Fortune, uma mulher impiedosa. Bertrice small



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Certamente, milady! — Kieran segurou as mãos de Fortune. — Essa pode ser a resposta, minha adorada. Um lugar onde cada um possa praticar sua fé em paz e com liberdade. E quase bom demais para ser verdade.

— Sim, talvez seja a solução — respondeu Jasmine. — Ao longo da vida, já vi muitas coisas erradas praticadas em nome de Deus, Kieran, mas, como disse, há sempre esperança. — Ela sorriu.

— Mas quando poderemos nos casar, mamãe? — quis sa­ber Fortune.

— Quando eu tiver certeza de que esse amor vai durar mais do que a doçura de um verão — decretou Jasmine sem hesitação.

Capítulo 6


Depois de ouvir as palavras da mãe, Fortune saiu apressada e sem pedir licença. Ela não entendia que estavam apaixonados? Sabia que a mãe sucumbira ao amor muitas vezes para com­preender a emoção. Havia esperado a vida toda por esse mo­mento e agora ela queria arruiná-lo?

— Querida, espere! — Kieran Devers chamou-a, alcançan-do-a no pátio do castelo. — Vamos cavalgar. A chuva parou, podemos aproveitar o passeio para conversar. Sua mãe está cer­ta, como bem sabe.

— O quê? Vai tomar partido dela? Não quer se casar comi­go, Kieran Devers? Seu ardor esfriou tão rapidamente? Michael, meu cavalo!

Ele a tomou nos braços, mas Fortune tentou se libertar.

— Espere! Está se comportando como criança, Fortune! Algo na voz dele a fez parar. Ela o encarou com lágrimas nos olhos.

— Ela não entende, Kieran.

— Está enganada, Fortune. Sua mãe entende tudo perfeita­mente. — Ele acariciava os cabelos dela. — Você foi muito pro­tegida e mimada, adorada. É você quem não entende, ou quer as coisas à sua maneira com tanta veemência que prefere não entender.

Fortune fungou e apoiou a cabeça em seus ombros largos.

—Sou católico, minha querida. Tomei essa decisão há muito tempo e não vejo razão para mudá-la agora. Mesmo assim, não tenho nenhuma pretensão de me tornar um mártir religioso, nem condeno a religião alheia. Isso foi algo que a Igreja nunca conseguiu enfiar na minha cabeça. Adotei o catolicismo por­que me sinto confortável com ele. Você segue a Igreja anglicana da Inglaterra porque está contente assim. Toda crença tem ini­migos que querem destruí-la. Para viver em paz, devemos es­colher uma ou outra. Sua mãe nos ofereceu a possibilidade de irmos viver em um lugar onde poderemos nos dedicar cada um à religião escolhida, da maneira que quisermos, e não como alguém nos diz que deve ser.

— Esse lugar ainda não existe — respondeu ela, triste.

— Se Sir George Calvert conseguisse encontrar um lugar onde essa colônia pudesse existir, não gostaria de ir viver lá, minha querida? Talvez seja esse o lugar que procuramos!

— Mas onde seria esse lugar?

— Não sei, mas no Novo Mundo, talvez, do outro lado do oceano. Vamos passar o verão aqui na Irlanda, alimentando nosso amor. Depois, no outono, iremos para a Inglaterra com seus pais. Conheceremos Sir George e veremos o que ele tem a dizer sobre esse mundo maravilhoso que quer construir, esse lugar de paz onde cada um poderá fazer suas escolhas.

— Mas quando nos casaremos?

— Antes de partirmos para a Inglaterra, espero. Seus pais não são contrários à nossa união, adorada. Apenas querem ter certeza de que realmente nos amamos. Estou disposto a ser pa­ciente, e você também deve ser. Agora, onde está Michael com os cavalos?

— Aí vem ele.

— Ah, finalmente! Vamos cavalgar até a colina onde nos conhecemos.

Atravessaram o vilarejo num trote lento, depois correram pelos prados onde os carneiros pastavam. Fortune ria, e o ven­to carregava o som doce. Finalmente, chegaram ao topo da co­lina onde se viram pela primeira vez. Lá embaixo, o rio corria como uma faixa azul cortando a paisagem, misturando-se ao verde das colinas encobertas pela névoa densa a oeste. Eles des­montaram e ficaram apreciando a beleza do lugar.

— E lindo — disse ela. — Mas não é meu lar. — Removendo o manto, Fortune o estendeu sobre a relva e sentou-se.

— Não, não é — concordou Mestre Devers, sentando-se ao lado dela. — Passei toda a minha vida olhando para essas coli­nas e nunca senti a ligação forte, o elo inquebrantável que de­veria sentir. — Passando um braço sobre os ombros de Fortune, ele a beijou com ternura, depois com paixão ardorosa.

Era estranho, Fortune pensava, atordoada e confusa. Não sentia vontade de agredi-lo. Pelo contrário. Ela o abraçou, pu-xando-o para mais perto, sentindo os seios pressionados pelo peito musculoso. isso era beijar de verdadel De maneira surpreen­dente, era algo natural para ela, embora não tivesse experiên­cia anterior. Com o aumento da pressão, seus lábios se entrea-briram como se tivessem vontade própria. A sensação era deliciosa! Ousada, ofereceu a língua e encontrou a dele. Foi como se um raio a atingisse!

Kieran levantou a cabeça e sorriu para ela. Depois se dei­tou de costas para olhar para o céu. Seu membro sexual pulsa­va com crescente excitação. Ela não tinha realmente nenhuma idéia do que estava acontecendo consigo ou com ele. Até onde o deixaria ir? Kieran olhou para a bela jovem deitada ao seu lado e, apoiado em um cotovelo, estudou sua expressão. Com a outra mão, soltou os botões prateados do colete dela.

Fortune o observava com os olhos meio cerrados, o coração batendo depressa. Uma das mãos de Kieran penetrou pela aber­tura do colete para acariciar um de seus seios. Era uma carícia leve, mas muito provocante. Ela suspirou. A corrente que sacu­dia repentinamente seu corpo era, ao mesmo tempo, deliciosa e assustadora. Até onde ele ousaria ir? Estava mesmo disposta a conceder maiores liberdades a Kieran Devers? Ele se deferia, se ela pedisse?

Os dedos brincavam com as fitas que prendiam a camisa da jovem. Lentamente, ele as desamarrou. Restavam apenas as fitas da camisola. Os olhos encontraram os dela num pedido silencioso de permissão para prosseguir. Kieran inclinou-se para beijá-la nos lábios.

Fortune sentia o corpo todo tenso, pesado. Não conseguia se mover. Não podia dizer não àquele homem. Queria que ele abrisse sua camisa. Queria que tocasse seus seios. Uma vez, quando era ainda muito pequena, vira o amante de sua mãe, Príncipe Henry Stuart, acariciar um seio nu de Jasmine. A ex­pressão de prazer no rosto de ambos e o suspiro deleitado de sua mãe jamais se apagaram de sua memória. Queria conhecer aquela mesma alegria. Suspirando, ela fechou os olhos.

Não havia dito uma palavra, mas seu silêncio foi toda a permissão de que ele precisava para seguir em frente. Os de­dos praticamente arrancaram as fitas da camisola finíssima, que se abriu para revelar um colo pálido, firme e perfeito. Kieran quase gemeu ao ver os seios de forma tão perfeita. Eram peque­nos e redondos, com mamilos pequeninos que lembravam fru­tas rosadas sobre uma tigela de creme. A mão tocou um deles.

Fortune abriu os olhos para estudar aquela mão. Um som estrangulado brotou de sua garganta. Seus olhos tornaram-se maiores.

Kieran sorriu. Ela era uma criatura forte, intensa, mas tam­bém era muito mais inocente do que havia antecipado. Mesmo assim, não podia conter-se, porque Fortune era uma tentação irresistível. Ele aproximou o rosto de um seio e ouviu as bati­das frenéticas de seu coração de donzela.

— Perdoe-me, adorada, mas não consigo conter-me. Você é tão linda, Fortune! Tão linda!

Ela tocou seus cabelos escuros, afagando-os com ternura. Havia algo de absolutamente natural no que estavam fazendo, embora sentisse medo. Kieran a amava. Não poderia fazer mal algum a ela, sua escolhida. Sua mãe sempre a prevenira sobre o poder da paixão. Só agora começava a entender o que ela que­ria dizer.

— Amo você, Kieran Devers. Ele ergueu a cabeça de seu colo.

— Também amo você. Não estou habituado a jogar com o amor, Fortune. Sinto-me arder de desejo por você.

— Oh... —Compreendendo o significado da declaração, ela fechou a camisola e amarrou as fitas, repetindo o procedimen­to com a blusa de seda. Finalmente, abotoou o colete.

— Esse é um jogo perigoso, Kieran. Sou inocente, mas com­preendo que a paixão é tentadora e envolvente.

— De fato, minha adorada.

— Um dia, sei que me dará tanto prazer quanto um homem pode dar a uma mulher.

Ele riu, sentindo que a tensão entre eles se dissipava. O co­mentário era ousado para uma virgem, mas não podia esperar menos de Fortune.

— Sim, pode estar certa de que você terá muito prazer co­migo, minha futura esposa.

— Prometo fazer o mesmo por você, Kieran Devers.

— Será obediente, também?

— Ah, bem...

— Vou ter de espancá-la para que me obedeça?

— Pode me bater se isso nos der prazer — disparou ela.

Kieran levantou uma sobrancelha. Ela não sabia o que es­tava dizendo. Não podia saber. Rindo, ele se levantou e foi bus­car os cavalos que pastavam perto dali.

— É hora de voltarmos para casa, adorada. Seus pais de­vem estar preocupados, e Maguire vai acabar soltando os ca­chorros para me encontrar. Se ele desconfiar que a desonrei de alguma maneira, não haverá salvação para mim. — Ele a aju­dou a montar.

O casal voltou sem pressa, embora nuvens pesadas se for­massem rapidamente no céu. Um trovão distante os fez acele­rar o progresso, e eles entraram no pátio de Erne Rock quando já começava a chover. Não havia nenhum criado do estábulo à vista, por isso, seguiram cavalgando até lá, onde desmontaram e conduziram os animais às baias. Com eficiência, removeram as selas e os arreios, e Fortune começou a escovar Thunder como se essa fosse uma atitude natural para ela. Kieran a observava sorrindo. Para tornar-se útil, foi encher com aveia as terrinas dos dois animais.

Quando terminou de escovar o cavalo, Fortune saiu da baia e fechou a porta.

— Não sei onde Michael pode estar — disse. — Talvez te­nha ido à cozinha para fazer uma refeição. E agora a chuva está caindo forte. Creio que é melhor ficarmos aqui até a tempesta­de cessar, ou diminuir, pelo menos. — Ela o encarou com ar ingênuo. — O que vamos fazer para passar o tempo?

Kieran riu.

— Você não tem vergonha, mocinha! — disse, empurran-do-a contra uma parede. Seu corpo não tocava o dela, mas as mãos seguravam suas nádegas. — O que gostaria de fazer?

Ela estava hipnotizada. Pelos olhos verdes que devoravam seu rosto, pelos dedos que a tocavam com ousadia, pela urgên­cia quase incontrolável de entregar-se.

— Gostaria de tê-lo dentro de mim, Kieran Devers. Quente, rígido, faminto.

— Jesus! — A palavra explodiu do peito de Kieran.

— Está chocado porque sou virgem, e virgens não devem dizer essas coisas, não é? Mas minha mãe foi amante de um príncipe. Meu padrasto nunca teve receio ou vergonha de de­monstrar a paixão por minha mãe. Minha irmã mais velha vi­veu quase um ano em um harém. E, Kieran Devers, não sou cega nem surda. Sei o que acontece entre um homem e uma mulher. Quero que aconteça conosco. Sou ousada, eu sei, mas também sou maluca por você, e quero ser sua esposa — reve­lou Fortune, tendo as bochechas tomadas de rubor por sua ousadia.

Ele a beijou. Não sabia o que mais podia fazer diante de tanta franqueza. Fortune não dissera nada que ele mesmo não houvesse pensado. Ela não queria nada além do que ele mes­mo desejava. Segurando seu rosto entre as mãos, ele beijou-a nos lábios, no nariz, no queixo, nos olhos e nas faces. Podia sentir seu cheiro, e a proximidade o inflamava. Queria que esse momento se prolongasse eternamente.

Mas ele acabou depressa.

A voz de Rory Maguire interrompeu o idílio.

— Sua mãe me mandou para ver onde estava, milady Fortune.

Ela abriu os olhos e sorriu para Kieran Devers, que recuou um passo. Despreocupada, olhou por cima do ombro de Rory para fora, além da porta do estábulo.

— Ah, a chuva parou! Estávamos esperando, Rory.

— E enquanto esperavam, ocupavam o tempo. Eu vi... — Ele comentou com tom seco. — Mestre Devers, a duquesa quer que permaneça em Erne Rock. Acha que pode se comportar, se ficar? Francamente, penso que esse é o melhor lugar para você, pois assim poderemos ficar de olho o tempo todo.

— Não sou uma menina de 15 anos, Rory! — protestou Fortune.

— Não, não é, o que significa que devia ser mais sensata. Ficar trocando beijos em local público, à vista de todos os cria­dos e maledicentes! Da próxima vez, mocinha, tente ao menos ser mais discreta. Os comentários sobre sua indiscrição com o belo Devers estarão mais do que distorcidos quando chegaram em Lisnaskea. E pode acreditar em mim quando digo que se­rão repetidos com todos os detalhes mais íntimos para Lady Devers por ocasião de seu retorno. Ela não vai ficar feliz com isso, especialmente porque já estará casada com seu enteado até lá, tendo antes rejeitado o filho dela. Seus pensamentos ime­diatos, como boa cristã que é, serão de vingança.

— Mamãe devia permitir que nos casássemos agora. As­sim não haveria causa para comentários.

— Sua mãe é uma mulher sábia. Onde está o mal de espe­rar, se o que sentem é amor verdadeiro?

— O mal vai estar na minha barriga, se mamãe me fizer esperar demais! — exclamou ela, irritada. Depois saiu com pas­sos firmes, tomando a direção do castelo.

Kieran Devers levantou as mãos num gesto de rendição.

— Não vou seduzir Lady Fortune — prometeu ele.

— Não, mas ela não vai poupar esforços para seduzir você — respondeu Maguire balançando a cabeça. — Tenho uma irmã, Aoife, que era tão obstinada quanto Lady Fortune. É melhor estar preparado, Kieran Devers. Pode se descobrir de costas, cavalgando aquela jovem raposa fogosa. Ela é virgem, sim, mas também é ousada e ardorosa.

Os dois homens se separaram, e Kieran Devers foi para o castelo. Rory, porém, deixou o estábulo e se dirigiu à pequena casa na entrada da propriedade, o imóvel que Jasmine havia dado a ele muitos anos atrás. Não ficara ali até ela voltar a Erne Rock, mas há muito o lugar fora mobiliado com objetos que herdara da família, coisas que eram muito queridas para ele; e Bride Duffy mantinha tudo limpo e arejado, caso ele de­cidisse se instalar novamente na casa modesta. Ao entrar no chalé e ver suas coisas, foi tomado pela nostalgia, um senti­mento que o leyou ao pequeno sótão sob o telhado de ângulo pronunciado. Havia ali um baú que continha uma caixa re­tangular feita de madeira com cantoneiras de prata. Rory removeu a caixa e a levou à sala no primeiro andar da casa. Um criado já havia providenciado um fogo acolhedor para espantar a umidade.

Depois de deixar a caixa sobre a mesa ao lado da cadeira mais próxima da lareira, Rory se serviu de uma modesta dose de uísque. Então, sentado confortavelmente, apreciou a bebida por alguns momentos e só então deixou o copo sobre a mesa para pegar a caixa. Não abria aquela caixa havia anos. Ela con­tinha miniaturas individuais de sua família, e vê-las o encheu de tristeza, porque serviu para fazê-lo lembrar o tempo em que a família estava de posse de Erne Rock e Maguire's Ford. Eles haviam mantido a propriedade por várias centenas de anos para os parentes Maguire, muito mais poderosos.

Quando Conor Maguire, chefe do clã, deixou a Irlanda com os condes do norte, há cerca de 20 anos, o pai de Rory Maguire, sua mãe e seu irmão mais novo, bem como as três irmãs e suas famílias, o seguiram. Ele havia sido o único remanescente, por­que não suportara deixar seu povo à mercê dos ingleses. Por uma bênção de Deus, ou uma praga do diabo, a nova senhora inglesa era ninguém menos que Jasmine Lindley, marquesa de Westleigh; e ela, conhecendo sua história, o fizera administra­dor da propriedade.

Assim, pudera permanecer em sua casa. Alguns eram orgu­lhosos demais para se humilhar como ele fizera, mas Rory acre­ditava ter tomado a atitude correta quando decidiu ficar. Seus pais estavam enterrados na França, longe da terra natal. Não sabia o que havia acontecido com as irmãs e suas famílias. O irmão mais novo, Conan, fora para a Rússia e se tornara oficial do Exército Imperial do czar. Tivera notícias dele pela última vez havia 10 anos, e não sabia nem se ele estava vivo. As caixas com as miniaturas eram tudo o que restava de sua família.

Devagar, foi tocando as peças. Lá estavam as sete miniatu­ras ovais, cada uma em seu leito de veludo. Ele sorriu ao ver o rosto do pai, porque percebeu de repente que agora era muito parecido com ele, mais do que na juventude. Lá estava sua mãe, com seu nariz longo e fino e os brilhantes olhos azuis. Ele, aos 18 anos, e Conan, o segundo filho, então com 14 anos. Suas ir­mãs: Myrna, a mais velha, então com 21 anos; Aoife, com 16 e Fionula, com 12. Aqueles haviam sido tempos felizes, ele pen­sou triste, preparando-se para fechar a caixa.

De repente, seus olhos recaíram sobre a miniatura de Aoife. O artista a pintara numa pose que lhe era familiar, como se ela jogasse a cabeça com um misto de impaciência e irritação. Era um gesto que não assistia havia anos... Mas que voltara a ver naquele dia, quando Fortune se retirara do estábulo. Rory tirou a miniatura do estojo, removendo dela a fina camada de poei­ra. Olhou incrédulo para o rosto pintado. Era o rosto de Aoife, mas há muito o havia esquecido. E também era o rosto de Fortune Lindley] Só agora reconhecia a impressionante semelhança entre as duas.

Rory pegou o copo e sorveu todo o conteúdo dele de um só gole. Sentia-se como se houvesse sofrido um golpe furioso, vio­lento. Como podia ser? Como Lady Fortune e sua irmã, Aoife, podiam ter o mesmo rosto? A mesma postura? Os mesmos ges­tos? Os mesmos cabelos vermelhos que só ele e Aoife possuíam? Tolol A voz interior debochava dele. Sabe qual é a resposta para sua pergunta. Não se deitou com Jasmine Lindley no passado? Fortune é sua filha.

Ele gemeu como se houvesse sofrido um ferimento pro­fundo. A mente voltou 21 anos no tempo. O marquês de Westleigh fora assassinado. Sua esposa caíra em letargia, víti­ma de uma doença que não conseguia superar. Ela chorava e chamava pelo marido em seu estado inconsciente, pedindo que a amasse mais uma vez. Estava morrendo. Desesperado, Adali e o sacerdote o chamaram e o enviaram ao quarto da marquesa delirante, sugerindo que fizesse amor com ela na es­perança de arrancá-la das garras da morte. Amava-a em segre­do desde o primeiro encontro, mesmo sabendo que ela nunca corresponderia a esse amor.

Rory lembrava o choque que sentira ao ouvir aquela suges­tão. Ficara especialmente chocado porque o sacerdote fizera parte do plano, incentivando-o tanto quanto Adali, que pode­ria ser perdoado por ser estrangeiro. Porém, não resistira à opor­tunidade de fazer amor com Jasmine, mesmo que ela jamais soubesse disso. Não havia sido necessário um grande esforço para convencê-lo. E, se ela vivesse, teria a satisfação secreta de saber que a salvara. Se ela morresse, ele também morreria. As­sim, Rory acabou aceitando o pedido de Adali e do sacerdote, e depois deixou o quarto para voltar às sombras de sua eterna solidão. Jasmine sobrevivera, tendo despertado finalmente na manhã seguinte. Ao descobrir a gravidez algumas semanas mais tarde, ela se regozijara por seu amado Rowan Lindley, com quem fizera amor na noite anterior ao assassinato, ter deixado para ela o último e maravilhoso presente que seria seu terceiro filho.

Mas Fortune não era filha de Rowan Lindley. Ela era filha de Rory Maguire. Quem mais sabia disso? Jasmine? Não! Ela não podia saber, porque jamais tomara conhecimento de como ele a salva­ra da morte. Adali devia saber. Seu olhar atento não perdia nada. E Padre Cullen? Sim, provavelmente! E haviam guardado segre­do durante todos aqueles anos! Se hoje não houvesse sentido aquela imperiosa necessidade de rever os rostos familiares pin­tados nas miniaturas, talvez jamais descobrisse a verdade. E, agora que sabia de tudo, o que faria com esse conhecimento? Guardou no bolso a miniatura de Aoife antes de fechar a caixa e deixá-la de lado. A mão deslizou pelo cabelo vermelho num gesto de desespero. O que faria?

Uma criada entrou na sala com uma bandeja coberta.

— Mestre Adali enviou seu jantar, milorde, já que não com­pareceu para comer com todos os outros no salão. Ele quer sa­ber se está bem. — A jovem depositou a bandeja sobre a mesa e removeu o tecido que a cobria.

— Diga a Adali que não me sinto bem, mas que o verei ain­da hoje, esta noite, antes de me recolher. E quero ver Padre Cullen também. — Ao ver a expressão horrorizada no rosto da jovem, ele riu. — Não, menina, não estou morrendo. Estou ape­nas um pouco cansado. Preciso dos conselhos do religioso so­bre um determinado assunto. Seja discreta quando transmitir meu recado, porque não quero causar perturbação desneces­sária. — Ele disse e deu uma piscadela.

A criada saiu, e Rory olhou para a bandeja. Truta. Vários pedaços de carne. Pão. Manteiga e queijo. Uma terrina com er­vilhas frescas. Ele comeu por hábito. Depois, serviu-se de mais uísque e bebeu sem pressa. Sentia frio. Muito frio. Tinha uma filha. Uma bela filha que era a imagem de sua irmã favorita. Uma filha que ficaria absolutamente horrorizada se soubesse que seu pai verdadeiro não era o marquês de Westleigh. Ele suspirou. Por 21 anos havia guardado segredo sobre como Jas­mine sobrevivera à morte de Rowan Lindley. Não havia sido fácil, mas conseguira, tirando Jasmine da cabeça, embora ela permanecesse sempre em seu coração.

Havia sido um fardo, mas agora tinha sobre os ombros uma carga ainda mais pesada. O conhecimento sobre a verdadeira origem de Fortune. Como pudera deixar de reconhecê-la? O tem­po... Aoife estava longe havia muitos anos, e seu rosto se apaga­ra de sua memória. Pusera a caixa com as miniaturas no sótão porque era doloroso demais lembrar tempos mais felizes e a fa­mília amorosa que tivera, mas perdera. Podia ter ido com eles, mas recusara-se a sair de Ulster. Ainda lembrava como a mãe e as irmãs choraram ao se despedirem de Maguire's Ford. Essa lembrança ainda apertava seu coração, 25 anos mais tarde.

Discordara de forma veemente dos condes do norte que abandonaram suas casas e seu povo, porque mais gente fora forçada a ficar do que pudera ir. Julgara egoísta a decisão da­queles condes. Lembrava-se de ter discutido com o pai, cuja lealdade aos primos, Conor Maguire, havia sido maior do que pela própria família. Só a intervenção de sua mãe impedira que o confronto ganhasse proporções físicas. No final, a vontade de seu pai prevalecera. A família deixou Ulster seguindo o con­de, mas Rory Maguire ficou para proteger o povo de Maguire's Ford da melhor maneira possível. O fato de ter conseguido era quase um milagre, mas, para isso, privara-se de ter uma famí­lia. Não se casara, porque se apaixonara por Jasmine, e nenhu­ma outra mulher pudera ocupar o lugar dela em seu coração. Ela, é claro, jamais soube da profundidade de seus sentimen­tos. Agora, de repente, ele descobria que tinha uma família; mas como poderia reclamar a filha sem causar irreparável dano a Fortune e à sua mãe?

A criada retornou para recolher a bandeja e disse:

— Mestre Adali e o sacerdote estão a caminho, milorde. Tem certeza de que está bem? A duquesa me pediu que insistisse na pergunta.

— É só um desconforto digestivo — assegurou ele, sorrin­do. — Amanhã já estarei bem.

— Direi à minha senhora — respondeu a jovem antes de sair com a bandeja.

Rory não ficou sozinho por muito tempo, porque Adali e o padre entraram na sala minutos depois.

— Está doente? — estranhou o sacerdote. — A criada este­ve com minha prima justificando sua ausência à mesa.

— Minha doença é da alma, Cullen Butler. — Rory tirou do bolso a miniatura da irmã e a entregou ao sacerdote.

Cullen a estudou com ar casual. Depois, indagou:

— Onde conseguiu este belo retrato de Fortune? — E entre­gou a miniatura a Adali.

O mordomo a examinou com atenção.

— Não é Lady Fortune, bom padre. Ela não tem a marca de nascença da princesa entre o lábio superior e a narina esquer­da. — Adali olhou para o irlandês. — Quem é?

— Minha irmã mais nova, Aoife.

—E claro.—Adali comentou, calmamente.—A semelhança é espantosa, milorde Maguire. Ambas são lindas mulheres.

— Você sabia? — O tom de Maguire era acusador.

— Sim, eu sabia — respondeu Adali.



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