História do brasil moderno ernesto geisel



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HISTÓRIA DO BRASIL MODERNO ERNESTO GEISEL

DA FUNDAÇÃO JETÚLIO VARGAS: HISTÓRIA DO BRASIL MODERNO ERNESTO GEISEL

CRACEF Rua Gal. |Osório, 59 - São Domingos- Niterói - RJ mail to: jrgfonte@rionet.com.br

Esta obra foi digitalizada para uso, exclusivo e gratuito, de deficientes visuais, de conformidade com o permissivo do Art. 46, inciso I, alínea D, da Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

MARIA CELINA D'ARAUJO E CELSO CASTRO (orgs.)

2' Edição

FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS

EDITORA #

Copyright O Amália Lucy Geisel

Direitos desta edição reservados à

EDITORA FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS Praia de Botafogo, 190 - 6" andar 22253-900 - Rio de Janeiro - Brasil Tel.: (021) 536-9110 - Fax: [021) 536-9155 e-mail: editoraClfgv.br http ://www.fgv.br/fgv/publicao/livros. htm

Impresso no Brasil / Printed in Brazil

É vedada a reprodução total ou parcial desta obra

1ª edição - 1997 2 edição - 1997

Eolçno oe Tex'ro: Dora Rocha Eot'roltnção Et,e'rRóNicn: Jayr Ferreira Vaz e Simone Ranna Revisão: Aleidis de Beltran e Fatima Caroni PRouuçAo GxAeIcn: Helio Lourenço Netto

Cnen: Tira linhas studio

Este livro resultou de um depoimento prestado pelo general Ernesto Geisel ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil lCPDOC) da Funda- ção Getulio Vargas.

Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central

da Fundacão Getulio Vargas

Ernesto Geisel Organtzadores Marta Cellna D'Araujo e Celso Castro-

Rio de Janeiro: Editora Fundação Getulio Vargas. 1997.

508p. : 11.

Inclui índice

1. Geisel. Ernesto. 1908-1996. 2. Brasil - Política e governo. 3. Bra-

sil - História. I. D'Araujo. Marta Celtna. II. Castro. Celso Corréa Ptnto

de. III. ELndação Getulto Vargas

CDD-923.181 #

Sumário


Apresentação7

PRIMEIRA PARTE

Formação e carreira 13

1 A educação pela disciplina 15

2 Uma geração de cadetes revolucionários 31

3 A Revolução de 30 e a experiência do Nordeste 43

4 O Exército e as revoltas dos anos 30 65

5 A ditadura de Vargas e o mundo em guerra 83

6 Os militares, a política e a democracia 99

7 Desenvolvimentismo e cisôes militares 119

8 A renúncia de Jânio Quadros 135

9 A conspiração contra João Goulart 147 10 O governo Castelo Branco 165 11 De Castelo a Costa e Silva 185

12 O fechamento do regime 203

13 O governo Médici 219

14 A Petrobras e a presença do Estado na economia 235 #

SEGUNDA PARTE

A Presidência da República 255 15 Preparando o terreno 257 16 Um estilo de governar 275 17 A opção pelo crescimento 287 18 Diretrizes para o desenvolvimento econômico 301 19 Princípios para o desenvolvimento social 317 20 Política externa e pragmatismo responsável 335 21 Problemas com a linha dura 361 22 Congresso, governadores e oposição civil 381 23 Preparando a sucessão 401

TERCEIRA PARTE O Brasil da transição 417 24 Balanço de governo 419 25 O governo Figueiredo 431 26 Os governos civis 447 27 Este país tem jeito? 457

Cronologia 465

Índice onomástico e remissivo 475 #

Apresentação

Durante anos o Centro de Pesquisa e Documentação de Histó- ria Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getulio Vargas (FGV) tentou realizar uma entrevista com Ernesto Geisel. O momen- to adequado surgiu quando iniciamos, de maneira sistemática, um projeto sobre a memória militar recente do país. Esta entrevista foi o ponto alto de nossos esforços, e com ela encerra-se uma etapa do projeto iniciado em 1992. Desde então foram ouvidos cerca de 20 oficiais que haviam ocupado importantes posições no interior do re- gime militar, principalmente nos órgãos de informação e repressão. A maior parte destas entrevistas foi doada ao CPDOC, que as editou e publicou em três livros: Visões do golpe: a memória militar sobre 1964; Os anos de chumbo: a memória militar sobre a repressão e A volta aos quartéis: a memória militar sobre a abertura.1

1 Estes livros foram organizados por Maria Celiná D'Araujo, Gláucio Soares e Celso Cas- tro e publicados pela Relume-Dumará (Rio de Janeiro. 1994 e 1995). A pesquisa con- tou, além da FGV com o apoio da Finep. através do projeto "1964 e o regime militar", coordenado por Maria Celina D'Araujo; do CNPq, através do projeto "O Estado durante o regime militar brasileiro, 1964-1985"; da Universidade da Flórida e do North-South Center, através do projeto "The national securily State during the military regime, 1964- 1985". os dois últimos coordenados por Gláucio Soares. Além da trilogia mencionada. desta pesquisa resultaram várias outras publicações, entre elas a coletânea 21 anos de regime militar: balanços e perspectivas (Rio de Janeiro, Fundação Getulio Vargas, 1994).

A edição final e o preparo para publicação deste livro ocorreram já na vigên- cia dos projetos "Brasil em transição: um balanço do final do século XX", apoiado pe- lo Programa de Apoio a Núcleos de Excelência==(Pron'ex), e "Democracia e Forças Ar- madas no Brasil e nos países do Cone Sul", apoiado pela Finep. #



<8 ERNESTO GEISEL>

A entrevista com Geisel foi muito mais longa que as demais. Dada a importância do entrevistado, decidimos que seu depoimento deveria ter a forma de uma história de vida, e não ser uma entrevis- ta temática como as que vínhamos realizando. Tratava-se de um ge- neral ex-presidente da República ao qual sempre foram atribuídos um grande poder, pessoal e militar, e uma importância decisiva na mudança de rumo do regime militar e na consolidação do processo de abertura política. Além do mais, um depoimento seu teria a ca- racterística do ineditismo, visto tratar-se de alguém que sempre se mostrara avesso a entrevistas. Exceto por breves conversas com jor- nalistas de sua confiança, a maior parte em caráter pessoal, Geisel sempre evitou falar com a imprensa e com historiadores.

Conseguir este depoimento foi obra de insistência e paciência de nossa parte, mas, principalmente, produto da responsabilidade e do senso histórico do general Gustavo Moraes Rego Reis, ex-auxiliar de Geisel e um de seus amigos mais próximos. Sem ele e sem seu empenho, certamente este depoimento não teria acontecido. O gene- ral Moraes Rego foi um valioso colaborador desde o início da pes- quisa sobre o regime militar, dispondo-se a contar o que sabia e a nos colocar em contato com outras pessoas. Por seu intermédio, soubemos que Geisel ficara curioso a respeito do que ele, Moraes Rego, e os outros militares estariam dizendo nas entrevistas que concediam ao CPDOC. Moraes Rego tomou a iniciativa de entregar- lhe uma cópia de seu depoimento transcrito e revisto, antes de ser publicado. Geisel o leu mas jamais fez qualquer comentário.

Tudo isso foi gerando um clima propício para que iniciásse- mos as conversações. Assim, após vários telefonemas, o primeiro encontro com o ex-presidente ocorreu em 3 de março de 1993, em seu gabinete na Norquisa, na Praia de Botafogo, Rio de Janeiro,

quando foram combinadas as condições da entrevista. Em primeiro

lugar, Geisel nos pedia para não divulgarmos o trabalho que iria

ser feito. Temia que outras pessoas também lhe solicitassem entre- vistas ou, mais ainda, que sua anuência ao nosso pedido soasse co-

mo uma desfeita para aqueles a quem se havia recorrentemente ne-

gado a atender. Trabalhar em segredo foi nosso primeiro compro-

misso. A pedido dele acertou-se que as sessões seriam realizadas

na Fundação Getulio Vargas, com o início previsto para dali a al-

guns meses, e que após a transcrição das fitas ele faria uma revi- são pessoal do texto.

As sessões iniciaram-se em 13 de julho de 1993. Desde a pri- meira entrevista, estabeleceu-se uma rotina que seria sempre manti- #

da. Em dias previamente combinados, quase sempre na parte da manhã, Geisel entrava de carro, discretamente, pela garagem da Fun- dação Getulio Vargas, na Praia de Botafogo, e tomava o elevador pri- vativo até o andar, onde está instalada a Presidência da FGV As sessões eram realizadas no salão nobre e duravam, sempre, duas horas. Afora os entrevistadores, participava das sessões apenas o técnico de som do CPDOC, Clodomir Oliveira Gomes.

Assim, durante mais de um ano, além das diretorias da FGV e do CPDOC, pouquíssimas pessoas tinham conhecimento do que estávamos fazendo. Aos que se deparavam conosco nos corredores privativos da Presidência da FGV acompanhando o ex-presidente, dizíamos que se tratava apenas de uma visita. Alguns rumores apa- receram na imprensa e tivemos que desmenti-los. Finalmente, em agosto de 1994, o próprio Geisel declarou a uma jornalista da Ga- zeta Mercantil que nos havia concedido uma longa entrevista. Na- quele momento, já havíamos terminado a série principal de 19 ses- sões realizadas nos quase oito meses compreendidos entre 13 de ju- lho de 1993 e 9 de março de 1994. Mesmo após essa notícia, mantivemos a discrição prometida, e o conteúdo da entrevista per- maneceu em sigilo até a presente publicação.

As sessões transcorreram em duas etapas. Após as quatro pri- meiras, realizadas no mês de julho de 1993, houve uma interrupção nos meses de agosto e setembro, devido a problemas de saúde de Geisel. Seguiram-se 15 sessões entre outubro de 1993 e março de 1994, realizadas aproximadamente uma a cada semana. Tínhamos então 33h20min de gravação e aproximadamente 800 páginas de transcrição, que foram minuciosamente revistas e anotadas por ele, numa dedicação surpreendente para quem relutara em aceitar esse tipo de compromisso. A partir daí, e até nova internação de Ernesto Geisel em maio de 1995, tivemos cerca de 10 encontros, agora em seu gabinete na Norquisa, para pequenas entrevistas complementa- res e para acompanhar o processo de revisão das transcrições.

Desde os primeiros encontros, chamou-nos atenção a maneira bem-humorada com que Geisel nos recebia, destoando da imagem que tínhamos a seu respeito. Graças a isso, o constrangimento que sentíamos no início para fazer algumas perguntas foi sendo desfei- to. Muitas vezes ele mesmo antecipava o assunto quando o sabia mais delicado ou pessoal. Assim o fez para narrar o início de seu namoro com dona Lucy e para falar de assuntos para ele mais pe- nosos, como a morte do filho adolescente e as divergências com #

<10 ERNESTO GEISEL>

seu irmão Orlando Geisel, quando da escolha do ministro do Exér- cito de seu governo.

Durante a revisão das transcrições, Geisel alterou pouco o con- teúdo do que havia dito. A maior parte dessas alterações visava prin- cipalmente à forma: diminuir um pouco a informalidade da fala oral, corrigir vícios de linguagem ou completar algumas lacunas fac- tuais. Acrescentou, contudo, um longo trecho expondo seu ponto de vista em defesa da intervenção do Estado na economia. Segundo seus familiares e o general Moraes Rego, Geisel dedicou-se com afin- co à tarefa, passando grande parte de seus fins de semana em Tere- sópolis trabalhando na entrevista.

O depoimento, na verdade, foi revisto por ele duas vezes. A primeira, para conferir o conteúdo do que havia sido transcrito, e a segunda, quando a entrevista já estava montada em capítulos e o texto editado, tarefa em que Dora Rocha nos auxiliou. No essencial, o depoimento agora publicado reproduz o conteúdo do que ficou gra- vado e, principalmente, representa o que Geisel quis deixar como testemunho para a posteridade.

Mas, se a intenção de deixar um testemunho para ser lido pe- lo público era evidente, as conversas sobre a publicação da entrevis- ta constituíram uma negociação mais delicada. Quando tocávamos no assunto, Geisel não descartava a possibilidade, mas dizia que não achava conveniente publicar seu depoimento em vida e que o as- sunto seria resolvido por sua mulher depois de sua morte.

Em maio de 1995, Geisel foi internado devido a problemas de- correntes de um câncer. Nos 16 meses seguintes, passou por um longo tratamento médico. Nesse período, nosso contato foi mantido através do general Moraes Rego, que o visitava regularmente. Foi também por seu intermédio que, em janeiro de 1996, Geisel assi- nou o termo de cessão de sua entrevista ao CPDOC que trazia, ao fi- nal, a seguinte frase: "Fica, contudo, vedada a publicação sem autori- zação do depoente ou de seu representante legal".

O último encontro aconteceu em 7 de agosto de 1996. Fora do hospital, ele nos recebeu para uma breve visita, no apartamento de sua filha, Amália Lucy, em Ipanema. Estava enfraquecido mas lúci- do. Conversamos apenas sobre generalidades. Duas semanas mais tarde, veio a última internação. Geisel faleceu no dia 12 de setem- bro de 1996, aos 89 anos.

Após sua morte, o depoimento foi entregue a Amália Lucy, a quem a viúva, dona Lucy Geisel, delegou a tarefa de decidir sobre o #



destino a lhe ser dado. Novas conversas, novas ponderaçôes, diga-se de passagem sempre pautadas pela seriedade com que a filha do ex- presidente, também historiadora, lidou com o assunto. Ela nos pe- diu tempo eno fim, fez o que todos esperavam: autorizou a publica- ção. Graças a essa decisão, podemos entregar ao público uma obra significativa não só pelo que traz de novo mas principalmente pelo que permite conhecer a respeito dos princípios, concepções e ações de um dos mais importantes personagens da política e do Exército brasileiro dos últimos tempos.

A realização de todo esse trabalho foi possível, como estamos vendo, graças à ajuda de várias pessoas. Nosso primeiro agradeci- mento já foi dedicado ao general Moraes Rego. Em todas as etapas do trabalho contamos também com a colaboração decisiva de Celina Vargas do Amaral Peixoto. Celina intercedeu nos contatos iniciais, e o respeito que Geisel lhe dedicava foi central para que seu depoimen- to viesse a ser tomado na FGV. Outras pessoas precisam ser mencio- nadas, e todas, à sua maneira, foram importantes pela ajuda que nos deram e péla postura ética de respeitar "nosso segredo": o dr. Jorge Oscar de Mello Flôres, presidente da FGV foi um incentivador; Alzira Alves de Abreu e Lúcia Lippi Oliveira, diretoras do CPDOC, es- tiveram sempre na retaguarda, zelando pelo sucesso da entrevista; Fernando de Holanda Barbosa auxiliou na elucidação dos pontos mais importantes da política econômica do governo Geisel; Letícia Pi- nheiro colaborou com informações sobre o pragmatismo da política externa; Clodomir Oliveira Gomes, técnico de som, foi um grande parceiro de silêncio; Carla Siqueira, Adriana Facina, Denílson Bote- lho e Luiz André Gazir Soares auxiliaram na coleta de dados e na or- ganização das informações necessárias para a realização da entrevis- ta e do livro.

Finalmente, nosso agradecimento maior é dirigido à família do ex-presidente, dona Lucy Geisel e Amália Lucy Geisel, que sempre compreenderam o valor histórico deste depoimento, autorizaram sua publicação e nos auxiliaram cedendo fotos de seu acervo particular.

Maria Celina DÁraujo

Celso Castro #

PRIMEIRA PARTE

Formação e Carreira #

A educação pela disciplina

Presidente, vamos começar pelo início, por suas origens e sua in- fância. Qual é a história de sua família?

Meu pai, Augusto Guilherme Geisel, nasceu em Hefborn, Hes- se, na Alemanha, em 6 de abril de 1867, filho de um professor-rei- tor. Aos três anos ficou órfão de mãe. Meu avô casou de novo, mas algum tempo depois faleceu. Aos sete anos, meu pai ficou com uma madrasta, três irmãs e um irmão mais velhos. Dessas três irmãs uma era Teresa, solteira, professora e preceptora; a segunda era Ma- ria, que se tornou freira católica; e a terceira, Carolina, que casou e deixou descendência na Alemanha. O irmão, Ernesto, foi farmacêuti- co no subúrbio de Berlim.

Meu pai foi para um orfanato em Halle, Saxônia, onde estu- dou, fez o curso ginasial e aprendeu jardinagem. Aos 16 anos emi- grou para o Brasil com uma companhia de colonização. Na época ha- via interesses recíprocos do Brasil e da Alemanha, e também da Itá- lia, em desenvolver as correntes migratórias. O grave problema da mão-de-obra no Brasil, a exigir a libertação dos escravos, requeria braços livres para o desenvolvimento da agricultura e o povoamento do território. Com este objetivo, o governo incentivou, inclusive com financiamentos, a vinda de imigrantes alemães e italianos para o sul do país. Na Alemanha, o aumento demográfico em território limitado e, por outro lado, a unificação do país sob a coroa da Prússia e a conseqüente militarização foram fatores que estimularam a migração para países da América. Foi nesse quadro, e possivelmente animado pelo espírito de aventura e a perspectiva de uma nova vida mais pro- #



<16 ERNESTO GEISEL>

missora, que meu pai migrou para o Rio Grande do Sul, mesmo sem ter aqui nenhum laço familiar.

Chegou em 1883 e foi para o atual município de Venâncio Ai- res. Não teve muito sucesso e mudou-se para Estrela, onde foi traba- lhar numa fundição que fazia facas e ferramentas agrícolas - ara- dos, enxadas, ceifadeiras etc. Desde logo, dedicou-se ao estudo do português. Tinha uma boa base cultural, estudara latim e francês. Às tardes, encerrado o trabalho na fundição, enquanto os demais empregados iam para o botequim, ele se punha a ler o jornal de Porto Alegre, auxiliado por um dicionário. Poucos anos depois, fez concurso público para professor primário. Aprovado, foi lecionar no interior do município de Estrela, na picada denominada Novo Paraí- so. Nessa época conheceu meu avô materno, Henrique Beckmann, e sua esposa Guilhermina Wiebusch. Os dois vinham de famílias nu- merosas, originárias de Osnabrizck, Hanover, que também tinham emigrado da Alemanha para o Rio Grande do Sul, onde se relaciona- ram e foram estabelecer-se em propriedades vizinhas, doadas pelo governo, na picada Boa Vista, no município de Estrela.

Meu avô materno exercia a profissão de médico - o único da região - e, além disso, era pastor luterano, atividades que o manti- nham sempre atarefado. De seu casamento com minha avó Guilher- mina nasceram nove filhas e um filho, que sobreviveram, além de dois que faleceram cedo. A vida era muito trabalhosa. Além do estu- do na escola local, os filhos, hoje todos mortos, trabalhavam na ro- ça, ordenhavam as vacas e faziam os variados trabalhos caseiros exi- gidos por família tão grande. Meu pai se enamorou da filha mais ve- lha, Lydia, nascida em 20 de novembro de 1880 - 13 anos mais jovem do que ele. Antes de casar, minha mâe, e também mais tarde as irmãs, estiveram em Porto Alegre, onde fizeram um curso comple- to de prendas domésticas, principalmente de costura, e estudaram português. Meus pais se casaram em 23 de julho de 1899 e foram morar junto da escola em Novo Paraíso, onde nasceram meus ir- mãos Amália, Bernardo e Henrique.

De Novo Paraíso meu pai passou para a cidade de Estrela. Aí adquiriu o cartório do civil e crime, do qual se tornou o escrivão. Aí também nasceu meu irmão Orlando. Estrela é uma cidade de bai- xa altitude, na planície, à beira do rio Taquari, e meus irmãos vi- viam doentes por causa do clima. Meu pai fez então uma permuta com o escrivão equivalente de Bento Gonçalves, e para lá a família se mudou. Naquele tempo o transporte ou era em carreta ou a cava- #

lo, não havia trem nem automóvel. A viagem, feita em fins de 1906 ou início de 1907, em dois dias, não teve conforto para minha mãe, que estava novamente grávida. Alguns meses depois, nascia eu, o ca- çula. Nasci em Bento Gonçalves em 3 de agosto de 1907, embora nos meus assentamentos militares figure a data de 1908. É que ha- via uma idade limite máxima para entrar no Colégio Militar, e, co- mo era procedimento comum na época, muitos alteravam a data de nascimento.

Onde funcionava o cartório de seu pai?

Houve ocasiões, nesse período em Bento Gonçalves, em que o cartório estava no edifício da Prefeitura, mas houve outras em que funcionava na nossa casa. Ocupava uma sala grande, onde meu pai trabalhava. As audiências de que ele funcionalmente participava rea- lizavam-se na Prefeitura, presididas ou pelo juiz municipal ou pelo juiz de comarca, com a assistência do promotor. Meu pai era res- ponsável pelo registro das audiências e pela confecção e guarda dos processos, e ainda acumulava o serviço eleitoral: livros, revista de eleitores, expedição de títulos. Já no fim, viúvo, quando deixou o cartório, algum tempo depois da Revolução de 30, foi nomeado juiz municipal de Bento Gonçalves. Aposentou-se como juiz municipal e mais tarde foi morar em Cachoeira, onde residia minha irmã. Tinha muita força de vontade, estudou muito e evoluiu em sua posição so- cial aqui no Brasil. Mas acho que evoluiu pela tradição familiar. Seu pai tinha sido professor. Quando veio para o Brasil, meu pai, como já disse, tinha o curso ginasial. Naquele ambiente, embora se dedi- casse nos primeiros anos ao trabalho manual, era um homem de cultura.

Em sua casa se falava alemão?

Em casa, enquanto crianças, falávamos normalmente em ale- mão. Falávamos também em português, principalmente com meu pai, preocupado em que o fizéssemos sem sotaque. Ele falava e es- crevia português corretamente, e apenas às vezes, pela pronúncia de- feituosa do "r", notava-se que seu português não era genuíno. O ale- mão que falávamos era caseiro, da vida cotidiana, tanto que meu co- nhecimento da língua é muito limitado. Não sei ler, sou analfabeto, nunca me familiarizei com a letra gótica. #



<18 ERNESTO GEISEL>

Onde o senhor fez seus prímeiros estudos?

Aprendi a ler com minha mãe, relutantemente. Não queria sa- ber daquilo, mas ela me premiava com um vintém por lição aprendi- da - naquele tempo ainda tínhamos o vintém de cobre - e assim fui aprendendo a ler. Com cinco anos e meio fui para a escola. O co- légio que existia ali era estadual, denominado Colégio Elementar. Era um curso primário de seis anos, muito bom. Tínhamos cinco horas de aula diárias, inclusive aos sábados, nada de férias em ju- lho, exames finais escritos e orais em dezembro, e férias em janeiro e fevereiro. Em março recomeçavam as aulas. No verão, entrávamos no colégio às sete e meia da manhã, e a aula terminava ao meio-dia e meia. O intervalo do recreio era de meia hora. No inverno, como a região era muito fria, havia aula de nove ao meio-dia, e depois de uma às quatro da tarde. As professoras eram formadas pela Escola Normal de Porto Alegre. Eram quatro ou cinco e, assim como os dois professores, um dos quais era o diretor, tinham muito prestí- gio na sociedade. Freqüentavam-na e eram tratadas com toda consi- deração e respeito.

Acho que o êxito do colégio residia nisso, diferentemente de hoje, quando o professor não tem mais valor. Ele hoje não tem salá- rio, não tem status social, faz greve, e o ensino vai se deteriorando. Não é com Cieps nem com Ciacs que se vai resolver o problema do ensino.2 O problema está fundamentalmente ligado ao professor. A base de conhecimentos que formei nesse colégio no interior do Rio Grande do Sul, na vila de Bento Gonçalves, me valeu para toda a vi- da. Nunca tive dificuldades no meu estudo, nos problemas escola- res, graças à base que havia adquirido. Chegávamos em casa todo dia com deveres a cumprir. A ortografia ainda era muito complica- da, no início havia cópia por fazer, para aprimorar a letra e conhe- cer os problemas ortográficos. Havia aritmética, multiplicação, di- visão, raiz quadrada, raiz cúbica, redação, interpretação de textos, história, geografia, desenho etc. Não se tinha folga para brincar

2 O primeiro Ciep (Centro Integrado de Educaçáo Pública) foi inaugurado em 1983 pelo então governador do Rio de Janeiro. Leonel Brizola. Em 1991, durante o gover- no Collor, o governo federal pôs em funcionamento o primeiro Ciac (Centro Integra- do de Apoio à Criança). O projeto teve seu nome modificado em 1992, durante o go- verno de Itamar Franco, passando a chamar-se Caic (Centro de Atenção Integral à Criança). #

enquanto não se tivesse concluído o dever. E aí minha mãe, ou meu pai quando estava em casa, fazia a sua revisão. Se estava certo, mui- to bem, senão tinha-se que fazer de novo. A assistência em casa, no ensino, era muito grande.



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