Guia para um seqüestro


Estevão falou com a voz baixa, mas nitidamente



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Estevão falou com a voz baixa, mas nitidamente:



Às 20 horas, no Paradise da Av. Nova Faria Lima.
Tudo bem! Até mais tarde, Fernando respondeu, desligando o celular.
Estevão, definitivamente, contraíra o vírus de Fernando. Chegou ao Paradise meia hora antes do horário marcado. Era sua primeira vez nesse restaurante, especializado em peixes de água doce, particularmente da Amazônia. Pediu uma mesa para dois, não fumantes, de preferência longe da passarela dos garçons, em lugar reservado. Enquanto esperava Fernando chegar, fez o levantamento do Paradise contabilizando os garçons, bartenders e garçonetes. Já tinha contado duas recepcionistas na entrada mais o maître. Depois de pedir ao garçom uma água mineral sem gás, deu uma ida até o banheiro e voltou calmamente. No trajeto, levantou quantos clientes estavam sentados.
Fernando chegou na hora marcada, com sua pasta e bengala, todo sorridente, e foi logo dizendo: Estamos apostando?
Sim. Pode mandar, respondeu Estevão.
Fernando, sorrindo-lhe, disse: OK! Vamos ver o que você viu!
Responda-me qual é a cor das blusas das duas recepcionistas da entrada? Não se preocupe com as roupas íntimas, de baixo. Apesar de você ter a visão perfeita, 20 x 20, pelo que eu sei, você ainda não conseguiu o Kit de visão Raio X do Superman.
Só isso? perguntou Estevão rindo.
Está bom demais para quem andou viajando muito ultimamente, respondeu Fernando, enquanto fazia um sinal para chamar o garçom.
As duas estão de blusas bege, saias marrom, sapatos pretos, e uma, a mais alta, é loira e a outra é morena clara. O conjunto me pareceu um uniforme, pois elas estão longe de serem gêmeas. Nunca estive aqui antes. Você deve saber, não? comentou Estevão sorrindo para Fernando.
Pagarei o jantar hoje com muito prazer, disse Fernando que continuava numa alegria fora do comum. Foi por isso que o escolhi para parceiro. Você cada dia que passa fica mais experto, elogiou Fernando.
Se você quiser posso lhe dar a contabilidade do local, disse Estevão.
Não é preciso. Sei que você já deve ter somado todos os Paradisianos ou Paradisienses. Seja o que for. Hoje é o meu dia de pagar o pato. Ou melhor, o peixe.
Os dois se decidiram pelos peixes do Norte. Estevão pediu um pirarucu assado na brasa acompanhado de legumes ao vapor e Fernando um tambaqui na brasa, com os mesmos legumes.
Pediram cerveja Cerpa, do Pará, para esperar os peixes amazônicos.
Enquanto aguardavam os peixões, Estevão confidenciou a Fernando que o plano para abordagem estava pronto e que iria transferir 14 soldados da célula A para a Fazenda Buriti nos próximos dois dias. Antes da abordagem, dois dos soldados iriam para as imediações da Limoeiro e se infiltrariam em um dos capões (pequena mata de formato arredondada) da propriedade.
O meu levantamento de campo confirmou que os capões que aparecem na imagem de satélite, oito no total, são as áreas de reservas legais da Limoeiro, alguns com fontes d’água e riachos. De um dos capões entre a guarita de entrada e a sede, da fazenda, será possível observar, perfeitamente, a movimentação na residência, no apartamento dos pilotos e do segurança. Os soldados escalados são os melhores do grupo nesse tipo de camuflagem, levarão consigo binóculos infravermelhos e estão preparados para ficar cinco dias no mato. Estarão munidos com um celular internacional e rádio.
Os soldados têm três tarefas na missão:
Primeira:
Confirmar o horário de chegada do avião de Irene e quantas pessoas descem do avião, incluindo os pilotos. Se o avião decolou novamente ou se taxiou para o hangar.
Segunda:
No outro dia, pela tarde, comunicar-nos as condições do tempo e se o avião continua na sede ou algum outro status.
Terceira:
Quando nosso avião pousar, nas primeiras horas da manhã de domingo, e exatamente cinco minutos após termos desembarcado na pista da Limoeiro, eles cortarão a rede elétrica e dois fios da linha telefônica que saem da guarita da entrada principal, junto à estrada, e vêm por campo adentro, em linha reta, em postes de concreto até chegar ao transformador da sede. Os nossos soldados estarão camuflados em um capão onde os fios passam ao lado da mata. Após o corte dos fios, eles correrão até o final da pista para nos dar cobertura daquela posição e de lá embarcarão conosco. Caso a abordagem se complete antes de 5 minutos o sub-comandante, por rádio, lhes dará a ordem imediata para adiantar a tarefa
Fiz o teste do celular comum nas imediações da guarita da entrada e deu negativo. Não há sinal nenhum. No meu filme e na imagem de satélite, não notei nenhuma antena de celular na propriedade ou imediações. Você poderia, se der tempo, ver com os inteligentes da célula I se o administrador ou outra pessoa da Limoeiro recebem sinal de celulares na sede.
A companhia de telefone que explora a área deve saber. São 43 km do centro de Araçatuba até a fazenda, mas como, na região, não tem nenhuma atividade industrial ou estradas asfaltadas indo para aqueles lados, não deve existir ainda nenhuma antena de retransmissão. Nossos soldados vão cortar, primeiro, os dois fios de telefones convencionais mais o do interfone e, logo após o início da ação, cortarão os fios da rede elétrica que sai da guarita e vai até a sede. Isto feito dificultará chamadas convencionais da Limoeiro para fora. Mas ficarei em dúvida quanto aos celulares do Careca, Irene ou outros empregados…
Fernando interrompeu e perguntou porque não dar um celular comum para o soldado que irá acampar no mato? Ele poderia fazer um teste rápido por lá e chamá-lo no internacional.
Pensei nessa possibilidade, também, respondeu Estevão. Mas o capão fica a um quilômetro da sede e não confio nessa distância que, às vezes, faz uma diferença muito grande com respeito à recepção de telefonia celular no campo.
Se der tempo, eu o informarei, falou Fernando.
Estevão esperou o garçom abrir a segunda garrafa de Cerpa para continuar a relatar seu plano a Fernando. Assim que o garçom se afastou Estevão continuou.
Como estava dizendo, estou pronto e me decidi por levar o café da manhã para Irene logo cedo na sede da Limoeiro. O café vai chegar de avião, fumegando...
Fernando não conteve o sorriso e disse:
Já vi o cenário completo, vai virar best seller ou roteiro de cinema...
Estevão o interrompeu e continuou.
Vou simular um avião com pane de motor e descer na pista de pouso na sede da Limoeiro. Se Irene estiver acordada, ela sairá do ninho quando ouvir o barulho característico do passo de hélice de avião com mudança de seu regime. Se ela estiver dormindo, talvez acorde com o mesmo barulho. Ao pousar, fumegando, taxiarei até perto do hangar com um dos motores parado. Só desceremos do avião no primeiro instante, aparentemente desarmados, eu o Barroso e duas soldados mulheres, todos, vestidos como agentes florestais do IBAMA. O avião, também, terá o logotipo do IBAMA.
O restante dos soldados ficarão alerta e escondido no avião para entrar em ação assim que for preciso.
O resto é previsível com uma ou duas variações. Vai depender muito do Careca, se é dorminhoco ou não, e se terá a mesma reação de Irene quando vir o avião com problemas.
Aposto que os dois, particularmente Irene, ou até mesmo os pilotos, se tiverem acordados, quando escutarem o avião ou virem a fumaça com certeza tentarão ajudar, como qualquer outro ajudaria, os assustados agentes do IBAMA que sairão apressados de dentro do avião.
Estevão, olhando para os lados para ver se o garçom trazia o pirarucu, continuou a falar:
Creio que o fator psicológico que faz com que as pessoas ajudem as outras em uma emergência pode ser o nosso grande trunfo inicial, para não falar do fator surpresa. Acho que Irene e o segurança quando virem o avião em pane talvez, momentaneamente, voltem seus pensamentos para o dia em que Aurélio se acidentou perdendo a vida. Embora Irene e o segurança não estivessem presentes no local da tragédia, poderão se sensibilizar com os assustados agentes do IBAMA e nos abrirem as portas.
No final, tudo se resumirá na percepção e reação que o segurança de Irene terá. Pelo que sabemos é o único armado, e estou apostando que ele vai engolir a fumaça causada pela pane do avião.
O sargento Barroso é o co-piloto e sub-comandante da missão ele e os soldados estarão bem armados e preparados para qualquer tipo de reação do Careca ou qualquer outros suicidas que aparecerem.
Com o cenário montado dessa maneira, espero não darmos um tiro sequer na Limoeiro.
Quer apostar? perguntou Estevão a Fernando encerrando a explanação de seu plano de abordagem.
Fernando respondeu:
Já lhe disse que essa missão vai dar um best seller ou um roteiro de cinema. Concordo que não haverá um tiro sequer. Controle seus homens para não metralharem os caipiras.
Não vou apostar nada porque a vantagem está do seu lado. Mas aposto que você terá que carregar Irene no ombro. Ela não irá de livre e espontânea vontade.
Feito. Apostou Estevão, perguntando logo a seguir porque ele estava todo alegre hoje.
Fernando respondeu:
Irene irá passar o sábado e domingo, 7 de Setembro, dia da nossa Independência, na Limoeiro. Levará um casal de banqueiros ingleses que a convidaram para passar dez dias na Espanha em Julho. Fique de olho no ingleses, a única coisa que sabemos é que são banqueiros.
A outra boa notícia é que Antônio, filho de Irene, não passará o fim de semana com a mãe, irá direto de São Paulo com a namorada, para participarem de um jogo de pólo em Santa Catarina.
Portanto, o cenário está prometendo, comentou Fernando.
Ótimo! Até lá estaremos em posição. Se o quadro de acompanhantes não mudar, até domingo, tudo indica que vamos ter um Royal Straight Flush na mão, concluiu Estevão.
O garçom serviu os peixes e os dois pediram água mineral, sem gás, para lavar o álcool das duas Cerpas pequenas que tomaram enquanto aguardavam o jantar.
Desta vez Estevão, após terminarem a pescaria, saiu antes de Fernando e pediu à recepcionista para trazerem o seu Jeep.
Fernando, enquanto aguardava a conta, reprisou o plano de Estevão, mentalmente, e chegou à mesma conclusão de seu parceiro. Não dariam um tiro em toda a operação de abordagem. Teria que descobrir, urgentemente, se tinha ou não recepção de celular na sede da Limoeiro. Pagou a conta em dinheiro e pediu para a recepcionista lhe chamar um taxi.

Quinta feira, 5 de setembro, Estevão embarcou no aeroporto de Congonhas, em São Paulo as 7:20 da manhã no primeiro avião de carreira que partia para Presidente Prudente. O tempo estava bom e aproveitou o ambiente descontraído no ar para repassar, mentalmente, alguns itens de seu plano de ação.


Já tinha falado com o sub-comandante Barroso, pelo seu Global Star International Satelite Cellular Phone – Telefone celular internacional via satélite, para ele mudar 14 soldados da célula A, em treinamento no Paraguai, para a Fazenda Buriti.
Instruíra Barroso para revisar o Brasília EMB 120 e deixá-lo pronto para a missão. Os soldados ficariam estacionados na Buriti até o dia da missão. Barroso devia prepará-los para uma missão de abordagem e ainda treinar dois deles, o Rubio e o Rambo para aperfeiçoarem suas técnicas de camuflagem em ambiente de mato e pastagem verde/amarelada. Eles participariam da mesma missão, mas partiriam antes, possivelmente dia 5, sexta-feira, para fazerem o levantamento e segurarem visualmente o local da abordagem.
Mesmo falando entre eles em códigos próprios, Estevão não falara onde era o local da missão.
Ao desembarcar foi direto para a companhia de Taxi Aéreo Mirasol, onde fizera uma reserva, antecipadamente, de São Paulo.
Na Mirasol, confirmou o preço só de ida e pagou em dinheiro, não exigiu recibo algum. José Ricardo era o nome falso que Estevão usava quando fazia aquela rota. Nenhuma companhia aérea fazia vôo direto de São Paulo para Brasilândia, Mato Grosso do Sul, e Estevão estava sempre às voltas procurando qual era a melhor opção para chegar até a Buriti. Às vezes ia por Londrina e de lá continuava de taxi aéreo ou o Barroso vinha levá-lo em um dos aviões pequenos.
Desta vez José Ricardo levava duas malas grandes e uma caixa de isopor bastante pesada. A viagem foi tranqüila e rápida. José Ricardo não dava muita conversa aos pilotos com quem viajava, ao contrário, não dava a entender que conhecia ou pilotava aviões. Para sua própria segurança, ficava arredio, lia seus livros ou planejava detalhes das missões e materiais que iria necessitar.
No pequeno aeroporto de Brasilândia, Barroso esperava por Estevão todo animado com o cheiro de ação no ar. Era a adrenalina decolando.
No caminho para a Fazenda, Estevão deu a Barroso uma explanação real do cenário atual na sede da Limoeiro. Por enquanto, omitia o nome da pessoa a ser abordada.
Almoçou com os soldados da Célula A no galpão da Buriti onde estavam reunidos à sua espera. Após o almoço, Estevão vistoriou cada um dos soldados, fez perguntas técnicas sobre os armamentos que seriam usados, testou o reflexo de alguns deles, perguntou se alguém estava doente ou com outro problema qualquer.
Os soldados não tinham nada a declarar. Estavam ali para cumprir ordens sejam elas quais fossem. Estavam todos atentos e prontos para ação. Gostavam de ser liderados por gente como Barroso e Estevão. Entendiam que eles representavam um ideal político que todos abraçaram quando foram entrevistados e convidados a participar. Fariam qualquer coisa em nome do MOVIMENTO BRASILEIRO NACIONALISTA (MBN).

Estevão distribuiu os novos uniformes de camuflagem para os soldados. É unisex, comentou, olhando para as mulheres. Calça, camisa e chapéu de pano para homem e mulher. Os uniformes foram bordados com a insígnia do IBAMA na camisa e no chapéu. Usem as suas botas pretas atuais e quero vê-las limpas como novas, comentou Estevão, terminando de distribuir o último par de roupa para uma das soldados mulheres, escolhida para descer com ele do avião assim que pousassem na pista da Limoeiro.

Pediu a Barroso para transferir todos os soldados para sala de TV na velha sede da Buriti. Lá receberiam as instruções da missão de domingo.

Assim que todos se acomodaram na sala, Estevão colou uma imagem de satélite da Limoeiro em uma parede juntamente com várias fotos numeradas. Deixou o filme pronto para rodar na TV e falou aos soldados.


O Código do nome da missão que realizaremos em breve é CANA DOCE e o palco da ação será em uma fazenda no oeste paulista. Vamos chegar de avião, tomar e segurar o local. A ação se resumirá em abordar uma mulher. Ela será levada para o avião conosco, e a operação não deverá ultrapassar 15 minutos, no máximo. Levantaremos vôo em seguida, e, no ar, eu e a abordada tomaremos outro destino diferente do de vocês.

Estevão apontou com uma caneta lazer para a imagem, explicando que aquilo era uma foto tirada do espaço por um satélite, revelada em pequena escala. Observando bem a imagem, dava para se ter uma idéia generalizada de todo o complexo residencial, pista de pouso da fazenda, hangar, confinamento de gado nos fundos e parte das fazendas vizinhas da Limoeiro.


Agora vocês vão fotografar com seus cérebros e memorizar cada foto mostrada aqui na parede que corresponderá a um número, continuou Estevão.
A foto nº 1 é a pista de pouso e decolagem. Tem 1.500 metros de comprimento e como podemos ver é asfaltada.

A foto nº 2 é o hangar onde ficam estacionados os aviões. Tem 3.000 m² de área construída e as portas abrem uma para cada lado sobre rodas. Não sabemos se usam fechadura ou cadeado para segurar as portas. O soldado Furlan levará o material necessário para abrir o hangar e segurará o local. Pode até ser que a porta esteja aberta. Na saída se não precisarmos de nenhum dos aviões da fazenda, Furlan furará os pneus de todos os aviões do hangar. Geralmente tem três ou quatro. Até lá o resto dos soldados inutilizarão os veículos da fazenda para que ninguém saia rápido de lá.
Entenderam? perguntou Estevão.
Ouviu um sim generalizado.
A foto nº 3 é a casa principal (sede) da fazenda. É o local onde, possivelmente, estará o nosso alvo para a abordagem.
A foto nº 4 é a casa de hóspedes e possivelmente terá um homem e uma mulher hospedados na casa. Eles são ingleses e possivelmente não falam português. Até sábado à noite, checaremos com o Rubio e Rambo para ter certeza se só teremos um casal de convidados ou se de última hora haverá outras pessoas.
A foto nº 5 é casa do administrador. Ele tem uma esposa e dois filhos pequenos.
A foto nº 6 é o complexo de apartamentos onde ficam os pilotos e o segurança da pessoa a ser abordada.
A Foto nº 7 é a mulher que será abordada. Em hipótese alguma. Deverão apontar uma arma, muito menos atirar nela. Eu, Barroso, Marisa e Júlia fomos escalados para abordá-la.
A foto nº 8, pelo que tudo indica, é o único segurança que estará de plantão no dia da abordagem. Notem que ele é careca. Mas cuidado para não se confundirem com outro que por aventura apareça na hora da ação sem cabelos. Isto é, outro careca. O Careca, geralmente, carrega uma PT. 380 ACP na cintura.
Existem outras edificações que mostrarei logo a seguir no filme, mas são um pouco mais afastadas do cenário principal e lá vivem empregados sem poder de fogo e decisão alguma.
A ordem principal é a seguinte, enfatizou Estevão, vocês estão autorizados a atirar somente sob minhas ordens ou as de Barroso. Se por ventura eu ou o Barroso, por um motivo ou outro, não pudermos dar a ordem de fogo e o segurança ou outra pessoa atirar em qualquer um de nós, vocês poderão, daí então, tomar a decisão de eliminá-los. Não atirem em hipótese nenhuma na mulher que será abordada, mesmo se ela aparecer armada e resistir à abordagem.
Estevão repetiu a seqüência das fotos três vezes. Complementou dizendo que as fotos seriam retiradas no sábado à noite e queimadas. Até lá eles poderiam examinar as fotos de perto uma por uma.
Estevão, na seqüência, passou o filme da Limoeiro na TV.
O filme fora editado em VHS, por ele mesmo em São Paulo, e mostrava somente os lugares estratégicos para a ação. Mostrou a guarita de entrada, a pista de pouso, o hangar e o complexo residencial. Estevão focalizou e fez uma pausa onde se via o capão, onde Rubio e Rambo iam se hospedar camuflados. Ao lado do mato, um pouco à direita, viam-se os postes de concretos com os fios de luz e telefone que deveriam ser cortados.
Rubio e Rambo acenaram que tinham captado as instruções.
Voltando ao filme, Estevão mostrou outras residências de empregados e o confinamento do gado. Terminou de mostrar o filme comentando que, no sábado à noite, realizariam a última reunião sobre a missão CANA DOCE.
Até lá algum outro detalhe que estivesse faltando poderia vir a mudar um pouco o cenário, mas não muito. Continuou dizendo que a missão era relativamente fácil, do ponto de vista da defesa da mulher a ser abordada. Pelo que sabemos até agora o Careca, seu segurança particular, será a única pessoa armada. Estaremos atentos para qualquer outras possibilidades.
O soldado Furlan perguntou o que aconteceria se a mulher a ser abordada não aparecesse no cenário.
Boa pergunta, respondeu Estevão.
Como já disse antes, Barroso, Marisa, Júlia e eu estamos escalados para abordá-la. Desde o momento em que pousarmos na pista, estaremos todos com os olhos atentos e direcionados para duas pessoas em particular, o Careca e a mulher a ser abordada.
Já discuti essa possibilidade com o Barroso e nos pareceu que o Careca poderá ter Somente duas opções para reagir ao evento inesperado.
Primeira:
A nossa vantagem é que estamos em uma emergência e aparentemente não oferecemos nenhuma ameaça. A reação natural dele seria de ajudar os agentes do IBAMA em apuros. No momento oportuno, decidiremos como segurá-lo.
Segunda:
Na eventualidade de o Careca se tornar cuidadoso, ele não se aproximará do avião em pane e irá na direção da mulher a ser abordada para lhe dar a devida proteção. Também nessa situação, nós quatro com a tarefa de segurá-lo teremos que encontrá-lo e fazer o devido contato. O que nos preocupa é ainda não sabermos da possibilidade de telefones celulares pegarem lá ou não. Rubio e Rambo eliminarão as linhas dos telefones convencionais assim que o nosso avião pousar na pista da Limoeiro. Os fios da rede elétrica deverão ser cortados entre 5 a 7 minutos mais tarde. Isso feito, eles irão correndo até a pista e nos dar cobertura de lá. No sábado à noite, falaremos com Rubio para ver como está o cenário na sede da fazenda e, possivelmente, até lá, por outros meios que estão sendo investigados, teremos a informação se existe ou não sinal de recepção de telefone celular na área.
Estou apostando que o sinal ainda não chega até lá, mas pode ser que a mulher a ser abordada ou o Careca tenham um celular igual aos nossos e eles poderão pedir ajuda se desconfiarem que estão sendo abordados por um comando. Por isso é essencial que o resto dos soldados permaneçam no avião até identificarmos que tipo de boas vindas teremos. Se a recepção for hostil e mesmo que eles peçam ajuda, teremos tempo suficiente para eliminar o Careca ou qualquer outro que oferecer perigo para a missão e tirá-la de lá em no máximo 15 minutos. Ninguém, mas ninguém mesmo terá tempo suficiente para salvá-la.
Estevão convidou, então, os soldados para irem treinar um pouco para a missão dizendo que o Barroso daria as instruções.
Barroso comandou os soldados para o galpão da fazenda onde estavam estacionados os aviões.
Vamos dar duas horas para o Rubio e o Rambo se esconderem, camuflados, na borda daquela mata que estamos vendo daqui. Barroso perguntou a Marisa se ela poderia estimar a que distância estavam da mata.
Marisa pegou o binóculos de Rambo, regulou seu mecanismo e respondeu ao sub-comandante.
Mais ou menos 850 metros.
Barroso pegou seu próprio binóculo e confirmou a mesma distância dizendo que dava nota 10 a Marisa.
Bom! disse Estevão.
O Rubio e o Rambo irão até o campo começar um jogo de esconde e acha. Eles levarão seus apetrechos e se vestirão no mato. Os dois têm roupas específicas, mas também vão improvisar com outros materiais da natureza que eles possam usar para se incorporarem ao ambiente local. A seguir o Barroso explicará as regras do jogo.
Barroso pediu a Rubio e Rambo para não adentrarem mais do que 50 metros na mata e não ultrapassarem a distância de 500 metros à esquerda da estrada, e disse que poderiam usar até 30 metros das pastagens em frente à mata.
Barroso entregou aos dois duas mochilas de sobrevivência para cinco dias e disse que, além de suas facas e armas de longo e médio alcance, binóculos, rádios e o celular internacional, teriam que levar luvas de borracha, uma corda de alpinista de 15 metros, dois ganchos de ferro em forma de anzol e um cortador de cabos de alta tensão.
Barroso ordenou que os dois ficassem lá por duas horas e que fizessem um levantamento aqui do galpão e redondezas.
Após esse período quero que você me chame no rádio e me diga de sua posição camuflada o que está avistando de lá, quantos homens estão aqui, o que estão fazendo, onde está o avião, carros, etc. Resumindo! Quero um levantamento completo do que está acontecendo aqui na sede.
Depois de vocês nos chamarem no rádio, o pessoal daqui sairão para jogar.

Rambo e Rubio pegaram suas mochilas e saíram em direção ao campo do jogo e logo sumiram mata a dentro.


Enquanto isso, na sede, Estevão e Barroso instruíam o restante dos soldados a vestirem os novos uniformes dos guardiões da natureza.
Duas horas mais tarde, o rádio de Barroso bipou, e, em código, Rubio foi falando o que acontecia na sede.
Barroso fez uma pergunta sobre a logo-marca do avião. Se estava visível ou não?
Rubio respondeu que estava visível.
Estevão pediu que Barroso lhe passasse o rádio e perguntou a Rubio quantos homens estavam armados com armas curtas.
Logo veio a resposta.
Somente dois. Estevão com coldre no ombro e Barroso na cintura.
Estevão falou por último e alertou os camuflados em código que o outro time estava entrando em campo.
Estevão os animou quando disse:
O jogo vai começar.
O primeiro soldado que achar um dos camuflados ganha um bônus de 200 dólares. O segundo a ser achado ganha 100 dólares. O campo do jogo está limitando entre o pasto de brachiara, 30 metros antes da borda da mata com 50 metros de profundidade mata adentro e 500 metros a esquerda da cerca de arame confrontando a mata. Vocês têm 30 minutos para terminarem o jogo. Se nenhum de vocês acharem os camuflados vocês pagam de seus soldos 10 dólares cada um ao Rambo e Rubio.
Alguns dos soldados responderam.
Tá apostado! Moleza! Os duzentões já são meus! Acho os dois antes dos 30 minutos! disse outro soldado.
Enquanto os soldados partiam para o ataque, Furlan, Estevão e Barroso desempacotaram a caixa de isopor que continha os kits pirotécnicos de fumaça. Era o mesmo material usado pelo aviões de acrobacia nos Estados Unidos e Europa que criavam aqueles efeitos especiais nos shows aéreos.
Estevão pediu a Furlan para testar um dos kits-fumaça no ar, sábado de manhã, que simularia a pane na turbina. Depois trocaram idéias sobre as técnicas de conseguirem uma pane no motor turbo-hélice, simulando um vazamento hidráulico na turbina. O efeito pane, arquitetado por Estevão e executado por Furlan, seria um arraso. Furlan e Barroso comentaram, entre si, que somente o Comandante poderia bolar uma aterrissagem dessas. Nem os cowboys aéreo-espaciais de Hollywood tinham filmado algo parecido.
Estevão aproveitou e fez a revisão em dois pára-quedas individuais e um outro maior de salto duplo que levaria na missão consigo no domingo. Deixou os pára-quedas soltos em uma bolsa de nylon e, no sábado à noite, iria revisá-los novamente para o salto de domingo.
Passaram-se os 30 minutos dados aos soldados para descobrirem Rambo e Rubio. Barroso usou o rádio para anunciar o fim do jogo e chamou o time dos caçadores de volta para o galpão.
Em pouco tempo, os soldados começaram a sair da mata e se dirigiram para a sede da Buriti.
Chegaram sem os dois camuflados.
Júlia, uma das soldados mulheres, reclamou com Barroso que os 30 minutos dados não haviam sido suficientes para procurar os camuflados na mata. – Fizemos uma varredura entre os 11 soldados espalhados a cada 50 metros um do outro percorrendo a borda da mata e mato adentro, mas não tivemos tempo suficiente para procurar em todo o perímetro demarcado e encontrar os alvos, concluiu Júlia.
Barroso chamou, pelo rádio, Rubio e Rambo avisando que o jogo terminara e pediu-lhes que voltassem para a sede.
Os outros soldados olhavam com seus binóculos para ver de onde eles saíriam da mata.
Para surpresa de todos, Rubio reapareceu uns 15 metros antes da borda da mata no meio do pasto, a mais ou menos 240 metros da cerca. Acenou e veio em direção da sede.
Rambo reapareceu vindo de dentro da mata, mais ou menos a uns 400 metros da cerca.
Estevão sorrindo disse aos soldados que os camuflados tinham vencido o jogo e para não esquecerem dos 10 dólares no fim do mês. Quando chegaram foram aplaudidos pelos demais, e Rúbio foi escalado, primeiro, para detalhar sua camuflagem.
Rubio começou contando que de fato entrara na mata na mesma direção de onde saíra, mas que na ida notou uma moita grande de caraguatá (bromélia com espinhos que nasce em campos e nas bordas de mata) no meio do pasto misturada com outros arbustos. Voltou rastejando do mato, apagando seus vestígios, e fez uma meia cova no meio da moita e se cobriu com a vegetação local, inclusive alguns pés de caraguatá, por isso os arranhões nas mãos e rosto. No processo, expulsou um lagartão de sua toca. Viu um soldado mulher passar a uns 20 metros do seu lado direito e outro soldado do seu lado esquerdo. Esse último chegou a tocar na moita com sua arma, mas, repelido pelos espinhos, seguiu em direção da mata.
Rambo começou explicando que usou uma técnica usada pelos chimpanzés. Contou que esses, por serem nômades, todas as tardes antes do anoitecer sobem em árvores para fazer suas camas para dormirem e se protegerem de outros animais. Geralmente escolhem um local da árvore onde ha forquilhas e usam os próprios galhos e folhas das árvores para fazer a cama. Fazem isso com uma rapidez e técnica incrível, pois todas as noites repetem a cerimônia em outras árvores.
Prosseguindo, Rambo detalhou mais sobre a construção da cama de chimpanzé.
Escolhi uma árvore difícil de escalar, pois não tinha galhos na parte lisa e grossa de seu enorme tronco. Aproveitei a corda e gancho da mochila e lacei um dos galhos no alto para subir. Antes da subida apaguei minhas pegadas no solo da mata, que por sinal é coberto de folhas secas e não deixa muito rastro. Em uma altura de seis metros ficou fácil de escalar a árvore até quase a copa. Lá os galhos se espalhavam para todos os lados. Subi um pouco mais e escolhi uma forquilha de três galhos fortes de onde dava para avistar a sede. Comecei a adicionar mais galhos e folhas vedando a visão de baixo para cima. Dois soldados se cruzaram debaixo da cama, mas esta estava bem feita. Se eu não tivesse a corda teria que procurar outra árvore ou me camuflar no solo da mata.
Estevão e Barroso os cumprimentaram e dispensaram todos os soldados até a hora do jantar, escalando Rambo e Rúbio para estarem prontos para viajar as 6 horas da manhã.
A Fazenda Buriti era uma fazenda semi-abandonada com uma área enorme de serrado, matas e campos. Fora arrendada por Estevão há mais de dois anos e pertencia a um espólio de uma família de Bauru que esperava na Justiça o desfecho final litigioso de uma partilha de bens de um falecido comerciante. Estevão escolhera a fazenda pela sua localização estratégica entre São Paulo, Paraná e Mato Groso do Sul e rota fácil para o Paraguai, Bolívia e Argentina. A sede e os galpões estavam em processo adiantado de deterioração, e as únicas benfeitorias que Estevão fez na fazenda foi arrumar uma pista de pouso antiga, encompridando-a para que seus aviões pudessem pousar e decolar sem perigo. Colocou algumas vigas novas no enorme galpão para escorá-lo melhor. O entreposto, no momento, estava sendo usado para suas idas e vindas aéreas ao Paraguai onde comprava seus armamentos, munições e treinava militarmente os soldados que aderiram ao MBN. Treinavam uma Célula de cada vez.

Para evitar alguma surpresa desagradável, durante 24 horas os soldados da Célula A se revezavam para vigiar a entrada da Buriti quando lá estavam, temporariamente, preparando-se para uma missão ou de passagem para outro lugar. Os aviões eram estacionados em um galpão velho que serviu anteriormente para os maquinários agrícolas do antigo proprietário. Quando eles não usavam a pista de pouso, esta era protegida por três cabos de aço esticados a cada 200 metros transversalmente sobre a pista a uma altura de 60 centímetros do solo. Este truque, com certeza, pararia dramaticamente alguma visita inesperada vinda pelo ar.


Para maior proteção do Movimento, Barroso improvisou um esconderijo em uma gruta, longe da sede no meio da mata, onde eram escondidos os armamentos e as munições junto com outros itens que pudessem causar algum comprometimento perante a lei e curiosos. Perto da gruta armara tendas militares camufladas para os soldados dormirem à noite. Na sede, só ficavam as coisas do dia-a-dia de uma fazenda com pouca atividade na pecuária e lavoura.
Estevão, Rubio e Rambo esperaram raiar o dia para decolarem no Beechcraft bimotor B55 1980 com rumo a Birigüi, cidade próxima a Araçatuba. O avião pequeno, mas rápido, fez o percurso em pouco tempo. Os dois soldados estavam animados com a missão e no vôo repassaram suas tarefas com Estevão.
Ao pousarem em Birigüi, tomaram um taxi no aeroporto rural e foram até a cidade onde havia uma única locadora de automóveis que já aguardava a chegada de José Ricardo. Este fizera a reserva de São Paulo antes de sair para Brasilândia. Conseguiram um Corsa relativamente novo e Estevão disse ao locador que voltaria após o almoço.
Saíram em direção a Araçatuba e de lá tomaram a estrada rumo a Fazenda Limoeiro. Ao passarem em frente à guarita da fazenda, não notaram nenhuma novidade e seguiram na direção da Fazenda Santa Carolina.
Cinco quilômetros após passarem a entrada da Limoeiro, Estevão parou o carro ao lado de um pontilhão sob o qual passava um riacho de água avermelhada que vinha da direção da Santa Carolina e corria para a Limoeiro. Certificando-se que não havia ninguém por perto, os dois soldados saíram do carro e se dirigiram para o riacho onde desapareceram no meio dos arbustos.
Estevão continuou uns 5 quilômetros estrada acima e fez um retorno voltando para a direção de Araçatuba e de lá para Birigüi.
Chegou na locadora às 14:07 horas, pagou em dinheiro e deixou um extra para completar o tanque, dispensou o recibo oferecido pelo atendente, pedindo a ele que lhe chamasse um taxi.
Do aeroporto rural de Birigüi, chamou Barroso no celular internacional, via satélite, dizendo em código que os pássaros já estavam no ninho e que ele estava a caminho de casa.
Barroso lhe deu o OK de entendido, desligou o celular Global Star e voltou a trabalhar no avião, acessorado por Furlan, aperfeiçoando os efeitos especiais barulhentos e enfumaçados desenhados por Estevão.
Furlan era o mecânico e piloto substituto da Célula A. Eram poucos os mecânicos de aviões de médio e pequeno porte que tinham sua experiência.
Começara nos garimpos da Amazônia, onde a precariedade de peças e ferramentas condenavam aviões, ainda, em bom estado. Sua curiosidade e seu profundo conhecimento de motores, aliados com sua boa vontade e tino aeronáutico, fizeram dele um mago da selva, principalmente depois que sobreviveu a dois acidentes causados por pane de motores em pleno ar. Um dos desastres aconteceu nas imediações de Serra Pelada, no Pará, e o outro a 30 quilômetros de Barcelos, na margem direita do Rio Negro, Estado do Amazonas. Em ambos acidentes teve a destreza de conseguir levar o avião para a água onde, de acordo com ele, o espaço aberto criava melhores condições de sobrevivência.
Gostava de dizer que, enquanto estava descendo, a presença de espírito fazia-o lembrar-se das instruções primárias improvisadas por ele mesmo em outros acidentes. Primeiro: abrir a porta do avião antes do pouso forçado. Segundo: na água, para não afundar junto com o avião e virar presunto de piranha, sair correndo por cima d’água igual ao lagarto Jesus Cristo.
Estevão chegou no fim da tarde fazendo um vôo rasante por cima da Buriti, perguntando a Barroso, pelo rádio, se podia descer.
Barroso confirmou com um OK que a pista estava limpa.

Show aéreo

Barroso e Furlan estavam com suas ferramentas de trabalho embaixo da asa do Brasília EMB 120. Assim que Estevão entrou no galpão, Furlan lhe mostrou o dedo polegar, sujo de graxa, com o sinal de positivo. Barroso complementou dizendo que amanhã, logo cedo, fariam o teste no ar. Hoje, já tinham testado a turbina em solo duas vezes e estavam contentes com o resultado dos efeitos.


Nesse momento o Celular Internacional de Estevão tocou. Uma voz conhecida do outro lado falou:
Gostaria de Falar com o Dr. Anselmo, por favor.
Estevão respondeu:
Ele não pode atender no momento. Serve o filho dele?
Serve! continuou Fernando, falando em um semi-código fácil de entender para alguém que esperava notícias sobre telefonia celular.
A Dama que você visitará no fim de semana é uma comunicadora internacional igual a nós. O Sombra só se comunica na Capital. O resto dos residentes estão esperando a tecnologia chegar.



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