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Valores, Crescimento e Saúde
A minha tese é, pois, a seguinte: Em princípio, podemos ter uma ciência descritiva e naturalista dos valores humanos; o antigo contraste, mutuamente exclusivo, entre “o que é” e “o que deve ser” é, em parte, falso; podemos estudar os valores ou objetivos supremos dos seres humanos tal como estudamos os valores das formigas, ou cavalos, ou carvalhos, ou, se for o caso, dos marcianos. Podemos descobrir (em vez de criar ou inventar) quais são os valores para os quais os homens tendem, pelos quais anseiam, lutam, à medida que se aperfeiçoam, e quais os valores que perdem quando adoecem.
Mas vimos que isso só pode ser realizado proveitosamente (pelo menos, neste momento da História e com as técnicas limitadas à nossa disposição) se diferençarmos os espécimes sadios do resto da população. Não podemos calcular uma média somando anseios neuróticos e anseios sadios e obter daí um produto utilizável. (Um biólogo anunciou recentemente: “Descobri o elo ausente entre os símios antropóides e os homens civilizados. Somos nós!”)
Parece-me que esses valores tanto são desvendados como criados ou construídos, que eles são intrínsecos na estrutura da própria natureza humana, que têm uma base biológica e genética, assim como uma culturalmente desenvolvida; que estou descrevendo-os, não inventando-os ou projetando-os, ou mesmo desejando-os (“a gerência não assume a responsabilidade pelo que for descoberto”). Isso está em franca discordância com, por exemplo, Sartre. [pág. 201]
Posso dizer tudo isso de um modo mais inocente, propondo que, no momento, estou estudando as livres escolhas ou preferências de várias espécies de seres humanos, doentes ou sadios, velhos ou novos, e sob várias circunstâncias. Isso, é claro, temos o direito de lazer, exatamente como o pesquisador tem o direito de estudar as livres escolhas de ratos brancos, macacos ou neuróticos. Grande parte da discussão irrelevante e desorientadora sobre valores pode ser evitada por essa linguagem e também tem a virtude de sublinhar a natureza científica do empreendimento, removendo-o completamente do domínio do a priori. (De qualquer modo, a minha convicção é de que o conceito “valor” será em breve obsoleto. Ele inclui demasiadas coisas, significa um número excessivo de coisas diversas e tem uma história demasiado extensa. Além disso, esses diversos usos não são, usualmente, conscientes. Portanto, geram confusão e sou freqüentemente tentado a abandonar a palavra de vez. É possível, usualmente, usar um sinônimo mais específico e, portanto, menos suscetível de confusões.)
Essa abordagem mais naturalista e descritiva (mais “científica”) também tem a vantagem de transferir a forma das questões das perguntas carregadas, das questões de “tem que ser” e “deve ser”, com sua carga prévia de valores implícitos e não-examinados, para a mais usual forma empírica das perguntas sobre “Quando? Onde? A quem? Quanto? Em que condições?” etc., isto é, para questões empiricamente testáveis.1
O meu segundo grupo principal de hipóteses é que os chamados valores superiores, valores eternos etc. etc. são, aproximadamente, o que apuramos como livres escolhas, na boa situação, daquelas pessoas a quem chamamos relativamente sadias (maduras, evoluídas, auto-realizadas, individuadas etc.), quando se sentem no auge de sua forma e vigor. [pág. 202]
Ou, para usarmos palavras mais descritivas, tais pessoas, quando se sentem fortes, se realmente for possível uma livre escolha, tendem espontaneamente para escolher o verdadeiro e não o falso, o bem e não o mal, a beleza e não a fealdade, a integração e não a dissociação, a alegria e não a tristeza, a vivacidade e não a apatia, a singularidade e não o estereótipo, e assim por diante, para o que já descrevi como S-valores.
Uma hipótese subsidiária é que as tendências para escolher esses mesmos S-valores podem ser observados, ainda que vaga e debilmente, em todos ou na maior parte dos seres humanos, isto é, podem ser valores universais da espécie que, entretanto, são vistos com maior clareza e do modo mais inconfundível e vigoroso nas pessoas sadias; e que, nessas pessoas sadias, esses valores superiores estão menos adulterados por valores defensivos (instigados pela ansiedade) ou por aquilo a que me referirei mais abaixo como valores sadio-regressivos ou de “recaída”.1
Outra hipótese muito provável é esta: o que as pessoas sadias escolhem é o que, de um modo geral, é “bom para elas”, num sentido biológico, certamente, mas talvez em outros sentidos, também (“bom para elas” significa, neste caso, “o que é conducente à individuação delas e de outras pessoas”). Além disso, desconfio que o que é bom para as pessoas sadias (escolhido por elas) também pode ser bom, muito provavelmente, para as pessoas menos sadias, a longo prazo, e é o que as doentes também escolheriam se pudessem tornar-se melhores escolhedores. Outra maneira de dizer isso é que as pessoas sadias escolhem melhor do que as pessoas doentes. Ou, invertendo esta afirmação para obter mais um grupo de implicações, proponho que exploremos as conseqüências da observação de tudo o que os nossos melhores espécimes possam escolher e, então, partamos do princípio de que esses são os valores supremos para toda a humanidade. Quer dizer, vejamos o que acontece quando os tratamos como material biológico de ensaio, como versões mais sensíveis de nós [pág. 203] próprios, mais rapidamente cônscios do que é bom para nós do que nós próprios. Estamos admitindo, como suposição, que acabaríamos escolhendo, com o tempo, o mesmo que eles escolheram rapidamente. Ou que, mais cedo ou mais tarde, enxergaríamos a sabedoria de suas escolhas e faríamos então as mesmas escolhas. Ou que eles percebem clara e penetrantemente, enquanto nós só percebemos vaga e superficialmente.
Também formulo a hipótese de que os valores percebidos nas experiências culminantes são, aproximadamente, os mesmos que os valores de escolha de que falamos acima. Quero assim mostrar que os valores de escolha são apenas uma espécie de valores.
Finalmente, formulo a hipótese de que esses mesmos S-valores que existem como preferências ou motivações nos nossos melhores espécimes são, em certo grau, idênticos aos valores que descrevem a “boa” obra de arte, ou a Natureza em geral, ou o bom mundo externo. Quer dizer, penso que os S-valores, dentro da pessoa, são isomórficos, em certa medida, com os mesmos valores percebidos no mundo; e que existe uma relação dinâmica mutuamente estimulante e fortalecedora entre esses valores internos e externos (108, 114).
Para sublinhar aqui apenas uma das implicações, essas proposições afirmam a existência dos valores supremos na própria natureza humana, onde devem ser descobertos. Isso está em contradição frontal com as crenças mais antigas e habituais, segundo as quais os valores supremos provêm unicamente de um Deus sobrenatural ou alguma outra fonte alheia à própria natureza humana.
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