Fortune, uma mulher impiedosa. Bertrice small



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— Graças a Deus! — comentou James Leslie.

— Amém, milorde — respondeu Maguire.

A manhã progredia rapidamente. A névoa se dissipou, dan­do lugar a uma luminosidade radiante, embora não houvesse sol. Na verdade, logo choveu novamente. Estranhamente, o céu cinzento só tornava o verde da paisagem ainda mais verde em comparação. As colinas eram suaves, pontuadas ocasionalmen­te por uma rocha grandiosa, um vilarejo ou um castelo, quase sempre em ruínas. Havia poucos moradores, Jasmine notou; menos do que no passado, quando estivera ali pela última vez. Alguns povoados eram desertos, abandonados, em franca de­cadência; outros haviam desaparecido por completo, sua exis­tência atestada apenas por uma cruz celta caída em uma praça coberta por mato. Ulster, que nunca fora muito populosa, ago­ra era quase deserta.

— O que aconteceu aqui? — perguntou Jasmine a Rory Maguire.

— Nem todos os senhores de terra são como você, milady. Conhece as penalidades impostas àqueles que seguem a fé ca­tólica. Muitos foram expulsos de suas terras por não terem se convertido ao protestantismo. É simples assim.

— Mas esses senhores de terra a que se refere nem estão na Irlanda — argumentou Jasmine. — Que diferença faz para eles que religião seguem seus colonos e servos, desde que trabalhem adequadamente e tornem suas terras produtivas, prósperas?

— Eles nomearam agentes e administradores que seguem a letra da lei. Muitos são ingleses, como os desbravadores. Te­mos senhores de terra escoceses também, mas os escoceses ain­da permanecem na Escócia, exceto pelos que conseguiram cor­tar laços com seus clãs para reclamar terras próprias.

— O que acontece com essas pessoas?

— Vão procurar parentes em regiões da Irlanda onde as leis não são seguidas de maneira tão rigorosa. Fogem para regiões mais remotas, adotando uma forma de vida mais primitiva. Morrem. Alguns emigram para a França ou para a Espanha. Não há outras opções.

— O mundo é assim — disse Fortune em voz baixa, surpreendendo-os. — Foi o que aprendi nos meus estudos, o que minha mãe sempre disse. Uma tribo conquista outra, e outra, e assim por diante. Nada permanece inalterado para sempre. Como minha mãe, porém, não vejo necessidade para o que está acontecendo na Irlanda. É cruel e desnecessário.

— E há tanta crueldade de um lado quanto de outro — acres­centou Rory. — Em Maguire's Ford temos a sorte de contar com dois religiosos liberais e abertos, mas essa é uma ocorrência única. Para cada sacerdote protestante que diz ao seu rebanho que o catolicismo é mau porque incentiva a idolatria e os ídolos, há um sacerdote católico pregando que protestantes são hereges sujos que deviam ser queimados, que o fogo é o destino do qual eles não poderão escapar, porque, se escaparem aqui, na Terra, certamente arderão no inferno, por serem servidores do demônio. Essas idéias não levam à compreensão, ao entendi­mento nem à tolerância, milady. Lamento afirmar que existem mais homens como John Appleton do que pessoas como aque­las com quem convive.

— Gosta de minha mãe, não é? — indagou Fortune, aproxi­mando sua montaria da dele.

Com o coração contraído no peito, Rory forçou um sorriso.

— Sim, milady, gosto dela. Sempre gostei. Deve ser sua por­ção irlandesa, porque sua mãe tem um grande coração.

— Minha mãe diz que devo mantê-lo comigo, caso real­mente permaneça na Irlanda, porque é confiável como poucos homens que ela conhece.

— Seu marido pode ter outros planos, milady.

Ela o encarou como se ele houvesse perdido o juízo. Era um olhar que Rory reconhecia, mas certamente não era o olhar da mãe dela.

— Meu marido não exercerá nenhuma influência sobre a administração da propriedade. Se eu me casar com William Devers, ele não terá posse de minhas terras nem poder sobre elas. Ele tem as próprias terras para administrar. As mulheres de minha família não entregam a própria riqueza aos homens com quem se casam. Isso é impensável!

Ele riu alto.

— Sua mãe a criou muito bem, milady Fortune.

— Se eu me casar com William Devers, você permanecerá em seu posto, Rory Maguire. Além do mais, vou precisar de você para aprender tudo sobre a criação e o comércio de cava­los. Gosto muito deles, mas sei pouco ou quase nada sobre como fazer dinheiro com essas criaturas.

— Sabe como falar com os cavalos. Vi como falou com Thunder antes de cavalgá-lo. Com quem aprendeu isso, milady Fortune?

— Com ninguém. Sempre falei com um animal antes de assumir o comando e tomar as rédeas. Acho que é natural, sen­sato... polido. Minha irmã e meus irmãos zombavam de mim por isso, mas nunca fui derrubada, nem tive nenhuma dificul­dade com minhas montarias.

— Deve ser a irlandesa em você — apontou ele, sorrindo.

— Gosto de você, Rory Maguire.

— Também gosto de você, Lady Fortune Mary Lindley.

— Como sabe meu nome inteiro?

— Então não sabe, milady, que sou seu padrinho?

— Você é? Mamãe! — chamou Jasmine, olhando para trás. — Isso é verdade? Rory Maguire é meu padrinho?

— Sim, é — confirmou Jasmine.

— Então — disse Fortune, enfática, passarei a chamá-lo de tio Rory, e você vai me chamar de Fortune quando estiver­mos em situações privadas, enfamille.

Ele olhou para Jasmine, que assentiu.

— Muito bem, Fortune — concordou Rory, sentindo o cora­ção tomado de ternura pela generosidade e pelo charme da jo­vem. Essa não era uma jovem dama orgulhosa. O povo de Maguire's Ford a aceitaria sem questionamentos, e poderiam continuar vivendo pacificamente, desde que William Devers não interferisse na autoridade da futura esposa. Rory tentou imaginar como o rapaz reagiria à idéia de Fortune manter as próprias terras e sua riqueza. Se conhecia bem Jasmine, ela o faria assinar um documento legal antes mesmo de se aproxi­mar da Igreja para o casamento.

A chuva parou e, quando o grupo desmontou para dar des­canso aos cavalos e comer um pouco de pão e queijo, o sol bri­lhava no céu. A julgar pela ausência de nuvens, a tarde seria clara e aberta, Rory concluiu. Olhando em volta, viu marcos familiares e concluiu que, por terem saído cedo, chegariam em Maguire's Ford no meio da tarde. Com discrição, observou o relacionamento entre Jasmine e o marido. Eles eram tão obvia­mente apaixonados um pelo outro que assistir ao intercâmbio causava-lhe dor quase física. Apesar do que dissera a Adali na noite anterior, apesar de tudo o que havia dito ao Padre Cullen, sempre existira dentro dele um local secreto ocupado pela es­perança de um dia ser amado por Jasmine. Agora podia ver claramente que isso nunca aconteceria. Saber disso era como matar parte importante dele mesmo. Rory suspirou alto.

Fortune, que estava sentada ao seu lado na relva, ouviu o suspiro e o encarou.

— Qual é o problema, tio Rory? Nunca ouvi som mais tris­te! O que o aborrece?

A compaixão da jovem o surpreendeu. Rory sentiu os olhos cheios de lágrimas e as conteve com esforço.

— Ah, minha querida... Nós, irlandeses, somos propensos a momentos de depressão e desânimo. — Ele fez uma leve pres­são na pequena e graciosa mão que segurava a sua. — Não se incomode comigo. E agora, se todos estão prontos, devemos seguir viagem. — Levantou-se e ajudou a afilhada a pôr-se em pé também. — Você foi um bebê tão pequenino... Agora cres­ceu e se transformou em uma bela mulher.

— Ainda estou me perguntando de onde vem esse desâni­mo e essa tristeza, tio Rory. Também sofro com essas alterações repentinas, sabe? Deve ser minha porção irlandesa. Para uma jovem cujo pai é inglês, e a mãe, inglesa e Mugal, ainda guardo muitas características de minha bisavó irlandesa — riu ela.

O grupo seguiu viagem num ritmo mais confortável, com a carruagem logo atrás dos cavalos. A tarde era clara, e o sol aque­cia suas costas. Finalmente, chegaram ao topo de uma colina, de onde se via uma larga extensão de água. Rory disse a Fortune que aquele era Louch Erne, e Jasmine repetiu a mesma explica­ção ao marido. Braços de rio cortavam a área conhecida como Fermanagh, percorrendo toda a sua extensão antes de se trans­formarem no rio Erne, que desaguava na Baía Donegal, em Ballyshannon.

Rory apontou para a frente, dizendo:

— Lá está Maguire's Ford, e ali, depois do rio, Erne Rock Castle, onde espero você queira viver para sempre, Fortune.

— Olhe para o prado lá embaixo, meu bem! — Jasmine orientou a filha. — Aqueles são os nossos cavalos. E veja! Car­neiros! Estou vendo que o rebanho que mandamos de Glenkirk procriou muito bem, Rory!

— Sim, milady, de fato.

Desceram a encosta a caminho do vilarejo. Diante deles, meninos corriam e gritavam para os habitantes em irlandês e em inglês:

— Eles chegaram! Chegaram!

Pessoas começaram a sair de suas casas e homens retor­navam dos campos, todos se alinhando ao longo da estrada para ver a proprietária de Maguire's Ford retornando depois de 20 anos.

Jasmine reconheceu um rosto no grupo e, sem hesitar, de­teve sua montaria, desmontando com agilidade para abraçar a mulher sorridente.

— Bride Duffy! — exclamou ela, emocionada, ao cumpri­mentar a velha amiga.

CaiMillefailtel Mil vezes bem-vinda! — respondeu Bride Duffy com um sorriso genuíno. — Seja bem-vinda de volta a Maguire's Ford, milady Jasmine!

As duas se abraçaram novamente, e depois Jasmine cha­mou Fortune.

— Esta é sua afilhada, Bride Duffy. Fortune curve-se para sua madrinha.

A jovem dama obedeceu à ordem materna.

— Como vai Senhora Duffy? — perguntou Fortune com cortesia. — É um prazer conhecê-la finalmente.

— Deus a abençoe, milady. Também fico muito feliz por reencontrá-la. Na última vez em que a vi, você era só um bebê. — Ela hesitou por um momento, e então abraçou a afilhada. — Agora está de volta ao lugar onde viu a luz deste mundo cruel pela primeira vez, e soube que vem para se casar!

— Só se gostar dele — esclareceu Fortune, apressada.

— Vejo que é parecida com sua mãe — riu Bride Duffy.

— Minhas filhas são muito decididas — comentou Jasmi­ne, orgulhosa. — Venha Bride, quero que conheça meu mari­do, James Leslie.

Conduziu a amiga até o local onde o duque esperava pa­ciente e os apresentou.

Finalmente, Rory conseguiu levar Fortune e os Leslie para o castelo. A carruagem transportando Adali e Rohana já se­guira viagem. O castelo em Erne Rock ficava sobre uma pe­quena elevação de terra e era cercado por água em três de seus lados. A construção tinha quase 300 anos. Para entrar, era ne­cessário atravessar uma ponte levadiça que se estendia sobre um fosso, parte do rio que havia sido cavada para aumentar a segurança do castelo. Pedras enormes davam sustentação à margem criada por mãos humanas. Com a ponte elevada, a propriedade tornava-se uma fortaleza inacessível, embora não fosse grandiosa.

Conduziram as montarias pela ponte e foram recebidos no pátio por vários garotos que trabalhavam nos estábulos. Fortune entregou seu cavalo a um deles e olhou em volta, estudando o local — os estábulos, a casa na entrada, ao lado do portão, o pátio pavimentado por grandes pedras planas e lisas... Seguiu a mãe pelos degraus de uma pequena escada. Ao pé da escada havia uma roseira vermelha cheia de flores abertas. A jovem segurou uma delas nas mãos e a cheirou. Então se apressou em alcançar a mãe.

Em seu interior, Erne Rock era um ambiente espaçoso e aconchegante. No andar térreo o piso era de pedras, e no andar superior havia tábuas de madeira polida. O Grande Salão ti­nha duas lareiras acesas. Não era realmente grande, igualan­do-se em tamanho ao salão privado da família em Glenkirk. Em uma das paredes havia uma tapeçaria mostrando St. Patrick expulsando as serpentes da Irlanda. A mobília era de carvalho polido e brilhante. Havia uma biblioteca no piso térreo e um aposento onde Rory costumava conduzir os negócios da pro­priedade. A cozinha ficava atrás e abaixo do Grande Salão. No segundo andar do castelo ficavam os diversos dormitórios, cada um com sua lareira.

Jasmine abriu a porta de um deles, o principal, e recuou para que a filha pudesse entrar.

— Você nasceu aqui — revelou ela. — A irmã de Madame Skye, Eibhlin, trouxe você ao mundo. Confesso que o seu parto foi o mais difícil para mim, porque você estava virada para o lado errado. Cheguei a apostar uma moeda de ouro com minha mãe que você era um menino.

— Ficou desapontada? — perguntou Fortune curiosa, pois nunca havia escutado essa história antes.

—Não. Como poderia? Você era uma menininha linda e per­feita, com a mesma pinta de seu pai sob o nariz, do lado esquer­do, bem acima do lábio. Mas, mais importante, você foi o último presente de seu pai para mim, e eu o amei muito, como bem sabe. Você, Índia e Henry são tudo que tenho de Rowan Lindley, além das doces lembranças. Esse foi o maior legado que já recebi.

— O que aconteceu com minha tia-avó Eibhlin? Ainda está viva? Podemos vê-la?

Jasmine sorriu.

— Não, meu bem. Eibhlin 0'Malley, Deus guarde sua boa alma, morreu quase dois anos depois de você ter nascido. — Ela enxugou uma lágrima furtiva, pois pensar em Eibhlin tra­zia-lhe de volta lembranças da avó. Jasmine concluiu que a Ir­landa a entristecia. Recomposta, prosseguiu: —Agora este será seu quarto, meu bem, porque é o aposento ocupado sempre pela senhora da casa.

— Ainda não sou a senhora de Erne Castle, mamãe. Você e papai devem ficar neste quarto. Quero um com vista para o rio. Se eu tomar William Devers por meu marido, então, depois do casamento, ele e eu nos mudaremos para os aposentos princi­pais. Mas não agora, mamãe.

— Tem certeza?

— Sim, tenho. E você, mamãe? Ficará incomodada por dor­mir com seu marido no mesmo quarto onde dormia com meu pai? Se preferir outro dormitório...

— Não, querida. Tenho boas lembranças de seu pai aqui, mas também tenho recordações muito tristes. Estar aqui com Jemmie pode apagar essas memórias infelizes, e passarei a pen­sar em Erne Rock apenas como local de alegria, porque você nasceu aqui, e também se casará aqui. Meus netos nascerão em Erne Rock.

— Talvez...

Jasmine pegou a filha pela mão e, juntas, foram se sentar sobre a cama larga no centro do quarto.

— Querida, desde o início tenho sentido em você uma cer­ta relutância com relação a esse casamento. É natural que uma donzela hesite diante de suas núpcias, mas sinto que, no seu caso, é mais do que isso. O que a incomoda, minha filha?

— Você e papai estão sempre dizendo que não terei de me casar com esse William Devers se não gostar dele. Mas, ao mes­mo tempo, falam como se fosse apenas uma questão de tempo até nos conhecermos e estarmos casados. Não sou como você, mamãe. Não quero que meu marido seja escolhido por tercei­ros. Quero escolher eu mesma o homem com quem vou me ca­sar! Você me trouxe a um lugar estranho e espera que me case com um desconhecido. E se eu realmente não gostar de William Devers? O que acontecerá?

— Se você não gostar mesmo desse rapaz, encerraremos a história. Mas por que acha que não vai gostar dele? E por que diz que meus maridos foram escolhidos por outras pessoas? Sim, é verdade que meu pai, o Mugal, escolheu meu primeiro marido. Não vi o Príncipe Jamal Khan até o momento em que fomos unidos em matrimônio. Porém, meus pais escolheram com sabedoria, e fui muito feliz com ele. Minha avó escolheu seu pai, que eu já conhecia antes do casamento; o velho Rei James escolheu seu padrasto, que eu também conhecia. Às ve­zes as pessoas mais velhas são mais sábias que os jovens, Fortune. Mas, se realmente não gostar desse rapaz, não terá de se casar com ele. Jemmie e eu não seremos infelizes por isso.

— Nenhum de nós conhece William Devers — apontou Fortune.

— Meu primo, Padre Cullen Butler, o conhece. O Reveren­do Steen o conhece. E eles acreditam que o rapaz é um bom pretendente à sua mão, meu bem. Talvez seja, talvez não. Só o tempo vai dizer. Veremos... No entanto, como já procuramos a família do rapaz, é justo que dê a ele uma oportunidade de se fazer conhecer.

— Sim, é claro — concordou a jovem sem entusiasmo. Jasmine levantou-se.

— Agora venha, querida. Vamos nos juntar aos cavalheiros no salão. Meu primo já deve ter chegado.

Juntas, mãe e filha desceram a escada e adentraram o salão de braços dados. Rory Maguire e James Leslie conversavam com um sacerdote "de cabelos brancos e vestes negras. Jasmine dei­xou a filha e correu a abraçá-lo.

— Cullen Butler! Oh, como estou feliz por revê-lo! É uma alegria encontrá-lo tão bem! Agradeço por ter me ajudado a pre­servar a paz em Maguire's Ford.

— Continua linda como sempre, Yasamin Kama Begum, mesmo sendo mãe de muitos filhos — elogiou-a, sorrindo.

— Já sou avó, Cullen. De um menino chamado Rowan e uma menina chamada Adrianna.

Os olhos do sacerdote buscaram Fortune, e seu coração deu um salto diante dos abundantes cabelos vermelhos. Seu rosto, porém, expressava apenas calma e alegria.

— Esta deve ser Lady Fortune Mary, a criança que eu mes­mo batizei há tantos anos. Seja bem-vinda de volta à Irlanda, minha menina.

Fortune curvou-se e sorriu. Sentia no padre um amigo e um forte aliado.

— Obrigada, Padre.

Ele a levantou e beijou-a no rosto.

— Primo Cullen quando estivermos en famille, minha me­nina. E você certamente cresceu desde a última vez que a vi. E tem cabelos como os de sua trisavô 0'Malley, uma escocesa de Isle of Skye. Não a conheci, porque ela morreu antes de eu nas­cer, mas diziam que tinha cabelos como os seus, uma nuvem de fogo.

Ele é rápido e astuto, Adali pensou em seu canto, perto da porta do salão. Madame Skye teria ficado satisfeita, mas ela mesma o escolhera anos antes, e o enviara à índia para cuidar de sua senhora. Ainda assim, ele conseguia convencer a famí­lia de que a cor dos cabelos de Lady Fortune era uma caracte­rística da família, embora nenhum dos irmãos ou primos dela exibisse cachos de tão marcante cor. O criado sorriu interna­mente, satisfeito.

— Gostaria de ver o Reverendo Steen — comentou Jasmine.

— Eu o convidei para vir comigo — disse o padre —, mas ele achou que antes deveríamos ter algum tempo para um reen­contro familiar. Ele virá amanhã.

— E os Devers? Quando vamos conhecê-los?

— Na semana que vem. Eles foram convidados para se hos­pedar em Erne Rock por três dias, a fim de permitir que os dois jovens se conheçam e decidam se gostam um do outro.—Cullen Butler virou-se para Fortune. — Está ansiosa para conhecer seu prometido, criança? Posso assegurar que ele é um rapaz de rara beleza.

— Ele não é meu prometido. Não enquanto não o conhecer e decidir se ele serve para mim. Não me casarei com um ho­mem que não possa amar.

— Uma decisão sensata, minha filha — apoiou o sacerdote. — O casamento é um sacramento maravilhoso e deve ser trata­do com respeito, Fortune Mary. Porém, gostei do que ouvi so­bre o jovem Mestre Devers e tenho certeza de que também vai aprová-lo.

— Meu bem, acompanhe Adali. Ele a levará para conhecer o restante do castelo — sugeriu Jasmine. —Já que será a senho­ra do lugar, deve conhecê-lo bem.

Fortune pediu licença e se retirou com Adali.

— Ela está hesitante, o que é natural — comentou o sacer­dote. — Quantos anos tem sua filha agora?

— Vai fazer vinte no próximo verão.

— Madura o bastante para não se comportar como uma vir­gem relutante — resmungou o duque de Glenkirk. — Ela devia estar casada há anos, e teria se casado, não fosse pela obstina­ção da irmã mais velha.

— Jemmie, você prometeu que não criaria problemas com Fortune. Caso contrário, só vai conseguir fazê-la recuar e de­sistir de tudo. Se ela e William Devers não se entenderem será lamentável, mas não será o fim do mundo, querido. Certamen­te há alguém em algum lugar que sirva para nossa menina, e ela o encontrará no momento certo. Disso estou certa.

— Está se tornando mais parecida com sua avó a cada dia que passa — respondeu James Leslie, carrancudo. — Hoje em dia, uma moça precisa de um marido. Encontramos para ela um pretendente respeitável e de boa família, alguém que, pelo que eu soube, é belo e bem formado; um rapaz que um dia terá uma herança respeitável. Ela tem sorte por esse jovem conside­rar como pretendida uma mulher de sua idade. Vinte anos! Fortune praticamente passou da idade de se casar!

— Isso é só nervosismo de noiva — Cullen Butler tranqüili­zou o duque. — Assim que conhecer o jovem William, Fortune se sentirá mais segura, milorde. Garanto.

— Também pensa assim, Rory? — perguntou James Leslie ao administrador da propriedade.

— Não ouvi nada que desabone esse rapaz, milorde. A mãe dele administra uma pousada em Lisnaskea, pelo que soube, mas o jovem casal viverá aqui em Erne Rock. Dizem que ele é um bom rapaz, embora eu prefira o irmão mais velho.

— Irmão mais velho? Fui informado de que William Devers é herdeiro do pai. Se ele tem um irmão mais velho, isso é im­possível!

— O primogênito foi deserdado, milorde.

— Por quê?

— Por ser católico.

— Que horror! — exclamou Jasmine, indignada.

— É o mundo em que vivemos — comentou o duque com tom sombrio. — E absurdo que tal ignomínia seja permitida nos tempos atuais, mas... acontece.

— Mesmo aqui na Irlanda, e especialmente aqui em Ulster, somos discriminados e perseguidos — revelou o padre. — As penalidades aplicadas aqui são as mesmas da Inglaterra. Os católicos não podem ter cargos públicos, exceto na Casa dos Lordes.

— Mas isso é porque eles não poderiam, em sã consciência, jurar acatar a supremacia do rei, visto que não podem aceitá-lo como chefe da Igreja na Inglaterra — argumentou Jasmine.

— A missa não pode ser rezada em público, e ninguém pode abrigar sacerdotes — continuou Cullen Butler. — Você não paga multas à coroa por nossa presença aqui em Maguire's Ford? Caso contrário, já teriam nos expulsado. Eu me certifico de que meu povo compareça ao serviço do Reverendo Steen várias vezes por mês, pois assim evitamos suspeitas e acusações de traição. Deixar de tomar a comunhão em importantes dias de jejum acarreta multa de vinte libras. Três dessas ofensas justifi­cam condenação por traição.

— Você sabe por que é assim — respondeu Jasmine. — Mi­nha avó estava em Paris com meu avô Adam em 1572 quando ocorreu o massacre de São Bartolomeu. O Papa Gregório XIII regozijou-se publicamente em Roma quando soube da tragé­dia e organizou uma procissão de padres e cardeais para cele­brar a morte daqueles pobres protestantes. Ora, ele encorajou publicamente o assassinato da boa Rainha Bess e até ofereceu absolvição adiantada para quem a matasse. Mais tarde, em 1605, um grupo de tolos católicos ingleses planejou explodir as Ca­sas do Parlamento enquanto o velho Rei James discursava. Mesmo assim, não acredito que os católicos devem ser penali­zados e perseguidos pelos erros de um punhado de fanáticos.

— Concordo com você, minha prima. E, em nome de todo o meu rebanho, agradeço por tudo que tem feito por nós.

Os dias seguintes foram calmos para Jasmine, James e Fortune, que aproveitaram para descansar e recuperar as for­ças depois da viagem desde a Escócia. Fortune explorava a pro­priedade sozinha ou na companhia de Rory Maguire. Ela deci­diu rapidamente que não haveria mudanças por ali, pois gos­tava do irlandês e de como ele administrava o lugar. Tinham muitas coisas em comum, ela e Rory; em especial, o amor pelos cavalos. Era como se conhecessem um ao outro desde sempre.

Na segunda-feira de manhã, o Reverendo Samuel Steen chegou em Erne Rock para cumprimentar a senhora do castelo e sua filha e herdeira. Ele era um homem alto com belos olhos cinzentos. Seus cabelos castanhos tinham mechas grisalhas, como a barba que lhe cobria o queixo redondo. Sua voz era pro­funda e ressonante.

— Bom dia, milady — disse ele, enquanto se curvava para Jasmine.

— É um prazer finalmente conhecê-lo, Reverendo Steen — respondeu-lhe Jasmine. — Steen... É um nome diferente, senhor. Embora, de forma alguma, eu tenha a intenção de ofendê-lo. Ve­nha, vamos nos sentar diante da lareira. O dia está úmido e frio.



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