Vítima de sua própria armadilha, ela teria de renunciar ao amor



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— Muito bem. Srta. Franklin, poderia dizer-me como o barão a in­sultou?

— O miserável me beijou, meritíssimo.
Alguém riu alto.

O sr. Perrin convidou o barão a se pronunciar, lançando-lhe um olhar de reprovação.

— O que tem a dizer, milorde?


  • A jovem marcou um encontro comigo — alegou lorde Alsop. —Ela teria aceitado minhas atenções com o maior prazer se o irmão não houvesse chegado.

  • Eu mencionei, por acaso, que pretendia desenhar o Royal Crescent essa manhã — replicou Jéssica, indignada. — Como eu poderia adivinhar que o barão iria considerar tal menção um convite?

O sr. Perrin virou-se para Nathan.

— Parece evidente que o senhor foi provocado. No entanto, usar de violência contra um nobre é uma ofensa que...

O magistrado parou de falar quando uma porta foi aberta às suas costas.

O sr. Pearson entrou no tribunal. Jéssica vislumbrou Lucy na sala ad­jacente. O sr. Pearson aproximou-se do colega joalheiro e lhe disse algo em voz baixa. Depois balançou a cabeça, sorriu para Jéssica e retornou para a sala de onde saíra, fechando a porta.

— Muito bem, sir Nathan, um cavalheiro de muito respeito acaba de testemunhar a seu favor — disse o sr. Perrin. — O senhor pagará dez xelins de multa e está proibido de entrar em brigas por um ano. Quanto ao senhor, lorde Alsop, quarenta xelins de multa e proibição de entrar em brigas por dois anos.

Ao terminar de pronunciar a sentença, o magistrado bateu o martelo duas vezes sobre a mesa.

— Próximo caso — chamou o escrivão, anotando tudo com rapidez e ignorando as imprecações de lorde Alsop.

Jéssica correu para junto de Matthew.

— Que Deus abençoe o sr. Pearson! — disse ela, em voz baixa. — E Lucy também, por ter ido buscar o pai. Será que Nathan continuará a desprezá-lo, depois do que ele acaba de fazer?

— Não sei. No seu lugar, eu não ficaria muito esperançoso — respon­deu ele.

Jéssica olhou para seu irmão, que pagava a multa. No rosto do rapaz havia uma expressão mista de alegria e aborrecimento.

— O senhor está certo. — Ela suspirou. — Preciso falar com Nathan, agora. Obrigada por estar por perto quando precisei de ajuda.

Ela aproximou-se de Nathan. Quando olhou para trás, Matthew ain­da estava parado em meio à multidão, observando-a. Sua expressão ter­na emocionou Jéssica.

A caminho de North Parade, ela agradeceu Nathan por salvá-la do odio­so barão. O rapaz a repreendeu por ter-se metido em uma situação em­baraçosa ao extremo. Depois disso, ambos permaneceram calados.

Quando chegaram em casa, Nathan fez menção de subir direto para o quarto, mas Jéssica o puxou pelo braço até a sala de estar.


  • E então? — perguntou ela.

  • Então o quê?

  • O sr. Pearson o tirou de uma situação embaraçosa.

  • Eu sei. Preciso escrever uma carta de agradecimento a ele. Será di­fícil expressar minha gratidão sem me humilhar...

  • Nathan! Você não pode continuar a desprezá-lo só por ser um comerciante.

O rapaz caminhou até a janela. Apoiou a cabeça contra a vidraça, sus­pirando.

  • Eu amo Lues7, Jess. E o sr. Pearson é um bom homem, eu sei. Mas isso só piora a situação.

  • Piora?

  • Sim. Será que não percebe? Como posso ir procurá-lo e dizer "Amo sua filha e necessito com urgência de dinheiro para não perder Langdale?"

  • Oh, como você pode deixar que o orgulho interfira em seu amor?
    Pense em» como irá magoar Lucy.

  • Jess, quem garante que Lucy acreditará que a amo? Ela irá pensar que eu só a quero por causa do dinheiro, e aí sim ficará magoada.

  • Você a está julgando mal, Nathan. Lucy nunca ligou para seu títu­lo de nobreza ou para sua suposta fortuna. Talvez o sr. Pearson o ponha para fora de casa, mas você precisa ao menos pedir a mão de Lucy em casamento.

  • Não posso! — gritou ele, antes de acrescentar, pesaroso: — É me­ lhor eu voltar para o exército ou então para a América.

  • Você vai ser covarde a ponto de desistir de lutar por seu amor e por Langdale?

  • Não adianta mais tentar salvar Langdale, Jess. Walsingham vai se casar com você, estou certo. Só espero que você não tenha o mau gosto de pedir-lhe que pague o aluguel da propriedade como presente de ca­samento.

— Mesmo que eu quisesse, não poderia fazer isso. Matthew não pos­sui um único pêni.

Tal declaração deixou Nathan chocado.



  • O quê? Deixe de tolices, ele é herdeiro de lorde Stone.

  • Não é mais. Matthew foi deserdado.

  • Você tem certeza? Por que não me contou antes?

  • Achei desnecessário contar a verdade e estragar a amizade que os une.

  • Então Walsingham é um caça-dotes? Não acredito! Como o mise­rável se atreve a cortejá-la? Ah, quando eu puder as mãos nele...

  • Não seja ridículo, Nathan.

O rapaz deixou os ombros caírem.

— Tem razão. Walsingham não é pior que eu — disse, desanimado, batendo a porta ao sair da sala.

"É tudo culpa minha", pensou Jéssica, com os olhos cheios de lágri­mas. Seu plano de arranjar um bom casamento dera errado. Nathan ha­via se tornado sua vítima, e agora estava sofrendo. Ela jurou a si mesma que nunca mais enganaria ninguém.
CAPÍTULO XVIII
Ao deixar Guildhall, Matthew dirigiu-se ao York Hou-b.se Hotel. Lorde Ufracombe estava termi-nando de almoçar.


  • Café? — ofereceu o conde, hospitaleiro.

  • Prefiro uma cerveja, se não se importa. Tive uma manhã extenuante.

  • Então é melhor comer um pouco desse lombo frio. Garçom, traga mais pão, por favor.

Já que dispensara o café da manhã, preocupado como estava em se­guir os passos de Jéssica, Matthew aceitou o oferecimento com prazer. Ele comeu enquanto lorde Ufracombe o observava, bebericando uma xí­cara de café.

Os eficientes garçons do hotel limparam a mesa ao final da refeição e logo se retiraram.



  • Não pretendo ser mal-educado — disse o conde —, mas eu estava de saída quando você chegou. Devo a honra desta visita a algum motivo, em particular?

  • Sim. — Matthew levantou-se e começou a andar de um lado para o outro. — Não posso mais esperar, milorde. Jéssica... Isto é, a srta. Franklin precisa de mim, e Deus sabe o quanto eu a quero. Meu tio não mostra nenhum sinal de estar mudando de ideia a meu respeito?

  • Ele está tentando aprender a viver em paz com Archibald, o que significa que ele procura não encontrar o rapaz fora dos horários de re­feição.

  • Não me diga que tio Horace está feliz por precisar se esconder dentro da própria casa!

  • Não, não está. Se eu fosse você, esperaria mais um pouco, até que Horace comece a sentir a perda de... Bem, não importa... Mas eu acredi­
    to que o tempo pode ajudá-lo, meu rapaz. Se você ficasse noivo de uma jovem de família rica, eu não me surpreenderia se seu tio o perdoasse e voltasse a considerá-lo como herdeiro.

  • Nesse caso Jéssica não precisaria saber da verdade, pelo menos até estarmos casados. O senhor, como um solteiro convicto, na certa não ima­gina como eu desejo que ela se torne minha esposa.

Espantosamente, o conde enrubesceu.

— Quanto a isso, eu... humm... confesso que também andei trapaceando. Minhas visitas a Stone Gables não foram só por sua causa, Mat­thew. Ocorreu-me que a volta do sobrinho pródigo pode ser o remédio do qual Horace precisará quando eu lhe contar que irá perder a irmã. Saiba que persuadi a srta. Stone a casar-se comigo, meu rapaz.



  • Tia Caroline? Meu Deus, é verdade? O senhor a ama?

  • Sim, pena eu ter demorado tanto para descobrir isso — murmurou lorde Ufracombe.

  • Então não desperdice mais tempo, milorde. O senhor conversará com meu tio ainda hoje?

  • É esta minha intenção. Vou até lá assim que me livrar de você.

  • Esplêndido. — Matthew riu. — Vou convidar Jéssica para um pas­seio no campo e nós o seguiremos. — Ele apertou a mão do conde. —Meus parabéns, milorde. Ninguém é tão merecedor do amor de tia Caro­line quanto o senhor.

A alegria de Matthew durou apenas até ele entrar no cabriole e dirigir-se a North Parade. Foi nesse momento que percebeu que nada havia mu­dado. Nada garantia que lorde Stone desejaria sua volta a Stone Gables depois do casamento de Caroline. Nada garantia que ele perdoaria o so­brinho só por vê-lo noivo de uma rica herdeira.

Se Matthew confessasse a verdade a Jéssica antes de fazer a proposta de casamento, ela o recusaria. Se isso acontecesse, voltar a ser herdeiro de lorde Stone não teria mais importância. Mas se ele não confessasse a verdade e o tio continuasse se recusando a readmiti-lo como herdeiro, estaria metido em uma bela encrenca.

Ele não havia chegado a decisão alguma quando alcançou a residên­cia dos Franklin. Jéssica e a srta. Tibbet encontravam-se na sala de es­tar; de Nathan não havia nem sinal.


  • Com sua permissão, madame eu gostaria de levar a srta. Franklin para conhecer Stone Gables — pediu Matthew à srta. Tibbet. — A mansão fica a cerca de vinte e cinco quilómetros daqui, de forma que passa­remos a tarde inteira fora.

  • Não vejo razão para impedir que Jéssica aceite seu convite — afir­mou a srta. Tibbet. — Contanto, é claro, que seu cavalariço os acompanhe.

Feliz com a ideia de passar a tarde toda com Matthew, Jéssica foi tro­car de roupa para o passeio. Desceu do quarto usando um vestido marrom-avermelhado que lhe realçava o tom claro da pele e dos cabelos. Ela sor­riu para Matthew, que sentiu o coração transbordar de felicidade.

No entanto, ele estava longe de sentir-se feliz ao ajudá-la a subir no cabriole. Como podia pensar em pedir a mão de Jéssica em casamento com o cavalariço a acompanhá-los?

Da janela de seu quarto, Nathan observou o cabriole afastar-se. Sentia-se culpado. Seu maldito orgulho estava ferindo tanto Jéssica como Lucy, além dele mesmo.

Quando pensava em Lucy, tudo que queria era abraçá-la com ternura e protegê-la contra o mundo. No entanto, ele próprio a estava magoando.

Não suportava mais tal situação. Tomando uma resolução, pegou cha­péu e luvas e saiu de casa, rumo à parte alta da cidade. Se o sr. Pearson o mandasse embora depois de ter ouvido sua história, ao menos Lucy saberia que ele a amava e chegara a pedir sua mão em casamento.

Ao chegar à casa dos Pearson, tocou a sineta. O mordomo altivo abriu a porta.



  • Eu gostaria de ter uma conversa particular com o sr. Pearson —disse Nathan.

  • Vou verificar se o sr. Pearson está em casa, senhor — respondeu o mordomo.

Pouco depois, o cavalheiro que Nathan havia visto no Guildhall apa­receu para recebê-lo.

— Bom dia, sir Nathan.

O aperto de mão do sr. Pearson foi caloroso e firme, e seu olhar era amigável, mas é claro que ele mudaria de atitude após ouvir o que Na­than tinha a dizer.

— Vamos ao meu escritório — convidou o sr. Pearson, mostrando o caminho — Apesar de aposentado, não consigo ficar sem fazer nada.


Gosto de continuar ligado ao mundo dos negócios.

Como Jéssica dissera, o sr. Pearson parecia um homem de bem. Qual­quer tentativa de imitar o refinamento de um membro da nobreza teria feito Nathan recuar, mas o rapaz não viu motivo algum para criticar o comerciante. As roupas do sr. Pearson eram de boa qualidade, sem esta­rem na última moda. Ele tinha uma aparência sóbria e respeitável.

— Sente-se — convidou o sr. Pearson, indicando uma poltrona de cou­ro a Nathan.

O mordomo trouxe uma bandeja com uma garrafa de brandy e dois copos. Nathan aceitou um cálice da bebida, mas logo depositou-o sobre a mesinha de centro, intocado.

— E então, meu rapaz? O que o trouxe aqui? — indagou o sr. Pear­son quando o mordomo saiu.

Havia algo de muito confortador em ser chamado de "meu rapaz". Nathan deu-se conta, de repente, de como sentia falta do pai. Desejou poder conquistar o afeto e a aprovação do sr. Pearson.



Tentando adiar a trágica confissão, disse com voz sufocada:

  • Obrigado, senhor, por ter testemunhado a meu favor na corte do magistrado, hoje de manhã.

  • Ora, não precisa agradecer. Aquele cavalheiro poderia muito bem estar molestando Lucy, e estou certo de que o senhor teria reagido da mesma forma. Minha filha já comentou várias vezes que o senhor sempre a protege do barão. Só espero que o desagradável incidente não te­nha perturbado demais a srta. Franklin.

  • Oh, não, Jéssica sabe se cuidar. Ela já havia golpeado lorde Alsop no nariz, quando eu cheguei.

  • Lucy me contou. Eu teria falado com Jack Perrin antes, se não estivesse apreciando a interferência de sua irmã na discussão. Ela chamou o barão de "miserável"! — O sr. Pearson riu. — Uma moça corajosa, a srta. Franklin.

  • Jéssica é a melhor irmã que um rapaz poderia ter — disse Nathan, aproveitando a deixa —, mas procuro por um tipo diferente de mulher.
    Eu... gostaria de me casar com sua filha, senhor.

  • Muito bem. — Os olhos do sr. Pearson brilharam. — Não vou ne­gar que já esperava ouvir isso.

  • Mas preciso lhe contar uma coisa, antes de pedir permissão para cortejá-la — acrescentou o rapaz, embaraçado. — Imagino que a srta. Pearson lhe tenha falado sobre Langdale.

  • Sim. Não que jamais tenha passado pela cabeça de minha filha, quanto mais pelo coração, fazer considerações sobre suas condições fi­nanceiras. Mas o senhor é conhecido em Bath como um proprietário de terras afortunado.

Nathan torceu as mãos, nervoso.

  • Este é o problema, senhor. Os Franklin administram Langdale há séculos. Contudo, a propriedade nunca nos pertenceu. É época de renovar o contrato de aluguel e eu não posso pagar o valor que está sendo pedido. — Ele olhou para o pai de Lucy, que permanecia impassível. —Irei embora agora mesmo, se este for o seu desejo, mas primeiro gostaria de lhe dizer que amo Lucy de verdade, quer o senhor acredite ou não.

  • Oh, mas eu acredito. Se o senhor não a amasse, duvido que tivesse vindo me contar a verdade agora, já que depois que Lucy aceitasse seu pedido eu não conseguiria fazê-la mudar de ideia.

  • O senhor acha? — O coração de Nathan bateu mais forte. — Mas eu não possuo dinheiro suficiente para sustentar uma família com conforto.

  • Fico contente que senhor seja corajoso o bastante para me confiar seus problemas. Imagino que deve ser difícil confessar que se andou ten­tando enganar alguém cuja boa opinião é preciso conquistar.

  • Tentando... enganar? Mas o senhor... Jéssica me disse...

  • Sua irmã lhe disse que eu o aceitaria de bom grado como genro?
    Sim, é verdade. Mas se o senhor viesse pedir a mão de minha filha sem confessar ser um caça-dotes, eu o mandaria embora e diria que a srta. Franklin havia entendido tudo errado.

  • Então o senhor já sabia! — exclamou Nathan, perplexo.

  • Bem, posso não entender nada de criação de carneiros ou de ad­ministração de terras, mas fui um bom comerciante e posso lhe garantir que não sou nenhum tolo. No instante em que o senhor pôs os olhos em Lucy eu mandei um homem para o norte. Pedi a ele que descobrisse o que fosse possível sobre sir Nathan Franklin, baronete, e posso lhe di­zer que as informações que recebi não me deixaram feliz.

  • Quem poderia culpá-lo por isso? — Nathan comentou, melancólico.

  • Foi então sua irmã devolveu o bracelete que eu mandei para ela de presente. A srta. Franklin foi muito educada, mas firme. A jóia valia um bom dinheiro, e isso me fez pensar.

  • A srta. Pearson está a par da minha situação?

  • Não. Deixarei que o senhor mesmo conte tudo a Lucy.

— Prometo que contarei. — Nathan hesitou. — O senhor quer dizer que não se opõe a me ter como genro?

  • Meu rapaz, devo admitir que ficarei furioso se o senhor não se ca­sar com minha filha, depois de todo o trabalho que eu tive.

  • Trabalho?

  • Aquele homem, Scunthwaite, é um osso duro de roer. E o fato de eu não entender de criação de carneiros não facilitou as coisas.

  • Scunthwaite? Por Deus, ele é o dono de Langdale! O senhor pagou o aluguel da propriedade?

  • Não, eu comprei Langdale. A escritura da propriedade será o pre­sente de batizado do meu primeiro neto.

  • Nem sei o que dizer, senhor. — Nathan trocou um forte aperto de mão com o futuro sogro. — A não ser, é claro, que farei Lucy muito feliz.

  • É isso que importa para mim, meu rapaz. Agora vá contar a a no­vidade a Lucy. Ela está na sala em frente.

Nathan obedeceu na mesma hora. Quando abriu a porta da sala de estar viu Lucy sentada em uma poltrona perto da janela. A jovem pare­cia triste.

— Lucy? — chamou Nathan.

Ela pôs-se de pé e correu para os braços dele. Nenhum dos dois ouviu a sra. Woodcock pigarrear.

— Trocarem beijos antes de estarem formalmente noivos! — resmungou a dama, escandalizada, quando o sr. Pearson, sorridente, a tirou da sala.


CAPÍTULO XIX

A tarde estava perfeita para um passeio. Uma brisa fresca havia dissipado o calor da manhã.



  • Para onde vamos? — perguntou Jéssica, quando Matthew saiu de Bath pela estrada sudoeste.

  • Eu quero... isto é, espero poder lhe mostrar Stone Gables.

  • A casa de seu tio?

  • Sim.

— Eu adoraria conhecê-la — disse ela, disfarçando o espanto.
Estaria enganada, afinal? Será que cometera um erro ao acreditar na história contada por Tad? Com certeza Matthew não a levaria para co­nhecer lorde Stone se houvesse brigado com ele definitivamente.

Enquanto Jéssica tentava descobrir uma maneira delicada de encon­trar resposta para suas dúvidas, tarefa dificultada pela presença do cava­lariço que ouvia cada palavra trocada, Matthew mudou de assunto. Ele comentou que a estrada que percorriam fora projetada por Ralph Allen para transportar pedras até Bath, que estava sendo construída. Acres­centou:

— O dignitário John Wood estava desenhando e construindo Queen Square, Parades e Circus naquela época, oitenta anos atrás. Allen fez fortuna com a venda das pedras e pediu a Wood que desenhasse Prior Park para ele. Você verá Prior dentro de alguns minutos, depois de passarmos
por aquelas árvores.

Jéssica ficou impressionada com a construção. Erguida no topo de um morro, com uma esplêndida vista sobre Bath, Prior Park era uma man­são enorme, com colunas na fachada.

— É o sonho de todo arquiteto, não é mesmo? — indagou Matthew.

Eles continuaram conversando sobre arquitetura durante os quilóme­tros seguintes, mas Matthew parecia cada vez mais tenso. Ele calou-se, por fim, concentrando-se no caminho estreito e sinuoso. Os campos que ladeavam a estradinha estava repleto de flores encantadoras, mas Jéssica não conseguia apreciar a beleza da paisagem; estava preocupada demais.

A tensão que tomara conta de Matthew só podia significar uma coisa: ele fora mesmo deserdado pelo tio, e pretendia mostrar-lhe Stone Gables da mesma forma como mostrara Prior Park. Ou então havia descoberto que lorde Stone não estaria em casa... Ele a apresentaria à srta. Caroline Stone e depois, tendo lhe mostrado a mansão, pediria sua mão em ca­samento.

Será que Matthew iria confessar que a havia iludido? E se não o fizes­se? Como ela revelaria que também contara muitas mentiras? Por quê, afinal, tivera essa ideia maluca de ir a Bath procurar um marido rico?

O cabriole logo parou diante de um portão pintado de branco.

Hanson, o cavalariço, desceu para abrir o portão.



  • Você fará o resto do caminho a pé — disse Matthew ao criado, se­gurando as rédeas dos cavalos.

  • Está bem, senhor — respondeu Hanson. — A distância não chega a dois quilómetros, mesmo.

  • A senhorita não se importa, não é mesmo? — perguntou Matthew.
    — Já estamos nas terras de meu tio. Acho que nem a srta. Tibbet pode­ ria reclamar da minha atitude.

  • Não posso falar por ela, mas eu não me importo — disse Jéssica, com certa precaução.

Eles seguiram caminho à sombra das árvores. A propriedade era bem cuidada, os tocos recém-cortados mostravam que as árvores velhas eram podadas com frequência. Nos campos, cavalos pastavam, tranquilos. O canto dos pássaros enchia o ar.

Jéssica olhou para Matthew, que assumira uma expressão indeci­frável.

Eles alcançaram o topo de um morro e se detiveram. No topo do mor­ro seguinte via-se Stone Gables.


  • Veja o que acontece quando meia dúzia de arquitetos, no decorrer
    de três séculos, põe as mãos em uma casa — comentou Matthew. — O projeto original da mansão é Tudor, mas cada visconde Stone que morou nela desde então deu sua contribuição particular à construção, em estilos diferentes.

  • Eu gosto assim mesmo — assegurou Jéssica. — Stone Gables pode não ser grandiosa como Prior Park, mas parece mais confortável. Pelo menos os arquitetos todos se preocuparam em não quebrar a harmonia do conjunto.

  • Eu também gosto — admitiu Matthew. — Pensei que a mansão seria minha um dia, mas... Srta. Franklin, não posso mais continuar a enganá-la. Eu ia herdar tudo que meu tio possui, mas ele me deserdou antes de nós dois nos conhecermos. Não passo de um caça-dotes.

  • Eu sei — murmurou Jéssica.

  • A senhorita sabe? — Ele fitou-a, esperançoso. — E ainda assim...

Espere. — Pega de surpresa, ela não sabia direito como fazer sua confissão. — Eu... Eu também não sou rica, sr. Walsingham. Os Franklin nunca foram donos de Langdale, e Nathan e eu não temos condições de renovar o aluguel da propriedade. Quando os carneiros que criamos forem vendidos, terei um pequeno dote, é só.

Desolada, Jéssica enxugou com a ponta dos dedos as lágrimas que lhe embaçavam a visão.

Matthew soltou as rédeas e a tomou nos braços.


  • Não chore, Jess. — Sua voz era terna. — Podemos nos casar, mesmo assim. Meu pai me deixou uma pequena renda anual de herança, podemos viver com esse dinheiro. Jéssica, minha querida, não chore. Eu te amo. Nada mais importa, além disso.

  • Você está falando sério, Matthew?

  • Sim, creio que te amo desde o dia em que a vi olhando para mim em North Parade.

As lágrimas secaram e Jéssica percebeu que ele brincava para ale­grá-la.

  • Querido, pensei que você tivesse me achado ousada, imperti­nente.

  • Mas eu achei, sim.

Não era hora de contradizê-lo; Jéssica preferiu dar-lhe um beijo tímido.

Os cavalos começaram a ficar impacientes. Jéssica afastou-se de Mat­thew, com as faces rosadas, e recolocou o chapéu, que caíra durante o beijo. Matthew acalmou os animais, antes de indagar:



  • Você vai se casar comigo, não vai? Sei que não fiz o pedido da ma­neira correta, mas é difícil ajoelhar-se dentro de um cabriole.

  • É claro que vou. Pensa que eu dispensaria a chance de me casar com um arquiteto famoso?

  • Com sua ajuda, minha querida artista, eu conseguirei ser famoso — prometeu ele, beijando-a outra vez. — Agora é melhor seguirmos em frente, antes que Hanson nos alcance e nos pegue em situação embara­çosa. Mas primeiro deixe-me arrumar seu chapéu, que está torto.

Pela segunda vez naquele dia Matthew ajeitou os cabelos e o chapéu de Jéssica, mas agora aproveitou a chance para fazer-lhe alguns carinhos.

Com as faces mais rosadas que nunca, Jéssica amarrou a fita do cha­péu sob o queixo enquanto Matthew fazia os cavalos andarem.



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