Fortune, uma mulher impiedosa. Bertrice small



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— Estou contente com a escolha de meu filho, embora Cecily e eu pertençamos à mesma geração, considerando que é irmão de minha mãe.

Cecily Burke riu.

— Então, os filhos que teremos serão da geração do pai. É isso, senhora?

— Meu Deus! — exclamou o marquês de Westleigh, arran­cando gargalhadas de todos.

Houve uma festa para celebrar o noivado. Para surpresa de Fortune, Sir Christian estava presente. Ele se manteve ao lado de Fortune a noite toda, apesar de ela ter tentado dispensar fria­mente o fervoroso puritano.

— Não devia estar desacompanhada, senhora — comen­tou ele.

— Estou na casa de meu irmão — respondeu Fortune.

— Seu decote é baixo demais — disse ele, incapaz de des­viar os olhos de seu colo alvo.

— Se a visão o perturba, senhor, sinta-se à vontade para olhar para outras coisas.

— Como poderia, se exibe seus dotes com tanta liberdade para todos que quiserem apreciá-los? Pretende tomar um aman­te na ausência de seu marido, senhora? Soube que sua mãe era dada a esse tipo de prática.

Chocada, Fortune o encarou com um misto de ultraje e revolta.

— Ela não foi a meretriz do Príncipe Henry? — insistiu o desagradável convidado.

Fortune o atingiu com uma violenta bofetada. Depois, te­mendo arruinar o noivado do irmão, virou-se e se afastou de Sir Christian. Henry Lindley a alcançou em seguida.

— O que aconteceu? — perguntou ele.

— Por que convidou aquele homem para seu noivado? — perguntou Fortune.

— Ele é primo de um de meus vizinhos e é novo na região. Está procurando por uma esposa, e meu vizinho sugeriu que uma reunião em Cadby seria uma excelente ocasião para Sir Christian observar as beldades locais. Qual é o problema, Fortune? Por que agrediu o homem?

— Porque ele me insultou e insultou mamãe, Henry. — Ela contou ao irmão tudo que Sir Christian havia dito. — Ele é um puritano, Henry. Não devia tê-lo esbofeteado em sua casa, eu sei, mas você devia ter se informado melhor antes de trazê-lo aqui. De qualquer maneira, não quero estragar sua festa exi­gindo que o expulse. Apenas mantenha-o bem longe de mim.

De volta a Queen's Malvern, Sir Christian voltou a procu­rá-las, passando sem se anunciar pelos criados que serviam Jas­mine e Fortune no salão principal.

— Vim pedir desculpas às duas — declarou ele sem rodeios.

Fortune levantou-se.

— Saia! — exigiu furiosa. — Como ousa invadir nossa casa sem ter sido convidado? Não é bem-vindo aqui, senhor.

— É apenas minha preocupação com você, uma mulher sozinha, que me faz agir dessa maneira.

— Não estou sozinha, senhor. Minha mãe e minha irmã me fazem companhia. E tenho uma filha. A casa está cheia de cria­dos que me conhecem desde que nasci, e em breve meu pa­drasto chegará da Escócia para ficar conosco até o dia da mi­nha partida. Como vê, não posso me queixar de solidão.

— Preciso lhe falar em particular, Lady Lindley. Temo por sua filha. Não deve criá-la católica, ou a condenará ao pecado da alma sem chance de salvação. Estará condenando sua filha ao fogo eterno!

— Se acredita nisso, senhor, só posso dizer que lamento por você. Que tipo de Deus adora, afinal? Minha filha é inocente, como todas as crianças. Agora saia daqui e não volte. Nunca mais!

— Adali — chamou Jasmine o mordomo com tom sereno e firme. — Acompanhe o cavalheiro até a saída, e cuide para que sua entrada não seja mais permitida.

— Sim, minha princesa — respondeu Adali, segurando o braço do visitante e levando-o para a porta.

— Meu Deus! — exclamou Fortune, perplexa. — O que faz as pessoas pensarem dessa maneira, mãe? Por que há tanto ódio no mundo contra outras crenças, outros clãs? Jamais entende­rei esses pensamentos.

— Nem eu, meu bem. E seu avô também não entendia. Su­ponho que deva ter pena de Sir Christian, cujo nome é impró­prio, certamente.

— Ele me assusta, mãe. Não gostei do tom que ele usou quando se referiu a Aine. Ele me insultou em Cadby, como sabe. Não quero esse homem perto de minha filha. Ele é a encarnação do mal!

Jasmine concordava com a filha, mas nada disse, preferin­do acalmar Fortune da melhor maneira possível. No entanto, orientou Adali a manter constante vigilância e assegurar a proteção de sua neta em tempo integral.

James Leslie chegou da Escócia pouco antes do início das comemorações de Natal. Henry chegou de Cadby com Cecily e os pais dela, porque havia sido acertado que o jovem casal cele­braria suas núpcias no dia 21 de dezembro, na capela de Queen's Malvern. A comemoração trazia lembranças felizes de tantas outras reuniões familiares presididas naquele mesmo lugar por Skye 0'Malley e seu marido, Adam de Marisco. A capela da família, que já havia abrigado inúmeros casamentos, era clara e iluminada pelo sol de inverno. A pequena Autumn Leslie precedeu a noiva em seu primeiro dever público.

Quando chegou ao altar, ela se virou e perguntou em voz alta:

— Mamãe, o que faço agora? Para onde vou?

Todos riram, e Charles Frederick Stuart, padrinho do irmão, pegou a irmã no colo e murmurou em seu ouvido:

— Para os meus braços, minha pequena Lady Autumn.

Ao ver o sorriso doce da menina, Charlie pensou que tal­vez fosse hora de começar a procurar uma esposa com quem pudesse ter filhos. Mas decidiu que ainda era jovem demais. Afinal, Henry tinha praticamente 26 anos, e ele acabara de con­cluir 22.

O inverno chegou com todo o seu rigor. Os dias foram se tornando mais longos, mas o vento ainda era frio e a neve co­bria os parapeitos das janelas da casa em muitos dias. Porém, quando Aine Marie Devers comemorou seu aniversário, ha­via flores nos canteiros do jardim de Queen's Malvern. Desde a visita do Capitão OTlaherty no último verão, não haviam tido mais nenhuma notícia de Kieran. Fortune sabia, no entanto, que seu tempo na Inglaterra chegava ao fim. Então, um dia, a casa recebeu um visitante.

— Meu nome é Johnathan Kira — apresentou-se ele. — Estou no comando dos negócios da família em Liverpool, milady. — Falava com Jasmine. — Fui informado por sua gen­te na Irlanda de que o Cardiff Rose foi avistado a aproximada­mente cem milhas náuticas de Cape Clear há uma semana. Achei que deveria vir a Queen's Malvern para me informar so­bre como posso ser útil à sua filha, agora que ela se prepara para partir para Mary's Land. E também gostaria de pedir um favor.

— Qual é o favor, Mestre Kira? — indagou Fortune, curiosa.

— Primeiro, tenho uma ou duas perguntas, milady. É ver­dade que Mary's Land vai receber todos os homens, indepen­dentemente de sua religião? E, se sim, aceitaria meu segundo filho, Aaron, em seu grupo de viagem? Se existe mesmo um lugar onde ele possa viver livre de qualquer perseguição, a fa­mília Kira se dispõe a fundar um braço de seus negócios no Novo Mundo. Um judeu seria bem-recebido em Mary's Land?

— Só posso lhe dizer o que sei — respondeu Fortune. — O próprio Lorde Baltimore nos disse que todos, independente­mente de fé religiosa, seriam acolhidos em Mary's Land. Se for mesmo assim, então, certamente haverá um lugar para seu fi­lho, senhor. Será um prazer transportá-lo no Cardiff Rose quan­do eu partir. Sua família faz negócios com a minha há gerações.

— Sou muito grato, milady. — Johnathan Kira curvou-se.

— Ficará conosco esta noite, é claro — disse o duque.

— Agradeço pela hospitalidade, milorde. Porém, espero que não se ofenda se eu comer apenas os alimentos que trago comi­go. Seguimos leis muito severas quanto à nossa alimentação, e quando viajo carrego minha própria comida, pois não quero desrespeitar os mandamentos.

— O que seu filho vai fazer quando estiver a bordo do na­vio, senhor? — perguntou Fortune, preocupada. — Passaremos várias semanas no mar.

— Ele também levará a própria comida. Quando o supri­mento acabar, Aaron fará o que puder para seguir os manda­mentos. Em circunstâncias extraordinárias a desobediência pode ser perdoada. Além do mais, Aaron é jovem. Não tem muitos problemas de consciência — riu Johnathan Kira.

Adali entrou no salão e cochichou alguma coisa no ouvido de sua senhora. Jasmine empalideceu.

— O que foi? — perguntou o duque à esposa. Jasmine olhou para a filha.

— Róis foi encontrada caída no jardim. Inconsciente. Brendam estava bem no cesto, mas Aine desapareceu.

— Meu Deus! — gritou Fortune.

— Róis já recobrou a consciência? — perguntou o duque a Adali.

— Está se recuperando aos poucos, milorde, mas o golpe em sua cabeça foi violento. Foi sorte ela não ter morrido. Nós a trou­xemos para dentro, e Polly está com ela. Brendam ainda dorme.

— Sir Christian Derby! — deduziu Fortune, furiosa. — Juro que vou matar aquele miserável quando o encontrar!

— O que está dizendo, Fortune? — Jasmine espantou-se.

— Mamãe, Aine foi seqüestrada por Sir Christian Derby. Tenho certeza disso! Desde que nos conhecemos, tudo que ele fez foi reprovar minha decisão de criar a menina na fé católica. O homem é um fanático! Você mesma reconheceu!

— Não pode acusá-lo sem provas, querida — lembrou o duque.

— Que tipo de prova espera que eu exiba, pai? Meu instin­to diz que foi ele! Quem mais levaria minha Aine? E por quê? As mulheres desta região são tão fascinadas por crianças que roubam aquelas que não lhes pertencem? Ou está supondo que podem ter sido ciganos? Não temos notícias deles por aqui. Foi aquele homem! Cada fibra de meu ser grita contra ele, papai! Deve montar um grupo imediatamente e encontrá-lo. Encon­trar minha filha! Eu irei com eles!

— Sua filha provavelmente está certa — opinou Johnathan Kira. — Milorde, se me permite falar, há rumores sobre esse homem já há algum tempo.

— Que tipo de rumores?

— Histórias envolvendo crianças, milorde. Bebês. Católicas, anglicanas, uma ou duas judias... Todas desapareceram quando Sir Christian estava nas redondezas. Normalmente, eram todas filhas de pessoas sem importância nem autoridade, sem recur­sos para acusá-lo ou para tentar recuperar seus pequenos. Di­zem que essas crianças são entregues a famílias puritanas para serem criadas apropriadamente. Lady Fortune deve estar certa quando afirma que esse homem levou a pequena Aine. Com sua permissão e a dela, certamente, eu mesmo gostaria de cavalgar até Oakley e conversar com o cavalheiro em questão.

— O que pode fazer para nos ajudar? — indagou o duque.

— Digamos, milorde, que posso exercer uma certa influên­cia sobre Sir Christian. O tempo é de suma importância. Ele ainda não teve tempo para se desvencilhar da criança. Não há famílias puritanas na região. Ele terá de levá-la a algum lugar, e é tarde demais para começar uma viagem. Deixe-me ajudar, milorde.

— Vá, Mestre Kira — adiantou-se Fortune. — Vá agora e traga minha filha de volta!

Johnathan Kira se curvou e saiu apressado.

James Leslie sorriu satisfeito ao vê-lo deixar o salão. Os Kira eram pessoas admiráveis. Não duvidava de que, caso Sir Christian mantivesse Aine em sua custódia, ela seria trazida de volta antes do final do dia, naquela mesma noite, no máximo.

— Adali — chamou ele. — Mande alguns de meus homens com Mestre Kira. Dê a ele toda proteção que for necessária.

Com um sorriso que refletia o de seu senhor, Adali entrou em ação rapidamente.

Johnathan Kira não se surpreendeu ao se ver rapidamente escoltado por uma tropa de homens do clã Leslie. Ele cumpri­mentou o comandante, e depois seguiu em sua jornada silen­ciosa. Era um homem alto e magro, de idade indeterminada, com cabelos muito escuros e barba tão negra quanto seus olhos. Usava roupas escuras de corte muito elegante e atual. Os que não conheciam seu sorriso o consideravam intimidador. Era uma característica que ele considerava útil.

Em uma hora, Johnathan chegou à porta de Oakley Hall, desmontou e ordenou aos acompanhantes que o esperassem ali, do lado de fora. Determinado, foi bater na porta.

Kira foi recebido por um lacaio uniformizado.

— Leve-me ao seu senhor — disse ele com autoridade incontestável.

Intimidado, o criado obedeceu, conduzindo o visitante im­ponente à biblioteca de seu senhor. Quando entravam no apo­sento, o choro de uma criança soou no andar de cima.

Johnathan Kira sorriu. Empurrando o criado de volta ao corredor, fechou a porta da biblioteca.

— Boa tarde, Sir Christian.

O dono da casa ergueu os olhos e, assustado, levantou-se, abandonando sobre a mesa a Bíblia aberta.

— Kira! O que faz aqui? Ainda não estamos na época do pa­gamento do meu empréstimo! Pagarei no prazo determinado.

Vim buscar Aine Devers, Sir Christian. Dê-me a criança para que seja devolvida à família, e não terá de enfrentar ne­nhuma dificuldade.

— Não sei do que está falando.

— Ah, prefere agir como um tolo. Lamentável. Tem sorte por não ter causado a morte daquela pobre criada, ou seria en­forcado por assassinato. Mas ela está ferida, então... bem, ain­da não pode se considerar totalmente livre. Se houvesse seqües­trado o filho dela, o escândalo teria sido menor, porque o bebê é católico e filho de pais irlandeses. Aine Devers, porém, qual­quer que seja sua religião, é neta de um duque, sobrinha de vários nobres importantes, um deles sobrinho do rei. Não pode esperar escapar ileso dessa empreitada.

— Saia de minha casa! — vociferou Sir Christian.

— Sua casa? Enquanto não pagar o que me deve, Sir Christian Denby, a casa não é sua. E tenho o direito de reclamar paga­mento adiantado. Se eu tomar essa decisão, o que vai fazer? Terá apenas um título sem nenhum valor, uma montanha de dívidas e mais nada. Acha que manter a posse dessa menina vale todo esse transtorno? Como ajudará seus companheiros puritanos a tramar contra o rei se eu tiver de privá-lo do pouco poder que possui agora? Vá buscar a criança imediatamente e entregue-a a mim. Senão, serei forçado a abrir a porta de sua casa para os homens do duque. Eles me acompanharam até aqui e estão armados. Haverá uma busca, eles encontrarão a crian­ça, que já ouvi chorando lá em cima, e então a questão se torna­rá pública, e você, senhor, estará arruinado. Se, porém, devol­ver a criança agora, manteremos o assunto no âmbito privado e não cobraremos o pagamento do empréstimo por enquanto. Vá buscar a menina.

— Servo do diabo! Vocês, judeus sujos, são todos servido­res do mal! Venha comigo, vou lhe dar o que quer!

Sorrindo, Johnathan seguiu o dono da casa até a escada, de onde Christian Denby gritou para alguém sem nome trazer a menina. A ordem foi rapidamente obedecida, e uma mulher surgiu carregando Aine Devers.

Sir Christian arrancou a criança com rispidez dos braços da criada, colocando-a nos de Johnathan Kira.

— Aqui está a criatura que você acaba de condenar a arder eternamente no inferno!

— Obrigado — respondeu Johnathan, calmo. — Sugiro que leia a Bíblia com mais atenção, Sir Christian. Vai descobrir que nós, os judeus, somos chamados de povo escolhido. Também é fato que nosso Yushua, ou o homem que vocês chamam de Je­sus, foi judeu. Boa noite, senhor. — Johnathan Kira deixou a casa levando a menina, que foi entregue ao comandante Leslie. —Agora retornaremos a Queen's Malvern — disse ele. — Hora de voltar para os braços de sua mamãe, pequena Aine.

Aine Mary Devers chorava, mas logo se acalmou, sentin­do-se segura e protegida.

Fortune os esperava na porta e correu para pegar a filha dos braços do comandante, apertando-a contra o peito enquanto soluçava de alívio e gratidão.

— Ma-ma!


— Sim, bebê, sou sua mamãe, e você está em casa, sã e sal­va! — ela olhou para Johnathan Kira. — Diga a seu filho que só precisa embarcar levando a comida especial que respeita seus mandamentos. Todo o restante será providenciado por nós. E quero que transfira o quanto antes um quarto de meus fundos aos cuidados de Aaron, senhor Kira. Quando estivermos em Mary's Land, outro quarto deverá ser transferido. A outra me­tade ficará aqui na Inglaterra. Contem sempre com minha ina­balável amizade e com minha gratidão pelo que fez esta noite. Mas como...?

— Sir Christian herdou uma casa dilapidada, milady, um título que integrava a propriedade, e mais nada. Ele precisava de fundos para restaurar a residência e investir em um empreen­dimento que o tornasse independente e capaz de atrair uma esposa com um bom dote. Procurou minha família, e agora tem uma dívida conosco. Dei a ele a chance de escolher: perder tudo, ou devolver sua filha. Felizmente, ele fez a escolha mais sensata. Eles entraram na casa.

— Graças a Deus estava aqui conosco, ou eu não teria con­seguido recuperar minha filha sem violência.

Fortune entregou a filha a Rohana, porque era hora de levá-la para a cama.

— E sua criada?

— Recobrou a consciência. Ela nos contou que Sir Christian e outro homem, provavelmente um criado, a atacaram. O pri­meiro golpe contra sua cabeça não a deixou inconsciente, por isso ela os viu. Róis tentou gritar, mas foi atingida por um se­gundo golpe. Ela vai ficar bem, com a graça de Deus. Venha, vamos tomar um cálice de vinho, Isso é permitido, não?

— Beberei de minha própria taça — respondeu ele, rindo.

— Há quanto tempo nossas famílias são associadas? Mui­tos anos, suponho.

— Sim, muitos. Uma ancestral de seu padrasto, uma mu­lher muito poderosa e importante, fez amizade com minha an­cestral Esther Kira. As duas ajudaram uma à outra de muitas formas e, pela influência de uma, a outra se tornou poderosa e rica também. Isso, contaram-me, foi o começo de tudo, há mais de um século. Depois, a mãe de sua avó começou a negociar conosco, e descobrimos que também ela era uma mulher de grande intelecto, honra e ética. Isso foi há mais de 70 anos. As duas famílias se ligaram pelo casamento, e os frutos dessa liga­ção continuaram negociando com os Kira. A associação tem sido de muito sucesso para todos os envolvidos, milady.

— Espero que mantenhamos essa tradição no Novo Mun­do — disse Fortune com sinceridade e um sorriso largo.

— Amém — entoou Johnathan Kira. — Amém, milady.

Capítulo 17


Fortune se debruçou sobre a balaustrada do CardiffRose e olhou com interesse para o contorno da terra que seria seu novo lar. Havia uma beleza tão incrível que ela quase chorou. Havia um sentimento de pertença que jamais experimentara. Kieran ti­nha razão. Aquela era a sua casa. Era diferente de tudo o que já vira antes. A baía por onde navegavam era ampla, e a água era muito, muito azul. No céu, o sol brilhava forte sem nenhuma nuvem para encobri-lo. Como tudo era diferente da Inglaterra que havia deixado um mês e meio atrás!

O último dia de primavera tinha sido cinzento e chuvoso, e de repente Fortune Lindley Devers sentira medo. Havia estado no cais com a mãe e o pai que a criara tão bem momentos antes do embarque, notando que os olhos de Jasmine estavam ver­melhos e inchados, evidência de que havia chorado muito, em­bora agora estivesse calma e controlada, como sempre. Até James Leslie se mostrava inusitadamente silencioso enquanto segurava nos braços a pequena Aine.

— Vamos ter de zarpar em breve, prima — Ualtar OTlaherty anunciou, juntando-se a eles. — Logo a maré estará a nosso favor. — Ele se retirou para dar a devida privacidade à família.

— Um dia voltará para nos ver — exigiu James Leslie de repente.

Fortune sentiu as lágrimas ardendo nos olhos.

— Acho que não, papai. Não sou corajosa nem aventureira, como mamãe e índia. Assim que chegar inteira ao outro lado do oceano, permanecerei lá para sempre. Lembre-se de que sou a filha sensata e prática.

— Sensata! — exclamou Jasmine, áspera. — Se fosse mes­mo, não teria se apaixonado por Kieran Devers. — Seu coração se partia com a certeza de que nunca mais veria a segunda filha dela e de Rowan. Fortune estaria tão longe dela quanto Rowan, embora tivesse o consolo de saber que a filha estaria viva. Jas­mine podia sentir a revolta crescendo. Mas ela a engoliu. Não era culpa de Kieran. Nem de Fortune. A culpa era da ignorân­cia e da mente restrita e pobre de pessoas que não conseguiam aceitar coisas diferentes daquelas em que acreditavam. Pessoas que queriam que todos fossem iguais, pensassem da mesma maneira, adorassem da mesma forma. Almas destituídas de alegria que não conseguiam aceitar um Deus de amor, transformando-o em uma vingativa divindade de fogo que não per­doava nenhuma dissidência. Sentia pena dessa gente, mas, ao mesmo tempo, amaldiçoava-a em silêncio pois essa intolerân­cia tiraria para sempre de sua vida uma de suas filhas.

— Mamãe, chegou a hora — anunciou Fortune. — Você e papai devem desembarcar agora. Temos de nos despedir.

Jasmine olhou para a filha, tomada por um repentino de­sespero. Não, gritava uma voz dentro dela. Fortune falou novamente.

— Quero que saibam que sou grata por todos os bons mo­mentos que tivemos juntos. Sempre me lembrarei disso, ma­mãe, mesmo quando for velha e estiver muito cansada. Não chorem por mim. Estou seguindo meu destino, fazendo o que a vida quer que eu faça. Amo Kieran. E vou amar nossa nova vida em Mary's Land. Mandarei notícias por carta sempre que o Cardiff Rose fizer a viagem entre a colônia e o Velho Mundo. Nem vai notar que estou tão longe, mamãe. Sei que deseja mi­nha felicidade. — Ela abraçou a mãe. — Adeus. Lembre-se sem­pre de que amo você, papai e toda a nossa família. Não me es­queçam. — Ela soltou Jasmine e abraçou o duque com o mesmo carinho. — Adeus, papai. Obrigada por ter criado e amado a última filha de Rowan Lindley como se fosse sua.

Ela o soltou, virou-se e embarcou levando a filha nos bra­ços, temendo ser dominada pelas emoções e perder a coragem que ainda tinha. Então, todos se dissolveriam em um choro de tristeza e dor.

A brisa morna tocou o rosto de Fortune e ela voltou ao pre­sente. Seus olhos estavam inundados por lágrimas provocadas pelas recordações. A travessia desde a Inglaterra fora relativa­mente fácil, sem nenhuma tempestade mais séria, embora hou­vessem tolerado alguns dias de garoa e céu encoberto. Para­ram primeiro na Irlanda, para o embarque das mulheres e crianças de Maguire's Ford e Lisnaskea. O Highlander já havia zarpado de Ulster vários dias antes, com os cavalos e os outros animais de criação que seguiriam para Mary's Land. Rory Maguire fora cumprimentá-la no porto em Dundalk, tendo ele mesmo acompanhado os colonizadores até lá.

— Então, finalmente parte em sua grande aventura — dis­sera ele beijando seu rosto. — Onde está sua filha? Quero co­nhecê-la, Fortune!

Róis apresentou-se com as duas crianças, e os olhos de Rory se iluminaram. Ele pegou a pequena Aine.

— Ah, ela é linda, Fortune! E Róis, olhe para a entrada do porto. Lá está sua avó. Bride Duffy vai subir a bordo para co­nhecer o neto.

— Trouxe todo o vilarejo? — brincou Fortune, caminhando ao lado de Rory e Aine pelo convés.

— Bem, Fergus tinha de dirigir a carroça que trazia mulhe­res e crianças, as bagagens e as provisões de cada grupo. E não teve como impedir Bride de vir com ele... — Rory deu uma risadinha, e Fortune riu também. — Então você está achando en­graçado, não? — Ele fez cócegas em Fortune, despertado nela uma risada ainda maior. Minha neta! Os olhos de Rory se en­cantavam com Aine, depois voltaram-se novamente a Fortune. Minha filha! Nunca mais as veria e não resistira à oportunidade de se despedir das duas. Ele suspirou. Parte dele gostaria de revelar a verdade, mas não podia. Não tinha o direito de des­truir a identidade da filha só para dar ao coração um momento fugaz de alegria. Além do mais, ela poderia odiá-lo por isso. Melhor guardar o terrível segredo.

— Como vão meus irmãos? — perguntou Fortune.

— Bem. — Foi a resposta. — Adam é um homem da terra, sem dúvida, e Duncan continua sendo o estudioso. Os dois são muito queridos na região.

— E a paz ainda reina em Maguire's Ford?

— Sim, mas em nenhum outro lugar da Irlanda. A situação é pior a cada dia, Fortune, e vai continuar piorando até que os ingleses saiam de nossas terras.

— E o irmão de Kieran? A família de meu marido?

Sir William continua exercendo sua tirania, embora preso ao leito. O infortúnio não o tornou mais brando. Pelo contrá­rio, só alimentou sua crueldade. Receio que ele ainda sobrevi­va por muitos anos. Dizem que a mãe e a esposa agora o te­mem. Quanto à filha, ele praticamente nem reconhece sua existência. É triste, mas o homem vai viver eternamente amar­gurado por ter perdido você, e por não ter mais os movimentos da cintura para baixo.



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