Fortune, uma mulher impiedosa. Bertrice small



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Kieran Devers não era um homem confiável, disso tinha certeza. Afinal, ele abrira mão de sua posição de herdeiro sim­plesmente para seguir sua religião. Que tipo de homem podia ser tão idiota? Úm homem honesto, respondeu uma voz dentro de sua cabeça. Talvez, Fortune reconheceu, mas não queria uma vida cheia de excitação, uma rotina na qual nunca saberia o que o dia seguinte poderia trazer. E esse era o tipo de vida que teria com Kieran Devers. Queria estabilidade, em vez de aventura.

— Mamãe, Will pode se sentar ao meu lado à mesa do jan­tar? — quanto antes superasse a reticência com relação a Will Devers, mais depressa se casariam.

— É claro que sim — concordou Jasmine, tentando enten­der a atitude da filha. Vira Kieran flertando com ela, para desâ­nimo de Fortune. Vira seu rosto corar e ganhar um ar contem­plativo. Em que ela estaria pensando? Se tentava se obrigar a aceitar um casamento que não queria realmente, Fortune só encontraria a infelicidade.

Para esclarecer a situação, ela sentaria William à direita de Fortune e Kieran à esquerda. Fortune já havia declarado que só se casaria por amor, embora no passado houvesse manifestado idéias mais práticas quanto ao casamento. O que acontecera com sua menina sensata e objetiva? Bem, melhor amar o ho­mem errado do que passar a eternidade infeliz ao lado do ho­mem certo. Se Fortune se sentia atraída por Kieran, melhor en­carar a realidade agora, antes de se casar com o jovem William por ser ele a escolha certa. Sua filha podia ser teimosa. Além do mais, Jasmine decidiu com um sorriso interior, um patife podia ser muito mais interessante do que um cavalheiro próprio e re­catado. Não podia permitir que sua filha cometesse esse erro. Não podia!

Se Jemmie descobrisse o que estava acontecendo ficaria furioso, apesar de ter prometido que deixaria Fortune tomar suas decisões. Seria preciso esconder a verdade enquanto fosse possível.

— Adali, ponha as coisas de Mestre Kieran com as do ir­mão dele — Jasmine orientou o mordomo. — Eles dividirão o quarto e a cama. Tenho certeza de que não será a primeira vez. Erne Rock é um lugar muito pequeno, mas maravilhoso para um jovem casal e seus filhos. Não concorda comigo, Lady Jane?

— Pensei que William e a esposa iriam viver conosco em Mallow Court. Afinal, a propriedade um dia pertencerá a William. Não é verdade, Kieran?

— Sim, senhora.

— Se houver um casamento — repetiu Jasmine, plantando a semente do medo no coração de Lady Jane —, creio que o jovem casal deve ter a própria casa. Fortune não deve ser força­da a viver com a família do marido. Ela terá Erne Rock na Irlan­da e, é claro, o duque e eu pretendemos encontrar uma boa casa na Inglaterra, próxima da propriedade do irmão de Fortune em Cadby ou de seu meio-irmão, em Queen's Malvern. Queremos introduzi-los na corte.

— Mamãe, você sabe que odeio a corte — protestou Fortune.

— Mas precisa fazer contatos, minha querida, se quiser ser bem-sucedida como fazendeira e criadora de animais. Afinal, não pode depender apenas da sua parte na companhia de co­mércio da família. Não pode estar pensando que eu pretendia deixá-la aqui na Irlanda.

— Eu... não sabia — confessou Fortune, confusa com o dis­curso da mãe.

James Leslie e Sir Shane entraram no Grande Salão. Ha­viam passado um bom tempo na biblioteca discutindo os ter­mos de um contrato, caso houvesse realmente um casamento entre seus filhos. Kieran Devers levantou-se para cumprimen­tar o pai. Depois, curvou-se para o dono da casa, o duque de Glenkirk, a quem foi formalmente apresentado. O duque reco­nheceu no jovem um celta altivo e orgulhoso como ele havia sido e simpatizou imediatamente com o rapaz. Sim, julgava-o tolo por ter desistido de sua herança pela Igreja, mas tinha de admitir que admirava sua fé, sua tenacidade na defesa do que considerava certo.

— Então, está contente com sua decisão, meu rapaz?

— Sim, sua graça — respondeu Kieran respeitoso, saben­do exatamente a que o duque se referia. — Malow Court per­tence a meu irmão, e é com alegria que cedo a ele meu direito de herança.

— Mas permanece na casa da família?

— Por enquanto. Sinto que há um lugar para mim no mun­do, milorde, mas não tenho certeza de onde ele está. Espero paciente, pois sei que o tempo me levará a esse lugar.

James Leslie assentiu. Podia parecer estranho, mas enten­dia exatamente o que o jovem estava dizendo. Os irlandeses eram ainda mais misteriosos que os escoceses. Se Kieran Devers esperava por uma revelação, sem dúvida a teria eventualmente.

— O jantar está servido, milorde — anunciou Adali. — Milady diz que todos devem se dirigir à mesa imediatamente.

— Cavalheiros — chamou o duque, conduzindo seus con­vidados à mesa sobre a plataforma elevada.

Capítulo 4


William Devers estava perplexo com a rapidez com que se apaixonara por Fortune Lindley, mas era fato que estava apai­xonado. Ela era a mulher mais linda do mundo. Gostava de seus cabelos vermelhos flamejantes, apesar do que dizia sua mãe, e Lady Jane tinha muito a dizer na viagem de volta para casa. Ela se manteve tranqüila na carruagem enquanto contor­navam o rio, que na verdade era um braço de mar, a caminho de Lisnaskea, quase como se tivesse medo de que a duquesa pudesse ouvi-la. William também se surpreendera com a faci­lidade com que Jasmine Leslie a intimidara. Em sua opinião, a mulher era adorável, encantadora em suas maneiras.

— Vou me casar com Fortune o mais depressa possível — anunciou William aos pais naquela noite, quando se reuniram diante da lareira de casa.

— Não — respondeu a mãe. — Não vai. Ela é uma mulher arrojada demais. Uma esnobe excessivamente educada e um exemplo do desastre que pode ser a mistura de origens. Não é para você. Sua prima, Emily Anne, é noiva muito mais adequa­da, William. Sei que ela não tem a riqueza de Fortune Lindley, mas nenhum dinheiro pode compensar a presença daquela jo­vem Lindley em nossa família.

— Concordo, senhora — Kieran Devers apoiou a madras­ta. — Pela primeira vez desde que nos conhecemos, estamos de acordo.

— Você concorda? — desconfiou Jane Devers. — E por que concordaria comigo, Kieran? Jamais estivemos de acordo an­tes, embora eu tenha me empenhado para criá-lo adequada­mente, apesar de seu aprendizado católico.

Ele riu. Ela realmente cumprira seu dever, ao menos publi­camente, e tinha de admitir que a madrasta nunca fora uma mulher cruel. Lady Jane nada podia fazer se preferia o filho verdadeiro, e incentivara o marido a deserdar seu primogênito para que William um dia pudesse ser o senhor de Mallow Court. Era estranho, mas ele não tinha sentimentos profundos pelo lugar que chamava de lar. Não havia sido uma grande perda. Havia algo mais esperando por ele em algum lugar.

— Concordo com suas conclusões porque são corretas, se­nhora. Fortune Lindley é uma mulher de rara beleza, mas é também uma megera mimada que desfruta de grandes privi­légios. Ela destruiria William sem sequer ter essa intenção. A prima Emily Anne, porém, ama nosso Willy, e esse sentimento existe desde que eles eram crianças. Ela é quase três anos mais jovem que Lady Fortune. Ficará encantada por vir morar em Mallow Court com você para orientá-la. Lady Fortune odiaria essa situação.

— Você a quer — William acusou o irmão. — Quer Fortune para você, Kieran. Não pense que não notei! — seu rosto estava vermelho de fúria.

— Sim, confesso que fiquei intrigado, mas as coisas selva­gens e desregradas sempre me fascinaram, Willy. No entanto, duvido que o duque de Glenkirk, com todo aquele sangue real e os laços que o unem ao rei, permita que sua bela e rica filha se una a alguém como eu. Casamentos entre pessoas de nossas classes não acontecem dessa maneira. Nada tenho para ofere­cer a uma mulher respeitável, como bem sabe. Então, embora a deseje de fato, sei que jamais a terei. E você não deve ser tolo a ponto de insistir nesse enlace.

— Faça a oferta — disse William ao pai. — Faça o que digo ou deixarei esta casa para nunca mais voltar!

— Querido... — Lady Jane inclinou-se para tocar o rosto do filho, mas ele se esquivou.

— Terei Fortune Lindley como minha esposa. Quando estiver­mos casados, iremos viver em Erne Rock, ou na Inglaterra, por­que sei que isso a agradará. Não pisarei nesta casa como senhor do lugar enquanto você não estiver morta, senhora. Nun­ca mais me governará!

— Mas vai permitir que ela o domine — acusou a mãe dele.

— Ela tem mais a me oferecer, mãe.

A resposta teve um efeito devastador. Lady Jane rompeu em lágrimas amargas.

— Ela o enfeitiçou! — soluçou, buscando o apoio do ombro do marido. — Meu filho jamais falaria comigo de forma tão terrível. Ela o enfeitiçou!

— Não seja tolo, Willy — Kieran censurou o irmão. — A jovem de quem falamos é bela, de fato, mas não serve para você. Não consigo pensar em nada que possam ter em comum. Sobre o que conversariam?

— Conversar? Não quero conversar com ela! Sabe muito bem o que quero fazer com ela!

— Ohhhhh... — Lady Jane caiu sobre o ombro do marido em estado de choque.

Sir Shane conteve o riso.

—Modere o linguajar, seu jovem patife—censurou William sem muita severidade.

Mas Kieran riu, o que provocou um olhar furioso da ma­drasta.

— Você o criou para ser honesto, senhora — disse ele, com um encolher de ombros.

— Se é realmente isso o que quer, William, farei uma oferta ao duque de Glenkirk pela mão de sua filha — prometeu Sir Shane ao filho inquieto.

— Se fizer isso, jamais o perdoarei — protestou a esposa igualmente agitada. — Aquela jovem é terrível! Terrível!

— Acalme-se, senhora — sugeriu Kieran, confortando-a com um braço sobre seus ombros. — É pouco provável que Fortune Lindley aceite a proposta de Willy, e ouvi dizer que a escolha será dela.

Jane Devers fungou.

— Acredita mesmo nisso, Kieran?

— Sim, senhora, acredito.

— Quer dizer que espera — resmungou William — Fortune será minha esposa! Não aceitarei um “não” como resposta!

— Vai ter de aceitar, tolo! — o irmão mais velho impacien­tou-se. — Pelo amor de Deus, Willy, se fizer um escândalo por causa dessa jovem, Emily Anne também o recusará. Compor­te-se como um Devers de Lisnaskea e não choramingue milor­de inglês mimado e patético! — Kieran se virou para o pai. — Talvez, senhor, esse seja um momento para mandar Willy ao continente. Ele precisa saber como vive o restante do mundo.

Jane Devers afastou-se do enteado.

— Oh, sim, Shane! Ele pode ir a Londres primeiro, visitar as irmãs e suas famílias. E eu irei com você, William! Não vou a Londres desde que era uma menina. — Ela aplaudiu excitada como uma criança. — Devemos ir! Você também, Kieran. — Nesse momento seu coração transbordava generosidade. A idéia era maravilhosa. Afastaria o filho de Fortune Lindley e, quan­do voltasse, ela já teria voltado para a Escócia com a família. E Emily Anne Elliot estaria esperando. — Vou precisar de um guar­da-roupa novo, é claro, considerando o belo vestido da duque­sa. Talvez Colleen tenha uma boa costureira em Dublin, alguém que possa vir atender-me em Ulster. Preciso escrever para ela ainda hoje. — Saiu da sala, apressada.

— Faça a oferta ao duque — insistiu William Devers, im­placável.

Kieran Devers se levantou e foi servir três doses de uísque em pequenos copos de madeira polida. Entregou um ao pai, outro ao irmão e ficou com o terceiro.

Shane Devers sorveu o líquido forte e picante, engolindo-o com alguma dificuldade. Sentia a garganta queimar, e o estô­mago reagia como se fosse invadido por uma pedra quente.

— Ouça-me antes de irmos em frente — disse ao herdeiro. — Conversei com o duque naquela primeira noite que passa­mos em Erne Rock. Os termos de um possível acordo de casa­mento entre você e Lady Fortune seriam estranhos, para dizer o mínimo. Ele me disse que esse é o contrato de casamento ado­tado por todas as mulheres daquela família. Você receberia um dote em ouro, um valor a ser acertado entre as duas famílias. Quanto ao restante da riqueza de Lady Fortune, as terras, as propriedades, tudo continuaria nas mãos dela. Você não teria nenhuma participação nem influência na administração des­ses bens, William.

— Mas, e se ela dilapidar o próprio patrimônio, como faz qualquer mulher nessas circunstâncias? Se não sabem admi­nistrar o dinheiro dos alfinetes, o que dizer de uma riqueza desse porte? Mamãe, por exemplo, sempre recorre a você para obter dinheiro extra, porque gasta o da mesada antes do final do quadrimestre.

— Lady Fortune administra a própria riqueza desde que tinha 12 anos, de acordo com o que disse o pai dela. A bisavó a preparou para isso antes de morrer. Ela era a famosa Skye 0'Malley, confidente da velha Rainha Bess, de acordo com a história. A menina quase dobrou sua riqueza nos últimos anos, William. Ela não é tola. Acha que pode se casar com uma mu­lher que não vai ouvir seus conselhos quanto à administração de seus bens? Além do mais, você nada sabe sobre investimen­tos. A jovem cresceu em uma família nobre e rica e é muito as­tuta. Ela não se contentaria em ficar em casa, cuidando dos cria­dos e tendo filhos. Não estou dominado pelo ciúme e pelas emoções como sua mãe, mas sou obrigado a concordar com ela. Esse casamento não é bom para você. Porém, se, depois de saber o que acabei de relatar, você ainda desejar que eu faça a oferta ao duque de Glenkirk, sua vontade será acatada.

— Faça a oferta — insistiu William por entre os dentes. Kieran deu de ombros e foi se servir de mais uma dose de uísque.

— Quer se deitar com ela e não consegue pensar em outra maneira de realizar seu desejo senão pelo casamento — debo­chou. — Conheço uma dama que o satisfaria tanto que você nem pensaria mais em Fortune Lindley.

— Você a quer — repetiu o irmão, furioso.

— Se eu a quisesse, irmãozinho, eu a teria — disparou Kieran com franqueza brutal. — Mas não me interesso por virgens.

— Bastardo! — gritou William Devers, furioso, tentando agredir o irmão.

Kieran era mais rápido que ele e o conteve, segurando seus braços e balançando a cabeça com um sorriso desdenhoso.

— Comporte-se, Willy, ou sua mamãe não o levará a Lon­dres.

— Deixe-o em paz, Kieran — ordenou o pai ao filho mais ve­lho. — E você — ele se dirigiu ao mais novo — contenha as mãos! Não vou admitir que meus filhos briguem como selvagens!

— Vai fazer a oferta? — William quis saber, libertando-se do irmão.

— Mandarei a proposta a Erne Rock amanhã cedo.

— Milorde, esta mensagem acaba de chegar de Mallow Court — anunciou Adali ao entrar no Grande Salão na manhã seguinte.

O duque tomou o pergaminho e rompeu o lacre para ler o conteúdo da mensagem.

— Eles fizeram a proposta de casamento — disse, olhando para a enteada. — E então, meu bem? Vai aceitá-lo, ou não?

Jasmine conteve a respiração.

— Sei que deveria aceitá-lo, papai, porque é a decisão mais sensata e o tempo está passando.

— Mas não é o que vai fazer — deduziu James Leslie. Ela balançou a cabeça.

— Não é. Pobre Will. Sei que ele não se importa com meu dinheiro. É bonito, tem uma bela propriedade que herdará um dia... Mas, papai, ele é o homem mais maçante que já conheci em toda a minha vida. E suas idéias sobre as mulheres são anti­quadas demais. Na opinião dele, devemos ficar em casa tendo filhos e ouvindo com adoração cada palavra vertida por nos­sos sábios maridos. Ele tem pouca educação e não se interessa em aprender. Não tem nenhum interesse além de montar, mas os cavalos são para ele apenas um meio de transporte. Ele não se interessa pela criação e pelo comércio dos animais. Isso, ele diz, deve ficar a cargo de Maguire. Eu não teria sobre o que conversar com ele, e Deus sabe que tentei. Se devo permanecer solteira, que assim seja, mas prefiro morrer virgem a me casar com esse belo exemplar de pura estupidez!

Jasmine voltou a respirar com um suspiro aliviado.

— Graças a Deus! — disse. — Tive tanto medo de que fizes­se a coisa certa, meu bem! Sei que teria sido muito infeliz.

— Muito bem, então... — James Leslie manifestava calma surpreendente. — O que vamos fazer?

— Vamos permanecer na Irlanda por alguns meses — su­geriu Fortune.

— De acordo — disse Jasmine. — E devemos nos assegurar de que o pobre William não se sinta embaraçado com sua recu­sa, querida. Diremos apenas que vocês são incompatíveis, mas que nossas famílias preservarão a amizade, apesar do mútuo desapontamento.

— Perfeito — apoiou James Leslie. — Entregaremos a res­posta pessoalmente. Não quero causar nenhum constrangimen­to aos Devers. Você e eu iremos até lá amanhã cedo, porque agora já é muito tarde para irmos e voltarmos. Sairemos bem cedo. Antes, porém, informarei o Padre Cullen e o Reverendo Steen sobre nossa decisão. Eles depositavam grande esperança nesse enlace. Cullen vai entender, mas será mais difícil com o Reverendo Steen.

— Devo ir também? — perguntou Fortune.

— Acho que não — respondeu o padrasto. Fortune o abraçou e beijou o rosto querido.

— Obrigada pela compreensão, papai. Sei que sou uma de­cepção para você, porque não consigo encontrar um marido, mas Will Devers não é homem para mim. Não sei se existe esse homem, para ser sincera.

Na manhã seguinte, o duque e a duquesa de Glenkirk par­tiram para Mallow Court. Ambos apreciavam o clima ameno e a beleza da paisagem enquanto iam vencendo colina após coli­na. Mallow Court era uma bela edificação em estilo Tudor, e o anúncio da chegada do casal levou Sir Shane e Lady Jane ao Grande Salão com muita rapidez. Lá, Jasmine e James já esta­vam saboreando o vinho servido por criados bem preparados.

— Perdoem-nos por termos vindo sem nos anunciar — co­meçou James Leslie, beijando a mão de Lady Jane —, mas deci­dimos vir pessoalmente trazer a resposta para a oferta pela mão de Lady Fortune.

Jane Devers estava agitada. Eles iam arrancar William de seus braços. Ela lançou ao marido um olhar suplicante.

Jasmine chegou a sentir pena da pobre mulher. Por isso, disse:

— Seu filho é um excelente rapaz, e eu me orgulharia de tê-lo como genro. Infelizmente, minha filha não acredita ser a mulher ideal para William. Jemmie e eu o consideramos muito adequado, mas não obrigaremos Fortune a se casar contra a vontade dela. Viemos anunciar nossa decisão pessoalmente porque não quere­mos que pensem que estamos agindo de maneira precipitada ou caprichosa. E também não queremos causar rumores que pos­sam desfavorecer nosso caro William. Espero que não estejam ofendidos e que não guardem ressentimentos de Fortune.

Jane Devers estava aliviada. William estava salvo!

Mas, de repente, constatou que também se sentia ofendida. A criatura julgava-se muito melhor que seu William? As pala­vras brotaram de sua boca antes que ela pudesse contê-las.

— Se não pretendiam aceitar a proposta mais conveniente e adequada, por que vieram à Irlanda procurar um marido para sua filha? É estranho, não?

— Minha esposa — começou o duque, segurando a mão de Jasmine para mantê-la calada — pretende dar a Fortune sua propriedade na Irlanda. Sendo assim, achamos que seria me­lhor se ela se casasse com um irlandês.

— Uma conclusão perfeitamente razoável — concordou Sir Shane, olhando para a esposa com um misto de censura e amea­ça. O duque e a duquesa de Glenkirk eram mais do que genero­sos no tratamento que dispensavam aos Devers. Não enfrenta­riam constrangimentos decorrentes da situação, apesar de Lady Jane ter se vangloriado para quem quisesse ouvir sobre o casa­mento iminente entre seu filho e a herdeira de Erne Rock. — Pretendem voltar à Escócia em breve?

— Não imediatamente. Passaremos o verão aqui em Ulster — respondeu o duque. — Jasmine não vem à Irlanda desde que Fortune nasceu. Agora, com a dor do assassinato do marquês de Westleigh superada, pode novamente apreciar Maguire's Ford. Padre Cullen foi seu tutor na índia e a acompanhou na viagem desde a corte de seu pai até a Inglaterra, há 24 anos. Ele é um parente querido, e ela não espera voltar a vê-lo depois de deixar a Irlanda. Voltaremos para a Escócia no outono, em tempo de participarmos da temporada de caça, e depois iremos para a In­glaterra, para o inverno na corte. Até lá, talvez apareça algum rapaz adequado. Pelo bem de Fortune, é o que espero.

— Lady Fortune é adorável — elogiou Shane Devers com elegância. — Lamento que ela não seja nossa nora, milorde.

Depois de uma extensiva troca de cumprimentos e gentile­zas, os Leslie de Glenkirk se despediram dos Devers de Mallow Court.

— Minhas preces foram atendidas! — exclamou Lady Jane assim que eles partiram. — Partiremos para a Inglaterra assim que for possível. Providenciarei meu novo guarda-roupa em Londres. Assim, estarei ainda mais bem servida do que com uma costureira de Dublin.

— William não vai gostar nada disso — comentou seu ma­rido. — Não sei o que ele será capaz de fazer, pois está conven­cido de que Lady Fortune é o amor de sua vida. Como ele pode ter essa certeza depois de um contato tão breve é algo que me intriga minha cara. Vamos chamá-lo agora mesmo e informá-lo. John — chamou o lacaio — vá buscar meus filhos. Diga a eles que os espero imediatamente no Grande Salão. Encontre primeiro Mestre Kieran.

— Por que Kieran primeiro? — quis saber sua esposa.

— Porque ele nos ajudará a controlar a inevitável explosão de William. Não quero que ele saia daqui para ir se ajoelhar aos pés dessa moça. Seria embaraçoso para Lady Fortune e cons­trangedor para nós.

Kieran Devers atendeu ao chamado sem demora e logo foi informado da situação. Ele sorriu. Não havia previsto que a megera arrogante recusaria a proposta de seu irmão? Não en­tendia por que os Leslie haviam sequer considerado os Devers. Com um duque por padrasto, outro por meio-irmão e um mar­quês como irmão, com riqueza e terras em seu nome e a educa­ção requintada que recebera, Lady Fortune poderia se casar com um duque. Era bem provável que houvesse deixado na Ingla­terra um pobre diabo atormentado esperando por sua volta enquanto partia para a Irlanda, numa suposta cruzada em bus­ca de um marido.

— Quando ela partirá?

— Eles planejam passar o verão na Irlanda — respondeu o pai dele. — Mais um motivo para mandarmos William para a Inglaterra o mais depressa possível. Você o acompanhará?

— Não. Não tenho nenhuma intenção de ir para a Inglater­ra. Vá você, meu pai, com Lady Jane e William. Ficarei aqui cuidando de tudo. Não antecipo grandes problemas. A safra já foi plantada, o rebanho se reproduz rapidamente e não há mui­to a ser feito. Sei que aprecia acompanhar sua contabilidade e posso fazer isso em seu lugar enquanto estiver ausente.

William Devers entrou no salão.

— Mandou me chamar, meu pai?

— Lady Fortune recusou sua oferta — anunciou Sir Shane sem rodeios.

— Sim, eu já esperava que ela me recusasse na primeira tentativa. Ela é uma lady. Não seria apropriado agarrar com avidez a primeira proposta.

— Pelo amor de Deus, Willy! — impacientou-se Kieran. — Você pode repetir a proposta um milhão de vezes e será recusa­do em cada uma delas! Essa mulher não quer você. Os pais dela vieram até aqui para transmitir a decisão pessoalmente. Esqueça. Case-se com sua prima Emily.

— Não acredito nisso — respondeu William, obstinado.

— Tolo! Fale com ele, senhora. Diga a seu filho que ele foi rejeitado por uma megera inglesa desdenhosa e arrogante!

— É verdade, William — confirmou Lady Jane.

— Nesse caso, devo procurá-la! — William desesperou-se.

— Não vai fazer nada disso — interferiu Sir Shane. — Quer desgraçar a família com esse comportamento patético?

— Se tentar sair deste salão — disse Kieran em voz baixa — juro que o espancarei até deixá-lo inconsciente.

William Devers foi tomado pelo desespero. Ela o rejeitara. Como pudera? A mais bela jovem do mundo! Uma mulher que falava coisas que nunca ouvira antes. Como ela podia deixar de entender que ele a adorava?

— Sempre planejou me casar com Emily Anne — disparou, virando-se repentinamente para a mãe com ar ameaçador. — Esqueça! Não vou me casar com aquela simplória entediante. Nunca! Nem que ela seja a última mulher do mundo!



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