Sam bourne o código dos justos



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SAM BOURNE
O CÓDIGO DOS JUSTOS

Tradução de

ALDA PORTO

6a EDIÇÃO


EDITORA RECORD

2011


Para Sam, nascido numa família amorosa.
UM
SEXTA-FEIRA, 21H10, MANHATTAN
Na noite do primeiro assassinato havia muita música. A catedral de São Patrício em Manhattan estremecia ao som de "Messias" de Handel, a grande obra-prima do canto coral que jamais deixou de despertar até a mais sonolenta platéia. O entoar das vozes reverberava no teto da catedral. Era como se quisessem alcançar o próprio céu.

Do lado de dentro, bem na frente, sentavam-se pai e filho, os olhos do homem mais velho fechados, comovido como sempre com a peça musical, sua favorita. O olhar do filho alternava-se entre os artistas — os cantores vestidos de preto, o maestro a sacudir vigorosamente os cabelos encanecidos — e o homem ao seu lado. Gostava de olhá-lo, ava­liando suas reações; gostava de ficar junto dele.

A noite era de celebração. Um mês antes, Will Monroe Jr. consegui­ra o trabalho com que sempre sonhara desde que chegara aos Estados Unidos. Com 20 e tantos anos, era agora repórter, em uma rápida tra­jetória no New York Times. O Sr. Monroe habitava um domínio diferen­te. Era advogado, um dos mais bem-sucedidos de sua geração, agora trabalhando como juiz federal na segunda circunscrição da Corte de Apelações dos EUA. Gostava de reconhecer as conquistas, e o jovem a seu lado, cuja infância ele quase perdera, alcançara um marco impor­tante. Procurou a mão do filho e apertou-a.
Foi naquele momento, não mais do que uma viagem de metrô de 45 minutos até o outro lado da cidade, embora a um mundo de distân­cia, que Howard Macrae ouviu os primeiros passos atrás de si. Não se assustou. Os forasteiros talvez evitassem passar pelo bairro de Brownsville, no Brooklyn, mas ele conhecia cada rua e cada beco.

Macrae fazia parte da paisagem. Gigolô agindo há duas décadas na área, criara laços em Brownsville. Também fora um jogador astuto, dando um jeito de sempre permanecer neutro na guerra de quadrilhas que aterrorizava a vizinhança. As facções chocavam-se e mudavam, mas Howard mantinha-se firme, constante. Ninguém reivindicara a área onde suas prostitutas exerciam o ofício havia anos.

Por isso não se preocupou muito com o som de passos atrás dele. Mas apesar disso achou estranho que não parassem. Percebeu que estavam próximos. Por que alguém o estaria seguindo? Virou a cabeça para es­preitar por sobre o ombro esquerdo e, surpreso, logo tropeçou. Era uma arma diferente de todas que já vira — e estava apontada para ele.
No interior da catedral, o coro cantava em uníssono, os pulmões abrindo-se e fechando-se como os foles de um único e potente órgão. A música era insistente:
E a glória do Senhor se revelará; e toda a carne a verá; pois a boca do Senhor o disse.
Howard Macrae virou para a frente, tentando disparar numa cor­rida instintiva. Mas teve uma estranha sensação, como se algo o tives­se perfurando a coxa direita. A perna parecia estar cedendo, desabando sob seu peso, recusando-se a obedecer às suas ordens. Tenho de cor­rer! Mas seu corpo não respondia. Parecia mover-se em câmera lenta, como se caminhasse dentro d'água.

Agora os braços se recusavam a obedecê-lo. Primeiro ficaram letár­gicos, depois amolecidos. O cérebro entendia a urgência da situação, mas também começava a sucumbir como que submerso numa repenti­na inundação. Macrae sentia-se muito cansado.

Viu-se estendido no chão, agarrando a perna direita, cônscio de que estava se rendendo ao entorpecimento. Ergueu os olhos. Nada viu além do brilho de aço de uma lâmina.

Na catedral, Will sentiu o pulso acelerar. A música atingia o clímax, toda a platéia parecia enlevada. Uma voz de soprano pairou acima deles:


Se Deus é por nós, quem será contra nós?

Quem intentará acusação contra os escolhidos de Deus?

É Deus quem os justifica; quem os condenará?
Macrae podia apenas observar a faca pairando acima de seu peito. Tentou ver quem a empunhava, tentou distinguir um rosto, mas não conseguiu. O brilho do metal ofuscava-lhe a vista; parecia refletir o luar da noite em sua superfície dura e polida. Sabia que devia estar aterrori­zado: sua voz interior dizia-lhe que estava. Mas soava-lhe estranhamente longínqua, como um comentarista descrevendo uma partida de futebol a longa distância. Howard podia ver a faca aproximando-se, mas mes­mo assim parecia estar acontecendo com outra pessoa.
Agora a orquestra tocava com força total, a música de Handel per­correndo a igreja com intensidade suficiente para despertar os deuses. O contralto e o tenor, em uníssono, exigiam saber: Onde está, ó morte, o teu aguilhão?

Will não era entusiasta dos clássicos como o pai, mas a majestade e a força da música arrepiavam-lhe os pêlos da nuca. Ainda olhando para a frente, tentou imaginar a expressão no rosto do pai: visualizou-o em ar­rebatamento e desejou que sob aquela aparência enlevada também esti­vesse latente algum prazer em partilhar tal momento com o único filho.


A lâmina desceu, primeiro atravessando o peito. Macrae viu a li­nha vermelha que se formou, como se a faca fosse apenas uma caneta marca-texto escarlate. A pele pareceu inchar e empolar-se: ele não en­tendeu por que não sentia dor alguma. Agora o metal impelia-se para baixo, fatiando-lhe o estômago. O conteúdo esparramou-se, uma quan­tidade mole e quente de entranhas viscosas. Howard assistiu a tudo isso, até o momento em que a adaga foi afinal empunhada no alto. Só então viu o rosto de seu assassino. Sua laringe conseguiu exalar um som rou­co de choque—e reconhecimento. A lâmina encontrou o coração e tudo escureceu.

Começara a missão.





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