Gustavo Bernardo educaçÃo pelo argumento colaboração de gisele de carvalho rio de Janeiro – 2000 Copyngh, 2000 by Gustavo Bernardo Direitos desta edição reservados à editora rocco ltda rua Rodrigo Silva, 26 5° andar



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Embora não sejam, a rigor, animais domésticos, são, no entanto, extremamente úteis ao homem. A sua utilidade varia com o tempo. Na antigüidade o seu chifre servia, apropriadamente

71 José Ferrater Mora. Dicionário de filosofia, p. 643.

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moído, como remédio contra todos os venenos. Na Idade Média o unicórnio servia como atributo da virgindade, portanto tinha utilidade pública incontestável. No romantismo e pós-romantismo foi amplamente utilizado como tema de poesias (embora a palavra ”unicórnio” não tenha muitas rimas nas línguas latinas). E atualmente é indispensável para livros de lógica e teoria do conhecimento.

com efeito: tais livros não poderiam existir, se o unicórnio não existisse, e nem, se existisse.

Para prová-lo, tomemos as seguintes sentenças:

1. A maçã é verde.

2. O sangue é verde.

3. Deus é verde.

4. A liberdade é verde.

5. O presente rei da França é verde.

6. O unicórnio é verde.

A primeira sentença pode ou não ser verdadeira. A segunda é falsa. Ambas têm sentido. As demais sentenças não têm sentido. Pois isto é fácil dizer-se, e fácil verificarse, já que, ao dizermos tais sentenças, estamos segurando a risada. Por não terem sentido tais sentenças, são ridículas e divertidas. Difícil é dizer por que tais sentenças não têm sentido.

Seria fácil se pudéssemos dizer que tais sentenças não têm sentido, porque os seus sujeitos, a saber, Deus, a liberdade, o presente rei da França e o unicórnio, não existem. Mas não podemos dizê-lo.

Não se pode dizer que Deus não existe, porque seria primeiro necessário definir o termo ”Deus”. Coisa impossível. Não se pode dizer que a liberdade não existe, porque a sua presença ou ausência são nitidamente constatáveis. A sentença ”a liberdade é verde” não tem sentido, embora a liberdade exista. Não se pode dizer que o presente rei da França não existe, sem dizer-se, também, quando se está falando. Por exemplo: no século XVII existia um rei da França que estava presente, e a sentença era então provavelmente falsa, e tinha portanto sentido.

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Mas, quanto ao unicórnio, todos estão de acordo que não existe. Portanto podemos dizer claramente porque a sentença ”o unicórnio é verde” não tem sentido. O único caso nítido entre os exemplos fornecidos.

Não fosse o unicórnio, e os livros de lógica e teoria de conhecimento não teriam sentido. Não teriam sentido, porque não poderiam exemplificar o que quer dizer: ”não ter sentido”. Isto seria uma pena, especialmente para professores de lógica e teoria do conhecimento.

Mas, felizmente, há unicórnio, e Sócrates é seu fiel companheiro. Assim: Sócrates é mortal, e o unicórnio é verde. Viva a cultura.

O curto texto de Flusser resume de maneira clara e cômica (talvez clara porque cômica) algumas das principais discussões filosóficas sobre verdade, falsidade e lógica. Em outro espaço (na sala de aula, por exemplo), merece debate e diferentes explorações.

No momento, queremos chamar a atenção para o silogismo como um recurso nobre do raciocínio, na medida em que exibe um esquema de relação entre premissas, a partir da hipótese inicial, capaz de fazer andar o argumento e o pensamento. Os manuais de lógica discriminam os silogismos em diferentes formas válidas, com diversas figuras secundárias. Nas aulas de Matemática e Filosofia, seria importante trabalhar e exercitar essas diferentes formas. Condensaremos, no entanto, as variantes do silogismo em um esquema-padrão. O nosso esquemapadrão de um silogismo válido, então, seria o seguinte:

TODO O - p ORA, TODO a -»Q

LOGO a - P

A primeira sentença do argumento é a premissa maior, contendo, nesse caso, o termo predicado (p) da conclusão. A

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segunda sentença do argumento é a premissa menor, contendo, nesse caso, o termo sujeito (a) da conclusão. Nas duas sentenças, há um termo médio (Q), que deve necessariamente alternar a sua posição sintática nas duas primeiras sentenças e não aparecer na conclusão. A conclusão, a partir do termo médio, vai estabelecer a ligação lógica entre a e 0.72

O silogismo, para ser válido, deve obedecer ao esquemapadrão, independentemente da verdade ou falsidade das suas premissas. Nesse sentido, um exemplo de silogismo válido seria:

Todos os SAIS DE SÓDIO são substâncias solúveis em água. Ora, todos os sabões são SAIS DE SÓDIO.

Logo, todos os sabões são substâncias solúveis em água.

Como se vê, o termo médio, ”sais de sódio”, encontra-se no sujeito da premissa maior e no predicado da premissa menor, permitindo a articulação lógica, entre os outros dois termos, na conclusão (observe-se, entre parênteses, como os termos da Gramática se relacionam diretamente com a lógica clássica).

Já o silogismo seguinte não é válido, porque o termo médio não é de fato médio, apresentando-se no predicado das duas premissas, e não apenas em uma.

Todos os comunistas são PROPONENTES DA MEDICINA SOCIALIZADA.

Alguns Ministros são PROPONENTES DA MEDICINA SOCIALIZADA.

Portanto, alguns Ministros são comunistas,

Nesse caso, o esquema não-válido é:

72 Irving Copi. Obra citada, p. 168.

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TODO (3 - Q ORA, TODO a - Q

LOGO a - P

Pode-se demonstrar a não-validade do argumento aplicando a mesma estrutura lógica em um outro raciocínio, cujas premissas, de tão óbvias, dêem o flagrante do equívoco.

Todos OS coelhos são CORREDORES MUITO VELOZES. Ora, alguns cavalos são CORREDORES MUITO VELOZES.

Portanto, alguns cavalos são coelhos.

Obviamente, os termos do silogismo não se podem modificar no decorrer do argumento: ”um silogismo categórico válido deve conter exatamente três termos, cada um dos quais deve ser usado no mesmo sentido durante todo o raciocínio ou argumento”.73 Se essa regra não é obedecida, se dá a falácia quaternio terminorum (dos quatro termos).

Por volta de 1930, a política oficial do Japão expressava-se na forma de um silogismo que disfarçava a falácia.

Todas as tentativas para pôr fim às hostilidades entre dois países devem ser aprovadas por todas as nações.

Ora, o Japão tenta pôr fim às hostilidades entre ele e a China.

Logo, a ação do Japão na China deve ser aprovada por todas as nações.

A premissa maior pressupõe tentativas pacíficas, enquanto a premissa menor disfarçava que as tentativas do país em questão eram pela via da guerra, ou seja, da hostilidade mesma; ”pôr fim às hostilidades” não implicava um acordo, mas a derrota da China. Em conseqüência, o termo médio não era de fato médio, pois se usava com dois sentidos diferentes.

73 Idem, ibidem, pp. 184-9.

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Para encerrar esta seção, cabe enfatizar que silogismos válidos não são garantia da verdade final do argumento. Podem-se usar silogismos perfeitamente válidos defendendo pontos de vista rigorosamente opostos. A verdade deve ser procurada (mesmo que nunca a encontremos plenamente) nas premissas, que contêm, ou deveriam conter, as evidências que ancoram o argumento.

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A ÂNCORA DO ARGUMENTO

As evidências que sustentam o argumento constituem, normalmente, os fatos elencados. Estes fatos são as âncoras do raciocínio. As âncoras são fundamentais, pois sem elas o navio e o pensamento não podem aportar no cais e, finalmente, dizerem ao que vieram. A principal preocupação que se deve ter com os fatos é equivalente à que se deve ter com as âncoras: volta e meia é necessário ”levantar âncora!”, com ponto de exclamação e tudo, para buscar novos fatos e lançar, portanto, novas âncoras.

O processo da ancoragem é também conhecido por método indutivo. Em trajeto inverso à dedução, a indução parte do particular para o geral. Na verdade, um argumento que seja apenas indutivo, ou seja, que apenas enumere fatos, não chega a ser exatamente um argumento - é no máximo uma coletânea. Como quisemos demonstrar, os argumentos iniciam seu movimento dedutivamente, pela construção da hipótese geral, vale dizer, da premissa maior, e a seguir se sustentam pela premissa ou premissas menores, que contêm, propriamente, os fatos, ou seja, o princípio indutivo.

Da mesma forma que o silogismo se avalia, primeiro, pela validade da sua estrutura e, depois, pela verdade das suas premissas, o raciocínio indutivo se avalia pela pertinência, relevância e suficiência dos fatos que elenca, das evidências que apresenta.

Os fatos são pertinentes se pertencem ao campo do argumento. Os fatos são relevantes se, pertencendo ao campo do argumento, têm relação direta com a hipótese básica. E os fatos

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são suficientes se, pertencendo ao campo do argumento e tendo relação direta com a hipótese básica, aparecem em número suficiente para corroborar a hipótese básica. Quando os fatos são suficientes, se dá o inductive leap, isto é, o pulo indutivo, permitindo a passagem do reconhecimento das evidências para a conclusão. Esse ”pulo” muitas vezes toma a forma de um insight, daquilo que chamamos também como ”estalo”, ou ”eureka!”, sugerindo um momento de iluminação que, na verdade, foi iluminado pela articulação entre a relevância, a pertinência e a suficiência dos fatos.

O procedimento indutivo, que coleciona os fatos para sustentar a hipótese definida a princípio, recorre à observação direta (com os próprios sentidos), à observação indireta (ou seja, à observação e à pesquisa dos outros, através de jornais, livros e outros meios de comunicação), e ao testemunho autorizado (ou seja, à observação e pesquisa de pessoas que se reconhecem como autoridades e especialistas no campo do argumento em questão).

Enquanto os argumentos propriamente dedutivos podem nos conduzir a conclusões válidas (não necessariamente verdadeiras), os argumentos exclusivamente indutivos somente podem nos conduzir a conclusões prováveis (e não obrigatoriamente verdadeiras). Isto se dá porque é absolutamente impossível, a qualquer pessoa, cientista ou não, conhecer tudo, conhecer todos os fatos. Por mais extensa que seja a nossa pesquisa e a nossa leitura, conhecemos tão-somente uma parcela ínfima dos fenômenos, o que nos permite apenas tecer hipóteses momentaneamente fecundas.

Jura dizer toda a verdade, nada mais do que a verdade e somente a verdade?” O lógico, no tribunal, só poderia responder, logicamente, ”não”. Não nos foi dado conhecer toda a verdade. Reza o sábio (e um pouco cínico) ditado popular que existem três verdades: ”a minha, a sua, e a verdade mesma” e a essa última, por decorrência (lógica), não temos o menor acesso. ”A verdade é não-toda”, enunciou, com rara precisão e simplicidade, o psicanalista Jacques Lacan. Por isso, de determinada



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seqüência de fatos pertinentes, relevantes e suficientes, se podem inferir conclusões mais ou menos prováveis, conforme o conhecimento e a capacidade de leitura e argumentação dos interlocutores.

Uma maneira, indireta, já que por via direta não é possível, de demonstrar que não podemos conhecer tudo de coisa alguma se encontra na sensação com a qual depara todo e qualquer estudioso, ao estudar com afinco o seu assunto: descobre que, quanto mais estuda, quanto mais aprende e sabe, mais aprende e sabe o quanto ainda não sabe, isto é, mais descobre a extensão da sua ignorância. Não é outro o fundamento do emblema da filosofia em todos os tempos, enunciado presumivelmente por Sócrates ao fim da vida: ”só sei que nada sei”.

Entretanto, isto não desanima o verdadeiro pesquisador, uma vez que se lhe dá a sensação divina do infinito e da imortalidade, pois sempre é possível uma nova viagem na direção de um cais desconhecido. O que importa ter em mente é que os fatos não existem independentes da interpretação que lhes sobrepomos, e que qualquer interpretação sempre pode ser posta sub júdice.

Tome-se como exemplo uma experiência banal e recorrente de condicionamento de animais. Colocam-se dois ratos em uma gaiola, que contém uma alavanca. A cada vez que o rato aperta a alavanca, o pesquisador põe comida na gaiola. Desse modo, acredita o pesquisador estar ensinando, ou condicionando, o rato a pedir a sua comida. A repetição dos fatos - rato apertando alavanca, e em horários mais ou menos previsíveis, sinalizando a fome do animal - sugere a seguinte interpretação, behaviorista: os animais podem ser condicionados pelos seres humanos, o que permite deduzir uma outra hipótese, correlata: os seres humanos poderiam também ser perfeitamente condicionados por outros seres humanos.

Entretanto, antes de discutir a hipótese derivada, que coloca no mesmo patamar o rato e nós outros, podemos levantar uma hipótese alternativa, que explicaria a regularidade do movimento do ratinho em relação à alavanca da sua gaiola. É

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o que faz cartum publicado no Time em setembro de 1971.74 Dois ratinhos conversam numa gaiola. O que está com a mão na alavanca diz para o outro: ”companheiro, você não calcula como eu condicionei esse tipo lá fora. É só dar um apertãozinho na alavanca e ele me dá um pedaço de comida”. De maneira cômica, é claro, o desenho alude à possibilidade de o rato ter condicionado o cientista. Não é possível? Por que não? Na verdade, não podemos conhecer o ponto de vista do animal assim como não podemos conhecer o ponto de vista de qualquer outro, ser humano ou não. Dependemos de mediações para supor a perspectiva que nos é alheia.

Jan Baptist van Helmont, médico e químico flamengo, foi, no século XVII, um cientista sério, com contribuições importantes: inventou a palavra ”gás” e descobriu os sucos gástricos. Mas também se pode ler, em suas Obras de medicina e de física, datadas de 1648: ”Faça um buraco num tijolo, ponha ali erva de manjericão bem triturada. Aplique um segundo tijolo sobre o primeiro e exponha tudo ao sol. Alguns dias mais tarde, tendo o manjericão agido como fermento, você verá nascer pequenos escorpiões”.75 Sua receita para produzir ratos é pior ainda: ”basta comprimir uma camisa de mulher - uma camisa um pouco suja, de preferência - num vaso guarnecido de frumento... Um fermento vindo da camisa, transformado pelo odor dos grãos, transforma em rato o próprio trigo. Isso é ainda mais admirável porque os ratos nascidos do trigo e da camisa não são filhotes, não estão mais mamando, não são minúsculos nem abortados, mas são muito bem formados e podem pular”.

Helmont descreve uma experiência, que supostamente, presumivelmente, comprovaria a tese da geração espontânea. Supondo nós a boa-fé do químico, poderíamos elencar uma série de hipóteses alternativas que explicassem o aparecimento dos escorpiões no tijolo e dos ratos adultos na camisa (de mulher), mas não sem antes rir um pouco da besteira.

74 Em Rubem Alves. Filosofia da ciência, p. 131.

75 Em Jean-Pierre Lentin. Penso, logo me engano, p. 136.

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Entretanto, não foi dessa maneira que os seus contemporâneos o leram. Ele foi levado a sério. Talvez isso não tenha acontecido porque os ”daquela época” diziam e aceitavam mais besteiras, mas sim porque todos estejamos demasiado próximos da nossa própria época para termos noção clara das suas bobagens; os que virão não perderão a oportunidade de rir de nós (quiçá até mesmo, e por que não, dessa ingênua Educação pelo argumento).

Experiências meticulosas podem produzir erros crassos, simplesmente porque toda experiência, como aliás qualquer fenômeno, pode ser lida e interpretada de diferentes maneiras, algumas das quais se revelarão, mais tarde, absurdas. Três sábios do século XVIII, o biólogo Buffon, o microscopista Joseph Needham e o zoólogo Louis Daubenton, decidiram provar a perfeita igualdade dos sexos. Para isso, precisavam demonstrar que as fêmeas também produziam espermatozóides.

Providenciaram uma cadela no cio e um macho ardente. Mal termina o coito, a cadela é morta, aberta e seu útero dissecado. Como está inundado de vermes espermáticos, considerase a experiência um sucesso! Contempla-se, pela primeira vez, os animálculos fêmeos; ”os três doutores sequer sonharam em pensar que se tratava do esperma do macho, persuadidos de que não teria havido tempo para que ele subisse tão rapidamente a dezena de centímetros que separa a vagina dos ovários”.76

A experiência dos três sábios, independente da crueldade com a cadela (mas claro, tudo em nome da ciência), é uma dentre muitas histórias equivocadas. O livro que a contém, Penso, logo me engano: breve história do besteirol científico, de JeanPierre Lentin, é um daqueles que deveria não só se encontrar nas estantes de todas as salas de aula e de professores, como ser lido e discutido, meticulosamente, no ensino médio. Seria uma espécie de antídoto mais do que necessário ao cientificismo e seu triunfalismo perigoso.

76 Idem, ibidem, p. 186.

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Um dos efeitos colaterais nefastos da escola e seus sistemas fechados de avaliação é o desenvolvimento da leitura ”bíblica”, isto é, acrítica e reverente, de tudo o que está nos livros. Ou se aceita sem pensar, ou se recusa por não entender; em ambos os casos, a postura passa longe da inteligência.

Charge publicada na Newsweek (não identificamos o autor) em dezembro de 1997 ironiza toda a Genética contemporânea, colocando sob suspeição, através do humor, as experiências do nosso final de século. Na charge, circunspectos pesquisadores estão ”levantando” os genes responsáveis pela gordura, pela homossexualidade, pela disposição para o trabalho, pelo alcoolismo, quando irrompe no laboratório o cientista que diz alegremente ter descoberto o gene responsável por eles pensarem que tudo é determinado pelos genes: ”Eureka!... I’ve discovered the gene that makes us think that everything’s determined by genes!”. A piada não quer ser apenas engraçada; remete, ainda, à inevitável antropomorfização que fazemos de tudo o que observamos ou experimentamos. Chama a atenção para o que dizemos desde o princípio: para observarmos o mundo e os seus fenômenos, colocamos antes os óculos da hipótese. Sem uma hipótese prévia, nem poderíamos abrir os olhos: a realidade nos cegaria.

Isto não significa, todavia, uma recusa da ciência e dos fatos, mas todo o contrário. Implica uma assunção do caráter hipotético do pensamento e da ciência, bem como a necessidade de ancorar todos os nossos argumentos nos fatos e nas evidências - desde que se reconheça que as evidências o são em termos relativos: relativos aos nossos limites perceptivos.

Essa condição relativa é que faculta a uma determinada verdade poder ser válida em tal contexto, mas inválida em outro. A teoria quântica, por exemplo, se aplica ao infinitamente pequeno, mas não se aplica ao macrocosmo, assim como os princípios da astronomia não se aplicam diretamente, sem mediação, ao mundo dos átomos. Há toda uma geração de cientistas, de físicos, procurando a teoria ”final”, isto é, a teoria tão ampla e tão simples que realmente abarque todos os

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fenômenos que existem para serem descritos - entretanto, essa teoria ainda não foi escrita.

As ”pontes” entre uma teoria e outra, entre uma ciência e outra, costumam se transpor através de analogias. As analogias são argumentos fortemente persuasivos, porque concretizam, através de imagens e de articulações com o que os interlocutores já conhecem, reflexões e conclusões sobre o que ainda não se conheça. Conquanto sejam sempre usadas, mesmo em textos acadêmicos, o procedimento científico mais rigoroso recomenda que se suspeite de todas as analogias, na medida em que elas se revelam, via de regra, como logicamente fracas - exatamente porque misturam princípios e estruturas de pensamento mais ou menos incompatíveis.

Pergunte-se o que acha de um tema como o ”amor” a um cardiologista, a um psicanalista, a um biólogo, a um estatístico, a um roteirista de novelas televisivas, a um sexólogo, a um religioso, a um sociólogo, a um historiador das mentalidades. A ciência de cada um dos inquiridos condicionará, de maneira decisiva, as respostas. Como se trata de um tema bastante perigoso - ”quando o amor tem mais perigo, é quando ele é sincero”, diria o poeta Cacaso -, provavelmente todos, e não apenas o escritor, precisarão recorrer a várias imagens, a várias analogias, para ”chegar perto” do assunto. Algumas respostas poderão se mostrar mais bonitas, outras mais ”científicas”, mas, devido à abrangência do tema, todas correm o grande risco de serem logicamente fracas, isto é, de estarem apoiando as suas âncoras em terreno lodoso. É que o assunto, como de resto todos os assuntos que são importantes para nós, não se esgota em uma perspectiva apenas - e não nos é dado ”ver” em mais de uma perspectiva (foi o que o cubismo, na pintura, tentou inventar).

O cartunista argentino Quino brinca com a extrema dificuldade de se estabelecerem as pontes entre as ciências, dificuldade que se intensifica, na escola, para se construir um programa de fato interdisciplinar, ao supor um diálogo, sem palavras, entre um cardiologista e um psicanalista. Em um dos seus desenhos, o cardiologista, apoiado nos seus instrumentos

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e nos gráficos esquemáticos da sua ciência, quer fazer um eletrocardiograma para medir os movimentos do coração justamente de Sigmund Freud, que se encontra deitado na maca, sem camisa, cheio de fios colados no peito. O cardiologista, no entanto, faz cara feia quando vê que o ”coração” do doutor Freud obriga o aparelho a lhe mostrar não sístoles nem diástoles, mas sim um desenho infantil: uma casinha, uma árvore, uma nuvem, um bonequinho...79

O aparelho de eletrocardiograma também funciona por analogias, assim como a teoria psicanalítica. Os fatos que constituem as âncoras de cada ciência não residem nas analogias iniciais, mas nas repetições dos fenômenos que se possam observar. Ainda que a teoria de um seja irredutível à do outro, ambos procuram elementos que se repetem. Freud sempre disse que não se podem interpretar sonhos isolados, mas apenas conjuntos numerosos de sonhos, para que se possam estudar os elementos que se repetem.

Não podemos pensar sem analogias, mas não devemos acreditar ”piamente” nelas. A crença ”pia”, no lugar da reflexão atenta, promove argumentos impertinentes.

79 Quino. Quinolerapia, p. 18.

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O ARGUMENTO IMPERTINENTE

Quando cabe discutir o que estamos chamando de ”argumento impertinente”, que os manuais de lógica costumam denominar sofismas ou falácias. Como nos recusamos, para não reduplicar o que já está bem escrito (e, talvez, por medo de não sermos competentes), a elaborar um manual completo do argumento, também não listaremos, nesse capítulo, todos os tipos de sofisma existentes. Além de termos feito deles um resumo em Redação inquieta (1985), podem ser encontrados naqueles manuais que devem estar presentes nas estantes da escola. Destacamos, em particular, o manual de Irving Copi (1978), o de Wesley Salmon (1973) e o curioso volume do filósofo Arthur Schopenhauer (1997), que elenca 38 ”estratagemas erísticos” para bem enganar os demais.

Recomendamos, ainda, a reprodução, para alunos e professores, de dois textos capitais: ”A arte refinada de detectar mentiras”, de Carl Sagan,78 e ”um esboço do rebotalho intelectual”, de Bertrand Russell.79


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