Parte III
CRESCIMENTO E
COGNIÇÃO
6
Cognição do Ser em Experiências Culminantes
As conclusões deste capítulo e do seguinte constituem uma primeira organização ou “montagem fotográfica”, impressionista, ideal, de entrevistas pessoais com cerca de 80 indivíduos e de respostas escritas por 190 estudantes universitários, de acordo com as seguintes instruções:
Gostaria que você pensasse na experiência ou experiências mais maravilhosas de sua vida: momentos de suprema felicidade, momentos de êxtase ou de arrebata-mento, talvez decorrentes de estar apaixonado, ou de escutar uma determinada música, ou de ser subitamente “atingido” pela mensagem de um livro ou de uma pintura, ou de algum grande momento criador. Primeiro, redija uma lista. Depois, tente explicar-me como se sente nesses momentos de extrema intensidade, como se sente diferente do seu modo de sentir em outras alturas, como é, em certos aspectos, uma pessoa diferente nesse momento. [Com outros sujeitos, o questionário pedia uma explicação sobre os aspectos em que o mundo parecia diferente.]
Nenhum sujeito descreveu a síndrome completa. Juntei todas as respostas parciais para obter uma “perfeita” síndrome composta. Além disso, cerca de 50 pessoas escreveram-me cartas não-solicitadas, depois de lerem os meus trabalhos anteriormente publicados, fornecendo-me depoimentos pessoais de experiências culminantes. Finalmente, pesquisei a imensa literatura sobre misticismo, religião, arte, criatividade, amor etc. [pág. 99]
As pessoas que lograram sua individuação, aquelas que atingiram um alto nível de maturação, saúde e realização pessoal, têm tanto a ensinar-nos que, por vezes, parecem quase ser uma estirpe ou raça diferente de seres humanos. Mas, porque é tão recente, a tarefa de exploração das regiões mais elevadas da natureza humana e de suas possibilidades e aspirações últimas é difícil e tortuosa. Quanto a mim, envolveu a contínua destruição de axiomas longamente acalentados, a perpétua luta com aparentes paradoxos, contradições e indefinições, e o ocasional desmoronamento, perto de meus ouvidos, de leis da Psicologia há muito estabelecidas, aparentemente inexpugnáveis e em que firmemente acreditava. Com freqüência, resultou que não eram leis, mas apenas regras para viver num estado de psicopatologia benigna e crônica, de temor, de enfezamento, deficiência e imaturidade, de que não nos apercebemos porque a maioria dos outros tem a mesma doença que nós.
Com a maior freqüência, como é típico na história da teorização científica, essa sondagem do desconhecido assume, primeiro, a forma de uma sincera insatisfação, um constrangimento sobre o que está faltando há muito, antes de qualquer solução científica se tornar acessível. Por exemplo, um dos primeiros problemas que se me apresentou em meus estudos de pessoas produtivas, as dotadas de alto nível de individuação e de realização pessoal, foi a vaga percepção de que a vida motivacional dessas pessoas era, em alguns importantes aspectos, diferente de tudo o que eu tinha aprendido. Descrevi-a primeiro como sendo mais expressiva do que interatuante,1 mas isso não estava inteiramente correto como enunciado geral. Depois, sublinhei que era não-motivada ou metamotivada (para além de qualquer esforço de luta), em vez de motivada, mas essa afirmativa assentava tão substancialmente em qual teoria de motivação fosse aceita que acabou dando tanta complicação quanto ajuda. No capítulo 3, fiz o contraste entre motivação de crescimento e [pág. 100] motivações de necessidade por deficiência, que ajuda, mas não é ainda bastante definitiva, porquanto não estabelece uma diferenciação suficiente entre Devir ou Vir a Ser e Ser. Neste capítulo, proporei uma nova abordagem (da Psicologia do Ser) que incluirá e generalizará as três tentativas já feitas para pôr em palavras, de algum modo, as diferenças observadas entre a vida motivacional e cognitiva das pessoas plenamente desenvolvidas e da maioria das outras.
Essa análise dos estados de Ser (temporários, meta-motivados, não-ativos, não-egocêntricos, não-propositais, autovalidantes, experiências terminais e estados de perfeição e de realização de metas) surgiu, primeiramente, de um estudo das relações de amor de pessoas individuacionantes e, depois, também de outras pessoas; e, finalmente, de um mergulho nas literaturas teológica, estética e filosófica. Foi necessário diferençar primeiro os dois tipos de amor (D-amor e S-amor), que descrevemos no capítulo 3.
No estado de S-amor (pelo Ser de outra pessoa ou objeto), encontrei uma espécie particular de cognição para a qual os meus conhecimentos de Psicologia não me haviam preparado, mas que, depois, tenho visto bem descrita por certos autores sobre questões de estética, religião e filosofia. A isso chamarei Cognição do Ser ou, abreviadamente, S-Cognição. Está em contraste com a cognição organizada pelas necessidades por deficiência do indivíduo, a que chamarei D-cognição. O S-amante está apto a perceber realidades no ser amado, para as quais os outros estão cegos, isto é, ele pode ser mais aguda e penetrantemente perceptivo.
Este capítulo é uma tentativa de generalizar, numa única descrição, alguns desses básicos acontecimentos cognitivos na experiência de S-amor, na experiência parental, na experiência mística, ou oceânica, ou natural, a percepção estética, o momento criador, a introvisão terapêutica ou intelectual, a experiência orgástica, certas formas de realização atlética etc. A estes e outros momentos de felicidade e realização supremas chamarei “experiências culminantes”.
Portanto, este capítulo é dedicado à “Psicologia Positiva” ou “Ortopsicologia” do futuro, na medida em que trata de seres humanos sadios e em pleno funcionamento [pág. 101] e não apenas dos normalmente doentes. Logo, não está em contradição com a Psicologia como uma “psicopatologia do ser comum”; transcende-a e pode, em teoria, incorporar todas as suas descobertas numa estrutura mais abrangente e global que inclui tanto o doente como o são, tanto a deficiência como o Ser e o Vir a Ser. Chamo-lhe Psicologia do Ser porque se interessa mais pelos fins do que pelos meios, isto é, pelas experiências terminais, valores terminais, cognições terminais e pelas pessoas como fins. A Psicologia contemporânea tem estudado, sobretudo, o não-ter em vez do ter, o esforço para realizar em vez da realização, a frustração em vez da satisfação, a busca de alegria em vez da alegria atingida, a tentativa de “chegar lá” em vez de “estar lá”. Isso está implícito na aceitação universal como axioma de uma definição a priori, embora errada: a de que todo o comportamento é motivado. (Ver 97, capítulo 15.)
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