1. Preste atenção nas cores, na distribuição das figuras no espaço, na forma de representar a cena, no uso da perspectiva e no recorte temático. Identifique as semelhanças e as diferenças entre as obras de Jan Gossaert Mabuse e Antonio Allegri da Correggio.
A história de Dânae faz parte da mitologia grega. Ela era filha de Acrísio, rei de Argos, e de Eurídice.
O rei, um dia, foi consultar um oráculo, o qual anunciou que seu futuro neto, filho de Dânae, o mataria. Na tentativa de impedir que a profecia se cumprisse, o rei mandou aprisionar a jovem princesa em uma torre, impedindo-a de ter contato com qualquer homem e, assim, de lhe dar um herdeiro.
Apesar de todos os cuidados do rei, o poderoso Zeus apaixonou-se pela bela Dânae e, para possuí-la, transformou-se em chuva de ouro, entrou na torre por uma fenda no teto e engravidou-a. Desse encontro nasceria o herói Perseu.
oráculo: na Antiguidade, divindade a quem se consultava para obter uma resposta sobre uma questão pessoal.
Antonio da Correggio/Galleria Borghese, Roma, Itália
Antonio da Correggio. Dânae, c. 1530. Óleo sobre tela. Dimensões: 158 cm × 189 cm.
No período clássico da arte grega, algumas noções de perspectiva e de sombreamento já eram utilizadas na pintura de afrescos. Porém, essas obras foram perdidas com o tempo e sobre elas restaram apenas as descrições feitas por seus contemporâneos ou algumas possíveis cópias reproduzidas pelos romanos em seus murais.
afresco: técnica de pintura usada em paredes ou tetos.
As pinturas em cerâmica, por outro lado, são exemplo de um tipo de arte comum na Antiguidade grega e que resistiu ao tempo. Hoje, podemos encontrar um grande número de cerâmicas antigas ornamentadas com imagens que aludem, grande parte das vezes, aos mitos gregos.
2. Observe agora esta pintura em cerâmica e compare-a com as pinturas anteriores. Preste atenção na representação dos corpos e dos rostos, no uso das cores, nos diferentes tipos de material sobre os quais foram feitas as pinturas aqui analisadas. Sob diferentes aspectos, a pintura feita em cerâmica não poderia ser considerada parte de um mesmo conjunto em que estariam as obras de Mabuse e de Correggio.
Apoiando-se em suas observações, dê exemplos que expliquem essa afirmação.
Vaso grego em forma de sino invertido, denominado cratera, produzido por volta de 450 a.C. Na imagem, a representação de Dânae recebendo Zeus em forma de chuva de ouro.
Veja outra forma de expressão artística.
Futura Press/Carlos Jr
Cena do espetáculo O Quebra-Nozes montado pelo balé Bolshoi e apresentado em festival de dança em Joinville (SC), 2015. Esse balé, montado então com coreografia de Vladimir Vassiliev (1940-), foi composto por Tchaikovsky (1840--1893) e enredo inspirado na versão de Alexandre Dumas, pai, (1802-1870) para o conto infantil “O Quebra-Nozes e o rei dos camundongos” .
Trata-se da apresentação de um balé clássico. O bailarino clássico precisa dominar as técnicas próprias desse tipo de arte. Ao apresentar um trabalho, ele deverá seguir uma coreografia rígida, previamente definida, além de manter uma postura ereta, com movimentos mais verticais e simétricos.
Entretanto, há outras formas de dança nas quais é possível explorar uma amplitude maior de movimentos, ainda que exija do bailarino que tenha uma formação tão profunda e disciplinada quanto a exigida no balé clássico.
Observe a cena ao lado. Ela pertence a um balé do início do século XX recriado, décadas depois, pela bailarina e coreógrafa Pina Bausch (1940-2009), considerada uma revolucionária na arte da dança por abolir elementos do balé clássico em coreografias fundamentadas nas próprias experiências e nas experiências de vida dos bailarinos.
LatinStock/Rue des Archives/Marion Valentine
Cena do balé A sagração da primavera, com coreografia de Pina Bausch, no Ópera de Paris, 1997. Esse balé foi criado por Igor Stravinsky (1882-1971) com coreografia de Vaslav Nijinski (1889--1950), um dos mais célebres bailarinos de seu tempo.
Em suas apresentações, os bailarinos podem correr pelo palco, falar, gritar e repetir à exaustão os mesmos passos, pois esses movimentos fazem parte da coreografia e têm um ritmo próprio. Essas peças de dança, quando começaram a ser apresentadas, causaram imenso estranhamento e somente anos mais tarde a nova linguagem artística foi reconhecida.
3. Observe as fotografias dos dois tipos de dança (p. 26 e 27). Comparada com as imagens de um balé clássico, a cena da coreografia de Pina Bausch apresenta diversos elementos que chamam a nossa atenção. Quais são eles?
4. Em sua opinião, esses elementos revelam um princípio de continuidade ou de ruptura com os padrões exigidos no balé clássico? Explique sua resposta.
5. Ainda em sua opinião, considerando as demais obras estudadas, podemos afirmar que a arte também é feita de rupturas? Comente sua resposta.
6. Faça uma síntese: a que conclusões sobre a arte e o fazer artístico é possível chegar a partir da leitura das imagens feita nas atividades propostas?
Literatura: legado e ruptura
Considerada uma forma de arte, aquela que usa a linguagem verbal como expressão, a literatura também reflete uma época, a história e a visão de mundo de um autor, além de receber o legado das obras precedentes e, muitas vezes, romper com a forma literária vigente. Leia os dois textos a seguir.
Odisseia
Livro I
Homero
Fala-me, Musa, do homem astuto que tanto vagueou,
depois que de Troia destruiu a cidadela sagrada.
Muitos foram os povos cujas cidades observou,
cujos espíritos conheceu; e foram muitos no mar
os sofrimentos por que passou para salvar a vida,
para conseguir o retorno dos companheiros a suas casas.
Mas a eles, embora o quisesse, não logrou salvar.
Não, pereceram devido à sua loucura,
insensatos, que devoraram o gado sagrado de Hipérion,
o Sol — e assim lhes negou o deus o dia do retorno.
Destas coisas fala-nos agora, ó deusa, filha de Zeus.
[...]
HOMERO. Odisseia. Tradução e prefácio de Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011. Canto I, p. 119.
Musa: uma das nove deusas da mitologia antiga que inspiravam e amparavam os artistas.
lograr: conseguir.
O poema Odisseia foi escrito, provavelmente, no fim do século VIII a.C. É tradicionalmente atribuído ao grego Homero, poeta cuja existência tem sido questionada ao longo do tempo. Trata-se de uma epopeia — longo poema narrativo — que conta as aventuras do herói Ulisses (ou Odisseu). Após sair vitorioso da Guerra de Troia, Ulisses parte em uma nau com outros tripulantes de volta para seu reino, em Ítaca, onde o esperam sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco.
©wikimEdia commons/marie-lun nguyan
Cópia romana de retrato de Homero, século II d.C. Escultura em mármore. Altura: 53 cm. Supõe-se que Homero tenha nascido no século IX a.C., na região de Esmirna, que hoje pertence à Turquia.
Os lusíadas
Canto I
Luís Vaz de Camões
As armas e os barões assinalados
que, da ocidental praia lusitana,
por mares nunca de antes navegados
passaram ainda além da Taprobana,
e em perigos e guerras esforçados,
mais do que prometia a força humana,
entre gente remota edificaram
novo reino, que tanto sublimaram;
[...]
Cessem do sábio grego e do troiano
as navegações grandes que fizeram;
cale-se de Alexandro e de Trajano
a fama das vitórias que tiveram;
que eu canto o peito ilustre lusitano,
a quem Netuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
que outro valor mais alto se alevanta.
[...]
CAMÕES, Luís Vaz de. Os lusíadas. São Paulo: Ática, 2004.
armas: feitos de guerra.
barão: varão.
assinalado: ilustre; que se distinguiu.
ocidental praia lusitana: costa oeste de Portugal, que dá para o oceano Atlântico.
Taprobana: antigo nome do Sri Lanka.
sublimar: tornar sublime, engrandecer.
cessar: dar fim, deixar de existir.
sábio grego: o herói Ulisses, personagem do poema épico grego Odisseia, de Homero.
troiano: o herói Eneias, personagem do poema épico Eneida, do romano Virgílio (70 a.C. a 19 a.C.).
Alexandro: Alexandre Magno (356 a.C. a 323 a.C.), rei da Macedônia.
Trajano: imperador romano que governou de 98 d.C. a 117 d.C.
Netuno: na mitologia romana, deus do mar.
Marte: na mitologia romana, deus da guerra.
Musa antiga: Calíope, a musa da poesia épica.
Publicado pela primeira vez em 1572, a epopeia Os lusíadas foi escrita pelo português Luís Vaz de Camões. O poema trata da viagem do navegador Vasco da Gama às Índias entre 1497 e 1499.
Daniel Klein. 2015. Digital.
Retrato do escritor português Luís Vaz de Camões (1524-1580), considerado um dos maiores poetas da literatura ocidental.
1. Os dois fragmentos são de obras, autores e épocas diferentes. Entretanto há, entre esses fragmentos, forte relação formal e temática. Sabe-se que a primeira obra serve como modelo e fonte inspiradora para a segunda e, na leitura do poema de Camões, é possível percebermos admiração e respeito pela obra anterior.
-
O que, na produção do poema de Camões, pode evidenciar a admiração e o claro objetivo do autor português de ter seu antecessor como modelo?
-
Destaque do fragmento de Os lusíadas versos que tornam claro o desejo do autor de superar os autores que o antecederam.
2. Em que outras expressões artísticas você observa um movimento de continuidade ou de retomada, por admiração, de modelos anteriores? Apresente exemplos.
Leia agora o poema ao lado.
Publicado em 1984, “Pós-tudo” é um poema concreto, tendência literária que se desenvolveu a partir dos anos 1950. Pode-se considerar que o poema fala de si e do lugar que o eu lírico pensa que seu texto ocupa em relação às produções que o antecederam.
Augusto de Campos. Pós-tudo (1984). in: _____. Despoesia. são paulo: Perspectiva, 1994. ©Augusto de Campos
CAMPOS, Augusto de. Despoesia. São Paulo: Perspectiva, 1994.
3. Em sua opinião, considerando o estudo feito até aqui, a que pode se referir o termo “tudo” do poema de Augusto de Campos?
4. Você percebe na composição do poema “Pós-tudo” elementos que sugiram ruptura com expressões literárias anteriores a ele? Se sim, quais são esses elementos?
Alguns textos trazem grande parte do legado dos trabalhos anteriores. Outros rompem quase completamente com a forma artística que os antecedeu. Há entre eles, no entanto, elementos comuns que os colocam na categoria de texto literário, algo que obriga o leitor a lê-los de um modo diferente daquele adotado na leitura de uma notícia de jornal, por exemplo.
A seguir, comentamos o que define um texto como literário e de que modo podemos lê-lo.
Texto literário e texto não literário
Dependendo da forma como a língua é utilizada, a comunicação pode acontecer de maneira mais direta ou menos direta. É mais direta quando as palavras são empregadas em seu sentido imediato, cotidiano, aquele compartilhado pela maior parte das pessoas pertencentes à comunidade da qual o falante faz parte. E é menos direta quando as palavras são organizadas de tal modo que se pode extrair delas e de sua composição um sentido novo, resultado da recriação de uma realidade, da tradução artística de uma percepção. Nesse caso, a língua tem seu potencial de significação bastante ampliado. Mas vamos procurar compreender como isso acontece na prática.
Leia os textos a seguir. O primeiro é um trecho da obra A felicidade, desesperadamente, do filósofo francês André Comte-Sponville (1952-). O segundo é um poema de Ricardo Reis, um dos heterônimos de Fernando Pessoa (1888-1935).
heterônimo: outro nome que um escritor empresta a certas obras suas, atribuindo a esse autor por ele criado características literárias próprias, diferentes das do criador.
A felicidade, desesperadamente
André Comte-Sponville
[...] A felicidade que queremos, a felicidade que os gregos chamavam de sabedoria, que não se obtém por meio de drogas, mentiras, ilusões, é uma felicidade que se obteria com certa relação com a verdade: uma verdadeira felicidade ou uma felicidade verdadeira.
Por que a sabedoria é necessária? Porque não somos felizes. Se não somos felizes, nem sempre é porque tudo vai mal. Também acontece, e com maior frequência, não sermos felizes quando tudo vai mais ou menos bem. O que nos falta para ser feliz, quando temos tudo para ser e não somos? Falta-nos a sabedoria. Em outras palavras, saber viver, não no sentido em que se fala do savoir-vivre como boa educação, mas no sentido profundo do termo, no sentido em que Montaigne dizia que “não há ciência tão árdua quanto a de saber viver bem e naturalmente esta vida”. Essa ciência não é uma ciência no sentido moderno do termo. É antes uma arte ou um aprendizado: trata-se de aprender a viver; apenas isso é filosofar de verdade. Filosofar serve para aprender a viver, se possível antes que seja tarde demais, antes que seja absolutamente tarde demais. Da mesma forma como afirma Epicuro, nunca é “nem cedo demais nem tarde demais” para filosofar, já que nunca é nem cedo nem tarde demais para “assegurar a saúde da alma”, em outras palavras para aprender a viver ou para ser feliz.
COMTE-SPONVILLE, André. Tradução de Eduardo Brandão. A felicidade, desesperadamente. São Paulo: Martins, 2005.
savoir-vivre: expressão francesa que designa o conjunto de regras da vida em sociedade, como polidez e boas maneiras; etiqueta.
(Michel de) Montaigne: filósofo francês (1533-1592), autor dos Ensaios, obra de reflexão sobre si mesmo e sobre o mundo que o cerca.
Epicuro: filósofo grego, nascido em 341 a.C. e falecido em 270 a.C.
1. Com que finalidade, provavelmente, esse texto foi escrito?
2. A fim de organizar as ideias de seu texto e tornar evidente seu objetivo, o autor relacionou a felicidade a outra virtude. Qual? Segundo o texto, qual é a relação entre elas?
3. A forma usada para comunicar as ideias do texto (a seleção de palavras, a construção das frases, a organização das informações) é direta, objetiva? Ou o texto é construído de tal maneira que permite interpretações diferentes do que está explicitamente dito?
4. Leia agora o poema de Ricardo Reis e compare-o com o texto “A felicidade, desesperadamente”.
Cada um cumpre o destino que lhe cumpre
Ricardo Reis
Cada um cumpre o destino que lhe cumpre,
E deseja o destino que deseja;
Nem cumpre o que deseja,
Nem deseja o que cumpre.
Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;
Que a sorte nos fez postos
Onde houvemos de sê-lo.
Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube do que não coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.
PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos e outros poemas. São Paulo: Cultrix, 1991. p. 134.
Fado: destino, sorte.
Do poema de Ricardo Reis pode-se extrair também um tema e uma intencionalidade. Para isso, porém, é necessário compreender os sentidos que estão por trás da organização geral do texto. Pensando nisso, responda: o que podem significar os versos a seguir?
“Como as pedras na orla dos canteiros
O Fado nos dispõe, e ali ficamos;”
5. Segundo o poema, há compatibilidade entre o destino cumprido e o destino desejado?
6. Os quatro últimos versos do poema, ao usar duas formas verbais no imperativo, estabelecem um tom de aconselhamento, de sugestão para a vida.
“Não tenhamos melhor conhecimento
Do que nos coube do que não coube.
Cumpramos o que somos.
Nada mais nos é dado.”
-
Qual o conselho proposto nesses versos?
-
Em sua opinião, esse conselho pretende ser uma resposta a que tipo de dificuldade ou de demanda humana?
7. Releia as respostas dadas às questões anteriores antes de responder às perguntas a seguir.
a) A intencionalidade dos dois textos é parecida? Explique.
-
Quanto à forma de apresentar o tema, em que os dois textos se diferenciam?
c) Qual dos dois textos pode ser considerado literário: “A felicidade, desesperadamente” ou “Cada um cumpre o destino que lhe cumpre”?
Quando escrevemos ou falamos, podemos pretender que nosso texto, oral ou escrito, tenha o menor grau possível de ambiguidade, de duplo sentido. Ou seja, nossa intenção pode ser simplesmente informar um conteúdo ou expressar um sentimento, sem que aquilo que falamos seja entendido de mais de uma maneira e sem que evoque outras ideias ou outros sentimentos. Quando é esse o nosso objetivo, empregamos as palavras em seu sentido mais imediato e literal, o sentido denotativo. Textos como a notícia, a reportagem, a bula de um medicamento, o texto didático, a ata de uma reunião são exemplos de produções em que se reconhece como objetivo primeiro o compartilhamento de uma determinada informação. A esses textos podemos chamar de não literários.
Em outra direção vão os textos que têm na multiplicidade de sentidos sua característica mais marcante. O emprego da língua de forma pouco usual, o exercício da imaginação na criação de enredos inesperados, a recriação das mais variadas experiências, a composição de um universo ficcional envolvendo situações que não correspondem necessariamente à vida cotidiana tornam esses textos a expressão da capacidade humana de atribuir novos significados à realidade. A eles chamamos de literários.
Conheça a seguir alguns dos aspectos implicados na leitura do texto literário.
Na Inglaterra do século XVIII, o conceito de literatura não se limitava, como costuma ocorrer hoje, aos escritos “criativos” ou “imaginativos”. Abrangia todo o conjunto de obras valorizadas pela sociedade: filosofia, história, ensaios e cartas, bem como poemas. Não era o fato de ser ficção que tornava um texto “literário” — o século XVIII duvidava seriamente se viria a ser literatura a forma recém-surgida do romance —, e sim sua conformidade a certos padrões de “belas letras”. Os critérios do que se considerava literatura eram, em outras palavras, francamente ideológicos: os escritos que encerravam os valores e “gostos” de uma determinada classe social eram considerados literatura, ao passo que uma balada cantada nas ruas, um romance popular, e talvez até mesmo o drama, não o eram.
EAGLETON, Terry. Teoria da literatura: uma introdução. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
ideológico: relativo ao conjunto das ideias predominantes em determinada época, sociedade, classe social, etc.
Para ler o texto literário
Poesia e prosa
Leia os dois textos dos quadros a seguir. O nome dos autores foi omitido propositadamente.
Quadro 1
Para formiga ser, quer-se
chão-cheiro.
trajecto formigabiríntico.
granulação com patas.
tapete para asas caintes.
aburacações várias
para laboriosas existenciações.
avulsas corridinhas enternecendo mundos
e um medonho desconhecimento para egos...
Para formiga ser, quer-se
chão-cheiro. trajecto formigabiríntico. granulação com patas. tapete para asas caintes. aburacações várias para laboriosas existenciações. avulsas corridinhas enternecendo mundos e um medonho desconhecimento para egos...
EDIção de Arte/Arquivo da editora
Quadro 2
Progresso e retrocesso
Inventaram um vidro que deixava passar as moscas. A mosca chegava, empurrava um pouco com a cabeça e pop, já estava do outro lado. Enorme, a alegria da mosca.
Tudo foi estragado por um sábio húngaro, quando descobriu que a mosca podia entrar mas não podia sair, ou vice-versa, por causa de quem sabe lá que besteira na flexibilidade das fibras daquele vidro que era muito fibroso. Em seguida inventaram o caça-moscas com um torrão de açúcar dentro, e muitas moscas morriam desesperadas. Assim acabou toda confraternização possível com estes animais dignos de melhor sorte.
Progresso e retrocesso
Inventaram um vidro que deixava passar as moscas.
A mosca chegava, empurrava um pouco com a cabeça e pop,
já estava do outro lado.
Enorme, a alegria da mosca.
Tudo foi estragado por um sábio húngaro,
quando descobriu que a mosca podia entrar mas não podia sair,
ou vice-versa,
por causa de quem sabe lá que besteira na flexibilidade das fibras daquele vidro que era muito fibroso.
Em seguida inventaram o caça-moscas com um torrão de açúcar dentro,
e muitas moscas morriam desesperadas.
Assim acabou toda confraternização possível com estes animais dignos de melhor sorte.
-
Qual lhe parece ser a forma original do texto apresentado no quadro 1? E qual a forma original do texto no quadro 2?
-
Que elementos dos textos você observou para chegar a essa conclusão?
c) Ainda que haja formas mais convencionais para a escrita em prosa e em poesia, seria possível a produção de textos em prosa com características poéticas e textos em poesia com características de prosa? Explique.
O texto do quadro 1 é do angolano Ondjaki (1977-) (Há prendisajens com o xão: o segredo húmido da lesma e outras descoisas, editora Palas, 2011). O texto do quadro 2 é do argentino Julio Cortázar (1914-1984) (Histórias de cronópios e de famas, editora Civilização Brasileira, 1983). O texto literário pode ser expresso de dois modos: em prosa ou em poesia. Para diferenciar as duas formas, a princípio, basta associar:
▸ à prosa a apresentação do conteúdo em linhas contínuas e a organização do texto em parágrafos;
▸ à poesia a apresentação do conteúdo em versos e a organização em estrofes. Em muitos casos, será possível encontrar também rimas e certa ordenação: das sílabas poéticas, da quantidade de sílabas — que pode ser fixa ou não — e da alternância de sílabas átonas e tônicas.
Quanto ao conteúdo, a poesia é a tradução, pelo eu lírico, de uma visão particular, subjetiva de um evento. O poema reúne e apresenta o mais importante daquilo que o poeta deseja expressar, como se fosse uma pintura ou uma foto que capta um momento, uma emoção, uma reflexão.
No entanto, também é possível encontrar textos poéticos escritos em prosa e verdadeiras narrativas escritas em versos, como é o caso dos poemas épicos.
Além da diferença entre prosa e verso, é fundamental identificar um recurso que, embora não esteja presente em toda produção literária, é um diferencial na expressão da escrita artística: a conotação.
Conotação
Leia e compare os textos a seguir.
Calvin & Hobbes, Bill Watterson © 1992 Watterson/Dist. by Universal Uclick
WATTERSON, Bill. Felino selvagem, psicopata e homicida. São Paulo: Best News, 1996.
Canção de outono
Paul Verlaine
Estes lamentos
Dos violões lentos
Do outono
Enchem minha alma
De uma onda calma
De sono.
E soluçando,
Pálido, quando
Soa a hora,
Recordo todos
Os dias doídos
De outrora.
E vou à toa
No ar mau que voa.
Que importa?
Vou pela vida,
Folha caída
E morta.
©iStockphoto.com/Anna_Guz
In: LARANJEIRA, Mário. Poética da tradução: do sentido à significância. São Paulo: Edusp, 1993. Col. Criação & crítica, v. 12.
1. Em cada texto há um lamento. De que se lamenta o garoto Calvin? E o eu lírico do poema?
2. Releia o primeiro quadrinho da tira de Calvin e verifique o emprego das palavras ar e folhas. Depois, releia a última estrofe do poema “Canção de outono” e reflita sobre o sentido dessas mesmas palavras. Considere o sentido geral do poema e responda:
a) O que você entende por “ar mau que voa”?
b) Explique o sentido da palavra folha nos dois últimos versos do poema.
As palavras ar e folhas foram empregadas por Calvin em seu sentido direto, de dicionário, o mais conhecido pela maioria dos falantes da nossa língua. A compreensão de sua fala se dá, portanto, de maneira imediata. Já no poema, se essas palavras forem lidas apenas em seu sentido literal, o texto perderá muito em expressividade. Por exemplo, nos versos “Folha caída / E morta”, o eu lírico não fala simplesmente de uma folha que ele possa ter visto, mas compara o percurso de sua vida ao dessa folha. Daí a necessidade de atribuir às palavras do poema novos sentidos (polissemia), que, embora diferentes do usual, podem ser confirmados pela significação geral do texto.
O texto literário permite mais de uma interpretação, porque nele as palavras podem ser empregadas em sentido conotativo, ou seja, sugerindo sentidos além do conceito literal dos termos. Assim, na tentativa de apresentar de modo singular um sentimento ou uma observação da realidade, o escritor procura:
▸ ir além dos limites do sentido comum das palavras, como você pôde observar no emprego dos vocábulos ar e folha no poema de Paul Verlaine;
▸ ir além das possibilidades reais e concretas de representação do possível, tornando verdade no interior de sua produção artística aquilo que no mundo real é inviável, como no conto de Julio Cortázar, que sugere ter existido um tipo de vidro que poderia ser atravessado por uma mosca, o que concretamente não poderia acontecer, mas que, no interior da narrativa, torna-se incontestável.
Literatura e cultura
O texto que você vai ler a seguir é a parte inicial de um conto escrito em 1886 pelo escritor russo Liev Tolstói (1828-1910). Observe que, apesar de ter sido criado há tantos anos e num país tão distante, seu tema ainda é atual.
A morte de Ivan Ilitch
Liev Tolstói
[...]
— Senhores! — disse Piotr Ivânovitch. — Morreu Ivan Ilitch.
— Será possível?
— Aqui está, leia — disse ele a Fiódor Vassílievitch, entregando-lhe o jornal fresco, ainda cheirando a tinta.
Havia ali a seguinte notícia, envolvida por uma tarja preta: “Prascóvia Fiódorovna Golovina comunica, com dor na alma, a seus parentes e conhecidos o falecimento do seu amado esposo, o juiz Ivan Ilitch Golovin, ocorrido em 4 de fevereiro do corrente ano de 1882. O féretro sairá sexta-feira, à uma da tarde”.
Ivan Ilitch era colega dos cavalheiros ali reunidos, e todos gostavam dele. Estivera doente algumas semanas; dizia-se que a sua doença era incurável. Não fora substituído no cargo durante a moléstia, mas sugeria-se que, no caso da sua morte, seria provavelmente substituído por Aleksiéiev, e este, no seu cargo, por Vínikov ou Stábel. De modo que, ao ouvirem a notícia da morte de Ivan Ilitch, o primeiro pensamento de cada um dos que estavam reunidos no gabinete teve por objeto a influência que essa morte poderia ter sobre as transferências ou promoções tanto dos próprios juízes como dos seus conhecidos.
“Agora, certamente receberei o posto de Stábel ou de Vínikov — pensou Fiódor Vassílievitch. — Isto já me foi prometido há muito tempo, e esta promoção significa um aumento de oitocentos rublos, além da chancelaria.”
“Será preciso agora pleitear que meu cunhado seja transferido de Kaluga — pensou Piotr Ivânovitch —, minha mulher ficará muito contente. E não se poderá mais dizer que eu nunca fiz nada pelos parentes dela.”
— Bem que eu pensava que ele não se levantaria
mais — disse Piotr Ivânovitch. — É pena.
[...]
TOLSTÓI, Liev. A morte de Ivan Ilitch. Tradução de Boris Schnaiderman. São Paulo: Editora 34, 2006.
Carla Pilla/Arquivo da editora
Ilya Repin/Galeria Estatal Tretyakov, moscou, Rússia
Ilya Repin. Retrato de Liev Tolstói, 1887. Óleo sobre tela. Dimensões: 88 cm × 124 cm. Tolstói (1828-1910), escritor russo, é um dos maiores nomes da literatura mundial.
féretro: caixão de defunto.
rublo: a moeda usada na Rússia.
Para fazer uma comparação, leia agora um poema de Carlos Drummond de Andrade. O livro do qual tiramos esse texto foi publicado pela primeira vez em 1930. Atenção ao tema tratado.
Sociedade
Carlos Drummond de Andrade
O homem disse para o amigo:
— Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.
O amigo enfeitou a casa
e, quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.
O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.
Quando foi hora de sair,
o amigo disse para o homem:
— Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.
No caminho o homem resmunga:
— Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: — Que idiota.
— A casa é um ninho de pulgas.
— Reparaste o bife queimado?
O piano ruim e a comida pouca.
E todas as quintas-feiras
eles voltam à casa do amigo,
que ainda não pôde retribuir a visita.
Luciano Tasso/Arquivo da editora
ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Record, 1999.
1. Percebemos que os autores dos dois textos, mesmo sendo de lugares, épocas e estilos diferentes, trataram do mesmo tema. Que tema é esse?
2. Que forma literária cada um dos autores utilizou para apresentar sua história?
O texto literário traz consigo a carga cultural da sociedade e da época em que foi produzido.
Ao ler um romance, por exemplo, um leitor atento pode detectar nele indícios que revelem qual era a realidade do tempo e do lugar em que viveu o autor: como eram as relações sociais, políticas, familiares e quais crenças religiosas e descobertas científicas estavam em vigor.
As marcas de época em uma obra literária não a impedem, no entanto, de ser sempre atual. Isso porque há temas que são universais e que dizem respeito às pessoas de qualquer lugar ou tempo.
Gêneros literários
A palavra gênero é usada para diferentes classificações. No caso dos gêneros literários, a classificação é mais específica e própria da literatura. Segundo essa organização, proposta pelo filósofo grego Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.), os textos literários se classificariam em três gêneros: épico, lírico e dramático.
Gênero épico
Esse gênero, hoje, engloba as narrativas de maneira geral. Na concepção clássica, entretanto, os únicos textos considerados épicos eram as epopeias, que, como você viu, são longos poemas narrativos em que o poeta conta as ações de um herói. Na literatura ocidental, os primeiros grandes poemas épicos são a Ilíada, que conta a história da Guerra de Troia, e a Odisseia, ambos atribuídos a Homero.
Com o tempo foram surgindo outros gêneros narrativos, como o romance, a novela e o conto, que também podem ser classificados como épicos, já que narram as ações de personagens que, de uma forma ou de outra, se apresentam como heróis. O romance, em especial, é considerado o herdeiro da epopeia, ou a epopeia dos tempos modernos.
1. Prepare a leitura oral expressiva do trecho a seguir.
No trecho ao lado o herói Ulisses (ou Odisseu) finalmente retorna a sua terra, a ilha de Ítaca. Quer reconquistar seu reino, sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco, que a princípio não o reconhece. A deusa Atena orienta Ulisses a contar o segredo a seu filho, mas, antes, veste-o com a nova capa e túnica, aumenta-lhe a estatura e restitui sua juventude.
Odisseia
Homero
“Tu não és Ulisses, o meu pai. És um deus que me enfeitiças,
para que depois eu chore e sofra ainda mais.
Não há homem mortal que consiga tal proeza pela sua
inteligência, a não ser que um deus viesse em seu auxílio,
para facilmente à sua vontade o fazer novo ou velho.
Mesmo agora eras um velho, vestido de farrapos.
Agora pareces um dos deuses que o vasto céu detêm.”
Respondendo-lhe assim falou o astucioso Ulisses:
“Telêmaco, não te fica bem pasmares-te em demasia
por teres teu pai de volta, nem ficares assim surpreendido.
Para este lugar nunca virá mais nenhum Ulisses:
esse homem sou eu; e depois de muito sofrer e vaguear
chego à minha pátria no vigésimo ano depois que parti.
Tudo isto é obra de Atena que comanda as hostes,
que me dá a forma que entende: pois é capaz
de fazer de mim um mendigo, ou então de me transformar
num jovem com belas roupas em cima do corpo.
É tão fácil para os deuses que o vasto céu detêm
enaltecerem como rebaixarem um homem mortal.”
HOMERO. Odisseia. Tradução e prefácio de Frederico Lourenço. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2011. Canto XVI, p. 392-393.
pasmar-se: assombrar-se, admirar-se.
hoste: a força armada; a tropa, o exército.
Gênero lírico
Na Antiguidade, lírico era o texto composto para ser cantado ou declamado com o acompanhamento da lira, um antigo instrumento de cordas. Da união entre texto e música surgiu o poema, o texto que tem ritmo, harmonia sonora.
Com o tempo, os poemas líricos deixaram de ser acompanhados por instrumento musical, mas não se abandonou a preocupação com a sonoridade dos versos, recurso para a expressão dos sentimentos e das emoções do eu lírico. A poesia lírica não narra acontecimentos e aventuras como os poemas épicos. Exprime o mundo interior do eu lírico. Ainda que se trate de um poema de denúncia social, por exemplo, o que se expressa é a visão que o eu lírico tem do problema, e não os fatos objetivos.
2. Leia este poema de Fernando Pessoa e, depois, responda à questão.
Tenho tanto sentimento
Fernando Pessoa
Tenho tanto sentimento
que é frequente persuadir-me
de que sou sentimental,
mas reconheço, ao medir-me,
que tudo isso é pensamento,
que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
uma vida que é vivida
e outra vida que é pensada,
e a única vida que temos
é essa que é dividida
entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
e qual errada, ninguém
nos saberá explicar;
e vivemos de maneira
que a vida que a gente tem
é a que tem que pensar.
Carla Pilla/ARQUIVO DA EDITORA
PESSOA, Fernando. Poemas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
Copie no caderno as afirmações corretas em relação ao texto de Pessoa.
a) Nesse poema, o eu lírico diz que, para ele, o mundo é dividido em dois: o das sensações e o do pensamento.
b) Ao fazer uma autoanálise, o eu lírico conclui que seu sentimento é, na verdade, pensamento.
c) O eu lírico apresenta uma verdade comprovada pela ciência: o ser humano não tem sentimentos, apenas pensamentos.
d) O eu lírico apresenta uma visão particular da vida: trata-se do ponto de vista dele.
Gênero dramático
O gênero dramático, como sugere a origem grega do nome drama — que significa “fato, ação cênica” —, engloba os textos teatrais. Trata-se do gênero da arte da representação cênica. Se no gênero épico há a presença de um narrador e no gênero lírico a voz do eu, o gênero dramático caracteriza-se pela ação, que se desenrola no palco.
3. Junte-se a alguns colegas e façam uma leitura interpretada do trecho da peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, reproduzido a seguir. Antes de iniciar sua leitura, compreenda a situação em que se encontram os personagens e busquem a melhor entonação para cada fala.
Romeu e Julieta
William Shakespeare
[...]
Julieta — Vem cá, ama. Quem é aquele cavalheiro?
Ama — O filho e herdeiro do velho Tibério.
Julieta — E quem é aquele que agora está saindo?
Ama — Ora, aquele acho que é o jovem Petrúquio.
Julieta — E aquele que segue mais atrás, aquele que não dançou?
Ama — Não sei.
Julieta — Vai, pergunta-lhe o nome. Se for casado, meu leito de núpcias será meu túmulo.
Ama — Seu nome é Romeu, e é um Montéquio: filho único de seu grande inimigo.
Julieta — Meu único amor, nascido de meu único ódio! Cedo demais o vi, ignorando-lhe o nome, e tarde demais fiquei sabendo quem é. Monstruoso para mim é o nascedouro desse amor, que me faz amar tão odiado inimigo.
Ama — Mas o que é isso? O que é isso?
Julieta — Um poema que aprendi agora há pouco, com um rapaz com quem estive dançando.
[Saem]
SHAKESPEARE, William. Romeu e Julieta. Tradução de Beatriz Viegas-Faria. São Paulo: Nova Cultural, 2003.
A família de Romeu Montéquio e a de Julieta Capuleto são inimigas. Em uma festa na casa dos Capuleto, os dois jovens se aproximam, dançam escondidos e se apaixonam, sem se conhecerem. Ao fim da festa, Julieta faz perguntas para sua ama.
©iStockphoto.com/Georgios Kollidas
William Shakespeare (1564-1616), dramaturgo, poeta, ator inglês. Trata-se de um dos maiores nomes do teatro ocidental. Suas peças ainda são encenadas e discutidas em diversos lugares do mundo.
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4. Você conhece outras obras do gênero dramático? Já assistiu a alguma delas? Dê exemplos.
Aproveite para...
... ler
©editora 34/reprodução
A morte de Ivan Ilitch, de Liev Tolstói, tradução de Boris Schnaiderman, editora 34.
Novela que narra a história de Ivan Ilitch e a sua busca, depois da percepção de uma doença, por momentos que tivessem dado algum sentido a sua vida.
©editora brasiliense/reprodução
O que é arte, de Jorge Coli, editora Brasiliense.
Nesse livro, o autor apresenta uma discussão sobre os grandes problemas que encontramos na tentativa de definição do conceito de arte e de obra de arte.
©editora odysseus/reprodução
A Odisseia, adaptação de Menelaos Stephanides, editora Odysseus.
Adaptação desse épico que é um dos mais importantes textos da literatura universal.
... assistir a
Star wars, de George Lucas (EUA, 1977-2005).
Épico moderno em seis episódios: a formação de um império galáctico e a resistência rebelde a favor da volta à república.
unidade
1
Trovas e trovadores
Nesta unidade, você vai estudar a literatura de cordel e outras produções poéticas construídas em versos. Observará o uso da linguagem mais próxima da fala e seu caráter popular na construção de algumas modalidades poéticas. Você poderá observar a relação entre composições poéticas antigas e produções poéticas atuais. Poderá discutir formas da cultura popular e conhecer ou reconhecer alguns de seus mestres.
Objetivos
Ao final desta unidade, verifique o que você aprendeu em relação aos seguintes objetivos:
▸ Compreender a situação de produção do gênero cordel.
▸ Ler e interpretar textos do gênero cordel.
▸ Reconhecer aspectos da forma do poema e relacioná-los ao conteúdo do texto.
▸ Compreender o conceito de variedade linguística e aplicá-lo na leitura e na interpretação de diversos tipos de enunciado produzidos nas mais diferentes situações e por grupos sociais variados.
▸ Reconhecer e aplicar os recursos de sonoridade e ritmo na produção de poemas de cordel.
▸ Ler e comparar textos poéticos produzidos em contextos históricos distintos.
▸ Observar e discutir a relação entre o texto literário e seu interlocutor quando pertencem ao mesmo contexto histórico e quando pertencem a contextos distintos.
▸ Observar a postura do contador de histórias diante de seu público.
▸ Discutir modalidades da cultura popular e conhecer ou reconhecer alguns mestres responsáveis por sua divulgação.
©iStockphoto.com/Myatta
gilvan Samico/acervo do artista
Samico, Gilvan, João, Maria e o Pavão azul, xilogravura, 1960
Gilvan Samico. João, Maria e o pavão azul, 1960. Xilogravura. Dimensões: 24,5 cm 31 cm. Nessa xilogravura — desenho em relevo sobre madeira —, destaca-se o pavão, à frente do casal. Reconhecida por sua beleza e majestade, essa ave também costuma ser vinculada à ideia de imortalidade. Por exemplo, na mitologia grega, liga-se à deusa Hera, protetora do casamento, ressaltando a força da relação. Em suas obras, o pernambucano Samico (1928-2013) mistura tradição popular e cultura universal, sugerindo, por meio de imagens, histórias do imaginário de muita gente.
Língua e produção de texto
A literatura de cordel
Para começar
Interdisciplinaridade com: Geografia, História, Sociologia.
Não escreva neste livro.
Observe estas imagens.
1
©Pulsar imagens/Juvenal Pereira
Apresentação da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo, em São Paulo, 2014.
2
Folhapress/Lenise Pinheiro
Os atores Giulia Gam e Thiago Lacerda, em cena da peça Macbeth, de William Shakespeare, sob direção de Ron Daniels, em São Paulo, 2015.
3
©Pulsar Imagens/Marco Antonio SÁ
O xilogravador pernambucano J. Borges exercendo seu ofício em Bezerros (PE), 2013.
4
©Pulsar Imagens/Rogério Reis
Dança de rua, em Cidelândia (MA), 2008.
5
Futura Press/Ag. A Tarde/Margarida Neide
Roda de samba na Casa do Samba, em Santo Amaro da Purificação (BA), 2007.
1. As imagens mostram situações referentes a algumas manifestações artísticas. Qual dessas manifestações lhe é mais familiar? Qual delas você prefere?
2. Podemos associar um gênero de texto escrito à imagem 1: a partitura musical. Que gêneros escritos podem ser associados às outras imagens?
3. Converse com os colegas.
a) As respostas dadas pela classe à questão 1 mostram que todos vocês apreciam o mesmo tipo de manifestação artística e se identificam com ele?
b) Será que as formas de arte preferidas por vocês são também as preferidas pela maioria da população brasileira?
c) No Brasil, as diversas formas de expressão cultural são vistas como manifestações de uma identidade nacional da qual todos se orgulham ou há preconceito cultural?
Os gêneros escritos ou orais são formas de comunicação que podemos adotar ao nos expressar. São exemplos de gêneros escritos: poema, conto, crônica, letra de música, artigo de opinião, anúncio classificado, notícia, rótulo de um produto, e-mail, carta, convite... São exemplos de gêneros orais: poema falado, jornal de rádio ou televisão, debate, discurso, conferência, apresentação teatral, entrevista...
Texto 1
O texto que você vai ler a seguir é parte de uma manifestação cultural muito conhecida no Brasil: a literatura de cordel, que teve origem em Portugal e, aqui, ganhou características próprias.
Trata-se de um cordel do músico, poeta e cantador Marcus Lucenna, conhecido pelos críticos como “o Cantador dos Qu4tro Cantos” por utilizar diferentes ritmos em suas apresentações, do forró pé de serra à cantoria de viola, entre outros, que representam com bastante propriedade a cultura popular.
A peleja do cérebro com o coração
Marcus Lucenna
1 O cérebro e o coração
Um dia marcaram encontro
E como dois violeiros
Pelejaram num confronto
Pra disputar qual dos dois
Pra vida estava mais pronto
2 Essa história agora eu conto
Meu leitor sinta e entenda
Com o coração e o cérebro
Pra que você compreenda
Que essa briga é verdadeira
Não é invenção ou lenda
3 O cérebro abriu a contenda
Dizendo pro coração
Eu fiz o homem crescer
Ter lucidez e razão
Graças a mim ele pôde
Dominar a criação
4 Retrucou o coração
Cérebro, deixe de heresia
A evolução da vida
Antes de ti já existia
Antes de um cérebro pensar
Um coração já batia
5 Isso de nada valia
Faltava minha influência
A vida era primitiva
Sem matemática ou ciência
Eu cheguei e dei a ela
O poder da consciência
6 É muita maledicência
Também muita pretensão
Chegar por último e querer
Ser dono da evolução
Cérebro, você só existe
Por causa do coração
7 Sou a fonte da razão
Em mim nasce o pensamento
Sou o pai da inteligência
Da criação, do invento,
Dou ao homem lucidez
A competência e o talento
8 Já eu, sou o sentimento
Que eleva a sabedoria
Eu tenho cinco sentidos
Trabalhando noite e dia
Pra dotar a existência
De prazer, sonho, magia
9 Os neurônios seguem a guia
Das ordens que me apetecem
Glândulas e conexões
Sensoriais me obedecem
Os músculos fazem o que mando
Minhas ordens reconhecem
10 Os neurônios adoecem
Graças a sua impostura
O pensamento enlouquece
Vêm depressão e amargura
A dor que o cérebro causa
É o coração quem cura
11 Isso é mentira pura
Só vindo do coração
Que é o órgão da frescura,
Da fraqueza e da ilusão
Dizer que o cérebro é culpado
Da loucura e depressão
12 Eu sou o pai da emoção,
Da paixão e do amor
Em mim nascem sentimentos,
Esse é meu maior valor
Meu pulsar marca os momentos
Da vida, saiba o senhor
13 Sou o cérebro pensador
Moro dentro da cabeça
Ponto mais alto do corpo
Pra que ele não se esqueça
Sou eu quem comanda ele
É bom que ele me obedeça
14 Cérebro, não se aborreça,
Sou a fonte da ternura
Moro no meio do peito
Onde a alma se depura
Nem acima nem abaixo
No equilíbrio da altura
15 És um músculo sem postura
Disso eu nunca me esqueço
Bomba de bombear sangue
Contigo não me aborreço
É pobre a tua função
Mas tem valor, reconheço
16 Sou músculo e não lhe obedeço
Bato à sua revelia
Se eu parar a vida acaba
Cessa a sua serventia
Reconheço o seu valor
Mas tu não é o meu guia
17 Mas sou eu quem te alumia
Quando você se apaixona
Fica tonto, perde o rumo
Circo com fogo na lona
Te dou o meu equilíbrio
Senão você desmorona
18 Eu trago você à tona
Quando te vejo afundar
Ao imaginar ser Deus
Por ser capaz de criar
Se eu não te desse humildade
Teu ego ia nos matar
19 Coração, vou te falar
Você é digno de pena
E vive dando trabalho
Ao pobre Marcus Lucenna
Que de tanto te escutar
Sofre mais que Madalena
20 Cérebro, o Marcus Lucenna
Por mim se tornou poeta
Por ti ele viveria
Cumprindo meta após meta
Fazia tudo certinho
Só andava em linha reta
[...]
21 Coração, ao que parece
Essa nossa discussão
Nos dá a chance sagrada
Para a valorização
Do trabalho de nós dois
Se for feito em união
22 Eu te dou de coração
Minha sensibilidade
Se você me emprestar
Sua criatividade
Juntaremos nossas forças
Pro bem da humanidade
[...]
23 Meu amigo, o coração
Ao cérebro falou bonito
Razão é muito importante
Com emoção, sem conflito
Um dá suporte pro outro
Sem confronto e nem atrito
24 Lá no cérebro ecoa um grito
Una-se à lógica a paixão
Com a junção dessas forças
Encontramos emoção
Na vida ao buscar apoio
Na ordem que deu o joio
Ao trigo na evolução
Lucenna, Marcus. A peleja do cérebro com o coração. Academia Brasileira de Literatura de Cordel. Disponível em: . Acesso em: 29 fev. 2016.
peleja: duelo, combate, defesa acirrada de um ponto de vista.
contenda: disputa.
heresia: ideia ou teoria contrária a qualquer doutrina estabelecida.
apetecer: despertar interesse ou agradar.
impostura: mentira, falsidade, fingimento, presunção.
depurar: purificar, aprimorar, aperfeiçoar.
Luciano Tasso/Arquivo da editora
O autor
Marcus Lucenna (1959-) nasceu em Mossoró (RN). É cordelista, poeta, cantador e músico. Filho de cordelista, tem a veia poética dos cantadores do Nordeste. Em suas composições, desenvolve temáticas universais de um ponto de vista regional e, ao mesmo tempo, trata de temas regionais de uma perspectiva mais abrangente. Denominado “Cantador dos Qu4tro Cantos”, tem a mistura de ritmos e estilos como característica de trabalho. Ele denomina sua mistura de “cantolínea psicordélica” ou “o denominador comum das nossas diferenças”. Ocupa a cadeira 7 na Associação Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC) cujo patrono é João Martins de Athayde (1880-1959), figura emblemática do cordel.
©Marcus Lucenna
Interpretação do texto
Nos cordéis de peleja, o cordelista escreve em versos uma história que simula um desafio oral entre dois repentistas. Nesse tipo de cordel, há pouco improviso nas contendas, uma vez que é escrito com tempo e busca imitar a métrica dos repentes da cantoria de viola, cujos ritmos são criados de improviso, na interação entre parceiros, violas e plateia.
1. No texto lido, o cordelista apresenta a contenda entre o cérebro e o coração. Para dar vida a eles, uma voz expõe a situação inicial apresentada nas quatro primeiras estrofes. Em seu caderno, copie palavras e expressões que indiquem a presença de um narrador nessas estrofes.
2. A partir da 5a estrofe, as falas dos personagens predominam e indicam os elementos para a disputa. Da 5a à 9a estrofe, cérebro e coração comunicam suas virtudes.
a) Dessas estrofes, copie aquelas que são as principais virtudes de cada órgão.
b) As qualidades associadas ao cérebro e ao coração podem existir em uma mesma pessoa, ou você acha que não podem coexistir? Explique sua resposta.
3. Nas estrofes iniciais, o cérebro e o coração destacam principalmente suas virtudes.
a) O que os personagens passam a enfatizar nas 10ª e 11ª estrofes?
-
Depois da 11ª, identifique as estrofes em que o tom das 10ª e 11ª volta a predominar.
4. Quando a disputa fica mais acirrada, além da troca de ofensas, há também a tentativa de provar quem é mais importante, até mesmo para que o outro trabalhe melhor. Quais são os argumentos de cada um? Quais são as ofensas que eles trocam?
5. A partir da 21ª estrofe, a discussão toma uma direção completamente diferente.
-
O que acontece, ou seja, o que é proposto e por quem é proposto?
-
Como reage o oponente a essa proposta?
-
Na sua opinião, há um vencedor nessa disputa?
6. A relação cérebro/razão e coração/emoção é cultural, simbólica, não se trata de um fato científico. Hoje se sabe que o cérebro é portador da personalidade do indivíduo e que razão e emoção estão mais ligadas do que se supunha. Essa separação simbólica, entretanto, possibilitou a exploração de diferenças significativas entre os dois órgãos.
a) Como foi explorada a localização do cérebro e a do coração no corpo humano?
b) Copie no caderno alguns versos em que o cordelista usa vocabulário científico para destacar as diferenças entre os dois órgãos.
Leia o trecho de uma matéria que trata das relações entre cérebro e coração.
A química da paixão
Aline Rochedo
Apesar de associarmos a paixão ao coração, a flecha do cupido primeiro põe fogo no cérebro. E provoca reações tão intensas que, se durarem tempo demais, o organismo pode entrar em colapso.
Quem não conhece aquele símbolo da paixão que traz a flecha do cupido atravessando o coração? É uma figura de linguagem popular e antiga, com raízes na mitologia greco-romana. Na imagem, o alvo do deus alado é o coração, provavelmente por causa da aceleração cardíaca e do fogo no peito que sentimos quando cruzamos com quem julgamos ser a nossa tão almejada cara-metade. O flechaço, no entanto, atinge é a cabeça. Sim, suspiros, suores, olhares perdidos e todas as sensações comuns àqueles que estão encantados com alguém nascem no cérebro e são resultado de uma combinação de componentes que se somam a fatores culturais e genéticos capazes de levar suas vítimas às nuvens. [...]
Superinteressante. São Paulo, Abril, mar. 2006. Disponível em:
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