Fortune, uma mulher impiedosa. Bertrice small



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Na manhã seguinte, Fortune acordou cedo e, decepcionada, constatou que chovia. Olhando para o rio coberto por uma den­sa névoa, imaginou se ele viria mesmo assim. Uma chuva fina nunca fizera mal a ninguém. Ela se vestiu para cavalgar e desceu ao salão para comer seu mingau de aveia e beber o vinho sua­ve. James Leslie analisou seu traje com um sorriso divertido.

— Onde está mamãe? — perguntou Fortune, sentando-se ao lado do padrasto à mesa. Ela se serviu de um pedaço de pão, que cobriu com uma generosa fatia de manteiga, e cortou um pedaço de queijo.

— Agora que está ficando mais velha sua mãe se mostra menos interessada em se levantar cedo.

— Acha que ele virá, papai?

— Uma chuvinha à toa não teria me impedido de encontrar uma bela jovem quando eu tinha a idade dele, meu bem.

— Não sei nem quantos anos ele tem.

— Mais de 20, é claro. E isso é bom, porque um marido deve ser mais velho que sua esposa.

— Ele não será meu marido! — protestou Fortune, apressada. James Leslie terminou de comer seu ovo cozido, tomou as mãos da enteada entre as dele e fitou-a diretamente nos olhos.

— Escute o que vou dizer, mocinha. Você é muito parecida com sua bisavó em vários aspectos. Pelo que me contaram, Madame Skye não flertava como as coquetes da corte em sua juventude. Se um homem atraísse seu olhar, era isso. E acho que você também vai ser assim, meu bem. William Dever é um bom rapaz, mas é brando demais, dominado pela família. Per­cebi imediatamente que ele não servia para você. O irmão dele, porém, é outra história. É um homem de verdade. Talvez tolo, ou não teria desistido de Mallow Court, mas, se conseguir con­quistá-la, ele terá Erne Rock, o que não seria uma troca desvantajosa. Então, se o quer, Fortune, lute por ele e não se envergo­nhe disso. A felicidade é algo que se conquista, e não algo que se possa ter de graça, simplesmente por ser bela e ter uma gran­de herança.

— Papai! Não foi tão generoso com Índia! — comentou Fortune, surpresa.

— Índia se rebelou quando estávamos procurando um marido para ela. Tornou-se intratável, difícil de argumentar. Você é mais serena, equilibrada. A inteligência é um aspecto desejável em uma mulher, Fortune, mas amor é algo que não se pode tratar pelo raciocínio. Se o encontrar, agarre-o e segure com força, porque ele pode aparecer uma única vez na vida. Foi assim com seu pai e foi assim comigo. Amei sua mãe desde o início e vou amá-la até morrer. Você é uma boa menina. Siga seu coração, e não terei do que me queixar.

Fortune sentia as lágrimas queimando em seus olhos. Ela piscou depressa para contê-las. James Leslie nunca falara com ela de maneira tão franca, ou com tanto afeto quanto acabara de demonstrar.

— Tem certeza de que não está apenas tentando se livrar de mim? — brincou ela.

James sorriu.

— Sim, eu quero que você tenha sua casa e sua família, mas só se for com um homem que a ame mais do que eu a amo.

Fortune abaixou a cabeça para secar uma lágrima que con­seguira escapar.

— Milorde — chamou Adali ao entrar no salão. — Mestre Devers acaba de chegar. Pensei que Lady Fortune gostaria de saber.

— Ele veio! — sussurrou Fortune.

— Ele teria sido um tolo se não viesse. E eu sabia que viria. — O duque de Glenkirk sorriu, levantando-se de seu assento à mesa. — Esse homem está tão intrigado por você quanto você por ele, minha querida.

— Como pode saber papai?

— Não percebeu como ele olhava para você quando esteve aqui? Eu notei e foi então que soube que o homem estava se apaixonando por você, minha cara. É uma sorte que o irmão tolo tenha sido arrastado para a Inglaterra!

— Tem razão — concordou Fortune, com um sorriso tra­vesso.

— Bom dia, Lady Fortune. Milorde — Kieran Devers cum­primentou respeitoso ao ser conduzido ao salão. Entregou ao mordomo seu manto encharcado. — Quando deixei minha casa esta manhã a chuva era apenas uma garoa, mas agora ela cai pesada e fria.

— Vou providenciar que seu manto seja devidamente seco, senhor — informou Adali antes de se retirar.

— Mesmo assim, saiba que é sempre bem-vindo, Kieran Devers — o duque o recebeu. — Por acaso sabe jogar xadrez?

— Sim, eu sei, milorde.

— Então, por que você e minha filha não jogam enquanto esperam a chuva passar? Fortune é uma excelente enxadrista, não é, meu bem? — James Leslie nem esperou por uma respos­ta. — Vou mandar Adali providenciar o tabuleiro e as peças, e também um bom uísque para remover a friagem de seus ossos. — Ele saiu do salão.

— Sabe mesmo jogar xadrez?—perguntou Kieran, intrigado.

— Sim, e muito bem — confirmou Fortune. — Minha mãe me ensinou, e ela costumava jogar com o pai na índia.

— Jogaremos uma partida. Se for mesmo uma oponente de respeito, passaremos a apostar. O que diz?

— Não precisa testar minha capacidade, Kieran Devers. Apostaremos desde a primeira partida. O que vai querer de mim... se vencer?

— Um beijo — respondeu ele sério e sem rodeios.

— E ousado, senhor — Fortune o acusou, recuperando o equilíbrio.

— Se você vencer, o que terei de fazer?

— Beijar-me — disse ela, surpreendendo-o ainda mais. — Espero que valha a pena — acrescentou Fortune com um sorri­so provocante.

Kieran riu alto. Não podia se conter.

— Vejo que é ainda mais ousada que eu, milady.

— Por quê? Porque não coro, não uso meias palavras nem peço fitas azuis para enfeitar meu cabelo? Brinco com os meni­nos desde que comecei a andar, Kieran Devers. Esteja prepara­do. Jogo para ganhar. Não sou uma moça simplória e assustada.

— O tabuleiro, milady — anunciou Adali. Ele deixou sobre a mesa uma jarra de cobre contendo uísque.

— Maldição! Você caminha como um felino, homem! — reagiu Kieran, surpreendido.

— Sim, eu sei, senhor. Aprendi essa arte quando servi no harém. Era uma característica muito útil. E ainda é. Sempre apareço quando menos esperam. — Ele arrumava sobre o ta­buleiro as peças que removia de uma espetacular caixa de pra­ta. Todas eram entalhadas em marfim e jade, brancas e verdes, respectivamente. — Pode escolher suas peças, senhor.

— Fico com as verdes — decidiu Kieran, bebendo um ge­neroso gole de uísque.

Fortune sentou-se diante das peças brancas e estudou o ta­buleiro. O primeiro movimento foi simples, comum. Adali sorriu e deixou o salão.

O jogo era rápido, dinâmico. Kieran estava agradavelmen-te surpreso com a habilidade de Fortune. Ela era de longe a melhor jogadora que jamais enfrentara, mas, ainda assim, ele vencia. Rindo, o cavalheiro moveu um de seus dois reis. Fortune riu. Com um movimento decidido, ela colocou o rei adversário em posição de xeque-mate.

— Creio que venci, senhor. Kieran estava boquiaberto.

— Mas como... — ele gaguejou, estupefato.

— Posso demonstrar, se quiser.

— Por favor!

Fortune reconstruiu a jogada que a conduzira à vitória.

— Mas isso é diabólico! — exclamou Kieran. — Vamos jo­gar outra partida.

— Ainda não pagou o que deve, senhor. Ele pegou sua mão e a beijou com ternura.

— Não, senhor. — Ela se levantou. — Se eu fosse a perde­dora, aceitaria pagamento tão pequeno? Quero um beijo ver­dadeiro! Jamais fui beijada antes, quero viver essa experiência agora! — ela se debruçou sobre a mesa e fechou os olhos, ofere­cendo-lhe os lábios.

Deus me ajude, Kieran pensou, angustiado. Depois, segu­rando o pequenino queixo entre o indicador e o polegar, roçou os lábios nos dela.

— Considera esse pagamento mais satisfatório, milady?

O coração dela disparou quando ele a tocou. E havia para­do por completo por uma fração de segundo quando a boca dele fez contato com a sua. Abrindo os olhos, ela confessou:

— Quero mais, senhor. Foi agradável, mas deve haver mais do que isso.

— Se há, vai ter de ganhar de mim novamente para desco­brir. Minha dívida foi saldada. E agora que conheço sua estra­tégia, não serei presa tão fácil. Vamos jogar novamente, Fortune — decidiu ele, ajeitando as peças sobre o tabuleiro. Sentia o co­ração bater forte no peito e, para seu espanto, experimentava um formigamento intenso em partes do corpo que ainda nem haviam entrado em contato com o dela. Era impossível con­centrar-se, embora tentasse. Ela o venceu pela segunda vez, o que o deixou mortificado.

— Pague o que deve, senhor — exigiu Fortune. — E, desta vez, quero um beijo de verdade, como vejo meu pai beijar mi­nha mãe. Abrace-me e segure-me contra seu corpo. — Ela se levantou e contornou a mesa.

— Muito bem, raposa ardilosa. — Ele também se levantou. Os braços a estreitaram com ânsia inesperada. A boca encon­trou a dela, e ele a beijou com paixão, sentindo a luxúria crescer e o coração explodir no peito.

Estava voandol Fortune se sentia queimar pela fome que ele comunicava. Sim, fomel Não havia outro termo para descrever o que sentia no contato de Kieran. Ele a queria por inteiro, po­dia sentir, e o beijo era só o começo. Ainda era virgem, mas sa­bia reconhecer o desejo quando o via. Vira esse sentimento muitas vezes nos olhos de outros homens. Seus braços enlaça­ram o pescoço largo de Mestre Devers, e ela correspondeu ao beijo com ardor. Era isso o que estivera buscando toda a sua vida. E era delicioso!

De repente, ele a empurrou. Estava trêmulo e ofegante.

— Não! — disse, angustiado.

— Sim! — protestou ela.

— Não sabe o que está fazendo comigo, milady — sussur­rou ele.

— E você? Tem idéia do que faz comigo?

— Sim, eu tenho.

— Então, por que parar, Kieran Devers?

— Porque, se não pararmos, eu a levarei para o seu quarto e a devorarei sem reservas. Porque a quero desde o momento em que a vi pela primeira vez. Porque orei para que não qui­sesse William, pois assim eu teria uma chance. Porque, por mais que a ame e deseje, Fortune Lindley, não posso ter você, pois nada tenho a oferecer. Você não é uma moça qualquer que conheci por acaso. E filha de uma família importante, uma herdeira. Nada em mim é digno de você. Minha linhagem, meus bens, que são poucos... Tem idéia de como isso me enfu­rece, Fortune? — afastou-se. — Acho melhor voltar para Mallow Court.

— A chuva parou, e você veio para cavalgarmos — lem­brou ela. Não o perderia agora, Fortune decidiu, consciente de que, se o deixasse sair assim, nunca mais o veria. Lembrando o conselho do padrasto, ela prosseguiu: — Farei 20 anos no mês que vem. Esperei por você minha vida inteira, Kieran Devers. Não vou permitir que me deixei Que importância tem para mim se é rico ou pobre? Minha riqueza será sua, se me quiser. E quanto à sua linhagem, embora isso também não tenha importância para mim, ela é digna de orgulho. A família de seu pai descende dos Debhers, importantes para a sobrevivência das tribos celtas. Seus antepassados eram da alta casta. E a família de sua mãe, os Maguire, teve em seu seio vários príncipes de Fermanagh. Eles reinaram por muitos séculos. Há 0'Neil nos dois lados da fa­mília. Não há nada de errado com sua linhagem, Kieran. Re­ceio que se tenha deixado influenciar por sua madrasta ingle­sa, pelo desdém que ela demonstra pelas coisas da Irlanda.

— Como sabe tudo isso?

— Perguntei a Rory Maguire. Sabe que os homens de Fermanagh sempre foram considerados os piores guerreiros de toda a Irlanda?

— Não — riu ele.

— Pois é verdade. Fermanagh sempre foi a região mais pa­cífica da Irlanda. Nenhum grande príncipe jamais considerou os homens dessa região uma ameaça, porque as famílias im­portantes desse lugar eram compostas por bardos e poetas, médicos e advogados. Rory Maguire, que é membro de uma dessas antigas famílias que já esteve no poder aqui, conhece toda a história da área e respondeu às minhas perguntas com grande alegria.

— Nunca imaginei que Maguire fosse um historiador.

— Porque ele o procurou para dizer que devia se compor­tar comigo, uma virgem nobre?

Ele riu. Haviam sido exatamente essas as palavras de Maguire pouco antes, quando ele desmontara diante da casa.

— Vamos cavalgar antes que a chuva recomece — sugeriu ele. — Ou a cavalgada foi só um truque para me manter aqui por mais tempo?

— Confesso que estou interessada nas duas coisas.

— Nãò há futuro nisso — insistiu ele, sério. — Somos lou­cos por pensar o contrário.

— Não acha que essa é uma decisão que só nós dois pode­mos tomar, Kieran? — segurou seu braço e o fitou, sorrindo.

— E? — estava apaixonado. Acontecera repentinamente, de maneira avassaladora e inevitável. Não esperava se apaixo­nar, especialmente nessas circunstâncias impossíveis. Imagi­nava que jamais permitiriam que a tivesse.

— Quero me casar com você antes que sua família retorne da Inglaterra no outono — anunciou Fortune com franqueza brutal.

— Não me lembro de ter feito um pedido de casamento.

— Por que não me quer?

— E evidente que quero, mas sua família jamais permitirá, minha adorada. Não entende? Homens pobres, mesmo que de famílias nobres, não desposam herdeiras ricas! Você poderia ter um príncipe, um duque ou um marquês, Fortune. Sua famí­lia certamente encontrará partido melhor do que eu.

— Kieran, a escolha é minha. Sempre foi. E eu escolhi você. Você me ama? Mesmo em tão pouco tempo?

— Sim. Desde o primeiro momento em que ficamos frente a frente naquela colina eu a amo.

—Fui tão grosseira! Mas sua arrogância me instigou, Kieran Devers. E... acho que meu coração soube desde aquele momen­to, embora minha mente não tenha reconhecido a verdade. E fiquei zangada por você ter aparecido e estragado meus planos perfeitos.

Kieran beijou sua cabeça, sentindo o corpo da jovem em contato com o seu. Queria essa mulher como jamais havia de­sejado outra. Queria acordar de manhã e encontrá-la ao seu lado. Queria ter filhos com ela. Por que cometera a tolice de desafiar o pai? Por que nunca havia considerado que poderia viver um momento como aquele? Que poderia encontrar uma dama como Lady Fortune Mary Lindley?

— Fui batizada na Igreja católica pelo Padre Culleen — re­velou ela, como se pudesse sentir seus pensamentos. — Isso significa que podemos ser casados por ele. Não vai ter de de­sistir de nada por mim, Kieran.

— Isso ainda não resolve o problema da minha pobreza.

— Está bem, vamos cavalgar enquanto continuamos dis­cutindo essa questão — sugeriu Fortune.

— Não sou o marido ideal para você, minha querida.

— Adali! — gritou Fortune, impaciente. O mordomo apa­receu em seguida, e ela ordenou: — Vá chamar meu pai, Adali. Diga que preciso falar com ele imediatamente.

— Sim, milady. — Notando a expressão assustada e nervo­sa no rosto de Kieran, ele se retirou apressado, rindo enquanto ia cumprir a ordem da jovem senhora. O pobre homem não ti­nha chance de escapar. Lady Fortune sempre fora determina­da, sempre conseguira tudo o que desejava. E como nunca fora caprichosa nem excessivamente exigente, uma atitude ríspida, quando surgia, era sempre surpreendente para a família. Adali encontrou o duque no pequeno escritório do castelo, exami­nando o cronograma de procriação dos cavalos.

— Lady Fortune gostaria de vê-lo no salão, milorde.

— Diga a ela que irei em seguida.

Acho melhor ir agora, milorde. Lady Fortune informou Mestre Devers sobre sua intenção de desposá-lo, mas ele hesi­ta, alegando não ser bom o bastante para ela por não dispor de bens materiais.

— Pelo amor de Deus! — exclamou o duque.

— Amém — concordou Maguire, rindo.

Kieran Devers empalideceu visivelmente quando o duque de Glenkirk entrou no salão acompanhado por Adali e Rory Maguire. Eles o expulsariam, soltariam os cachorros para atacá-lo! Não tinha o direito de desejar uma dama como Lady Fortune. Nem mesmo em segredo.

— Milorde — começou ele com uma inclinação respeitosa. Que diabos estava fazendo? Era um Devers, filho de uma Maguire e primo de vários 0'Neil. Não tinha fortuna, mas seu nome era respeitável. Maguire ria de orelha a orelha. O que es­tava acontecendo ali?

— Soube que quer se casar com minha filha, Kieran Devers.

— Sim, milorde, mas sei que não permitirá tal enlace por­que sou um homem pobre sem nada a oferecer.

— Fortune? Tem alguma coisa a dizer?

— Eu o amo, papai.

— Ah, sim. E tem riqueza suficiente para vocês dois. Está disposta a dividir o que tem?

— Você sabe que sim, papai! Kieran poderá desfrutar de tudo o que possuo. E não é pouco, como bem sabe.

— Milorde, não posso me casar com Fortune por sua rique­za. Devo ser senhor de mim mesmo e quero ter algo de meu para oferecer, algo além de meu nome. Sou um homem honra­do, não um patife caçador de fortunas.

— Não seja tão orgulhoso! — gritou Fortune, irritada.

— Talvez Willy pudesse desposá-la por sua fortuna, mas não eu! — respondeu ele no mesmo tom.

—Não precisa se casar com minha filha pela riqueza, Kieran Devers. Na verdade, não terá controle sobre os bens dela, como seu irmão também não teria. As mulheres dessa família preser­vam e administram com sabedoria os próprios bens. E uma tra­dição. Os homens com quem elas se casam são beneficiados por uma generosa doação anterior ao casamento. Fortune se­guirá sendo muito rica. Você nada terá em comparação. Se qui­ser, pode investir e multiplicar o valor que receberá como dote. Agora que sabe disso, não creio que tenha mais alguma objeção ao casamento com Fortune. E ainda estará me prestando um gran­de favor tirando a pequena megera de minhas mãos. Ela tem sido extraordinariamente difícil na escolha de um marido.

Kieran Devers jamais estivera tão surpreso em toda a sua vida.

— Está dizendo que posso me casar com Fortune, milorde?

— Sim, desde que a ame. Você a ama? — O duque de Glenkirk conhecia a resposta, mas queria ouvi-la do rapaz.

— Eu a amo com todo o meu coraçãol Jamais poderia me casar com outra mulher, pois sei que nenhum amor se igualará ao que sinto por Fortune. Sim, milorde, eu a amo!

Rory Maguire sentiu o coração apertado. Conhecia o senti­mento que Kieran Devers descrevia. Pelo menos o rapaz pode­ria realizar esse amor. Já ele...

— Oh, papai, obrigada! — Fortune abraçou e beijou o pa­drasto.

— O que está acontecendo? — perguntou Jasmine Leslie ao entrar no salão.

— Kieran e eu vamos nos casar, mamãe!

— Isso é muito repentino, mesmo para você, meu bem — comentou Jasmine, sorrindo. — Tem certeza de que é isso o que quer? Não quis o jovem William, mas escolhe o irmão dele?

— Eu o amo, mamãe. Por que não consegue entender? Will é doce, mas sem graça. Kieran e eu temos muito em comum.

— Por exemplo?

— Nenhum de nós jamais se sentiu em casa no mundo. Ambos sabemos que há um lugar para nós, um lugar que ainda não encontramos.

— Não se sente em casa na Irlanda? Ou aqui, em Erne Rock? — Jasmine preocupou-se, pois sabia que Kieran Devers não ti­nha outra morada além da casa paterna, e que não poderiam viver lá depois de casados. A Inglaterra seria a resposta? Com todas as leis anticatólicas em vigor, Jasmine duvidava disso. Onde, então, sua filha e Kieran Devers poderiam viver? — Sabe que pretendia lhe dar Maguire's Ford como presente de casamento.

— Já é terrivelmente ruim que tenha me apaixonado por sua filha, senhora — disse Kieran —, mas, se vivermos aqui em Maguire's Ford, minha família em Lisnaskea, ou melhor, mi­nha madrasta, arderia de inveja. Jane Devers tem adoração pelo filho, como viu. Não suportará saber que Fortune, tendo recu­sado a proposta de William, ainda que tivesse rezado por isso, aceitou se casar comigo. Há muito ela cobiça suas terras, embo­ra tenha guardado segredo de meu pai. Foi ela quem conven­ceu Samuel Steen a sugerir o nome de Willy. Meu irmão con­versa muito comigo, pois a mãe dele preservou nossas relações cordiais pelo bem da propriedade e das aparências. Willy é um rapaz solitário, mas Lady Jane o jogaria contra mim sem nenhuma dificuldade, se pensar que estou no comando de Maguire's Ford. Meu irmão acredita ter se apaixonado por Fortune e é facilmente dominado e conduzido pela mãe. Essa é a terra que minha madrasta deseja ter. Ela faria qualquer coisa para tomar a propriedade de seus senhores católicos. Lady Jane vai criar muitas dificuldades quando souber sobre meu casa­mento com Fortune.

— Ele tem razão — opinou Rory Maguire, pensativo. — Lady Jane é uma fanática, milady. Kieran e Lady Fortune terão de deixar a Irlanda para escapar de sua ira, e minha senhora terá de pôr as terras nas mãos de um protestante declarado, pois só assim Lady Devers não terá chance de roubá-las.

— Mas, Rory... E seu povo? — Jasmine inquietou-se.

— Estaremos bem sob um novo senhor protestante da sua escolha, milady.

— Duncan e Adam! — exclamou Jasmine. — Daremos Maguire's Ford a nossos dois filhos mais novos, Duncan e Adam Leslie. Ambos ainda são meninos, mas foram criados na Igreja anglicana escocesa. Ninguém poderá discutir suas lealdades religiosas, especialmente por serem meio-irmãos do sobrinho do rei. O mais velho ficará com o castelo, e construiremos uma boa casa para o mais novo. Protestantes que são, Rory Maguire, asseguro que os meninos têm uma atitude tolerante e uma men­te aberta com relação a outras religiões, pois foram educados dentro desses princípios.

— São seus filhos, milady. Não duvido disso.

— Então, Kieran e eu podemos nos casar? — perguntou Fortune.

— Não imediatamente — argumentou Jasmine. — Você e Kieran estão bem no meio de um furacão de paixão, meu bem. Não há dúvida de que se amam... agora. Mas ainda se amarão dentro de um mês? Ou de um ano? E onde irão morar? Não pode ser aqui na Irlanda, pelas razões que Kieran expôs há pou­co com grande propriedade. A família dele vai ficar furiosa quando souber que o deserdado conquistou a herdeira de Maguire's Ford. A Inglaterra pode ser um pouco mais segura, desde que Kieran não exiba seu catolicismo e obedeça as leis impostas pelo rei.

— A esposa do rei é católica! — protestou Fortune.

— Sim, e sua fé já causou grandes dificuldades, porque o povo tem a mente fechada para a diversidade da palavra de Deus — respondeu a duquesa de Glenkirk.

—Então, o que faremos, milady? Que esperança há para nós? — Kieran começava a se afligir com a falta de perspectivas.

— Sempre há esperança, Kieran — respondeu Jasmine cal­mamente. — Você diz não se sentir em casa na Irlanda, embora seja a terra onde nasceu, a terra de seus ancestrais. Porém, acre­dita haver no mundo um lugar para você. Eu também sigo meus instintos, razão pela qual creio que é realmente o homem ideal para desposar minha filha, mas, antes de entregar minha ado­rada Fortune, vocês terão de encontrar um lugar onde possam se sentir contentes e seguros. Para isso, quero que venha conosco para a Inglaterra no final do verão. Há alguém lá que quero que conheça. Seu nome é George Calvert, Lorde Baltimore. Ele é filho de mãe católica e pai protestante e foi criado na Igreja da Inglaterra. Sua família, embora respeitável e próspera, nunca foi nobre. George Calvert foi bem-educado e acabou chaman­do a atenção de Sir Robert Cecil, o Secretário de Estado do rei. Calvert tornou-se seu secretário particular, e assim começou a carreira política. Ele se casou e deu ao seu primeiro filho o nome de Cecil, em homenagem a Sir Robert. Lentamente, com muito empenho e trabalho duro, George Calvert progrediu. Ele este­ve aqui na Irlanda várias vezes tratando de assuntos reais e por isso conhece a situação.

"Quando Cecil morreu, em 1612, o rei manteve Calvert em seu serviço. Ele foi sagrado cavaleiro em 1617 e se tornou Se­cretário de Estado e membro do Conselho Privado. E um ho­mem modesto, muito querido por todos. Possui terras aqui na Irlanda. Porém, quando sua esposa morreu no parto há vários anos, Sir George sofreu uma crise de consciência e se voltou para a fé praticada por sua mãe.

Ele é um homem de grandes escrúpulos. Por isso anunciou publicamente sua conversão, renunciando a todas as posições que ocupava. O rei ficou devastado e poderia até ter decretado a morte de Sir George. Seu amor por Calvert, no entanto, superou a decepção e, em vez de condená-lo, o rei o fez Barão Baltimore em seu reino da Irlanda. Desde a morte do Rei James, os Calvert conseguiram preservar a amizade e os favores do Rei Charles. Lorde Baltimore sonha fundar uma colônia onde todos os ho­mens possam praticar a fé que determinar sua consciência, sem interferência nenhuma. Não sei se ele poderá realizar esse so­nho. Tenho pouca fé na boa vontade desse meu bom e velho amigo, mas, se há alguém que pode alcançar sucesso nessa em­preitada, esse homem é Calvert. Talvez essa colônia seja o lugar para você e minha filha. Aceita vir conosco para a Inglaterra?"



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