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- Bem-vindo a Linstead Hall - disse Donald Linstead.

- Desculpem estar de luvas - respondeu Abe, mostrando as mãos com

ligaduras.

Ela guiou-o cuidadosamente através dum bosque, até a uma campina

donde se via a casa um pouco mais abaixo. Sentaram-se na relva e ela descreveu-lhe

a paisagem.

- Estou a sentir o cheiro de vacas, cavalos, fumo e várias espécies de

flores. Isto aqui deve ser lindo. Não sei distinguir uma flor de outra.

- Há as urzes, as rosas e as ervilhas cor-de-fogo.

”Oh, Abe! Como eu gosto de ti”, pensava ela.

Na terceira visita a Linstead Hall, a família recebeu a boa notícia de que as

ligaduras dos olhos de Abe seriam retiradas, todos os dias, por algumas horas.

Samantha esteve inquieta durante o passeio. Quando se está na escuridão

sente-se tudo com muita intensidade. O tom da voz dela era diferente; as vibrações

eram tensas.

Abe estava cansado porque o dia tinha sido longo. Um enfermeiro da

aldeia veio mudar-lhe as ligaduras e dar-lhe banho. Depois, ele ficou esticado

na cama, a resmungar contra as mãos aprisionadas. Paciência. Poder fazer a

barba, poder assoar o nariz, poder ler. Poder ver Samantha.

Ouviu a porta abrir e fechar-se e, pelo modo como a maçaneta rangeu, sabia

que era Samantha.

- Espero não te ter acordado.

- Não.


A cama afundou quando ela se sentou ao lado dele.

- Vai ser uma festa quando eles tirarem essas ligaduras dos teus olhos,

quero dizer, do teu olho. Tens sido muito corajoso.

- Como se eu tivesse por onde escolher. Nós aprendemos o que é a

humanidade.

Abe ouvia os soluços que a jovem procurava abafar. Queria poder abraçá-la,

como tantas vezes o desejara. Como seria ela? Os seus seios eram

grandes ou pequenos? Os seus lábios seriam sensuais? O seu cabelo seria

macio ?

- Mas por que razão estás a chorar ?



- Não sei.

Sabiam sim. Num triste e estranho modo, eles tinham vivido algo muito

raro, e agora a experiência estava a chegar ao fim. Nenhum dos dois sabia se o

fim seria efectivamente um ponto final, ou se seria apenas um outro princípio,

Samantha tinha medo de ser deixada.

Ela deitou-se ao lado dele, como já fizera tantas vezes depois dos seus

Passeios, os seus dedos desabotoaram-lhe a camisa, e ela encostou o rosto no

Seu peito. Os seus lábios e as suas mãos percorreram-lhe o corpo em carícias

suaves como sussurros.

- Falei com o médico - sussurrou. - Ele disse-me que nós podíamos...

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Fica quieto que eu faço tudo. - E ela começou a despi-lo. Depois, tirou a sua



própria roupa e deitou-a para um canto. Levantou-se e fechou a porta.

Oh, fantástica escuridão! Cada sensação ficava tão vivida, as suaves

carícias, o delicioso roçar dos pés, as macias chicotadas dos cabelos dela.

Samantha conseguia ainda controlar-se, quando ele sucumbiu.

Ela chorou depois e disse que nunca fora tão feliz, e Abe respondeu que

ele ainda era muito melhor, mas que, nas actuais circunstâncias, já era muito

bom que alguma parte do seu corpo funcionasse devidamente. A conversa

tornou-se tola e começaram a rir porque, afinal de contas, aquilo até era

mesmo muito engraçado.

Capítulo sétimo

O telefone de David Shawcross tocou repetidas vezes. Ele procurou o

interruptor do candeeiro, bocejou e sentou-se.

- Meu Deus - resmungou -, são três horas da manhã... Estou!

- Sr. Shawcross?

- Sim, sou eu.

- Aqui é o sargento Richardson, da Policia Militar, de serviço em

Marylebone Lane, senhor.

- Richardson, são três horas da manhã. Diga rapidamente o que quer.

- Sinto muito tê-lo incomodado, senhor. Nós apanhámos um oficial da

RAF, um Tenente Abraham... C... A... D... Y, Cady.

- Abe está em Londres?

- Sim, senhor. Ele estava bastante embriagado quando nós o apanhámos.

Bêbado como um lorde, desculpe-me a expressão, senhor.

- Ele está bem, Richardson?

- Pode-se dizer que sim. Tinha um bilhete pregado no seu uniforme.

Quer que o leia?

- Sim. Claro que sim.

”O meu nome é Abraham Cady. Se parecer que eu estou bêbado, não se

iludam. Estou meio maluco devido a um trabalho intensivo num projecto

secreto debaixo d’agua. Devo sofrer um processo de descompressão lenta.

Deixem o meu corpo na casa de David Shawcross, Cumberland Terrace,

n.º 77, NW 8.” O senhor fica com ele, Sr. Shawcross? Não queremos

prendê-lo. Afinal, ele mal saiu do hospital...

- Prendê-lo ? Porquê ?

- Bem, senhor, quando nós o apanhámos ele estava a nadar no lago de

Trafalgar Square... nu.

- Traga o tonto para aqui. Eu tomo conta dele.

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- Então você era um submarino alemão, hein? - brincou Shawcross.



Abe gemeu, ao tomar outra chávena de café. Pelo menos os ingleses

chamavam àquilo café. Uff!

- A fazer alarde do seu periscópio em plena praça. O que é isso,

Abraham ?

- Shawcross, apague esse maldito charuto. Não vê que eu estou a

morrer?


- Mais café, meu bem? - perguntou Lorraine.

- Credo! Não. Perdão... Não, senhora, obrigado.

Ela tocou a campainha para chamar a empregada, e ajudou-a a levantar a

mesa.


- Tenho de ir andando. As bichas são enormes e quero fazer várias

compras. Os nossos garotos chegam amanhã de Manchester. - Deu um beijo

em Abe. - Espero que esteja a sentir-se melhor, meu bem.

Quando ela saiu, David resmungou.

- Acho que eu amo tanto os meus netos como qualquer avô. Mas,

francamente, eles são uns bastardozinhos malcriados. Passo a vida a escrever

à Pam, a contar como é perigosa a vida aqui em Londres. Pois sim, ela nem

liga. Bom, de qualquer maneira, estou a pensar seriamente em chamar o

Geoff para trabalhar comigo, quando a guerra acabar. Bom, que tolice é essa

agora sobre você e essa rapariga, Pinhead, Greenbed...

- Linstead. Samantha Linstead.

- Gosta dela ou não?

- Não sei. Eu nunca a vi. Já fizemos amor... mas nunca a vi e nem sequer

toquei nela.

- Ora, isso não é novidade... todos os amantes são mais ou menos cegos.

Eu já a vi. É bem atraente. Do tipo saudável.

- Ela deixou de aparecer depois de terem tirado as ligaduras dos meus

olhos. Tinha medo que eu não gostasse dela. Nunca me senti tão infeliz em

toda a minha vida. Queria ir bater à porta da casa dela e exigir-lhe que viesse

comigo. Depois fiquei um pouco desconfiado. E se ela fosse um estafermo?

Ou, então, imagine que ela me tinha visto tal como sou, e tivesse reconsiderado?

Idiota, não é?

- Muito. Bem, mas um dia destes vão ter de olhar um para o outro.

Entretanto, porque não sai com outras garotas para esquecer Samantha?

- Qual quê, eu estou desfasado da área de Londres - disse Abe. - Dos

primeiros quatro telefonemas que fiz, duas estavam casadas, uma estava grávida

e a outra foi o marido que atendeu.

- Bem, vejamos - disse Shawcross, enfiando os gordos dedos no bolso

do colete e apanhando um livrinho de endereços. Murmurava feliz ao folheá-lo.

- Encontre-se comigo, às duas, no Mirabelle, para almoçar. Havemos de

encontrar alguém.

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Abraham Cady, sóbrio e recuperado, contornou a Rua Curzon, trepidante



da agitação dos tempos de guerra, e entrou no acolhedor luxo do Mirabelle.

O maitre esperava-o. Abe parou um instante, a inspeccionar a habitual

mesa de Shawcross. Ele tinha arranjado uma ruiva. Mesmo inglesa. Corpo

bem feito, pelo que se podia ver. Não parecia parva. Estava nervosa. Era

normal. Todos ficam nervosos quando vão conhecer um escritor, mas depois

ficam desapontados. Esperam que o infeliz diga só coisas lindas.

- Olá, Abraham - disse Shawcross, levantando-se da cadeira. - Quero

que conheça Cynthia Greene. Cynthia é a secretária dum dos meus colegas,

numa editora. Ela é sua admiradora.

Abe apertou a mão da rapariga com o calor que sempre dava a esse gesto.

A mão dela estava um pouco húmida, sem dúvida devido aos nervos, mas a

sua pressão foi firme. Um aperto de mão dizia tanta coisa. Ele detestava aquela

espécie de peixe mole e gelado que muitas garotas estendiam. Ela sorriu. O

jogo começara. Ele sentou-se.

”Muito bem, Shawcross”, pensou Abe.

- Um uísque com gelo, por favor - pediu a um criado que passava.

Shawcross comentou que o gelo era invenção dos bárbaros e Abe contou a

história de uma moça que conhecia, e que todos os dias bebia meia garrafa de



scotch, mas não bebia água com medo de estragar o fígado.

Brindaram. Beberam, e estudaram a escassa ementa do tempo de guerra.

O que Abe gostou mais, depois do franco aperto de mão, foi do silêncio da

rapariga. Todas as mulheres possuem vulcões. Alguns são compulsivos e

jorram da boca, num amontoado de palavras idiotas. Outros são controlados

pelas suas donas e só explodem no momento certo. Abe gostava das mulheres

tranquilas.

O maitre entregou um bilhete a Shawcross. Ele levantou-se, a resmungar.

- Sei que isto parece uma óbvia desculpa para vos deixar a sós, mas os

russos estão a chamar-me. Aqueles selvagens não conseguem fazer nada sem

mim. Agora veja lá se não vai roubar o meu escritor para a sua editora. Brevemente,

deve sair outro livro seu.

Eles ficaram sós.

- Há quanto tempo conhece Shawcross ? - perguntou Abe.

- Desde que ele começou a visitá-lo no hospital.

Aquela voz era a dela.

- Samantha?...

- Sou eu, Abe.

- Samantha!

- O Sr. Shawcross gosta de ti como se fosses realmente filho dele. Telefonou-me

e disse que tu tinhas chorado quase toda a noite. Lamento muito ter

fugido. Bem, agora estou aqui. Sei que estás muito decepcionado.

- Não estou, não... Tu és encantadora!

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Capítulo oitavo

Duma clareira nas colinas do Mindip, Abe e Samantha observaram

enxames e enxames de aviões a voar em direcção ao continente. O céu estava

repleto deles. Bombardeiros pesados e um enxame de caças. Passaram, o som

sumiu-se, e o céu ficou azul novamente. Abe olhou, pensativo, na direcção

de Linstead Hall.

Samantha sentiu um súbito frio. Pegou no casaco e colocou-o nos ombros.

As flores curvavam-se com a brisa, e o seu ruivo e macio cabelo dançava. Ela

combinava bem com a paisagem do campo. Samantha tinha o aspecto de

quem nasceu a saber montar a cavalo.

O hospital tinha concordado em deixar que Abe se afastasse uns dias,

desde que ele se comprometesse a aparecer duas vezes por semana para os tratamentos.

O Dr. Finchly aconselhou-o, energicamente, a manter-se afastado

de Londres. Ele precisava da paz de Linstead Hall. Urzes e esterco de cavalo.

Mas os constantes voos dos aviões estavam sempre a lembrar-lhe que havia

uma guerra.

- Tão pensativo! - disse Samantha.

-A guerra continua e eu aqui - respondeu Abe.

- Sei que estás inquieto, mas depois de tudo acabar, vais descobrir que

tens forçosamente de voltar a escrever. Sei que estás com um outro livro a

fermentar aí dentro.

-As minhas mãos! Ficam a doer-me assim que começo a escrever. Acho

que têm de operar-me outra vez.

- Abe, já pensaste que eu posso ser as tuas mãos ?

-Não sei se conseguirei escrever, assim, um livro. Não sei, não.

- Podemos tentar.

Esta ideia trouxe Abraham Cady de regresso à vida. No princípio, foi

muito difícil para Abe acompanhar o processo de raciocínio dum romancista.

Mas, com o correr dos dias, ele foi organizando cada vez mais os seus

pensamentos. Então, pôde ditar com rapidez e vigor.

As férias terminaram. Abe foi dispensado da Força Aérea. Os seus antigos

companheiros de esquadrão deram uma festa de despedida. Ele voltou para

Linstead Hall, e dedicou-se a escrever.

Samantha tornou-se a parceira silenciosa e privilegiada duma experiência

única: a gestação dum romance. Ela viu-o desprender-se dum primeiro

mundo, de realidade, e submergir num segundo mundo, o da sua própria

criação, e onde ele ficava só. Não havia truques. Não havia a inspiração que as

Pessoas associam ao trabalho do escritor. O que havia era uma determinação

que requer do autor uma diferente espécie de força, o que torna tão limitada a

profissão. É claro que havia momentos de ritmo natural e até mesmo, o que é

mais raro, instantes de criatividade intensa e maravilhosa.

Mas o que Samantha mais notou foi a incerteza, o esgotamento, as

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depressões emocionais, a exaustão. Nessas ocasiões, ele nem tinha força para



despir-se e alimentar-se.

David Shawcross ficava nos bastidores. Um feliz homem, que sabia

exactamente quando devia tirar Abe da sua paz no campo, e levá-lo para uma

verdadeira orgia em Londres. Uma boa bebedeira, um dia de profundo sono e

o regresso à folha branca de papel. Shawcross disse a Samantha que o que lhe

fazia acreditar que Abe possuía a chave do talento, era a consciência das suas

próprias limitações. Poucos autores tinham essa capacidade de introspecção e

eram vaidosos demais para admitir as suas fraquezas. Esta era a força de

Abraham Cady, e ela orientou o seu segundo romance. Ele tinha agora vinte

e tal anos, mas escrevia como se tivesse sessenta.



The Jug (o apelido dado aos Thunderbolt P-4 7) era uma clássica e simples

história dos homens na guerra. O herói era o major-general Vincent Bertelli,

duma segunda geração de miúdos da rua, de descendência ítalo-americana.

Um oficial da década de 30, promovido quando a guerra se orientou no sentido

da aviação. Bertelli era um comandante duro e impetuoso, pronto a sacrificar

tudo baseado na teoria de que “guerra é guerra”.

O filho do general, Sal, voava como comandante de esquadrão, sob as

ordens do pai. O profundo afecto entre os dois é camuflado por um mortal

ódio entre pai e filho.

O general Bertelli ordena uma missão e põe o esquadrão do seu filho em

posição suicida. A notícia da morte de Sal é levada ao general por Barney, o

único sobrevivente da missão.

Bertelli ouve sem emoção e é agredido por Barney.

- O senhor está cansado - diz o general -, eu esquecerei o incidente.

Barney deu meia-volta.

- Barney - chamou o general. Ele parou. Bertelli queria mostrar-lhe a

ordem de transferência do filho e contar-lhe que tinha implorado a Sal para a

aceitar. O seu filho tinha recusado, apesar de todos saberem que ele já

cumprira a sua quota-parte de voos. - Não é nada.

E, de repente, Barney compreendeu.

- Sinto muito, senhor. Ele tinha de continuar como se quisesse provar

alguma coisa.

- Esta guerra é uma porcaria - respondeu o general. - Muitas pessoas

vão ficar feridas. Descanse agora, Barney. Dentro de algumas horas terá de

voar novamente. Um alvo promissor. Uma base de submarinos.

A porta fechou-se. O general Bertelli abriu a gaveta da escrivaninha e

engoliu um comprimido de nitroglicerina para evitar o iminente ataque.

- Sal - disse ele -, eu amava-te. Nunca te pude dizer isto.

- Fim. - A voz de Abe estava rouca e áspera. De pé, atrás de Samantha,

ficou a vê-la bater estas últimas palavras.

- Oh, Abe - exclamou ela, é muito bonito.

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- Preciso duma bebida.

Quando ela se levantou, ele sentou-se à máquina e, com dedos duros,

escreveu: ”Dedico este livro a Samantha, com amor”, e, mais adiante, as

palavras... ”queres casar comigo?”



Capítulo nono

Aos poucos, Abe foi recuperando o uso integral das suas mãos. Foi

colocada uma venda para tapar a sua vista deformada. Abraham Cady era uma

águia dum só olho, com as asas feridas, mas sempre águia. Depois da sua

dispensa e com o seu livro a vender-se bem, ele assinou um contrato com a

United Press, em Londres.

Londres era uma cidade vital, o coração do mundo livre, capacitada a fazer-se

sentir no continente europeu e completamente consciente da sua

própria importância. Nas suas ruas desfilavam os coloridos uniformes das

tropas imperiais e aliadas, assim como as dos governos no exílio. O fumo das

bombas incendiárias tinha desaparecido do dilacerado centro da cidade.

Tinham terminado as noites nos subterrâneos, mas as bichas, as eternas

bichas inglesas, os sacos de areia, as barragens de balões, e os blackouts ainda

perduravam.

Abraham Cady entrou para o clube dos homens encarregados de contar

essa história. Era um importante grupo o dessa gente, em Londres. A sua

legendária lista de chamada incluía nomes, tais como, Quentin Reynolds e

Edward R. Murrow, e as notícias que transmitiam da Embaixada americana,

de Downing Street, da sede da BBC eram distribuídas na grande artéria da

imprensa, que era Fleet Street.

Os Linstead tinham, por tradição, uma pequena casa em Londres, em

Colchester Mews, perto da Praça Chelsea. As casas daquele canto de Londres

tinham sido, noutras épocas, dependências das grandes casas senhoriais que

margeavam os verdes parques da cidade. Serviam de dormitório para os

empregados, e de cocheira para os cavalos das carruagens. Depois da I Grande

Guerra, tinham sido convertidas em deliciosas moradias que atraíam especialmente

os escritores, músicos, artistas, e os senhores das terras da

aristocracia rural.

Abe e Samantha ocuparam uma dessas casas quando se mudaram para

Londres, depois dum simples casamento em Linstead Hall. E Abe partiu à

procura dum lugar na guerra.

Numa época e num lugar em que o jornalismo de destaque era um

lugar-comum, Abe conseguiu um lugar especial nesta elite, como correspondente

especializado em aviação.

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Naqueles terríveis dias da batalha de Inglaterra, a ilha tornara-se um



imenso campo de aviação. Os ingleses eram os donos da noite e a Oitava Força

Aérea americana dominava os céus durante os dias, com profundas incursões

sobre a Alemanha, os bombardeiros escoltados por enxames de Mustangs e

outros aviões de caça.

Abe voava com os Halifaxes de noite e com as Fortalezas Voadoras

durante o dia, e descrevia uma espécie de fantástica guerra vista do alto, com

brancas explosões de aparente inocência, chuvas douradas de foguetes e a

dança mirabolante das batalhas entre os caças. Escrevia sobre a maravilhosa

exaustão, ao som dos cadenciados motores, no regresso a casa. E sobre

sangue. Um corpo partido ao meio, preso aos escombros de metal retorcido,

enquanto os companheiros lutavam para retirá-lo. Sobre longos rolos de fumo

e pássaros feridos, fora do seu elemento, a lutar para encontrar o caminho da

terra. Sobre canções sentimentais em redor dos bares. E silenciosos olhares na

direcção das camas vazias. Sobre oficiais cansados, a estudar mapas ampliados

da Alemanha, e a dar ordens precisas numa linguagem própria. E a vista lá de

cima, do céu, enquanto as cargas de morte tombavam sobre diminutas maquetas,

que eram as cidades da Alemanha.

”Estaremos a voar sobre Berlim dentro de meia-hora. Lá fora a aviação

escurece o céu como uma nuvem de gafanhotos. Estamos rodeados por aviões

de caça da Matilha de Lobos, que voam juntos a escoltar os bombardeiros.

”Uma comunicação espantada:

”-Olhe, Tony, Messers a voar às sete em ponto.

Uma curta e louca batalha por baixo de nós. Um Mustang de nariz

escarlate cai, como folha morta, mesmo à nossa frente, com um Messerschmitt

logo atrás dele. O nosso rapaz devia ser novato. Os Messerschmitts

não são competidores para os Mustang, O alemão devia ser bom para ter

resistido tanto. O Mustang explode. Acabou. Nenhum pára-quedas.

”Mais tarde eu descobri que o rapaz era estudante de engenharia na

Geórgia. Como será amanhã, quando a notícia chegar e uma dúzia de vidas se

transformar em tristes sussurros? Era o único filho homem. O que levaria o

nome da família para a geração seguinte.

”Os alemães foram vencidos. Custaram quatro Mustangs e dois bombardeiros.

Os bombardeiros têm morte lenta. Estremecem em agonia,

enroscam-se e rodopiam pesadamente. Homens desesperados procuram abrir

as coberturas. Depois vem a desintegração.

“Estamos todos tensos e alerta quando nos aproximamos de Berlim. Todos,

excepto o co-piloto, que dorme enroscado, como só um jovem o conseguiria.

Sou convidado a tomar os controlos.

”As minhas mãos tremem de alegria quando seguro as alavancas. As

bombas flutuam lentamente, caindo como um manto de neve negra, e então

grandes línguas cor de laranja explodem na cidade torturada.

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”Sinto-me tonto de emoção quando a nossa maltratada frota regressa,

vagarosa. Porque é que os homens usam o seu maior talento e energia na

destruição?

Eu sou o escritor. Eu faço disto tudo uma peça de moralidade. Aqui em

cima, estamos brancos como anjos. Lá em baixo, eles estão negros como

demónios. Os demónios ardem no Inferno!

I “Agora, penso nos que hoje morreram. Um engenheiro, como o rapaz da

Geórgia. Um músico, um médico, ou qualquer criança que ainda nem sequer

sabia o que iria ser. Lamentável coisa!”

Samantha pousou o auscultador e gemeu desanimada. A sua gravidez

punha-a doente. Estava todo o dia agoniada. Arrastou-se pela escada acima

até ao pequeno quarto onde Abe estava adormecido na cama. Por um instante

[pensou em esquecer o telefonema, mas depois resolveu não o fazer, porque

[Abe zangar-se-ia. Tocou-lhe no ombro.

-Abe.

-Humm...


-Telefonaram de Breedsford. O comandante do Esquadrão Parsons.

[Tens de lá estar às catorze horas.

”Estou a adivinhar”, pensou Abe. ”Aposto em como vão tentar a fábrica

de explosivos, perto de Hamburgo. Vai ser um espectáculo dos diabos.”

As incursões nocturnas tornavam-se mais vivas nos seus fortes contrastes de

[branco e preto. E depois, aquele tapete de rubros fogos por cima do alvo. Abe

[pulou da cama e olhou para o relógio. Tinha tempo para tomar banho e fazer a

[barba.


[ Samantha parecia cansada e abatida. A sua palidez ficava ainda mais

[destacada em Londres.

[ -Não podes atrasar-te. Eu preparo o teu banho.

[ - Querida, estás bem, não estás? Eu não me esqueci que íamos sair hoje

[à noite. Mas esta missão deve ser grande, ou Parsons não me telefonaria.

- Para dizer a verdade, não me estou a sentir nada bem. Mas pelo menos,

[sempre é bom saber que te interessas pelo caso.

[ -Bem! -resmungou Abe. - O que é que se passa?

- Preferia que não me tratasses nesse tom. Não sou um subalterno e tu

[não és um coronel.

Abe perguntou ao atar o roupão:

[ -O que é que houve, querida?

- Há duas semanas que eu me sinto agoniada todas as manhãs. Mas isto

deve ser normal. Para fugir destas quatro paredes costumo ir para as bichas

durante horas, sair a correr e meter-me nos abrigos, quando as sereias soam.

Estou com saudades de Linstead Hall. Penso que seria tudo mais tolerável se

eu visse o meu marido de vez em quando. Mas tu vens até aqui, escreves a tua

história e cais morto de sono até que o telefone te acorde. E nos raros dias que

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consegues ficar em Londres, acabas por os passar com David Shawcross ou



nalgum bar da Fleet Street.

- Acabaste ?

- Acho que não. Estou verdadeiramente aborrecida e infeliz. Mas não

creio que te importes com isso.

- Por favor, não continues, Samantha. Eu penso que nós temos tido

muita sorte. Com mais de 50 milhões de homens e mulheres separados pela

guerra, nós temos tido muita sorte em poder estar juntos. Mesmo que seja só

por algumas horas.

- Talvez tivéssemos mais sorte se não estivesses nessa cruzada. Parece

que tens de acompanhar cada missão que sai de Londres.

- É o meu trabalho.

- E todos dizem e concordam que amas o teu trabalho. Que és o melhor

atirador de bombas a bordo de qualquer bombardeiro, em qualquer das forças

aéreas.


- Não ligues a isso, eles deixam-me tomar os controlos de vez em quando

apenas por cortesia.

- Não é isso que o comandante Parsons diz. É uma espécie de talismã

serem guiados pelo velho águia dum só olho. O calmo Abraham, é como o

chamam.

- Por Deus, Samantha! O que é que está a ser difícil de compreender? Eu



odeio o fascismo. Eu odeio Hitler. Eu odeio o que os alemães fizeram ao povo

judeu.


- Abe, estás a gritar comigo!

Samantha ergueu-se, quebrando a resistência do adversário e começou a

chorar para combater a lógica masculina.

- É que eu sinto-me muito só - exclamou.

- Querida, eu... eu não sei o que dizer. A solidão é irmã da guerra e é a

mãe de todos os escritores. E este escritor pede à mulher que aguente a solidão,

porque sabe que a sua capacidade de aguentá-la poderá transformar-se no

seu maior tesouro.

- Não te entendo, Abe.

- Eu sei que não.

- Mas, por favor, não te comportes como se eu fosse uma espécie de deficiente.

Afinal, nós vivemos juntos um livro, lembra-te.

- Eu não tinha mãos, por isso me possuías. Possuías-me completamente.

Quando eu estava sem a visão e nós nos amámos, era feliz porque me possuías

também completamente. Mas agora eu tenho as minhas mãos e o meu olho, e

tu não queres repartir-me. Nem queres compreender qual é a tua parte nisto.

Vai ser sempre assim, Samantha. Até ao fim das nossas vidas. Isto exigirá

sacrifício e solidão para nós os dois.

- Estás a distorcer tudo e a fazer-me parecer muito mesquinha.

- Nós estamos apenas a começar, querida. Não cometas o erro de querer

ficar entre a minha profissão e eu próprio.

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Samantha voltou para Linstead Hall. Estava grávida, e a vida em Londres

não era fácil. Abe garantiu-lhe que percebia e continuou com a sua guerra.

No dia D, Ben Cady nasceu em Linstead Hall. O seu pai, Abraham,

escrevia, na mesa do navegador, a bordo dum Liberator B-24, enviado à Itália

num ataque em massa, preparatório da invasão.

Capítulo décimo

”Não existe nenhum J. Milton Mandelbaum”, pensou Abe. ”Ele é

apenas um personagem de ficção, saído dum romance de segunda classe, de

Hollywood.”

Mandelbaum, o jovem génio produtor da American Global Studio,

chegou a Londres com o objectivo de destroçar os corações, com a produção

do maior filme de todos os tempos sobre aviação, baseado em The Jug, o livro

de Abraham Cady.

Armou a sua tenda numa suite do Hotel Savoy, já que a suite Oliver

Messel, do Dorchester, não estava disponível, por causa de tanta gente da

nobreza e governos em exílio que estavam refugiados em Londres.

O seu apartamento era um verdadeiro arsenal de mulheres, bebidas e toda

a espécie de coisas que os ingleses não viam nessa guerra, que já durava há

cinco anos.

Tendo ficado na categoria dos incapacitados para o serviço militar (úlcera,

astigmatismo, asma psicossomática), ele criara para si um tipo, o de

”correspondente de guerra”, e mandou fazer meia dúzia de uniformes de

oficial num alfaiate de Savile Row.

- Sabes, Abe - explicou ele -, todos nós estamos nisto.

Abe sugeriu que, já que era esse o caso, seria bom para Milton participar

nalgumas incursões de bombardeio, para que sentisse o impacto visual.

- Afinal, compreendes, não é, Abe? Alguém tem de ficar aqui no escritório

para manter o ritmo do trabalho.

Milton, quando falava no filme que tinha produzido e que recebera um

Óscar, nunca se lembrava de mencionar o romance de Hemingway, e o facto

de ter tido os melhores roteiristas e o melhor director a trabalhar nele.

Durante a maior parte do tempo, Milton estivera internado num hospital

com uma crise de úlcera. Um dos assistentes (que logo a seguir foi despedido

por deslealdade) é quem realmente dirigira a produção do tal filme.

Ele fazia longas dissertações sobre a sua capacidade criadora, a sua sinceridade,

a sua importância, as mulheres que tinha conquistado (a maioria na

lista das actrizes famosas), o seu bom gosto em todos os assuntos, o seu

105

instinto em descobrir histórias (”Se o estúdio me deixasse em paz, eu escreveria



por conta própria. Eu e tu, Abe, nós somos escritores, nós sabemos

- como é importante a história”), a sua casa em Beverly Hills (casa, mulheres,

carros desportivos, mulheres, empregados, mulheres), o número de fatos

completos que possuía, a extravagância dos seus presentes (era o estúdio que

pagava), a sua devoção (”Quando mandei um vitral para a sinagoga, em

memória do meu amado pai, dei de esmola mais 5 milhões”), as pessoas

que ele conhecia intimamente, as pessoas que o conheciam intimamente, o

modo como as suas decisões eram acatadas no estúdio, os seus altos padrões

eróticos e as suas proezas como jogador de cartas. E, é claro, a sua enorme

modéstia.

- Abe, nós vamos fazer essa gente rir, chorar, morrer com esses rapazes

lá de cima. Eu telefonei para o escritório central. Vou pedir o Gary (Grant),

ou o Clark (Gable) ou o Spencer (Tracy), para o papel principal.

- Mas, Milt, eu não creio que nem o Grant nem o Gable sejam os indivíduos

indicados para o meu pai italiano. Talvez o Tracy.

- Gary e Clark não fazem de pai de ninguém. Tem de perceber os actores,

rapaz. Eles não gostam de envelhecer. Eu pensava em usar o Gary para o papel

de Barney.

- Gary Grant a fazer o papel dum rapaz judeu de 21 anos?

- Bem, nós temos de modernizar a coisa. Esse general Bertelli fica bem

num livro, mas será aceitável isto de glorificar um estrangeiro, quando nós

estamos em guerra com eles?

- Bertelli é americano...

- Claro, eu sei isso e tu também. Mas ele continua a ser um vendedor-ambulante

para o pessoal da América. Se transformarmos os Bertellis

em heróis, a gente dos escritórios centrais vai morrer de riso. Afinal, são eles

que estão a pagar as contas. Há regras: não glorificar vendedores-ambulantes,

os pretos têm de ser sempre imbecis, os alemães têm de ser

tipos cómicos e, sobretudo, nunca diga que é judeu, e muito menos para

aparecer na tela.

- Mas Barney é judeu.

- Olha, Abe, eu digo isto com toda a sinceridade. Estou a pensar numa

coisa parecida que aconteceu com a história de Hemingway. Não vamos

deixar que o incidente pai-filho atrapalhe a acção do filme. Tenho experiência

para dar este conselho. E Barney não vai agradar como judeu.

- Mas o livro é sobre dois italianos e um judeu.

- Pois é. Mas temos de alterar isso. Não vai resultar. O que o público

gosta é de... irlandeses. Nós precisamos é dum bom tipo irlandês. Frank

McHugh ou outro no género. Escuta, eu faria assim... ou Gary (Grant), ou

Jim (James Cagney), ou Duke (John Wayne) como um brigão piloto sempre

às turras com o coronel, que seria alguém assim do tipo de Alan (Hale).

A conversa foi-se arrastando durante algumas semanas, até que Abe

disse:

106


-Milton, sabes uma coisa? Vai passear!

O que Cady não sabia era que Milton estava a lutar pela sobrevivência.

Depois duma dúzia de fracassos (com imensas e duvidosas despesas debitadas

na conta da produção), dum escândalo com uma starlet de dezasseis anos, o

génio de Hollywood estava em maus lençóis. O romance de Cady ia ser o seu

último trabalho. Cady podia escrever. Mandelbaum não podia ler. Em

Londres, não havia nenhum botão que se pudesse apertar, a fim de dar o

enredo a um bom grupo de escritores, que se encarregaria de adaptá-lo. Ele

tinha de ficar com Cady, ou ir-se embora.

Quando Abe ia a sair porta fora, Milton pediu:

- Senta-te. Nós estamos cansados. Vamos conversar com calma.

- E quem é que pode conversar contigo, na mesma sala? Foram pessoas

como tu que, a roubar e a mentir, transformaram Hollywood numa espécie

de insulto para pessoas com alguma inteligência. Arranja outro escritor.

J. Milton silvou como uma cobra.

-Senta-te, Abe. Tens um contrato, meu querido, e se te vais embora,

estás marcado para o resto da vida. E há mais: também não voltarás a vender

um só livro sequer.

- Mas, Milton, disseste-me que se eu não ficasse satisfeito, era só retirar-me

do negócio.

- Espera um momento, Cady. Eu tive muito trabalho para vender a tua

história. O pessoal da comissão sabia que o teu irmão era um comuna.

- Seu filho-da-mãe!

Ele segurou Mandelbaum pelas abas do casaco e sacudiu-o com tanta

força, que os seus óculos caíram. Deitou-o ao chão, onde Milton ficou a

gatinhar, como um cego, até encontrar os óculos, a gemer de dor, por causa

da úlcera.

- Abe, por favor não me deixes! Os meus inimigos vão cair-me em

cima... Já temos uma despesa de mais de 800000 dólares, com compromissos,

actores, cenários, figurinos. Durante toda a minha vida lutei em

nome dos princípios, e agora vou ser derrotado.

Abe ficou. Mandelbaum deixou que ele escrevesse o que queria. Mas o

que Abe não sabia é que Mandelbaum tinha contratado uma dupla de quebra-galhos,

que reescrevia tudo de novo, por alguns milhares de dólares. A

dupla ficaria no anonimato, a distorcer todo o trabalho de Cady, para satisfazer

as exigências de Mandelbaum.

Quando Abe deixou de trabalhar no filme, sentiu um imenso alívio.

- Um grande enredo, um grande filme - disse J. Milton Mandelbaum

- é escrito com suor. Nós temos de ter uma briguinha de namorados.

Não, Abe, será preferível não vires ver as montagens. O teu trabalho já está

feito. Agora é connosco. Os directores ficam nervosos quando os escritores

estão presentes. São como prima-donas. Bem... nós precisamos deles. Essa

gente não sabe lidar com os escritores, como eu sei.

107


Felizmente o título do filme foi mudado para O Grito da Águia e ninguém

reparou que era baseado num livro de Cady. Abe pediu que retirassem o seu

nome da produção. O filme deu dinheiro. Era a altura em que qualquer batalha

aérea que tivesse como piloto Flynn ou Cagney, atraía as multidões. E

Mandelbaum, alegre com o sucesso e com a garantia da sua sobrevivência,

voltou a Hollywood para retomar a sua honrosa profissão.



Capítulo décimo primeiro

”Foi difícil aguentar aquele terrível momento quando, de regresso a

Norfolk, compreendi que o meu pai e a minha mãe tinham envelhecido muito.

O andar estava mais pesado, as lentes dos óculos mais grossas, o cabelo

mais grisalho e havia instantes de esquecimento. Várias vezes a mãe chamou-me

“Bem”.


”Norfolk tinha diminuído. A ausência fizera com que a minha mente

fantasiasse. A casa que eu recordava grande e arejada, era de facto muito pequena,

e o meu quarto diminuto. As distâncias eram insignificantes depois da

vastidão de Londres.

”Samantha parecia um peixe fora de água, e eu comecei a sentir que as

suas tentativas para se adaptar à vida na América não eram completamente

honestas. Não obstante, nós estávamos impacientes por começarmos uma

vida juntos. Um bebé, alguns milhares de dólares no banco, um carro

novo. Shawcross tinha publicado um livro dos meus artigos como correspondente

de guerra, que estava a vender-se mais do que imagináramos.

”De qualquer modo, Samantha, o bebé e eu haveríamos de encontrar o

nosso lugar. O Sul estava fora de questão. O sonho de Ben não se realizara.

Havia pequenas mudanças. Algumas centenas de negros estavam a ter a sua

primeira oportunidade de educação, através da Lei dos Direitos Civis, e já não

poderiam ser como dantes. No fim da guerra, embora o cheiro da liberdade

ainda não pairasse no ar, eu sentia que alguma coisa iria acontecer durante a

minha vida, neste sentido. Quando acontecesse, eu voltaria ao Sul e escreveria

sobre isso.

”Desde o dia em que a guerra terminou, o pai, e o seu irmão Hyman,

tinham começado uma desesperada busca pelo pai deles, dois irmãos e mais de

duas dúzias de parentes, sobre os quais as últimas notícias tinham vindo da

Polónia, seis anos antes.

”Na altura em que cheguei de Inglaterra com Samantha e o bebé, já se

sabia alguma coisa acerca de horrorosas histórias. O lar do meu pai, Prodno,

tinha sido murado como um gueto. Depois os judeus tinham sido agrupados

como gado e levados para Jadwiga, onde foram abatidos num campo de

concentração.

108


”Então veio a confirmação, através de alguns poucos judeus sobreviventes.

A esperança esvaiu-se. Todos tinham sido assassinados. O meu

avô, o rabino de Prodno, que eu nunca vira, os meus tios e 30 membros da

família.


“Só um Cadyzynski, um primo, tinha sobrevivido lutando num grupo de

guerrilheiros. Depois do holocausto ele passara por uma verdadeira odisseia

de pesadelos, procurando chegar ao único lugar no mundo que o receberia, a

Palestina judaica. Tinha tentado atravessar o bloqueio inglês numa barcaça, e

fora descoberto e repatriado para a Alemanha. Na terceira tentativa, obtivera

êxito.


”Quando houve a declaração do Estado de Israel, em 1948, o meu tio

Hyman tinha três filhos na guerra. Um deles morreu a lutar pela velha cidade

de Jerusalém.

”O sofrimento do meu pai, provocado pelo holocausto, haveria de

acompanhá-lo até ao fim dos seus dias.

“Depois de percorrer a vastidão do meu país e conhecê-lo pela primeira

vez, apaixonei-me por S. Francisco e pela zona da baía. Monterey, Marin,

todo aquele sector. O íman que atraía os escritores, desde Jack London

até Steinbeck, Saroyan e Maxwell Anderson. Pensei em Sausalito, era aí

o lugar, lá nas colinas, a olhar o mar abaixo de nós, a baía e, do outro lado,

S. Francisco, a Samarkanda de marfim.

“Samantha era uma mulher transparente. Ela sofria por estar longe de

Linstead Hall.

”Pensei que seria melhor chegarmos a um acordo e comecei a procurar

uma propriedade no vale do Carmel. Era uma boa aquisição. O vale estava

coberto de carvalhos brancos e de casas no estilo espanhol. Casas que permaneciam

ventiladas até mesmo durante o Verão. A costa atirava-se para

dentro dum mar selvagem e os morros eram cobertos de flores de todos os

matizes, e de ciprestes torturados pelo vento. Carmel tinha um sabor artístico.

Havia uma certa presença de Steinbeck nos barcos que rangiam presos

nas docas de Monterey e no glorioso aroma de Cannery Row. E tudo aquilo

muito perto de S. Francisco.

”Bem, Samantha... que tal?”

”Assim pensava comigo mesmo. Ninguém faz um casamento perfeito.

Certo? Com todas as suas reclamações, eu gostava dela, mesmo assim. E

Deus sabe, eu nunca poderia separar-me do meu filho.

“Samantha tinha uma ideia. O seu irmão tinha morrido na guerra. Ela era

a única herdeira de Linstead Hall, e depois dela o nosso filho Ben. Os seus

pais estavam a ficar velhos e seria trágico pensar nos 200 anos de tradição de

Linstead Hall a chegarem ao fim.

”Perceberam? Eu estou a convencer-me disto tudo.

109


“Bom, é verdade que eu não gosto de cavalos. Tudo quanto eles querem

é ser alimentados. Como agradecimento, eles são infiéis. Dão coices, deitam-nos

ao chão e fazem montes de porcaria. Mas também, em contrapartida,

eu não preciso dormir com eles, nem mesmo em Linstead Hall.

Vou comprar uma motocicleta.

”Pensar que Ben vai crescer sem perceber nada de basebol é difícil, mas

ele vai ter uma grande prática aérea, e aposto em como aos dezasseis anos já

será um bom piloto. Sempre quero ver a Samantha meter-se nisto.

”Além disso, o que é que há de mal em Inglaterra? Eu, até quase que

gostava tanto dela quanto da América. Londres? É a maior cidade do mundo.

E, pondo as coisas nos seus devidos lugares, realmente comecei a minha

carreira de escritor em Inglaterra, foi ou não foi? O meu sonho é um dia

escrever um livro sobre Israel, o que farei com ou sem Samantha.

”Hesitei muito. Tinha dias em que ficava lívido, só em pensar na petulância

de Samantha ao querer impor a um escritor o lugar onde ele teria de

viver e escrever. Foi então que recebi um telefonema da minha irmã Sophie, a

dizer que a mãe tinha morrido, enquanto dormia, devido a um colapso. Nós

voltámos rapidamente para Norfolk.”

”Convenci o pai de que ele não podia ficar a morar, sozinho, naquela

casa. Sophie ofereceu-se para levá-lo para Baltimore consigo, mas devo dizer

que foi uma oferta um pouco forçada. Não posso negar que Samantha era

uma boa nora. Ela insistiu para ele voltar connosco para Inglaterra. Tínhamos

imensos quartos em Linstead Hall. Ele até poderia ter a sua vivendazinha.

O pai era supersensível a respeito de se tornar pesado, mas a coisa fazia

sentido.

”Quando vendeu a padaria durante a guerra, foi enganado por um par de

safados que deixaram o negócio ir por água abaixo e acabaram por falir. O

pouco dinheiro que o pai tinha, já se esgotara. Ele fizera grandes doações aos

parentes na Europa, e depois aos judeus da Palestina.

”Durante um certo tempo tudo correu às mil maravilhas. Nós estabelecemo-nos

em Inglaterra, e eu comecei a trabalhar num novo romance,

que iria ser o melhor. Os Linstead eram umas óptimas pessoas e o meu pai era

avô para exceder qualquer avô.

”Em 1947 Samantha presenteou-nos com uma filha. Pessoalmente, eu

queria que ela tivesse o nome da minha mãe. Mas já dera o nome a Ben, por

isso deixei que fosse ela a dá-lo. Vanessa Cady. Não é feio.

Verifiquei, lá por volta do meio do meu romance, que o meu pai estava

a ficar religioso. Acontece a muitos judeus afastarem-se da religião. Mas

quando o fim se aproxima, todos querem é ser novamente religiosos. O ciclo

fecha-se.

”Ao sugerir-lhe que devia ir a Israel, ele comoveu-se tanto que começou

a chorar. Nunca tinha visto o meu pai a chorar, nem mesmo quando Ben e a

110

minha mãe morreram. Garanti-lhe que não me seria muito dispendioso. O



meu tio Hyman tinha casa em Tel Aviv e ele seria recebido de braços abertos.

Para ser franco, as coisas não iam nada bem em Linstead Hall. É que eu

não sou fazendeiro. Já estava a pensar em incendiar aquilo tudo e receber o

seguro, mas contive-me. E as tradições? Elas custam a morrer, na Inglaterra.

E, Mãe Santíssima, eu estou enforcado numa tradição! Então, mergulhei na

minha inspiração e continuei a escrever. Não era por razões religiosas que eu

estava a mandar o meu pai a Israel. Ele deu tanto, a tanta gente, durante toda

a sua vida, que agora merecia isto. Comprei a sua passagem e um pequeno

apartamento para ele. E providenciei para que tivesse uma razoável mesada.

”Deixem-me dizer uma coisa. O que estava a matar o meu pai, também

me estava a matar a mim. Queimava as minhas entranhas, arrancava os meus

olhos, dilacerava-me noite e dia. Eu estava doente do coração pelo que

acontecera aos judeus, na Polónia e na Alemanha.

”Era sobre isto que eu ansiava escrever. Mal acabasse o novo romance,

nós teríamos dinheiro e eu iria morar para Israel e escrever sobre aquilo tudo.

Meu Deus, como eu desejava isto. Meu Deus, como eu queria isto!

”O meu pai morreu durante o sono, quando eu estava quase a acabar o livro.

O meu tio Hyman escreveu-me a dizer que, por ter visto Israel a

renascer, ele morrera em paz.

Junto à campa do meu pai eu jurei que escreveria um livro para sacudir

a consciência da humanidade.

E então aconteceu o pior. O meu romance foi um fracasso. Aqueles três

anos de esforço e as 620 páginas foram rejeitadas pela crítica e também pelos

leitores. Vulgarmente falando, Abraham Cady estava em maré de azar.”



Capítulo décimo segundo

”Se Samantha tinha alguma qualidade excepcional, essa era a sua capacidade

de atormentar-me. Ela insistiu que não percebia porque é que o meu

romance fora um fracasso. Na sua opinião, era o melhor de todos os meus

livros.

Vou dizer porque é que ela gostou dele. Era mau e levou-me até ao seu



próprio nível de mediocridade. Custou-me muito admitir isto. Foram precisos

uma hipoteca, duas lindas crianças e um romance fracassado. Mas agora

digo: Samantha era uma mulher aborrecida, com um complexo de inferioridade

tão profundo, quanto o Grande Canyon é impossível de ser

preenchido. Ela era incapaz de trazer luz a qualquer conversa inteligente, e

sentia-se constrangida fora do ambiente familiar.

”Logo no princípio do nosso casamento, ela parou de crescer intelectualmente

e não pôde enfrentar a própria incompetência. E o modo que

111

descobriu para disfarçar a sua pequenez, foi tentar fazer-me também pequeno.



Destruir-me, era a sua oblíqua forma de viver. Coerente com a sua personalidade

, ela construiu uma couraça à sua volta e atacava qualquer coisa que se

assemelhasse a uma crítica.

”Porque não possuía introspecção, era incapaz de reconhecer qualquer

erro.

”Mas, sabem uma coisa? Eu amava-a. Era um paradoxo, que algo tão



subtil pudesse fazer a diferença que fazia. Porém, eu gostava dela na cama. E

isto faz com que as pessoas suportem muitas contrariedades.

Ӄ estranho como certas mulheres inteligentes, advogadas e outras no

género, podem ser tão pouco boas nas relações sexuais, enquanto que uma

simplória, como a velha Samantha, pode ser uma rainha do sexo.

”Samantha tinha ainda uma outra qualidade inigualável. Ela estava

sempre pronta a deprimir-se mais do que eu. Em qualquer situação, ela ficava

mais triste, mais doente e mais acabrunhada que eu.

”Quando o meu livro fracassou eu fiquei num total abatimento.

Samantha não podia perceber porquê. Para resumir: a minha bebedeira

começou numa reunião da RAF e acabou três dias depois, num bordel do

Soho. As minhas algibeiras ficaram vazias e o meu carro foi detido. Se não

fosse a benevolência dum velho motorista, eu nem teria chegado ao escritório

de David Shawcross.

”Quando voltei a Linstead Hall o silêncio foi estarrecedor. Oito dias de

total mutismo, até que ela desamuou.

“A salvação veio na forma dum tal Rudolph Maurer, de origem romena,

representante duma agência de Hollywood. Imaginem só: A American Global

Studio queria comprar os direitos de autor do meu livro, e o produtor

queria saber se podia contar comigo para fazer o guião.

”Foi só assinar. Agora os cavalos de Samantha estavam com a ração

garantida por um bom número de anos.

”David Shawcross foi contrário à minha ida para Hollywood e, mais

tarde, as suas razões foram comprovadas. Mas, com franqueza, depois do

fracasso do livro eu estava quase sem dinheiro e pronto a concordar com

qualquer proposta.

”A minha mãe dizia-me sempre: “Abe, se não tiveres nada para dizer,

mantém a boca fechada.” Bom, eu não vou explanar-me muito, a respeito dos

anos que passei naquele manicómio de luxo.

“Eu adoro o cinema e acredito nele. Hollywood pode gabar-se de ter a

maior concentração do mundo em talentos, e uma legião de charlatães e

aspirantes a artistas.

”A soma total disto tudo é um completo desrespeito pelos escritores e

pela palavra escrita, o que os leva pela montanha abaixo, até ao vale da morte,

no calor dum sol de Agosto, onde vão morrer torrados.

“É amargo saber que eu hoje possuo os meios de poder vingar-me deles,

ou de calar-me com dignidade. Acredito que não se deve usar o próprio

112


talento como um instrumento de vingança, e quem faz isto coloca-se no nível

dos algozes.

“No entanto, não tenho pretensões a ser santo e tenho direito de fazer a

minha autobiografia. Já escrevi sobre estes anos. A minha recordação de cada

um daqueles monstros é extremamente viva. Deixemos que se assustem.

Quando chegar o momento, a última palavra vai ser de Abe Cady.

”Durante uma década eu dividi o meu tempo entre a Inglaterra e

Hollywood. Nesse tempo intermédio morreram os pais de Samantha. Sinto

saudades deles. Eram boas pessoas. Foram muito generosos com o meu pai.

Contratei os serviços dum bom administrador, o que impediu Samantha de

levar Linstead Hall à falência. Depois de dois grandes sucessos de bilheteira, e

com o velho solar em ordem, eu pude deixar Hollywood. Tenho de confessar

que senti um grande alívio em poder dizer aos meus agentes que poderiam

enfiar aquilo no rabo.

”Voltei ao que nunca devia ter deixado, os meus romances. Comecei a

escrever, agora a procurar evitar os erros que anteriormente cometera.”



Capítulo décimo terceiro

- Vou regressar a casa mais cedo, amor - disse David Shawcross para

sua mulher, ao telefone, numa voz que tremia de emoção.

- Está tudo bem, David?

- Tudo óptimo. Acabei de receber o último manuscrito de Abraham.

Uma hora depois, Shawcross saía do seu Jaguar, passando rapidamente à

frente do motorista. Lorraine esperava-o à porta de casa.

- Olha! -disse ele, a segurar um sobrescrito de cartolina. - Isto levou

dez anos para ser escrito. Houve dias em que pensei que ele não o conseguiria.

Desliga os malditos telefones. Não estou para ninguém e nada de me interromperem.

- Está tudo pronto, querido.

A sua cadeira de leitura estava rodeada de blocos, lápis afiados, tabaco,

bebidas, abajur e os óculos especiais. Enquanto ela lhe tirava os sapatos e os

trocava por velhos chinelos, ele já abrira o sobrescrito e folheava o manuscrito.

Mais de 1000 páginas. Depois da diária monotonia da leitura de livros

medíocres, um novo romance de Cady era uma festa. Desde há muitos anos

que Lorraine não o via assim tão feliz e excitado.

O Lugar, de Abraham Cady.

Já passava da meia-noite quando ela descobriu que dormitara, deitada na

cama, as revistas caídas no chão. Estava tudo muito calmo. Nem um só ruído

vinha do escritório, ao lado do quarto. Geralmente, quando David se trancava

113


assim, gritava se alguma coisa o aborrecia, ou ria às gargalhadas, demonstrando

desta forma, a sua desaprovação ou concordância.

Ela atou o roupão e bateu ao de leve à porta. Silêncio. Abriu-a. A cadeira

de couro estava vazia e o manuscrito quase todo lido. David Shawcross estava

junto à janela, com as mãos cruzadas atrás das costas.

- David?


Ele virou-se. Ela viu que estava pálido e com os olhos húmidos. Caminhou

devagar até à cadeira e pesadamente sentou-se, o rosto entre as mãos.

- É assim tão mau?

- A princípio eu nem podia acreditar. Não era de Abraham. Fiquei à

espera. O verdadeiro Cady teria de surgir, mais tarde ou mais cedo.

- O que é que está mal?

- É um livro bem escrito, mas pornográfico, de uma pornografia totalmente

gratuita. Abraham foi sempre um cru autor, que deixava jorrar o

calor da paixão. Ele aprendeu bem a lição, na Califórnia. Agora tornou-se

subtil, loquaz e plástico. Todo o livro é desonesto, e o pior é que vai tornar-se

um sucesso de venda, e ser transformado em filme, que dará a Abe uma

fortuna. Os críticos vão ficar loucos... é suficientemente porco.

- Mas porquê? Porquê?

- Porque todos eles acabam por transportar para o papel os seus problemas

de cama. Há dinheiro nisso. O dinheiro tenta. Agora que conseguiram

acabar com todas as restrições morais e há um vale-tudo, eles masturbam-se

em público, sob o disfarce da arte e da nova liberdade. Não passam todos dum

bando de prostitutas mercenárias. E os malditos críticos são tão desonestos

quanto eles... É de morrer...

Levantou-se, atravessou o quarto e foi esticar-se no sofá. Lorraine percebeu

que ele não iria deitar-se, nem conseguiria dormir. Cobriu-o com uma

manta.


- Chá ou brande? - perguntou.

- Nada, querida.

- Vais publicá-lo?

- Claro que vou. Shawcross, Lda., tem a grande honra de comunicar o

regresso do admirável talento, Abraham Cady, ao mundo literário...

- David, Abraham telefonou e está ansioso por saber qual é a tua

reacção. Ele veio de Linstead Hall e disse que gostaria de ver-te amanhã.

- E temos mesmo de conversar... De manhã, liga para o escritório e

diz-lhes que ficarei em casa a trabalhar.

- Parece cansado - disse Abe. - É uma dose muito forte para ser

engolida duma só vez. Levei três semanas para escrevê-lo, sabe? brincou. - Bem,

Shawcross, qual é o veredicto?

O editor olhou para Cady, em pé do outro lado da escrivaninha. Estava

114


vestido e falava da mesma maneira como escrevia... com verniz... como se tivesse

sido apanhado por um alfaiate de Savile Row.

- Vamos apresentá-lo ao público no Outono. Telefonei para Nova Iorque

e combinei tudo com os seus editores de lá.

- E o que é que resolveram?

- O meu conselho pessoal é de 100 000 exemplares, para a primeira edição

, nos Estados Unidos. Eu já encomendei papel para 50 000.

Abe apoiou-se à mesa, respirou profundamente e sacudiu a cabeça.

- Jesus! Não pensei que fosse assim tão bom...

- É péssimo.

- Como?

- Disse-me que queria fazer três coisas na vida: escrever, voar e jogar



basebol. Em minha opinião, não pode fazer nada disso.

Abe levantou-se.

- Agora está a passar-me um sermão. Eu sabia que isto ia acontecer,

Shawcross. O seu problema, meu velho, é que está fora de moda.

- Abraham, faça o que julgar melhor, culpe-me do que quiser. Mas não

tente arranjar uma justificação para esse amontoado de lixo.

- Se pensa assim, não precisa publicá-lo.

- Se você não se importa de ser uma prostituta, porque é que acha mal se

eu me aproveitar disso?

O rosto de Abe estava de todas as cores. Com os punhos fechados e a

tremer de raiva contida, ameaçou Shawcross. Depois, levantou as mãos para

o céu.


- Não posso. Que diabo! Seria o mesmo que esbofetear o meu pai.

- Magoou-me profundamente. Nunca me surpreendi com os escritores

que escolheram este caminho, mas não esperava isto de si. Se quiser procurar

outra editora, não me importo. Não vou prendê-lo a mim. Até arranjo um

jovem e ambicioso editor que lhe dirá as palavras que quer ouvir. Que abriu

novas fronteiras, que o seu estilo é límpido e incisivo, que os seus personagens

têm conteúdo e que o enredo...

- Chega, chega, chega! Talvez eu tenha exagerado, mas agora está na

moda este género. Cristo! Se eu pudesse sair de Linstead Hall...

- Não vai culpar Samantha deste aborto.

- Em parte, sim. Uma boa parte. Ela diz-me: “Não sejas amargo, Abe,

o mundo precisa de rir.” Isto, e os malditos cavalos, e mais a maldita ração

que têm de comer. Se eu tivesse uma mulher disposta a sacrificar-se um

Pouco, poderia arriscar-me e escrever dum modo diferente. Está bem,

Sawcross, já me arrasou. Eu fiquei com medo de escrever outro livro que

fracassasse.

Eu senti-me orgulhoso daquele fracasso. Foi dispendioso para ambos,

mas parece que para si foi pior.

- Diabo, parece um professor de literatura. Morra de fome, escritor,

morra de fome!

115

- Está com medo, Abraham. Está a escrever com medo.



Abe afundou-se na cadeira, cabisbaixo.

- Tem razão. Dez anos na cidade do pesadelo. Meu Deus, que coisas eu

ia fazer do meu talento! Agora já não confia em mim.

- Não posso deixar de amar o meu próprio filho - respondeu Shawcross.

- Espero que ainda tenha força suficiente em si próprio, para readquirir a

autoconfiança.

- Tenho de descansar algumas semanas e pensar nisto tudo. Quero ir

para onde haja sol.

- Óptima ideia.

- Não se importa de telefonar por mim a Samantha? Não estou com

disposição para brigas. Ela não percebe que eu tenho de ficar só, de vez em

quando. Pensa sempre que eu estou a querer fugir dela.

- E não é o que quer?

- Talvez. Diga-lhe que estou estafado de tanto escrever e tenho de descansar.

- Muito bem. Hoje à noite ofereço uma recepção no Lês Ambassadeurs,

em homenagem dum novo autor. Haverá algumas mulheres atraentes.

Gostaria que pudesse ir.

- Ver-nos-emos lá, Shawcross.



Capítulo décimo quarto

Lês Ambassadeurs era um clube elegante e bastante selecto, com um

grande salão de jantar e uma sala de jogo, em Hamilton Place, Park Lane. O

maitre recebeu Abraham Cady, reconhecendo-o pela venda do olho,

característica já famosa em Londres.

-Os convidados do Sr. Shawcross estão na sala Hamilton, Sr. Cady.

- Obrigado.

Respirou fundo e entrou. Foi recebido por uma calorosa onda de lugares-comuns.

Com o olhar ciclópico, percorreu a sala à procura duma cara

familiar com quem pudesse manter uma razoável conversa. A sua vista parou

numa linda mulher dos seus 30 anos, elegante, segura de si e muito

morena.

”Será que continuará atraente quando abrir a boca e começar a falar?”



perguntou-se.

- Olá, Abe - disse Shawcross.

- Hum, Shawcross. - Abe acenou na direcção da mulher. - Quem é?

- Laura Margarita Alba. Uma encantadora jovem. Da alta sociedade

internacional. Ouvi dizer que tem uma verdadeira colecção de jóias, ganhas

em troca dos seus carinhos. Os seus companheiros favoritos são os

116

milionários gregos, os comerciantes de munições e outros assim



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