A herança maldita de fhc – Sérgio Miranda o fmi foi co-gestor da economia do país no último mandato de fhc, que deixou o país quebrado, a inflação alta e o futuro comprometido pela ruína da infra-estrutura, como estradas e energia elétrica



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A herança maldita de FHC – Sérgio Miranda

O FMI foi co-gestor da economia do país no último mandato de FHC, que deixou o país quebrado, a inflação alta e o futuro comprometido pela ruína da infra-estrutura, como estradas e energia elétrica.

Não é o julgamento de um homem; é o de um caminho. O neoliberalismo, o pensamento político que serviu de inspiração a Fernando Henrique, é uma corrente poderosa. Não surgiu no Brasil; não empolgou apenas FHC e os políticos e intelectuais que o acompanharam no governo. E nem será derrotado apenas porque ele sai do Planalto. Pode-se dizer que o neoliberalismo tirou do fundo do baú, num contexto histórico preciso, a partir do final da segunda metade dos anos 70, idéias velhas que pareciam ter sido derrotadas pelos avanços socialistas. Essas idéias foram se aprimorando com o governo neofascista de Pinochet no Chile, com seus experimentos com os monetaristas de Milton Friedman, da “Escola de Chicago”; com o governo antitrabalhista e anti-sindical de Margareth Thatcher e seu plano de privatizações, na Inglaterra; e, finalmente, ganharam o mundo com os dois governos de Ronald Reagan (1981-1988) – o operador da recuperação política do império americano que, em meados dos anos 70, fora fragorosamente derrotado pelos guerrilheiros no Vietnã.

Fernando Henrique Cardoso é um neoliberal tardio; não foi o primeiro político brasileiro famoso a aderir à onda neoliberal que varreu o mundo já de modo avassalador a partir da queda do Muro de Berlim, em 1989. No segundo turno da eleição presidencial daquele ano, FHC estava do lado oposto: juntou-se à campanha da esquerda para eleger Lula, contra Fernando Collor de Mello.

Collor, sim, merece o título de o verdadeiro precursor do neoliberalismo político no País. Foi ele que tornou popular a campanha pela redução do tamanho do Estado, com sua guerra de mídia contra os marajás do serviço público, já antes de ser eleito. Foi Collor que criou o Plano Nacional de Desestatização, nos seus primeiros meses de governo. E foi ele também que, no começo de 1991, com a ajuda de Jorge Bornhausen e Antônio Carlos Magalhães, comandantes do PFL, reorganizou o comando do setor financeiro do Brasil, colocando três financistas essenciais nos postos-chave: Marcílio Marques Moreira como ministro da Economia; Francisco Gros, como presidente do Banco Central; e Armínio Fraga, como diretor da Área Externa do BC. Marcílio e Gros já eram então homens ligados à grande finança global. De lá vieram e para lá retornaram. Marcílio deixou o governo Collor e foi para o banco de investimentos americano Merril Lynch. Gros deixou o BC brasileiro e foi para o Morgan Stanley, outra casa financeira de Wall Street. E Armínio seguiu para Nova Iorque para ser o diretor para os países emergentes dos hedge-funds de George Soros, os agressivos fundos de investimento do mais conhecido megaespeculador global.

É essa trinca que dá forma final aos mecanismos para integrar o Brasil na grande finança global. “Os investimentos são como o vento: não entram em casa onde não exista uma brecha para a saída”, dizia Marcílio. Para isso, o Ministério da Fazenda e o BC brasileiro modernizaram o regulamento para as chamadas CC-5, contas de não residentes, pessoas físicas e empresas instaladas no Brasil mas com controle do exterior, que passaram a ter direito de enviar dinheiro para fora sem aviso prévio às autoridades monetárias. Para isso também foram criados os seis anexos do Banco Central que iriam facilitar a vinda para o Brasil dos capitais de estrangeiros e de brasileiros legal ou ilegalmente instalados em paraísos fiscais ou escondidos por traz de fundos e trusts de investimento.

A peça final para a atração desses capitais foi a elevação espetacular dos juros promovida pela trinca Marcílio-Gros-Armínio, em outubro de 1991. Fernando Henrique, que passou a ser uma figura estratégica na política brasileira a partir de meados de 1993, quando assume o Ministério da Fazenda no governo de Itamar Franco, foi um continuador dessa política e uma espécie de mentor político desses financistas. Para entender melhor suas ações, é preciso ver o contexto mais específico em que as desempenhou. Como diz Marx, os homens fazem a história, mas dentro de condições determinadas. E essas eram as do desmoronamento final do império soviético, por um lado, e, por outro, da ampla recuperação do império e da economia americana. Fernando Henrique, no entanto, pega o bonde quando ele já está perto de sair dos trilhos, perto da fase na qual, como disse depois Alan Greenspan, o presidente do Federal Reserve, o banco central americano, os mercados seriam acometidos da “exuberância irracional” e da “ganância infecciosa”.



Destruir a herança

Numa primeira fase, de meados de 1993 a meados de 1994, os financistas de Fernando Henrique terminaram com as oscilações de política monetária que persistiram no Brasil após a ditadura militar e armaram o Plano Real. No governo de José Sarney (1985-1989) e mesmo nos dois primeiros anos de governo Collor (1990-1991) houve períodos de juros reais muito baixos e mesmo negativos. Como ministro da Economia de Itamar e tendo Pedro Malan como presidente do Banco Central, FHC consolidou a política de juros altos do final do governo Collor para atrair dólares. As reservas em dólar do país cresceram espetacularmente. E sobre elas FHC construiu o Plano Real, lançado em julho de 1994, e que o elegeu presidente logo a seguir.

Já presidente eleito, quando se despediu do Senado com um discurso no dia 14 de dezembro de 1994, Fernando Henrique Cardoso disse com clareza que um dos objetivos centrais do seu governo era destruir a herança de Getúlio Vargas. “Resta um pedaço do nosso passado que ainda atravanca o presente e retarda o avanço da sociedade. Refiro-me ao legado da era Vargas, ao seu modelo de desenvolvimento autárquico e ao seu Estado intervencionista”. FHC considerava o Estado brasileiro fechado para o exterior, indevidamente envolvido na produção de bens e serviços e antiquado na sua concepção. No discurso, apontou os alvos para a sua operação de reforma: era preciso abrir a economia aos capitais estrangeiros, principalmente no setor de energia elétrica, mineração, petróleo, telecomunicações, então dominados pelas empresas estatais. “No ciclo de desenvolvimento que se inaugura, o eixo dinâmico da atividade produtiva passa decididamente do setor estatal para o setor privado (...) O processo de privatização deve ser acelerado e estendido a outras atividades e empresas de energia, transporte, telecomunicações e mineração”, disse ele, aprovando o esforço de privatização iniciado com Collor, mas mantido em câmara lenta por Itamar Franco. Itamar – é verdade, permitiu a venda da Companhia Siderúrgica Nacional, grande símbolo da Era Vargas; mas se recusou, por exemplo, a abrir o setor elétrico e o de telecomunicações.

Além disso, disse FHC no Senado, era preciso acabar com a distinção entre “empresa brasileira” e “empresa brasileira de capital nacional”. Com isso, apontava essencialmente para a revisão dos critérios de financiamento dos bancos públicos brasileiros, especialmente o Banco do Brasil e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), voltados para o apoio das empresas nacionais. No caso do BNDES, especificamente, o banco era proibido de financiar empresas de capital estrangeiro.

Com uma maioria de quase 400 parlamentares em pouco mais de 500, o governo passou como um rolo compressor n não só sobre aspectos essenciais da herança de Vargas mas também sobre aspectos desse legado que haviam sido reformulados e aprimorados pela Constituinte de 1988, que surgira da luta contra a ditadura militar.

Em 1995, foi praticamente refeito o Título VII da Constituição, que trata “Da Ordem Econômica e Financeira”. A Emenda Constitucional nº 6, de 15 de agosto, revogou todo o artigo 171, que estabelecia a distinção entre “empresa brasileira” e “empresa brasileira de capital nacional” e definia diversas situações nas quais a lei poderia estabelecer privilégios para as nacionais. A mesma Emenda alterou o artigo 176, que assegurava a pesquisa e a lavra de recursos minerais apenas “por brasileiros ou empresa brasileira de capital nacional”, trocando a expressão “empresa brasileira de capital nacional” por “empresa constituída sob as leis brasileiras e que tenha sua sede e administração no país”. A Emenda nº 7, promulgada também em 15 de agosto, eliminou ainda o privilégio que era dado às “embarcações nacionais” na navegação de cabotagem, no interior do país.

Em processo rapidíssimo, o Congresso Nacional também que alterou o inciso XI e a alínea "a" do inciso XII do art. 21 da Constituição Federal, dando margem à privatização do Sistema Telebrás. Em 16 de fevereiro de 1995, o presidente da República enviou ao Legislativo a Mensagem nº 191/95, com a Proposta de Emenda Constitucional nº 03-A/95. Dessa proposta resultou a Emenda Constitucional nº 8, promulgada também em 15 de agosto de 1995, que permitiu à União explorar, diretamente ou mediante autorização, concessão ou permissão, os serviços de telecomunicações.

Já perto do final do seu primeiro ano de mandato, em 9 de novembro, foi aprovada a Emenda número nº 9, que mudou os incisos de I a IV do artigo 177: o monopólio da pesquisa e lavra de petróleo e gás; o refino de petróleo nacional ou importado; a importação e a exportação; e o transporte marítimo e por meio de dutos do petróleo e gás. Foi acrescentado um parágrafo: “a União poderá contratar com empresas estatais ou privadas a realização das atividades previstas nos incisos de I a IV deste artigo”.

Após esse conjunto de medidas, as privatizações foram desatadas em todos os setores. E o BNDES, além de dar suporte à venda do patrimônio público, passou, cada vez mais, a financiar o capital estrangeiro: em 1995 estiveram em 2,7% dos financiamentos do banco; em 96 foram 2,9%; em 97, 3,7%; em 98, 4,6%; em 99 já estavam mais de 10%; em 2000, 16,1%; e em 2001 chegaram a 20,9%.

Desde os seus primeiros pronunciamentos, o presidente FHC investiu também contra outro aspecto da herança Vargas: a legislação trabalhista. Como a desnacionalização foi acompanhada também do crescimento do desemprego e da precarização das relações de trabalho, ele usou sua autoridade de presidente e sociólogo famoso para vender a tese de que esses males advinham, principalmente, de posições atrasadas dos partidos de esquerda e do movimento sindical, que se opunham à chamada “flexibilização das leis trabalhistas”.

De fato, a legislação trabalhista no Brasil se transformou num emaranhado ao longo das décadas. Hoje, são 197 leis, 71 portarias, 361 decisões do Tribunal Superior do Trabalho, 22 artigos da Consolidação das Leis do Trabalho e 42 dispositivos da Constituição atual. Mas FHC não apresentou nenhum plano, nenhum estudo merecedor do nome que procurasse dar forma nova, organizar o conjunto dessas leis e regulamentos. Em conseqüência, as mudanças que fez, ajudaram a reduzir o custo da mão-de-obra e ampliaram o desemprego e a precarização do trabalho (texto nas páginas de 40 a 43).

A teoria e a prática

A nova moeda promoveu uma queda abrupta da inflação e uma euforia nos mercados. E foi um sinal verde para o endividamento externo. Quem trouxesse dólares para o país tinha a garantia do governo de que, por um ano, poderia retirá-lo a hora que quisesse, comprando, no Banco Central, dólares a um real, pois o banco tinha acumulado uma montanha de moeda americana como lastro.

Por mais que os nacionalistas e a oposição de esquerda protestassem, o desmanche do Estado promovido por Fernando Henrique tinha uma lógica aparente. Em tese, o governo estava vendendo as estatais para tirar o Estado de atividades nas quais seria ineficiente e concentrá-lo nas atividades de fiscalização e de prestação de serviços públicos essenciais, como educação, saúde, cultura.

A terrível política de juros reais gigantes, por sua vez, destinava-se a consolidar a estabilidade monetária e atrair capitais, que promoveriam a modernização industrial e elevariam a competitividade do país, com o que seriam pagos os juros devidos no período de estabilização. Esses capitais deveriam ser pagos, é claro, com remessas de juros, lucros ou amortizações. Mas a dívida externa, em princípio, não deveria ser um problema: o país havia renegociado, no início de 1993, a dívida velha, contraída no tempo dos militares. O trabalho fora iniciado e concluído pelo ministro Pedro Malan, indicado para a função por Marcílio Marques Moreira, ainda no governo Collor.

Além disso, como repetia sistematicamente Gustavo Franco, diretor do Banco Central e uma das maiores estrelas do corpo de financistas de FHC, o mundo teria entrado numa nova conjuntura, de abundância de capitais. Não havia no horizonte qualquer ameaça de uma contração na economia global, como a de 1930; os ciclos econômicos eram passado na história do capitalismo – “1929, nunca mais”, dizia Franco.

Na prática, o plano só deu certo em parte. Em 6 anos da política de atração de capitais, de 1992 a 1998, as empresas privadas instaladas no país – de capital nacional e estrangeiras – tomaram no exterior cerca de 120 bilhões de dólares. Com o crédito interno caríssimo, capitalistas e empresas que tinham crédito ou dinheiro lá fora trouxeram esses capitais para o Brasil, por meio de diversos tipos de empréstimos e das contas especiais permitidas pelo Banco Central. Isso fez a fortuna de alguns e despertou muitas ilusões de modernização.

No conjunto, para o país, no entanto, o resultado foi diferente. Aqui vale uma comparação. Tome-se a China, por exemplo. Brasil e China fizeram políticas visando atrair capitais estrangeiros. Aparentemente elas foram iguais. Na prática, foram radicalmente diferentes. A China, como diz o Prêmio Nobel de Economia e ex-diretor do Banco Mundial, Joseph Stiglitz, foi um dos poucos países que resistiu à devastação provocada por sucessivas crises financeiras no mercado mundial a partir de 1995. Continua crescendo a mais de 7% anuais há 20 anos. E continua atraindo capitais de fora, ao contrário do Brasil, que está sem crédito, crescendo a taxas baixíssimas e há quatro anos está pendurado no FMI. A razão para isso, diz Stiglitz, é o fato de a China ter adotado uma política de abertura financeira completamente oposta à do Brasil. Enquanto o Brasil abriu completamente as suas duas contas do balanço de pagamentos – a de transações correntes e a de capitais –, a China abriu apenas uma, deixou sob controle a conta de capitais. É uma diferença muito grande.

O óbvio: como pagar?

As transações correntes de um país com o exterior incluem suas importações e exportações; os fretes que paga por mercadorias transportadas em navios de outras bandeiras e os que recebe quando o transportador é nacional; as diferenças entre os juros, os lucros, os royalties, as despesas de assistência técnica que paga e as que recebe; e também o saldo entre as remessas dos migrantes seus que enviam dinheiro para o país e dos imigrantes que o país tem e enviam dinheiro para o exterior.

A outra conta é a dos capitais propriamente ditos e é a mais crítica: nela são contabilizados os empréstimos e os investimentos. Os capitais estrangeiros vão para um país para obter lucros, no caso dos investimentos, ou juros, no caso dos empréstimos. Os chineses viram o que é óbvio: se recebem investimentos ou empréstimos, têm de saber como pagá-los.

Para eles, por exemplo, seria absurdo permitir que se instalasse no país uma indústria de produção de aparelhos de telefonia celular que importasse mais de 90% dos componentes desses aparelhos, como a brasileira. Como iriam pagar essas importações? No caso do Brasil, com uma política de abertura sem esses princípios, a diferença entre importações e exportações de componentes eletro-eletrônicos criou um buraco crescente no balanço de pagamentos do país, que atingiu cerca de 8 bilhões de dólares em 2001.

Para os chineses, também, seria absurdo vender ao capital estrangeiro empresas do setor de serviços, como as elétricas e as de telecomunicações, que não exportam nada. De que forma o país iria obter os dólares de que elas necessitariam para remeter os seus lucros ao exterior?

Os chineses decidiram tornar sua moeda amplamente conversível por etapas, a partir de 1978. Só em 1996 completaram a abertura da conta de transações correntes, depois de muitas experiências. E deixaram fechada a conta de capitais: quem quiser investir, comprar empresas ou emprestar às empresas na China, não pode agir no mercado; tem de passar pelo governo, cuja preocupação central é saber como os dólares que entrarem serão pagos.

Como se pode ver hoje, a abertura do Plano Real não foi como a dos chineses. Gustavo Franco, diretor da área externa do Banco Central no lançamento do Plano Real, ordenou aos operadores do banco, no primeiro dia de vigência da nova moeda, que passassem a trocar livremente dólares por reais na conta financeira, de capitais.

De início, pareceu um milagre. Atraídos por juros monumentais, os dólares desaguaram no Brasil. O real, que vinha sendo desvalorizado todos os dias, há mais de dez anos, desde que o país quebrara sob os militares, de repente, tornou-se uma moeda forte. Chegou a valer 1,25 dólares por alguns meses, entre o final de 94 e o início de 95. E ficou valendo mais que um dólar até o começo de 1996, graças a determinação do Banco Central de sustentar a sua cotação com juros estratosféricos.

Isso, no entanto, provocou uma devastação na economia do país. Com o dólar barato, as importações dispararam, foram de 33 bilhões de dólares, em 1994, para 50 bilhões de dólares, em 1995, e o saldo de comércio exterior, que girava em torno dos 10 bilhões de dólares anuais desde 1984 e era gasto pagando a velha dívida externa estatal, desapareceu. Os outros gastos da chamada conta de transações correntes – as despesas dos turistas no exterior, a contratação de fretes marítimos estrangeiros, as remessas de lucros, juros, royalties e dividendos –, foram todos, em pouco tempo, para a casa de alguns bilhões de dólares anuais.

Para cobrir esse rombo, o capital estrangeiro era atraído com juros altos, indiscriminadamente, sem se saber como pagá-los. A entrada dessa massa de dólares e a política de juros altos tiveram um efeito arrasador sobre a dívida interna pública.

Boa parte dos dólares foi comprada pelo governo: as reservas internacionais do país, que estavam em 9 bilhões de dólares, em 1991, abaixo do mínimo exigido pela Constituição – o equivalente a três meses de importações – foram para 60 bilhões de dólares, em 1996. O governo comprou esses dólares emitindo dívida pública. Até mesmo os dólares vindos para a compra de empresas privadas nacionais por empresas brasileiras ou estrangeiras instaladas no país, ficavam parados por bom tempo nos seus caixas para serem aplicados nos títulos públicos e aproveitar o maná de juros oferecido pelo BC. De qualquer modo, entravam nas contas dos então ex-empresários nacionais que, em muitos casos, passaram a viver de rendas em títulos públicos e da especulação financeira.

E, pior que tudo, o cenário internacional róseo pintado por Gustavo Franco não prevaleceu. A partir de 1995, a expansão do capitalismo global começou a se dar aos solavancos. Para o Brasil, a entrada de dinheiro pela conta de capitais, que significava grandes compromissos para o futuro, mas, a curto prazo, fechava o balanço de pagamentos, começou a minguar.

O primeiro grande golpe nas teorias dos financistas do Plano Real foi a quebra do México, que ocorreu antes mesmo de FHC tomar posse, em dezembro de 1994. Os reflexos dessa crise no Brasil foram quase imediatos. Em março, o movimento líquido de capitais em direção ao Brasil, que vinha sendo sempre positivo, sempre maior que 1 bilhão de dólares por mês, tornou-se negativo, em 2 bilhões de dólares. O Banco Central fez o que faz sempre: elevou de forma descomunal os juros, para uma taxa anual perto de 60% reais – ou seja, descontada a inflação. Essa taxa se manteve por muitos dias. Depois, caiu. Mas não muito: permanecendo acima de 40% de juros reais ao ano. Manteve-se nesse patamar até meados do ano. E o dinheiro de fora começou a voltar. As reservas internacionais do país, que tinham caído quase dez bilhões de dólares entre dezembro de 94 e abril de 95, voltaram a subir, para mais de 40 bilhões de dólares, em julho. A crise, de qualquer modo, provocou desentendimentos dentro da equipe econômica, que levariam à saída de Pérsio Arida da presidência do Banco Central, em junho. Em outubro, após um interregno em que o presidente do banco foi Gustavo Loyola, ascendeu Gustavo Franco, o financista mais radical.

Entre julho de 95 e dezembro de 1996, as coisas pareciam ter-se ajeitado e o plano dos financistas finalmente dado certo. O governo montou um grande esquema de incentivos para as montadoras de automóveis internacionais e também para seus fornecedores externos. Inúmeras indústrias de autopeças nacionais foram compradas pelos estrangeiros que vieram para o país. O governo facilitou também a captação de dinheiro externo pelos bancos das montadoras ou aqueles ligados a elas. Foram tomados uns bilhões de dólares de empréstimos no exterior para financiar alguns investimentos e a compra de carros fabricados no país ou importados.

Isso provocou uma espécie de novo milagre brasileiro. O anterior, ocorrido entre 1968 e 1973, sob o governo dos militares, teve como uma de suas características essenciais o crescimento da produção e do consumo de automóveis. Sob os militares, o Brasil, que fabricava menos de 100 mil automóveis por ano, passou a produzir mais de 1 milhão. Com Fernando Henrique, também em pouco tempo a produção de carros duplicou. E passou a haver muito mais opções – não só praticamente todas as grandes montadoras internacionais passaram a receber terrenos e benefícios para se instalar no país como a importação de carros novos se ampliou.

A estabilidade interna da moeda brasileira provocou um outro efeito de grande repercussão popular: o restabelecimento do crédito que tinha desaparecido quase que totalmente com a inflação galopante.

Esses milagres mantiveram alto o prestígio de Fernando Henrique perante a opinião pública até sua reeleição em 1998. Ele tinha se elegido em 1994 derrotando Lula já no primeiro turno, com 54% dos votos. E se reelegeu, em 1998, da mesma forma, com 53% dos votos, na primeira votação.

A reeleição foi uma violação das regras republicanas do país. Há suspeitas graves de que deputados venderam seus votos (artigo nas páginas de 22 a 25). Mas nada disso parecia ter muita importância naquela conjuntura.



A burguesia traída

Já no final de 1996, no entanto, o milagre de FHC começava a falhar. Em dezembro daquele ano, as reservas brasileiras começaram a cair novamente. Em janeiro de 1997, houve nova crise no mercado de capitais global, a chamada Crise da Ásia. E o movimento líquido de capitais para o Brasil voltou a ficar negativo: menos 350 milhões de dólares. O Banco Central tornou a receitar a medicina de sempre: mais juros. E o governo passou a incentivar ainda mais a tomada de dinheiro no exterior. A análise da privatização da Vale do Rio Doce, ocorrida em maio de 1997, ajuda a compreender essa conjuntura.

O governo decidiu vender o controle da Vale por 3,2 bilhões de dólares. Dois grupos foram incentivados a fazer o negócio, o de Antônio Ermírio de Morais, dono da Votorantim, e o de Benjamin Steinbruch, que já havia comprado a Companhia Siderúrgica Nacional. No fundo, ganhava quem conseguisse trazer mais moeda estrangeira. Ganhou Steinbruch, que conseguiu trazer para o país 1,6 bilhão de dólares – 1,2 bilhão que tomou emprestado do Nations Bank (hoje Bank of America) e mais 400 milhões de dólares que conseguiu de sócios para o negócio. Entre esses parceiros estavam George Soros – representado por Armínio Fraga, seu operador para os países emergentes –, o próprio Nations e duas grandes casas financeiras de Wall Street, Goldman Sachs e a Lehman Brothers. Para assegurar que Steinbruch tivesse o controle da companhia, o governo fez com que o BNDES e a Previ, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil, manobrado pelo Palácio do Planalto, mantivessem fora da Valepar, a companhia criada por Steinbruch para controlar a Vale, parte das ações ordinárias que tinham na empresa e que, juntas, dariam ao Estado mais de 50% do controle do capital da companhia. Até hoje esse esquema se mantêm: embora tenha maioria das ações ordinárias – de controle – da Vale, o governo transfere sua direção para a iniciativa privada.

Outra história sintomática desse período de desespero por dólares é contada pelo ex-banqueiro José Eduardo Andrade Vieira, que se sente traído por Fernando Henrique no episódio da venda de seu banco, o Bamerindus, aos ingleses do Hong Kong and Shanghai Banking Corporation, em 1997. Andrade Vieira foi um dos primeiros a acreditar em FHC. No início da sua primeira campanha para presidente, o então senador estava lá embaixo nas pesquisas. Lula tinha grande vantagem e FHC não encontrava doadores. Seu escritório político ficou ameaçado de fechamento, porque não tinha dinheiro sequer para pagar as secretárias. O banqueiro garantiu a sobrevivência da candidatura doando a FHC 800 mil reais.

Em 1997, a crise financeira levou à liquidação e à venda de sete bancos brasileiros de grande porte – Bamerindus, Excel-Econômico, Banco Geral de Comércio, Noroeste, América do Sul e Real. Andrade Vieira, na época, procurou Fernando Henrique junto com um banqueiro brasileiro com o qual iria associar-se na perspectiva de salvar o Bamerindus. O presidente disse-lhe, no entanto, que nada poderia fazer. De fato, FHC não aceitou a proposta de salvar o Bamerindus com capital nacional porque a prioridade oficial era vender empresas estatais e empresas privadas nacionais ao capital estrangeiro, e não aos nacionais, para que entrassem dólares no país para cobrir os buracos do balanço de pagamentos.

Essa política explica um dos mais curiosos traços do governo FHC: embora tenha sido eleito duas vezes como o homem da burguesia brasileira que iria salvar o país das ameaças representadas pelo candidato dos trabalhadores, Lula, de certo modo ele traiu a burguesia nacional.

Sabe-se que o Regime Militar – 1964-1984 – levou ao poder grupos ligados ao capital estrangeiro que conspiravam contra o getulismo nacionalista desde os anos 40. Esses grupos militares eram francamente favoráveis à elevação da participação do capital estrangeiro na economia do país. O primeiro surto de crescimento econômico sob os militares (1968-1974), aliás, deu-se em boa parte graças ao investimento direto estrangeiro. Os militares, além disso, embora de início tenham criado uma multidão de estatais, após a quebra do país, em 1982, começaram a desmantelar o setor estatal e a promover um crescimento da participação estrangeira.



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