Fortune, uma mulher impiedosa. Bertrice small



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— E seu pai não sabe? — perguntou Molly, preocupada.

— Como posso dizer alguma coisa agora? William ainda se diz apaixonado por ela, embora tenha sido duramente critica­do pela jovem há alguns dias quando a encontramos durante uma cavalgada. Ele agora finge estar contente com a prima, mas conheço Willy. Ainda está apaixonado por Fortune. Não quere­mos arruinar o casamento de meu irmão com o anúncio de nosso noivado. Informarei meu pai quando William e Emily estive­rem longe daqui, a caminho de Dublin. Se meu pai quiser com­parecer à cerimônia, terei grande alegria em vê-lo na igreja. Se não, eu me casarei da mesma maneira.

— Espero que nos convide — disse Molly Fitzgerald com sua habitual serenidade, tomando as mãos dele e levando-o até o divã estofado.

— É claro que sim!

— Então, vai ser o novo senhor de Erne Rock e Maguire's Ford... Sua madrasta não vai gostar nada disso.

— Não, Moll, não terei a propriedade. A mãe de Fortune conhece e compreende a situação aqui em Ulster. Ela sabe que, se der a propriedade a Fortune e eu me casar com ela, minha madrasta e meu irmão causarão muitas dificuldades e tenta­rão tomar os bens de mim, porque permaneço católico. Por isso ela preferiu deixar Erne Rock e Maguire's Ford para os dois fi­lhos mais novos, ambos protestantes. Fortune e eu deixaremos Ulster. Iremos primeiro para a Inglaterra, depois para o Novo Mundo. A duquesa diz que conhece um cavalheiro de elevada posição no círculo de favores do rei que quer fundar, no Novo Mundo, uma colônia para católicos e outros que sofrem perse­guição religiosa. Iremos para lá e começaremos uma nova vida juntos.

— O duque e a duquesa não vão se opor a esse casamento? Ouvi dizer que são pessoas estranhas; parece que têm um cria­do estrangeiro que usa um chapéu em forma de pudim na ca­beça. Isso é verdade, Kieran?

Ele riu.


— O chapéu se chama turbante. Adali é meio francês e meio indiano. A duquesa nasceu princesa em outra terra e é filha de um grande rei. Ela veio para a Inglaterra com 16 anos, onde vive desde então. É linda e muito gentil. Seu marido é um cava­lheiro decente que a adora. Fortune é filha do segundo casa­mento. A duquesa ficou viúva duas vezes antes de se casar com o Duque de Glenkirk. Ela tem sete filhos vivos. Isso satisfaz sua curiosidade?

— Já é um começo. Ouvi dizer que a duquesa espera outro filho.

— Sim, e foi uma grande surpresa para ela, posso afirmar. Eles planejam permanecer na Irlanda até o próximo verão, quan­do a criança já terá nascido.

— Você e Fortune ficarão com eles?

— Não sei. Não pude ir a Erne Rock discutir o assunto des­de que minha família retornou da Inglaterra. Sei que eles farão tudo o que tiver de ser feito, Molly, e tenho de me contentar com isso agora. É estranho, pois estou acostumado a cuidar da minha vida sozinho.

— E logo poderá retomar o controle, Kieran. Agora, conte-me de seu pai. Não o vi desde que retornou. Sei que está ocupa­do com os preparativos para o casamento, mas sinto falta dele. E as meninas também.

— Onde estão Maeve e Aine?

Na cozinha, aprendendo a preparar uma boa sopa. Não quero que elas andem pelo vilarejo expondo-se à maledicência do povo. Muita gente de mente pequena pensa que, por eu não ser considerada respeitável, minhas meninas são alvos fáceis. Minhas filhas se casarão com cavalheiros respeitáveis; isso eu garanto!

— Não há mais muitos católicos por aqui, Molly. Talvez tenha de se contentar com protestantes ou mandar as meninas para um convento na França ou na Espanha.

— Um convento? Minhas filhas serão esposas e mães. Pro­testantes ou católicos, não importa, desde que os proclamas sejam lidos publicamente e a cerimônia realizada diante de todo o povo de Lisnaskea. Quero netos daquelas duas!

— Kieran! — As duas filhas de Molly entraram na sala. Eram lindas jovens de cabelos escuros. Maeve tinha os olhos cor de âmbar da mãe, mas Aine, a mais nova, tinha os olhos azuis e brilhantes do pai. Ele as abraçou e as beijou com carinho. Maeve tinha 17 anos, e logo Molly encontraria um marido para ela, sem dúvida. Ela estava pronta para ser conquistada, seduzida, e por isso entendia a preocupação de Molly. Aine, porém, tinha apenas 14 anos, e só agora começava a adquirir traços mais fe­mininos, menos infantis. Ela se sentou ao lado do irmão no divã.

— Dizem que você tem uma amante — comentou Aine.

— Aine — exclamou a mãe, mortificada.

— Bem, é o que dizem, senhora — justificou-se ela.

— Vou me casar, mas isso ainda é segredo, mocinha.

— Por quê?

— Porque me casarei com Lady Fortune Lindley no dia 5 de outubro, e você só será convidada se souber se comportar.

— Vai se casar com a jovem que seria esposa de William Devers? — perguntou Maeve, surpresa.

— A mesma que recusou nosso irmão Willy, sim, mas não queremos estragar o casamento dele com Emily Anne Elliot; também não quero que ele me desafie para um duelo por ainda ter sentimentos secretos por Fortune.

— Ela é leviana, ou não teria brincado com Willy para de­pois escolher você — decretou Maeve com tom crítico.

— Ela não é leviana — Kieran a defendeu. — Foi trazida a Ulster para conhecer William e verificar se havia uma possibi­lidade para eles. Descobriu que nunca seriam compatíveis e comunicou sua decisão aos pais, que falaram imediatamente com nosso pai e Lady Jane. Eles levaram Willy para a Inglaterra para impedir o surgimento de escândalos, pois ele se compor­tava como um tolo imaturo e mimado. Fortune não brincou com nosso irmão, nem fez promessas a ele. Willy está apaixonado por ela e comportou-se como um perfeito tolo. Outro dia, quan­do cavalgávamos juntos, nós a encontramos, e ele declarou seu amor. Fortune foi forçada a dizer claramente o que sente, em­bora no passado tivesse tentado poupá-lo dessa humilhação. Fortune Lindley é tudo que eu jamais pude desejar em uma mulher, e você vai gostar dela.

— Kieran está apaixonado! — cantarolou Aine. — Kieran está apaixonado!

Ele riu.

— Um dia você vai se apaixonar, mocinha. Só lamento o fato de que não estarei aqui para ver. — Ele se virou para Maeve, que estava em pé ao lado da lareira. — E você, minha bela irmã?

— Nem sempre concordo com Aine, mas dessa vez ela está certa. Você está apaixonado, Kieran Devers. Nunca imaginei que viveria para ver esse dia chegar.

Ele riu.


— Qualquer coisa é possível, minha Maeve. Até você pode se apaixonar um dia!

— Não creio que terei esse luxo, irmão. Devo ser respeitá­vel e me casar com um homem igualmente respeitável, como mamãe está sempre repetindo, embora ela mesma tenha esco­lhido o amor.

— Eu era uma viúva respeitável quando seu pai me conhe­ceu — respondeu Molly, séria. — Era uma mulher adulta que sabia exatamente o que estava fazendo e quais eram as conse­qüências de meus atos. Você é uma menina, Maeve, sem ne­nhuma experiência. Vai fazer como eu disser, porque sou sua mãe, e não vou tolerar desobediência.

— Ei, ei! — interferiu Kieran. — Vim visitá-las e matar as saudades. Não quero trazer a discórdia a esta casa. Molly, o que vai me servir para o jantar? Sou um homem grande, forte e cavalguei até aqui enfrentando frio e umidade...

— Você não me engana, Kieran Devers. É um sedutor, como seu pai. Deus proteja sua escolhida! Vai trazê-la para conhe­cer-nos?

— Sim, mas não antes do casamento de Willy. Hoje ficarei com vocês apenas para a refeição. Depois, retornarei ao salão de meu pai, pois minha madrasta já deve estar se perguntando onde me meti e por que não estou lá para aceitar suas incumbências.

— Vai ser um evento grandioso, segundo me disseram os que foram chamados para prestar serviços temporários — co­mentou Molly.

— Eu gostaria de poder ir — suspirou Aine, sonhadora.

— Mas não pode! — reagiu Maeve, firme. — O choque eco­aria por Fermanagh por anos, caso as duas lindas bastardas do papai aparecessem no casamento do filho mais legítimo e her­deiro. Dê-se por satisfeita por Lady Jane ainda não ter nos ex­pulsado de Lisnaskea com nossa mãe.

— Ela não faria isso! — gritou Aine, perturbada.

— Não? Faria, se fosse conveniente para ela, como também convenceu nosso pai a deserdar Kieran se ele não se tornasse protestante! Aquela mulher é o diabo! — disparou Maeve.

— Chega — Kieran Devers decidiu em voz baixa. — Maeve, escute o que vou dizer, porque tem idade suficiente para enten­der. Eu não queria Mallow Court. Se quisesse, teria feito o que fosse necessário para ficar com ela. Agora, deixe de lado essa revolta e vá verificar o que Biddy está preparando para o jantar.

— Kieran, não vá embora! — pediu a menina, chorosa. — Não deixe a Irlanda, ou, se for mesmo necessário partir, leve­ nos com você. Mamãe ainda tem grandes esperanças e sonhos grandiosos, mas ninguém aqui vai se casar com as bastardas de Sir Shane. Precisamos de uma vida nova tanto quanto você! Kieran levantou-se, abraçou a irmã e olhou para Molly.

— Ela pode estar certa — disse. — Se essa colônia for real­mente um lugar seguro, talvez seja um lugar melhor também para suas duas filhas.

Lágrimas corriam pelo rosto de Molly Fitzgerald. Ela assentiu devagar.

— Sempre soube que terminaria minha vida sozinha — dis­se. — Você pode estar certo, Kieran. Mas aceitaria assumir a responsabilidade por essas duas? E qual vai ser a opinião de Fortune?

— Não saberemos até perguntarmos a ela — disse Kieran, mas Fortune é uma mulher prática e de bom coração. Espere até conhecê-la, Molly. Depois voltaremos ao assunto.

Capítulo 9


Madame, está deslumbrante! — elogiou Lady Jane Devers, o duque de Glenkirk. — Este é um dia feliz para sua família. Lamento que minha esposa não possa estar presente, pois sua condição a impede de viajar, mesmo que por curtas distâncias. Espero que entenda. — Ele beijou sua mão.

Como era belo, pensou Jane Devers. E tão elegante e distin­to em seu colete bordado sobre calça de veludo preto. A parte superior das botas havia sido dobrada para revelar o revesti­mento interno de renda. Ele daria prestígio ao casamento. Sor­rindo, Lady Devers se virou para cumprimentar a jovem que o acompanhava.

Fortune inclinou a cabeça.

— É um belo dia para um casamento — disse. — Foi muita bondade sua incluir-me, senhora.

— Como poderia ser diferente? — respondeu Jane Devers, séria.

Fortune estava ricamente vestida em veludo vermelho; o vestido tinha um decote largo que exibia os ombros e um apli­que de renda que conferia um ar misterioso ao decote. As man­gas eram divididas por fitas cor de lavanda em duas partes amplas. A saia chegava ao chão em pregas largas, mais cheia na parte posterior, a parte frontal aberta para mostrar um saiote cor de creme delicadamente bordado com margaridas e borbo­letas confeccionadas em fios de ouro. Seus cabelos vermelhos estavam presos num coque na altura da nuca, com uma mecha solta e adornada por uma fina fita de seda perfumada com la­vanda. Ela levava no pescoço um longo cordão de pérolas e ostentava brincos de pérolas e ametistas. Era muito elegante, e certamente estava dentro dos rigores da moda, mais do que qualquer outra convidada; e, ainda assim, seu traje não osten­tava, nem era tão esplêndido que pudesse desviar a atenção da noiva.

Lady Jane Devers tinha de admitir que a jovem Lady Lindley se vestia de maneira muito apropriada. Suas maneiras eram muito discretas. Sua mão repousava sobre o braço do padrasto, e os olhos estavam baixos na maior parte do tempo, como convinha a uma donzela de respeito e classe. De certa forma, era irritante cons­tatar que ela pareceria perfeita aos olhos dos convidados. Espera­va sinceramente que as pessoas não começassem a especular por que tal pilar de virtude e beleza havia rejeitado a proposta de casamento de seu filho, afinal. A especulação poderia refletir mal sobre a família toda, mas não havia nada que ela pudesse fazer. Lady Devers sorriu quando o duque e Fortune seguiram em frente. Era hora de recepcionar outros convidados.

O casamento propriamente dito seria realizado no salão principal de Mallow Court, pois a igreja de Lisnaskea era pe­quena demais para receber todos os convidados. A noiva esta­va linda no vestido cor-de-rosa de tafetá, renda e cetim. Em sua cabeça havia uma delicada guirlanda de margaridas. O noivo era sóbrio em seu traje de veludo azul-escuro. Havia uma ex­pressão quase entediada em seu belo rosto, embora a noiva sorrisse constantemente, certamente incapaz de conter-se. Suas respostas eram claras. As dele, apenas resmungos graves. Quan­do o casal finalmente foi declarado marido e mulher, os convi­dados aplaudiram. William Devers, sempre cumpridor de seus deveres, beijou a esposa.

Fortune não sentia nenhum pesar pela união. Seus olhos estavam fixos em Kieran, elegante no traje de veludo verde que combinava com seus olhos. Mal podia esperar até estarem so­zinhos. Fazia tanto tempo... Ela suspirou alto e corou ao ouvir a risada de James Leslie.

— Acalme-se, menina — preveniu-a, seguindo a direção de seu olhar. — Conseguiu ser discreta por semanas seguidas. Não estrague tudo agora, quando o sucesso está tão próximo.

— Papai! — reagiu ela, constrangida.

— Discrição, milady Lindley — disse ele com suavidade. — Temos de mantê-la até o próximo verão. Não quero discórdia entre nossas famílias.

— E acha que nosso casamento não vai causar indisposi­ções? — comentou ela, quase zombando.

— No início eles não vão ficar felizes, eu sei, mas vamos superar essa animosidade, minha querida, especialmente se seu marido não tiver Maguire's Ford — respondeu o duque. — Você sabe o que Lady Devers queria realmente com aquela proposta de casamento.

O banquete comemorativo foi servido na grande sala de jantar de Mallow Court, que já havia sido um dia o saguão prin­cipal da casa. Criados corriam de um lado para o outro servin­do salmão, carne, porco, patos e pequenas aves. Havia presun­tos inteiros e costelas de carneiro, alcachofras nadando em vinho branco, alfaces frescas, ervilhas servidas com hortelã, pães, manteiga, fino queijo cheddar da Inglaterra e macios queijos franceses. As taças continham o melhor vinho que os Devers haviam conseguido importar. Alguns homens resmungavam contra a falta de cerveja, mas Lady Devers não considerava essa uma bebida refinada.

Os convidados se divertiam, e muitos brindes foram ergui­dos aos noivos. Um bolo decorado foi apresentado, para delei­te de todos. O luxo era incomum, mas Lady Devers aprendera na Inglaterra que essa era a última e mais moderna extrava­gância nos casamentos importantes. Era, portanto, imperativo que um bolo fosse servido no banquete de casamento de seu único filho.

Depois da refeição, todos foram convidados a dançar no grande salão onde a cerimônia de casamento havia sido cele­brada. A mobília fora retirada e havia um palco para os músi­cos em um dos cantos. Nos cantos do lado oposto, ao fundo, foram colocadas telas pintadas, atrás das quais os convidados encontrariam cadeiras e penicos de alcova para sua conveniên­cia. As danças, no início, seguiram o estilo do campo; os dança­rinos as executavam de mãos dadas, em círculo, ou em fila. Lady Devers foi conversar com os músicos, e eles passaram a tocar ritmos mais animados e próprios da corte.

Kieran Devers conduziu Fortune à pista de dança. A mão dele era quente, e seus olhos falavam silenciosos de uma ar­dente paixão. A música era vibrante e rápida. Só os jovens dan­çavam. Todos, menos os noivos. William Devers olhava com rancor para o irmão e Fortune. Não fora forçado a notá-la até esse momento. Mas, quando ela passou a se exibir no centro do salão nos braços de seu irmão, ele não teve alternativa além de reconhecer sua presença. Como a desejava!

— Quem é a bela jovem dançando com seu irmão? — per­guntou a noiva, inocente.

— Lady Lindley — respondeu William, contrariado.

— Oh... — Emily Devers gemeu. Sua mãe havia sido abso­lutamente honesta ao explicar a situação com Lady Lindley antes de permitir que ela aceitasse o pedido de casamento do primo. William Devers havia feito a proposta de enlace antes a Lady Lindley, que o rejeitara. Ele ficara muito abalado com essa recusa, conforme relato da Senhora Elliot. Era bem possível que ainda amasse a jovem de família nobre e rica.

"Eu o farei esquecer", Emily Anne respondera à mãe com a pura inocência da juventude. Mas agora, vendo a rival em car­ne e osso, a nova senhora Devers não tinha tanta certeza de que poderia fazer William esquecer a fascinante Fortune Lindley. Emily Anne sentia os primeiros sinais de um amargo ciúme começando a corroer sua alma.

A música chegou ao fim. Fortune ria animada para Kieran. Ele era um excelente dançarino, como acabara de descobrir, encantada. Estava ofegante, com as faces coradas pelo exercí­cio. Os cabelos se libertavam do coque, caindo em caracóis ver­melhos em torno de seu rosto luminoso.

— Você está tão linda — disse ele, inclinando-se para mur­murar o elogio em seu ouvido. — Se não fosse um homem hon­rado, procuraria um canto discreto para tê-la só para mim, mi­nha querida.

Fortune corou ainda mais intensamente pelo prazer provo­cado pelas palavras.

Os músicos tomaram seus instrumentos novamente. A pri­meira nota soou, e Kieran tomou a mão dela novamente. Dan­çavam tão absortos um no outro que esqueciam a presença de outras pessoas no salão. Eram tão perfeitos juntos que outros convidados pararam de dançar para apreciar a elegância de seus passos cadenciados.

Fortune o fitava sorrido. Seu rosto refletia o amor que sen­tia por ele. Seus olhos brilhavam como esmeraldas puras. Os lábios estavam entreabertos, e havia neles um sorriso pálido, secreto. Kieran mantinha a cabeça inclinada para estar mais perto dela. As bocas quase se tocavam. Eles giravam e gira­vam ao som da melodia sensual; seus corpos se enrascavam graciosamente com a dança. O amor era visível e inconfundí­vel no olhar de Kieran; a paixão dele, palpável. Eram um só ser, e a evidência dessa união varria o salão como um incên­dio na mata seca.

James Leslie se desesperava diante da cena. Agora o segredo fora revelado. Ele olhou para o noivo e reconheceu em sua ex­pressão a repentina compreensão que causava fúria cega. O du­que de Glenkirk lamentou ter comparecido à festa desarmado.

A voz de William Devers rompeu a magia que dominava o salão naquele momento, interrompendo a música.

— Seu calhorda! — vociferou ele. — Calhorda mentiroso! Sempre a quis, embora tenha negado! Eu seria capaz de matá-lo.

— William! — soou a voz imperiosa do pai dele.

— Se eu não pude tê-la, por que você a teria? — prosseguiu William Devers, agoniado. Estava quase chorando.

Jane Devers sentia-se morrer de vergonha. Agora toda Fermanagh, ou melhor, toda Ulster comentaria o ultrajante escândalo!

— Sua meretriz! — gritou William, atacando também Fortune. — Enganou-me, envolveu-me, e desde o início queria fornicar com meu irmão!

Os convidados olhavam de um lado para o outro para os membros do trio. Kieran Devers permanecia silencioso diante das acusações do irmão, mas Fortune era menos contida.

— Como ousa, senhor? — respondeu ela com seu tom mais altivo e nobre. Sua voz vertia desdém. De cabeça erguida, ela se dirigiu a Emily Devers, que estava pálida e trêmula. Fortune empregou um tom mais doce com a jovem noiva. — Senhora, peço desculpas por minha presença ter perturbado o dia de seu casamento. Retiro-me agora na esperança de que a normalida­de seja restaurada e as festividades prossigam. — Segurando a saia, deixou o salão.

James Leslie colocou-se imediatamente o lado da enteada. Ele se curvou para a noiva, depois para os pais do noivo, mas não pronunciou uma única palavra e mantinha uma expressão severa. Então guiou Fortune para fora do salão, sua grande mão segurando e confortando a dela, que repousava em seu braço vestido de veludo.

Quando William ameaçou segui-los, Kieran Devers entrou em ação, segurando-o pelo braço. Os dedos ameaçavam cortar a carne do noivo.

— Não está satisfeito, William, por ter partido o coração da jovem Emily e arruinado sua festa de casamento com essa ob­sessão? — disse ele por entre os dentes. — Vá se desculpar com sua esposa, ou ela ficará viúva antes de deixar de ser virgem, porque eu mesmo o matarei para restaurar a honra da família, algo com que parece não se preocupar. — Kieran se virou e fez um sinal, ordenando que os músicos voltassem a tocar. As no­tas de uma melodia vibrante invadiram o salão, e ele conduziu forçosamente o irmão à presença de sua esposa. Depois, voltou para perto da madrasta, que estava pálida, beijou as mãos dela e, conduzindo-a à pista, murmurou:

— Venha, senhora, vamos tentar amenizar o constrangimen­to que seu filho causou a todos aqui.

Pela primeira vez na vida, Kieran sentia pena dela.

— Oh, Kieran! Acha que é possível? — sussurrou ela, a voz trêmula.

— É necessário, senhora. — respondeu o jovem, firme.

Sir Shane, que só então superava o choque inicial, curvou-se para a mãe de Emily.

— Vamos nos juntar aos dançarinos madame, e deixar nos­sos filhos resolverem essa questão tola?

Ele conduziu a perturbada Senhora Elliot à pista, onde um círculo de convidados já se formava para o próximo número. Seu marido escolheu outra dama sem nem sequer olhar para a filha e o novo marido.

Os noivos ficaram sozinhos em um canto do salão.

— Ela o enfeitiçou — disse Emily Anne com tom calmo para o marido. — Posso ver que está fora de seu juízo normal, meu pobre querido. Ela deve ser uma mulher muito maldosa, mas eu amo você, William. Se permitir, eu o ajudarei a superar todo esse mal causado por aquela megera. — Ela se ergueu na ponta dos pés para beijar seu rosto. — Nunca mais terá de vê-la. Ama­nhã partiremos para Dublin em nossa viagem de núpcias. Quan­do voltarmos, sua mãe cuidará para que Lady Lindley não seja mais bem-vinda nem aceita em Mallow Court nem em qual­quer evento ou reunião em que estejamos presentes. Fiquei cho­cada com o comportamento leviano e impróprio dessa mulher com seu irmão. Creio que devamos tomar providências para que Kieran também não seja mais bem-vindo aqui, não? Sua mãe foi muito generosa permitindo a presença do primogênito de seu pai, mas ele não vai mudar, e não podemos aceitar que um católico influencie nossos filhos, meu querido. Afinal, um dia esta casa será sua. Nesse dia, ele teria mesmo de partir. Tudo vai ficar bem, querido. Teremos uma vida perfeita e feliz juntos.

Ele a encarou, perplexo. Até esse momento, nunca havia notado como Emily Anne era determinada e voluntariosa. E percebia também que precisava de sua força.

— Emily, eu sinto muito...

Ela o calou pousando dois dedos sobre seus lábios.

— Vamos esquecer, meu querido William. Você foi envol­vido e enfeitiçado por uma jovem nobre de moral questionável. Isso ocorreu antes do nosso casamento e, portanto, não tem nenhuma importância para mim. Normalmente, não aprovo demonstrações públicas de afeto, sejam elas quais forem, mas acho que nossos convidados ficariam mais sossegados e satis­feitos se você me beijasse nos lábios. Em seguida, nós nos uni­remos aos dançarinos.

William a beijou com ternura, devagar. Emily estava certa, ele pensou. Fortune realmente o enfeitiçara. Era uma mulher leviana e libertina, que provavelmente não tinha mais controle sobre seus desejos de luxúria por seu irmão do que tinha sobre sua língua ferina.

— Você é a esposa perfeita para mim, querida Emily. E aca­ba de dizer coisas que fazem muito sentido. Kieran deve deixar Mallow Court. Ele é tão ardiloso quanto aquela mulher. Não o quero influenciando os filhos que teremos: — Ele a beijou no­vamente, dessa vez com mais ousadia, o que a fez corar. — Sou grato por perdoar-me, querida esposa — concluiu ele, levan­do-a para a pista de dança.

Tudo prosseguiu como se nada houvesse acontecido. Ven­do os noivos sorridentes e reconciliados, os convidados relaxa­ram. A comemoração seguiu noite adentro. Os noivos foram conduzidos ao leito nupcial com todo o decoro possível. Os convidados partiram. Os criados limparam as marcas da cele­bração. Lady Devers se recolheu com uma garrafa de vinho, enquanto Sir Shane se sentava com o filho mais velho na bi­blioteca, onde havia um fogo acolhedor e muito uísque.



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