O homem perante a morte



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CAPITULO IV
Garantias para o além
OS RITOS ARCAICOS: A ABSOLVIÇÃO, O LUTO DESMEDIDO, A RETIRADA DO CORPO
No primeiro capítulo consagrado à morte domada, vimos morrer Rolando e os seus companheiros. Antes de partirem para o combate dos cruzados, sem esperança de regresso, receberam a absolvição que lhes é dada sob a forma de uma bênção:
Ben.sunt asols quites de lur pecchez E Varceveque de Dieu lês ad seignez *• 2
Asols e seignez, em vida, sê-lo-ão uma outra vez, poderiam ainda sê-lo várias vezes seguidas, depois da morte. Quando Carlos Magno e o seu exército chegam a Roncesvales, «onde foi a batalha», «os Franceses descem do cavalo», e é então a colocação no túmulo ou no carneiro (carner). «Todos os seus amigos que encontraram mortos, para um carner os levaram logo.»
Esta descida à terra (enterro) fez-se «com grande honra» e o essencial desta honra é uma segunda absolvição e bênção, mais solene, acompanhada de uma incensação:
Sis sunt asols et seignez de part Dieu,3
As palavras asols e seignez são exactamente as mesmas das empregues pelo arcebispo Turpin para absolver, abençoando-os, os seus companheiros votados à morte. Para o poeta, é a mesma cerimónia que se repete sobre o vivo e sobre o morto. A utilização posterior reservará o nome sacramental de absolvição à bênção do vivo, e o nome erudito de absolução à bênção do morto - a fim de marcar bem a diferença. Notemos de passagem
Sue a palavra «absolução» não pertencia à língua corrente, nunca foi empregue nos testamentos do século XV ao século xvin. Penso que só entra no vocábulo comum no século xrx: «Há no exército (de Rolando) bispos e abades numerosos, monges, cóne-
1 La Chanson de Roland, op. cit., v. 1140. (Ver A Canção de Rolando, Pub. Europa-América, 1987, p. 173.)
3 São devidamente absolvidos e livres dos seus pecados
E o arcebispo de Deus benzeu-os. (N. da T.)

3 São absolvidos e benzidos por Deus. (N. da T.)



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gos, padres tonsurados (proveirs coronez); dão-lhes por Deus a absolvição e a bênção. Acendem a mirra e o timo, incensam-nos com zelo (galhardamente), depois enterram-nos com grande honra.»


Dois dos gestos da absolução estão bem descritos: a bênção que é o gesto da absolvição por Deus, a incensação - com os mesmos produtos que serviam para perfumar os corpos 1.
Falta a este relato a recitação ou o canto de certos textos que não eram então o essencial da cerimónia.
Esta cena muito antiga encontra-se sem grandes alterações em duas séries iconográficas mais tardias: a morte da Virgem e a colocação dos santos no túmulo. A primeira série refere-se à cerimónia sobre o vivo, a segunda à cerimónia sobre os mortos. A morte da Virgem é representada desde o fim da Idade Média. A Virgem «jaz doente no leito». Segura na mão um círio, uso mais tardio que os textos antigos calam. Em redor do leito da moribunda, comprime-se a multidão habitual dos assistentes onde os apóstolos figuram o clero: um (que pode ter postos os óculos) lê ou canta os textos de um livro, por vezes seguro por um acólito. Um outro segura na caldeirinha de água benta e no hissope, finalmente um outro, no incensório. Leram-se os salmos, as encomendações, deu-se a absolvição à moribunda, aspergiram-na com água benta. A aspersão da água benta junta-se ao sinal da cruz. Incensaram o seu corpo ainda vivo, ou o incensório está ali para recomeçar a operação depois do último suspiro? Muito antes desta iconografia tardia, a liturgia visigótica deixava adivinhar um grande aglomerado de povo dentro da casa, que recebia o beijo da paz do moribundo e rezava durante a agonia em redor de uma cruz portátil.
A colocação dos santos no túmulo aparece muito mais cedo que a morte da Virgem, em Santo Hilário de Poitiers, por exemplo. A série é inumerável. A sua unidade é assegurada enquanto o túmulo é um sarcófago, colocado sobre o solo ou meio enterrado: o corpo envolto num pano (mortalha), mas o rosto sempre descoberto, é deposto sobre o sarcófago aberto; encontra-se o mesmo clero (o celebrante, os portadores do livro, da caldeirinha e do hissope, do incensório, por vezes o porta-cruz e os porta-círios); terminada a cerimónia, o corpo é metido no fundo do sarcófago, que será então tapado.
A aspersão com água benta não se destina somente ao corpo: estende-se ao túmulo. Nas liturgias visigóticas existem orações
1 La Chanson de Roland, op. cit., v. 2951-2960.

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especiais com esta intenção, que são exorcismes, destinados a preservar a sepultura dos ataques do Demónio 1.


Assim, a absolvição penitenciai teria servido, se a nossa hipótese estiver exacta, de modelo à cerimónia sobre o túmulo. A água benta e o incenso permaneceram associados às coisas da morte. Até aos nossos dias, os visitantes dos mortos eram convidados a honrá-los aspergindo-os com água benta. Apesar de o cristianismo ter abolido o costume antigo de colocar objectos nos túmulos para apaziguar os defuntos, encontram-se por vezes em sepulturas medievais, até ao século xm, medalhas profilácticas e incensórios de cerâmica contendo brasas, como prescreve o liturgista Durand de Mende: «Coloca-se o corpo no túmulo ou na cova onde, em determinados locais, se põe água benta e brasas com incenso.» 2
Esta cerimónia muito simples (a absolução e as cerimónias que a acompanhavam, a seguiam e a precediam) era então a única em que o clero intervinha para uma acção religiosa que tinha por fim apagar os pecados do defunto; era repetida várias vezes, como se a repetição lhe desse mais possibilidades de ser eficaz. Esta observação parecerá contradizer documentos litúrgicos dos séculos V-vn que prevêem uma missa especial. A avaliar pelos textos cavalheirescos, era excepcional e de qualquer forma não era celebrada na presença do corpo, nem associada ao trajecto do corpo entre o lugar da morte e o da sepultura.
Uma outra manifestação importante era o luto.
O moribundo, como vimos, deplorava a perda da vida, só por um momento; guardava até ao fim a calma e a simplicidade. Mas se a morte fosse bem domada, o luto dos sobreviventes era selvagem ou devia parecê-lo. Mal a morte era constatada, eclodiam em seu redor as cenas mais violentas do desespero. Quando «Rolando vê que o amigo (Olivier) morreu e que jaz com o rosto contra o chão», desmaia, «contra o seu peito, aperta-o, abraça-o muito». Já não pode separar-se dele. Quando Carlos Magno descobre em Roncesvales o campo de batalha, «não pode deixar de chorar... Sobre a relva verde vê o sobrinho que jaz morto. Quem se admiraria se tremesse de dor? Desce do cavalo, dirige-se a ele correndo». Abraça o corpo, segura-o nas suas duas mãos, «desmaia sobre ele de tal modo a angústia o sufoca». Alguns instantes mais tarde, desmaia uma segunda vez. Ao recuperar os sentidos, entrega-se às grandes gesticulações da dor. Em frente de todo o exército, perante os cem mil franceses, entre
1 J. Ntedika, UÉvocation de l’au-delá, op. cit., p. 68 sg.
2 Guillaume Durand de Mende, Rationale, op. cit., t. v, cap. 5,

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os quais «não há um que não chore duramente», e «que não se deite por terra», o imperador puxa a barba branca com as duas mãos e arranca os cabelos. Que cena histérica, todos estes poderosos valentes que choram, rebolam no chão, desmaiam, arrancam a barba e os cabelos, despedaçam as roupas!
Quando o rei Artus encontra os cadáveres dos seus barões, comporta-se como Carlos Magno em Roncesvales, «cai do cavalo, desmaiado». «Bate as palmas uma contra a outra (é esse o gesto ritual das carpideiras), gritando que já vivera bastante visto que via assim mortos os melhores da sua linhagem (gostaria de deixar de ser, gritava Carlos Magno). Tirou ao morto o seu elmo e, depois de o ter olhado durante muito tempo, beijou-lhe os olhos e a boca que estava gelada» (sem dúvida na altura beijavam-se na boca). Depois correu para um outro cadáver «que jazia frio», «tomou-o nos braços, apertou-o tanto que o teria morto se não o estivesse já» (conhecem-se casos em que um abraço demasiado forte matava um dos abraçados). «De tal modo que desmaiou novamente e ficou mais tempo desmaiado do que é preciso para fazer meia légua a pé.» E enquanto «se comprimia e beijava o corpo sangrento», «sabei que não havia ninguém que não se maravilhasse com a sua dor». Quando Gauvain reconheceu o seu irmão morto, «as suas pernas dobraram-se, faltou-lhe a coragem, caiu como morto [...]. Ficou assim durante muito tempo, finalmente endireitou-se, correu para Gaheriet, abraçou-o, e com o beijo que lhe deu, sentiu tantas dores que voltou a cair, desmaiado, sobre o morto.»
Era costume suspender por um tempo estas grandes manifestações do luto para lamentar o desaparecido, como vamos ver, mas os queixumes podiam reiniciar-se em seguida. Foi este o caso de Gauvain que, depois de ter dito a lamentação aos mortos, «foi até eles [...] e, abraçando-os, desmaiou tantas vezes que no fim os barões tiveram grande medo de o ver expirar sob os seus olhos». Morre-se de tristeza.
Compete aos presentes deterem os transportes do mestre do luto: «Sire Imperador», diz Geoffroi de Anjou a Carlos Magno, «não vos entregueis tão inteiramente a esta dor...» «Sire», disseram os barões ao rei Artus, «somos de opinião que se leve daqui e que se deite num quarto, longe de toda a gente, até que os irmãos estejam enterrados, porque morrerá de dor sem dúvida, se ficar junto deles.» A bem dizer, era raro ser-se obrigado a estas medidas de isolamento. A deploração junto do corpo, uma
1 La Chanson de Roland, op. cif., p. 2875 sg.

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gesticulação que hoje nos parece histérica, mórbida, bastavam em geral para manifestar a dor, para tornar suportável o facto da separação.


Quanto tempo durava este grande luto? Algumas horas, o tempo do velório, por vezes do enterro. Um mês no máximo, nos grandes casos; quando Gauvain anunciou ao rei Artus a morte de Yvain e dos seus companheiros, «o rei começou a chorar amargamente e, durante um mês, teve um tal desgosto que, por pouco teria enlouquecido».
Os gestos da dor eram interrompidos pelo elogio do defunto, segundo acto da cena do luto. Compete ao mestre do luto fazer a despedida. «O imperador Carlos recuperou os sentidos... Olha para o chão, vê o sobrinho que jaz. Começou a lamentá-lo muito suavemente.» É ao desgosto que se chama ainda a queixa - o planetas: «Carlos lamenta-o por fé e por amor...» O início do elogio é difícil, é cortado por desmaios, em seguida toma-se impulso e o orador fúnebre tem tempo para cinquenta versos: «Amigo Rolando, que Deus te faça mercê [...], quem conduzirá os meus exércitos?...» A lamentação termina finalmente como começou, por uma oração: «Que a tua alma seja posta no paraíso.»
Do mesmo modo, quando o rei Artus recebeu o último suspiro de messire Gauvain, desmaiou várias vezes sobre o corpo, arrancou a barba, arranhou o rosto, como convinha, depois gritou o grande desgosto: «Ha! rei medíocre e infeliz, ha Artus, bem podes dizer que te eis tão despojado de amigos carnais como a árvore o é das suas folhas quando chega a geada.» De facto, o queixume é feito sobre o sobrevivente que o defunto deixou desamparado e desarmado2.
Como se vê, as cenas do luto, gestos e queixas, assemelham-se. Sucedem-se como obrigações usuais, isso é certo, mas não se apresentam como ritos. Pretendem exprimir sentimentos pessoais. Acentua-se a espontaneidade do comportamento. E uma diferença com o recurso às carpideiras mercenárias da Antiguidade (que aliás continuou na Idade Média e nas culturas mediterrânicas). Os amigos, senhores e vassalos do defunto fazem eles mesmos o papel de carpideiras.
Apesar do luto e da despedida não pertencerem à parte religiosa dos funerais, a Igreja admite-os. Não se passava assim na origem: os padres opunham-se às lamentações tradicionais;
1 La Chanson de Roland, op. cit. Lês Romans de Ia Table ronde, op. cit., p. 418 sg.
2 Lês Romans de Ia Table ronde, op. cit., p. 444.

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S. João Crisóstomo indignava-se contra os cristãos que «contratavam mulheres, pagãs, como carpideiras para tornar o luto mais intenso, atiçar o fogo da dor, sem escutarem S. Paulo [...]» Chega mesmo a ameaçar com a excomunhão aqueles que recrutam carpideiras profissionais.


Condenava-se, nesta prática, menos o seu carácter mercenário do que o excesso que manifestava, dado que se descarregava sobre outros a expressão de uma dor que não se sentia bastante pessoalmente, mas que era preciso a todo o custo manter muito elevada e manter com brilho: o luto devia, por princípio, ultrapassar as marcas. Os cânones do patriarcado de Alexandria também reprovavam estas intenções: «Aqueles que são atingidos de luto devem manter-se na igreja, no mosteiro, em casa, silenciosos, calmos e dignos, como devem ser aqueles que acreditam na verdade da Ressurreição.» Estas práticas eram ainda condenadas na Sicília de Frederico II2 sob o nome de reputationes, definidas secamente por Du Cange: cantus et soni qui proper defunctos celebrantur (cantos que são celebrados sobre os defuntos). Na Espanha do século XIV, pareciam ser admitidas, a avaliar por um túmulo onde estão pintados grupos de carpideiras em transe.
Portanto, na origem e durante muito tempo, a Igreja condenou os ritos de planetas na medida em que respondiam ao desejo dos sobreviventes de apaziguar o morto. Na poesia cavalheiresca, vê-se bem que o sentido mudou. O luto tem por objectivo - subentendido na Antiguidade pagã - descarregar o sofrimento dos sobreviventes. Como se poderia persistir em viver, privado de um ser tão amado, tão precioso? Mas à força de se interrogarem, eis que já se lhe habituaram!
Depois da primeira absolução, no momento da morte, e depois das grandes deplorações, o corpo era levado para o local da inumação.
Era primeiramente envolto num tecido precioso, quando se tratava de um grande senhor ou de um venerável clérigo. Deste modo o rei Artus mandou «envolver Mons. Gauvain em tecidos de seda todos bordados a ouro e pedrarias». Uma vez amortalhado, o corpo era colocado sobre uma padiola ou esquife, apressadamente preparada para a circunstância, e transportado para um lugar próximo da inumação. «Quinze dias antes de Maio, Lancelote sentiu chegar o seu fim. Pediu ao bispo e ao eremita seus
1 Patrologia grega, LVII, 374.
2 E. de Martino, Morte e Planto rituais nel mondo antico, Turim, Ennaudi, 1958, p. 32.

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companheiros (com quem vivia na solidão há quatro anos, orando, jejuando e velando) para transportarem o seu corpo para a Alegre Guarda... Depois expirou. Então os dois homens fizeram um esquife onde deitaram o morto e levaram-no com grande dificuldade para o castelo»: pequeno cortejo bem simples de dois homens transportando o esquife.


Acontecia que o corpo fosse acompanhado com maior honra: o rei Artus mandou meter Mons. Gauvain «dentro de um caixão muito depressa; depois do que ordenou a dez dos seus cavaleiros que levassem o corpo para Saint-Étienne de Calaamoth e que o colocassem no túmulo de Gaheriet. E assim fez o bom cavaleiro, acompanhado pelo rei e uma multidão de senhores e de arraia-miúda e todos choravam e gritavam» * a sua queixa.
«Assim foram até três léguas da cidade; depois o rei e a sua gente voltaram com o povo, enquanto os dez cavaleiros continuavam o seu caminho.» Dez cavaleiros, sem padre nem monge: o cortejo é laico, composto dos companheiros do defunto.
Por vezes, se era preciso transportar o corpo mais longe, embalsamavam-no em sacos de coiro: Carlos Magno, «perante os seus olhos mandou abrir os três» (Rolando, Olivier e Turpin). Recolheu os seus corações dentro de um «pano mortuário»... depois pegaram nos corpos dos três barões e meteram-nos bem lavados com aromas e vinho dentro de «pele de cervo»!
Do mesmo modo, o gigante Morholt, morto por Tristão em leal combate, depois de ter sido embalsamado, «jazia morto, cosido dentro de um coiro de cervo». O pacote macabro foi enviado à filha, Isolda, a Loira, que o abriu e retirou do crânio o bocado da espada assassina que ainda aí estava pregado 2.
Em Roncesvales, Carlos Magno mandou chamar três cavaleiros e confiou-lhes os três corpos envoltos em pele e disse-lhes: «Em três carroças levem-nos.» Assim levaram-nos, sempre sem padres nem monges, até à Gironda, até Blaye onde Carlos os mandou meter em «brancos sarcófagos».
Do mesmo modo, quando Aude, a Bela «foi para o seu fim», atingida de morte pelo desaparecimento do noivo Rolando, «Carlos vê que está morta. Manda chamar imediatamente quatro condessas. Levam-na para um mosteiro de freiras. Toda a noite até de madrugada a velam; ao longo de um altar belamente a enterram» 8.
1 Lês Romans de la Table ronde, op. cit., pp. 447, 461.
2 J. Bédier, Lê Roman de Tristan et Yseult, op. cit.,; J.-C. Payen,

Tristan, Paris, Garnier, 1974.
3 La Chanson de Roland, ap. cit., v. 2970, 3725.

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Assim, nestas altas épocas, a cerimónia propriamente religiosa era reduzida à absolvição, uma vez sobre o corpo vivo, uma outra vez sobre o corpo morto, no sítio da morte, e mais uma vez sobre o túmulo. Não havia missas, ou se existiam, passavam despercebidas.
As outras manifestações, o luto e o cortejo, eram apenas laicos, sem participação de eclesiásticos (excepto se o defunto fosse clérigo), reservadas aos próximos e aos pares do desaparecido, que aproveitavam deste modo a ocasião para o lamentar, para o louvar, para lhe prestarem grandes honras.
A ORAÇÃO PELOS MORTOS
Se a parte da Igreja era limitada nos ritos dos funerais, qual era a parte dos mortos na liturgia da Igreja antes da unificação carolíngia? Abordamos aqui um ponto capital e muito difícil da nossa história: a oração pelos mortos.
A dificuldade provém da independência da liturgia a respeito do pensamento escatológico. Além disto, os próprios textos litúrgicos não devem ser tomados à letra, porque o sentido enfraquecido e banalizado que os fiéis do tempo lhes reconheciam tacitamente só nos aparece em comparação com outras fontes, por exemplo literárias ou iconográficas. Acrescentemos ainda que os historiadores da liturgia e os padres são contra sua vontade solicitados pelo desenvolvimento posterior de ideias apenas em germe nos seus textos, e inclinam-se para lhes atribuir demasiada importância: erros veniais de perspectiva arriscam perder o historiador que utiliza as formulações religiosas não por elas mesmas, mas como indicadores de mentalidade!
Na tradição pagã, traziam-se oferendas aos mortos para os acalmar e impedir de voltarem para o seio dos vivos. As intervenções dos vivos não se destinavam a melhorar a sua estada no mundo atenuado dos Infernos.
A tradição judaica nem sequer conhecia estas práticas. O primeiro texto judaico, que a Igreja considerou como a origem das orações pelos mortos, é o relato dos funerais dos Macabeus, que data apenas do século I a. C. A crítica moderna distingue aí duas partes: uma antiga, em que a cerimónia era destinada a expiar o pecado de idolatria cometido pelos mortos: encontravam-se sobre os seus corpos amuletos pagãos. A outra, que seria um acrescento, faz entrever a ideia de ressurreição: ressuscitarão somente aqueles que terão sido libertos dos pecados. É por isso que os sobreviventes suplicam ao Senhor.

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A preocupação da sobrevivência do defunto e a necessidade de a facilitar por meio de ritos religiosos existiam pelo contrário nas religiões de salvação, como os mistérios dionisíacos, o pitagorismo, os cultos helenísticos de Mitra e de Isis.


É certo que na origem a Igreja primitiva proibiu as práticas funerárias marcadas de paganismo, quer as grandes lamentações dos carpideiros, como vimos mais atrás, quer as oferendas sobre os túmulos que Santa Mónica ainda praticava, antes de ter conhecido a proibição de Santo Ambrósio: o refrigerium. A Igreja substituiu às refeições funerárias a eucaristia celebrada nos altares situados no cemitério: ainda se vêem no cemitério cristão de Tebessa, no meio dos túmulos que vimos serem ad sanctos.
Tratar-se-ia já de intercessão pelos mortos? Estas missas eram antes, na ideia dos bispos integristas, acções de graças a Deus por ocasião da morte dos justos, santos mártires, cristãos mortos na comunhão da Igreja e enterrados ao lado dos mártires. De facto, na devoção comum que continuava sem ruptura, a tradição antiga pagã, as missas no cemitério foram associadas ao mesmo tempo ao culto dos mártires e à memória dos mortos menos veneráveis, de tal modo que persistiu durante muito tempo um equívoco entre a oração em honra dos santos e a oração de intercessão para a salvação dos mortos mais vulgares, equívoco que conhecemos graças à dificuldade que Santo Agostinho teve para o dissipar.
Deste modo, não existe nenhum fundamento escriturário, nem no Antigo nem no Novo Testamento (excepto o texto contestado dos Macabeus), da intercessão dos vivos pelos mortos.
Como sugere J. Ntekida, esta prática cristã tira a sua origem da tradição pagã. A sua primeira forma é uma comemoração mais que uma intercessão. Todavia, com efeito, existiria intercessão dado que os sobreviventes não tinham qualquer razão para se inquietarem com a salvação dos seus mortos *? Estes, como já dissemos (capítulo I), estavam salvos. Contudo, não iam imediatamente para o Paraíso, reconhecia-se que só os santos mártires e os confessores tinham o privilégio de gozar prioritariamente a visão beatífica, imediatamente depois da morte. Tertuliano diz-nos que o seio de Abraão não era nem o céu nem o inferno (subliorem tamen inferis), mas o refrigerium do cânone romano, o ínterim refrigerium. As almas dos justos esperavam aí a ressurreição no fim do mundo, consummatio rerum.
J. Ntekida, op. cit.

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Claro que os autores eruditos, desde o final do século V, já não admitiam esta concepção, e acreditavam no acolhimento directo no Paraíso (ou na rejeição para o Inferno). Sugerimos, contudo, que a ideia primitiva de um espaço de espera poderia estar na origem do Purgatório, tempo de espera num fogo já não de suplício, mas de purificação. Pode ter aí existido, na crença banal, uma confusão entre a ideia antiga de refrigerium, requies, seio de Abraão, e a ideia nova de purgatório.


Porque, apesar da censura dos autores eruditos, a massa dos fiéis permaneceu ligada à ideia tradicional de espera que constituía ainda a mais antiga aluvião da liturgia dos funerais (antes das reformas de Paulo VI). A alma (ou o ser) do defunto não estava ainda pelo menos na liturgia, ameaçada pelo demónio; no dia da morte e do seu aniversário, a liturgia previa uma cerimónia religiosa que era uma missa onde o homem pecador reconhecia a sua impotência mas afirmava a sua fé, dava graças a Deus e constatava a entrada do defunto no repouso ou no sono da espera feliz.
A ANTIGA LITURGIA: A LEITURA DOS NOMES
Esta concepção, que se pode chamar popular, da continuidade entre o paganismo e o cristianismo, entre este mundo e o além, sem drama nem ruptura, encontra-se já não apenas nas orações dos funerais, mas também na liturgia dominical.
Antes de Carlos Magno, ou seja, antes da introdução da liturgia romana, a missa na Gália compreendia, depois das leituras, uma longa cerimónia que desapareceu ou da qual só restam traços indecifráveis. Situava-se no lugar ocupado até às reformas de Paulo VI pelas orações privadas do padre, ditas do ofertório.
Depois do Evangelho, que não era então seguido do Credo, começava uma série de ritos: a recitação de orações litânicas que o novo ordo de Paulo VI restaurou sob o nome de orações dos fiéis; em seguida, depois da despedida dos catecúmenos ou melhor, nessa época, dos penitentes, o canto dos salmos, sonus, tripla alleluia, que acompanhava a procissão das oferendas. Os aferentes levavam solenemente a um dos altares não apenas os oblatos, pão e vinho destinados à eucaristia, mas toda a espécie de dádivas em espécie que ficavam na Igreja. Esta cerimónia à qual o povo devia estar muito ligado poderia não ter tido a mesma amplitude em Roma. Terminava por um prefácio e uma colecta.

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