Vítima de sua própria armadilha, ela teria de renunciar ao amor



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  • Eu não vi o sr. Pearson nos bailes ou na Pump Room. Espero que ele não esteja adoentado, de cama — disse Jéssica.

  • Não, ele... — A srta. Pearson hesitou antes de concluir, com ho­nestidade: — Papai não sai comigo para não estragar minhas chances
    de conseguir um bom marido. Ele é... comerciante.

  • Isso explica muita coisa — murmurou Jéssica, pensativa. — Fique tranquila, não cortarei relações com a senhorita — acrescentou ela, ao notar que a moça parecia apreensiva. — Mas se pretende agradar seu pai, fazendo um bom casamento, não seja tão impulsiva em suas confi­dências.

Oh, não. Eu senti que poderia confiar na senhorita. Mas papai não quer que eu minta. Afinal, ele é bastante conhecido em Bath.

Precisando de tempo para digerir as informações que acabara de rece-oer, Jéssica sentiu alívio ao ver o irmão aproximar-se, acompanhado por Matthew Walsingham. Nathan ergueu o chapéu para cumprimentá-las. Matthew dirigiu-lhes um sorriso caloroso, dizendo:

— Bom dia, senhoritas. Que surpresa agradável, encontrá-las aqui.

— É mesmo uma surpresa — redarguiu Jéssica. — Eu imaginava que o senhor pretendia passar a tarde passeando com alguma jovem de sorte em seu cabriole.

— Eu esperava levar uma determinada dama para passear, mas infelizmente ela já tinha outro compromisso — Ele sorriu. — Bem, uma vez que acabamos nos encontrando aqui, permite que eu a acompanhe até o canal que atravessa o parque?

Jéssica olhou para seu irmão e para a srta. Pearson. Nathan deu de ombros e depois ofereceu o braço à tímida moça. A srta. Tibbet e a sra. Woodcock permitiram que os jovens fossem caminhar sozinhos e sentaram-se em um banco próximo para descansar. Jéssica deu o braço a Matthew e juntos seguiram em direção ao canal.

Nathan seguiu-os, descontente. Quando concordara em acompanhar Matthew até o parque, não imaginara que seria obrigado a entreter a si­lenciosa srta. Pearson.


  • A senhorita está se divertindo em Bath? — perguntou o rapaz, tent­ando mostrar-se simpático.

  • Sim. E agora que conheci sua irmã, creio que irei me divertir ainda mais. A srta. Franklin é a pessoa mais gentil do mundo.

Nathan espantou-se com o entusiasmo da resposta e comentou:

  • Além de gentil, minha irmã também é muito inteligente. A senhorita sabia que ela tomou conta da propriedade que herdei de papai, en­quanto estive no exército?

  • Oh, o senhor esteve no exército? Deve ser muito corajoso!

  • Nem tanto — protestou Nathan, modesto.

Até que a srta. Pearson era atraente, com seus belos olhos e cabelos castanhos. "É uma pena que ela se vista com tanta vulgaridade", pen­sou o rapaz, antes de acrescentar:

  • Apenas cumpri meu dever.

  • Tolice! O senhor nos salvou do inimigo.

  • Bem... Na verdade, estive na América.

  • Lutando contra os índios? — indagou a srta. Pearson, excitada com a ideia.

  • Não, nós lutamos contra soldados norte-americanos comuns. No fundo, foi uma guerra desnecessária, estúpida. Os americanos são nossos irmãos e deveriam ser nossos amigos, também. A última batalha da qual participei aconteceu depois da assinatura do tratado de paz, pode imaginar uma coisa dessas? Eu preferiria ter estado na Península.

  • Um soldado não escolhe onde lutar, sir Nathan — argumentou a srta. Pearson, com sabedoria. — O senhor cumpriu seu dever, e sem dú­vida foi muito corajoso.

Eles alcançaram a ponte sobre o canal Kennet-Avon, que atravessava o parque. Jéssica e Walsingham os esperavam, recostados na grade de ferro trabalhado, observando um pequeno barco que passava. Nathan ficou impressionado ao perceber como os dois pareciam à vontade em companhia um do outro. Talvez o plano de Jéssica para arranjar um ma­rido rico não fosse tão ultrajante assim, se isso significava que ela iria casar-se com Matthew Walsingham.

^— Sua irmã concordou em me acompanhar em um passeio de barco um dia desses — comentou Matthew, ao avistar o casal que se aproxima­va. — Teria coragem de nos acompanhar, Franklin?



  • Claro que sim. Sir Nathan é muito corajoso — afirmou a srta. Pearson, esquecendo a timidez.

  • É verdade — disse o rapaz, sorrindo para ela —, mas só se a se­nhorita se aventurar a me acompanhar.

A moça enrubesceu e assentiu.

Depois de combinarem uma data para o passeio, os quatro jovens re­tornaram ao ponto inicial da caminhada.

Nathan caminhava com ar pensativo. A srta. Pearson era encantadora demais para continuar a usar roupas de mau gosto como a que trajava agora. Sem dúvida, Jéssica saberia o que fazer a respeito.

Quando se aproximavam de tia Tibby e da sra. Woodcock, Nathan su­geriu, em voz baixa:



  • Srta. Pearson, se deseja retribuir a gentileza de minha irmã, por que não se oferece para ir com ela às compras? Minha tia não possui o menor interesse por moda, e sei o quanto Jéssica sente falta de uma companhia quando vai à modista.

  • Eu teria o maior prazer em acompanhar a srta. Franklin — res­pondeu a moça, acanhada.

Nathan sorriu e chamou a irmã:

  • Jess! Contei à srta. Pearson que você vive se queixando de que tia Tibby não gosta de acompanhá-la às compras.

  • É mesmo? — Jéssica fitou-o, curiosa.

  • Se não se incomodar, eu irei com a senhorita um dia desses — dis­se a srta. Pearson.

  • Obrigada, é muito gentil de sua parte — agradeceu Jéssica, cordial
    — Pensei em comprar um chapéu que vi outro dia na Milsom Street. A senhorita estará livre para me acompanhar, amanhã cedo?

Abençoando a irmã em pensamentos, Nathan convidou a todos para um chá no pavilhão.

Mais tarde, quando estavam jantando, o rapaz agradeceu Jéssica pela cooperação.



  • Mas o que está acontecendo, afinal? — perguntou a srta. Tibbet, desconfiada.

  • Parece que Nathan tem uma ideia em mente — respondeu Jéssica.

  • Eu gostaria que você influenciasse o gosto da srta. Pearson, Jess admitiu o rapaz. — Já que insiste em ser amiga da moça, por que não a ensina a vestir-se melhor?

— Excelente sugestão — concordou ela, olhando para o irmão com suspeita. — Já é hora da srta. Pearson parar de esconder sua beleza sob vestidos horrorosos.

Nathan concentrou-se em cortar uma fatia de carne assada, indagan­do com falsa inocência:

— A srta. Pearson é bonita? Nem reparei.
CAPÍTULO VIII
Que horror! — exclamou madame Guine-vere quando sua assistente levou a srta. Lucy Pearson à sala de provas. — É um pecado vestir a pobre moça com cores tão fortes. Ela tem pele clara, deveria usar trajes em tons pastéis.

Jéssica assentiu com um gesto de cabeça. Pensara em levar a jovem amiga — elas já estavam se tratando pelo primeiro nome — ao ateliê de costura onde mandava fazer suas roupas, mas no final preferira levá-la à melhor modista de Bath.

Dez minutos depois, Jéssica folheava uma revista quando foi chama­da à sala de provas. Lucy Pearson estava experimentando um vestido de passeio de musselina branca com fitas lilás nas mangas e uma faixa da mesma cor em torno da cintura.


  • Eu estou bem, Jéssica? — perguntou a moça, ansiosa.

  • Está um encanto, Lucy. O vestido combina com o seu tipo.
    A srta. Pearson virou-se para se olhar ao espelho.




  • Cuidado, senão os alfinetes caem — preveniu madame Guinevere.
    — Posso terminar o vestido em meia hora, senhorita.

  • Ótimo. Vou levá-lo — disse a srta. Pearson, decidida.

  • Enquanto esperamos, por que não experimenta mais alguns vesti­dos? — sugeriu Jéssica. — O modelo em voile amarelo-claro também é muito bonito.

Uma hora mais tarde as duas amigas preparam-se para sair da loja. À porta, Lucy Pearson, que já usava o vestido novo de musselina, puxou Jéssica pelo braço.

— Espere um instante, por favor. Lorde Alsop está passando na rua, é melhor evitar que ele me veja.

"Se Lucy não usasse tantas jóias caras, não seria alvo de caça-dotes", pensou Jéssica, antes de perguntar:


  • Você tem um colar de pérolas? Seria o ideal para usar com o vesti­do de baile azul-claro.

  • Não. Papai não gosta de pérolas.

  • A joalheria Perrin's fica aqui ao lado, mas eu suponho que você não tenha trazido dinheiro para comprar um colar.

  • Eu tenho dinheiro suficiente — assegurou a jovem —, mas acho

melhor conversar com papai, antes. Afinal, ele era joalheiro antes de se aposentar. Vendia pedras preciosas e ouro.

— Compreendo... Vamos, lorde Alsop já se foi. E creio que já está na hora de eu ter uma palavrinha com seu pai, Lucy.

O comerciante de jóias havia comprado uma casa imensa em Circus, o bairro mais elegante da cidade. Jéssica admirou a luxuosa residência com terraços em arco e colunas esculpidas.

O mordomo abriu a porta para as jovens e Lucy conduziu Jéssica até uma confortável sala de estar. Em uma cadeira próxima à janela encontrava-se um senhor baixo e magro, vestido de maneira sóbria, len­do jornal. Ele aparentava ter sessenta anos.

— Papai? — chamou Lucy.

Ele ergueu o olhar do jornal. Ao ver que a filha estava acompanhada, levantou-se no mesmo instante.

— Ora, eu não sabia que você iria trazer uma amiga para casa, querida.

Lucy fez as apresentações e o sr. Pearson esfregou as mãos enquanto fazia repetidas mesuras, com ar de satisfação.



  • Foi muito gentil de sua parte convidar Lucy para passear, srta. Franklin — disse ele, radiante. Em seguida, dirigiu-se à filha: — Pelo que vejo, esteve fazendo compras, querida.

  • Sim, papai. O senhor gosta do meu vestido novo?




  • É bonito, mas prefiro roupas mais coloridas, em tons mais fortes.
    Lucy ficou sem graça.

  • Eu encomendei vários outros, papai. Devo cancelar os pedidos?

— É claro que não — interveio Jéssica, decidindo que era hora de tomar as rédeas da situação. — Lucy, eu gostaria de ter uma palavrinha em particular com seu pai.

O sr. Pearson fitou-a, curioso. Lucy deixou a sala, cabisbaixa. Sem aguardar por um convite, Jéssica sentou-se no sofá enquanto dizia:

— Senhor, posso ver que adora sua filha. Sendo assim, por favor, não cometa a crueldade de fazer com que Lucy use roupas que não condizem com sua idade e com a posição social que o senhor deseja para ela. Lucy destoa demais do conjunto das outras moças.

O sr. Pearson riu.



  • Não quero que minha filha pareça desbotada. A moda anda um tanto sem graça, ultimamente.

  • No entanto, uma jovem que queira ser aceita pela sociedade preci­sa seguir a moda. Além disso, as cores claras combinam muito mais com o tom de pele de Lucy. O senhor reparou como as faces de sua filha pare­ciam mais rosadas, em contraste com o branco do vestido?

  • Sim — resmungou ele —, mas aos meus olhos Lucy está sempre bonita.

- Por favor, senhor, eu lhe peço, deixe que ela fique com os vestidos

novos. Lucy irá sentir-se feliz se suas roupas pararem de atrair olhares impertinentes.

— Creio que a senhorita tem razão. — O sr. Pearson soltou um suspiro. — E agora imagino que Lucy vá querer um guarda-roupa inteiro novo...

Percebendo que o pai de sua amiga capitulava, Jéssica acrescentou:

— Ela também precisa de um colar de pérolas, que na verdade é a única jóia aceitável para uma jovem dama.

O sr. Pearson explodiu.



  • Pérolas? Ora, Lucy possui algumas das jóias mais preciosas do rei­no, e...

  • E ela irá usá-las com orgulho, mas só quando for mais velha —argumentou Jéssica. — Ou o senhor deseja que ela seja assediada por homens com a reputação do lorde Alsop?

  • Pérolas? — perguntou o sr. Pearson, vencido, num fio de voz.

  • Sim, de preferência um colar com uma única volta.

  • Está bem. Já que é assim, Lucy terá as pérolas mais bonitas do reino.

  • Brincos também são aceitáveis — concedeu Jéssica. — E talvez sua filha precise de mais um fio de pérolas para enfeitar os cabelos, mas só para ir bailes.

Nesse instante Lucy entrou na sala, seguida pela sra. Woodcock e um lacaio vestido de azul e dourado, carregando uma bandeja de chá. Por um momento Jéssica pensou em sugerir que o sr. Pearson trocasse o uni­forme da criadagem por outro de cor mais discreta, mas depois decidiu que já alcançara muitas vitórias para um único dia.

Meia hora depois, a carruagem azul e dourada dos Pearson parou em frente à casa alugada pelos Franklin.

Nathan estava chegando naquele instante.


  • E então? — indagou ele enquanto ajudava Jéssica a descer da lu­xuosa carruagem.

  • Espere só para ver — respondeu ela, orgulhosa.

  • Imagino que você tenha obtido sucesso, é claro. Quanto a mim, fui visitar Walsingham esta manhã, e...

  • Grande novidade! Você vai visitá-lo todas as manhãs.

  • Jess, você precisa perder o hábito de interromper os outros dessa maneira. — Nathan abriu a porta para que ela entrasse em casa e largou chapéu e luvas sobre a mesinha do hall. — Como eu ia dizendo, Walsingham me mostrou alguns projetos arquitetônicos que fez e mencionou que você se interessa pelo assunto. Por ser solteiro ele não pode convidá-la para uma visita, de forma que eu o convidei para vir jantar conosco e trazer os projetos.

  • Jantar? Céus, preciso planejar o menu com a sra. Ancaster. Você conversará com Hayes sobre o vinho que será servido e mandar Tad comprar o que for necessário. Sukey preparará meu vestido de seda azul e...
    Oh, você ainda não me disse quando será o jantar, Nathan.

  • Amanhã.

  • Amanhã? Por que não falou logo? Temos muito que fazer, e quero que tudo saia perfeito.

Os preparativos para o jantar começaram logo cedo no dia seguinte. Tendo em conta o número reduzido de criados, Jéssica, Nathan e tia Tibby precisaram ajudar a preparar as coisas.

Durante boa parte do dia uma grande bagunça reinou na casa, mas quando Jéssica foi para o quarto a fim de trocar de roupa e arrumar os cabelos, a ordem já fora restabelecida. Cristais, porcelanas e pratarias reluziam sobre a mesa de jantar coberta por uma toalha de linho branco. Um aroma delicioso vinha da cozinha, onde a sra. Ancaster exercitava seus talentos.



  • Parece até que o príncipe regente em pessoa está vindo para o jantar — resmungou a cozinheira enquanto terminava de temperar a salada.

  • O sr. Walsingham é mais importante para a srta. Jéssica que qualquer príncipe — respondeu Sukey, e ambas trocaram um olhar de cum­plicidade.

Com o casaco de libré recém-lavado, Tad estava a postos no hall. No momento em que bateram à porta, apressou-se a abri-la. Quando Mat-thew Walsingham entrou, Hayes apareceu para conduzi-lo até a sala de visitas. De repente, o mordomo viu-se segurando uma garrafa de cham­panhe em cada mão.

  • Sr. Walsingham... — murmurou o criado, confuso.

  • Ainda não receberam a boa notícia? — perguntou Matthew, eufórico.

Quando ele adentrou a sala Jéssica levantou-se para recebê-lo, surpre­sa ao vê-lo tão entusiasmado.

— Srta. Franklin, ainda não soube da novidade? — indagou Matthew, segurando-lhe as mãos. — Boa noite, srta. Tibbet. Como vai, Franklin?


Meus caros, O duque de Wellington derrotou Napoleão em Waterloo!

Fez-se um momento de silêncio. A notícia era surpreendente! De re­pente, ouviu-se um barulho semelhante a um tiro vindo da sala de jan­tar. Instantes depois Hayes apareceu carregando uma bandeja de prata com taças cheias de champanhe.

Durante o jantar a conversa girou em torno da derrota de Napoleão. Matthew e Nathan lamentaram não ter participado do combate final. Mesmo assim, Matthew prestigiou a comida saborosa e farta do norte, preparada pela sra. Ancaster.

— Meus cumprimentos à cozinheira — disse ele quando as damas se levantaram, ao final da refeição. Depois acrescentou, com um olhar pro­vocante: — Diga-lhe que espero ser convidado outra vez.

— Sim, da próxima vez que Wellington derrotar Bonaparte — pro­meteu Jéssica, com um risinho que atribuiu ao excesso de champanhe.

Como se houvesse lido a mente da jovem patroa, Hayes serviu-lhe chá na sala de estar. Jéssica tomou uma xícara e sua mente se desanuviou.

Os cavalheiros juntaram-se às damas alguns minutos mais tarde. Mat­thew sentou-se ao lado de Jéssica, no sofá de brocado, declarando:


  • Com toda essa excitação, acabei esquecendo os projetos da casa.
    Seu irmão mandou o criado ir buscá-los. Espero que não fique desapontada, srta. Franklin. Não desenhei nenhuma mansão, apenas uma cabana de caça.

  • Não tem problema. Com o auxílio de tia Tibby, esbocei um hipocausto para o senhor.

Matthew examinou o desenho com interesse, comparando o sistema subterrâneo romano ao que sabia sobre os sistemas de aquecimento ins­talados em Parkenham Hall, na Irlanda, e em Coleshill, em Berkshire. Tad apareceu em seguida com os projetos e todos retornaram à sala de jantar, já arrumada, e estenderam os papéis sobre a mesa.

O que primeiro interessou Jéssica foi a fachada da cabana. Ela gostou da assimetria informal e moderna das imensas janelas. Mas havia algo de estranho no desenho. Então percebeu que não havia sombras, árvores ou plantas para suavizar as linhas do projeto.

— Isso é uma planta, não uma obra de arte — explicou Matthew.
Ele havia descoberto no bloco de Jéssica o esboço da Abadia, e olhava deste para o próprio desenho, insatisfeito.


  • Eu não sei como fazer o sombreado e todo o resto que a senhorita desenha em volta — disse ele.

  • Eu poderia acrescentar esses detalhes na sua planta — sugeriu Jéssica.

  • A senhorita faria isso? De verdade? Seria fantástico. Há uma flo­resta atrás da casa, e lorde Ilfracombe falou em cultivar um jardim na frente.

  • Lorde Ilfracombe? — indagou Nathan.

  • Sim, ele me pediu que lhe desse algumas ideias para construir algo em um pedaço de terra que adquiriu em Leicestershire — esclareceu Matthew.

  • Então não é só teoria — disse Jéssica, examinando a planta baixa.
    — Esta sala deve ser a que tem janela grande, não é? O senhor a marcou como sendo a biblioteca. Desse modo, a sala de estar seria aqui... Oh, mas não há sala de estar.

  • É porque salas de estar são para damas — Nathan explicou —, e cavalheiros não convidam damas para suas cabanas de caça.

Todos estudaram e discutiram longamente o projeto da cabana de ca­ça. Por fim, Matthew recolheu os papéis, deixando o desenho da facha­da para que Jéssica o copiasse.

— Para um amador, o senhor fez um projeto e tanto — observou ela, tocando a sineta para pedir ao mordomo que servisse mais chá.

Eu quis fazer o melhor possível. Ilfracombe é um grande amigo meu.
Matthew despediu-se. Os Franklin e a srta. Tibbet o acompanharam até o hall. Tad abriu a porta. Uma ténue névoa cobria a rua feito um manto.

— Irei caminhar um pouco com o senhor — disse Jéssica, .num im­ pulso, saindo da casa. — Preciso de ar fresco.



  • Jéssica, seu chapéu! — exclamou a srta. Tibbet.
    Ela fez um gesto de pouco caso.

  • Só vou andar alguns metros, titia.

Jéssica pôs-se a andar e Matthew correu atrás dela. Caminharam lado a lado através da noite fresca, sem se tocarem ou falarem.

— Tad, pegue um lampião e vá iluminar o caminho — ordenou Nathan, mesmo sabendo que com as luzes da rua, e das casas acesas não havia necessidade de mais iluminação.

O criado obedeceu na mesma hora.

Olhando para trás, Matthew viu Tad a segui-los. Mais além, avistou a casa de número quinze, com duas silhuetas paradas junto ao portão.

Quando chegaram à sua casa, ele virou-se para dizer boa noite a Jéssi­ca. Gotas de orvalho brilhavamno cabelo dela, emoldurando o rosto de­licado envolto em sombras. De repente, Matthew sentiu uma vontade louca de beijá-la... e apenas a presença do criado o impediu de fazê-lo.

Mas, afinal, era para isso mesmo que Tad estava lá.

CAPÍTULO IX

Quando Matthew acordou na manhã seguinte, estava _ chovendo. Depois do café ele resolveu se dedicar aos desenhos da cabana de caça. Até então, trabalhara no proje-to apenas enquanto estivera de cama, tratando da perna ferida. Só re­centemente, ao ser deserdado pelo tio, considerara a possibilidade de usar seus talentos profissionalmente. A reação dos Franklin na noite anterior lhe havia incutido nova confiança na própria capacidade.

Lembrando-se do entusiasmo de Jéssica, em particular, seu coração bateu mais rápido. Estava apaixonado, não havia como negar. E como a vida era generosa ao fazê-lo apaixonar-se pela irmã de um rico pro­prietário de terras! Não ousava sequer sonhar que Jéssica pudesse tam­bém se apaixonar por ele...

Forçou a mente a retornar ao trabalho. Conhecia Jéssica Franklin há pouco tempo, ainda era cedo demais para pensar em casamento.

Depois do café da manhã, Jéssica sentou-se para trabalhar no projeto da cabana de caça. Ficou algum tempo ponderando sobre onde desenhar as plantas e onde fazer o sombreado. Esse último detalhe era especial­mente difícil, pois havia se esquecido de perguntar a Matthew Walsing-ham a posição da cabana em relação ao sol.

A cabana estava desenhada de frente, o que a deixava um tanto sem graça. Jéssica decidiu redesenhá-la em perspectiva, mas com isso criava um novo problema. Não se lembrava de todos os detalhes da lateral da cabana. Tentou recordar-se dos desenhos que vira na noite anterior, sem muito sucesso. Tudo seria mais fácil se pudesse simplesmente dar um pu­lo na casa de Matthew Walsingham e perguntar o que precisava saber. Mas não podia fazer isso.

Apoiou o queixo nas mãos e olhou para a janela, imaginando o que Matthew estaria fazendo naquele instante.

A distração diminuiu o ritmo de seu trabalho, que era mais difícil do que imaginara a princípio. Passou boa parte do dia desenhando, e quan­do Nathan retornou da biblioteca da cidade, onde fora pegar um livro, trouxe também as plantas de Matthew.

— Cansei de ouvi-la reclamar e fui buscá-las para você — explicou o rapaz. — Mas é preciso devolvê-las hoje mesmo, pois Walsingham está trabalhando no sistema de aquecimento.

Jéssica copiou as partes de que precisava e mandou Tad ir devolver as plantas. Para seu aborrecimento, precisaria fazer uma série de alterações no desenho. Largou o lápis, irritada, só retornando ao trabalho no dia seguinte.

Quando Jéssica e Nathan se puseram a caminho da Pump Room, de­pois do almoço, ela já havia terminado o trabalho. Estava satisfeita com o resultado, e seu irmão também.

— Você e Walsingham deveriam se tornar sócios — brincou o rapaz, enquanto caminhavam pela North Parade.

Corando, Jéssica baixou a cabeça.


  • É um projeto interessante — argumentou ela. — Além do mais, acho admirável que um cavalheiro que não precisa se preocupar com di­nheiro se ocupe de forma tão honrosa.

  • É verdade. Walsingham me contou que lorde Stone controla Stone Gables com pulso de ferro. Se ele tentasse interferir nos negócios, daria a impressão de estar com pressa de receber a herança.

O sol apareceu por entre as nuvens quando os irmãos cruzaram a Pierrepont Street e seguiram em direção à Abadia. Ao se aproximarem do Pump Room, depararam-se com uma jovem dama trajando um vestido de passeio amarelo-claro. Jéssica reconheceu-a de imediato, mas nada disse.

  • Meu Deus! — exclamou Nathan, surpreso. — É a srta. Pearson.
    Jess, você conseguiu um milagre. Parabéns.

  • Obrigada. Ela está linda, não está?

  • Lindíssima, eu diria.

O rapaz saudou Lucy e a sra. Woodcock com uma elegante mesura.

A damas trocaram cumprimentos polidos, mas o olhar de Lucy concentrou-se em Nathan. Jéssica notou, contente, que a jovem usava um colar de pérolas decididamente caro, mas modesto, como convinha. Ela estava muito bonita, e Nathan não conseguia parar de fitá-la.

Seguiram todos em direção à Pump Room. Jéssica ficou contente ao ver Matthew Walsingham deixar o prédio e caminhar em sua direção.

— Como vai, sra. Woodcock? Bom dia srta. Franklin.

Ele as cumprimentou com uma mesura. A sra. Woodcock afastou-se para conversar com Lucy e Nathan, e Matthew prosseguiu:


  • Eu gostaria de falar com a senhorita sobre os desenhos. Permite-me levá-la para um passeio?

  • Mais tarde, talvez.

  • Foi o que imaginei que responderia, por isso Hanson irá trazer o cabriole dentro de meia hora.

  • Não lhe dei permissão para ler minha mente, senhor — disse ela, fingindo indignação, e depois começou a rir. — Veja, Kitty Barlow está acenando para nós.

A sra. Woodcock confiou Lucy a Jéssica, enquanto ia conversar com alguns conhecidos, e os quatro jovens uniram-se ao grupo habitual. Jés­sica ficou contente porque Lucy não chamava mais a atenção.

Maria Crane estava presente. A ruivinha atrevida cumprimentou Mat­thew com um olhar sedutor.



  • Já tomou sua água hoje, sr. Walsingham? — perguntou Maria, tentando imitar a preocupação de Jéssica.

  • Minha tosse melhorou bastante, srta. Crane. Resolvi aceitar o con­selho da srta. Franklin e para de tomar essa água horrorosa — respon­deu ele.

  • Mas que ousadia — interveio Jéssica, aborrecida. — Eu não lhe dei conselho algum, sr. Walsingham. Se quer parar de tomar a água, que o faça por conta própria.

Ele sorriu e virou-se para responder a uma pergunta do sr. Barlow.

Realmente, a tosse de Matthew parecia ter melhorado. Mas, pensando bem, Jéssica o ouvira tossir poucas vezes. Não teve tempo de pensar me­lhor no assunto, pois Kitty Barlow estava pedindo sua opinião sobre o chapéu novo que comprara.

Meia hora depois, Matthew a chamou de lado.

— Vou verificar se Hanson já chegou. Volto em um instante.


Ele se foi e Jéssica procurou pela Pearson.

  • Lucy, estou indo embora. Preciso levá-la de volta para a compa­nhia da sra. Woodcock.

  • Pode deixar, Jess — disse Nathan, firme. — Eu acompanharei a srta. Pearson.

Lucy fitou-a, contente.

— Eu me diverti tanto esta tarde! Muito obrigada, Jéssica.


Em seguida, a jovem segurou o braço de Nathan, possessiva.
Jéssica os observou enquanto se afastavam e não estranhou por Na­than não retornar imediatamente para junto do grupo.

Matthew também estava demorando... Ele saíra a cerca de quinze mi­nutos. O que o estaria atrasando?

Ele apareceu pouco depois, com uma expressão sombria no rosto. Quan­do a alcançou, sorriu com dificuldade. Desculpou-se por tê-la feito es­perar e ofereceu-lhe o braço.

— Vamos?


Jéssica assentiu. Enquanto deixavam a Pump Room, ele sorriu e congratulou-a pela transformação da srta. Pearson. Quando Matthew a ajudou a subir no cabriole, ela concluiu que devia ter apenas imaginado a expressão preocupada no rosto dele.

Matthew tomou as rédeas das mãos do cavalariço e sentou-se ao lado dela.

— Acho que seu irmão admira a srta. Pearson tanto quanto admira meu cabriole. Ele se transforma quando a jovem está por perto.

— É verdade. Quero dizer... — Jéssica corou, embaraçada, ao ouvir a referência ao veículo. — O seu cabriole é esplêndido, e os cavalos são belíssimos.

— Percebi que a senhorita havia gostado deles, naquele dia em que captaram sua atenção.

— Oh! — Ela não sabia o que dizer. — Aquele dia...?

— Seu primeiro dia em Bath, não foi?

— Então o senhor me reconheceu! Deve ter me considerado imperti­nente por encarar um estranho.

— De forma alguma. Eu tinha certeza de que a senhorita havia se vi­rado apenas para falar com seu irmão.

Dito isso, Matthew calou-se, assumindo outra vez uma expressão sombria.



  • Eu disse alguma coisa que o aborreceu? — perguntou Jéssica.

  • Não, em absoluto.

  • Está se sentindo mal, sr, Walsingham? Quer voltar para casa? Por favor, conte-me o que há de errado.

Ele conduziu o veículo em silêncio por alguns minutos, depois explodiu:

  • O problema é esse último combate em Waterloo, na Bélgica. Está bem, nós vencemos o franceses, mas Hanson acaba de me dar as últimas notícias publicadas no jornal. Mais de vinte mil soldados ingleses morreram!

  • Entre eles seus amigos, imagino...

  • Sim, aqueles que sobreviveram à guerra na Península, quando perseguimos os franceses até Toulouse depois de expulsá-los de Portugal e da Espanha. Mas não sei ao certo quem morreu. As listas de nomes ainda não saíram... A guerra é um inferno, Jéssica. Nunca deixe que ninguém a convença do contrário. Mas isto não é assunto para uma jovem dama, num dia agradável como este. — Com visível esforço, ele se acalmou e mudou o rumo da conversa. — Imagino que não tenha tido tem­po de começar o desenho que me prometeu.

Achando graça do modo como Matthew usara seu primeiro nome, sem pensar, ela ficou contente por poder distraí-lo.

  • O desenho da cabana de caça de lorde Ilfracombe? Eu já o termi­nei. Fiz o melhor que pude, mas foi difícil.

  • Aposto que ficou excelente. Preciso desenvolver alguns detalhes do projeto, mas quero ter certeza de que Ilfracombe ainda está interessado.
    Ele pode ter encontrado outro arquiteto.

  • Mas o senhor disse que lorde Ilfracombe é seu amigo.

  • Sim, é, apesar de ser bem mais velho que eu. Ilfracombe era vizinho de minha família, e depois que papai faleceu ele começou a me hos­pedar durante boa parte das férias escolares.

— Imagino que ainda seja solteiro.
Matthew riu.

Diz isso porque não há sala de estar na cabana de caça? Sim, Ilfracombe ainda é solteiro, apesar de possuir um título, dinheiro e boa aparência. Dizem que sofreu uma grande desilusão amorosa na juventude...


Houve uma época em que esperei que ele se interessasse por minha tia Caroline. Ela foi morar em nossa casa depois que minha mãe morreu, e Ilfracombe sempre nos visitava. Mas não deu em nada.

Eles alcançaram o topo de Landsdown Hills, e Matthew parou o ca­briole para admirar a vista. Jéssica encantou-se com a paisagem, mas estava mais interessada na história da família dele.

— Onde o senhor passava o resto das férias, quando não estava com lorde Ilfracombe? Oh, desculpe-me, creio estar sendo curiosa demais.

Matthew sorriu.



  • Não se preocupe, ficarei contente em responder a pergunta. Aos treze anos eu mudei com tia Caroline para a casa de meu tio, lorde Stone.

  • Sua tia nunca se casou?

  • Não, apesar de ser bonita e simpática. E antes que a senhorita per­ gunte, minha mãe tinha mais uma irmã, casada. Tenho também tios e tias por parte de pai e uma horda de primos. — Ele riu. — Fico contente por ver alguns deles no máximo uma vez por ano. Agora, fale-me de sua família.

  • Tia Tibby não é realmente minha tia, e eu nem conseguiria explicar direito os laços que nos unem. — Esta era uma verdade, se bem que enganosa. — Mas também tenho tios e primos verdadeiros. Fui convidada para morar com eles quando meu pai morreu, há dois anos, e Nathan foi para a América. No entanto, eu não quis deixar Langdale, que está nas mãos dos Franklin há dois séculos. — Outra verdade enganosa, pois sua família ocupava as terras mas não as possuía. Cansada de histórias familiares, ela mudou de assunto: — O senhor vai ao concerto na Octagon Chapei, hoje à noite?

  • Se eu puder acompanhá-la — respondeu Matthew, galante, antes que uma sombra lhe toldasse o olhar. — Sabia que o programa foi mudado, para celebrar a vitória em Waterloo?




  • Eu entenderei se o senhor não quiser ir, por causa de seus amigos.
    Ele sorriu.

  • Não se preocupe, eu irei com prazer.

Os cavalos estava ficando inquietos. Com destreza, Matthew os fez dar meia volta, rumo a North Parade.

Tad estava esperando pela jovem patroa no portão. Mal o cabriole pa­rou, ele correu para ajudá-la a descer. Jéssica agradeceu a gentileza e virou-se para Matthew.

— Imagino que o senhor queira enviar as plantas para lorde Ilfracombe ainda hoje, não é? Tad levará minha pequena contribuição até sua casa.

— Obrigado, srta. Franklin. Nos veremos esta noite.


Matthew afastou-se.

Jess! — Nathan apareceu no hall, seguido pela srta Tibbet, assim que ela entrou em casa. — Como você pode fazer uma coisa dessas!

— Fazer o quê? — indagou Jéssica, surpresa.

— Sair com Walsingham, sozinha! Por que não levaram Hanson com vocês?

— Francamente, Jéssica, você agiu como uma leviana — interveio a srta. Tibbet. — Espero que ninguém a tenha visto, caso contrário sua reputação estará arruinada, e você jamais conseguirá um bom casamento.

Desolada, Jéssica deixou-se cair sobre a cadeira do hall.

— Oh, céus, nem pensei nessa hipótese! Vocês podem não acreditar, mas às vezes penso que já conheço Matthew...

— Matthew? — indagou Nathan, chocado.

— Isto é, penso que já conheço o sr. Walsingham há anos. Acreditem, ele não sonharia em se aproveitar da minha pequena indiscrição.

— Deve ter sido Walsingham quem dispensou Hanson — observou Nathan, com uma lógica inexorável.

— Ele não fez isso por maldade. O sr. Walsingham estava preocupa­do com algo que havia lido no jornal — explicou Jéssica, para defendê-lo.

De repente, pensou se não seria melhor Nathan ficar a par da triste novidade através de Matthew. Afinal, vários amigos dele também haviam participado do combate em Waterloo.

Com renovada energia, ela levantou-se e tirou da gaveta da mesinha do hall o desenho da cabana de caça. Entregou-o ao irmão, pedindo:

— Por favor, leve este desenho ao sr. Walsingham. Aproveite para conversar um pouco com ele.

Vendo-se reduzido ao papel de mensageiro, Nathan lançou um olhar ressentido a Jéssica e saiu.


  • Muito bem — a srta. Tibbet começou, retornando ao assunto an­terior —, não é a reputação do sr. Walsingham que está em jogo. É você quem será alvo de comentários maldosos, Jéssica.

  • Sinto muito, tia Tibby. Não agirei mais assim. Agora só podemos rezar para que ninguém tenha me visto.

Terminando de falar, ela subiu para trocar de roupa, pensativa.

Nesta tarde havia conhecido o lado mais sério e responsável de Mat­thew Walsingham, o que servira para aumentar ainda mais o interesse e o respeito que já sentia por ele.

Suspirando, perguntou-se se não estaria apaixonada. Era uma grande sorte um cavalheiro tão atraente ser também o herdeiro de um rico vis­conde... Sim, estava apaixonada. E pelo que pudera perceber, Matthew não era de todo indiferente a ela.
CAPÍTULO X

Aqui está sua água quente, srta. Jéssica. Sukey puxou as cortinas e o sol invadiu o quarto.

Jéssica bocejou e espreguiçou-se, lembrando a noite anterior. Matthew havia sentado a seu lado durante o concerto, e fora bastante agradável sentir a proximidade dele...

De repente, ela percebeu que a criada estava parada com as mãos na cintura, observando-a com um olhar estranho.



  • Obrigada pela água, Sukey. Irei me lavar daqui a pouco. Está um dia lindo, não é mesmo?

  • Parece que sim, e eu sinto muito por estragar o seu bom humor, mas há algo que não posso deixar de lhe contar.

Feliz demais para ficar alarmada, Jéssica sorriu e perguntou:

  • O que houve?

  • Tad foi ao Pig and Whistle na noite passada.

  • Ora, ele tem direito a tomar uma cerveja de vez em quando.

  • Eu sei. O problema é que Tad encontrou na taverna um cavalariço
    que trabalha em Stone Gables. O rapaz veio a Bath trazer um recado do patrão e contou que há um outro sobrinho morando com o visconde.
    Parece que lorde Stone e o sr. Walsingham se desentenderam há pouco tempo. E pelo que o cavalariço disse, lorde Stone mandou chamar um advogado para mudar o testamento.

Jéssica arregalou os olhos.

  • Francamente, Sukey, você não deveria acreditar em qualquer mexerico que ouve. Estou certa de que Tad entendeu tudo errado, e não quero que ele diga nada a sir Nathan. Meu irmão ficaria chocado se soubesse que seus criados não passam de mexeriqueiros.

  • Eu só achei que a senhorita deveria saber.

— Pois não acredito em uma só palavra!
A criada saiu do quarto, cabisbaixa.

Jéssica recostou a cabeça no travesseiro. Matthew, deserdado? Não po­dia ser verdade. Talvez ele tivesse se desentendido com o tio, mas e daí? Uma discussão, aliada à visita de outro sobrinho, seria suficiente para dar origem a rumores maliciosos, ainda mais se acontecesse de o advo­gado visitar lorde Stone na mesma época.

Mesmo assim Jéssica refletiu que não precisava ter sido tão rude com Sukey, que só estava tentando ajudá-la. Mais tarde iria pedir-lhe desculpas. Desanimada, ela saiu da cama, lavou o rosto e pôs um vestido da mais fina musselina indiana. Seria um dia longo, quente e cansativo. Lucy Pear-son a aguardava para irem às compras. Mas por algum motivo, nem as elegantes lojas de Milsom Street a atraíam naquela manhã.

A expedição de compras foi um desastre. Lucy quase passou mal por causa do calor. Elas se refugiaram na biblioteca da cidade, apenas para se aborrecerem com a chegada do devasso lorde Alsop. Em seguida, Jés­sica acompanhou a amiga até a luxuosa mansão em Circus. Aceitou um copo de limonada, enquanto conversava com o sr. Pearson.

— Estou tão grato à senhorita por tomar Lucy sob sua proteção — disse ele. — Eu já estava a ponto de ir embora de Bath, ao ver que minha filha não estava se divertindo por aqui.

Jéssica apreciava a franqueza do sr. Pearson, que demonstrava gostar muito da filha única. Instantes mais tarde, enquanto voltava para casa na carruagem azul e dourada dos Pearson, ela rezou para que Nathan se apaixonasse de verdade por Lucy antes de descobrir que o pai da jo­vem era um comerciante aposentado.

Era curioso o modo como certos rumores se espalhavam e outros não. Até o momento, nenhuma palavra sobre a profissão do sr. Pearson havia chegado aos ouvidos de Nathan. No entanto, Matthew Walsingham ha­via sido desmascarado por um encontro casual entre criados numa taverna. Desde que perdera a mãe, aos doze anos, Jéssica sempre procurava a srta. Tibbet quando estava com problemas. Ao entrar em casa, ficou fe­liz ao encontrar a antiga governanta sozinha na sala de estar. Tia Tibby fechou o livro que estava lendo e observou o rosto de Jéssica.


  • Algo a está perturbando, minha querida?

  • Sim, eu... Oh, tia Tibby, não sei mais em quê acreditar!

Ela acomodou-se no sofá e contou à idosa senhora o que Sukey lhe dissera a respeito de Matthew Walsingham.

  • Bem, se isso for mesmo verdade, você não está em posição favorável para condená-lo — lembrou a srta. Tibbet. — Por outro lado, se o sr. Walsingham houvesse discutido feio com lorde Stone, não estaria hos­pedado na casa dele aqui em Bath.

  • É verdade. — Jéssica sorriu, depois franziu o cenho. — Mas o sr. Walsingham falou que sofria dos pulmões, e eu só o vi tossir três ou quatro vezes. Ele pode ter inventado a doença para justificar sua presença na cidade, já que mesmo dizendo estar curado não pensa em ir embora.

  • É possível.

  • Tia Tibby, a senhora acha que o sr. Walsingham ficou porque gosta de mim? — indagou ela, pensativa. — Eu também gosto dele, e esse é o problema. Se ele não for rico, como poderemos nos casar?

  • O sr. Walsingham já pediu sua mão em casamento?

  • Não, e se houvesse pedido eu teria sido obrigada a confessar que não sou rica. Nesse caso, ele perderia o interesse por mim.

  • Talvez isso não acontece, se os mexericos que Tad escutou forem falsos. De qualquer modo, acho que você está fazendo tempestade em copo d'água, querida. Você não está comprometida com o sr. Walsingham. Por mais que goste do rapaz, não deve concentrar seus esforços só nele. Existem tantos outros cavalheiros ricos e disponíveis...

  • A senhora está certa, é claro. Afinal, eu só o conheço há duas semanas, por que deveria me importar? — Jéssica suspirou. — Devem existir outros cavalheiros de quem eu também possa vir a gostar. O problema é que desde que conheci o sr. Walsingham não olhei para mais ninguém...
    Pois começarei a olhar hoje à noite, no baile na Lower Room.

' A srta. Tibbet fez um gesto de cabeça, em sinal de aprovação, e ajei­tou melhor os óculos para continuar a leitura.

No baile daquela noite, Jéssica precisou esforçar-se para tratar Mat­thew com certa frieza, como se fossem meros conhecidos.

Matthew percebeu a mudança no comportamento de Jéssica. Depois de dançarem juntos, ele parecia preocupado ao acompanhá-la até onde a srta. Tibbet estava sentada com a sra. Barlow. De repente, ele teve uma ideia e sorriu.


  • Está um calor infernal aqui dentro — disse Matthew, pegando o leque de Jéssica e abanando-a com tanta força que seus cachos louros esvoaçaram. — Por que não saímos para tomar um pouco de ar fresco, srta. Franklin?

  • Oh, não, creio que...

Sem saber que desculpa usar para recusar o convite, Jéssica olhou na direção do terraço. O que viu fez seu coração disparar.

— Lucy... lorde Alsop... — murmurou ela. — Oh, sim, sr. Walsing­ham, vamos sair já! Onde está Nathan?

O barão de Alsop segurava o braço de Lucy, puxando-a para o terra­ço. Quando Jéssica se aproximou, acompanhada por Matthew, a jovem olhou para ela, desesperada. Nesse momento, Nathan apareceu ao lado de lorde Alsop com o rosto contraído de raiva.

— Milorde —, disse Jéssica forçando um sorriso —, acho que o se­nhor esqueceu que se comprometeu comigo para a próxima dança.

Antes que o barão pudesse esboçar um protesto, e antes que Nathan explodisse de raiva, Matthew interveio:

— E eu temo, srta. Pearson, que a senhorita tenha esquecido que prometeu dançar com o sr. Franklin.

Jéssica puxou lorde Alsop pela manga do casaco e praticamente o for­çou a acompanhá-la até o salão. Ao olhar para trás, ela captou a expres­são aliviada de Lucy.

— O calor fez com que a srta. Pearson se sentisse mal. Pareceu-me uma boa ideia levá-la para tomar um pouco de ar fresco — mentiu o barão. Logo mudou de assunto: — A senhorita está muito bonita, esta noite.

Lorde Alsop examinou com olhar calculista o colar de águas-marinhas que ela usava.

Jéssica bateu os cílios, imitando Maria Crane.



salão.

  • Mando fazer minhas roupas com Nugee — explicou o barão vaidoso.

Para alívio de Jéssica, que não aguentava mais aquela conversa fútil, a música começou.

Quando a dança acabou ela ficou feliz em poder livrar-se da compa­nhia de lorde Alsop, prometendo-lhe uma segunda dança para mais tar­de. Em seguida, viu Nathan aproximar-se.



  • Agora é minha vez de dançar com você, Jess — disse o rapaz.
    Ela olhou ao redor, nervosa.

  • Onde está Lucy? O sr. Walsingham está com ela?

— Eu persuadi a sra. Woodcock a levá-la para casa. Seu novo admi­rador estava certo em uma coisa, O calor realmente fez mal à srta. Pearson.

— Lorde Alsop, meu novo admirador? Por favor, não repita isso!


Nathan riu, mas depois ficou sério ao comentar:

— Preciso ficar de olho nesse homem. Você pode se cuidar sozinha, eu sei, mas Lucy é tímida e inocente demais.

Seguindo os conselhos da srta. Tibbet, Jéssica evitou dançar outra vez com Matthew. No entanto, os homens que lhe fizeram companhia du­rante o baile eram todos desprovidos de fortuna, como o sr. Barlow e lorde Glossop.

Na ausência de Lucy, Nathan também foi assediado por jovens damas sem fortuna. A sociedade de Bath parecia convencida de que os Franklin eram bons partidos.

Era isso que Jéssica desejava, claro. Mas ela não havia pensado que, junto com os homens ricos que queria atrair, viriam os caça-dotes. Insa­tisfeita, abanou-se com o leque.

Pelo canto dos olhos, viu lorde Alsop aproximar-se, sem dúvida para cobrar a segunda dança que ela lhe havia prometido.



  • Tia Tibby, temo que esse calor insuportável esteja lhe fazendo mal— disse Jéssica, no mesmo instante.

  • Sim, estou com uma dor de cabeça terrível — gemeu a srta. Tibbet, adivinhando as intenções de Jéssica.

  • Precisamos levá-la para casa agora mesmo. Aí vem Nathan, ele irá chamar uma carruagem para nós.

A sra. Barlow interveio:

— Não precisa ir embora do baile, srta. Franklin. Eu ficarei feliz em acompanhá-la, e seu irmão pode voltar para buscá-la mais tarde.

— Infelizmente, o chá que Jéssica prepara é a única coisa que faz mi­nha dor de cabeça melhorar — mentiu a srta. Tibbet.

Lorde Alsop foi forçado a aceitar as desculpas de Jéssica. Dez minu­tos depois, rindo, ela disse:



  • Desculpe-me por ter tirado a senhora tão cedo do baile, tia Tibby, mas eu não podia sequer pensar em dançar com aquele homem horrível de novo.

  • Eu me dispus a vir embora com a maior alegria. Apesar de possuir um bom coração, a sra. Barlow é muito ignorante — declarou a srta. Tibbet.

Nathan, por sua vez, permaneceu calado, parecendo mal-humorado.

  • O que aconteceu, querido? — perguntou Jéssica, quando entraram em casa. — Você está tão carrancudo.

  • É esse seu maldito blefe, Jéssica! — explodiu o rapaz, incapaz de conter-se. — Todas as moças da cidade estão me assediando por acha­rem que sou rico.

  • Sinto muito — murmurou ela, sentindo-se culpada. — Mas você não pode sair por aí anunciando que não possui uma grande fortuna.

  • Eu sei. De qualquer modo, ninguém iria acreditar em mim.

  • Lucy não se importa com o fato de você ser rico ou não — lem­brou Jéssica, tentando consolá-lo.

  • Eu sei. E isso é péssimo, pois quando ela descobrir que eu não sou rico, vai pensar que me interessei pela fortuna dela!

CAPÍTULO XI

Matthew observava, melancólico, a garoa cinzenta. -Chovia há quatro dias. Como vizinho e amigo de Nathan, ele tomara a liberdade de visitá-lo com mais frequência do que seria apropriado em outra situação, apenas para perceber uma estranha reserva no comportamento de Jéssica.

A umidade do ar fazia sua perna doer. Talvez um pouco de exercício ajudasse. Estava levantando-se da poltrona ao lado da lareira quando o criado entrou.



  • Há um recado de lorde Ilfracombe para o senhor. O conde acaba de chegar ao York House Hotel e espera que o senhor possa jantar com ele esta noite.

  • Diga ao mensageiro que estarei lá em meia hora.

O humor de Matthew melhorou no mesmo instante. Trocou de roupa e saiu, ansioso por descobrir a opinião do conde sobre o projeto da ca­bana de caça.

Lorde Ilfracombe havia se instalado em uma espaçosa suíte no primei­ro andar do hotel. Matthew foi admitido por um criado e encontrou seu velho amigo contemplando os desenhos espalhados sobre a mesa da sala de jantar.



  • Gostei — disse o conde, ao avistar Matthew.

  • Gostou mesmo, milorde? — Ele sorriu, contente.

  • Sim, você soube captar a informalidade que eu desejava. Esse esboço da fachada é o que traduz melhor o que quero dizer. — O conde indicou o desenho de Jéssica. — Também fiquei impressionado com o sistema de aquecimento. Há apenas uma ou duas mudanças que desejo discutir. Aceite um copo de vinho e vamos conversar a respeito.

O secretário de lorde Ilfracombe, um jovem discreto, serviu um copo de vinho a Matthew e depois sentou-se à mesa para fazer anotações. Quan­do os papéis precisaram ser removidos para que os garçons do hotel ar­rumassem a mesa para o jantar, eles já haviam acertado as alterações a serem feitas.

  • As novas plantas ficarão prontas dentro de um dia ou dois — prometeu Matthew, enrolando os desenhos. — O senhor vai ficar em Bath?

  • Sim, por alguns dias.

O conde parecia um pouco constrangido, notou Matthew, surpreso, mas esqueceu o assunto quando sentaram-se para jantar.

O secretário jantou com eles. Enquanto saboreavam um suculento lom-binho com ervilhas e aspargos, os cavalheiros discutiram a vitória de Wel-lington em Waterloo. Quando a refeição terminou o secretário retirou-se para redigir algumas cartas. Matthew aceitou um cálice vinho do porto. Agora que estavam sozinhos, gostaria de discutir sua situação com o con-. de, mas não sabia como introduzir o assunto.



  • Como foi que você retomou a arquitetura? — perguntou lorde il­fracombe, dando-lhe um pretexto para se abrir. — Pensei que isso fosse apenas um passatempo para você, enquanto se recuperava do fermento na perna.

  • E era, mas agora tudo mudou. Meu tio me deserdou — respondeu Matthew.

  • Lorde Stone? Mas ele tem sido um pai para você esses anos todos.
    O que você fez para que ele agisse assim?

Matthew tomou um gole de vinho para criar coragem.

  • Bem... O senhor deve ter ouvido falar a respeito de uma certa cor­rida em St. James Street.

  • Com sua chère amie em um carrinho de mão? — lorde Ilfracombe sorriu. — Sim, e eu gostaria de ter estado lá. Não se falou em outra coisa por muito tempo. Não me diga que Stone o está castigando por isso?

  • Imagino que titio teria encarado tudo como uma brincadeira, se não estivesse de mau humor por causa da dispepsia. Tio Horace achou que apostar alto em algo tão arriscado mostra que eu não tenho noção do valor do dinheiro. Então, para me dar uma lição, mudou o testamen­to em favor de meu primo Archibald.

  • Archibald Biggin, o evangélico? Meu Deus! Pensei que Stone não suportasse o rapaz.

  • Mesmo assim, titio preferiu me cortar do testamento e deixar tudo para ele. O senhor cuidou de minha herança e sabe quanto meu pai deixou, milorde. É suficiente para viver, mas espero complementar o orça­mento levando a arquitetura a sério.

  • Uma excelente ideia. — Lorde Ilfracombe tornou a encher o cálice que Matthew esvaziara sem perceber. — É claro que o recomendarei a todos meus conhecidos, e também pagarei de imediato pelo trabalho. No entanto, levará algum tempo até que você faça nome. Se houver alguma coisa que eu possa fazer para ajudá-lo nesse meio tempo, não hesite em pedir.

  • Se tio Horace tem sido um pai para mim, o senhor tem sido um tio favorito — disse Matthew, grato. — Mas espero que meu outro es­quema dê resultado.

  • Você possui um outro plano? Qual?

  • Casar-me com uma mulher rica. Tia Caroline sugeriu isso.

  • Ora! Recuso-me a acreditar que a srta. Stone o aconselhou a tornar-se um caça-dotes!

O conde parecia furioso.

— Não foi bem assim. Ela só estava brincando — explicou Matthew.

— E você a levou a sério? Caroline sempre enxergou o melhor nas pessoas, e você sempre foi o sobrinho favorito dela. Caroline mal havia saído da escola quando sua mãe morreu e ela foi morar com você e seu pai— ele acrescentou com um toque de amargura.

Matthew se apressou em esclarecer a situação:

— Eu lhe garanto que não pretendo me casar apenas por dinheiro.
Mas foi conveniente vir a Bath, e não vi mal algum em tentar encontrar uma jovem dama agradável que também fosse afortunada. E encontrei!
Jéssica Franklín é bonita, espirituosa e encantadora. O irmão dela pos­sui uma vasta propriedade no norte, e...

— E ela conhece sua situação e o ama assim mesmo?

— Bem, na verdade... Não. Afinal, o senhor não poderia esperar que eu saísse por aí anunciando que não sou mais herdeiro do visconde Stone. Mas é claro que contarei tudo a Jéssica antes de pedir que se case comigo.

— Correndo o risco de partir o coração da moça, quando ela perce­ber que você a cortejou por dinheiro.

Matthew tomou outro gole de vinho para aplacar a culpa.


  • O senhor não entende. Estou apaixonado por Jéssica, e sei que ela também gosta de mim. — Fez uma pausa e continuou, ansioso: — Mas se ela descobrir a verdade agora...

  • Não se preocupe, eu não irei delatá-lo, por enquanto, — Havia um tom de reprovação na voz do conde. — Mas acho bom permanecer um tempo em Bath, para ficar de olho na situação. Quero avisá-lo desde já, meu rapaz, se eu concluir que a jovem corre o risco de se magoar, não hesitarei em agir.

  • Não se preocupe, milorde. Eu não a magoaria por nada nesse mundo.

  • Quem é aquele homem de aparência distinta com o sr. Walsingham? — perguntou Kitty Barlow.

  • Não faço ideia — respondeu Jéssica, com frieza.

Ela irritou-se por todos presumirem que ela deveria saber tudo a res­peito de Matthew. No entanto, não resistiu à curiosidade e seguiu o olhar de Kitty. A Pump Room estava lotada na primeira manhã de sol após cinco dias de chuva, mesmo assim ela localizou a figura alta de Matthew no mesmo instante.

— Trata-se do conde de Ilfracombe — disse lorde Peter, que sempre


acompanhava Kitty por toda parte.

A atenção de Jéssica voltou-se para lorde Ilfracombe. Na qualidade de velho amigo da família, com certeza o conde sabia a verdade sobre Matthew. Ela desejou poder simplesmente abordá-lo e esclarecer de vez qualquer dúvida. Mas sendo esse caminho inimaginável, contentou-se em brindá-lo com um brilhante sorriso quando Matthew os apresentou.

— Como vai, milorde? Posso concluir que sua vinda a Bath indica interesse no projeto feito pelo sr. Walsingham para a cabana de caça?
— indagou Jéssica.

Lorde Ilfracombe arqueou as sobrancelhas grisalhas, divertindo-se com a ousadia da pergunta.

— Estou mais que interessado, srta. Franklin — respondeu ele. — Na verdade, pretendo levar a cabo o projeto de Matthew. A propósito, pare­ce que o desenho que me fez tomar a decisão de construir a cabana foi de sua autoria.

— Meu desenho o influenciou em favor do sr. Walsingham?


Contente, Jéssica olhou para Matthew.

  • Influenciou, sim — disse o conde. — Não sendo um entendido em leitura de plantas, eu não conseguiria imaginar a aparência final da cabana sem ele. A senhorita é muito talentosa.

  • Obrigada, milorde. Eu nunca havia feito nada igual antes. Mas cheguei a comentar com Matt... com o sr. Walsingham que gosto de dese­nhar construções, pois elas não se movem e dão excelentes modelos.

Lorde Ilfracombe riu. Jéssica apresentou-o a Nathan e Lucy, que apa­receram naquele momento. Lucy permaneceu calada, mas o conde con­versou com Nathan enquanto Jéssica satisfazia a curiosidade de Kitty sobre o desenho da cabana de caça.

Bob Barlow chegou com Maria Crane e Annabel Forrester. A srta. Cra-ne bateu os cílios para o conde. Ele respondeu às coqueterias da jovem com divertida indulgência. Mas quando o assunto se voltou para o baile daquela noite na Upper Room, foi a Jéssica que lorde Ilfracombe se diri­giu, convidando-a para uma dança. Lisonjeada, ela aceitou com alegria.

É claro que Jéssica também prometeu dançar com Matthew Walsing­ham, assim como com o sr. Barlow, lorde Peter e Nathan.

Matthew, por sua vez, comprometeu-se com Kitty, Maria, Annabel e Lucy, o que poderia significar que não se deixara abater pela indiferença de Jéssica.

Quando viu lorde Alsop aproximar-se, Jéssica ficou alerta. O olhar frio do barão pousou em Lucy e ela viu que Nathan conversava com a srta. Forrester. Na mesma hora, aproximou-se da amiga.

Lorde Alsop fez uma mesura.



  • Srta. Pearson, posso esperar ter o prazer de compartilhar uma dança com a senhorita na Upper Room, esta noite?

  • Oh, milorde, eu... eu não estou certa... — gaguejou Lucy, tí­mida.

  • Sua caderneta está cheia, não, Lucy? — interveio Jéssica. — Temo que o senhor tenha chegado tarde, milorde.

Lorde Alsop não se conformou com facilidade.

A senhorita está certa de que não sobrou nem uma dança para mim, srta. Pearson?

Lucy parecia insegura, e Jéssica ficou aliviada quando Nathan virou-se, percebendo que algo não ia bem.

— A srta. Pearson está comprometida por toda a noite, milorde —disse o rapaz, com voz firme. — Eu fiz as contas, já que ela não trouxe a caderneta.

O barão lançou-lhe um olhar de evidente desagrado. O silêncio mo­mentâneo foi quebrado pelo convite de Maria Crane:

— Mamãe disse que se o tempo continuar bom amanhã, nós poderemos fazer o piquenique e o concurso de desenho em Beechen Cliff. Espero que todos participem.

Kitty Barlow aceitou, entusiasmada:


  • Oh, sim! Estou certa de que mamãe me deixará ir.

  • Vamos promover um concurso entre as damas — explicou Maria a lorde Ilfracombe. —O senhor não gostaria de ser o juiz?




  • Será um prazer — respondeu o conde.
    Matthew aproveitou para interpelar Jéssica:

  • A senhorita também vai?

— Sim, nós vamos, não é mesmo, Nathan? — Ela sentiu um prazer infantil diante do interesse de Matthew. Tentando disfarçar sua alegria, indagou: — Lucy, vamos perguntar à sra. Woodcock se você também po­de ir?

Quando ela e a srta. Pearson se afastavam, ouviram a voz pomposa de lorde Alsop:



  • Ficarei encantado em acompanhá-la, srta. Crane.
    Lucy puxou o braço de Jéssica.

  • Se ele vai, eu prefiro não ir — sussurrou.
    Jéssica suspirou.




  • Você não pode viver fugindo de lorde Alsop. Vá conosco ao piquenique, por favor. Nathan ficará desapontado se você não for, assim como eu.

  • Eu sempre me sinto segura na companhia de sir Nathan — admi­tiu Lucy. — Ele sempre sabe o que dizer e fazer. Eu estava com tanto medo de dançar com lorde Alsop essa noite...

Jéssica torceu para que Nathan se apaixonasse perdidamente por Lucy, a ponto de ignorar o fato de o pai dela ser um simples comerciante... e esquecer suas restrições quanto a ser um caça-dotes!
CAPÍTULO XII
Eu avisei. — Rindo, Jéssica fitou lorde II-f fracombe. — O primeiro plano está bom, bem detalhado, mas eu não consigo desenhar direito a paisagem desfo­cada pela distância.

  • Ao menos o prémio de sinceridade é seu, srta. Franklin. — O conde suspirou. — Agora é melhor dar uma olhada nos desenhos das outras moças.

  • Sim, é claro.

Ela ficou lisonjeada com a relutância de lorde Ilfracombe em afastar-se. Ele estava lhe fazendo companhia desde o começo do passeio até Bee­chen Cliff, para aborrecimento de Maria Crane e Annabel Forrester. E na noite anterior, durante o baile, o conde sumira no salão de jogos de­pois de dançar com ela.

Lorde Ilfracombe levantou-se, polido, ao ver Maria Crane aproximar-se com seu bloco de papel.

— Trouxe meu desenho para sua apreciação, milorde — disse a moça, coquete, disfarçando sua irritação.

Jéssica também se levantou, olhando para o local onde a sra. Crane havia mandado armar a mesa de piquenique, à sombra de uma árvore. Todas as senhoras que acompanhavam as jovens já estavam sentadas em torno da mesa. Quando Jéssica se pôs a caminho do grupo, Matthew lhe fez companhia.



  • Minha avaliação não foi das melhores — comentou ela.

  • Lorde Ilfracombe ainda não viu os outros desenhos. Deixe-me ver o seu. Humm... Eu diria que se pode ver até o nome das ruas e o número das casas no plano médio. Mas por que você desenhou nuvens no céu, se não há nenhuma?

  • São montanhas, não nuvens. Veja as árvores.

  • Oh, pensei que fossem pássaros. — Matthew sorriu. — A senhorita receberá, no entanto, o primeiro prémio em arquitetura. Venha, va­mos comer algumas cerejas.

  • Preciso de algo mais substancial. Desenhar nuvens e pássaros é um trabalho cansativo — ironizou ela, sentando-se sobre uma almofada, no chão, e arrumando as saias do vestido.

— Trarei um pedaço de vitela e torta de presunto para a senhorita. Prefere limonada ou cidra?

Limonada, por favor.

Enquanto Matthew ia buscar o prato, Nathan e Lucy juntaram-se a Jéssica. Lorde Ilfracombe sentou-se ao lado dela.


  • Quem é a vencedora do concurso, milorde? — indagou Jéssica, curiosa.

  • A srta. Crane pela perspectiva, a srta. Barlow pelo sombreado, a srta. Forrester pelo... Deixe-me ver...

Jéssica riu.

— Vejo que seu talento como diplomata deve ser valioso ao governo, senhor.

Matthew retornou acompanhando por um garçom, que entregou o prato a Jéssica e anotou os pedidos dos outros.

— Estou em seu lugar, Walsingham? — perguntou lorde Ilfracombe, sem fazer menção de sair de perto de Jéssica.

Matthew, sem graça, foi forçado a procurar um outro lugar a certa dis­tância, onde Annabel Forrester, Kitty Barlow e lorde Peter logo lhe fize­ram companhia. Jéssica não conseguia evitar de olhar para eles de vez em quando. Matthew parecia ter se consolado logo da rejeição, já que se ouvia com frequência o risinho de Annabel e a risada espontânea de Kitty, provocados por seus comentários. Até mesmo lorde Peter deixou escapar alguns sons alegres.

O garçom retornou mais tarde com uma cesta de cerejas. As frutas es­tavam frescas e doces.

Matthew sugeriu uma competição entre os cavalheiros, para ver quem arremessava mais longe os caroços das cerejas. Lorde Ilfracombe ergueu-se, com um gemido.


  • Acho que estou velho demais para piqueniques — disse a Jéssica, estendendo a mão para ajudá-la a levantar. — Eu deveria ter sentado à mesa com as outras damas. Gostaria de caminhar um pouco, srta. Franklin?

  • Com prazer. Vou avisar minha tia.

Ela caminhou até a mesa de armar, onde se encontravam a sra. Crane, a sra. Woodcock e a srta. Tibbet. Lorde Alsop havia lanchado com as damas, decidindo que o conforto era mais importante naquele mo­mento que a perseguição a Lucy. Ele ergueu-se ao ver Jéssica aproxi­mar-se.

— Vou dar um passeio — disse ela à srta. Tibbet.



  • Uma ótima ideia — interveio lorde Alsop. — É bom para a diges­tão. Permita-me oferecer-lhe o braço.

  • Obrigada, milorde, mas lorde Ilfracombe me fará companhia.
    — Acrescentou, a seguir: — Não iremos nos afastar muito, tia Tibby.

— Se quiser ir mais longe, chame Nathan — disse a srta. Tibbet.
Enquanto caminhava para junto de lorde Ilfracombe, Jéssica percebeu que Matthew era o único a continuar sentado. Os outros já estavam de pé, para lançar os caroços de cereja. A expressão desconsolada dele chamou-lhe a atenção.

— Algum problema? — ela perguntou baixinho, aproximando-se.


Ele fez uma careta.

  • Fui imprudente ao sentar no chão. Agora não consigo levantar-me, por causa da dor na perna.

  • Se eu lhe der as mãos o senhor conseguirá ficar de pé?

  • Acredito que sim, mas eu não gostaria de fazer papel de in­válido.

Na mesma hora Jéssica ergueu a voz, dizendo:

— Acho que o senhor lançou o desafio e agora teme fazer feio. Ve­nha, não pode fugir do concurso!

Ela estendeu as mãos e Matthew as segurou. Com um puxão ele ficou de pé. Jéssica desequilibrou-se e Matthew a segurou pela cintura. Por um instante, fitaram-se em silêncio.

— Obrigado — sussurrou ele, por fim. A seguir, soltou-a e acrescentou em voz alta, com um sorriso maroto: — Pelo contrário, srta. Franklin, estou tão certo da minha superioridade que reluto em envergonhar os outros.

Jéssica lançou-lhe um olhar encabulado e apressou-se em ir para jun­to de lorde Ilfracombe.

— Agiu muito bem, srta. Franklin — disse o conde, aprovador, assim que se afastaram do grupo.

Jéssica corou.

— Èu não sabia que o ferimento de Walsingham continuava a incomodá-lo — continuou lorde Ilfracombe. — Talvez lorde Stone tam­bém não saiba, caso contrário não teria... Ora, não importa.

"Não o teria deserdado?", pensou Jéssica. Ela precisou esforçar-se para prestar atenção na conversa quando o conde começou a falar sobre Na-poleão.

Quando eles retornaram ao local do piquenique, descobriram que o concurso de caroços havia sido cancelado.



  • Metade dos caroços desapareceu na grama — explicou Nathan, rindo. — Quanto ao resto, houve intermináveis discussões sobre qual pertencia a quem.

  • Eu sei que o seu foi mais longe, sir — assegurou Lucy. — Jéssica, você deveria ter ficado para assistir. Foi tão engraçado!

O sorriso feliz de Lucy fez com que Jéssica procurasse por lorde Al­sop, cuja presença teria sido suficiente para encobrir a alegria da rnoça.

— Ele se foi — disse Nathan em voz baixa, lendo os pensamentos da irmã. — Ele chamou Lucy para um passeio, mas eu a ajudei a recusar o convite.

Jéssica sorriu. Até que lorde Alsop útil; afinal, despertara o instinto de proteção em Nathan.

Mesmo assim ela ficou preocupada, imaginando se o barão seria um inimigo perigoso. A expressão do devasso cavalheiro no Pump Room, quando Nathan impedira que Lucy dançasse com ele, fora maldosa. Ele era um homem influente, e poderia usar essa influência contra Nathan.

Lorde Ilfracombe, no entanto, era muito mais influente, e cumprimen­tara lorde Alsop com frieza ao encontrá-lo no Pump Room, na noite an­terior


  • O senhor conhece bem lorde Alsop? — Jéssica perguntou ao con­de, hesitante, enquanto voltavam para a cidade.

  • Não muito.

Lorde Ilfracombe não parecia inclinado a conversar a respeito.

  • Conheceu-o em Londres?

  • Sim. No entanto, ele não se atreve a aparecer por lá há algum tempo. Não gostei de encontrá-lo em Bath, e a senhorita faria bem em evitá-lo.

  • O que ele fez de tão terrível?

  • Nada que deva ser discutido em presença de uma dama, srta. Franklin — disse o conde. Ê, mudando de assunto: — Reservei um camarote no teatro para assistir Sonhos de uma noite de verão. Posso esperar que a senhorita e sua tia me honrem com sua companhia?

Jéssica aceitou o convite e começou a falar sobre teatro, mas não es­queceu lorde Alsop. Decidiu pedir a Matthew que descobrisse o que lor­de Ilfracombe se recusara a lhe contar. Ele não tentaria protegê-la da ver­dade só por ser mulher.

Olhou para trás procurando por Matthew, esperando encontrar uma oportunidade de fazer o pedido. Viu-o flertar com Maria e, dè repente, interessou-se incrivelmente pelos méritos da tragédia e da comédia.

Apenas mais tarde, em casa, à mesa de jantar, foi que ela percebeu a absoluta falta de lógica na atitude de lorde Ilfracombe.


  • É ridículo — disse a Nathan e tia Tibby. — O conde não quis me contar por que Alsop foi expulso da sociedade londrina. Mas depois, quando discutimos Shakespeare, ele defendeu a superiori­
    dade das tragédias, que estão cheias de assassinatos e casos extra­ conjugais.

  • Jéssica, não me diga que usou essa expressão ao falar com o con­de! — exclamou a srta. Tibbet, chocada.

  • É claro que não, tia Tibby. Nós conversamos com toda decência sobre maridos traídos e esposas infiéis.

Nathan riu.

— É ridículo, não? No entanto, Jess, se você quer mesmo saber tudo sobre o escândalo envolvendo Alsop, perguntarei a lorde Ilfra­combe.

Jéssica sentiu-se contente por passar uma noite tranquila em casa. Ten­tou ler um pouco para se distrair, mas não conseguia parar de pensar em Matthew.
CAPÍTULO XIII
Nathan estava saboreando uma torrada com mel quando Jéssica apareceu à mesa do café na manhã seguinte.

— Chegou uma encomenda para você, Jess.

Ele apontou para o pequeno pacote sobre a mesa, embrulhado em pa­pel bege e amarrado com um laço de fita.


  • O criado da srta. Pearson veio entregá-la — informou Hayes en­quanto lhe servia uma xícara de chá.

  • O que é? — perguntou Nathan, curioso.

  • Como posso dizer se não consigo abrir? — resmungou Jéssica, tentando desfazer o laço.

  • Pensei que fosse algo que Lucy tivesse lhe prometido, algum livro ou algo do género.

  • Não, não imagino o que seja.

O mordomo foi buscar uma tesoura para cortar a fita. Jéssica remo­veu o papel e olhou intrigada para a caixinha de veludo azul. Ao abri-la, soltou uma exclamação de surpresa.

— O que é, Jess?

Ela empurrou a caixinha sobre a mesa. Nathan fitou o conteúdo, bo­quiaberto. Brilhantes e rubis reluziam sobre o fundo de veludo. Devagar, o rapaz pegou o bracelete.


  • Quem mandou isso, afinal? — perguntou.
    Jéssica leu o cartão que acompanhava o presente.

  • O sr. Pearson, é claro. Diz apenas "com gratidão". Oh, Deus...

  • "Oh, Deus?" É só o que você diz? Essa jóia deve valer uma fortuna!

— Eu diria que o sr. Pearson comprou o bracelete pelo preço do ata­cado. Afinal, ele é um joalheiro aposentado.

Nathan deixou a jóia cair na mesa.



  • Ele era o quê!

  • Um joalheiro, um comerciante. — Jéssica não conseguiu enfrentar o olhar do irmão, mas acrescentou com aspereza: — Não me diga que não sabia.

  • Eu ouvi rumores, mas não pensei que... Ora, Jess, se eu for acreditar em tudo que se diz por aí... Então é verdade, mesmo? O pai de Lucy é um comerciante aposentado?

  • O sr. Pearson nunca fez questão de esconder isso.

  • Filha de um comerciante! Os Franklin pertencem à nobreza háséculos.

  • De que adiante ser nobre e pobre?

  • Jess, prefiro mil vezes perder Langdale a tomar por esposa a filha de um comerciante.

  • Não se trata apenas de uma questão de dinheiro. Afinal, você gos­ta de Lucy, não gosta?

—- Você não entende... Ou então o sr. Pearson subornou-a com jóias para defender Lucy.

Nathan arrependeu-se do que dissera ao ouvir Jéssica responder, num tom magoado:

— Pretendo devolver o bracelete. Não posso aceitar um presente tão valioso. Você não abandonará Lucy para lorde Alsop, não é, Nathan?

O rapaz levantou-se, furioso.

— Deixe-me em paz. Pelo amor de Deus, deixe-me em paz!
Ele correu para fora da sala.

Jéssica ouviu a porta da frente bater. Pegou o bracelete e examinou-o sob vários ângulos.

— Oh, Deus — repetiu, suspirando.

— Onde Nathan foi com tanta pressa? — perguntou a srta. Tibbet, entrando na sala e sentando-se à mesa.

Jéssica permaneceu calada.

— Houve uma pequena discussão — explicou Hayes em voz baixa, servindo-lhe uma xícara de chá.

A srta. Tibbet fez um gesto de compreensão, olhou para o bracelete que Jéssica segurava e começou a passar geléia numa torrada.

— Um presente do sr. Pearson? — indagou, com a calma de sempre — Sim. E por causa da jóia fui forçada a revelar que ele é, ou foi, um comerciante — responde Jéssica.



  • Isso com certeza explica a saída súbita de Nathan, mas não o bra­celete que você está segurando.

  • É simples. O sr. Pearson me enviou um presente para expressar sua gratidão por eu ter feito amizade com Lucy, sem dúvida. Irei devolver a jóia, é claro, e quanto antes melhor. — Colocou o bracelete de volta na caixa com todo cuidado e fechou-a. — Hayes, preciso refazer o embrulho. Traga-me um rolo de fita e a tesoura, por favor.

  • Devo providenciar uma liteira, também, srta. Jéssica?

  • Não, prefiro caminhar, assim terei tempo para pensar no que dizer ao sr. Pearson. A senhora vai comigo, tia Tíbby?

A srta. Tibbet sorriu, embaraçada.

  • Na verdade eu havia combinado de me encontrar com alguns ami­gos, às onze horas. Eu poderia enviar um recado...

  • Não, não precisa fazer isso. A senhora não pode mesmo falar com o sr. Pearson por mim... Hayes, peça a Sukey que esteja pronta para me acompanhar dentro de meia hora. Uma hora mais tarde ela bateu à porta dos Pearson.

  • A srta. Pearson ainda não saiu do quarto — informou o mordomo ao recebê-la —, mas ela deixou ordens para que a chamassem se a senho­rita viesse. Entre, por favor, vou pedir que avisem que a senhorita está aqui.

  • Na verdade, eu gostaria de falar com o sr. Pearson, em particular — disse Jéssica, para espanto do mordomo.

Seguida por Sukey, ela foi conduzida à sala de estar. O sr. Pearson sor­riu ao cumprimentá-la.

— Srta. Franklin, é um prazer...

Ele interrompeu a frase no meio quando Jéssica lhe estendeu o paco­te, dizendo:


  • Não posso aceitar seu presente. O senhor é muito generoso, mas...

  • Tolice! Não precisa pensar que eu tive segundas intenções ao lhe enviar o bracelete. Apenas quis mostrar minha gratidão por sua gentile­za em relação a Lucy. Ontem, quando chegou do piquenique, minha filha estava eufórica. Há anos que eu não a ouvia rir tão despreocupadamente.

Jéssica colocou o pacote sobre a mesinha ao lado da janela.

  • Não pretendo ofendê-lo, sr. Pearson, mas mesmo assim não posso ficar com o bracelete. É inapropriado para uma jovem dama aceitar presentes de valor. Sinto muito.

  • Nesse caso, eu é que lhe devo um pedido de desculpas, srta. Franklin. — O sr. Pearson suspirou, parecendo estranhamente satisfeito. — Não quer sentar-se e tomar um pouco de chá? Imagino que tenha vindo a pé e esteja com sede. Lucy irá gostar de vê-la.

Sentindo um imenso alívio ao notar que o sr. Pearson não parecia ofen­dido, Jéssica aceitou o convite e sentou-se. O pai de Lucy tocou a sineta, pediu chá ao mordomo e sentou-se também.

— Antes que minha filha chegue — disse ele, com ar decidido —, quero lhe assegurar que se seu irmão tiver a intenção de pedi-la em casamento, eu não me oporei.

Jéssica ficou pasma.


  • Mas o senhor nem conhece Nathan...

  • Eu conheço a senhorita, e já ouvi falar muito a respeito de sir Na­than, através de Lucy e... de outras pessoas — acrescentou o sr. Pearson, misterioso. — Não pretendo pressionar seu irmão, e também não desejo pressionar Lucy. O problema é que eu me casei muito tarde, e não gosta­ria que minha filha cometesse o mesmo erro.

  • Compreendo sua preocupação, senhor. Mas entenda, por favor, que não posso falar por meu irmão.

  • Sim, é claro. O rapaz possui orgulho próprio, e não vejo nada de errado nisso. Eu não lhe diria uma única palavra sobre o assunto, srta. Franklin, se não estivesse aborrecido com a forma como lorde Alsop vem perseguindo Lucy. Descobri algumas coisas muito desagradáveis a res­peito do barão.

  • Posso perguntar o que foi que o senhor descobriu?

  • Alsop já foi casado duas vezes. Parece que a segunda esposa foi forçada a aceitá-lo como marido, depois que ele a envolveu em uma situação comprometedora. O barão é um jogador inveterado; dilapidou as fortunas das duas esposas, hipotecou a própria propriedade e a deixou cair em ruínas. Os membros da nobreza suportam muita coisa de um homem que nasceu com um título, mas Alsop exagerou. Ele usava truques sujos, acabou sendo expulso de todos os clubes que frequentava.
    E depois que se recusou a duelar com o irmão de sua segunda esposa, não se atreve mais a aparecer em Londres. Não aprovo duelos, mas Alsop mostrou ser um homem vil e covarde.

  • Céus, e como! Se a propriedade do barão está arruinada, suponho que ele viva do jogo.

  • Aísop vive de trapacear rapazes ingénuos que têm mais dinheiro que ele.

Lucy e a sra. Woodcock entraram na sala nesse momento, seguidas pe­lo mordomo, que trazia o chá. A conversa mudou de rumo.

Jéssica só voltou a encontrar-se com Nathan pouco antes do jantar. O rapaz estava cruzando o hall quando ela desceu a escada depois de mudar de roupa.

— Preciso falar com você — disse Jéssica.


  • Está bem, mas seja breve. Vou jantar com amigos e já estou atrasado.
    Ela seguiu na frente em direção à sala de estar, comentando:

  • Fui devolver o bracelete ao sr. Pearson.




  • Ele ficou embaraçado? — indagou Nathan, não parecendo muito interessado no assunto.

  • Desapontado, de certa forma.

  • Desapontado?

  • Bem, na verdade eu achei que ele parecia satisfeito, mas isso não faz sentido. De qualquer modo, o sr. Pearson não me forçou a aceitar o bracelete. E ele me contou tudo sobre Alsop, que é um salafrário dos piores.

— Eu sei, conversei com lorde Ilfracombe, hoje, a respeito do barão.
A voz do irmão escondia certa tristeza, notou Jéssica. Mas Nathan logo assumiu um tom impaciente ao indagar:

— Era só isso que você tinha a me dizer?



  • O sr. Pearson está preocupado com lorde Alsop, que não deixa Lucy em paz. Contudo, ele não fará objeções se você pedi-la em casamento.

  • Quanta generosidade! — zombou o rapaz. — Jess, eu agradeceria muito se vocês dois parassem de se meter na minha vida, você e aquele comerciante vulgar!

Nathan deixou a sala, irritado. Um instante depois a porta da frente bateu, pela segunda vez naquele dia. Jéssica afundou na poltrona mais próxima.

  • Seu irmão saiu mal-humorado outra vez? — perguntou a srta. Tibbet, entrando na sala. — Eu diria que tamanha sensibilidade significa que ele está apaixonado.

  • Será? — Jéssica contou a ela a conversa que tivera com Nathan e concluiu,-tristonha: — Não sei mais o que fazer.

  • Você não pode forçá-lo a pedir a mão da srta. Pearson em casa­mento — argumentou a idosa senhora —, por isso não adianta ficar se preocupando.

  • Eu sei, mas não consigo deixar de pensar na pobre Lucy... e em Langdale.

Nathan não voltou para casa acompanhá-las ao concerto na Octagon Chapei, depois do jantar. Ele não era o único cavalheiro ausente no con­certo; na verdade, nenhum dos cavalheiros do círculo de amizades de Jés­sica estava presente.

Foi Kitty Barlow, cheia de excitação, quem explicou o motivo da au­sência dos rapazes enquanto os músicos afinavam os instrumentos:



  • Peter convidou-os para um jantar. Ele vai a Londres amanhã, para informar a família sobre nosso noivado.

  • Você está noiva? Oh, meus parabéns, Kitty!

  • O noivado só será divulgado quando Peter voltar de Londres. Ele disse que depois que nosso compromisso for oficializado não terá inte­resse nem tempo para entreter os amigos, por isso resolveu dar uma fes­ta, hoje.

Jéssica sorriu, desejando em pensamentos que a loquaz Kitty e o taci­turno lorde Peter fossem felizes no casamento.

— Bob está nas nuvens — continuou Kitty —, pois assim que eu estiver casada ele poderá casar-se com Mary. Os pais dela não queriam per­mitir o casamento antes que todas as irmãs dele já estivessem casadas.

Jéssica conteve uma exclamação de espanto. A música começou e ela não teve tempo de fazer mais nenhuma pergunta, mas ficou envergonha­da ao pensar em como ela e várias outras pessoas haviam julgado mal o sr. Barlow. Simpático e agradável, o pobre rapaz fora tachado de caça-dotes quando, na verdade, já estava comprometido em segredo com uma moça.

O pior é que ninguém parecia duvidar da respeitabilidade de Jéssica, Nathan e Matthew, cujas fortunas eram todas imaginárias.

Os acordes de uma sonata de Mozart distraíram Jéssica de suas preo­cupações. No intervalo Lucy foi procurá-la, ansiosa.


  • Notei que sir Nathan não veio com você. Ele está doente? — indagou a jovem.

  • Não, meu irmão está passando a noite com amigos. Pelo que en tendi, é uma festa só para cavalheiros. Lucy enrubesceu.

— Que tola eu fui! É claro, o sr. Barlow e lorde Ilfracombe também não estão aqui. Mas talvez eles venham logo. Vi o sr. Walsingham en­trando, agora há pouco.

Jéssica olhou ao redor e lá estava ele, abrindo caminho em sua dire-ção. Por um instante ela sentiu-se tentada a contar tudo a Matthew e pedir-lhe conselho.

Havia muitas pessoas em torno deles. A segunda parte do concerto começou. Quando Matthew acompanhou Jéssica e a srta. Tibbet até em casa, o momento para fazer confidências já passara.

Jéssica acordou na manhã seguinte com uma sensação de déjà vu. Sukey estava parada ao lado da cama com as mãos na cintura, como no dia em que contara que Matthew havia sido deserdado. As primeiras pa­lavras da criada reforçaram tal sensação.



  • Tad disse...

  • Sukey, não me diga que Tad andou fofocando no Pig and Whistle outra vez — resmungou Jéssica, irritada.

  • Não, senhorita. Trata-se de seu irmão. Ele foi para Londres. Saiu assim que o dia clareou, e pediu a Tad que lhe entregasse este bilhete.

Intrigada, Jéssica sentou-se na cama e leu o bilhete, que dizia:

"Jess,


Estou indo para Londres com Glossop. Meu regimento voltou para a Inglaterra e quero rever meus amigos. Não sei quando volto.

Nathan"


CAPÍTULO XIV
Matthew não apreciou a apresentação de Sonhos de . uma noite de verão. A culpa não foi dos atores. 72 produção era muito boa, e se estivesse sentado ao lado de Jéssica ele teria achado o espetáculo excelente. No entanto, ela estava na cadeira da frente, ao lado de lorde Ilfracombe, enquanto ele estava atrás da srta. Tibbet, perto do senhor e da senhora Fitzroy, amigos do conde.

Do lugar onde se encontrava, Matthew só podia ver o perfil de Jéssi­ca. Perdido em seus próprios sonhos de verão, ele não tirava os olhos dos cachos louros caindo em cascata sobre a nuca, a pele clara dos om­bros, a curva graciosa de um braço esguio.

A onda de aplausos no final do último ato tomou-o de surpresa.


  • Deseja ficar para ver a próxima peça, srta. Franklin? — lorde Il­fracombe perguntou, quando os aplausos terminaram. — Conheço sua preferência por comédias.

  • Se tivéssemos assistido a Otelo ou Rei Lear, eu responderia que sim — disse Jéssica. — Mas acho que já ri o suficiente por uma noite com os Sonhos. Prefiro ir agora, se ninguém mais desejar ficar.

Os Fitzroy e a srta. Tibbet não demonstraram interesse em assistir à peça seguinte do programa. O grupo deixou o Theatre Royal. A carrua­gem de lorde Ilfracombe encontrava-se à espera. O cocheiro parou pri­meiro no York House Hotel para deixar o casal Fitzroy.

  • Eu ficarei feliz em acompanhar a srta. Tibbet e a srta. Franklin, milorde — disse Matthew ao conde. — Não é necessário que o senhor vá conosco.

  • Pelo contrário, é meu dever de anfitrião cuidar para que minhas convidadas cheguem em segurança em casa.

A carruagem se pôs a caminho. Todos conversavam sobre a peça, com exceção de Matthew, que permanecia calado. "Qual será o jogo de lorde Ilfracombe?", perguntava-se ele. O conde monopolizava a atenção de Jéssica, fazia-lhe todas as vontades e até proclamava estar familiarizado com as preferências dela. Na verdade, agia como um pretendente ena­morado!

Eles chegaram ao fim de North Parade. Lorde Ilfracombe ajudou Jés­sica a descer da carruagem, deixando que Matthew se incumbisse da srta. Tibbet.



  • Eu diria que a senhorita teria preferido assistir Júlio César — comentou Matthew.

  • Ou Marco António e Cleópatra, ou Coriolano — disse a srta. Tibbet, com uma nota de diversão na voz. — Todas tragédias, repletas de assassinatos e traições.

  • Eu sou da opinião da srta. Franklin. Uma comédia é uma forma mais agradável de se passar a noite — opinou o conde.

  • Tem razão. Obrigada, milorde, por uma noite esplêndida — agra­deceu Jéssica. — Eu gostaria de poder convidá-lo, e ao sr. Walsingham, para tomarem um cálice de vinho. Mas como Nathan ainda não voltou, somos obrigados a nos despedir agora. Boa noite, senhores.

Depois que as damas entraram em casa, Matthew sugeriu:

— Já que a srta. Franklin não pode nos receber, venha comigo tomar uma taça de vinho, milorde.

Lorde Ilfracombe aceitou o convite.

Quando já estavam sentados em frente à lareira da sala de estar, de­gustado um bom vinho, Matthew indagou:

— Sei que não cabe a mim perguntar, mas na ausência de Nathan eu gostaria de saber quais são suas intenções em relação à srta. Franklin, milorde.

O conde sorriu.



  • Ainda não descobriu? Estou fazendo o que posso para protegê-la de você, meu rapaz.

  • De mim? — Matthew ficou chocado. — Mas eu a amo! Quanto ao senhor, o que sente por ela?

  • Eu a considero uma jovem admirável, caso contrário não me preocuparia com o futuro dela.

  • Mas o senhor a está cortejando sem nenhuma intenção de pedi-la em casamento. E eu quero me casar com ela. O senhor é mais capaz de magoá-la que eu.

  • Tolice, sou velho demais para que a srta. Franklin me considere um pretendente. Ela não se interessa pela minha fortuna, caso suas informações sejam corretas, e é refinada demais para se deixar impressionar por um título de nobreza. Além disso acredito que a srta. Franklin gosta de você, até mais do que deveria. Afinal, mais cedo ou mais tarde ela vai descobrir que você a está enganando.

Matthew tomou um gole de vinho e suspirou, melancólico.

  • Eu sei. E então ela irá me desprezar.

  • O pior de tudo é que eu acredito que vocês dois foram feitos um para o outro. Apesar dessa ideia estapafúrdia de casar-se por dinheiro, você parece mais amadurecido...

O tom de lorde Ilfracombe era questionador.

— É verdade, apesar de tio Horace parecer convencido de que eu nunca conseguirei levar uma vida decente — disse Matthew.



  • Eu também pensava assim, meu rapaz, até ver você deixar a festa de Glossop para ir ao concerto. Sabe de uma coisa, Matthew? Nos próximos dias irei a Stone Gables para ver se consigo persuadir seu tio de que você está mudado.

  • É muito gentil de sua parte, milorde. Mas não creio que seja capaz de fazer tio Horace mudar de ideia a meu respeito.

Por menor que fosse a esperança, contudo, Matthew foi dormir mais animado. Estava contente por saber que seu velho amigo gostara de Jés­sica, pois valorizava o julgamento de lorde Ilfracombe.

Mesmo assim, imaginou se o conde estaria certo ao concluir que Jés-sica o considerava velho demais para um pretendente. Lorde Ilfracombe era atraente e distinto, e ela dava todos os sinais de gostar dele. Era fácil dizer que Jéssica era refinada demais para se deixar influenciar por um título, mas qual mulher não apreciaria a ideia de se tornar uma "lady"?

De repente, Matthew se deu conta de que não fazia a menor ideia do tamanho da fortuna de Jéssica. Normalmente, esse era o assunto prefe­rido dos mexeriqueiros. Dizia-se, por exemplo, que a srta. Pearson pos­suía um dote de cinquenta mil libras. Apesar de todos saberem que Jés­sica possuía muito dinheiro, ninguém havia conseguido calcular o valor preciso, talvez por ela ter vindo da região norte.

Matthew suspirou. Só o que sabia era que não podia viver sem Jéssica...

Mas quando ela soubesse da verdade, iria desprezá-lo, e ele a perderia. A única solução era tornar a ser o herdeiro de lorde Horace Stone, mas com certeza seu tio não voltaria atrás. Quando Matthew finalmente ador­meceu, sonhou que estava empurrando Jéssica em um carrinho de mão, no meio da St. James Street. Ela pedia para sair do carrinho, mas ele não conseguia parar, apesar de lorde Stone estar observando a cena, ati­rando punhados de dinheiro para o alto.

Quando Matthew acordou, seu bom humor retornou ao ler a carta que o criado lhe entregou. O sr. Fitzroy desejava consultá-lo a respeito do projeto de uma casa de praia, a ser construída em Sidmouth.

Dispensando o café da manhã, Matthew se encaminhou ao York House Hotel. O sr. Fitzroy lhe explicou o que queria e ele concordou em fazer alguns esboços preliminares.

Apesar de estar ansioso por começar a trabalhar, ele resolveu passar peia Purnp Room. À porta, viu Jéssica conversando com o grupo de sem­pre e aproximou-se.



  • O senhor parece contente — ela o cumprimentou, sorrindo. — Boas notícias?

  • Os Fitzroy querem que eu desenhe uma casa para eles.

  • Oh, mas isso é maravilhoso!

  • Quero dizer, eles desejam que eu lhes dê algumas ideias para uma residência de verão — corrigiu-se Matthew, escrupuloso.

  • E o senhor já tem algumas ideias?

  • Dúzias, todas voando pela minha mente feito borboletas.
    Jéssica riu.

  • Espero que logo capture uma e a ponha no papel.

— É por isso que já estou indo embora. Eu queria ter tempo para so­licitar sua opinião, mas os Fitzroy partirão amanhã e querem ver os de­senhos essa noite. Só passei aqui para lhe contar...

Com os olhos brilhando, Jéssica estendeu-lhe as mãos. Quando ele as tomou, ela disse, carinhosa:



  • Estou feliz pelo senhor, e posso garantir que os Fitzroy apreciarão seu génio e o encarregarão do projeto definitivo da residência.

  • Nesse caso, eu lhe pedirei para desenhar a fachada, srta. Franklm.

  • Será um prazer ajudá-lo — disse Jéssica.

Ao caminhar de volta para North Parade, Matthew sentiu-se nas nu­vens. Não conseguia esquecer as palavras de Jéssica. Ela confiava em sua habilidade e estava pronta a ajudá-lo.

Matthew trabalhou o resto do dia, dispondo os aposentos principais de forma a terem a maior vista possível do mar. A profunda satisfação de criar algo crescia dentro dele enquanto a casa tomava forma. Às seis horas da tarde Matthew estava pronto para apresentar suas ideias aos Fitz­roy, e às sete horas saiu do York House Hotel com o projeto definitivo encomendado.

Enquanto estava parado à entrada do hotel, tentando decidir se seria adequado ir até a casa de Jéssica para lhe contar a novidade, Bob Bar-low apareceu à sua frente.

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