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Polícia

Marina Machado Rodrigues

“Polícia para quem precisa... Polícia para quem precisa de

polícia...”

E quem precisa de polícia hoje? De certeza, os cidadãos hones-

tos da Cidade do Rio de Janeiro, onde a insegurança chegou ao

auge. Os noticiários diários mostram que o número de assaltos,

seqüestros e assassinatos têm-se multiplicado em progressão geo-

métrica, ainda que as estatísticas oficiais teimem em negar o óbvio.



Os versos de Toni Belloto, há décadas, já denunciavam o

autoritarismo da polícia cujo objetivo não é a proteção do cidadão

comum. A ironia expressa na canção aponta, outrossim, para a

truculência e o desrespeito de uma instituição que, diferentemente

da de outros países, não tem a função precípua de garantir a segu-

rança dos cidadãos, mas que age no intuito de preservar os direitos

do Estado, refletindo a herança dos tempos de arbítrio.



Dezenas de policiais acreditam que a violência gerada pela

atuação da polícia hoje é fruto de uma Política de Segurança equi-

vocada, que não pretende coibir o crime, mas, ao contrário, necessi-

ta fabricar estatísticas que se baseiam no confronto. Parte-se da

premissa de que os moradores da favela são marginais em potenci-

al. Na prática, o que se tem no Rio de Janeiro é um apartheid sem

arames farpados, já que a polícia invade os morros para manter a

situação sob controle, evitando uma revolta, possivelmente gerada

pelas injustiças sociais. Os moradores do gueto são mantidos como

reféns, condenados apriorísticamente, em razão de sua condição

social, por uma polícia que atira para matar indiscriminadamente.



O confronto envolve policiais civis e militares, cidadãos e ban-

didos. Cada um desses segmentos é também vítima do Estado. O

policial mal formado, mal remunerado e mal-equipado é suscetível

à corrupção e à violência impostas pelo sistema: rouba, extorque e

mata em sua grande maioria. Os cidadãos pobres, além da miséria e

humilhações cotidianas, sofrem tanto a violência praticada pelos xerifes

dos morros quanto a que é perpetrada pela polícia. Quando esta inva-

de as favelas, não se trata de coibir o tráfico de drogas e a

marginalidade. Trata-se, na maioria das vezes, de uma demonstração

de força para impressionar a imprensa e a população. O varejão so-

brevive porque, para cada soldado morto, o tráfico já dispõe de 10




Nadiá P. Ferreira & Marina M. Rodrigues

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outros preparados para assumirem o lugar. Os bandidos, por sua vez,

são produto de uma sociedade que exclui desde cedo os que não são

bem-nascidos. Entre trabalhar duro uma vida inteira - e não conse-

guir minimamente o suficiente para viver com dignidade - e a morte

precoce, contingência natural dos que optam pela marginalidade, um

número cada vez maior de meninos, seduzidos pelo ganho fácil e pela

certeza da impossibilidade de ascender socialmente através do traba-

lho, prefere a 2ª via.



Como se sabe, os grandes traficantes não estão nos morros. As

investigações da CPI do Narcotráfico apontam para o envolvimento

de políticos, empresários, policiais e juízes em atividades ilegais. Quem

precisa de polícia? Os cidadãos honestos, que deveriam contar com a

proteção efetiva das instituições que a esse fim se destinam; a própria

polícia, que pratica atividades ilegais sob a capa da lei; os marginais,

pelos motivos óbvios, mas, sobretudo, alguns políticos e juízes que

têm-se alinhado com o crime, escorados na impunidade do sistema.


Psicanálise e Nosso Tempo

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Chic a valer

Marina Machado Rodrigues

A expressão do título trazida pela memória transportou-me ao

romance Os Maias, de Eça de Queirós- escritor português do sécu-

lo passado - por ser a marca de um de seus personagens. Cada

novidade vinda de Paris ou a adoção de um novo costume da socie-

dade parisiense pelos portugueses na Lisboa do século passado ar-

rancavam a exclamação entusiasmada do personagem: isto ou aquilo

“é chic a valer, hem?”



Ali, a descrição minuciosa dos trajes ou da decoração das resi-

dências requintadas da alta burguesia lisboeta revela o estilo de vida

de um tempo em que se tinha tempo.



O conceito de chic, assim como as sociedades, sofreu uma

mudança profunda em nosso século. O glamour requer tempo, ou a

sobra dele. Quem os têm em nossos dias?



Com a liberação das mulheres e as limitações impostas pela

vida nas modernas cidades, o conceito de chic quase se restringe à
elegância de atitudes, esta também em extinção, num mundo cada

vez mais competitivo e violento.



É então que me pergunto como se pode ser chic, tendo que

correr o dia todo contra o relógio? É impossível ser chic, empurran-

do um carrinho de supermercado, com os minutos contados, porque

está quase na hora da saída da escola das crianças. É necessário não

esquecer dos Correios, do carro que precisa ir para a revisão, da ida

ao Banco para pagar as contas urgentes, e, sobretudo, do relógio de

ponto que assume a dimensão esmagadora de um titã.



De divagação em divagação, o pensamento escorre para Ma-

ria Eduarda , “chic a valer”, - outro personagem do romance - que

tinha tempo de sobra para arranjar flores no vaso, se vestir com o

apuro que a época exigia, ou simplesmente se dedicar ao bordado,

sempre convenientemente arranjado a um canto da sala. E, mais

ainda, podia se deleitar com infindáveis passeios ao ar livre, na

companhia de outras elegantes que também exibiam trajes esplêndi-

dos, sob o cenário ideal de uma natureza quase intocada. Este despren-

dimento me causa uma leve onda de inveja.



A suprema ambição do homem moderno é a egoísta sensação de

dispor de um tempo só para gozar consigo.

A síndrome da perda de tempo é um sintoma da nossa época. Até


Nadiá P. Ferreira & Marina M. Rodrigues

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as emergentes, que dispõem de todo o tempo do mundo, foram afetadas

pela doença, elegendo o helicóptero o meio de transporte mais rápido

para percorrer as inúteis distâncias cotidianas, que levam da butique ao

cabelereiro. Pobre tempo o nosso!



A era do computador impele as pessoas a produzirem sempre

mais e melhor, quer se dediquem à produção intelectual, quer a qual-

quer outro ramo de atividade. A concorrência, as exigências

mercadológicas, as crises constantes, fazem do homem um ser cujo

presente é já a sombra do futuro.



Bem, aos homens do passado sempre coube a responsabilidade da

produção, às mulheres, somente a fruição. Diferentemente, a nossa época

impede as mulheres de “verem o tempo passar na janela”. O tempo das

Carolinas já se foi há muito. Há várias décadas, as mulheres “vão à
luta”, complementando a renda familiar do casal ou mesmo são a única

fonte de renda da família. A competitividade gerada pela idêntica ne-

cessidade entre homens e mulheres, o acúmulo de tarefas impingidas às

mulheres modernas, que continuam responsáveis pela educação dos

filhos - tarefa nem sempre dividida com os maridos - a administração

da casa e os compromissos inerentes a estas atividades, requerem da

mulher uma energia muitas vezes superior à dos homens.

Hoje, “chic a valer” é precipuamente garantir um estilo de vida

em que o ser humano possa simplesmente viver. As mudanças trouxe-

ram o progresso necessário, indiscutivelmente. Mas com ele o estresse,

a angústia e a ansiedade, doenças do mundo atual.

Parafraseando outro escritor português, hoje, eu diria somente - Ah,

Maria Eduarda, quem me dera “poder ser tu, sendo eu!”


Psicanálise e Nosso Tempo

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Todas as Marias

Marina Machado Rodrigues

Maria, metáfora do chamado sexo frágil, é um nome emblemático.

A primeira era já significante de sofrimento.

Contemporaneamente, este sentido foi ampliado e passou a abar-

car também a condição de subserviência delegada às mulheres na soci-

edade; haja vista a acepção moderna e popular do antropônimo, empre-

gado com valor de substantivo comum -como sinônimo de serviçal.

Embora o movimento de emancipação feminina tenha eclodido

na década de 60, o conceito de alguns homens sobre as mulheres

não evoluiu muito, a mentalidade retrógrada ainda pode ser consta-

tada nas ruas. Para estes, o sentido contemporâneo do termo – com

valor de adjetivo - ainda é a sua mais perfeita tradução. Quantas de

nós, no trânsito, imotivadamente ou não, não teve atirada ao rosto a

famosa frase: “Vai para o fogão e/ou tanque, D.Maria?



A autonomia proporcionada pelo automóvel às mulheres repercu-

tiu no espírito masculino como algo semelhante a uma insurreição. Elas

passaram a ocupar um espaço que era privativo deles - a rua. Talvez

por isso se explique a agressividade aludida.

O lugar da maioria das mulheres foi durante muito tempo o

fogão ou o tanque, o que trouxe ao chamado sexo forte uma dupla

segurança - a clausura dificultava deslizes e o condicionamento cul-

tural imposto a ambos os sexos fazia com que a elas coubessem

somente as tarefas menores, domésticas e cotidianas, quase sem-

pre. A projeção da síndrome de Maria se opera também ao nível do

mercado de trabalho, desde o século passado. Por este motivo, a

conquista de posições pelas mulheres não chegou a se configurar

como problema para os homens, pelo contrário, não havia competi-

ção e as mulheres deixavam de ser um peso morto, proporcionando

ao orçamento doméstico uma folga maior. Pesquisas atuais mos-

tram que a força de trabalho feminino tem sido considerada merca-

doria de primeira classe, embora seus salários não sejam compatí-

veis com esta condição.

A posição de retaguarda ocupada pelas “Marias”, introjetada

pelo imaginário popular, cunhou a frase lapidar: “Por trás de um

grande homem há sempre uma grande mulher”. E o pior é que isto

serviu de consolo e ainda serve a muitas de nós. Marias, em termos

absolutos, temos sido todas, vez por outra, em algumas situações, é




Nadiá P. Ferreira & Marina M. Rodrigues

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verdade. Para a maioria, contudo, o complexo de inferioridade tem

dado lugar a atitudes mais saudáveis, refletidas no desempenho

satisfatório da classe em todos os campos de atividades, e na cres-

cente afirmação da autonomia.



O temperamento multifacetado das mulheres se traduz melhor

pela metonímia do que pela metáfora. Tanto assim que o perfil fe-

minino pode assumir as características portadas por cada um dos

compostos que o nome compreende, mesmo ao longo de um único

dia. Todas temos nossos momentos de Maria da Anunciação quan-

do, não podendo nos conter, precisamos “espalhar a última” para a

vizinha ou para a amiga. Ou de Maria do Socorro, oferecendo o

ombro amigo àquela que perdeu o namorado e está inconsolável.

Ou de Maria Pia quando somos capazes de jurar que somente os

maridos das outras traem. Todas temos nosso dia de Maria das Gra-

ças, dia de produção, com direito a cabeleireiro e roupa nova, esban-

jando charme, ou jogando somente com as graças que Deus nos deu.

Quem não tem seu dia de Maria das Dores, quando nos ataca aquela

infalível dor de cabeça noturna? Marias, na acepção primeira, são

todas as mães, as dos homens, inclusive, que precisam de um colo de

vez em quando. Cada Maria é uma faceta do chamado sexo frágil,

mas, paradoxalmente, cada Maria é um todo singular. Nisto reside o

enigma não decifrado inteiramente pelos homens.

Antepondo a expressão “com licença da má palavra” ao nome -

como o fazia o poeta Antero de Quental todas as vezes em que se

referia ao seu - Marias somos. Todavia, o sexo forte não tem cansa-

do de nos celebrar ao longo dos séculos. Já imaginaram o que seria

da poesia lírica sem todas as Marias?




Psicanálise e Nosso Tempo

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Velho já era?

Marina Machado Rodrigues

Os noticiários recentes têm mostrado uma dura realidade em

nosso país: o número de idosos abandonados em hospitais, clínicas

geriátricas e congêneres têm aumentado de forma alarmante. Não se

pode desconhecer as implicações econômicas por trás deste fato. Por

um lado, hoje, o idoso, de maneira geral, é considerado um fardo, em

função das exigências mercadológicas que fazem restrições cada vez

maiores à idade produtiva.



A situação deste segmento da sociedade é reflexo da ótica per-

versa de um capitalismo exacerbado, característico do modelo

neoliberal, onde, assim como as máquinas mais antigas são substi-

tuídas por outras mais modernas, os velhos, como objetos obsole-

tos, são colocados à margem do processo produtivo. Por outro lado,

a situação dos aposentados, na qual se insere a maioria dos idosos,

em nosso país, não é das mais confortáveis. O ônus provocado por

um sistema de saúde falido - diretamente proporcional aos gastos

que a idade demanda - é responsável por um custo com o qual as

famílias nem sempre podem arcar. Este fato produz nos idosos con-

seqüências de ordem emocional extremamente perniciosas, cujo efeito

mais suave é a depressão. O orgulho de toda uma vida produtiva dá
lugar à sensação de inutilidade.

Eu me pergunto em que momento histórico-social a imagem

do idoso teria começado a sofrer tal degradação. Porque no passa-

do, quase sempre, a velhice esteve relacionada com uma imagem

positiva. Era vista como o acúmulo de experiências que orientava;

exibia a serenidade aprendida com a vida e, advinda desta, também

a certeza de que o tempo é senhor de todas as coisas. Esta imagem

é pelo menos a que as grandes obras literárias do passado veicula-

ram, senão, vejamos: o camoniano velho “de aspeito venerando”
que iluminava o senso comum “c’um saber só de experiências fei-

to”; ou o velho Afonso da Maia, personagem de Eça de Queirós,

que, sabiamente, aproveitava, com a calma de quem tem toda a

eternidade pela frente, as pequenas delícias que o espetáculo da vida

pode oferecer aos homens; ou a sabedoria e a coragem do velho

arquiteto Afonso Domingues, de Alexandre Herculano, que foi ca-

paz de sustentar a abóbada do templo, apesar da cegueira, apenas

para citar alguns exemplos clássicos.




Nadiá P. Ferreira & Marina M. Rodrigues

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Será que já não é tempo de voltarmos a nossa reflexão para um

problema tão crucial? Não devemos nos esquecer de que a popula-

ção brasileira, nas próximas décadas, será constituída, em sua mai-

oria, por velhos, contrariando a imagem de país jovem que o Brasil

exibia há algumas décadas atrás. O efeito Orloff está aí mesmo!




Psicanálise e Nosso Tempo

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Discriminação ou preconceito social?

Marina Machado Rodrigues

Afirmações do tipo “aqui não há discriminação racial, o que

há é preconceito social” são expedientes utilizados pelo discurso da

burguesia para mascarar a desigualdade racial, deixando transparecer

a atitude hipócrita assumida no Brasil diante da questão.

A discriminação é um dado real, refletida na criação de leis que

garantem a igualdade de tratamento aos negros. Uma importante con-

quista política foi alcançada com a Constituição de 88, que torna o

racismo crime inafiançável. Também a Lei Afonso Arinos constituiu

um considerável avanço, punindo o tratamento discriminatório com

pena de prisão.

No entanto, estas medidas não têm sido suficientes. O precon-

ceito racial é reafirmado a cada momento no imaginário popular, atra-

vés de um grande número de frases que a cultura branca cunhou e

dissemina, revelando-se de forma velada, mas efetiva, no corpo soci-

al. Uma de suas conseqüências é a flagrante marginalização profissi-

onal de uma população de negros e mestiços num país em que afinal

“são todos quase brancos”.



Em nosso século, os primeiros movimentos de resgate da

conciência negra surgiram na América do Norte, com a indiscutível

liderança de Martin Luther King, que pregava a afirmação da raça

por meios pacíficos; ou de Malcom X, que lutou em defesa dos

direitos do negro, propondo inclusive o confronto com a sociedade

americana majoritariamente branca e racista. Na década de 70, sur-

giu o Black Power, que ganhou repercussão internacional, reafir-

mando o orgulho negro e fundando um novo conceito estético, ao

recusar os padrões impostos pela cultura branca, quando procurou

conscientizar os negros de que “Black is beautiful”.

No Brasil, muito antes disso, a luta de libertação se iniciou com

Zumbi dos Palmares, herói negro que, ao se insurgir contra a opres-

são dos senhores brancos e fundar o mais importante dos quilombos,

assumiu uma postura política em defesa da liberdade da raça, tornan-

do-se referência obrigatória na história da cultura negra.



Contemporaneamente, a consciência negra tem alargado seu espa-

ço de forma significativa. Um exemplo disso é a criação de centros e

instituições, em âmbito universitário, que têm por objetivo aprofundar

a discussão sobre a cultura e importância da raça negra na sociedade


Nadiá P. Ferreira & Marina M. Rodrigues

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brasileira. Este é um dos caminhos possíveis para o reconhecimento e

reafirmação da contribuição trazida pelos negros a este país miscigenado.

Outro é enfrentar o problema do preconceito racial sem hipocrisia, por-

que a remissão do erro só será possível a partir de sua assunção.




Psicanálise e Nosso Tempo

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Sobre o conceito de arte

Robson Lacerda Dutra

Está em cartaz no Rio de Janeiro a peça “Arte” de Yasmine

Reza, na qual se discute o verdadeiro valor que a arte encerra e que,

no caso em questão, gira em torno de um quadro de alguns milhares

de dólares, onde a tela é totalmente branca.

Quais são os critérios que qualificam e distinguem a arte e

fazem com que um quadro de Van Gogh valha mais ou menos que

um outro onde, quer o branco, o azul ou o negro encerrem qualquer

outro conceito artístico?

Bem, a discussão, com certeza, pode assumir diversos contor-

nos e conseqüências sem que se possa concluir muita coisa, dada a

amplitude do tema. De qualquer forma, não é este o objetivo deste

texto, mas sim pensar a integralidade da obra de arte. Até que ponto

ela preserva sua totalidade, se é que isto é possível, e até onde se

pode ir nesta fragmentação?

Muito se fala da revisão, da nova concepção das peças de tea-

tro, por exemplo, numa modernização exacerbada, como se para o

homem moderno fosse difícil ou mesmo impossível compreender

algo que não lhe é contemporâneo. No entanto, não se dão novas

pinceladas em quadros consagrados ou acrescentam-se novos acor-

des às peças de Bach ou Mozart, por exemplo. Isto nos faz supor

que a identificação do conceito de arte nelas incluso não é obstáculo

à compreensão, já que as mesmas vêm sendo executadas há alguns

séculos para diversas platéias, “iniciadas” ou não, atingindo plena-

mente seu objetivo artístico – levar um novo conceito, uma nova

emoção àqueles que as ouvem.



A música, sobretudo, é a maior “vítima” da mutilação artística

que, atendendo a uma falsa premissa de popularização ou “ facilita-

ção”, acaba sofrendo as maiores atrocidades. Como pode alguém

consciente imaginar um movimento avulso de uma sinfonia de

Beethoven, ou de um concerto de Prokofiev ou uma sonata de

Schumann soltos num concerto, numa emissora de rádio ou em qual-

quer situação similar sem que se pague o ônus de uma violência esté-

tica? Do mesmo modo que não se concebe apenas um ato de uma

peça de teatro, um ângulo de um quadro ou até mesmo um segmento

da novela das oito desconectados do seu contexto, não se pode enten-

der apenas um trecho de uma composição musical. O preço, com




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certeza, é a má formação do público e, sobretudo, um sofisma artísti-

co, onde se pode passar a atribuir a determinado autor um estilo, uma

época, elementos que não lhes são inerentes e, por isto, distanciar a

concepção e a apreciação artística em âmbito maior.



Esperamos que, em tempos de globalização, a arte, ao menos ela,

possa permanecer incólume e continuar a permitir o debate e a apreci-

ação estimulantes, baseados, sobretudo, em premissas verdadeiras.




Psicanálise e Nosso Tempo

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