Fortune, uma mulher impiedosa. Bertrice small



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— E você, padre? Também sabia? —A voz de Rory era dura.

— Sim — confirmou Cullen Butler. — E rezo para que Deus tenha misericórdia de todos nós, Rory Maguire.

— Mas ela não sabe?

— Como poderia? — reagiu Adali. — Ela não sabe sobre o que aconteceu entre vocês naquela noite. Portanto, desconhe­ce a verdade sobre a verdadeira origem da filha. E você tam­bém nada saberia, não fosse pela miniatura de sua irmã.

— Como pôde guardar esse segredo de mim? Como pôde deixar de me contar que eu tinha uma filha? — Os olhos de Rory estavam cheios de lágrimas e de dor.

Cullen Butler parecia devastado e culpado, mas Adali era mais pragmático que o religioso.

— E se houvéssemos contado, Rory Maguire? O que teria feito? Nadai Quem teria acreditado em como Lady Fortune foi concebida? O conhecimento só teria causado dor à minha prin­cesa e teria posto o estigma de bastarda sobre Lady Fortune. Você não poderia ter alimentado esperanças quanto a fazer parte da vida de Lady Fortune, milorde Maguire. O que aconteceu no passado era conhecido por quatro pessoas, somente. Mada-me Skye adivinhou a verdade, e não pude mentir para ela quan­do fui confrontado. Ela está morta há 7 anos, e somos apenas três com esse conhecimento. O que fez foi nobre, meu senhor, e só decidi usá-lo por saber que amava minha princesa e que não se negaria a salvar a vida dela. Não me envergonho de meus atos e creio que também não deveria se envergonhar do que fez. Eu não podia imaginar que Lady Fortune herdaria os tra­ços de sua família. Tive esperanças de que ela nunca mais vol­tasse a ver este lugar nem você. Mas minha princesa determi­nou que Lady Fortune seria a herdeira de Maguire's Ford, e não havia nada que eu pudesse fazer para evitar esse encontro. Por uma infeliz coincidência, você descobriu que é pai dela. Lamento muito por você, milorde Maguire. Agora terá de su­portar um fardo ainda mais pesado do que o anterior, mas car­regue-o em silêncio, ou eu mesmo terei de matá-lo. Não vou permitir que minha princesa e a filha dela sejam prejudicadas por nossas escolhas. Logo retornaremos à Inglaterra, e esse será o fim da história.

— Sim — concordou Rory em voz baixa —, não há nada que eu possa fazer a não ser suspirar pela filha que não sabe que sou seu pai, mas a história não vai acabar aqui, Adali. Não pode esperar que eu siga vivendo como se nada houvesse acon­tecido. No futuro, esperarei por duas cartas anuais, nas quais você relatará tudo o que tiver ligação com a vida de Fortune. E justo, considerando as circunstâncias.

— Sim, é justo. — Era um homem prático e tinha de reco­nhecer que o compromisso era a melhor saída para o desafor­tunado incidente. — Porém, lembre-se de que não terei mais contato direto com ela depois do casamento. Só poderei relatar o que minha senhora me contar das cartas que receber de Lady Fortune.

— Entenderei suas limitações, Adali.

— E eu continuarei rezando por todos nós — disse o padre. — Especialmente por você, Rory Maguire. Pode me perdoar?

— Por quê, Cullen Butler? Salvou-me de mim mesmo, e receio que Adali tenha razão quando diz que eu nunca poderia ter participado da vida de minha filha sem cobrir Fortune e Jas­mine de vergonha.

— Então, estamos de acordo? — indagou Adali, vivamente.

— Sim, estamos — respondeu Rory.

— E, caso perceba que sofrerá um súbito ataque de sandi­ce, milorde Maguire, procure-me ou converse com nosso bom sacerdote — sugeriu Adali, sorrindo.

— Certo. — Seria prático, mas ninguém poderia impedi-lo de sonhar com o que poderia ter sido, pensou o irlandês. Nin­guém poderia impedi-lo de proteger a filha em caso de necessi­dade. Havia perdido todo o tempo de vida de Fortune, exceto por aqueles dois primeiros meses e por essas últimas semanas. Viveria intensamente a felicidade de tê-la por perto enquanto isso era possível, pois, da próxima vez que Fortune partisse, seria para sempre.

— Devo retornar ao castelo — anunciou Adali, dirigindo-se à porta.

— Fique, padre Cullen, e tome um uísque comigo — convi­dou Rory. — Suponho que esteja precisando. Pode parecer es­tranho, mas sinto que tudo isso é ainda mais difícil para você do que para Adali e para mim. — Ele apontou uma cadeira ao lado do fogo, convidando o sacerdote a se sentar enquanto ser­via uísque em outro copo. — Slantal — exclamou, bebendo em seguida boa parte do conteúdo de seu próprio copo.

— Slantal — respondeu o religioso, engolindo metade de sua porção. Depois, sentindo-se mais forte, perguntou: — Está realmente satisfeito, Rory?

Maguire deu de ombros.

— O que mais posso fazer, bom padre? Quando vi o rosto de Aoife pela primeira vez depois de todos esses anos, reconheci imediatamente os traços de Fortune! Meu primeiro pensamen­to foi que estava imaginando coisas. Depois compreendi que não. Agora sei que, quando morrer, não estarei completamente sozinho. Minha filha e os filhos dela viverão por mim. E um destino melhor do que eu poderia ter esperado, Cullen Butler.

— Lamento por você, meu amigo. Ainda me surpreendo por ter me deixado envolver naquele plano tão perigoso. Porém, foi nossa única chance de salvar a vida de minha prima, e por isso não me arrependo de nada. Lembro-me de ter perguntado à mi­nha tia Skye como uma atitude tão extrema poderia ser correta. Sabe o que ela me disse? Que a Igreja estava freqüentemente er­rada. Que as leis a que ela se agarra tão ferrenhamente eram cria­das por homens, não por Deus. Ela acreditava que a humanida­de devia se guiar mais pelo senso comum e menos por regras impostas, porque assim todos estaríamos muito melhores. — O padre sorriu com ternura, mas logo recuperou a sobriedade. — Mas você sofre as conseqüências de nossos atos, eu sei. Pensei que tudo houvesse ficado para trás, num passado distante, e teria ficado, não fosse por sua decisão de rever as miniaturas de sua família. Agora terá de ser discreto, e sei que não vai ser fácil, pois a jovem Fortune é voluntariosa e obstinada.

— Como minha irmã Aoife — respondeu Rory, rindo com amargura. — E agora sei também de onde Fortune herdou sua paixão pelos cavalos, porque minha irmã também amava esses animais e, como Fortune, montava como poucas mulheres que conheci. Ela não é como a mãe, padre, porque é uma irlandesa de corpo e alma.

— Vou prevenir Jasmine. Sugerirei que ela tenha mais aten­ção e vigie os passos da filha.

— E eu também cuidarei de minha filha. Esse casamento que ela quer realizar é bom, embora tenha conseqüências inde­sejáveis. Seu interesse por Kieran Devers já custou a perda de Maguire's Ford. De qualquer maneira, não quero que ela viva sob a ameaça constante de uma acusação de traição por causa da fé religiosa do marido, o que certamente acontecerá se ela permanecer na Irlanda. Quando os dois jovens Leslie chegarão para tomar posse da herança materna?

— Na primavera. Jasmine me disse que quer que eles se­jam confirmados pelo rei em seu direito a Maguire's Ford, de forma que ninguém possa usurpá-lo. Sei bem que Lady Devers há muito cobiça a propriedade de minha prima. Ela esperava obtê-la por intermédio de Fortune, e embora tenha apoiado o nome de William Devers como pretendente à mão da jovem Fortune, porque o considerava adequado como marido, sem­pre tive receio da influência daquela mulher sobre o filho. Deve­mos agradecer a Deus por ela mesma ter arruinado todas as chances de um casamento entre Fortune e o jovem Will; e va­mos pedir a Ele que Fortune seja astuta o bastante para reco­nhecer o perigo naquela sogra.

—Sim, padre, temos mesmo que orar muito, porque Fortune conquistará a inimizade da sogra quando sua preferência por Kieran Devers tornar-se pública. Lady Jane não vai aceitar o fato de alguém ter preferido o enteado a seu filho.

— Ela mesma se opôs ao casamento de Fortune e William. Temia a influência de Fortune sobre o rapaz, embora cobiçasse seu dote. Agora ela não terá nada, e minha prima Jasmine to­mará todas as providências para que essa mulher não tenha acesso a Maguire's Ford e Erne Rock por meios escusos, já que não conseguiu obtê-los pelos caminhos justos.

— Espero que esteja certo — disse Maguire. — Mas Jane Devers é uma mulher determinada, apesar de ser inglesa.

Cullen Butler riu.

— Rory, meu amigo, até os ingleses têm seu lado positivo, embora a Santa Madre Igreja possa discordar dessa minha de­claração.

— E nisso estou de acordo com a Igreja. Não custa manter os olhos bem abertos e seguir de perto os passos dos Devers quando eles voltarem da Inglaterra. Lembre-se, os jovens Leslie não virão antes da primavera e são ainda muito novos. Tere­mos de nos manter vigilantes para impedir que aquela mulher consiga envolvê-os em suas intenções.

— Vigiaremos juntos, você e eu, meu amigo — anunciou o sacerdote. — Vigiaremos juntos.

Parte Dois



ULSTER E INGLATERRA 1630-1631
"Tudo que sei sobre o amor é que o amor é tudo que há." — Emily Dickinson
Capítulo 7
O dia 21 de junho, véspera do solstício de verão, marcava o ponto intermediário na estação entre May Day, o festival de pri­mavera, e as comemorações de Lammastide, a primeira colhei­ta, em lg de agosto. Em Ulster, o dia amanheceu ensolarado, o que era incomum. Kieran Devers cavalgou de Erne Rock a Mallow Court para se certificar de que a propriedade do pai era administrada corretamente em sua ausência. Foi uma gran­de surpresa encontrar a irmã, Lady Colleen Kelly, na casa.

— Quando chegou? — perguntou ele com grande alegria ao cumprimentá-la.

— Mamãe escreveu da Inglaterra pedindo-me que viesse conferir se você estava bem — respondeu ela, sorrindo.—Onde estava, Kieran? Cheguei há três dias, e os criados foram todos muito misteriosos. — Ela era uma mulher bela e ainda jovem, com cabelos negros como os dos irmãos e lindos olhos azuis. — Mamãe ainda se inquieta por Willy ter sido recusado por Lady Lindley, mas já planeja casá-lo com Emily Anne. Diz que ele está se conformando, o que significa que, mais uma vez, nosso irmão submeteu-se à vontade materna. — Colleen riu. — Lady Lindley é realmente horrível como mamãe diz que é?

—Fortune Lindley é independente, determinada, inteligen­te, astuta e linda. Ela teria feito Willy absolutamente miserável, porque viveria sempre pressionado entre a esposa e a mãe. Lady Lindley foi esperta o bastante para compreender a situação e recusá-lo, embora tenha usado de grande gentileza para isso.

— Fala como se a conhecesse bem, meu irmão.

— Vou me casar com ela, Colleen.

— Kieran!

— Eu sei, eu sei... Fortune e eu nos apaixonamos. Nunca teremos o perdão de Lady Jane ou de Willy, mas nada podemos fazer contra a força de nossos sentimentos. É impossível con­trolar a direção do coração, como descobri recentemente, para minha grande surpresa.

— Mamãe cobiça Maguire's Ford desde que soube, pelo Reverendo Steen, que a proprietária é uma duquesa mãe de uma filha solteira. Ela jamais o perdoará pelo insulto por ter roubado dela essa oportunidade, Kieran.

— Lady Jane conheceu Fortune e não gostou dela. Na ver­dade, não mediu esforços para afastar o filho da influência da jovem.

— Mas você vai se apoderar de Maguire's Ford, que é mui­to maior e mais próspera que Mallow Court, e depois de Willy ter sido preterido para desposar a herdeira do lugar. Ela vai considerar sua atitude uma afronta imperdoável, meu irmão. Sabe disso tão bem quanto eu. Se ela não permitiu que herdas­se os bens de nosso pai por ser católico, acha mesmo que ela vai ficar quieta enquanto arranca das mãos dela uma propriedade muito maior?

— Maguire's Ford não pertence a Fortune. Pertence à mãe dela, a duquesa de Glenkirk. Fortune só a herdaria se despo-sasse um protestante. Lady Leslie não é tola, Colleen. Fortune e eu iremos para a Inglaterra, e de lá provavelmente seguiremos para o Novo Mundo. Nenhum de nós se sente em casa em ne­nhum dos lugares em que vivemos até hoje.

— Por que não pode simplesmente tornar-se protestante? Pense nisso, Kieran! Se sua Fortune conseguisse trazê-lo para nossa Igreja, mamãe se sentiria ainda mais frustrada depois de tantas tentativas infrutíferas.

— Você sabe por que não me converto.

— Kieran, nossa verdadeira mãe morreu há 27 anos. Você já mostrou o que pensa. Odeio que tenha de deixar a Irlanda! Nunca mais o veremos. Se não tivesse aquela miniatura de nossa mãe, você nem se lembraria mais de como ela era — argumen­tou Colleen, desesperada.

— Ela era parecida com você, Colleen. Tinha olhos azuis e cabelos negros, e havia completado 20 anos quando morreu para trazê-la ao mundo. Não a culpo pelo que aconteceu, minha irmã. Você tinha apenas 2 anos quando papai se casou novamente. Não culpo Moire, porque ela não queria ser afastada de nosso pai. Quanto a mim, tomei minha decisão há muito tempo. Não vejo razão para mudá-la.

— Mas você não é devoto nem praticante fervoroso! Por que se importa tanto com isso? Não entendo!

— Venha comigo a Erne Rock e conheça Fortune. Os Leslie são muito hospitaleiros.

— Não, Kieran. Se for, terei de contar a mamãe que sei so­bre seus planos e não quero fazer isso. Você reverencia a me­mória de nossa mãe, mas esquece que Lady Jane é a única mãe que tive. Ela não fez distinção entre seus filhos e enteados, e mesmo quando a desapontei casando-me com um protestante irlandês, em vez de preferir üm inglês, nunca me abandonou. Mary também a ama. Você foi o único filho de meu pai que não conseguiu se entender com ela, Kieran.

— Você voltará para casa e não verá nossa madrasta antes do casamento de Will e Emily Anne. Até lá, todos saberão que Fortune e eu nos casamos. Lady Jane estará dividida entre a alegria de unir o filho a Emily Anne e o ultraje causado por meu casamento. Ela nem terá tempo para pensar se você co­nheceu ou não os Leslie quando esteve aqui. Vai presumir que guardei segredo, porque sabia que você contaria tudo a ela. Você sempre foi boa demais, Colleen; nossa madrasta jamais suspei­taria de um subterfúgio. — Ele sorriu com ternura para a irmã. — E bem provável que não voltemos a nos ver depois dessa reunião, minha irmã. Essa é a sua única chance de conhecer Fortune. Quero que conheça a mulher que será minha esposa. Você é minha irmã preferida, o último presente de nossa verda­deira mãe para a família.

— Maldição, Kieran! — exclamou ela com lágrimas nos olhos. — Você fala com a astúcia de um diabo! Está bem, irei conhecer sua escolhida e depois voltarei para minha casa no sul. Mamãe voltará logo depois do Lammastide, pois o casa­mento de Willy acontecerá no dia de São Miguel.

— Preciso de algumas horas para examinar os livros contá­beis da propriedade. Passarei a noite aqui, e amanhã iremos juntos a Maguire's Ford.

— Terei de fingir que estou indo embora — disse Colleen. — Não quero as criadas de mamãe fazendo comentários quan­do ela voltar, e elas certamente comentarão. Para você não im­porta, eu sei, mas é importante para mim, Kieran.

— Sim — respondeu ele. — Eu entendo, Colleen, mas que­ro que você, minha irmã preferida, saiba que Fortune não é a criatura diabólica e terrível que Lady Jane descreve.

— Está apaixonado, meu irmão! Realmente apaixonado. Nunca pensei que um dia isso pudesse acontecer.

— Os católicos também se apaixonam. Ela riu.

— Meu irmão, não ouse pintar-me com as mesmas cores que desenha nossa madrasta. Graças a você, não tenho esse tipo de preconceito.

Ele riu.


— Se Lady Jane soubesse que costumava ir à missa comigo de vez em quando, também a teria deserdado. Sempre confiei em você. Moire não teria feito nada que pudesse provocar a ira de nossa madrasta, porque temia qualquer tipo de desaprova­ção, mas você era aventureira e rebelde como eu. Sempre fo­mos diferentes dos outros. Só nós dois conhecemos Molly, a bondosa amante de nosso pai, e nossas meio-irmãs.

—Até hoje não entendo como nunca me descobriram. Qua­se fui pega quando Bessie tinha 8 anos. Ela ficou curiosa sobre nossos passeios misteriosos. Eu disse a ela que procurávamos um leprechaun e seu ouro. Sempre foi muito parecida com ma­mãe e zombou de mim por eu acreditar nessas coisas, mas o improviso saciou sua curiosidade. Com Mary foi diferente. Ela nos seguiu um dia, quando fomos visitar Molly e as meninas.

Quando voltamos, ameaçou contar tudo a Lady Jane. Era tão cruel! Eu disse que, se contasse, você lançaria sobre ela uma maldição irlandesa que faria crescer uma enorme verruga bem na ponta de seu nariz, e ela nunca encontraria um marido. Mary duvidou, mas ficou com medo, eu sei, porque nunca contou nada à mamãe.

— Então, foi por isso que nunca mais voltou à casa de Molly.

— Achei melhor evitar mais problemas. Mary não sabia se a visita que havia testemunhado era um evento isolado ou uma ocorrência freqüente. Foi melhor assim.

À noite, os dois irmãos viram as fogueiras acesas nas en­costas em honra ao solstício de verão. Haveria dança e banque­tes nos vilarejos próximos. Kieran deu permissão aos criados para celebrarem, se quisessem. Sem a presença de Lady Jane e sua desaprovação, a casa ficou vazia ao entardecer. Colleen ins­truiu seu cocheiro e a criada que a acompanhava para que pre­parassem tudo, pois partiriam cedo no dia seguinte.

Ao amanhecer, deixaram Mallow Court. Assim que chega­ram à estrada, Colleen ordenou ao cocheiro que parasse. Ali, ela saiu da carruagem, desamarrou a égua que viajava presa atrás do veículo, montou nela e informou ao condutor:

— Tenho de fazer uma breve parada antes de seguirmos para o sul, Joseph. Siga-nos sem fazer perguntas.

No meio da tarde, avistaram Maguire's Ford e foram vistos por seus habitantes. Fortune foi encontrá-los cavalgando seu imponente garanhão cinza, os cabelos vermelhos soltos ao vento enquanto ela galopava pelas colinas.

— Se essa é sua esposa e você mentiu para mim, Kieran Devers, cortarei sua cabeça antes que possa dar meia volta! — exclamou ela rindo ao parar diante dos irmãos.

— Esta é minha irmã Colleen, e eu a trouxe para conhecê-la. Alguém na família precisa me ajudar a defender sua reputa­ção. Mas você, megera de língua ferina e temperamento explo­sivo, acaba de desgraçar-se por completo!

Fortune olhou para Lady Colleen Kelly.

— Então é a última filha de Mary Maguire — disse. — Seja bem-vinda a Maguire's Ford, milady. Ficará conosco por alguns dias?

— Suponho que sim — Colleen ouviu-se dizendo.

— Ótimo! Venham, vamos ver quem chega primeiro em casa! Espero que seja melhor que seu irmão em corridas a cava­lo. Ele sempre reclama e choraminga quando perde, o que acon­tece com grande freqüência.

— Eu nunca choramingo — anunciou Colleen, partindo num galope frenético.

Fortune a seguiu. Balançando a cabeça, Kieran trotou sem pressa, razão pela qual só alcançou as duas mulheres quando já estavam todos no pátio de Erne Rock, onde elas riam e se abraçavam.

— Suspeito de que têm muito em comum — comentou ele enquanto desmontava.

— Vamos entrar — convidou Fortune, dando o braço a Colleen. — Meus pais terão grande prazer em conhecê-la.

Jasmine e James Leslie estavam no salão de Erne Rock. A duquesa descansava sentada diante do fogo, e o duque con­versava com ela em pé, apoiado no console da lareira. As apre­sentações foram feitas, mas Fortune percebeu de repente que os pais pareciam quietos, taciturnos.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ela, apreensiva.

— Sua mãe tem notícias inesperadas — respondeu o du­que, passando um braço sobre os ombros da esposa como se quisesse transmitir força e apoio.

— Mamãe? — Fortune não escondia a preocupação.

— Talvez este não seja um bom momento para hóspedes inesperados — sugeriu Colleen.

— Não, minha querida, você é muito bem-vinda — respon­deu Jasmine. — Acontece que hoje tive uma grande surpresa. Tudo indica que... vou ter um bebê.

— O quê? — o rosto de Fortune ficou pálido. — Mamãe! Não pode ser! Você não tem mais idade para ter um bebê!

Jasmine riu, afagando o rosto da filha.

— Foi exatamente o que pensei, meu bem, mas parece que não estou tão velha assim, afinal.

— Nem eu — acrescentou James Leslie.

Fortune corou, visivelmente embaraçada pelo comporta­mento dos pais. Porém, a idéia de ter outro bebê em casa era agradável. Assim, os pais não sentiriam tanto sua falta quando partisse com Kieran.

— Para quando esperam esse filho?

— Novembro — respondeu Jasmine.

—Senhora, minhas congratulações—manifestou-se Colleen. — Sou mãe de três filhos.

— Como pode ter certeza de que está grávida, mamãe?

— Tenho certeza porque já tive oito filhos antes, minha que­rida. Confesso que, quando percebi que meu ciclo se havia in­terrompido, cheguei a pensar que o outono de meus anos fér­teis se aproximava. Mas depois notei... Bem, não sei se essa é uma conversa adequada para um momento como este, quan­do recebemos visitas, mas vamos dizer apenas que tenho certe­za, e Bride Murphy, que é a parteira do vilarejo, confirmou mi­nha suspeita.

— Então, devemos retornar a Glenkirk imediatamente — reagiu Fortune apreensiva.

— Não. Bride aconselhou-me a ficar aqui e evitar viagens desnecessárias por causa da minha idade. O bebê nascerá aqui, como você. Já mandei um mensageiro buscar Adam e Dundan. Assim, o povo daqui poderá conhecê-los antes do que planejá­vamos. Seu irmão Patrick terá de ficar sozinho em Glenkirk. Mandei outro mensageiro a Edimburgo para pedir a tio Adam e tia Fiona que fiquem com ele. Patrick gosta da companhia dos dois e não se sentirá tão desamparado com eles em casa. Sei que Adam e Fiona se aborreceram com a cidade nos últimos anos. Acredito que não perderão uma oportunidade de voltar a Glenkirk. Então, meus queridos, devemos nos preparar para uma estada mais prolongada do que prevíamos.

— Nesse caso, Kieran e eu devemos nos casar imediata­mente. Colleen contou que os Devers retornarão da Inglaterra depois do Lammastide. Will se casará com sua prima Emily Anne no dia de São Miguel.

— Não deve se casar com Kieran antes das núpcias de William, Fortune — James Leslie manifestou-se. — Os Devers não vão gostar de saber sobre o que aconteceu aqui em sua au­sência. Se voltarem e encontrarem Kieran casado, isso causará grande mal-estar entre o povo de Maguire's Ford e o de Lisnaskea. William a pediu em casamento, e você o recusou. Com delica­deza, mas recusou. Se você e Kieran se declararem publicamen­te, e se forem unidos em matrimônio antes de William se casar com a prima, o insulto se tornará ainda maior. Sabe que tem nossa permissão para se casar com Kieran. Pedimos apenas que espere até o dia de São Miguel, quando William se casará.

— Concordo com sua posição, milorde — anunciou Kieran com tom grave, antecipando o protesto de Fortune, para quem olhou com ar muito sério. — Seu pai está certo. Amo meu pai e meu irmão. Não quero causar mais problemas entre nós.

— Eles ficarão ofendidos de qualquer maneira!—argumen­tou Fortune.

— Mas a ofensa será menor depois do casamento de Willy — interferiu Colleen. — Minha madrasta vai ficar furiosa, é cer­to, mas se Willy estiver casado, será mais fácil preservar as apa­rências. Porém, se ela chegar e descobrir que você e Kieran são um fait accompli, tudo será muito pior. O que me preocupa é a vontade dela de possuir Maguire's Ford, o que esperava conse­guir por intermédio do casamento entre Willy e Fortune. Milady duquesa, Kieran afirma que a propriedade é sua. É verdade? Por favor, entenda: amo minha madrasta e jamais seria desleal com ela, mas também amo meu irmão Kieran. Lady Jane é ambi­ciosa. Ela não vai gostar de saber que o enteado vai tomar posse das terras e da noiva que ela cobiçava para o próprio filho.

— Kieran não terá Maguire's Ford — respondeu Jasmine com a habitual serenidade. — Meus dois filhos mais novos, ambos Leslie, foram criados na Igreja protestante. Sendo os ca­çulas da família, eles nada têm que os recomende, além de um bom nome. Meu filho mais velho é o marquês de Westleigh. O segundo é o duque de Lundy. O terceiro herdará um dia o ducado do pai. Só Adam e Duncan não têm títulos ou terras. Eles bem podem viver sem os títulos, mas nada farão sem bens e propriedades. Vou dividir Maguire's Ford igualmente entre os dois. Roubar de mim essa propriedade, seja qual for a alega­ção, exigiria grande influência na corte. Não creio que sua ma­drasta disponha desse recurso, mas eu o possuo.



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