a opinião pública contra ou a favor de quem está a ser

julgado, o jornal pode ser envolvido no processo. Isto obriga a fazer-se uma

reportagem muito honesta sobre os factos.

Abe bocejou e levantou-se.

- Paga ao motorista, Abe - disse Samantha.

- Três moedas, pelo taxímetro, senhor.

Abe deu-lhe uma libra e disse-lhe que ficasse com o troco. Ele gostava dos

motoristas de táxi de Londres. Eram educados. Os motoristas gostavam dos

americanos porque lhes davam boas gorjetas.

- O que significa isto? É Natal?

- Os armários estavam vazios e, conhecendo-te, sei que morrerias de

fome e não sairias para comprar comida. Ben chegou?

- Chegou, sim. Está, provavelmente, em King’s Road a namoriscar as

mulheres.

- E como é que o velho paizinho não está a ajudar o garoto? - perguntou

Samantha, enquanto arrumava as compras nos armários da cozinha.

- Estou a ficar velho, Sam. Já não sei o que hei-de fazer com essas

meninas de hoje.

- Ora, Abe. O namorado de Viny está lá em casa. Realmente, não sei o

que é que ela viu nele. Gosta bastante de discutir!

- Os Israelitas são assim. Acho que são defensivamente agressivos pelo

facto de viverem prensados contra o mar.

- Abe, eu ouvi alguns comentários hoje, depois da sessão. Toda a gente

está a dizer... que nós...

- Preocupada?

- Sim.


- Há duas facetas nesta história.

- Queres um uísque? ;

- Seria uma boa ideia.

- Tudo isto é um assunto muito, muito delicado - disse ela, enquanto

lutava com um velho balde de gelo. -Há muita simpatia para com Kelno.

- Sim, eu sei.

- Será que vais conseguir alguma coisa?

- Não vim a Londres para visitar a Rainha...

O telefone tocou. Samantha atendeu.

- É para ti... Uma voz de mulher.

- Está lá...

- Olá, querido.

Era Lady Sarah Wydman.

- Olá, que bom ouvir a tua voz. Alexander disse-me que tinhas chegado

ontem de madrugada.

- Que pena não ter podido assistir a tudo desde o princípio. Mas fiquei

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detida em Nova Iorque com a sessão do teatro. Horrível temporada! Quando



posso ver-te?

- Hoje à noite.

- Podemos jantar num dos restaurantes de Chelsea e depois vir para

Aqui - disse ela.

- Acho bom poder ficar onde haja telefone - respondeu Abe.

- Óptimo. Então comprarei qualquer coisa e farei um jantar aí em tua

casa.

- Não sabia que cozinhavas.



- Não sabes uma porção de coisas. Está bem lá para as sete e meia?

- Combinado.

Abe desligou. Samantha estava evidentemente mal-humorada quando lhe

estendeu o drinque.

- Quem era?

- Uma amiga. Amiga da causa.

- Muito amiga?

- Lady Sarah Wydman. Ela é muito influente na comunidade judaica.

- Toda a gente já ouviu falar de Lady Sarah e das suas obras de caridade.

Vão fazer amor aqui?

Ele resolveu entrar naquele jogo idiota dela.

- Aqui não dá. É muito pequeno e Ben está a dormir no quarto ao lado.

Gosto de espaço onde possa correr nu, gritar e pular.

Samantha ficou envergonhada e mordeu o lábio.

- Ora vamos, Sam - disse ele, nós já estamos divorciados há tantos

anos. Não podes estar a sentir ciúmes.

- Sim, eu sou mesmo tola. Sabes, Abe, nunca ninguém foi assim para

mim. Afinal, Ben foi concebido aqui. Eu sempre penso em nós quando venho

para cá. Já alguma vez sentiste saudades minhas?

- Queres saber a verdade?

- Não sei se quero ou não.

- Vou ser muito honesto contigo, Sam. Sinto saudades, sim. Nós vivemos

juntos duas décadas.

- Fiquei muito contente quando soube que virias para Londres por

bastante tempo. Quando Reggie e eu te oferecemos a casa, sabia que virias

aqui e que iria fazer amor contigo.

-Deus meu, Sam, não podemos fazer isso.

- Velhos amigos como nós? O que há de mal nisso?

- E Reggie?

- Bem, ele pensa que é isso mesmo o que nós estamos a fazer. Nunca

acreditaria, se eu o negasse. Reggie é um óptimo camarada, tranquilo,

seguro, honesto. Se não o desafiarmos com uma confissão, ele não abrirá a

boca para falar no assunto.

- Não durmo com as mulheres dos outros.

- Verdade? E desde quando, querido?

- Desde que descobri que não engano aquele velho que está lá em cima.

212

Nós acabamos por pagar. Sam, por favor, não me coloques em posição de ter



que te rejeitar.

Estendeu-lhe um lenço e ela enxugou os olhos.

-Claro que tens razão. Francamente, não sei de quem gosto mais. Se do

novo Abe, ou do antigo.

Lady Sarah, de calças compridas e de casaco de vison, chegou no seu

Bentley, seguida de Morgan com um cesto de compras. Cozinhava como uma

grande cordon-bleu.

Abe, subitamente, sentiu-se muito cansado. Deitou a cabeça no colo de

Sarah e ela massajou-o delicadamente na nuca, nas têmporas, com mãos suaves

e hábeis. Depois deitou-se ao seu lado no sofá. Sarah já estava a chegar

perto daquela fronteira em que a mulher, de repente, deixa de ser atraente.

Mas sabia aproveitar bem o que ainda tinha. Ele, pelo menos, pensou assim.

- Jesus, estou cansado.

- Vais ver quando chegar ao fim de semana. Vamos para Paris, queres?

-Não posso. As testemunhas vão começar a chegar, vindas de Israel.

Tenho de ficar aqui.

- Paris.


- Sou capaz de não resistir.

- Não te preocupes tanto, meu amor. As coisas vão melhorar quando

Tom Bannister começar a agir.

- É engraçado. Mas não consigo deixar de pensar em Kelno. Pobre tipo!

O que não deve ter sofrido!

-Mas não é justificação para o que fez, Abe.

- Eu sei. Mas pergunto a mim mesmo se não teria feito o mesmo se estivesse

em Jadwiga.

Ângela acordou com um barulho de sufocação. Viu um raio de luz vindo

da casa-de-banho e correu para lá. Adam estava de joelhos, a vomitar.

Quando acabou, ela ajudou-o a pôr-se de pé, e ele tremendo, apoiou-se na

parede. Limpou toda a sujidade e, obrigando-o a deitar-se, aplicou-lhe toalhas

frias na testa e no pescoço, que estavam encharcados em suor.

Então Ângela deu-lhe o remédio e ficou sentada ao seu lado, segurando-lhe

a mão, até que o espasmo cessasse. O cheiro a desinfectante vinha até

eles pela porta da casa-de-banho.

- Tenho medo de Bannister - disse Adam. - Durante dois dias ele ficou

ali sentado, sem tirar os olhos de cima de mim.

- Estás num tribunal inglês. Ele não te poderá acusar. Sir Robert estará

sempre atento.

- Pois é, penso que tens razão.

- Agora, cala-te! Tranquiliza-te...

213

Capítulo sexto

Abe entrou na sala do tribunal, agora já tão conhecida. Por um inconfortável

instante, viu-se ao lado de Ângela Kelno e de Terrence Campbell.

Entreolharam-se com animosidade.

- Desculpem-me - disse Abe, e passou por eles, indo sentar-se ao lado

de Sarah Wydman e de Shawcross.

- O avião deve chegar de Tel Aviv depois do fim-de-semana. Alexander

acha que é melhor não irmos recebê-los. Só os veremos lá para o meio da

semana - disse Shawcross.

Bannister e Brendon O’Conner, com um aspecto cansado, chegaram com

Alexander e Sheila Lamb. O júri entrou na sala nesse preciso momento. Duas

das mulheres e um dos homens carregavam almofadas, para aliviar o desconforto

do longo tempo que iriam passar na dura madeira dos bancos.

- Silêncio!

Gilray entrou e houve o ritual das reverências.

A tribuna fez uma admoestação preliminar. Sir Adam Kelno tinha recebido

telefonemas ameaçadores e o juiz avisava que tal procedimento não seria

tolerado. Então deu ordem a Tom Bannister para prosseguir.

Bannister descruzou as pernas, enquanto Adam Kelno se dirigia para o

banco das testemunhas, sentando-se com as mãos no corrimão, agradecido

pelo tranquilizante que começava a fazer efeito. Bannister, de pé, rodava a

borla da sua toga.

- Sir Adam - disse ele, num timbre suave, contrastando com a voz

áspera de Highsmith. Toda a corte pareceu adoptar um tom diferente, mais

calmo. - Eu compreendo que o inglês não é a sua língua natal. Por favor,

peça-me para refazer ou repetir qualquer frase minha que o senhor não entenda.

Adam acenou, e bebeu, vagarosamente um gole de água, para humedecer

a garganta seca.

- Qual é o significado normal para o termo médico casus explorativus?

- perguntou Bannister.

- Normalmente trata-se de uma operação praticada para ajudar a fazer

um diagnóstico. Por exemplo, em caso de cancro.

- Seria assim que o senhor descreveria a retirada de um ovário ou de um

testículo?

- Sim.


- Podendo ser tanto do lado esquerdo como do lado direito?

- Sim - respondeu Adam, lembrando-se das suas instruções em responder

com brevidade e não adiantar informações.

- Seria correcto dizer que uma operação desta natureza poderia ser o

resultado de uma glândula exposta aos raios X

- Sim.


- Por exemplo, como uma etapa das experiências de Voss.

214


- Não - disse ele asperamente. - Nunca fiz experiências.

- O senhor já fez castrações?

- Uma castração é praticada num homem são. Eu nunca pratiquei uma

castração.

- Não se forçavam homens e mulheres sãos a serem expostos aos

raios X?


- Eu, não.

- Não é um procedimento ético obter-se a permissão da pessoa que vai

ser operada?

- Num campo de concentração, não.

- De tempos em tempos não eram recebidas ordens dos tribunais alemães

para que se castrassem homossexuais e outros cidadãos indesejáveis?

- Não me recordo de nenhum incidente dessa natureza.

Ele está a sondar, escreveu Chester Dicks a Highsmith, que acenou para

Kelno, aprovando-o. Adam acalmou-se com a suavidade da voz de Bannister

e com a aparente falta de objectividade das perguntas.

- Se tivesse acontecido algum caso desta natureza o senhor certamente

teria pedido para ver a ordem do tribunal.

- Não posso especular a respeito de factos que não aconteceram.

- Mas o senhor recusar-se-ia a operar um homem são?

- Certamente.

- Sir Adam, algum outro médico-prisioneiro deixou o campo de concentração

de Jadwiga para ir trabalhar nalguma clínica particular?

- Sim. Ó Dr. Konstanty Lotaki.

- Ele também operava no Alojamento V, fazendo parte das experiências

de Voss?

- Ele obedecia às ordens que recebia.

- Ele recebeu ordens para retirar testículos e ovários?

- Sim.


- Cumpriu ordens e deixou Jadwiga para trabalhar numa clínica particular.

A primeira impressão passageira de conforto começou a desaparecer de

Adam Kelno, assim como qualquer ideia que tinha feito a respeito da

aparente falta de objectividade de Bannister. Ele teria que estar muito atento,

e pensar bem, antes de responder.

- Bem, quando o senhor saiu de Jadwiga para trabalhar numa clínica

particular, passou a usar outras roupas, ou usava ainda o uniforme listrado?

- Não posso imaginar que as mulheres das altas patentes da Marinha

gostassem de ser atendidas por um médico usando um uniforme listrado, de

um campo de concentração. Sim, eu usava roupas vulgares.

- Talvez não gostassem de ser tratadas por um prisioneiro disse

Bannister.

- Não sei se gostavam ou não. Eu era um prisioneiro.

- Mas um prisioneiro um tanto especial, com privilégios especiais. Estou

215

a sugerir que o senhor talvez tenha cooperado com Voss para obter a sua



passagem.

- Como?


- Quer repetir a pergunta, senhor Bannister - interferiu o juiz. - Ele

parece não entender o termo.

- Sim, Meritíssimo. Ao princípio o senhor começou como um operário,

tendo sido espancado e desprezado.

- Sim.

- Então o senhor transformou-se numa espécie de enfermeiro.



- Sim.

- Depois em médico dos prisioneiros.

- Sim.

- Depois o senhor tornou-se o chefe de um amplo centro médico.



- De certo modo, mas sob controlo alemão.

- Finalmente, o senhor tornou-se médico das mulheres dos oficiais

alemães.

- Sim.


- Sugiro que o senhor e o Dr. Lotaki foram os dois únicos médicos-prisioneiros

libertados, porque colaboraram com o coronel-médico

Dr. Adolph Voss, das SS.

-Não!


Bannister ficou imóvel, exceptuando o gesto que fez ao rodar a borla da

sua toga, suavizando ainda mais o tom da sua voz.

- Quem desejava que tais operações fossem praticadas?

-Voss.


- O senhor sabia muito bem que ele estava a fazer experiências sobre

esterilização.

- Sim.

- Com raios X.



- Sim.

- Sir Adam, não era um facto que a retirada de ovários e testículos era

um segundo estágio das experiências?

- Estou confuso.

- Vamos simplificar. Vamos acompanhar o processo passo a passo. Toda

essa gente era de raça judaica.

- Penso que sim. Talvez alguns ciganos. A maioria eram judeus.

- Jovens judeus.

- Eram jovens.

- Quando é que eram, exactamente, levados para o Alojamento V e para

a cirurgia?

- Bem, eles ficavam no Alojamento III como materiais das experiências.

Eram submetidos aos raios X no Alojamento V, depois voltavam para o Alojamento

III por um mês, e só então eram operados.

- O senhor não está a omitir nenhuma etapa?

216


- Não penso que esteja.

- Penso que, depois de serem submetidos aos raios X, eram levados para

o Alojamento V e nessa altura eram submetidos a uma outra espécie de tratamento

: um pedaço de madeira era introduzido no recto para provocar uma

ejaculação. Esse esperma era analisado para se verificar a sua potência.

- Eu não sabia nada sobre isso.

- Eles eram raspados antes da operação?

- Sim, os preparativos eram normais.

- Eles protestavam?

- Certamente que se sentiam aflitos. Eu dizia-lhes que era necessário

operar para lhes salvar a vida.

- Parece-me que o senhor testemunhou aqui, dizendo que só retirava

glândulas mortas.

- Sim.


- Como é que sabia que estavam mortas?

- Podia verificar-se facilmente, devido às queimaduras por irradiação.

- E o senhor jurou que as queimaduras se podiam transformar em

cancro.


- Sim.

- E o senhor operava como um médico, firmemente convencido de que o

fazia para salvar vidas?

- Sim.


- O senhor nunca disse a nenhum deles: ”Se eu não tirar os seus, os

alemães vão tirar os meus.”

- Nego, com toda a minha alma, essa espécie de mentiras.

- O senhor nunca disse isso?

- Não, nunca.

- O senhor testemunhou que em diversas ocasiões auxiliou o Dr. Lotaki.

- Sim, talvez uma dúzia de vezes.

- O senhor alguma vez o ouviu dizer isso?

- Não.

- O senhor declarou ter uma preferência pela anestesia raquidiana.



- Sob certas condições e para esse tipo de operação.

- E o senhor prestou testemunho que costumava aplicar uma injecção de

morfina, antes?

- Sim.


- Até mesmo com a morfina, uma raquidiana não é um processo bastante

doloroso?

- Não, se for feito de maneira competente.

- Porquê, então, a injecção prévia de morfina?

- Para induzir a um estado de paz e de semi-inconsciência.

- E isto era feito pelo senhor, na sala de operações?

- Sim.

217


- Eu sugiro que o paciente, mesmo tendo um biombo à sua frente, podia

acompanhar tudo pelo reflexo projectado nas lâmpadas acima da sua

cabeça.

- Essa visão seria muito distorcida, não se parecendo com o que se reflecte



num espelho.

- Por isso o senhor não achava necessário anestesiar completamente o

paciente.

- Eram tantas as operações, e tão diversas, que eu tinha que praticá-las

da maneira mais rápida e mais segura.

- Qual era o estado normal dos pacientes?

- De sonolência e semi-inconsciência.

; -Eu sugiro, Sir Adam, que eles estavam bem despertos, pois não haviam

recebido nenhuma injecção de morfina.

- Eu digo que lhes administrava morfina.

- Bem! E Voss... Ele ficava a assistir a algumas dessas operações ? .

- Sim.


- E ele disse-lhe o que estava a tentar fazer. O senhor sabia que ele estava

a fazer experiências para esterilizar homens saudáveis e potentes.

- Eu sabia.

- E, certamente, ele estava a fazer essas experiências porque naquela

época ninguém sabia ainda se os raios X podiam ou não esterilizar uma

glândula sexual.

Kelno segurou o corrimão com força, indeciso, agora que percebia a

armadilha de Bannister. Olhou para os seus advogados, mas eles não se levantaram.

- Bem? - pressionou Bannister suavemente.

- Como médico e como cirurgião, eu conhecia alguns dos efeitos nocivos

dos raios X.

- Sugiro que ninguém sabia realmente nada a este respeito. Sugiro que

nenhum trabalho tinha ainda sido feito neste sector.

- Voss poderia ter consultado um radiologista.

- Sugiro que não o fez. Sugiro que nenhum radiologista sabia qual a dosagem

de raios X necessária para esterilizar um homem potente, porque

nenhum trabalho foi feito neste sector.

- Qualquer médico sabe que a radiação é prejudicial.

- Se isso fosse verdadeiro, porque estaria Voss a fazer essas experiências?

- Pergunte a Voss.

- Ele está morto, mas o senhor, Sir Adam, estava muito associado com

ele quando fazia tudo isso. Sugiro que Voss queria saber o grau de radiação

necessário para esterilizar um homem normalmente são, e ele queria descobrir

isto porque ninguém sabia ainda a resposta. Sugiro ainda que ele lhe

tenha dito o que estava a fazer e que o senhor também não sabia a resposta.

Agora, Sir Adam, o que era feito dos testículos removidos?

- Não sei.

218
- Não seriam levados para um laboratório para que se verificasse se ainda

eram potentes ou não?

- Talvez.

- Sugiro que a remoção dos testículos era uma segunda etapa da experiência.

- Não.


- Porém, quando esses homens eram submetidos aos raios X, a experiência

não terminava, ou terminava?

- Eu operava para salvar vidas.

- Com o medo do cancro? Quem lidava com o aparelho de raios X?

- Um enfermeiro alemão chamado Kremmer.

- Ele era qualificado?

- Não, ele não era muito capacitado, e por isso eu temia o cancro.

- Compreendo. Não era muito capaz. Ele foi enforcado pelo que fez, não

foi?

- Protesto contra esta pergunta - interveio Sir Robert, pondo-se rapidamente



em pé.

- Objecção aceita.

- O que aconteceu ao cabo Kremmer? - insistiu Bannister.

- Protesto, Excelência. O meu nobre colega está a tentar implicar Sir

Adam como cúmplice. Ele não era um nazi e não se ofereceu voluntariamente

para aquele trabalho.

- A natureza da minha pergunta, Meritíssimo, é perfeitamente

coerente. Estou a sugerir que essas operações faziam parte e eram uma parcela

das experiências, e portanto cirurgias experimentais. Já outros foram enforcados

por terem participado nessas experiências, e eu penso que Sir Adam

não precisaria ter efectuado essas operações e só as praticou para conseguir a

sua saída do campo.

O juiz Gilray ponderou sobre este assunto.

- Bem, nós sabemos todos agora que o cabo Kremmer foi enforcado.

Peço aos senhores jurados que apreciem esta informação com a maior seriedade.

Pode continuar, Sr. Bannister.

Sir Robert sentou-se, vagarosamente, enquanto Bannister agradecia ao

juiz.


- Bem, então o senhor observou essa dezena ou mais de pessoas e viu os

efeitos da radiação maciça.

- Sim.

- E o senhor prestou testemunho aqui que o cabo Kremmer não era



qualificado para o trabalho com os raios X e que o senhor temia os seus efeitos.

Não foi isso que o senhor nos afirmou ?

- Foi, sim.

- Agora, Sir Adam, suponhamos que o cabo Kremmer não usou os

raios X, mas sim um radiologista competente. Haveria perigo para o ovário

não exposto ou para o testículo?

219

-Não creio ter entendido a pergunta.



- Muito bem, vamos ver se consigo ser mais explícito. Os testículos do

homem ficam um ao lado do outro, mas são separados em compartimentos

que distam um ou dois centímetros um do outro. Correcto ?

- Sim.


- No caso de um testículo ser exposto a uma dose extremamente maciça

de radiação, e sendo os raios X aplicados por um técnico não muito capaz, eu

penso que o órgão adjunto também pode ficar afectado. O senhor deu aqui o

seu testemunho, ao dizer que os pacientes estavam com queimaduras graves e

que essa era a sua preocupação do caso.

- Sim.


- Bem, se o senhor temia o aparecimento do cancro, por que razão não

removia os dois testículos ? Não seria de maior interesse para o paciente ter os

dois órgãos removidos?

- Não sei. Quero dizer... Voss dava-me as ordens.

-Parece-me, Sir Adam, que o senhor só começou a interessar-se por

essa teoria do cancro quando se viu internado na prisão de Brixton, aguardando

a sua extradição para a Polónia.

- Isso não é verdade.

- Creio que o senhor não tinha o menor interesse pela saúde dos seus

pacientes, pois se tivesse não os teria deixado ficar com um ovário ou testículo

canceroso. Suponho que tudo isto tenha sido imaginado muito depois.

- Não foi assim.

- Então, qual foi a razão que o levou a não remover todos os órgãos

afectados ?

- Porque Voss estava sempre a assistir.

-Não é verdade que Voss lhe tenha dito a si, como ao Dr. Lotaki,

que, se cooperassem com ele, praticando essas operações, ele os tiraria de

Jadwiga ?

- Claro que não.

- Sugiro que não é um procedimento normal e que é uma tentativa muito

arriscada operarem-se pessoas que sofram de queimaduras graves devidas a

radiações. O que me diz o senhor a isto?

- Isso pode ser aplicável a Londres, mas não a Jadwiga.

- Sem morfina?

- Eu já lhe disse que administrava morfina.

- Quando foi que o senhor encontrou, pela primeira vez, o Dr. Mark

Tesslar? - perguntou Bannister mudando completamente de assunto.

A menção de Tesslar provocou em Kelno um estremecimento. Enrubesceu

e as suas palmas das mãos ficaram húmidas. Um dos estenógrafos

substituiu o companheiro. O relógio soou.

- Penso que seja a hora apropriada para nos retirarmos - disse o juiz.

Adam Kelno deixou o banco das testemunhas com o primeiro arranhão na

sua armadura. Nunca mais subestimaria Thomas Bannister.

220


Capítulo sétimo

Uma espécie de rotina já se tinha estabelecido. Sir Adam Kelno tinha

atravessado o rio e ia almoçar a sua casa, enquanto os seus advogados se

dirigiam para um clube particular, onde uma mesa já estava posta à espera

deles.

A Three Tuns Tavern, em Chancery Lane, no beco atrás de Chichester



Rents, tinha uma pequena sala no andar de cima. Era para lá que Abe e

Shawcross se dirigiam com quem quer que estivesse com eles no tribunal. A

comida da taberna era muito parecida com a de todas as outras tabernas

londrinas. Carnes frias sortidas, salada e ovo escocês, que era uma mistura de

ovo com carne picada e pedaços de pão. Depois de conseguirem ensinar ao

homem do bar a fazer um martini bem gelado e bem seco, as coisas

melhoraram um pouco. No andar de baixo havia sempre um montão de

admiradores jovens, secretárias, estudantes e homens de negócio que sabiam

que Abraham Cady se encontrava no andar de cima. Mas todos eram muito

ingleses para incomodá-lo.

E assim se passavam os dias. A abertura do tribunal era às dez e meia da manhã,

encerrando para intervalo de almoço à uma hora da tarde. A sua reabertura

era às duas horas até às quatro.

Depois de ter experimentado as tácticas de Bannister pela primeira vez,

Adam Kelno sentia que as suas insinuações não tinham alcançado a importância

desejada e os outros também pensavam o mesmo.

-Vamos, Sir Adam - continuou Bannister, depois do descanso.

A cadência da sua voz tornava-se ainda mais fácil de ser seguida. Ao

princípio parecia monótona, mas agora, ao conhecer-se o seu ritmo, começava-se

a sentir as várias maneiras de todas as suas entoações.

- O senhor disse-nos, antes do descanso, que tinha conhecido Tesslar

quando eram estudantes.

- Sim.

- Quantas pessoas viviam na Polónia antes da guerra?



- Mais de 30 milhões.

- E quantos judeus?

- Mais ou menos uns 3 milhões e meio.

- Alguns dos quais tinham vivido na Polónia durante gerações. Os seus

antepassados viveram ali durante séculos?

- Sim.


- Existia alguma associação para os estudantes de medicina da Universidade

de Varsóvia?

- Sim. . . ,

- Na verdade, por causa do ponto de vista anti-semita dos oficiais e da




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