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, (inserida na correspondente

tradução do texto evangélico) começar a ser entendida, em geral,

como um nome próprio, isto é, deu-se a sua mitologização.

(4) O nexo entre nome próprio e categoria da determinação,

expressa pelo artigo determinado, vê-se claramente na tradução

dos gramáticos árabes. Os nomes próprios consideram-se palavras

que pela sua natureza semântica possuem a propriedade da exac-

tidão desde as origens, Cf. G. M. Gabucan, Teorüa artiklia i pro-

blerni arabskogo sintáksisa, Moscovo, 1972, pp. 32 e seguintes.

É sintomático que na Grammatica slava (= slnvo-ecclesias-

tica) [«Slavenskaia grammatika») de Fédor Maksimov (São Peters-

burgo, 1723, pp. 179-180) o titlo [signo supralinear de abreviação],

que nos textos eslavo-eclesiásticos indicava a sacralização da pala-

vra, se compare, pela sua semântica, ao artigo grego: ambos trans-

mitem, com efeito, o significado da singularidade.

152 Ensaios de Semiótica Soviética

(5) Cf. V V. Ivanóv, «Drevneindijskü mif ob ustanovlenü imën i

ego parallel, v greo eskoi tradicü», em Indüa v drevnosti, Mos-

covo, 1964; I. M. Trockij (Tronskü), HIz istorü anticnogo jazykoz-

nani ia,>, em Sovietskoe jazykoznanie, II, Leninegrado, 1936, pp.

24-26.


(6) Veja-se também a ideia do mundo como livro, típica da cons-

ciência mitológica: ideia que assinala o conhecimento a uma lei-

tura baseada num mecanismo de decifrações e identificações.

Cf. Iu. M. Lótman, B. A. Uspenkü, ~«O semioticheskom mecha-

nizme kultury", em Trudy po znakovym sisteman, V, Tártu, 1971,

p. 152 [Veja-se a tradução deste ensaio neste volume. N. T.]

(7) Assim, por exemplo, o nome duma doença (se se diz em voz

alta) pode entender-se como uma maneira de chamá-la: ao sentir-se

chamada a doença pode vir (vejam-se, em relação com isto, as

expressões correntes «procurar-se uma desgraça, uma doença,>. Um

rico material sobre este tema está recolhido em D. K. Zelenin,

Tabu slov u naroaov Vostocnoj Evroy i Severnoi Azü, parte I,

Leninegrado, 1929, pp. 1-144; ibid., parte II, Leninegrado, 1930,

pp. 1-166).

(8) Cf. sobre isto a concepção dos gregos antigos sobre a justiça

congénita dos nomes por natureza (veja-se I. M. Trockij, op. cit.,

p. 25.

(9) A confirmação do facto de o nome comum dum objecto ser



também o seu nome próprio individual, no mundo mitológico, pode

encontrar-se numa série de textos. Assim, por exemplo, no Edda

in prosa, onde se narra como Odhinn (com o nome de Bolverk)

se dispõe a procurar o mel da poesia, lemos que «Bolverk procura

um berbeqmm chamado Rati,>. Numa nota os encarregados da

edição fazem notar que Rati «significa precisamente `berbequim'»

(Mladsaja Edda, edição de O. A. Smirnickaja e M. I. Steblin-Ka-

menskü, Leninegrado, 1970, p. 59; vejam-se outras indicações análo-

gas nas pp. 72 e 79). Uma análise específica da linguagem de

Homero nesta perspectiva é-nos dada por M. S. Alkhtman, Pere-

zitiki rodovogo stroja v sobstvettttych imereach u Gomera, Lenine-

grado, 1936. Uma variante da mesma tendência manifesta-se na

atribuição, típica do epos cavaleiresco, de nomes próprios às espa-

das: Durendal, por exemplo, é chamada a espada de Orlando,

Balmug, a de Siegfrido.

(10) Forma lexicológica especial utilizada pelos adultos em con-

versa com as crianças.

(11) [Hipocorísticos, termos que exprimem uma retenção afectuosa,

acariciadora. N. T.]

(12) A ideia de que o comportamento humano depende do locus

encontrámo-la exposta, com suma clareza, numa das lendas me-

dievais arménias incorporadas na História da Arménia de P'awstos

Biwzandatsi. Narra-se aí um episódio ambientado no século IV,

quando a Arménia estava dividida entre o império bizantino e a

Prática de Análise: Leituras Semióticas 153

Pérsia sassânica. Visto que na Arménia meridional (persa) uma

dinastia de reis arménios (os Arsácidas) continuou a subsistir du-

rante algum tempo vassala dos reis persas e simultaneamente em

luta contra estes pela independência do País, a lenda, com extrema

originalidade, ainda no interior duma representação mitológica,

revelava a possibilidade dum desdobramento da conduta dum in-

divíduo como resultado da sua passagem dum locus a outro.

O rei Persa Chapuh, desejoso de conhecer as intençôes do seu

vassalo, o rei Arménio Arsace, ordena que se encha metade da sua

tenda de terra arménia e metade de terra persa. Convidado Arsace

para a tenda, toma-o pela mão e começa a passear com ele dum

lado para outro: «E quando ambos, andando pela tenda, pisaram

terra persa, disse: 'Ó rei arménio Arsace, porque te tornaste meu

inimigo? Eu amava-te como a um filho, queria dar-te uma filha

minha por esposa e adoptar-te, mas tu viraste-te contra mim:

por tua iniciativa e contra minha vontade, tornaste-te inimigo

meu...' O rei Arsace disse: 'Pequei e aqui estou culpado perante

ti, visto que, apesar de ter abatido e conseguido a vitória sobre

os teus inimigos, de os haver disperso e de ter esperado de ti a

recompensa da vida, os meus inimigos induziram-me em erro,

fizeram-me ter medo de ti e fugir. O juramento que te tinha feito

conduziu-me a ti, e eis-me aqui na tua presença. Agora sou teu

servo, sou imensamente culpado ante os teus olhos e mereço a

morte.' Mas o rei Chapuh tomou-o de novo pela mão e fingindo

que nada sucedera começou de novo a passear, e conduziu-o à

parte onde estava a terra arménia. Quando Arsace se aproximou

desse sítio e pôs os pés sobre a terra arménia, invadido pela in-

dignação e pelo orgulho, mudou de tom e levantando a voz disse:

'Afasta-te de mim, servo e truão, que te tornaste senhor dos teus

senhores. Não te perdoarei nem a ti nem aos teus filhos: vinga-

garei os meus antepassados.'» Esta mudança na conduta de Ar-

sace sucede-se repetidamente no texto, conforme pôe o pé sobre

terra arménia ou persa. «Assim, de manhã à noite ele [Chapuh,

I. L., B. U.] pô-lo à prova muitas vezes, e cada vez que Arsace

pisava terra arménia ensoberbecia-se e ameaçava, e ao pisar a do

lugar [persa I. L. B U.] mostrava-se contrito» (cf. Istorüa Ar-

menü Favstosa Buzanda, a cargo de M. A. Gervorgian, Erevan,

1953, pp. 129-130).

Há que sublinhar que os conceitos «terra arménia», ecterra

persa,~ são, no fragmento aqui transcrito, isomorfos aos conceitos

«Arménia», «Pérsia»: apenas a consciência contemporânea pode

entendê-los como metonímias (um uso análogo da expressão «terra

russa>, encontramo-lo nos textos russos medievais, e quando Cha-

liapin nas suas passeatas pelo estrangeiro levava çonsigo uma

mala russa cheia de terra russa; certamente que para ele esta

não desempenhava a função de metáfora poética, mas a duma

identificação mitológica). Portanto, o comportamento de Arsace

varia segundo o nome próprio do que é participante nesse mo-

mento. Tenha-se em conta que a vassalagem medieval, acompa-

nhada pelo acto simbólico de renúncia a uma propriedade e da

sua recuperação, se interpretava semioticamente como uma nova

denominação da propriedade (cf. o costume, muito difundido na

154 Ensaios de Semiótica Soviética

Rússia dos servos da gleba, de mudar o nome à propriedade quando

era comprada).

(13) Disto se deduz entre outras coisas, ue a forma do vocativo

pode converter-se, nas «palavras infantis,~ ~nursery words), na mor-

fologia de base, como, por exemplo, em boza ou bozia (isto é

Bog-«Deus»-), que se referem claramente a boze [«Deus»!]

(este exemplo foi-nos sugerido por M. Tolstaia). De maneira aná-

loga kisa (palavra usada para os gatos) pode entender-se como um

derivado de kis-kis e assim sucessivamente.

(14) Aqui e nas citações o sublinhado é nosso. Iu. L., B. U.

(15) Veja-se a este respeito a caracterização do «pensamento com-

plexo» da criança dada por L S Vygotski no seu livro Mychlenie

zrekh. Izmrannye psichologicheskie tssledovanüa, Moscovo, 1956,

pp. 168 e segs.

(16) R. Jákobson op. cit., p. 68 Vejam-se também as palavras de

Deus na Bíblia: ~

«Deus disse a Moisés: 'Eu sou aquele que sou.' Depois disse: 'Assim

falarás aos filhos de Israel: O Eu Sou enviou-me a vós.'» (Exodo,

3, 14.) Cf. nas Upanishad (Brhad ãranaka, leitura primeira, quarto

brâmane 1): «IvIo princípio existia apenas o ãtman [...] E olhando

à sua volta não viu outra coisa senão a si próprio. Em primeiro

lugar, pronunciou estas palavras: 'Eu sou este.' Daqui veio o nome

de 'eu'. Daqui vem, ainda hoje, o chamar-se alguém, e este res-

ponder primeiro~ `Sou eu.' E depois diz um outro nome que é o

dele.» (Veja-se Brichadaran jaka upanishada, a cargo de A. Ja.

Syrkin, Moscovo, 1964, p 73.) Tenha-se em conta que a palavra

àtman pode usar-se nas Upanishad com o valor de «eu», «si pró-

prio,> (veja-se o comentário de Syrkin à sua edição já citado pela

Brhad-aranyaka-upanishad, p. 168; cf. além de S. Radchakrishnan,

Indüskai filosofüa, vol. I, Moscovo, 1956, pp. 124 e segs.

(17) Veja-se D. K. Zelenin, Tabu slov..., parte II, cit., pp. 88-89,

91-93, 108-109, 140.

(18) Pode observar-se um tipo análogo de narração nas danças

rituais.


(19) ['Ontogénese', desenvolvimento do indivíduo, desde a fecun-

dação do óvulo até ao estado adulto. 'Ontogenético', que engendra

o ser, o pensamento, etc. 'Filogénese', desenvolvimento modo de

formação das espécies no curso da sua evolução.] (N. T.)

(20) Cf. P. Worsley, <`Groote Eyland Totemism and `Le Totétisme

aujourd'hui',>, em The Structural Study of Myth and Totetism, a

cargo de E. Leach, Edimburgo, 1967, pp. 153-154. Caracterizado c

pensamento dos aborígenes de Austráha em termos vygotskianos

o autor escreve: «A classificação totémica que examinámos baseia

-se no 'pensamento por agregaçôes' e não já no 'pensamento po

conceitos' (os termos são de Vygotskü: veja-se a op. cit., pp. 168-18(

segundo o estudioso soviético, a união agregacional constitui um

variedade do pensamento complexo, Iu. L., B. U.). Ora bem, e

Prática de Análise: Leituras Semióticas 155

não quero dizer com isto que os aborígenes australianos sejam

incapazes de pensar através de conceitos. Pelo contrário, as siste~

matizações da flora e da fauna elaboradas por eles independen-

temente da classificação totémica, isto é, os esquemas etnobotâ-

nicos e etnozoológicos, revelam de maneira evidente a atitude dos

aborígenes em relação ao pensamento conceptual. Num dos meus

trabalhos precedentes enumerei centenas de espécies vegetais e ani-

mais que não são apenas conhecïdas pelos aborígenes, mas que

têm sido classificadas por eles segunda agrupações taxonómicas

de tipo jinungwangla (animais grandes que vivem em terra firme),

wuradjidja (animais que voam), augwalja (peixes e outros animais

marinhos), etc.; aliás, as diferentes espécies estão reunidas em

grupos ecológicos. Esta é com certeza a razão pela qual Donald

Thomson, naturalista por formação, pôde comprovar que os sis-

temas análogos etnobotânicos e etnozoológicos elaborados pelos

aborígenes da ~Queensland setentrional têm certas semelhanças

com as simples classificações de Lineu.» Worsley, que define aná-

logos esquemas classificatórios como «protocientíficos» (subli-

nhando o carácter fundamentalmente lógico destes), conclui: «En-

contramo-nos, pois, face não apenas a uma, mas a duas classifica-

ções, e seria inexacto considerar a classificação totémica como 0

único modo, para a consciência das aborígenes, de organizar os

objectos do mundo.»

(21) Vejam-se as observações de Vygotskü sobre os elementos do

«pensamento complexo» (típico das crianças) na linguagem quoti-

diana da pessoa adulta (L. S. Vygotskü, op. cit., pp. 169, 172, etc.).

Em particular, observa que falando, por exemplo, do serviço de

louça ou do vestuário uma pessoa adulta pensa com frequência

não tanto no conceito abstracto correspondente, mas, pelo contrá-

rio, numa colecção de objectos concretos (como sucede, em geral,

com a criança).

(22) Aqui não se toma em conta o significado especial que este

termo tem na classificação de Ch. S. Peirce.

(23) Qbviamente, no sentido de sign-design e não de sign-event

(cf. R Carnap, Introduction to Semantics, Cambridge, Mass.,

1946, 3).

(24) Qs casos em que as tentativas de nova denominação se es-

tendem também a distintos nomes comuns (como sucedeu, por

exemplo, na ~Rússia de Paulo I) podem precisamente testemunhar

a inclusão destes últimos na esfera mitológica dos nomes próprios,

isto é, uma precisa expansão da consciência mitológica.

(25) [Poeta russo do século XVIII, tradutor de Montesquieu, que

defendeu as reformas de Pedro I.] (N. T.)

(26) [M V. Lomonosov, «Na den, feroimenitsva velikago kniazia

Petra ~Fedorovica, 1743 goda» (Para o dia onomástico do grande

Duque Piotr Fëdorovitch, no ano de 1743).] (N. T.)

(27) [Teófanes Prokopovitch ~«Nadezda debrych i dolgich let Ros-

süskoi monarchü» (Esperança de longos e prósperos anos para a

monarquia russa).] (N. T.)

156 Ensaios de Semiótica Soviética

(28) O fenómeno assinalado por Púchkin [Evgéni Onéguin, cap. III,

estrofe XVIII. (N. T.]

Acaso nos seus lábios o idioma estrangeiro

não se tornou língua mãe?

[I v ich ustach jazyk cuzai j

Ne obratilsia li v rodnoi?]

era a consequência directa duma orientação e duma organização

conhecedoras dos esforços. Cf. a prescrição do Espelho honesto

da juventude (1719); upedir um favor dignamente, com palavras

simples e educadas, como se tivéssemos que dirigir-nos a um es-

trangeiro.» Vejam-se também as observaçôes que Trediakóvskü, no

Diálogo sobre a Ortografia [Razgovor ob ortografü], reserva à

função social da cadência estrangeira na sociedade russa de mea-

dos do século XVIII: o «Estrangeiro» diz ao «Russo», seu inter-

locutor: r

todos aprenderemos a pronunciar como convém as vossas pala-

vras; mas desta maneira perderemos o direifo a sentir-nos es-

trangeiros, o que, a dizer verdade, me preocupa mais que a pro-

núncia exacta da vossa língua» (Socineüa Tred'jakovskogo, vol. III,

São Petersburgo, 1848, p. 164). A profunda marca que deixou, na

história russa, esta orientação geral do seu «período petersburguês»

resulta mais do que evidente pela influência que este continuou a

exercer nos círculos sociais de meados do século XIX, impregna-

dos de eslavofilia. Assim, V. S. Aksakova, ao exprimir em 1855 a

sua própria simpatia para com um grupo de escritos progressistas

(aparecidos na revista Morskot sbornik), anotava no seu próprio

diário: «~Respira-se mais livremente, é como ouvir falar dum país

estrangeira» (Dnevnik V. S. Aksakovoj, 1854-1855, São Petersburgo,

1913, p. 67. Cf. também V. A. Kitáev, Ot frondy k ochranitel' stvu.

Iz istorü 'russkoi liberal` noi mysli 50-60-ch godov XIX veka, Mos-

covo, 1972, p. 45).

(29) Com isto está relacionada a prática, que se estabeleceu depois

de Pedro, de substituir os topónimos tradicionais seguindo as dis-

posições governamentais (e não os costumes). Há que assinalar que

não se trata da relação convencional entre um determinado ponto

geográfico e o seu nome, relação que permite mudar o signo dei-

xando inalterada a coisa designada, mas da sua identificação mi-

tológica. De facto, a mudança da coisa velha e o surgir, no seu

lugar, duma nova, está mais conforme com as exigências de quem

tinha promovido tal acto. Oue tais operações fossem habituais

deduz-se dum troço das memórias do estadista S. Ju. Vitte

(Witte): em Odessa, a rua onde Vitte «tinha morado quando estu-

dante», e que na altura se chamava rua Dvorjanskaia, «após uma

deliberação do conselho municipal foi rebaptizada 'Rua Vitte'~

(S. Ju. Vitte, Vospominanüa, vol. III, Moscovo, 1960, p. 484). Em

1908 o conselho municipal encabeçado pelos acentoneri» [cernoso-

tency: membros da «centúria negra~, partido reaccionário, chauvi-

nista, violentamente anti-hebreu] (N. T.) - continua a ser Vitte

quem relata-«decidiu voltar a baptizar com o nome de Pedro 0

Grande a rua do meu nome (ibid., p. 485). Para além da vontade

i

Prática de Análise: Leituras Semióticas 157



, de agradar a Nicolau II (o tsar tinha conhecimento de toda a

' deliberação relativa à imposição do nome dum membro da casa

' reinante a uma rua, visto que para que fosse efectiva era neces-

' sário a sua aprovação pessoal), na deliberação ficava bem mani-

festa a ideia dum nexo entre o acto de mudar o nome à rua e o

desejo de suprimir o próprio Vitte (ao mesmo tempo os «cento-

neri>, atentaram várias vezes contra a vida do estadista, e é signi-

ficativo que este ponha tais factos numa série única, ou seja,

que os considere monossémicos). Mas Vitte não revela que o facto

de Ihe terem dedicado uma rua fosse, por sua vez, fruto duma nova

denominação. (Depois de 1917 o nome da rua foi de novo mu-

dado, para «Rua Komintern", mas no segundo pós-guerra foi-lhe

restituído o nome de «Rua de Pedro o Grande».) Vitte informa-nos

dum outro episódio não menos significativo; quando o príncipe

V A. Dolgorukov, governador de Moscovo, durante o reinado de

¡ Alexandre III caiu em desgraça e foi substituído pelo Grão-

-Duque Sergei Aleksandrovitch, o Conselho Municipal de Moscovo,

para mostrar que tinha sucedido à era de Dolgorukov a de Sergei,

«decidiu que a ruela próxima do palácio do governador, já desti-

nada a Dolgorukov, fosse dedicada ao Grão-Duque» (ibid., p. 486:

hoje em dia, essa ruela tem o nome de Belinskü). Para dizer a

verdade, aquela mudança de nome não se verificou: Alexandre es-

creveu, com efeito, sobre a decisão: nQue cobardia!» (ibid., p. 487).

(30) A tendência para a «mitologização» penetra tanto mais aber-

tamente na sociedade de Pedro, quanto mais esta pensa movimen-

tar-se em direcção contrária: o ideal da «regularidade,> pressupu-

nha a edificação duma máquina estatal que funcionasse na perfei-

ção e na qual o universo de nomes próprios fosse substituído pe-

los ordenamentos numéricos. São exemplares as tentativas de subs-

tituir os nomes das ruas por números (cf. as «linhasN do Vasilev-

skü ostrov de Petersburgo), a introdução duma ordenação numé-

rica, no sistema da hierarquia burocrática (a chamada «Tábua

dos Escalões>,). A orientação segundo o número é típica da cultura

são-petersburguesa e distingue-a da moscovita. P. A. Viazemskü

anotava: «Lord Yarmouth esteve em São Petersburgo no princípio

dos anos 20; falando das coisas agradáveis da sua estada em São

Petersburgo lembrava ter frequentado uma amável dama da classe

sexta, que morava na décima sexta linha~ (P. A. Viazemskü, Starra-

ja zapisnaia kniza Leninegrado, 1929 p. 200; veja-se também a p. 326

da mesma obra). A mistura de tendências opostas produziu aquele

fenómeno tão contraditório que foi a burocracia estatal posterior

a Pedro.


(31) 'Samozvancesivo' vem de 'samozvance': «usurpador dum nome

e/ou um título a outros,>.

(32) Veja-se K. V. Tchistov Russkichnadodnye soztal'no-autopi-

cheskie legendy, Moscovo, 1967, pp. 149 e segs.

(33) Cf. M. Babenkov, «Portret Pugaceva v Istoticeskom muzes»,

em Literaturnos nasledstvo, fascs. 9-10, Moscovo, 1933.

158 Ensaios de Semiótica Soviética

(34) ~Um compêndio destas formulações de Kolmogorov é facili-

tado por I. I. Rezvin, aSovezcanie v g. Gorkom jazyka chudozest-

vennoi literatury», em Strukturno-tipologicheskie isstedovanüa,

Moscovo, 1962, pp. 288-289; A. Z. Zolkolvkü. r

níju poéticheskogo jazyka. Obzer dokladov», em Masinnyj perevod

i prikladnaia lingvistia, fase 7, Moscovo, 1962, pp. 93-94.

(35) Hipóstase (linguística), substituição duma categoria grama-

tical por uma outra (um adjectivo empregado em função dum

substantivo, por exemplo).

(36) Se a poesia está vinculada à sinonímia, a mitologia realiza-se

no fenómeno linguisticamente oposto, a homonímia (cf, as obser-

vações sobre o nexo de fundo entre mito e homonímia no livro

de M. S. Alkhtman, Perezitki rodovogo stroia v sobstennych iYrce-

nach u Gomera, cit., pp. 10-11, passim).

(37) Valerá a pena referir que um modo de entender a poesia

substancialmente análogo se pode encontrar nos textos que reflec-

tem imediatamente uma consciência mitológica. Veja-se a defi-

nição da poesia no Edda in prosa («A língua da poesia», edição

citada, p. 69):

- `~Qual é o género de linguagem mais apropriado para a

poesia?


- A linguagem poética cria-se de forma tripla.

- Como?


- Cada coisa pode chamar-se pelo nome próprio. Um segundo

modo de expressão poética é a chamada `substituição dos nomes'

(trata-se da sinonímia. I. L., B. U.). O terceiro modo chama-se

`kenning': consiste em mencionar Odin, ou Thorr, ou algum outro

dos Ases ou dos Alfeus, e em juntar àquilo que se denominou a

designação duma característica de outro dos Ases ou de alguma

sua empresa (trata-se, pois, dum tipo particular de metáfora.

Iu. L., B. U.).~

(38) A. Ja. Gurevitch, Kategorü srednevskovoi kultury («As cate-

gorías da cultura medíeval>,), Moscovo, 1972, pp. 73-74; cf. S. D.

Kacnel'son, Istorikogrammaticheskie issledovaniìa, Moscovo-Lenine-

grado, I949, pp. 80-81 e 90-94.

0 COI~ICEITO DE TEXTO E A ESTÉTICA SIMBOLISTA

(1974)


Z. G. MINK

' l. As concepções relativas à natureza do texto artístico

ocupam um lugar particular nos critérios e na obra dos

simbolistas russos. Se os escritores de outras tendências

vêem no texto um modelo da realidade extratextual (e se

esforçam por organizá-lo segundo leis parecidas com as

, desta realidade), o percurso dos simbolistas é, quanto a

ele, diametralmente oposto: é ao real que atribuem as

propriedades do texto artístico.

2.0. IvIesta perspectiva, o mundo apresenta-se como

uma hierarquia de textos que apresentam no cimo um

Texto universal - texto de nível superior - que reflecte

a natureza \mitológica do mundo. Preocupados em recons-

tituir a antiga concepção mitológica do mundo, os simbo-

listas dão a este Texto, pnr sua vez, o sentido de amito

do mundo» global e até de «realidade mística», de essência '

objectiva do mundo; interpretam-no simultaneamente



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