Introdução a Psicologia do Ser


Apêndice A Serão as Nossas Publicações e Convenções Adequadas às Psicologias Pessoais?1



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Apêndice A
Serão as Nossas Publicações e Convenções Adequadas às Psicologias Pessoais?1
algumas semanas, tive subitamente o vislumbre de como poderia integrar alguns aspectos da teoria gestaltista com a minha Psicologia da Saúde e Crescimento. Um após outro, os problemas que me haviam atormentado durante anos resolveram-se todos. Era um caso típico de experiência culminante, algo mais extensa do que a maio­ria delas. Depois de passar o grosso da tempestade, os seus ecos ribombantes ainda continuaram por alguns dias, à medida que uma implicação após outra das introvisões originais me acudia ao espírito. Como tenho o hábito de confiar ao papel os meus pensamentos, tenho tudo isso reduzido a escrito. A minha tentação foi, então, jogar fora a memória um tanto pedagógica que estava prepa­rando para esta reunião. Ai estava uma experiência culmi­nante, viva e concreta, colhida em pleno desenvolvimento, e que ilustrava excelentemente (“em cor”) os vários pontos que eu pretendia examinar sobre a aguda ou pungente “experiência de identidade”.

Entretanto, porque era tão íntima e tão pouco con­vencional, vi-me extremamente relutante em ler em voz [pág. 251] alta e em público uma descrição dessa experiência e não o vou fazer.

Contudo, a auto-análise dessa relutância fez-me ciente de algumas coisas sobre as quais quero falar. A compreen­são de que esse tipo de memória não se “ajusta” a uma publicação ou apresentação em conferências ou conven­ções levou-me a formular esta pergunta: “Por que é que não se ajusta?” O que é que se passa com os encontros intelectuais e os jornais científicos que torna certas es­pécies de verdade pessoal e certos estilos de expressão “ina­dequados” ou impróprios?

A resposta a que tenho de chegar é muito apropriada para discussão aqui. Nesta reunião, estamos tateando o caminho para o fenomenológico, o experiencial, o exis­tencial, o idiográfico, o inconsciente, o privado, o profun­damente pessoal; mas ficou claro, para mim, que estamos tentando fazê-lo numa atmosfera ou moldura intelectual herdada, que é inteiramente inadequada e fria, a que poderíamos chamar até proibitiva.

As nossas revistas, livros e conferências são, primor­dialmente, adequados à comunicação e debate do racional, do abstrato, do lógico, do público, do impessoal, do nomotético, do repetível, do objetivo e não-emocional. Por con­seguinte, pressupõem justamente aquelas coisas que nós, “psicólogos personalistas”, estamos procurando mudar. Por outras palavras, incorrem em petição de princípio. Um resultado é que, como terapeutas ou observadores-do-eu, ainda somos forçados pelo costume acadêmico a falar sobre as nossas próprias experiências ou as dos nossos pacientes mais ou menos da mesma maneira que falaría­mos sobre bactérias, ou sobre a Lua, ou sobre ratos bran­cos, pressupondo a divisão sujeito-objeto, pressupondo que estamos desprendidos, distantes e não-envolvidos, pressu­pondo que nós (e os objetos da percepção) não somos afetados nem alterados pelo ato de observação, pressu­pondo que podemos separar o “Eu” do “Tu”, pressupondo que todas as observações, pensamentos, expressões e co­municações devem ser sempre frios e jamais calorosos, enfim, pressupondo que a cognição só pode ser contami­nada ou destorcida pela emoção etc.

Numa palavra, insistimos em tentar usar os cânones e modos tradicionais da ciência impessoal em nossa ciência [pág. 252] pessoal, mas estou convencido de que isso não fun­cionará. Também é óbvio, quanto a mim, que a revolução científica que alguns de nós estamos agora cozinhando (na medida em que construímos uma Filosofia da Ciência suficientemente ampla para incluir o conhecimento experiencial) deverá ampliar-se também aos modos tradi­cionais da comunicação intelectual (262).

Devemos tornar explícito aquilo que todos nós acei­tamos implicitamente, que o nosso gênero de trabalho é, com freqüência, profundamente sentido e promana de bases pessoais profundas; que nos fundimos, por vezes, com os objetos de estudo, em vez de nos separarmos deles; que estamos quase sempre profundamente envolvidos e que devemos estar, se não quisermos que o nosso trabalho seja uma fraude. Também devemos aceitar honestamente e expressar francamente a profunda verdade de que a maior parte do nosso trabalho “objetivo” é, simultaneamente, subjetiva; que o nosso mundo exterior é, freqüentemente, isomórfico com o nosso mundo interior; que os problemas “externos” com que lidamos “cientificamente” também são, amiúde, os nossos próprios problemas internos; e que as nossas soluções para esses problemas também são, em princípio, autoterapias, em sua mais ampla acepção.

Isso é mais agudamente verdadeiro para nós, os cien­tistas personalistas; mas, em princípio, também é verdade para todos os cientistas impessoais. A busca de ordem, lei, controle, previsibilidade, inteligibilidade nos astros e nas plantas, é freqüentemente isomórfica com a busca de lei, controle etc. internos. A ciência impessoal pode, por vezes, ser uma fuga ou uma defesa contra a desordem e o caos internos, contra o medo de perda de controle. Ou, em termos mais genéricos, a ciência impessoal pode ser (e, verifiquei, é com bastante freqüência) uma fuga ou defesa contra o pessoal dentro de nós próprios e dentro de outros seres humanos, uma aversão ao impulso e à emoção, até, por vezes, uma repulsa pela condição humana ou um medo dela.

Obviamente, é insensato tentar realizar o trabalho da ciência pessoal numa estrutura que se baseia na pró­pria negação do que estamos descobrindo. Não podemos avançar para o conhecimento experiencial usando apenas o instrumento da abstração. Analogamente, a separação sujeito-objeto desencoraja a fusão. A dicotomização proíbe [pág. 253] a integração. Respeitar o racional, o verbal e o lógico como a única linguagem da verdade inibe-nos em nosso estudo necessário do não-racional, do poético, do mítico, do vago, do processo primário, do onírico.1 Os métodos clássicos, impessoais e objetivos que funcionaram tão bem para al­guns problemas não funcionam bem com esses mais re­centes problemas científicos.

Devemos ajudar os psicólogos “científicos” a enten­der que estão trabalhando na base de uma Filosofia da Ciência, não a Filosofia da Ciência, e que qualquer Filo­sofia da Ciência que sirva, primordialmente, a uma função de exclusão é apenas uma série de cortinas que servem mais para ocultar do que para revelar, é mais um obstá­culo do que uma ajuda. Todo o mundo, toda a experiência, devem estar abertos ao estudo. Nada, nem mesmo os pro­blemas “pessoais”, precisa estar vedado à investigação humana. Caso contrário, colocar-nos-emos, forçosamente, na posição idiota em que alguns sindicatos se imobiliza­ram; em que unicamente os carpinteiros podem tocar em madeira e os carpinteiros podem tocar unicamente em madeira, para não mencionar também o fato de que, se os carpinteiros tocam em algo, é ipso facto madeira, por assim dizer, madeira honorária. Os novos materiais e os novos métodos devem, portanto, ser irritantes e até amea­çadores, devem representar catástrofes e não oportunida­des. Também quero lembrar as tribos primitivas que têm de colocar todo o mundo num sistema de parentesco. Se aparece um forasteiro que não pode ser colocado, não há maneira alguma de resolver o problema, exceto matando o recém-chegado.

Sei que estes comentários podem, facilmente, ser mal interpretados como um ataque à ciência. Não são. Pelo contrário, estou sugerindo que ampliemos a jurisdição da ciência de modo a incluir em seus domínios os problemas e os dados da Psicologia pessoal e experiencial. Muitos cientistas abdicaram desses problemas, considerando-os [pág. 254] “não-científicos”. Entretanto, endossá-los aos não-cientistas apenas fortalece e apóia aquela separação do mundo da ciência e do mundo das “humanidades” que atualmente interioriza ambos.

Quanto às novas espécies de comunicação, é difícil conjeturar exatamente o que deve acontecer. Certamente, devemos ter mais do que já encontramos, ocasionalmente, na literatura psicanalítica, a saber, a discussão da trans­ferência e da contratransferência. Devemos aceitar mais estudos idiográficos para as nossas revistas, tanto biográficos como autobiográficos. Há muito tempo, John Dollard prefaciou o seu livro sobre o Sul com uma análise dos seus próprios preconceitos; também devemos aprender a fazer isso. Certamente deveríamos ter mais relatos e in­formações sobre as lições aprendidas na psicoterapia pelas próprias pessoas “tratadas”, mais auto-analise como On Not Being Able to Paint, de Marion Milner, mais casos como os historiados por Eugenia Hanfmann, mais relató­rios verbatim de toda a espécie de contatos interpessoais.

O mais difícil de tudo, porém, a ajuizar pelas minhas próprias inibições, será a abertura gradual das nossas re­vistas e jornais a artigos e ensaios escritos em estilo rap-sódico, poético ou de livre associação. A comunicação de alguns gêneros de verdade é melhor realizada dessa ma­neira, por exemplo, qualquer das experiências culminantes. Não obstante, isso vai ser duro para todos. Compiladores mais astutos seriam necessários para a terrível tarefa de separar o cientificamente útil da grande inundação de tolices que certamente ocorreria logo que essa porta fosse aberta. Tudo o que posso sugerir é uma prova cautelosa. [pág. 255]


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