Guia para um seqüestro


– OK! Entendido, disse Estevão, desligando o celular. Ficou pensativo por uns instantes até que Barroso perguntou se tudo ia bem



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OK! Entendido, disse Estevão, desligando o celular. Ficou pensativo por uns instantes até que Barroso perguntou se tudo ia bem.

Sim! respondeu Estevão dizendo que o QG o chamara para dizer que a mulher que seria abordada tinha um telefone celular internacional igual aos deles. O celular do Careca é comum e só funciona em São Paulo e na sede da Limoeiro não tem sinal de recepção para celulares comuns.


Essa nova descoberta, por um lado, é muito boa porque agora sabemos exatamente os meios de comunicação da Limoeiro para fora. Com os fios dos telefones convencionais cortados por Rubio e Rambo só restará o Celular Internacional da abordada. Portanto, teremos que impedi-la de usar o celular, e você e uma das soldados Marisa ou Júlia estão encarregados de encontrá-lo, de preferência antes que ela o use.
No sábado de manhã, Estevão, Barroso e Furlan levantaram vôo para testar a turbina e o kit fumaça, preparados no motor da asa esquerda do Brasília 120. Após uns 15 minutos no ar e voltando em direção da pista de pouso, Furlan ligou o kit fumaça ao mesmo tempo em que mudava o passo da turbina para bandeira e avançava o passo da turbina direita, em funcionamento para simular uma situação de emergência. Os efeitos especiais funcionaram perfeitamente e Estevão pediu para que continuassem assim até ele pousar o avião. – Quando o avião tocar na pista desligue o motor esquerdo e eu continuarei taxiando com o direito até o Galpão.
Quando saíram do avião, foram aplaudidos pelos soldados que assistiam o show aéreo.
Júlia disse que o efeito foi impressionante e que, mesmo sabendo que o avião fora preparado, dava para ficar tremendo de medo. A pane parecera super real com aquela redução drástica da turbina, criando uma fumaça branca azulada dramatizando ainda mais, a descida do avião.

Furlan agradeceu os aplausos e se retirou para se limpar.


Após o almoço, Estevão, Furlan e Barroso recarregaram o kit fumaça, encheram os tanques do avião de combustível, fizeram o walkaround, e verificaram outras partes importantes na aeronave.
Mais tarde Barroso convocou todos para uma simulação de abordagem, apesar da sede da Limoeiro ser bem diferente da sede da Buriti.
Estevão, Barroso, Júlia e Marisa fingiram sair do avião às pressas, Barroso foi para o lado da asa esquerda do avião checar o motor que ainda fumegava. Os outros três se afastaram em direção ao galpão e fingiram pedir ajuda aos soldados que se espalharam pelo local. De repente, Estevão deu uma chave de braço em um dos soldados que se aproximara para oferecer ajuda. Marisa e Júlia correram em direção à sede, sacaram suas pistolas Glok 23, chutaram a porta da sede e entraram.
Repetiram as simulações mais quatro vezes com outras variações.
Estevão se deu por satisfeito e foi conferenciar com Furlan.
Barroso ordenou aos soldados que fossem com ele até o barranco do rio Taquaruçu, que passava a dois quilômetros da sede para praticarem tiro ao alvo. Cada um daria 100 tiros em alvos parados e 200 em alvos móveis. Após o tiroteio, deviam se retirar para as barracas, limpar as armas, recarregar os pentes, jantar e descansar. Recomendou para comparecerem ao galpão às 4:30h da manhã com todos os equipamentos necessários para a missão CANA DOCE.
Os três pilotos estavam jantando na velha sede da Buriti quando o celular internacional do Barroso tocou.
É o Rubio, disse Barroso, passando o celular internacional para Estevão.
Rubio deu as boas notícias.

. Após uns 15 minutos no ar e voltando em direção da pista de pouso, Furlan ligou o kit fumaça ao mesmo tempo em que mudava o passo da turbina para bandeira e avançava o passo da turbina direita, em funcionamento para simular uma situação de emergência. Os efeitos especiais funcionaram perfeitamente e Estevão pediu para que continuassem assim até ele pousar o avião – O pássaro chegou ao meio dia, não voou mais e está na gaiola. A pombinha veio acompanhada só do costumeiro Sombra e dos dois voadores de sempre, mais um casal de turistas. O cenário está lindo e seguro.


OK! OK! respondeu Estevão, falando a seguir:
Cana Doce confirmada para as primeiras horas da manhã.
OK! OK! entendido perfeitamente, confirmou Rubio e desligou o celular.
Estevão sorriu para os outros dois acompanhantes do jantar e disse:

O avião da abordada chegou ao meio dia e foi para o hangar. Ela veio acompanhada somente do Careca, dois pilotos e os convidados. O cenário não mudou e nos favorece.


Estevão voltou ao galpão para dobrar seus pára-quedas e depois se retirou para descansar junto com os outros pilotos. Acordariam de madrugada e partiriam para a missão Cana Doce.

A abordagem

Às quatro horas da manhã do domingo de 7 de Setembro, Barroso acordou e chamou o sentinela pelo rádio perguntando se tudo estava sobre controle. A resposta foi imediata dizendo que nada mudara desde a meia noite. Usou o mesmo rádio para chamar o resto dos soldados que estavam dormindo nas barracas, no mato. Barroso pediu-lhes para que se apresentassem na sede em meia hora, vestidos com o novo uniforme, e trouxessem o armamento escolhido na noite anterior.


Estevão estava se barbeando quando Barroso tentou usar o mesmo banheiro da sede. Foi para o corredor à procura de outro espelho. A aparência pessoal era um item importante nessa missão. Os profetas apregoam que a primeira impressão é a que fica. Estevão decidiu, então, que, ao chegarem no cenário da ação, seguiria essa linha de pensamento. Isto é, os quatro soldados que desceriam, primeiro, encenariam estarem assustados quando saíssem do avião, mas, ao mesmo tempo, não poderiam causar uma impressão negativa quanto às suas aparências.
A missão CANA DOCE tinha alguns trunfos em favor do MBN.
Começava com a genialidade criativa e técnica dos dramáticos efeitos especiais que aconteceriam no ar e na pista de pouso. Na seqüência, viriam as caras limpas, mas assustadas e, por último, o visual dos uniformes e do avião, com emblemas do IBAMA, possivelmente a caminho do Pantanal.
Esse último foi um toque iluminado de Estevão para angariar dos espectadores ajuda e simpatia aos guardiões da natureza...
Os soldados Lucas e Geraldo foram os escalados para fritarem 40 ovos e fazer café e chá com bolachas para o resto do pessoal que participaria da missão CANA DOCE.
Depois de comerem, todos foram para o galpão onde receberam as últimas instruções e fizeram a checagem de suas armas.
Barroso explicou que os quatro soldados que desceriam do avião primeiro foram escalados na seguinte ordem:
Marisa, Júlia, Estevão e Eu. As duas soldados e Estevão se dirigirão para as bandas do hangar, Eu irei com um extintor, na mão, para o lado do motor em pane. Quando chegar debaixo da asa do avião decidirei se uso ou não o extintor. Nesse caminho verificarei o cenário do outro lado do avião.
Nós quatro estaremos armados, somente, com as pistolas GLOK 23 compact, calibre ponto 40 SW Austríaca, pentes de treze tiros mais um na agulha e mais dois pentes escondidos nas botas juntamente com as facas de campanha. Não desceremos com os rádios ou celulares para não levantar suspeitas.
A razão de portarmos as GLOKs menores é para escondê-las sem aparentar um volume suspeito debaixo da roupa. Os soldados Marisa e Júlia esconderão suas armas nos seus soutiens revolveiras. As blusas que elas estão usando é para enfiarem dentro da calça que mostrará, de longe, que elas não carregam nada no cinto. No avião, antes delas descerem, vão ser maquiadas para aparentarem uma cor de náusea e medo. E, para que o drama seja completo, talvez derramar um pouquinho de água nas calças, entre as pernas.
Marisa cortou as instruções de Barroso e protestou falando que, se ele e o Estevão estavam acostumados a se urinarem durante suas panes pirotécnicas, elas, também, se juntariam ao clube, de livre e espontânea vontade.
Foi uma risada generalizada e Barroso continuou as instruções.
Eu e o Estevão levaremos nossas GLOKs dentro dos bolsos revolveiras que fica aqui pelo lado de dentro da camisa, de manga comprida, na altura da costela esquerda, debaixo da axila. Nossas camisas, também, estarão enfiadas para dentro das calças e não levaremos nada no cinto ou nas mãos. A não ser eu, que sairei com o extintor.
Após desembarcarmos, o Furlan é a autoridade dentro do avião. Vocês não ponham as cabeças nas janelas e muito menos apareçam na porta até eu ou o Estevão darmos o sinal de dedão polegar positivo. O Furlan, também, é o sentinela e vai ficar de olho, camufladamente, para ver o que está acontecendo lá fora. Ele dará as ordens e levará o meu rádio e o do Estevão quando vocês saírem de dentro do avião.
O cenário já foi discutido antes e cada um de vocês sabe o que fazer. Não esqueçam dos empregados que moram mais distantes da sede. Fiquem atentos.
Rubio e Rambo estão com suas pistolas compridas, GLOK 22 com supressores e com seus Rifles HK-G3–762mm-NATO, com carregador de 20 tiros. Estão com cinco pentes cada um e mais três caixas de munição. Eles nos darão cobertura da cabeceira da pista onde embarcarão na hora de levantarmos vôo. Estarão vendo nossa descida e o desenrolar da abordagem com seus binóculos Ranger Finder. Até o momento de irmos embora, serão os últimos a dar a cara. Quero-os escondidinhos lá, em caso de o cenário mudar por uma razão ou outra.
Estevão olhou seu relógio avisando que partiriam em dez minutos. A Rota, pelo ar, seria de Presidente Prudente a Penápolis, e de lá voltar para Araçatuba. Estevão instruíra Barroso como alterar as rotas e que tipo de comunicação deveria usar para confundir o Centro Brasília, órgão de Controle na área, simulando a falta de transmissão de sinal do transponder, caso mais tarde houvesse uma investigação e alguém tentasse saber qual era mesmo o avião que passara pela região, na hora da abordagem.
O horário previsto para a aterrissagem, forçada, na Limoeiro foi calculado para as 7:54h, devido à volta que dariam para despistarem seu verdadeiro destino e para coincidirem com o horário do pessoal da Limoeiro acordando ou tomando o café da manhã.
Estevão e Barroso estavam excitados com a primeira missão da Célula A. Esperaram quase dois anos por esse dia e agora estavam a caminho para executarem a que seria uma de muitas outras missões.
O céu estava CAVOK (Clear and visibility OK – Céu de Brigadeiro), não havia previsão de chuva para o dia todo. Quando fizeram meia volta passando por Penápolis, Estevão programou o GPS com as coordenadas da Fazenda Limoeiro, corrigiu a rota e disse a Barroso que logo estariam descendo para a altitude da Fazenda Limoeiro, que estava em linha reta na rota para Araçatuba.
Ao se aproximarem a uma distância de dois quilômetros da sede da Limoeiro, Barroso iniciou o processo da pane simulada na turbina Pratt & Witney, devido a um suposto problema com o vazamento hidráulico. O efeito foi imediato, e a mudança de comportamento de ruído da turbina associada ao efeito do kit fumaça, criou uma visão dramática para quem estava sentado nas janelas laterais próximo à turbina esquerda e também para quem estava em solo.
Estevão continuou baixando a altitude, em linha reta para a direção do aeroporto de Araçatuba. Quando avistou a cabeceira da pista da Limoeiro, fez uma manobra audaciosa, mas segura, contornando um pouco para à esquerda, e apontou o nariz do avião para a pista, iniciando o processo simulado de pouso de emergência, deixando para liberar o trem de pouso, quando na curta final. Pediu a Furlan que, quando o avião tocasse o solo, ele usasse o máximo do kit fumaça, logo em seguida cortasse a turbina e prosseguisse mono motor para o hangar.
Furlan, com um sorriso maquiavélico na face, controlava o Kit Fumaça do Brasilia olhando para frente, onde já avistava algumas pessoas, no solo, indo para o hangar. Assim que o avião entrou no pátio do hangar Estevão gritou para todos ouvirem.
Três homens em frente ao hangar. Três mulheres e mais um homem vindo da sede em direção ao hangar. Duas crianças e uma mulher vindo da casa do administrador.
Barroso, enquanto abria a porta do avião, relembrou seus soldados para não se mexerem e continuarem escondidos.
Marisa, Júlia e Estevão desceram rapidamente e, logo atrás, Barroso com o extintor foi para o lado da turbina que ainda fumegava.
Estevão identificou o Careca atrás dos pilotos de Irene, vestido e com a camisa por fora da calça. Daquela distância, ainda não dava para ver se estava armado ou não. No fundo, notou Irene chegando ao hangar na frente de outras duas mulheres acompanhada de um homem.
Barroso resolveu usar o extintor, mesmo, vendo que não havia mais fumaça na asa. Decidiu que o jato do extintor desviaria a atenção dos espectadores.
Estevão emparelhou com as duas soldados e cumprimentou os dois pilotos e o Careca, começando a narrar que estavam voando para o Pantanal e que sofreram uma pane na turbina. Continuou falando e observando, de uma maneira sagaz, que o Careca estava desarmado, pelo menos na parte da frente na cintura.
Concluímos que com a pane da turbina e do jeito que estava, não daria para chegar até o aeroporto mais próximo, o de Araçatuba, por isso decidimos contornar e descer quando vimos a pista.
O mais velho dos pilotos de Irene falou que eles estavam tomando o café da manhã quando escutou a mudança no comportamento de ruído das turbinas e saiu correndo para ver que avião era.
Ainda bem que vocês viram a pista. Com essa turbina em pane, apesar do aeroporto de Araçatuba estar perto, não daria tempo para vocês chegarem até lá, comentou o Careca, que começara a andar em direção do avião do IBAMA, acompanhado pelo co-piloto de Irene.
Estevão perguntou rapidamente ao outro piloto se as duas agentes poderiam usar um banheiro porque estavam passando mal. Ao mesmo tempo que o piloto indicava a direção do banheiro, Estevão se virou para trás momentaneamente e deu o sinal pré-combinado a Barroso e Furlan, levantando seu chapéu, de selva, por um instante para limpar o suor frontal da cabeça.
As soldados Marisa e Júlia, com cor de cadáver em suas faces, e molhadas entre as pernas, caminharam ao lado de Estevão e do piloto até encontraram Irene, o casal de ingleses e outras duas mulheres com duas crianças em frente do hangar.
No percurso, Estevão notara que a porta do hangar estava meio metro aberta e perguntou se o banheiro era lá.
O piloto respondeu que havia um lá, mas se as meninas preferissem poderiam usar um outro banheiro em seus aposentos.
Irene se deslocou na frente das outras pessoas presentes e perguntou ao seu piloto o que houve com o avião do IBAMA e se todos estavam bem.

Estevão se adiantou e respondeu que houve uma pane em uma das turbinas, mas que tudo não passara de um susto, mas, infelizmente, as duas agentes estavam passando mal e precisavam de um banheiro.


Nesse momento, o piloto de Irene dera as costas para Estevão para empurrar um pouco mais a porta do hangar quando Marisa e Júlia, juntas, sacaram suas GLOKs e disseram a Irene para entrar no hangar com todas as outras pessoas. Simultaneamente, Estevão encostou sua pistola nas costas do piloto e pediu em voz alta, para que todos ouvissem, para não reagirem, pois havia 20 homens, armados, dentro do avião e disse que o segurança da Doutora Irene e o co-piloto também estavam sendo rendidos naquele momento.
Irene ficou pálida, amarelada, instantaneamente. A única reação que teve, ao passar pela porta do hangar, foi voltar-se para tentar se comunicar com seu segurança, mas não conseguiu vê-lo.
No hangar, havia um escritório semi-aberto entre um corredor que dava para os banheiros. Estevão pediu que todos se sentassem no chão do escritório.
O banqueiro inglês abraçou sua esposa e quis protestar, mas suas palavras saíram em inglês e somente Irene e seu piloto entenderam o que o estrangeiro falou. Pelo menos foi o que os ingleses deduziram quando se deram conta que estavam no Brasil.
Estevão se aproximou do casal inglês e disse ao banqueiro, em seu próprio idioma, imitando um sotaque de um francês falando inglês.
Shut up and nothing will happen to you and your wife. Now sit on the floor and don’t move your bloody ass.
Pediu a uma mulher, que deveria ser a cozinheira, para abrir a geladeira do escritório e servir água para a Doutora Irene e as duas crianças que ficaram agarradas na saia da mãe.
Nesse momento, o Careca e o co-piloto de Irene entram no hangar, com as mãos amarradas, escoltados por Barroso e mais três soldados. Barroso pediu para todos ficarem olhando para o chão enquanto passava as braçadeiras de plástico e os rádios de ouvido para Júlia, Marisa e Estevão.
Estevão mandou amarrar com as braçadeiras as mãos de todos os adultos presentes e chamou Rambo e Rubio no rádio.
Obrigado pelo corte. Aqui o jogo esta quase no fim. Os dois jogadores principais estão seguros. Vocês estão vendo outros jogadores por perto?
Rubio respondeu:
OK! OK! Negativo na estrada e negativo na frente da sede, é o que podemos assistir daqui. Pego carona com você daqui a pouco no local combinado.
Estevão perguntou à esposa do administrador onde estava seu marido.
Ela respondeu que ele tinha ido ao confinamento dos bois, no fim da fazenda e voltaria por volta das onze da manhã.
Nesse momento, entraram três soldados com mais quatro empregados, já amarrados com as mãos para trás.
São dois cavalariços que estavam encilhando os cavalos para a abordada e suas visitas e mais dois amigos do confinamento, disse um dos soldados.
Estevão pediu à Marisa para dar uma olhada no banheiro do escritório e ver se estava tudo em ordem lá. Logo a seguir, comandou um Soldado para prender a esposa do administrador com as crianças no banheiro.
Furlan falou com Estevão pelo rádio e disse que estava preparando o avião e substituindo também o logotipo. Depois disso, iria até o hangar para trabalhar nos aviões da fazenda.
Júlia e Marisa amarraram todos os presentes, com exceção de Irene. Marisa perguntou a Estevão para onde levar o resto pessoal.
Estevão pediu a Barroso para trancá-los nos apartamentos dos pilotos e deixar um soldado lá vigiando. Pediu, também, para trazerem todos os celulares que encontrassem nos aposentos. Aproveitou e pediu a um soldado para enfiar um envelope no bolso da camisa do Careca que, desde que fora surpreendido por Barroso e Furlan no avião, perdera a pistola e a voz.
Estevão se dirigiu a Irene e lhe disse.
Nós viemos aqui para levá-la e discutir, em outro local, uma proposta de negócio. Ninguém vai machucá-la e gostaria que você colaborasse com o meu pessoal. Em cinco minutos, nós vamos levantar vôo e você virá conosco no nosso avião. Agora me diga, por favor, onde está o seu celular internacional?
Irene começara a se recuperar do choque inicial, e sua cor voltara levemente ao seu lindo rosto. Vestia um conjunto de calças justas e botas de couro marrom para montaria, uma blusa bege clara por baixo de um colete de seda vinho, bordados com motivos eqüestres. Seu cabelo estava bem penteado e amarrado, estilo pony-tail. Estevão não reconheceu o perfume suave que ela usara após o banho, mas sentiu que era algo muito especial e envolvente.
Irene respondeu que não tinha nenhum celular internacional e não iria a lugar nenhum com eles.
Estevão pegou um telefone na mesa do escritório e testou, rapidamente, para um sinal de linha exterior, mas as linhas estavam mudas. Voltou-se na direção de Irene e falou com uma voz convicta que sabia tudo sobre a vida dela, inclusive que ela não viajava sem o seu Global Star Cell Phone, registrado em nome da Vênus.
Estevão lhe perguntou mais uma vez onde estava o celular.
Irene se calou, olhando para cima, e Estevão percebeu, imediatamente, que ela não falaria.
Estevão olhou para o relógio e fez um sinal para Barroso e Júlia irem até a sede em busca do celular internacional. Lembrou-os para olharem nos aposentos dos hóspedes também.
Barroso voltou em cinco minutos, com quatro celulares e outro casal de empregados que rondavam pela sede. Falou a Estevão que faltava, ainda, um casal, mas parecia que estavam fora da fazenda e até agora ninguém vira o administrador por perto.
Estevão ordenou que prendessem o casal de empregados juntamente com os outros, no apartamento dos pilotos.
Enquanto aguardava o retorno de Furlan e sob o olhar de Irene, Estevão danificou dois celulares internacionais e dois comuns. Possivelmente um dos celulares internacionais pertencia ao casal inglês, pois tinha uma marca desconhecida e estava em outro quarto da sede. Os outros três, com certeza, pertenciam a Irene, presumiu Estevão, quando sentiu o mesmo aroma do perfume sedutor impregnado nas peças dos celulares que destruía.
Furlan apareceu no hangar e rapidamente furou os pneus de três aviões e desconectou os radios. Ao chegar no quarto avião, seu intuito depredador evaporou-se no ar, deu uma volta em torno do fantasma de Glenn Curtiss acariciando suas asas de madeira e resolveu simplesmente desconectar algumas peças pequenas, essenciais para a partida do avião e as levou para fora do hangar.
Estevão olhou no relógio e disse a Barroso:
Vamos embora, avise os soldados pelos rádios. Já estamos aqui há 14 minutos. Caminhou até Irene e pediu, educadamente, para ela acompanhá-lo até o avião deles.
Irene respondeu que não iria a lugar nenhum.

Estevão se aproximou de Marisa e Júlia que seguravam Irene pelos braços e pediu a elas que poderiam soltar a doutora. Estevão já tinha guardado sua arma. Encarando Irene de frente, quase encostou seu dedo indicador no nariz dela e disse:


Você vai por bem ou por mal. A escolha é sua.
Irene, também, levantou o dedo para argumentar, mas Estevão a surpreendeu agarrando-a pela cintura e erguendo-a no ar, com uma força delicada, jogou-a em seu ombro como se fosse um saco de batatas. Saiu do hangar e foi em direção ao avião levando sua preciosa carga.
De todas as partes, vieram os soldados correndo e embarcaram no avião da Taxi Aéreo Mercúrio, com matrículas novas nas asas, que já acionava a turbina esquerda parada, aproveitando da vantagem de ter a turbina direita acionada. Barroso contou todos eles, inclusive Estevão que se debatia para subir a escada com a nova passageira no ombro.
Irene, por sua vez, dava coices no ar, murros nas costas de Estevão e acabou mordendo um dos braço dele, berrando que iria processá-lo, que o ato que ele estava praticando era um crime hediondo.
Assim que ele a soltou dentro do avião, ela imediatamente desistiu da luta e tentou convencê-lo que eles poderiam ficar na Fazenda e negociarem ali mesmo seja lá o que fosse que vieram fazer.
É um seqüestro? perguntou Irene.
Estevão não lhe deu ouvidos. Sentou-se ao lado dela e enquanto o avião taxiava para o fim da pista para pegar os dois camuflados, Estevão lhe falou objetivamente:
Eu já lhe disse e vou repetir mais uma vez. Não vamos machucá-la. Você tem que nos obedecer para darmos seqüência a um negócio que será proposto a você assim que chegarmos no local apropriado.
Irene implorou a Estevão:

Por favor! Fale-me o que vocês querem e vamos resolver isso aqui agora, antes de o avião decolar. Depois disso eu posso perder o controle da situação e ficará mais difícil para os senhores.


Estevão, calmo e equilibrado lhe explicou mais uma vez.
Quando chegarmos onde vamos, você poderá resolver ou não o que queremos. Não aqui. Não agora. Pediu licença a Irene e sinalizou para Marisa e Júlia cuidarem dela, enquanto se levantava para ir até a parte traseira do avião esperar os camuflados embarcarem pela porta dos fundos.
Nesse momento o avião chegou ao fim da pista, diminuiu a velocidade e deu meia volta, quase fazendo uma parada completa para que os camuflados, que saíram correndo de trás de um cocho de sal do outro lado da cerca que protegia a pista, embarcassem. Estevão segurava a porta com uma mão e com a outra ajudava os camuflados a subirem com suas mochilas e rifles.
Assim que se sentaram, Estevão fechou a porta e deu o dedão positivo para a cabine. Agradeceu Rambo e Rubio pelo trabalho bem feito e comentou que a ação fora perfeita e sem violência.
Barroso alinhou o Brasília 120 na cabeceira da pista, checou os parâmetros de decolagem e avançou as manetes de potência, passa pela V1 (velocidade de decisão) e quase que instantaneamente passou pela VR (velocidade de rotação, onde ocorre a decolagem efetivamente) alçando vôo, em direção ao oeste, para Andradina. Após 20 minutos, Barroso fez um contorno e colocou o avião na rota para Avaré.
Estevão foi até a cabine falar com seus pilotos e comentar sobre a CANA DOCE que estava por acabar. Ainda tinham mais uma tarefa assim que chegassem na região de Avaré.
Estevão perguntou a Furlan sobre o combustível. Furlan respondeu que tinham bombeado até o tanque encher novamente.
Estevão usava uma técnica de reabastecimento, no ar ou no solo, que era muito usada pelos traficantes da Colômbia. Barris de plásticos cheios de gasolina eram colocados dentro dos aviões e com uma bomba especialmente adaptada, transferiam o combustível dos barris direto para o tanque do avião, quando faziam longos vôos sem escalas.
Furlan perguntou a Estevão se ele não ia perguntar nada sobre um par de pneus, não danificados, de um dos aviões da abordada.
Não vou perguntar para o Mago da Selva qual é o seu melhor prato, retrucou Estevão, piscando um olho para o Comandante Barroso.
Tenho certeza que Furlan não colocou a missão em perigo por ter trocado o furo de um pneu por meia dúzia de peças, piscou o olho novamente a Barroso.
Barroso interrompeu os dois para apostar que ele sabia porque Furlan não furou o pneu de um dos aviões da abordada como combinado.
Estevão sorriu e pensou que os dois tinham combinado algo para lhe tirarem 100 dólares.
OK! continuou sorrindo Estevão. Manda a questão.
Barroso, rindo muito, apostou primeiro e disse que as peças que Furlan tirara do avião eram caríssimas e que ele ia vendê-las no black.
Perdeu 100 dólares, Furlan falou a Barroso.
Estevão apostou que Furlan não furou o pneu do último avião, da abordada, porque tinha dúvida sobre a performance do motor de nosso avião depois de tanta pane forçada. Se por acaso nosso motor não desse a partida, ele teria um avião no hangar de reserva para debandar com mais dois passageiros.
Perdeu 200 dólares, disse Furlan a Estevão.
Você terá que pagar 100 dólares a mais do que o Barroso porque estou cobrando uma multa de mais 100 dólares por falta de maior conhecimento sobre aviões. Querem apostar mais? perguntou Furlan novamente aos dois jogadores.
Para mim já basta, respondeu Barroso.
OK! disse Estevão. Manda!

Vocês notaram o avião pequeno no fundo do canto direito do hangar? Pois é. Aquele avião é o CURTISS ROBIN B (1928) com asas altas de madeira original, voa até 4.343 m com alcance de 660 Km e tem um lugar para o piloto e dois para passageiros. Só restam seis originais no mundo todo. Quem sabe se a abordada comprou um dos seis sem ninguém saber. Eu só tinha visto o Curtiss Robin B através da Internet e livros de colecionadores.


Fiquei com as pernas bambas quando entrei no hangar e notei aquela Lenda descansando, pacificamente, na minha frente. Me pareceu um milagre e eu não poderia cometer um ato de furar o pneu de uma raridade dessas em perfeito estado de conservação. Seria como apunhalar meu próprio coração que está com os movimentos perfeitamente ritmados e sem uma grama de colesterol. Por isso resolvi tirar as peças, temporariamente, as quais serão devolvidas para a abordada, assim que terminarmos essa missão.
Estevão abraçou Furlan fortemente e lhe disse que pagaria os 200 dólares com muito prazer e pediu desculpas por não ter notado a escultura perfeita criada por Glenn Curtiss, pois estava muito ocupado com a abordada.
Barroso perguntou a Furlan quanto valeria um avião naquele estado de conservação.
No mínimo, cinco milhões de dólares, respondeu Furlan, rindo dos dois.
Vamos voltar para a fazenda, deixar a abordada e levar o avião dela, brincou Furlan com os dois mais graduados

O Águia e sua presa

Estevão voltou para junto de Irene levando duas sacolas grande de nylon. Pediu às duas soldados para lhe darem espaço, pois teria que conferenciar com a abordada.


Sentou-se e notou que Irene estava com a fisionomia melhor.
Talvez ela se sentisse melhor no ar, pensou Estevão consigo mesmo. Abriu uma das sacolas e disse a Irene:
Como você pode notar os itens dessa sacola lhe são familiar. Nós vamos saltar de pára-quedas em 20 minutos. Esse plano foi desenhado por mim porque conheço seu passado e sei que você praticou o esporte por muitos anos. Poderia ser profissional se quisesse e, no momento, pelo que tudo indica está com a saúde boa.
Tenho aqui dois pára-quedas para salto individual. Você pode escolher qualquer um dos dois. Os pára-quedas estão acoplados com pára-quedas reservas, contendo dispositivos de acionamento automático DAA, os cypres.
Peço para confiar em mim porque faço isso há muitos anos e sou um pára-quedista, profissional. Apesar de não ser conhecido no circuito nacional, já ensinei muitos soldados e oficiais no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. Recentemente, estive reforçando minhas habilidades em De Land, na Florida, e já tenho mais de 3.500 saltos.
Já chequei os pára-quedas duas vezes. Se você não quiser usar nenhum desses dois, teremos que fazer um salto duplo. Eu irei como piloto.
O equipamento de Tandem é da Racer e fui eu quem dobrou o pára-quedas.
Irene falou aos gritos que ele era um louco e se quisesse saltar lá de cima que ela o ajudaria com chute no seu traseiro e ia rezar muito para que o pára-quedas não abrisse.
Estevão, sério, para não rir da resposta de Irene, deu-lhe cinco minutos para decidir. Levantou-se e voltou para a cabine acertar mais alguns detalhes da missão CANA DOCE com Barroso e Furlan.
A soldado Júlia resolveu passar uma bandeja com refrigerantes, água e café para os demais soldados que ouviram os gritos de Irene e estavam tirando suas próprias conclusões e, talvez, até com algumas apostas para ver quem acertaria como seria o salto do casal briguento.
Um bipe na cabine anunciou que estavam se aproximando do Clube Merlin, nas imediações de Avaré.
Estevão voltou ao banco onde estava Irene e, em pé, lhe disse: – Vamos! A hora chegou. Você já fez a escolha ou eu terei que escolher por você outra vez?
Irene aos berros, novamente, falou:
Você é um débil e quer me matar, não sei por que razão. Já lhe respondi que não vou saltar. Vá você e tomara que acerte o alvo. O inferno. Seu demente aéreo. Olhou para os soldados, em busca de algum apoio, mas estes desviaram o olhar para as janelas e a ignoraram.
Estevão pegou os dois pára-quedas oferecidos para ela escolher e jogou-os para um lado. Abriu a outra sacola onde estava o pára-quedas de salto duplo e colocou entre os dois. Vestiu seu macacão de salto por cima de seu uniforme, colocando sua viseira e o altmaster III no pulso. Fez um sinal para Marisa e Júlia que se levantaram e colocaram Irene sentada no piso do avião ajudando-a, à força, a vestir um macacão de salto.
Irene mordia, esperneava, gritava, quando, repentinamente, sentiu que a pressão do ar, dentro do avião, mudara. Alguém já abrira uma das portas do avião, percebera Irene. Instantaneamente, parou de reagir e falou com Estevão em uma linguagem conhecida só por profissionais de pára-quedismo em queda livre.
Está bem! você me convenceu. Escolho o salto duplo porque foi um estranho quem dobrou o outro pára-quedas que você me ofereceu. Já percebi que você não manda duas vezes e vai me atirar para baixo de qualquer maneira. Eu não conheço você, mas sei que se não mantiver a calma durante a descida poderemos morrer os dois lá embaixo.

Estevão sorriu e disse a Irene que ele tomaria a mesma decisão se estivesse no lugar dela. Perguntou se ela se recordava das regras de segurança e de pouso.


Irene disse que sim, que seguiria suas instruções como se estivesse na escolinha no seu primeiro dia no carrinho (primeiras instruções do pára-quedismo).
Estevão se comportou como um verdadeiro Jump Master em saltos duplos, checando seu equipamento mais uma vez e, em seguida, ajudando sua parceira a afivelar seu harness checando os tirantes nos ombros, pernas e peito. Colocou-lhe uma viseira e perguntou se ela queria plugs para os ouvidos.
Irene respondeu que sim.
Uma luz amarela piscou três vezes indicando que estavam a três minutos do local do salto.
O casal se encaminhou para a porta traseira do avião que, já, entrara na rota de lançamento, com uma altitude de 12.000 pés, diminuindo a velocidade para 80 nós por hora e embicando um pouco para baixo, levantando a cauda.
Estevão abraçou Irene por trás que também estava segura por quatro ganchos conectando seu harness com o equipamento de Estevão.
Apesar de o GPS da cabine ter indicado o local exato do salto, Estevão decidiu fazer o PS (ponto de saída visual). Deu o sinal para Irene e entraram em queda livre, fizeram um loop e se estabilizaram de barriga para baixo. Ele logo puxou o drogue mantendo ambos estáveis. Os dois soltaram as mãos na posição selada. Após 45 segundos o altímetro eletrônico de Estevão emitiu um bipe em seu ouvido e ele checou seu altímetro de pulso, verificou a altura de comando e comandou o pára-quedas. Em segundos, o velame começou a se inflar amortecido pelo slider. Estevão fez um cheque visual verificando se as células de seu pára-quedas estavam infladas e se as linhas estavam desembaraçadas. Fez um cheque funcional com os botoques, verificando se o velame fazia as necessárias manobras. Estevão navegou graciosamente em direção ao alvo enquanto olhava para baixo para confirmar a direção do vento.
Avisou Irene que se posicionaria contra o vento preparando-se para pousar.
Irene despertou, de sua viagem ao passado, lembrando do dia em que perdeu seu marido em um acidente de helicóptero. No mesmo dia, fizera uma promessa para nunca mais saltar de pára-quedas. Na descida teve a doce lembrança de Aurélio abraçando-a carinhosamente na instrução do seu primeiro salto duplo AFF que fizeram em Boituva, há mais de dez anos.
Irene levantou as pernas com os joelhos flexionados, Estevão deu o flare e tocou o solo suavemente. Desconectou o harness de Irene, agradeceu-a pelo seu comportamento profissional. Recolheu as linhas com o velame e com o pára-quedas nas costas dirigiu-se para a sede do Clube Merlin.
Irene tirou seu harness e aproximou-se de Estevão perguntando se ela poderia fazer algo que estava precisando fazer urgentemente.
Claro, respondeu Estevão.
Pensando que ela queria ir ao banheiro ou alguma coisa parecida.
Enquanto Estevão tirava o pára-quedas das costas, Irene lhe deu um tremendo tapa no rosto e ao mesmo tempo falou que ele era um prepotente desalmado que a fizera quebrar uma promessa que tinha feito em cima de um túmulo.
Estevão, calmo, ficou preocupado se ela tinha machucado a mão com o tremendo golpe que dera. Coçou o rosto pensativo e respondeu:
Você não quebrou sua promessa, foi obrigada a saltar comigo contra a sua vontade. É bem diferente de livre, espontaneamente, por iniciativa própria, etc. etc. Ou como você mesmo me descreveu. Um demente aéreo que ia atirá-la lá de cima de qualquer maneira. Nesse ponto você tinha toda a razão. Eu ia, mesmo, empurrá-la para fora do avião.
Voltando à sua quebra de promessa, continuou Estevão, o seu marido morreu em um trágico acidente de helicóptero. Você não estava com ele. Caso você estivesse, não estaríamos aqui tendo essa conversa agora.
Aurélio foi um dos pioneiros a organizar demonstrações do pára-quedismo moderno no Brasil. Fundou um clube, para o qual você contribui, mensalmente, até hoje. Você já se perguntou se era isso o que ele queria para você? O pára-quedismo não teve nada a ver com a morte dele. E você parando de praticá-lo não vai trazê-lo de volta.
Agora eu não sou Freud para lhe dizer o que se passa dentro dessa cabecinha linda e dura que você tem e que outras promessas mais você fez na vida. Só estou tentando lhe dizer que, com certeza, foi uma promessa feita numa hora de dor e desespero. Respeito sua decisão, mas, obrigatoriamente, não concordo com ela, principalmente depois de navegarmos juntos e, para ser franco, você foi a melhor parceira que encontrei até hoje em salto duplo. E acredite-me carreguei muitos fardos pesados e ainda estou vivo é por que a minha hora ainda não chegou.
Chocada e surpresa com o que acabara de ouvir. Irene revidou.
Seu desgraçado. Como é que você tem todas essas informações a respeito de mim e do Aurélio. Eu não me importo com o que você concorda ou não. Quem você acha que é para saber o que as pessoas podem fazer ou não? E quanto à minha cabeça... Olha, eu nem sequer sei o seu nome... Vá para o inferno!
OK! OK! concordou Estevão, já, estou indo. Sinalou à Gilda para que levasse a nova hóspede para seus aposentos enquanto dobrava seu pára-quedas no gramado do Clube e retirava o alvo de lona alaranjada da grama.

Clube Merlin

Gilda, que acompanhara, da varanda do Merlin, o Águia navegando com sua presa agarrada em direção ao ninho, agora aproximava-se rapidamente e pediu a Irene que, por favor, a acompanhasse, explicando que elas estavam em uma propriedade isolada de vizinhos.
Explicou que o local era vigiado por guardas armados 24 horas por dia e além disso havia cães muito perigosos soltos durante à noite. Continuou dizendo que seria muito bem tratada e havia uma lista das normas sobre comportamento que ela teria que obedecer.
Levou-a até a sua suíte e explicou como funcionava a banheira, chuveiro, interfone e a TV. Recomendou, outra vez, que, para sua segurança e conforto, lesse a lista, antes de fazer qualquer outra coisa. Mostrou a lista em cima da mesinha de mogno ao lado de sua cama. Gilda se despediu, trancou a porta por fora e saiu para falar com Estevão.
Estevão, ainda, estava nos seus aposentos empacotando seus pertences, preparando-se para voltar para São Paulo de carro. Antes de colocar uma roupa limpa, parou em frente ao espelho para examinar a bofetada e a mordida que levara de Irene. Dando um sorriso para o espelho, saiu para o salão de leitura do Clube para se encontrar com Gilda.
Gilda lhe ofereceu suco de laranja natural ao mesmo tempo em que perguntava por que tanto argumento com a Doutora.
Estevão falou que a abordada estava, ainda, em estado de defesa e que ela era, realmente, uma pessoa certa de si e não ia se dobrar facilmente. O importante é que tudo correra como planejado.
Vamos deixá-la à vontade, dentro do limite do Clube. Caso ela não grave a primeira mensagem em 30 dias mudaremos o plano de ação para a segunda opção.
O celular internacional estará ligado 24 horas por dia e os reservas também. Você poderá me consultar se tiver alguma dúvida ou problemas com a abordada. Eu manterei contato.
Se por acaso ela perguntar de mim, diga que voltarei em uma semana. Até lá ela se acostumará com as normas do Clube Merlin e espero que esteja mais mansa... Lembre-se que ela, em hipótese alguma, deverá ficar em confinamento isolado e cuidado com as mordidas, socos e pontapés. No meu retorno, trarei a filmadora digital.
Gilda chamou o restante dos soldados da Célula G, pelo rádio, e pediu-lhes para irem até o salão de jogos porque iam ter uma reunião com o chefe.
A Célula G era composta por nove soldados, seis homens e três mulheres. Gilda era a segunda em comando, depois de Estevão. Todos, também, foram treinados na Fazenda Santa Guadalupe, no Paraguai. Aprenderam as mesmas técnicas dadas às outras células e mais outras específicas que os tornaram peritos para receberem e guardarem os hóspedes abordados pelo MBN.
Gilda fora recrutada por Estevão e mudara-se de Porto Alegre para a região de Avaré em 2002. Depois de seis meses de procura, ela encontrou o lugar perfeito para suas novas atividades. A propriedade que fora arrendada por cinco anos e antes tinha funcionado como um spa, que mais tarde viera a falir, no momento era o local adequado para recepcionar os hóspedes milionários trazidos pelo MBN. A propriedade rural, com 40 alqueires fica nas imediações da Represa de Paranapanema, no município de Avaré, no interior paulista. É cercada por uma área verde, impressionante, com muita água.
O Clube Merlin, denominado por Estevão, era conhecido anteriormente pelas poucas pessoas locais que tiveram acesso à propriedade como um spa que viera a falir. Agora a propriedade estava sob nova direção e seus novos arrendatários supostamente tentavam criar uma raça de pôneis argentinos.
Estevão almoçou com os soldados e esclareceu que o jogo tinha começado em favor deles e que agora viria um período de espera onde todos teriam que ter paciência e muita calma. Todo o cuidado com a hóspede e outros que viriam no futuro seria essencial para o sucesso do MNB.
Perguntou se o armamento estava limpo e bem guardado e se os Pit Bulls se adaptaram à nova casa. Lembrou, ainda, que os plantões de vigia seriam a cada seis horas e que Gilda distribuiria os horários e as outras tarefas.
Enquanto isso Irene fizera um levantamento de seus aposentos que consistia em uma enorme suíte com armários embutidos, cama de casal tamanho king, geladeira pequena, interfone, TV colorida e um aparelho de DVD com uma grande variedade de filmes, documentários e concertos de músicas clássicas, MPB, jazz e rock. No quarto havia ainda uma cadeira de balanço, feita de ratan, almofadada, uma mesa para leitura com duas cadeiras forradas de veludo bege e outra mesa de madeira para refeições. Uma estante contendo vários livros em português, espanhol e inglês.
As paredes do quarto eram decoradas com algumas gravuras com temas da natureza e animais silvestres. No teto, em cima da cama, havia um bonito domo de vidro transparente, desenhado em forma de trevo de quatro folhas. A janela, larga, era decorada com cortina de rendas branca. Irene notou que a janela tinha uma grade de ferro retorcido, pintada de verde folha, e era chumbada por fora na parede. O banheiro era de um tamanho enorme onde havia uma banheira, modelo antigo, esmaltada de branco com os pés de águia dourados, chuveiro, duchas circulares e sauna seca. Irene também notou que a janela tinha o mesmo tipo de grade de ferro igual à do quarto.
A hóspede da suíte sentou-se na cadeira de balanço e começou a ler as normas referidas por Gilda. Não havia título na lista que totalizava três páginas.
Depois de ler rapidamente os itens da lista, Irene releu dois dos itens da lista. No primeiro,
ela estava proibida de falar com qualquer uma das pessoas do Clube sobre quem ela era, seu nome verdadeiro, seus familiares ou qualquer outro assunto relacionado sobre suas atividades fora do Clube.
O último item da lista, Irene teve que ler duas ou três vezes e ainda tinha dúvidas sobre o seu significado.

De hoje em diante você terá que preparar-se para trocar, temporariamente, seu papel de Super Executiva Milionária por o de uma Super Atriz.
Os outros itens pareciam, realmente, normas de um spa tais como: tipos de comidas, horários das refeições, se ela tinha alguma restrição quanto à açúcar, sal ou outros temperos, quais os refrigerantes diets que tomava, sucos naturais, especificação sobre o horário de tomar sol no terraço ou piscina, exercícios na academia do Clube e instruções dirigidas para o uso do interfone que poderia ser usado 24 horas por dia.
Irene abriu um dos armários embutidos e pôde notar uma variedade de roupas que supostamente eram para ela usar. Até maiôs, ou se ela quisesse ser mais avançada, para sua idade, poderia usar um biquíni branco ou preto. Fechou a porta do armário e se dirigiu a porta da suíte e tentou abri-la . A porta estava chaveada por fora.
Irene, seguindo as instruções da lista ligou o interfone.
Uma voz de homem atendeu do outro lado e Irene perguntou se poderia falar, pessoalmente, com a mulher que a trancara à chave no seu quarto. Após uns minutos Gilda bateu três vezes na porta, abriu e entrou no quarto.
Irene, mais calma, perguntou onde estava e por quanto tempo ficaria “hospedada” no Clube.
Gilda, polidamente, respondeu que não poderia responder e que ela já estava quebrando as regras do Clube.

Pois bem, disse Irene. Quanto às suas regras. Eu não entendi o último item, esse aqui, disse ela apontando o número 13 da lista.


Aquela pessoa com a qual a senhora saltou lá de cima voltará aqui em uma semana. O nome dele é Yves. Ele é o nosso líder e vai lhe explicar tudo sobre nossa organização e nossos objetivos.
A senhora participará de um filme que o Yves vai produzir para a organização quando voltar. Amanhã, após o café da manhã, eu lhe darei o texto que a senhora terá que memorizar letra por letra, ponto por ponto. O referido texto é uma mensagem que a senhora mandará para seu filho e seus associados na VÊNUS.
Meu Deus! exclamou Irene, colocando as mãos sobre os olhos ao mesmo tempo que começara a andar, em voltas, pelo quarto.
Enquanto Irene falava consigo mesmo, em voz baixa, Gilda abriu uma das portas do armário e mostrou as roupas, chinelos e sapatos. Sugeriu que ela tomasse um banho ou uma ducha e ficasse mais à vontade. Gilda se despediu, dizendo a Irene que era só seguir as regras que tudo estaria bem.
Irene abriu o frigo-bar e tirou uma garrafa de água mineral sem gás. Notou que não havia copos de vidros em cima da geladeira e, sim, um saco de copos descartáveis de plástico. Ligou a TV e para sua surpresa descobriu que funcionava com o mesmo sistema via satélite que ela instalara na sua TV, na Limoeiro.
Abriu a outra porta do armário embutido para ver o que mais continha e se viu retratada no espelho escondido atrás da porta. Irene olhou para a outra Irene com uma expressão assustada. Foi quando se deu conta que ainda estava nos trajes de montaria que vestira de manhã para cavalgar com seus convidados.

Aquele desalmado do Yves me fez saltar com minha botas de montaria! Eu mato aquele acrobático mental, ele ainda teve a audácia de falar da minha cabeça, pensava Irene, quase chorando, enquanto tirava suas botas e se despia de seus trajes.

Irene chamou o ramal 7 e pediu uma salada mista, sem pimentões e pepinos, com suco de acerola e um jornal ou uma revista de São Paulo atualizados.
A soldado Luiza que atendera o pedido informou a Irene que em 30 minutos o encarregado do plantão lhe levaria seu pedido, menos os jornais e revistas que só estariam disponíveis no Clube na segunda-feira à tarde ou terça- feira.
Enquanto esperava sua refeição, Irene revivia os atos de seu seqüestro. Não se conformava com a maneira como fora abordada em sua própria casa. Seus pilotos, segurança, seus empregados e principalmente ela se sensibilizaram com os pretendentes ao desastre e eles a enganaram com aquele Brasília preparado.
O executivo da VÊNUS encarregado de sua segurança, com certeza, estaria se desdobrando para arranjar mil desculpas sobre o que saíra de errado e como o Careca não percebera, de imediato, a cilada que o Yves e seus supostos fiscais do IBAMA lhe armaram.

Depois das investigações, com certeza, cabeças rolariam na VÊNUS. Irene não conseguia determinar quais as cabeças que seriam decepadas.


Leu e releu aquela estúpida lista das normas do Clube.
Três batidas na porta e uma plantonista apareceu com sua salada e o suco em uma bandeja. Após degustar a primeira refeição oferecida pelo Clube, Irene se surpreendeu com a qualidade da salada e do suco de acerola. Ou seria porque ela perdera o paladar? perguntou-se Irene.
Não conseguiu dormir à noite, tentando adivinhar quais seriam os termos da mensagem que aquela maldita bruxa mandona lhe falara a respeito. Isso é tortura psicológica. Pensava Irene.
Por que não me dar a mensagem amanhã sem me adiantar nada a respeito hoje? Não! Aquela bruxa tinha que aguçar minha expectativa e curiosidade.
Ligou a TV, assistiu um DVD do Pavarotti, gravado no Metroplitan de Nova York e outro da Diana Krall, gravado em Paris.
Acordou com a TV ligada no chuvisco e, instantaneamente, perdeu o sono prematuro.
Procurou algo útil para ler.
Não havia grande diversificação literária na pequena biblioteca da suíte, mas se interessou por um livro, aparentemente novo, titulado The house of spirits de Isabel Allende.
Às oito da manhã acordou com um dos plantonistas batendo na porta com seu café da manhã. O menu, ela já escolhera na tarde anterior e conforme as normas não poderia ser trocado, caso ela mudasse de idéia durante a noite.
Assim que terminou seu café, chamou Gilda e pediu para ela vir pessoalmente até sua suíte.
Gilda bateu três vezes e abriu a porta com sua chave, entrando sem esperar pela resposta da Doutora Irene.
Irene estava vestida com saia longa preta e uma blusa cinza clara que encontrara em um dos armários. Não era o seu estilo, mas era melhor que usar a mesma roupa do dia anterior. Antes que ela perguntasse à Gilda sobre a mensagem que ela teria que memorizar, esta lhe passou uma pasta de plástico transparente com duas páginas.
Irene se sentou em sua cadeira e leu rapidamente a mensagem que ela não escrevera, mas que teria que interpretar como sua. Releu a mensagem e levantou-se atirando-a na cara de Gilda, dizendo-lhe que se ela queria ser a atriz que a vaga era dela.
Gilda, instruída para não prolongar discussões, deixou a mensagem na mesa de mogno e se retirou chaveando a porta.
Uma hora mais tarde, Irene chamou o ramal 7 e perguntou se poderia sair dos aposentos para conhecer o Clube.
Do outro lado da linha, uma voz de mulher respondeu que em dez minutos alguém iria escoltá-la pela propriedade.

Irene saiu acompanhada de um soldado homem e uma soldado mulher que fizeram um tour completo do Clube Merlin. Os soldados somente responderam as perguntas sobre a propriedade e a conduziram aos locais onde ela estava autorizada a ir e vir.


Ficara impressionada com o canil. Não era fã de cachorros e agora muito menos. Pelo menos dez deles queriam esquartejá-la, latindo e se mordendo dentro do canil quando passaram nas proximidades do portão de tela de arame grosso. Irene nem sequer imaginava qual era a raça dos cães que queriam atacá-la.
Gostou da piscina e da vista que dava para o lago. Perguntou a si mesmo onde estaria. Voara mais ou menos duas horas desde que levantaram vôo da Limoeiro. Poderiam ainda estar no Estado de São Paulo ou Yves ordenara a rota do Paraná ou Mato Grosso do Sul.
Os idiotas dos plantonistas do Yves não respondiam às suas perguntas quanto aos seus nomes e local onde ela estava e quem era quem além do Yves.
À distância, notou que Gilda e outros plantonistas a seguiam com seus binóculos. Tentou ignorá-los, mas a presença deles, além dos dois colados a ela, era constante. Teria que se acostumar com aquela situação. Como Gilda explicara, a propriedade ficava isolada e ela poderia gritar à vontade se quisesse que ninguém iria ouvi-la, a não ser os cachorros do Yves.
Almoçou filé de badejo com legumes e rejeitou a sobremesa de creme de papaia. Ligou a TV no noticiário nacional para ver se falavam dela. As notícias eram as mesmas de sempre. Brasília, juros altos, a guerra do Iraque, a inflação e o desemprego, seqüestros relâmpagos e nada sobre Irene Lafayete Fontoura, ou sobre uma invasão aérea na Fazenda Limoeiro com seqüestro de sua proprietária. Nada sobre a presidente do grupo VÊNUS.
Desanimada, ligou para o ramal 7 e pediu para falar com Gilda pessoalmente.
Após alguns minutos, Gilda abriu a porta e entrou perguntando se ela poderia ser útil.
Irene pediu para ela se sentar, pois queria ter uma longa conversa com ela. Gilda sentou-se e disse que estava pronta.
Irene primeiro perguntou o seu nome verdadeiro e se ela tinha a menor idéia quem eles estavam hospedando nesse chique cativeiro disfarçado de spa.
Gilda levantou-se para sair e recomendou-lhe ler novamente as normas do Clube, pois ela estava quebrando as regras ao tentar estabelecer uma linha de conversa proibida no regulamento. Terminou dizendo que todos no Clube sabiam quem ela era e não davam a mínima para seus milhões.
Irene não desistiu e, antes de Gilda sair da suíte, perguntou quem realmente era Yves, se ele era brasileiro ou estrangeiro, se era o chefe do bando ou se tinha outros acima dele.
Gilda, da porta, respondeu calmamente.
– O Yves estará aqui em cinco dias e daí a senhora poderá perguntar a ele o que desejar. Já está programada uma explanação melhor sobre nossos objetivos, mas isso só acontecerá quando o Yves voltar. Ele terá o prazer de fazê-lo para a senhora. É só aguardar.
Na sexta-feira, Yves chamou Gilda para saber como estava se comportando a primeira hóspede do Clube.
Além da curiosidade pela nossa empresa e seus diretores principais, as coisas estão indo razoavelmente bem. Quando é que você confirma? perguntou Gilda.
No domingo para o almoço, respondeu Yves desligando o celular.


Copper

Irene estava lendo em seu quarto quando escutou uma onda de latidos vindo da direção do canil. Era a primeira vez em uma semana que ouvira os cães latirem com tanta intensidade.


Levantou-se e olhou pela janela de sua suíte.
Para sua surpresa, Yves estava em frente ao canil conversando com Gilda e outros três soldados. Apontava para um trailer de carregar cavalos que estava engatado em uma pick-up. Esforçou-se para tentar ver de onde era placa do carro, mas a distância não lhe era favorável. Logo a seguir os quatro se encaminharam para o trailer e desaparecem por trás deste.
Irene ficou tensa, pois sabia que Yves viera para falar com ela e, com certeza, saber se ela ia recitar por bem ou por mal aquela falsa mensagem escrita pelo seu bando de lunáticos interesseiros.
Logo a seguir, Gilda foi até a suíte de Irene, bateu três vezes, entrou e perguntou se ela gostaria de almoçar com o Yves no terraço ou na suíte.
Ele veio para falar com a senhora e poderá responder suas perguntas do outro dia.
Está bem, respondeu Irene dizendo que iria logo para o terraço assim que se trocasse.
Dois plantonistas a escoltaram até a varanda do clube, onde ela almoçara, sozinha, na quinta-feira. Yves já estava sentado tomando um suco de laranja.

Quando viu Irene, levantou-se e a cumprimentou, perguntando como ela tinha passado a semana. Notou que a fragrância exótica desaparecera, mas a beleza dela continuava intocável.


Irene ironicamente respondeu que já tivera dias melhores antes de conhecê-lo.
Yves, sorrindo, falou que as vidas deles eram cercadas de coisas boas e ruins.
As coisas boas nós as queremos todos os dias e as ruins queremos nos livrar delas o mais rápido possível.
Não entendi sua filosofia espacial, resmungou Irene.
É fácil de entender, respondeu Yves. Eu sou a coisa ruim de sua vida e para você se livrar de mim, o mais rápido possível, terá que seguir minhas instruções. Com isso eu alcançarei meus objetivos e você os seus.

Irene serviu-se de um copo de água e falou a Yves que não gravaria aquela ridícula mensagem escrita por ele. Se ele quisesse vinte milhões de dólares que fosse trabalhar como ela trabalhou para ganhar o que tinha.


Yves continuou sorrindo e comentou que ela tinha mesmo uma cabeça dura e era bastante arrogante para quem, no momento, estava em desvantagem.
Talvez depois de eu lhe explicar quem somos o que queremos e o que sabemos a seu respeito, você mude de idéia. Aposto que sim, concluiu Yves.
Irene se levantou para sair sem almoçar quando Yves lhe disse que só voltaria novamente ao clube em 15 dias e que era melhor conversarem agora. Quanto mais ela retrocedesse mais tempo ficaria no Clube.
A pressa é sua, acrescentou.
Irene olhou para cima, pensando que sete dias já haviam se passado e esse maldito vinha lhe dizer que voltará só daqui a 15 dias. Quem ele pensa que é? Ponderou mais um minuto e sentou-se à mesa novamente.
OK! disse Yves. Enquanto não chega o nosso almoço, eu vou lhe falar um pouco sobre a nossa organização.
Começou contando sobre o MBN, seus objetivos e o espaço político que iriam ocupar no futuro. Precisavam de muito dinheiro para financiar suas atividade em todos os Estados do Brasil. Ela era uma das muitas pessoas abordadas pelo movimento com a finalidade de angariar os fundos necessários para a estruturação política e financeira do MBN.
Irene perguntou a Yves se eles iam matá-la?
Não! respondeu Yves, mas você terá que ficar conosco até que decida contribuir com a quantia que precisamos. Pode ser um mês, um, ano, dez anos. Você é quem decide.
Você enlouqueceu mesmo com essa idéia de MBN e eu não vou gravar a sua mensagem coisa nenhuma. Primeiro, porque eu não diria aquilo ao meu filho e aos meus diretores. Segundo, os seus vinte milhões é muito dinheiro e eu não tenho essa quantia. Terceiro, a polícia deve estar atrás de vocês. É uma questão de dias para eles chegarem até você e seu bando paramilitar.
Há! a Doutora Irene sabe de tudo. Pois bem! Deixe-me ser um pouco mais claro.
A polícia e seus negociadores estão fora do caso. Foi uma das nossas exigências deixadas com o seu Segurança, o Careca. No momento, seu filho, Antônio está aguardando a sua mensagem.
Por favor leia essa nota no jornal publicada dois dias após a sua abordagem, na Limoeiro.
Em dois jornais de São Paulo, Irene leu, nas colunas sociais, uma curta nota anunciando sua viagem ao exterior para tratamento médico. A foto, dos arquivos da VÊNUS, era uma das selecionadas por ela, e o pessoal da assessoria de imprensa estava autorizado a passar para a mídia.
Antes que ela esboçasse qualquer reação Yves lhe entregou uma pasta contendo provas documentais de alguns negócios que o grupo VÊNUS fizera no passado.
Entre essas provas, estava relacionado um documento sobre operações de câmbio com informações privilegiadas, vindas de diretores de alto escalão da área financeira do Governo, resultando em lucros fantásticos de milhões de reais para suas corretoras de valores e seu banco.
Em outro documento, o serviço de inteligência do MBN apresentou um documento com um cronograma da redução dramática de ICMS devido pelas suas usinas de álcool e açúcar ao Governo. A redução era resultado de propinas milionárias pagas a fiscais corruptos encarregados de fiscalizar os livros das usinas.
Yves continuou falando que sabia mais da vida dela do que seu próprio filho, família e diretores sabiam.
Essas informações aqui na mesa são só exemplos do que sabemos. Se você quiser poderemos mandar outros documentos tal como aquele das super avaliações de suas propriedades florestais para você pegar dinheiro barato do Governo e emprestar em seu Banco com juros mais extorsivos do que a importância que estamos lhe pedindo para contribuir ao MBN.
Irene se levantou calada, branca de raiva e foi para sua suíte, seguida por dois plantonistas.
Yves almoçou com Gilda, e ambos planejaram o início das filmagens para dentro de 15 dias. Até lá, Irene pensaria três vezes antes de dizer não outra vez.
Irene se retirou para sua suíte e se perguntava como é que um pára-quedistinha anônimo sabia coisas que nem ela sabia a respeito da VÊNUS. Perdeu a fome, não conseguia se concentrar em nada e pensou no seu amado filho que com certeza estava encurralado, como ela, pelas chantagens do MBN.
À noite, discou o ramal 7 e pediu para falar com Yves.
A soldado que atendera o interfone lhe disse que Yves já tinha ido e só voltaria em duas semanas.
Irene queria morrer. Jogou o telefone na parede. Uivava, chorava aos prantos, praguejando todos os membros do MBN e até o seu segurança, o Careca.
Gilda, que a tudo assistia pelo monitor em seu escritório a 10 metros da suíte de Irene, não se sensibilizou. Estava atenta aos movimentos da Doutora e pronta para intervir, somente se esta ameaçasse sua própria vida.
Yves instalara duas mini-câmeras escondidas no quarto e uma no banheiro da suíte de Irene.
No outro dia, às oito da manhã, chegou seu café. O cozinheiro de plantão mandou um reforçado, pois a Doutora não tinha almoçado nem jantado no dia anterior. Com olheiras de tanto pranto, Irene se sentiu com apetite e devorou seu mamão papaia e um iogurte natural para depois tomar um chá de erva-mate com torradas e geléia de morango e se quisesse poderia tomar, ainda, o seu suco favorito, acerola.
Chamou o ramal 7 e pediu para sair, pois queria andar um pouco.
Gilda veio sozinha para acompanhá-la e perguntou se ela queria ver uma novidade que Yves ontem havia encomendado para o Clube. Irene respondeu que não, só queria dar uma caminhada e se possível fazer algum tipo de ginástica depois de tomar quinze minutos de sol.
Evitou passar perto do canil e se dirigiu para o lado das baias dos pôneis. Foi quando viu o cavalo Quarto de Milha, castanho, sendo escovado por um dos soldados. Seu pêlo brilhava como seda com a luz do sol. Irene se alegrou, imediatamente, perguntando a Gilda de quem era o cavalo.
Gilda lhe respondeu que essa era a novidade que ela queria lhe mostrar.
O cavalo veio com Yves ontem.
Irene segurou-o pelo cabresto e lhe acariciou a testa e o queixo.
Ele é muito bonito e parece manso. Será que eu poderia montar nele? perguntou Irene um pouco surpresa com ela mesmo.
Amanhã a Doutora poderá montar, depois de fazermos uma emenda nas normas, respondeu Gilda.
Não estava previsto esse cenário eqüestre nos nossos planos. Estamos aguardando outros três cavalos chegarem hoje. A senhora poderá cavalgar somente em dois dos piquetes da propriedade, longe dos pôneis, sempre acompanhada de três plantonistas.
Essa será a nova regra. Se a senhora concordar poderá montar todos os dias a partir de amanhã.
Irene respondeu que ia pensar a respeito e pediu que queria ir até a academia fazer sua ginástica.
À noite, quando ordenou seu café para o próximo dia, perguntou se sua roupa de montaria estava limpa.


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