Indice revista 0 2013 item 19


ANA ISABEL SOARES, ADJUNTA DO CONSELHO DIRETIVO DO CAMÕES EM REPRESENTAÇÃO DE ANA PAULA LABORINHO, PRESIDENTE DO CAMÕES, INSTITUTO DA COOPERAÇÃO E LÍNGUA ana.soares@gmail.com



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ANA ISABEL SOARES, ADJUNTA DO CONSELHO DIRETIVO DO CAMÕES EM REPRESENTAÇÃO DE ANA PAULA LABORINHO, PRESIDENTE DO CAMÕES, INSTITUTO DA COOPERAÇÃO E LÍNGUA ana.soares@gmail.com

TEMA 4 TRADUÇÃO PARA LÍNGUA PORTUGUESA DA EPOPEIA FINLANDESA KALEVALA - BREVES NOTAS DE UMA TRADUÇÃO. ANA ISABEL SOARES EM REPRESENTAÇÃO DE ANA PAULA LABORINHO, PRESIDENTE DO CAMÕES, INSTITUTO DA COOPERAÇÃO E DA LÍNGUA

O poema épico Kalevala resulta de uma recolha de canções, fórmulas e histórias da tradição oral da zona da Carélia, atual sudeste da Finlândia e sudoeste da Rússia, feita pelo médico Elias Lönnrot. Entre 1833 e 1849 Lönnrot apresentou versões sucessivas da epopeia, que tem sido traduzida em todo o mundo, para mais de cinquenta línguas. A primeira versão em língua portuguesa, do texto integral e feita diretamente a partir do original finlandês, foi encomendada a Portugal pela presidente Tarja Halonen, em 2001. Sai a lume em 2013, na editora Dom Quixote, com ilustrações de Rogério Ribeiro e profusamente documentada com notas explicativas e vários paratextos.


É a distância linguística, cultural, mas também espacial e temporal, entre a epopeia que Lönnrot fixou e esta tradução portuguesa que dita a necessidade de acrescentar dados explicativos. Entre as duas línguas detetam-se diferenças que o processo de tradução tenta, com esforço, ultrapassar. O facto de se tratar de um texto em verso adensa as dificuldades. Apesar de tudo, o processo de tradução revelou identidades, proximidades e quantas vezes semelhanças entre as narrativas numa língua de raiz latina e as histórias registadas numa outra, exterior ao paradigma indo-europeu.
Proponho ilustrar a revelação simultânea das semelhanças e das dissimilitudes, numa comunicação que dará igualmente conta das vicissitudes de traduzir um texto literário.
Quando conheci a Merja de Mattos-Parreira, num Curso Intensivo do ERASMUS, na Bélgica, em março de 1994, tinha saído havia pouco tempo, na Relógio d’Água, uma coleção de contos de Rosa Liksom – Os paraísos do caminho vazio e outros contos, que ela traduzira com a Marta Dias, a mesma Marta Dias que enveredou, nessa altura e em definitivo, pela carreira na música. Como se viu sem parceira de tradução, a Merja perguntou-me se eu estaria interessada em traduzir com ela outros textos finlandeses. Queria continuar esse trabalho, mas não sentia segurança no seu domínio do português para se abalançar sozinha em traduções literárias. Éramos alunas da mesma Faculdade, em Lisboa, tínhamos o mesmo interesse pela literatura nova e distante e queríamos dá-la a conhecer em Portugal. Eu, porque pouco sabia daquela cultura e daquelas letras; a Merja, porque, tendo decidido viver em Portugal, mas sendo finlandesa, se empenhava em trazer para o seu país de eleição um pouco do país natal.
Foi logo nesse ano começamos a traduzir a novela Suomies, de Jyrki Kiiskinen, escritor e editor que tinha ganho com o livro o prémio literário nacional (na Finlândia) de 1994. O labora da tradução, em que descobríamos cada vez mais curiosidade e gosto, não era, no entanto, a nossa principal ocupação. Ocupava-nos, sim, além das aulas e da investigação que, enquanto docentes na Universidade do Algarve, desenvolvíamos. No verão de 96, numa temporada breve em Helsínquia, viemos a terminar de traduzir, com a ajuda do autor (que conhece a língua castelhana), Suomies. O livro (uma história entre o policial e o romance existencialista, de escrita com múltiplas vozes narradoras, a que chamamos O Homem do Pântano: Uma História Finlandesa) foi proposto a um editor, que não chegou nunca a responder à nossa proposta – razão pela qual a retirámos, por considerarmos que não fazia sentido pressionar a editora para uma conclusão que claramente não desejava.
Nos anos seguintes, dediquei-me a aprender a língua finlandesa – primeiro com aulas particulares, com a Merja, com base em manuais e gramáticas de finlandês, e mais tarde em cursos de verão na Finlândia, através de temporadas de imersão absoluta, das quais saía sempre um pouco mais proficiente e segura do contributo que poderia dar às traduções conjuntas. Mas foi esse também o período em que quer eu quer a Merja estivemos envolvidas nos nossos projetos de doutoramento. Isto significou, para mim, que a aprendizagem de uma língua nova - distante, diferente, estranha em muitos aspetos – era um desafio e um estímulo permanente. Permitia-me o alívio da concentração na pesquisa e na tese, e dava-me o exercício que me mantinha o raciocínio em forma. Aprender finlandês fazia-me conhecer também melhor os hábitos, as tradições, os autores, poetas e músicos, coreógrafos de dança e encenadores de teatro, escultores e galeristas daquela cultura. A cada minha visita lá, ia-me encantando mais cada cidade, cada igreja, cada museu, cada casa particular. E o que ia descobrindo aumentava em mim a curiosidade pelo que ainda não sabia.
No começo do verão de 2001, fomos convidadas a colaborar, como tradutoras, na oficina de tradução “Poetas em Mateus” – traduzimos poemas de Penti Holappa (um grande poeta, de que há dois ou três poemas publicados em Portugal, em coletâneas dispersas, e que também considero lamentável não ser mais conhecido) e de Timo Sinnemaa (um poeta que considerei menor). A experiência da tradução de poemas, num tempo concentrado e com o objetivo muito concreto de dar aos versos forma para que viessem a ser trabalhados por um grupo de poetas portugueses, foi das mais enriquecedoras em que alguma vez participei – ajudou o ambiente do solar de Mateus, onde entrámos numa noite e de onde só saímos, sem darmos conta de que o mundo fora continuava a girar, uma semana depois. Sentávamo-nos de manhã cedo, já cumprido o dejejum, e só deixávamos a mesa de trabalho noite cerrada, quantas vezes depois de passar o caseiro e nos cochichar da janela, com receio de nos incomodar o ofício, se ainda demoraríamos, que passava da meia-noite e queria soltar os cães. Durante o dia passavam os poetas tempo connosco, burilavam um verso, uma palavra, sentavam-se ao piano e testavam a harmonia das sílabas. Os poetas, isto é, os dois autores finlandeses e os refazedores portugueses. Holappa, que teria na altura uns 84 anos e já então vivia parte do tempo em França, sentou-se muitas vezes connosco a perguntar-nos da tradução e a dar-nos sugestões, ou a contar-nos como chegara a um certo poema, a um certo verso. Dos outros – Jorge Velhote, José Emílio Nelson, Laureano Silveira, Pedro Mexia – vinha a alegria que traziam, e com que soltavam uma vez e outra uma linha mais presa dos nossos olhos cansados. Não sei de terem sido publicados nenhuns dos poemas que resultaram daquela oficina, e isso lamento.
Nesse ano ainda (acabava o ano, seria 29 ou 30 de dezembro), o então embaixador da Finlândia em Lisboa, Esko Kiuru, chamou a Merja à Embaixada para saber se estaria interessada em traduzir para português a epopeia finlandesa, Kalevala. Tratava-se de uma iniciativa oficial do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Finlândia, no âmbito de um acordo cultural entre os presidentes dos dois países, na altura Jorge Sampaio e Tarja Halonen: Portugal traduziria o Kalevala e a Finlândia Os Lusíadas. Era um desafio e tanto, e a Merja não quis aventurar-se sozinha: convidou-me para o trabalho em conjunto e a partir daí começamos a planear e a estruturar a tradução. Reunimos primeiro com a SKS (Suomalaisen Kirjiallisuuden Seura), a Sociedade Finlandesa de Literatura, que nos guiou por uma imensa bibliografia e iconografia relacionada com a epopeia, e que viria a assegurar, ao longo dos anos que a empreitada durou, todo o apoio bibliográfico de que precisamos, assim como temporadas de pesquisa local, na Carélia, região de origem dos poemas compilados no épico a que Elias Lönnrot deu forma; encetamos contactos, juntamos não só estudos sobre o texto e a sua história, mas também inúmeros dicionários e glossários específicos, enciclopédias de mitologia e traduções publicadas noutras línguas. Quando demos conta, antes mesmo de traduzir o primeiro verso, tínhamos connosco três versões em inglês, duas francesas e duas alemãs, duas espanholas, uma catalã e mesmo uma Kalevala latina - além de termos tido encontros com alguns dos tradutores e investigadores cujo estudo se centrava na epopeia. Juntamos ainda discos, álbuns de imagens, um conjunto de materiais que nos dava conta da relevância cultural e contemporânea da obra na Finlândia dos nossos dias. Decidimos tomar como texto base a edição oficial usada nas escolas na Finlândia, aquela que Lönnrot considerou a definitiva, em 1849.
Numa apresentação breve, diga-se que o poema resultou de uma recolha de Elias Lönnrot de canções, fórmulas e histórias da tradição oral da zona da Carélia (atual sudeste da Finlândia e sudoeste da Rússia). Uma primeira versão desta recolha foi apresentada pela primeira vez em 1833. Dezasseis anos depois, o poema foi revisto e publicada a terceira versão definitiva – Kalevala de 1849. As várias cantigas ou composições que o constituem podem ser agrupados de seguinte maneira: poesia dos mitos ou cosmogonias; poesia xamã, em que os heróis principais são sábios e feiticeiros com ligações com o mundo do além; poemas de aventuras, cujo assunto são as viagens que os heróis empreendem para pilhar ou procurar noiva; os poemas de fantasia, protagonizados por seres fantásticos; e os da época medieval (a mais recente camada temporal do Kalevala), as baladas e a poesia guerreira histórica.
A nossa tradução viria a ser iniciada em setembro de 2003. O método era o que já nos era habitual: frente a frente na mesma mesa do gabinete do Centro de Estudos Ataíde Oliveira, então no edifício da Biblioteca principal da Universidade do Algarve. Trabalhávamos um mínimo de duas tardes por semana, em muitas semanas tomávamos três tardes, por vezes quatro. Sempre ao ritmo intenso de olhar com grande cuidado cada verso, cada canto (que a obra tem 50), cada episódio, cada personagem, cada referência a pássaro ou bicho de terra ou de água, a cada planta ou pedra. As muitas dúvidas que se levantavam íamos tentando esclarecer através de contactos com biólogos, zoólogos, geólogos, etnólogos...
Durante a preparação da primeira versão, não cuidamos primordialmente do estilo (embora essa preocupação decorresse, quase naturalmente, da forma do texto, e tivéssemos que ter em conta aspetos estilísticos do original, para, por exemplo, verter alguma aliteração ou assonância). Concentrámo-nos, antes de mais, em encontrar correspondentes portugueses para o sentido das palavras finlandesas – preocupava-nos a grande distância cultural entre os dois países – histórica, geográfica, social –, mas também viemos a descobrir (numa viagem de campo, que em fevereiro de 2003 fizemos a Kuhmo, onde conhecemos o Centro Juminkeko) cantigas tradicionais da Carélia, parte do Kanteletar, que contam episódios que reconhecemos de cantigas tradicionais portuguesas – ou seja, ao mesmo tempo que descobríamos quase incompatibilidades, verificávamos outras proximidades encorajadoras.
Andamos nisto desde o verão de 2003 ao verão de 2005 – data em que completamos a primeira versão, a “literal”; a primeira revisão, já estilística, de coesão temática e de verificação da coerência lexical, levou-nos pouco mais de um ano. À medida que avançávamos e investigávamos, íamos acrescentando um rol de notas de rodapé. Os nossos hábitos académicos assim determinavam, mas a verdade é que nos maravilhavam as constantes descobertas, e queríamos partilhá-las todas. A versão final, já purgada de muitas destas notas, ainda mantém mais de 300.
Desde logo, a natureza desta obra influencia qualquer processo de tradução. Antes de mais, foi gerada constitui-se como rearranjo de material antes não fixado na escrita. A relação entre a forma (a extensão do verso octossilábico, as rimas interiores, ou as aliterações, por exemplo) do texto e o seu sentido mais imediato aparece situada entre duas concretizações e atitudes diametralmente distanciadas: por um lado, a atuação de um cantor, baseada na memorização e na retransmissão de histórias tradicionais a um público copresente; e, por outro lado, a reação do tradutor frente a um texto escrito, distanciado do seu ambiente de gestação performativa, onde o mais importante é muitas vezes o som das palavras e não o seu sentido (por exemplo, “sisareksi siikasille / veikoksi ve’en kaloille!” (Canto IV: 245-46)
A própria língua em que o Kalevala foi fixado, um finlandês mais arcaico do que aquele que hoje se usa, e provavelmente arcaizado já no tempo de Lönnrot, revela profundos traços de iconicidade, isto é, de relação de proximidade com referentes, mais ou menos simbólicos da cultura finlandesa, visíveis, por exemplo, nas muitas onomatopeias presentes ao longo do texto e na valorização da sonoridade sobre a semântica. Daí que, por exemplo, tantas vezes se nos deparasse a dificuldade de definir se entre um acontecimento ou outro na intriga se passavam dez meses ou dez anos, ou se uma personagem era irmã ou irmão de outra, feminino ou masculino.
A linguagem do Kalevala, mais ainda do que o finlandês atual, abunda em palavras onomatopaicas. A sua dicção poética, fundada na riqueza musical, rítmica, dos versos, oferece ao leitor uma profusão de sons enraizados nos ruídos da natureza: a trovoada, os ventos, o tropel dos cavalos ou o riscar dos trenós no gelo e na neve, produzem sons que se aproximam das palavras que os designam. Foi precisamente essa riqueza formal e melódica que se transformou no desafio maior da nossa tradução da epopeia para a língua portuguesa. A escassez na língua portuguesa relativamente ao finlandês no vocabulário de onomatopeias (verbos de som das aves, dos ruídos de instrumentos caseiros, etc.), assim como dos verbos de ações comuns (caminhar, andar) ou nomes de objetos do quotidiano (trenó, etc.) levantaram problemas constantes.
Sublinhe-se que o finlandês distancia-se da língua portuguesa não apenas por não ser uma língua latina, mas por não integrar sequer a família de línguas indo-europeias. Na sua origem, é aparentado com línguas do Oriente Próximo (línguas Urálicas) – e os seus familiares geograficamente mais chegados são o estoniano e o húngaro. Este caráter exótico encontra-se a nível da linguagem também; há muitos versos em que as ações se sucedem sem agentividade humana: o trenó anda sozinho, o caminho corre (“corriam o ginete, a viagem lesto o trenó, curto o caminho. Chegou depressa à aldeia: três caminhos se cruzavam”, Canto VIII: 215-18). Há versos que deixam perceber o caráter animista da cultura xamã do Kalevala, pois não se expressa gramaticalmente um agente humano e todas as ações, de grande movimento, são protagonizadas, quase de forma automática, pelos elementos ou objetos. Numa língua como o finlandês, com várias possibilidades de declinações casuais aplicáveis a nomes e adjetivos (o finlandês contemporâneo tem dezasseis casos, muitos dos quais locativos e que podem indicar movimento), podem construir-se frases completas sem verbo, o que no português dificilmente se consegue.
Foi, por tudo isto, uma tarefa morosa e complexa. Neste momento, acreditamos que a nossa tradução enriquece o rol de versões desta magnífica obra em todo o mundo. Em língua portuguesa, e feita diretamente do original, só havia sido publicada, em 2009, uma edição do canto inicial (no Brasil, uma bela tradução feita por Álvaro Faleiros e José Bizerril, na editora Ateliê). Alem do mais, a edição portuguesa da Dom Quixote acrescenta à beleza do texto a maravilha das imagens de Rogério Ribeiro.
Ana Isabel Soares (com Merja de Mattos-Parreira)

março de 2013





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