Introdução a Psicologia do Ser


A Necessidade de Saber e o Medo do Conhecimento



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A Necessidade de Saber e o Medo do Conhecimento
O Medo do Conhecimento: Evasão do Conhecimento:

Dores e Perigos de Saber

Do nosso ponto de vista, a maior descoberta de Freud foi que a grande causa de muita doença psicológica é o medo de conhecermo-nos a nós próprios — as nossas emo­ções, impulsos, recordações, capacidades, potencialidades, o nosso próprio destino. Descobrimos que o meio do co­nhecimento de nós próprios é, muito freqüentemente, isomórfico e paralelo ao medo do mundo exterior. Isto é, os problemas internos e os problemas externos tendem a ser profundamente semelhantes e a correlacionar-se entre si. Portanto, falamos simplesmente no medo de saber, em geral, sem discriminar com excessiva clareza o medo-do-íntimo do medo-do-exterior.

Em geral, essa espécie de medo é defensiva, no sentido de que constitui uma proteção de nossa auto-estima, de nosso amor e respeito por nós próprios. Somos propensos a temer qualquer conhecimento que possa causar o des­prezo por nós próprios, ou fazer sentirmo-nos inferiores, fracos, inúteis, maus, indignos. Protegemo-nos e à ima­gem ideal que temos de nós próprios pela repressão e outras defesas semelhantes, as quais são, essencialmente, técnicas pelas quais evitamos ficar cônscios de verdades perigosas ou desagradáveis. E, em psicoterapia, às mano­bras pelas quais continuamos evitando essa conscientização [pág. 87] da verdade dolorosa, às formas pelas quais combatemos os esforços do terapeuta para ajudar-nos a ver a verdade, damos o nome de “resistências”. Todas as técnicas do te­rapeuta são, de uma forma ou de outra, reveladoras da verdade ou são estratégias para fortalecer o paciente, de modo que ele possa suportar a verdade. (“Ser completa­mente honesto consigo próprio é o melhor esforço que um ser humano pode realizar.” S. Freud.)

Mas há outra espécie de verdade que somos propensos a evitar. Não só nos apegamos à nossa psicopatologia, mas também tendemos a esquivar-nos ao desenvolvimento pessoal, porque este também pode acarretar outra espécie de medo, de temor, de sentimentos de fraqueza e inade­quação (31). E, assim, descobrimos outro gênero de re­sistência, uma negação do nosso lado melhor, dos nossos talentos, dos nossos mais delicados impulsos, das nossas mais altas potencialidades, da nossa criatividade. Em re­sumo, isso é a luta contra a nossa própria grandeza, o medo de hubris.

Neste ponto, lembramo-nos de que o nosso próprio mito de Adão e Eva, com a sua perigosa Árvore do Saber que não deve ser tocada, tem paralelo em muitas outras culturas que também crêem que o saber fundamental é algo reservado aos deuses. A maioria das religiões tem tido um veio de antiintelectualismo (a par de outros veios; é claro), certos traços de preferência pela fé ou crença ou pietismo, em lugar do conhecimento racional; ou o pressentimento de que algumas formas de conhecimento são demasiado perigosas e é melhor proibi-las ou reser­vá-las para um número restrito de pessoas especiais. Na maioria das culturas, aqueles revolucionários que desafia­ram os deuses, ao pretenderem devassar os seus segredos, foram severamente punidos, como Adão e Eva, Prometeu e Édipo, e passaram a ser lembrados como advertências a todos os outros, para que não tentem igualar-se aos deuses.

E, se posso dizê-lo de uma forma muito condensada, é precisamente a respeito do divino em nós próprios que somos ambivalentes, ora fascinados, ora temerosos, tanto motivados “para” como defensivos “contra”. Este é um aspecto do predicamento humano básico: somos, simul­taneamente, vermes e deuses (178). Cada um dos nossos grandes criadores, a nossa gente semelhante a deuses, deu [pág. 88] testemunho do elemento de coragem que é necessário no momento solitário da criação, ao afirmar-se algo de novo (em contradição com o antigo). Isso é um tipo de audá­cia, de sair sozinho na frente de todos, de desafio e repto. O momento de temor é muito compreensível, mas, não obstante, deve ser superado, se queremos que a criação seja possível. Assim, descobrirmos em nós próprios um grande talento pode, certamente, provocar sentimentos exultantes, mas também um medo dos perigos e responsabilidades e deveres que concorrem no fato de ser um líder, um pioneiro e estar completamente só. A responsabilidade poderá ser encarada como um pesado fardo e evitada, tanto quanto possível. Pense-se no misto de sentimentos de temor, humildade e até de medo que nos têm sido relatados, digamos, por pessoas que foram eleitas Presi­dentes.

Alguns exemplos clínicos típicos podem nos ensinar muito. Primeiro, temos o fenômeno bastante comum en­contrado na terapia com mulheres (131). Muitas mulhe­res brilhantes são colhidas no problema de fazer uma identificação inconsciente entre inteligência e masculinidade. Sondar, pesquisar, investigar, ser curiosa, afirmar, descobrir, tudo isso pode ser sentido pela mulher como desfeminizante, sobretudo se o marido, em sua masculinidade incerta, for ameaçado por tudo isso. Muitas cultu­ras e muitas religiões impediram as mulheres de saber e de estudar, e creio que uma raiz dinâmica dessa ação é o desejo de mantê-las “femininas” (num sentido sadomasoquista), por exemplo, as mulheres não podem ser padres nem rabinos (103).

O homem tímido também pode ser propenso a iden­tificar a curiosidade penetrante como algo que desafia os outros, como se, de algum modo, ao ser inteligente e pro­curar a verdade, estivesse sendo categórico, afoito e viril de um modo que não lhe permite recuar; e que tal postura fará recair sobre ele a ira de outros homens mais velhos e mais fortes. Assim, também muitas crianças identificam a sondagem curiosa como uma invasão das prerrogativas de seus deuses, os adultos todo-poderosos. E, naturalmen­te, é ainda mais fácil encontrar a atitude complementar em adultos. Pois, com freqüência, eles acham a incansá­vel curiosidade de seus filhos, pelo menos, uma amolação e, por vezes, uma ameaça e um perigo, especialmente [pág. 89] quando essa curiosidade envolve questões sexuais. Ainda é invulgar o pai que aprova e sente prazer na curiosidade de seus filhos pequenos. Algo semelhante pode ser obser­vado entre as minorias exploradas, oprimidas e fracas ou entre escravos. Os indivíduos pertencentes a essas cate­gorias podem recear saber demais, investigar livremente. Isso poderia provocar a ira de seus senhores. Uma atitude defensiva de pseudo-estupidez é comum em tais grupos. Em qualquer caso, não é provável que o explorador ou o tirano, por força da dinâmica da situação, encoraje a curiosidade, a aprendizagem e o saber em seus súditos. As pessoas que sabem demais são atreitas à rebelião. Tanto o explorado como o explorador são impelidos a considerar o saber como algo incompatível com um bom escravo, obediente e bem ajustado. Numa tal situação, o conhecimento ê perigoso, muito perigoso. Um status de fraqueza ou subordinação, ou de pouca auto-estima, inibe a necessidade de saber. Um olhar fixo, direto e desinibido é a principal técnica que um macaco emprega para esta­belecer a sua soberania e domínio (103). Caracteristicamente, o animal subordinado baixa os olhos.

Essa dinâmica pode ser observada, por vezes, até numa sala de aula, infelizmente. O estudante realmente bri­lhante, o que é fértil em formular perguntas coerentes e profundas, especialmente se for mais inteligente que o seu professor, é muitas vezes tido na conta de “sabido”, uma ameaça à disciplina, um desafiante da autoridade dos seus professores.

Que o “saber” pode significar, inconscientemente, do­minação, controle e, talvez, até desacato, pode ser também observado no caso do escotofílico, aquele que é capaz de experimentar uma certa sensação do poder sobre o corpo da mulher nua que ele espreita, como se os seus olhos fossem um instrumento de dominação que ele pode usar para violação. Nesse sentido, muitos homens são bisbilho­teiros e olham descaradamente as mulheres, como se esti­vessem despindo-as com os olhos. O uso bíblico da palavra “saber” em sentido idêntico ao de “saber” sexual é outro uso da metáfora.

Num nível inconsciente, saber como uma espécie de equivalente sexual masculino, intrusivo e penetrante, pode ajudar-nos a compreender o complexo arcaico de emoções [pág. 90] conflitantes que se aglomeram em torno da conduta infan­til de espreitar segredos, bisbilhotar no desconhecido; do pressentimento de algumas mulheres de que existe uma contradição entre a feminilidade e o conhecimento ousado e saliente; do sentimento do oprimido de que o saber é prerrogativa do senhor; do medo do homem religioso de que o saber infrinja a jurisdição dos deuses, seja perigoso e provoque a ira divina. O conhecimento, como “saber”, pode ser um ato de auto-afirmação.


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