Fortune, uma mulher impiedosa. Bertrice small



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— A meretriz é ousada, não é? — William Devers tomou a frente da multidão. — Essa prostituta católica que é amante de meu pai pensa poder se impor sobre todos nós! Pois bem, não pode, meretriz imunda, e nunca mais nos afrontará com sua ar­rogância. — Erguendo a pistola que levava escondida, atirou con­tra o peito de Molly Fitzgerald, matando-a instantaneamente.

Com um grito angustiado, Maeve correu para abraçar o cor­po sem vida da mãe.

— Demônio protestante! — gritou ela para o meio-irmão. — Como teve coragem? Nosso pai saberá sobre o que fez, William Devers! Espero que ele mesmo ponha fim nessa sua vida inútil! — Soluçando, segurava a mãe contra o peito.

Mantendo o rosto inexpressivo, William levantou a pistola mais uma vez e atirou na cabeça da meia-irmã. Maeve caiu sem vida sobre o cadáver da mãe. Em seguida foi a vez de Aine, que esperava encolhida e apavorada ao lado da lareira. O brilho da loucura iluminava os olhos de William. Ele agarrou a menina pelo braço.

— Vejam, aqui temos uma bela criatura, e tão vadia quanto a mãe, estou certo disso. Vamos levá-la para cima para celebrar. Vai gostar disso, pequena meretriz? — William rasgou o corpete e a blusa de Aine, agarrando seus pequenos seios.

A menina o encarava, chocada.

— Você é meu irmão — gemeu ela, tremendo.

William acertou seu rosto com uma violenta bofetada. Ela gritou de dor e medo.

— Não pode se dizer minha irmã, vadia. É só uma bastar­da, filha de prostituta, e meretriz, como sua mãe! Vamos, suba a escada! Esta noite, antes de morrer, vai poder desempenhar o ofício de sua mãe. Uma cadela católica a mais ou a menos não vai fazer diferença. Amanhã, Lisnaskea vai amanhecer livre dessa raça de impuros. — Ele arrastou Aine pelo salão, virando-se para chamar os que o acompanhavam. — Venham todos. Ela parece ser muito suculenta. Todos vocês poderão prová-la.

Nem todos os homens seguiram William. Muitos deixaram a casa de Molly Fitzgerald em silêncio, sem ousar olhar para os corpos caídos no chão. Tudo o que queriam era que Lisnaskea fosse uma cidade inteiramente protestante. Não queriam ma­tar nem estuprar. Mas, desde que o Reverendo Dundas os exor­tou a seguir William Devers e limpar Lisnaskea de católicos, viram a morte tantas vezes que não podiam mais se dizer ino­centes. Sentiam culpa, e a culpa alimentava a raiva contra os vizinhos católicos. Ouviram gritos terríveis, manifestações do terror que se desenrolava no quarto da casa de Molly Fitzgerald. Ouviram gargalhadas e gritos de incentivo daqueles que espe­ravam para violar a pobre menina. Muitos ali tinham filhas da idade de Aine. Os homens corriam pela escuridão para fugir dos sons aterrorizantes.

Então um rapaz correu pelo campo escuro, gritando:

— Os papistas incendiaram a igreja! Trancaram o Reveren­do Dundas e sua família lá dentro! Nossas mulheres não con­seguem abrir a porta!

— Corram! — instruiu os companheiros Robert Morgan. — Vou buscar Mestre William e os outros.

A casa de Molly Fitzgerald mergulhou novamente no si­lêncio. A porta, presa apenas por algumas dobradiças, pendia escancarada. Biddy deixou seu esconderijo com o rosto lavado pelo pranto. Suas pernas tremiam quando subiu a escada em busca de Aine. Ela encontrou a menina nua, morta sobre a cama da mãe. Sua garganta havia sido cortada de orelha a orelha. Os olhos azuis estavam abertos e cheios de terror. O rosto antes tão doce já começava a inchar, e as coxas alvas estavam cobertas de sangue, evidência da violação. Biddy fechou os olhos da meni­na e a cobriu, embora a modéstia já não tivesse nenhuma importância agora.

A velha criada enxugou os olhos com a ponta do avental. Depois ergueu os ombros, o rosto tomado pela determinação. Olhando para a jovem Aine, que ajudara a trazer ao mundo, ela se benzeu com o sinal da cruz e fez uma prece. Só então desceu a escada para voltar ao salão. Fez mais uma prece sobre os cor­pos sem vida de Maeve e Molly, e saiu da casa pela porta dos fundos para ir ao estábulo. Biddy tinha pavor de cavalos, mas, com coragem, selou o pônei de Aine e montou, deixando a ci­dade envolta pelo manto da escuridão.

Conhecia todos os caminhos, pois passara a vida naquela região. Não era de Lisnaskea. Seu lugar de origem era Maguire's Ford. Devagar, com extremo cuidado, guiou o pônei para a se­gurança. A noite começava a abrir caminho para o dia quan­do ela entrou no vilarejo de Maguire's Ford e atravessou a pon­te levadiça de Erne Rock. O jovem guardião da entrada teve de ampará-la quando ela desmontou.

— Vá chamar Maguire! — pediu ela, ofegante. — Houve mortes!

Rory Maguire se apresentou minutos depois, ainda termi­nando de se vestir, apavorado com a urgência do chamado. Ele reconheceu Biddy assim que a viu.

— Lisnaskea se cobriu de sangue! — disse ela. — Meu se­nhor estava conosco ontem à noite quando a chacina começou. Não sei onde ele está agora. William Devers atirou contra mi­nha senhora e sua filha Maeve. Ambas estão mortas. O que ele fez com nossa pequena Aine é vergonhoso demais para que eu possa relatar. Ela também está morta, e por isso sou grata ao nosso Deus misericordioso.

— Então, finalmente começou — respondeu Rory Maguire com ar sombrio. — Venha comigo, Biddy. Temos de falar com o duque e a duquesa. Precisa contar a todos o que aconteceu.

— E o que farão esses protestantes para vingar minha se­nhora e suas filhas? — reagiu Biddy, furiosa. — Foram eles que as mataram, e Deus sabe quantos outros em Lisnaskea!

— Não. Nem todos os protestantes e católicos são iguais. Por isso pude ficar aqui todos esses anos com nossa gente. Lady Jasmine é uma boa mulher que não tem preconceitos contra nenhuma crença. Admito que nisso ela é rara, mas ela é a dona de Maguire's Ford, e sua vontade nos manteve em paz por muito tempo. Lembre-se de que a filha dela, nascida aqui no castelo, casou-se com Kieran Devers. Ela conhecia sua senhora e as fi­lhas dela. Vai ficar horrorizada com seu relato.

Estavam entrando no salão, e Rory mandou um criado cha­mar a duquesa e seu marido. Eles atenderam quase imediata­mente, embora Jasmine Leslie estivesse já pesada em função da gravidez.

— O que aconteceu? — perguntou ela ao se sentar.

— Esta é Biddy, criada de Molly Fitzgerald — começou Rory.

— Ela tem algo a relatar, milady, e creio que deva estar prepara­da, porque o que vai ouvir é terrível.

Os Leslie ouviram com horror crescente o que a velha cria­da tinha para dizer. Era uma história de terror, violência, assas­sinato e estupro, tudo em uma só noite, ali perto, em Lisnaskea.

— Envergonho-me por ter me escondido, por não ter sido capaz de ajudar minha senhora e as duas filhas dela, meninas que ajudei a criar. — Biddy chorava. — Mas alguém tinha de escapar com vida para delatar a perfídia de William Devers.

— Agiu corretamente — Jasmine apoiou a pobre criada, abraçando-a para confortá-la. — Sem você, jamais saberíamos quem foram os culpados. Agora me preocupo com Sir Shane. Disse que deixou a casa quando a rebelião recomeçava, e que não voltou a vê-lo? O que pode ter acontecido com ele?

— Deve ter sido assassinado pela cria da cadela inglesa — opinou Kieran Devers ao entrar no salão, chamado pelo mes­mo criado que havia ido buscar os Leslie.

— Certamente não! — gritou Jasmine.

— William nunca foi paciente quando queria alguma coisa — argumentou Kieran. — Se foi capaz de matar a pobre Molly e as filhas dela, suas meio-irmãs, por que não o pai? Agora mi­nha madrasta tem quase tudo o que queria. Meu pai não teria mais nenhuma utilidade para ela. Ela tem a casa dele, suas ter­ras... As meninas estão mortas. Eu fui deserdado, mas me ca­sei com a jovem que ela queria para o próprio filho. Tenho certeza de que ela está por trás do tumulto em Lisnaskea, mas quero saber o que aconteceu com meu pai antes de matar William Devers.

— Não vai haver mais mortes — anunciou James Leslie com firmeza. — Não quero minha Fortune casada com um assassi­no, com um condenado à forca. E você será enforcado se matar seu irmão, Kieran, apesar de tudo que ele fez.

— Sugere então que ele escape impune, milorde? Nenhu­ma corte em Ulster aceitará a palavra de um católico, muito menos de uma criada católica, especialmente contra a palavra de um cavalheiro protestante.

— Seja paciente, rapaz. Há muitos caminhos para a justiça, e com o tempo você terá sua revanche. Mas, agora, devemos descobrir se seu pai está vivo. Iremos juntos a Mallow Court.

— Não, Jemmie — gritou Jasmine. — Não pode acreditar que os Devers deixarão que você e nosso Kieran saiam de lá vivos depois de tudo!

— Eu tenho de ir — insistiu James, firme. — Se não for, que­rida Jasmine, o mesmo mal que infectou o povo de Lisnaskea pode infectar também a gente de Maguire's Ford. Quer que isso aconteça?

Jasmine Leslie baixou o olhar e comprimiu os lábios. Sa­bia que o marido estava certo, mas de repente se sentia toma­da por um terrível pressentimento. Não que temesse pela morte de James ou Kieran, porque não acreditava nessa pos­sibilidade, mas podia sentir a maldade no ar que os cercava e, pela primeira vez desde o assassinato de Rowan Lindley nes­se mesmo lugar, sentia-se desconfortável em Erne Rock. Ela olhou para Rory Maguire.

— Acha que eles estarão seguros?

— Sim, embora não possam se fazer acompanhar por um grupo numeroso, milady. Nessa situação tensa em que nos en­contramos, a chegada de milorde cercado por cavaleiros arma­dos seria considerada uma ameaça proposital. Talvez alguns homens de seu clã, milorde, como é de praxe quando viaja. O duque de Glenkirk assentiu.

— Deve ir com ele, Rory! — pediu Jasmine.

— Ele não pode ir conosco — afirmou James. — Ele é o Maguire, embora você seja proprietária legal da terra. Seria uma provocação levar um Maguire a Lisnaskea depois de tão san­grento massacre. Quero Rory aqui, caso alguém tente criar pro­blemas. Esse tipo de confronto é como um câncer que cresce, tornando-se mais venenoso a cada hora que passa.

— O que aconteceu? — perguntou Fortune ao entrar no sa­lão. — Róis está dizendo que os protestantes assassinaram to­dos os católicos em Lisnaskea. E que estão a caminho daqui para fazer o mesmo!

— Jesus! — gemeu Maguire. — Já começou! Vou me pre­parar e acalmar o vilarejo antes que a situação escape ao con­trole. — Ele se voltou para Jasmine. — Com sua licença, milady.

— Vá, Rory, e que Deus o acompanhe. E vocês também — disse ela a James e Kieran. — Fortune, fique comigo; vou lhe contar tudo o que aconteceu realmente. Biddy, quero que per­maneça no castelo, onde estará segura. Adali vai alimentá-la e providenciar um lugar quente para você dormir. Deve estar exausta depois dessa noite tão turbulenta.

— Obrigada, milady. — Biddy olhou para Maguire. — Você tem razão. Nem todos os protestantes são maus.

Capítulo 12


O duque de Glenkirk e seu genro foram recebidos em Mallow Court por Lady Jane.

— Como ousam entrar nesta casa depois de seus imundos papistas terem atacado meu marido! — explodiu ela, revoltada.

James Leslie pôs a mão diante de Kieran, tentando contê-lo.

— Acabamos de saber sobre os problemas ocorridos em Lisnaskea ontem à noite e viemos imediatamente em busca de notícias de Sir Shane, senhora.

— Ele está acamado, à beira da morte! Sua meretriz tentou matá-lo, mas William conseguiu salvar o pai.

— É mesmo? — perguntou o duque, sarcástico. — Gostarí­amos de ver Sir Shane, senhora. Entenda, Kieran está muito preocupado com o pai. Ouvimos uma versão diferente sobre o que aconteceu em Lisnaskea.

— Meu marido está muito doente. Não pode ser perturba­do. Volte em outra ocasião, milorde.

James Leslie olhou em volta. Não havia mais ninguém no sa­lão, e sabia que a residência não contava com guardas armados.

— Senhora, como já expliquei, a versão que ouvimos é bem diferente. Veremos Sir Shane agora, pois quero me certificar de que ele está vivo. E não ouse tentar me impedir! Ou nos leva até seu marido, ou mandarei os homens de meu clã revistarem sua casa até encontrá-lo.

Jane Devers queria se livrar dos dois visitantes inoportu­nos, mas o duque era homem de autoridade. Não ousaria con­trariá-lo, mesmo depois de William ter informado que o pai não deveria ser incomodado. Não via o marido desde que o filho o trouxera para casa na noite anterior, e só William tinha a chave do quarto de Shane.

— Meu filho mantém o pai trancado para sua própria segu­rança — contou ela ao duque. — Não tenho a chave da porta, milorde, e William não está aqui no momento.

— Quero saber onde fica o quarto de Sir Shane. Arrombare­mos a porta, senhora. Esse tratamento é ultrajante, e estou per­plexo por ter permitido tal coisa. É a senhora desta casa, não é?

Irritada e constrangida, Jane Devers conduziu os dois ho­mens aos aposentos do marido. Era surpreendente que seu en­teado ainda não houvesse falado nada. William a prevenira so­bre a possibilidade de Kieran chegar contando histórias loucas e fazendo ameaças, mas Kieran nada dissera. Porém, o silêncio e seu olhar penetrante a faziam ainda mais consciente da fúria dele. Ela parou diante da porta do quarto do marido.

— É aqui — disse.

Sem dizer nada, Kieran usou o ombro, alternando-o com um dos pés, e em poucos minutos conseguiu abrir a porta. Ele e o duque invadiram o quarto. Sir Shane estava deitado sobre a cama, amordaçado, com pés e mãos amarrados. Eles o liberta­ram sem demora e o ajudaram a se sentar. Havia um horrível ferimento em sua testa e uma pequena mancha de sangue seco na parte posterior de sua cabeça.

— Pai! — Kieran o abraçou.

— Ele matou Molly! — declarou Sir Shane. — O jovem de­mônio confessou com orgulho! E matou minhas meninas tam­bém, que Deus o amaldiçoe!

— Sabemos de tudo, pai. Biddy testemunhou o crime e cor­reu a Erne Rock para contar tudo.

— Ele também tentou me matar, e teria conseguido, não fosse pela intervenção oportuna de vocês. Sou muito grato.

— O que está dizendo? — perguntou Jane Devers, com voz trêmula. — Como pode acusar nosso menino de algo tão terrí­vel? Matar o próprio pai!

— Seu filho, senhora — disse Sir Shane friamente — assas­sinou a mulher que amo e também matou as duas filhas que tive com ela, suas meio-irmãs! Ele me atacou e, depois, quando descobriu que eu não havia morrido e que por isso não poderia me culpar pela morte dos católicos em Lisnaskea, trouxe-me para casa e me amarrou. E me informou com todas as letras que pretendia me matar para assim ter logo sua herança. Seu filho é uma víbora, e eu o quero fora desta casa imediatamente!

— Está ferido, meu querido — choramingou Jane Devers, tocando sua testa. — Deve ter entendido mal o que disse nosso William. Ele jamais o teria atacado, Shane.

Sir Shane empurrou a mão dela.

— Senhora, não fui ferido com tanta gravidade que não te­nha podido entender seu filho quando ele se gabou de como matou Molly Fitzgerald e nossas duas filhas. Maeve tinha 17 anos, e Aine era só uma menina de 14. Elas se preparavam para deixar a Irlanda, pois iriam viver com Kieran no Novo Mundo no ano que vem. Sabíamos que não havia futuro para elas em Ulster. Que mal elas fizeram a William para que o con­denado as matasse com tanta frieza? Meninas inocentes, se­nhora! Amaldiçôo o dia em que me casei com você e a trouxe para esta casa, Jane! Amaldiçôo o filho que fiz em seu corpo frígido. Ele é um monstro!

— Não é! Se matou aquela mulher, ele o fez para proteger minha honra! Tomar uma amante já é um ato horrível, Shane, mas uma amante católica? E aquelas duas criaturas que fez nela só me causaram vergonha, exibindo-se pelo vilarejo! Fui alvo de pena por causa de suas indiscrições, e não fosse pela bonda­de do Reverendo Dundas, já me teria tornado motivo de piada em Lisnaskea. Agora o pobre James está morto com a esposa e os filhos, e tudo por causa de seus papistas sanguinários!

— Foi o próprio Dundas quem encorajou o massacre de on­tem à noite, e sob sua ordem, usando seu filho como testa-de-ferro, certamente — manifestou-se Kieran. — Willy não é tão as­tuto, senhora, mas é certamente cruel o bastante para agir como agiu, especialmente com o incentivo que recebeu. Imagino que a senhora e a esposa dele tenham lhe despertado essa natureza sádica. O que em nome de Deus esperava ganhar com isso?

— Não terei católicos influenciando meus filhos — decla­rou William, entrando repentinamente no quarto. — Minha es­posa espera um bebê, e já era hora de esses papistas serem ex­pulsos de nossas terras. Ah, vejo que meu pai se recupera — comentou ele com um sorriso gelado.

— Você não é meu filho! — respondeu Shane Devers com ódio. — Quero que deixe esta casa ainda hoje!

— O quê? Quer me expulsar do lugar onde nasci? E quanto à minha pobre esposa, agora grávida de seu primeiro filho, pa­pai? — perguntou ele com tom debochado.

— Leve-a com você. E leve também esta cadela que o pôs no mundo. Não vou permitir que o homem que matou minha Molly e nossas duas filhas durma sob meu teto. Nem mesmo por mais uma noite! — Shane Devers levantou-se e acertou o nariz do filho com um soco violento, jogando-o ao chão.

Surpreso, William levantou-se com a ajuda da mãe.

— Só matei sua meretriz e a filha mais velha — anunciou ele com tom cruel. — A outra, a pequena, serviu para me entre­ter. Não imagina como ela lutou e gritou enquanto eu me di­vertia com sua virgindade. Queria que meus homens também se divertissem com ela, mas fomos informados de que a igreja ardia com o pobre e velho Dundas trancado dentro dela. Antes de sairmos, achei melhor cortar a garganta dela. Agora, sacie minha curiosidade, meu pai: acha que ela teria se tornado tão fogosa quanto a vadia da mãe dela?

Shane Devers olhava boquiaberto para o filho.

— Você violentou sua irmã? — perguntou, horrorizado. — Aine era uma criança!

— Mas tinha belos seios. Além disso, nunca a considerei mi­nha irmã, pai. Sua meretriz não podia ter certeza de quem era o pai daquelas bastardas miseráveis. — Ele sorria, satisfeito.

Shane Devers ouvia as batidas do próprio coração como trovões ecoando em seus ouvidos. Suas têmporas latejavam. O mundo ficou vermelho diante de seus olhos, e de repente uma dor violenta rasgou o interior de sua cabeça, como se quisesse abri-la ao meio. Com um grito, ele caiu. Sabia que estava mor­rendo. Seus olhos buscavam desesperados os do filho mais ve­lho. Sua respiração era arfante, difícil. Ele se esforçava para fa­lar pela última vez.

— Perdoe-me, Kieran — disse.

O esforço heróico foi seu único ato em vida. Houve um longo silêncio. William Devers foi o primeiro a falar.

— Bem, é isso. Saia de minha casa, Kieran, e não volte nun­ca mais. Estou avisando. Já cuidei dos católicos de Lisnaskea. Agora vou cuidar dos de Maguire's Ford.

James Leslie agarrou o rapaz pela gola da camisa.

— É você quem deve estar prevenido, William Devers. Po­nha um pé imundo nas terras que pertencem à minha esposa e você e seus seguidores nojentos nunca mais sairão de lá. Não posso impedi-lo de causar problemas aqui, mas em Maguire's Ford farei valer minha autoridade. Acredite em mim, menino, não vai querer ter James Leslie como seu inimigo. Acabei de receber notícias de meu primo, o Rei Charles, aprovando a trans­ferência da propriedade para meus dois filhos, Adam e Duncan Leslie. Só um tolo como você pode pensar que vai conseguir aquelas terras dos meus garotos. Eu usaria isso tranqüilamen­te como desculpa para matá-lo pelo que fez com a Senhora Fitzgerald, as filhas dela e seu pai. É responsável pela morte de Shane Devers, Sir William. Tente culpar qualquer outra pessoa e farei com que o mundo saiba a verdade. Pelo bem de seu ir­mão, pelo bem do bom nome dos Devers, nada revelarei por enquanto. Não acusarei sua família pelas ações de um único vilão, pois os Devers sempre foram honrados. Está entenden­do o que digo, Sir William? — James Leslie o soltou e o empur­rou como se sentisse nojo por tê-lo tocado.

Os olhos frios de William estudaram o duque, traindo um certo medo. Depois, buscou o olhar do irmão, numa tentativa de provocá-lo, mas Kieran estava devastado pelo luto. Ajoelhado ao lado do corpo, chorava copiosamente e parecia rezar. Pois que lamentasse a morte do velho imprestável, William pen­sou com desdém. Ele não voltaria mais. Nunca mais! Agora ele era o senhor de Mallow Court. Pensar nisso provocou-lhe um pra­zer quase erótico, mas então Kieran olhou para ele. Havia na­quele olhar uma mistura de desdém e piedade.

— Não olhe assim para mim! — quase gritou William.

— Deus tenha piedade de você, William — murmurou Kieran, exausto. — Não creio que seja forte o bastante para car­regar essa culpa em sua consciência por muito tempo.

— Saia! Saia daqui, bastardo papista imundo!

Kieran levantou-se com calma, fechou os olhos do pai, de­pois desferiu um soco violento no queixo do irmão, derruban-do-o. Sua madrasta gritou e correu para o filho desfalecido.

— A lei o alcançará, Kieran Devers! — ameaçou-o.

— Espero que sim, senhora, porque estou ansioso para in­formar os representantes da lei sobre o que aconteceu ontem à noite em Lisnaskea. Há tantos protestantes esmagados sob o peso da culpa que muitos não hesitariam em acusar seu filho pelos horrores que cometeram instigados por ele. William nunca foi muito popular, pois era arrogante no trato dessas pobres al­mas que considerava inferiores. As autoridades podem não acreditar nos católicos, mas certamente acreditarão em seus companheiros protestantes. E não esqueça, senhora: seu pre­cioso filho estuprou a meio-irmã de 14 anos diante de seus com­panheiros e depois a assassinou friamente. Não deve ter sido uma cena agradável, especialmente porque Aine era conheci­da por todos por sua decência. Muitos que seguiam William têm filhas da mesma idade. Agora, senhora, vou ao vilarejo para sepultar os corpos de minhas irmãs e da mãe delas. Tente me impedir ou permitir que esse verme que chama de filho faça alguma coisa para atrapalhar o sepultamento e matarei os dois. Estamos entendidos, senhora? Willy? — Kieran chutou o irmão com a ponta da bota. — Está me entendendo, verme miserável?

William gemeu.

— Ótimo! — respondeu Kieran. Então, curvou-se para a madrasta. — Senhora, estarei no funeral de meu pai. Se tentar me impedir, vai viver para se arrepender disso. — Ele se virou e saiu. O som de seus passos na escada ecoavam como trovoadas na casa.

Um sorriso amargo se apoderou do rosto de James Leslie. Acabara de ver um lado do genro que ainda não havia conheci­do. Kieran Devers era duro, o que o contentava muito, pois a vida não seria fácil no Novo Mundo. Sem dizer nada, ajudou William Devers a se levantar. Depois, também se curvou para a dona da casa e seu filho.

— Espero que tenham um bom dia — disse, e partiu. Kieran o esperava do lado de fora.

— Acha que eles o informarão sobre a data do funeral, Kieran?

— Certamente tentarão esconder de mim essa informação, mas tenho aliados na casa que me manterão informado.

— Vamos até Lisnaskea buscar os corpos de suas irmãs e da Senhora Fitzgerald.

— Agradeço pela companhia e pela ajuda, meu sogro.

Quando entraram no vilarejo, ficaram chocados com o ce­nário de destruição. Casas haviam sido queimadas, e a igreja estava completamente destruída. O cheiro de morte pairava no ar, mas as pessoas já se uniam num mutirão de reconstrução. As famílias católicas que haviam sobrevivido permaneciam fechadas em um curral. James Leslie estava perplexo e exigiu que todos fossem libertados imediatamente.

— O que diabos pretendiam fazer com essas pessoas? — perguntou o duque, furioso.

— Sir William diz que todos devem ser mortos, milorde — respondeu Robert Morgan, o ferreiro do vilarejo.

O duque olhou para o curral onde havia principalmente mulheres, crianças e velhos.

— Abra esse maldito portão, deixe-os pegar o pouco que ainda têm, e não tente impedi-los de sair de Lisnaskea em se­gurança. Acreditam mesmo que Deus está satisfeito com toda essa violência? Acham que Ele apoia assassinatos?

— Mas, milorde, são papistas! Deus não se incomoda com eles.



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