Fortune, uma mulher impiedosa. Bertrice small



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Samuel Steen aceitou o agradável convite.

— O nome Steen é de Hainault, milady. Minha família, que se ocupava do comércio e da produção de tecidos, che­gou à Inglaterra há mais de 300 anos acompanhando a Rai­nha Philippa. Várias famílias de tecelões vieram com ela. Era nossa tarefa estabelecer a indústria têxtil e o comércio de teci­dos na Inglaterra, de forma que não fosse necessário exportar a lã produzida no país para tecê-la no estrangeiro e importar o tecido. Deixamos a Inglaterra há alguns anos e fomos para a Holanda, porque sofríamos perseguição religiosa. Há 10 anos tivemos a chance de voltar para as colônias inglesas no Novo Mundo, mas, em nosso navio, o Speedwell, abriu-se uma rachadura. Tivemos de parar em um porto inglês. Fomos então convi­dados a vir para a Irlanda, ou poderíamos voltar para a Holanda. Escolhemos a Irlanda. Por sorte, Mestre Maguire estava nas do­cas no dia em que aportamos. Ele nos ofereceu abrigo aqui em Maguire's Ford, com a condição de que preservássemos a paz com os vizinhos católicos. Como poderíamos discordar? Co­nhecemos bem a amargura da perseguição. Mas alguns dos nossos se deixaram dominar pelo preconceito, então, achamos por bem abandoná-los. E nunca lamentamos o dia em que vie­mos para cá, milady.

— Também não lamento o dia em que chegaram, reveren­do. Meu primo Cullen Butler escreveu-me contando sobre como começaram uma pequena indústria têxtil aqui no vilarejo e como ensinaram o ofício também aos vizinhos católicos. Que­ro que saiba que fiquei muito satisfeita com sua iniciativa, Re­verendo Steen. E amanhã saberei se é também um bom avalia­dor de noivos — concluiu Jasmine, sorrindo.

— Vi a jovem Lady cavalgando com Mestre Maguire. Ela é muito bonita. O jovem William será um bom marido para ela.

— Se eles forem compatíveis — respondeu Jasmine. — Sou uma dessas mães modernas, reverendo. Não vou obrigar mi­nha filha a aceitar uma aliança que a fará infeliz.

Ele parecia um pouco surpreso e até assustado, mas nada disse. Tinha certeza de que os jovens se entenderiam e que apren­deriam a gostar um do outro. Além do mais, no final, os pais sempre fazem o que querem, e o casamento seria celebrado.

— Sua filha é protestante, milady?

— Fortune nasceu aqui em Maguire's Ford, filha póstuma de meu segundo marido, e foi batizada por meu primo. Porém, ela foi criada na Igreja inglesa.

— Talvez eu deva batizá-la na fé protestante. Sir Shane e sua esposa são muito severos e podem ficar incomodados se souberem que a jovem foi batizada por um padre católico. Não quero parecer ofensivo, entenda...

— Um batismo é suficiente para qualquer bom cristão, re­verendo. Se o fato de minha filha ter sido batizada na igreja católica os incomodar tanto assim, talvez o filho deles não sir­va para Lady Fortune. Minha filha é uma grande herdeira. Pode escolher o marido que quiser entre inúmeros pretendentes. Não precisa ser William Devers. É providencial que Fortune o tenha considerado.

O ministro concluiu que Lady Jasmine era uma mulher de vontade inquebrantável e personalidade forte, o que o agrada­va muito. Esperava que a filha dela fosse igualmente forte, por­que sua futura sogra, Lady Jane Anne Devers, era tão tenaz quanto a duquesa de Glenkirk. Era uma protestante rígida que já havia discutido com ele a possibilidade de remoção de todos os católicos de Maguire's Ford quando seu filho se tornasse o senhor do castelo. O jovem William, é claro, era mais flexível, e se o jovem casal fizesse de Erne Rock seu lar definitivo, ele es­taria sob a influência da esposa, e não mais sob a da mãe, o que seria muito melhor, na opinião de Samuel Steen. Não via moti­vos para expulsar os católicos do vilarejo em função de sua es­colha religiosa. Todos se davam bem ali. Se não houvesse inter­ferência, a situação permaneceria inalterada e estável.

Na manhã em que os Devers chegariam, Fortune banhou-se com a ajuda de sua nova criada, Róis, neta mais nova de Bride Duffy. Aos 18 anos, era esguia e tinha grandes olhos azuis que contrastavam com suas trancas negras. A pele de porcelana era marcada por pequeninas sardas sobre o nariz. Róis era obediente e responsável, e a avó a treinara por vários meses para ocupar a cobiçada posição no que em breve seria a nova criadagem de Lady Fortune.

— Já teve um pretendente, Róis? — perguntou Fortune, enquanto a jovem a enxugava.

Róis corou.

— Kevin Hennessey. Gostaríamos de nos aproximar, milady, mas minha avó diz que devemos nos concentrar em manter nos­sas posições. Em um ou dois anos, talvez possamos nos cortejar.

— O que faz seu Kevin?

— Ele ajuda Mestre Maguire com os cavalos.

— E ele gosta do que faz? É eficiente?

— Sim, ele ama os animais. E sabe lidar com eles. Dizem que um dia ele poderá ocupar a posição de Mestre Maguire, mas isso ainda está muito longe de acontecer, milady.

— Você já o beijou?

— Milady! — Róis ficou muito vermelha. — Não devia me fazer essa pergunta!

— Isso quer dizer que beijou! — Fortune riu. — Ótimo! Como é ser beijada? Nunca fui, exceto pelos parentes. Imagino que seja diferente com um pretendente, não?

Róis assentiu, concentrando-se na tarefa de enxugar sua senhora. Não sabia ao certo o que dizer.

— Quando Kevin me beija... Quero dizer, se ele me beijas­se... Meu coração dispara, e tenho a sensação de que todo meu corpo se enche de luz. É difícil descrever, mas é maravilhoso. Ou seria, se acontecesse...

Fortune ria.

— Isso não me diz muita coisa, Róis. Creio que é preciso experimentar um beijo para saber como é. Fico me perguntan­do quanto tempo William vai levar para tentar me beijar. E se vou gostar disso.

—As mulheres normalmente gostam dè ser beijadas, milady — respondeu Róis enquanto começava a vesti-la.

— Minha mãe certamente aprecia — disse Fortune, ajeitan­do os laços da camisa de decote generoso.

Róis calçava as meias finas em sua senhora, prendendo-as com ligas de rosetas douradas. Depois, ajudou-a a colocar os inúmeros saiotes de seda. Em seguida, veio a saia pesada de seda verde com enchimento na parte posterior e aberta na fren­te, para deixar ver o saiote de brocado dourado e cor de creme.

— Sente-se, milady, para que eu possa arrumar seu cabelo. Soltou as mechas presas no alto da cabeça de Fortune e as escovou vigorosamente, dividindo-as ao meio para depois prendê-las no coque retorcido na altura da nuca. Uma única mecha foi deixada solta sobre a orelha esquerda de Fortune, e nela Róis prendeu uma delicada fita dourada adornada por pequeninas pérolas.

—Agora, milady, o corpete—anunciou ela, colocando a peça de decote quadrado sobre a camisa para deixar à mostra a parte superior das fitas e o colo. As mangas delicadas e transparentes receberam a sobreposição de fitas verdes, como a saia, e Fortune escolheu um colar de pérolas para completar o conjunto dis­creto, mas elegante. No pulso esquerdo colocou um bracelete de ouro e esmeraldas, e nas orelhas prendeu os brincos de pé­rolas barrocas e esmeraldas. No dedo, Fortune levava o anel de ouro com o brasão da família Lindley: dois cisnes cujos pesco­ços entrelaçados formavam um coração perfeito.

— Pronto — decidiu ela, satisfeita. — Creio que causarei boa impressão em nosso primeiro encontro.

— Está simplesmente linda, milady.

Batidas suaves na porta desviaram a atenção de Róis, mas, antes que pudesse atender, ela se abriu e a duquesa de Glenkirk entrou no aposento da filha. Vestida com rica seda cor de vinho e ostentando colar e brincos de rubis, vários braceletes e anéis, era a imagem de requinte. Seus cabelos estavam presos como os de Fortune, com exceção da mecha solta.

— Está linda! — elogiou Jasmine, orgulhosa. — O verde é perfeito para seu tom de pele, olhos e cabelos. Você é clara como seus ancestrais irlandeses, meu bem. E muito formosa.

— Merci, mamãe. Vejo que está vestida para a guerra. — Ela riu. — Acha justo intimidar Lady Jane em nosso primeiro en­contro? A duquesa de Glenkirk é realmente grandiosa!

— Pessoas que conhecem Lady Jane me informaram de sua natureza imponente, Fortune. Ela intimida as pessoas com quem se relaciona. Quero que ela entenda que posso ser muito mais intimidadora, e que, por inferência, compreenda que você não se deixará dominar. É importante estabelecer essas coisas des­de o primeiro encontro, ou terá grandes dificuldades mais tar­de. Lembre-se de que é com o jovem William que contempla casamento, não com a mãe dele. E ele, pelo que me disseram, é um rapaz muito gentil e agradável, como o pai. E sua futura sogra que deve ser posta em seu devido lugar hoje, pois assim evitará complicações futuras, caso realmente decida aceitar o jovem William.

— Ouça sua mãe, milady — manifestou-se Róis com fran­queza pouco habitual.—Existem fortes rumores sobre Lady Jane Devers mesmo aqui em Maguire's Ford. E minha avó me esfolaria se soubesse que estou fazendo esse tipo de comentário.

— Que rumores? — indagou Fortune, séria.

— Dizem que ela odeia católicos e que não os tolera perto dela. Os que vivem em Lisnaskea precisam esconder sua fé, ou correm o risco de perder tudo. Casa, posição, tudo que tiverem. O enteado dela, Mestre Kieran, só é aceito na casa porque ela não ousa expulsá-lo por medo do escândalo. Sir Shane o deser­dou quando ele completou 21 anos e se negou a se converter ao protestantismo. Muitos acreditam que Lady Jane tenha influen­ciado o marido.

— Por que o filho mais velho de Sir Shane é católico? — perguntou Jasmine à criada.

— Sir Shane nasceu na Igreja verdadeira e única — res­pondeu Róis com total ingenuidade. — Sua primeira esposa, que Deus a tenha em bom lugar, era Lady Mary Maguire, uma parenta de Mestre Rory. Ela teve três filhos antes de morrer. Moire, Mestre Kieran e, finalmente, Colleén, que matou a mãe ao nascer. Os filhos mais velhos tinham 6 e 4 anos quando perderam a mãe. Dois anos mais tarde, Sir Shane se casou com Lady Jane Anne Elliot, filha única de um mercador inglês que havia sido assentado na área que os ingleses chamam de Derry.

"Lady Jane era uma pequena herdeira, e Sir Shane se sentiu atraído por ela e pela fortuna da família. A única condição im­posta para o casamento foi que Sir Shane se convertesse ao pro­testantismo e criasse seus filhos nessa religião. O pobre homem não era muito forte em sua fé. Tinha três filhos pequenos sem mãe. Embora fosse rico em terras e gado, não dispunha do di­nheiro que o sogro poderia proporcionar e que era necessário para recuperar a propriedade, então dilapidada, e comprar mais animais. Sir Shane cedeu à imposição, foi batizado novamente, dessa vez por um ministro protestante, e eles se casaram em seguida.

As duas filhas de Sir Shane foram facilmente induzidas a aceitar a nova fé abraçada pelo pai. Moire tinha 8 anos, e sem­pre havia sido a preferida. Ela queria agradar o pai, pois temia perdê-lo para a madrasta, embora, com toda a justiça, eu deva dizer que Lady Jane foi boa madrasta para suas enteadas. A pequena Colleen tinha apenas 2 anos quando o pai se casou e nem sabia o que estava acontecendo. Lady Jane foi a única mãe que conheceu. Mas Mestre Kieran tinha 6 anos e era teimoso como os touros criados pelo pai dele. Adorava a mãe. Tudo o que tinha para se lembrar dela, então, era uma pequena minia­tura que ele sempre mantinha consigo, e a fé da mãe. O pai e a madrasta o obrigavam a comparecer à igreja todos os domin­gos, mas, depois do serviço protestante, ele fugia para a missa católica realizada em um local secreto de Lisnaskea. Anos se passaram sem que o pai e a madrasta soubessem disso. E, quan­do descobriram, ele já era um rapaz corajoso. Confrontado, Mestre Kieran nem tentou negar sua devoção católica. Daque­le dia em diante, nunca mais voltou ao templo protestante fre­qüentado pelo casal.

“Lady Jane Ann deu dois filhos ao marido. A menina nasceu quando Mestre Kieran tinha 7 anos. Seu nome é Elizabeth. No ano seguinte nasceu Mestre William. Não houve mais nenhum filho depois disso. Há rumores sobre Sir Shane manter uma amante fora de Lisnaskea, uma certa Molly Fitzgerald, que tem duas filhas dele, mas ninguém comenta o assunto abertamente por ela ser católica. Finalmente, quando Mestre Kieran com­pletou 21 anos, o pai deu a ele um ultimato: desistir do catoli­cismo ou desistir do direito de herança, que seria então trans­mitido ao irmão mais novo, William. Dizem que pai e filho tiveram uma briga tão terrível nesse dia, que toda Ballyshannon ouviu o que gritavam, mas Kieran Devers negou-se a desistir de sua fé por um pedaço de terra. Então, o pai o deserdou e fez de Mestre William seu herdeiro.”

— E, mesmo assim, Kieran Devers ainda mora na casa do pai? — Jasmine estranhou.

— A madrasta não permite que o marido o expulse, pois teme o escândalo e os comentários. Ela quer que tudo pareça ser culpa do enteado. Sempre quis ser a dama boa e gentil. Assim, Mestre Kieran vive em aposentos separados, numa ala afastada dentro da casa. Muitos lamentam que ele tenha perdido sua herança, mas ninguém pode afirmar que Lady Jane tenha sido responsá­vel por isso. Para ela, a opinião das pessoas é muito importante.

"O pobre Mestre Kieran não tem para onde ir. A família da mãe desapareceu, e os parentes do pai estão em Donegal. Ele nem os conhece. Kieran Devers é orgulhoso, mas não é tolo. Minha avó acha que ele fica só para irritar Lady Jane, que apa­renta ser caridosa com ele, mas não é. Comenta-se que ela ten­tou impedir o marido de estabelecer um valor a ser pago ao filho mais velho, o que serviria para aplacar sua consciência de pai, mas Sir Shane não deu ouvidos à esposa, porque ele tam­bém se preocupa com o que dizem as pessoas. O filho mais ve­lho está em seu testamento e, ainda por cima, recebe todos os anos, uma soma com a qual se mantém. Essa generosa pensão, dizem, vem da herança que a mulher recebeu do finado pai. Parece que Mestre Kieran doa generosas quantias à Igreja cató­lica só para enfurecer a madrasta. — Róis riu. — Nunca o vi, mas dizem que ele é belo como o pecado, e malicioso como o próprio diabo. Mas ele é bondoso e está sempre pronto para ajudar aqueles que necessitam. Especialmente os nossos, os que foram expulsos de suas terras por manterem sua fé."

— Nunca a ouvi falar com tanta eloqüência antes — brin­cou Fortune com a criada.

— Porque nunca tive nada a dizer. Mas sua mãe perguntou... Jasmine sorriu.

— Vejo que é prática como minha filha, Róis. Bride a criou bem.

A porta do quarto se abriu, e o duque enfiou a cabeça pela fresta.

— A carruagem dos Devers acaba de atravessar o vilarejo. Vamos, ou não estaremos no salão para receber os convidados. Não queremos parecer rudes, não é?

— Não mesmo? — brincou Fortune.

— Acho que não a castiguei o suficiente quando era peque­na — comentou James Leslie, rindo.

— Você nunca me castigou, papai — lembrou Fortune, en­trelaçando o braço no dele e beijando seu rosto marcado por muitas linhas.

— Então, devia ter castigado. Podemos ir?

— Para o salão — decretou Jasmine. — Adali os levará até nós. Assim, estabeleceremos o tom adequado ao encontro, con­siderando que nossa posição é muito superior à deles. Essa fa­mília deve se sentir honrada por estarmos considerando a pos­sibilidade de um enlace entre nossa filha e o filho deles. Quanto mais sei sobre os Devers de Lisnaskea, menos certeza eu tenho de que eles são a família certa para nos aliarmos. Talvez não te­nhamos procurado bem na Escócia e na Inglaterra...

James Leslie não parecia surpreso com as palavras da espo­sa. O duque sabia que Jasmine faria o que achasse melhor, por mais que ele opinasse, e sabia também que, na maior parte das vezes, ela estava certa.

— Ainda não assinamos nada, minha querida. Não há ne­nhum compromisso — disse ele. — Podemos mudar de idéia se Fortune não gostar do rapaz, ou se decidirmos que ele não é apropriado para nossa menina.

— É bom saber que pensa como eu, Jemmie.

Os três se dirigiram ao salão principal, enquanto Adali ia abrir a porta para os recém-chegados.

— Sir Shane. Lady Jane. Mestre William. Sou Adali, o mor­domo da duquesa. Sejam bem-vindos a Erne Rock Castle. — Ele se virou. — Venham comigo, por favor. Vou levá-los ao du­que e à duquesa. Eles os aguardam no Grande Salão com Lady Fortune.

Capítulo 3


Lady Jane Devers olhou de soslaio para o marido e sussurrou num tom discreto:

— Ela tem um criado estrangeiro e de pele marrom? Shane, ninguém nos informou que ela se associava a esse tipo de gente.

— Se o homem ocupa posição de tal importância na casa da duquesa, Jane, deve ser digno da confiança dela e do duque — respondeu Shane Devers em voz baixa. — Agora, feche a boca ou vai destruir as chances de William fazer um bom casamen­to. A jovem é uma herdeira!

— Eu também era. — A resposta soou gelada.

— Não como essa moça — disparou o marido de volta, quando já entravam no salão.

Ele era um homem alto com cabelos grisalhos e olhos azuis. Seu rosto era envelhecido por muitas horas de exposição ao sol, e as mãos eram próprias de um cavaleiro.

Sua esposa era pequena, com cabelos louros e olhos azuis. Sua compleição ainda era pálida, apesar das faces rosadas pelo ruge que ela julgava fazê-la parecer mais jovem. O vestido era antigo e, apesar de ter sido confeccionado com excelente teci­do, Lady Jane só precisou olhar rapidamente para o traje da duquesa para compreender que estava em desvantagem. Ela quase chorou de frustração. Por que não se dera ao trabalho de descobrir como ela se vestia? Porque presumira que, tendo vin­do da Escócia, a duquesa estaria menos atualizada em ques­tões de moda do que ela própria.

Notando o olhar invejoso da mulher, Jasmine sentiu o doce sabor do triunfo. Lady Jane já se sentia intimidada. Excelente! Ainda não havia tomado uma decisão quanto a William Devers, mas se ele se tornasse seu genro, pelo menos ela já havia conse­guido estabelecer claramente sua posição com relação à mãe dele. Sorrindo graciosamente, a duquesa adiantou-se, dizendo:

— Sejam bem-vindos a Erne Rock, Sir Shane, Lady Jane e jovem William. Quero apresentar-lhes meu marido, James Leslie, o duque de Glenkirk, e minha filha, Lady Fortune Mary Lindley.

Sir Shane se curvou para a dona da casa e anfitriã, assim como seu filho, enquanto sua esposa inclinava a cabeça numa mesura delicada. Os donos da casa responderam com movi­mentos igualmente polidos e respeitosos. Sir Shane respondeu:

— Agradeço por nos receber, sua graça. Sempre quis co­nhecer o interior de Erne Rock.

— Pelo que sei, sua falecida esposa era prima dos Maguire, senhores de Erne Rock — comentou Jasmine com doçura.

— Ela tinha um parentesco mais próximo com Conor Maguire e seu clã, embora os Maguire de Erne Rock tivessem um tio-avô em comum com minha esposa.

— Ah, sim...

— Este é meu filho e herdeiro, William. — A mulher o cutu­cou, irritada. — Ah, sim, e esta é minha esposa, Lady Jane.

— Como vai, sua graça? — perguntou Lady Jane, olhando imediatamente para Fortune. A jovem era bonita demais, e de uma confiança que parecia ser acentuada pelos cabelos verme­lhos e brilhantes. Ela parecia quase irlandesa! — É um prazer conhecê-la, minha querida. Minha adorada enteada também tem o nome Mary.

— Ninguém me chama de Mary. Chamam-me Fortune, se­nhora, porque minha mãe considerou boa fortuna o fato de eu ter sido concebida na noite anterior ao assassinato de meu pai.

Jane Anne Devers inspirou ruidosamente. A menina não tinha o menor senso de decência? Que donzela pronunciava termos como concebida?

— Fortune é um nome único, minha querida, mas se é des­se modo que está habituada a ser tratada, nós também a cha­maremos assim.

— Creio que é um nome maravilhoso — opinou William Devers, aproximando-se de Fortune para beijar a mão dela. — Seu criado, milady Fortune. — Ele a fitou com seus grandes olhos azuis e sorriu, exibindo dentes perfeitamente alinhados e brancos.

— Senhor — respondeu ela, estudando-o abertamente. Olhos azuis, cabelos castanhos com reflexos dourados, mais alto que ela, o que já era uma grande vantagem, considerando que era alta demais para uma mulher. O rosto e as mãos exi­biam um bronzeado que sugeriam muito tempo passados ao ar livre. Ele parecia ser bem formado, proporcional.

— Espero ser digno de sua aprovação, milady — murmu­rou ele em voz baixa, de forma que só ela pudesse ouvi-lo.

— Reconheço que a primeira impressão foi excelente, se­nhor — respondeu ela no mesmo tom.

William Devers riu. Não gostava de mulheres tímidas ou puritanas, e havia esperado encontrar esse tipo de criatura. Era agradável descobrir que se enganara em suas expectativas. Pre­feria domar uma leoa selvagem a brincar com uma gatinha domesticada; e, como seu pai sempre dizia, uma esposa era um animal de estimação a ser acariciado, afagado, protegido e trei­nado para obedecer às ordens do marido. O treinamento, po­rém, seria muito mais divertido se a mulher em questão fosse espirituosa, Shane Devers acrescentava. E Fortune Lindley era, obviamente, um furacão.

— Vamos celebrar nosso encontro com vinho — sugeriu Jasmine. — Adali, por favor, providencie o Archambault tinto. Está envelhecendo há anos na adega, deve estar excelente. E traga alguns wafers doces, também.

— Sim, minha princesa, imediatamente — respondeu o mordomo, curvando-se com grande reverência.

— Esse seu criado — indagou Jane Devers, incapaz de con­ter a curiosidade — é estrangeiro?

— Adali me acompanha desde o nascimento. Ele é descen­dente de indianos e franceses, senhora. Nasci na índia. Se você con­sidera Adali um estrangeiro, deve pensar o mesmo a meu respeito, porque meu pai era o governante daquele país, Akbar, o Grande Mugal; minha mãe era uma nobre inglesa com raízes irlandesas. Ela foi sua quarta e última esposa. Vim para a Ingla­terra aos dezesseis anos, já viúva. Meu segundo marido era o pai de Fortune, o marquês de Westleigh, e o duque é meu ter­ceiro esposo. Nosso casamento foi arranjado pelo Rei James em pessoa e por nossa querida Rainha Anne, ambos agora repou­sando ao lado do bom Deus. — Aí estava. Isso daria à Lady Jane um bom material para reflexão.

Mas Lady Jane não desistia com facilidade.

— Três maridos, Santíssimo! Sempre achei que um era mais do que suficiente para mim, senhora. Quantos filhos tem, além da adorável Fortune?

— Bem... — Jasmine fingiu pensar, e James Leslie conteve o riso ao ver o brilho malicioso nos olhos da esposa. — Vejamos, são três de Lindley, duas moças e um rapaz; três meninos e uma menina de meu Jemmie. Infelizmente, a menina morreu. Ah, é claro, meu filho do falecido Príncipe Henry. Fomos amantes entre meu segundo marido e o terceiro. O príncipe era adorá­vel! Nosso filho, Charlie Stuart, é o duque de Lundy.

— Tem um filho bastardo? — Jane Devers empalideceu de choque e terror.

— Senhora! — o marido a censurou, mortificado.

— Os Stuart sempre foram muito generosos com seus favo­res, não é mesmo, Jemmie? — comentou Jasmine, sorridente. — Além do mais, um descendente da realeza, especialmente um Stuart, nunca é considerado indesejado ou inoportuno. O rei adora seu sobrinho, Lady Jane. Charlie é bem recebido e res­peitado na corte desde que nasceu, e tratado pela família real como um verdadeiro Stuart. O avô ficou tão feliz por ocasião de seu nascimento, por ele ser seu primeiro neto, que prometeu promover o condado de meu avô de Marisco a Ducado no dia em que Charlie o herdasse e cumpriu a promessa. Ah, Adali, aí está você. Venham, Lady Jane, Sir Shane... Provem o vinho que é produzido na propriedade da família de meu avô de Marisco, na França.

William Devers mal continha o riso. Esperava que sua fu­tura esposa fosse tão divertida quanto a mãe dela. Foi ainda mais difícil não rir quando sua mãe, esquecendo as boas ma­neiras, pegou a taça de prata oferecida pela anfitriã e bebeu vá­rios goles de vinho antes do brinde. Passara a vida toda tentan­do abalar seu controle de ferro, sem nenhum sucesso. Nem mesmo Kieran, seu irmão mais velho, conseguia irritá-la aber­tamente. Era delicioso ver sua futura sogra realizar façanha tão formidável.



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