A dama Do Labirinto



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A Dama Do Labirinto

Surrender the Stars

Linda Lea Castle



Inglaterra, 1214

Ele acreditava estar apaixonado por outra...

Desmond du Luc fica chocado ao saber que terá de desposar Aislin, a mulher que ficou conhecida como "Flor Venenosa" depois de ter enterrado quatro maridos em cinco anos. A lealdade ao rei obriga Desmond a cumprir a ordem, embora sua noiva se recuse a vê-lo antes do casamento. Desmond nem sonha que a bela e misteriosa dama com quem se encontra todas as noites nos jardins do castelo é a sua prometida, nem que ela está perdidamente apaixonada per ele...

Depois do casamento, Desmond fica maravilhado ao descobrir a verdadeira identidade de Aislin. Enquanto vivem uma paixão que é puro êxtase, uma força secreta e perversa gira ao redor de ambos... Desmond e Aislin precisarão ter muita coragem, irrestrita confiança um no outro, para vencer o perigo que ameaça sua felicidade...



Disponibilização do livro : Rosangela

Digitalização: Joyce

Revisão: Crysty
Copyright © 2002 by Linda L. Crockett

Originalmente publicado em 2002 pela Kensington Publishing Corp.


PUBLICADO SOB ACORDO COM KENSINGTON PUBLISHING CORP.

NY.NY-USA

Todos os direitos reservados.
Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança

com pessoas vivas ou mortas terá sido mera coincidência.


TÍTULO ORIGINAL: Surrender the Stars
EDITORA

Leonice Pomponio


ASSISTENTE EDITORIAL

Patrícia Chaves


EDIÇÃO/TEXTO

Tradução: Silvia Maria Pomanti

Revisão: Giacomo Leone
ARTE

Mônica Maldonado

ILUSTRAÇÃO

Hankins + Tegenborg, Ltd.


MARKETING/COMERCIAL

Silvia Campos


PRODUÇÃO GRÁFICA

Sônia Sassi


PAGINAÇÃO

Dany Editora Ltda.


© 2007 Editora Nova Cultural Ltda.

Rua Paes Leme, 524 - 10s andar - CEP E05424-010 - São Paulo - SP



www.novacultural.com.br
Premedia, impressão e acabamento: RR Donnelley Moore

Prólogo

Castelo de Sevenoaks, Kent, Inglaterra

Depois de destrançar os cabelos, Aislin ficou a alisar as longas madeixas com o pente esculpido em marfim. O fogo da lareira que se refletia nas mechas avermelhadas parecia confirmar o que as línguas maldosas comentavam pelos quatro cantos da fortaleza: aquele era o cabelo das pecadoras, das preferidas de Satanás.

Essa idéia deu-lhe ímpetos de cobrir a cabeça com um véu pesado e desaparecer dali. Mas não podia, pois aquela era sua noite de núpcias... outra vez. Seu novo marido decerto esperava que ela fosse para o leito nupcial com os cabelos soltos e a paixão inflamada.

Aislin sabia bastante bem como deveria comportar-se numa ocasião como aquela, afinal de contas já tinha executado o mesmo ritual quatro vezes nos últimos cinco anos. Nas outras três banhara-se e perfumara o corpo, soltara e penteara os ca­belos, depois se mantivera no interior das cortinas do grande leito em seus aposentos à espera de que o lorde seu esposo viesse consumar a união matrimonial.

Só que isso jamais acontecera.

Aos dezenove anos de idade, ela era uma virgem diversas vezes casada e ainda intocada. A Flor Venenosa, era assim que as línguas ferinas de Sevenoaks a chamavam. As marafonas da aldeia, o moleiro, os criados do castelo, todos se referiam à sua castelã com aquelas palavras. Pensavam que ela não sou­besse disso. Ou talvez acreditassem que não se ofendesse nem se amargurasse, como qualquer outra mulher. Mas Aislin tinha conhecimento não só do apelido como também dos cochichos que continuavam a se espalhar, pois Giles sempre lhe contava tudo. Ele era seu único amigo.

Quando seu primeiro marido sucumbira à febre do cérebro bem na noite do casamento, ela imaginou que o problema tivera origem no velho ferimento de batalha que Theron tinha à altura da têmpora. Giles a tinha convencido disso, explicando-lhe de que modo um machucado antigo podia matar lentamente, en­quanto a confortava e rezava a seu lado. Ele era extremamente talentoso nas artes da cura e Theron, um guerreiro coberto de cicatrizes de guerra.

Quando seu segundo marido morreu em conseqüência de uma hemorragia, Aislin quis acreditar que se tratava de coin­cidência. Talvez houvesse algum ingrediente estragado na co­mida. Talvez o hidromel tivesse azedado, como seu primo Giles havia sugerido. O fato, porém, era que nenhum outro morador de Sevenoaks adoecera depois de beber e comer na celebração da boda. Seu novo marido, porém, falecera na noite de núpcias, do mesmo modo como havia acontecido com Theron.

Quando os comentários começaram a se espalhar, Giles con­seguiu dissuadi-la de que a repentina morte de seu segundo marido fora provocada por algum mal congênito ou pelo contato com alguma erva venenosa a caminho de Sevenoaks. Ti­nha sido nessa época que seu primo lhe falara pela primeira vez a respeito das histórias terríveis que circulavam pelo cas­telo e cercanias. E também do epíteto que haviam lhe dado: Flor Venenosa.

Mas quando seu terceiro marido levara as mãos ao pescoço antes de tombar sobre o leito nupcial com os olhos esbugalha­dos e a língua a inchar dentro da boca, Aislin deixara de dar crédito ao que Giles dizia. Não discutira com o primo querido, um homem de Deus apegado a sua fé, mas parara de desdenhar dos cânticos sussurrados e dos talismãs ocultos que os habi­tantes de Sevenoaks, segundo Giles, usavam para afastar o mal. Mesmo sendo a castelã daquela fortaleza, não podia ignorar que seu povo a temia e a odiava.

Apesar de tudo, Giles continuou a mantê-la informada dos mexericos. Diziam que seus cabelos eram símbolo de maldade, por terem a cor das labaredas do inferno. Que casar com ela era o mesmo que aceitar um convite da morte. Que além de pecadora, a dama do castelo era amaldiçoada. Todos pareciam acreditar nisso.

Agora Aislin se preparava para receber o novo marido, que devia chegar a qualquer instante. Bartholomew, o quarto ho­mem honrado e íntegro a desposá-la.

― Por piedade, Senhor, permita que ele seja saudável ― Aislin rezou baixinho. ― Embora não se trate de um jovem, Bartholomew não é feio e parece robusto. Além do quê, creio ter visto um brilho de ansiedade e desejo nos olhos dele en­quanto fazíamos nossos votos nos degraus da capela. Se for da Sua vontade, Senhor, permita que Bartholomew de Lewes mantenha relações conjugais comigo e sobreviva.

Leves pancadinhas na madeira fizeram com que ela fosse abrir a porta dos aposentos. Mas não era Bartholomew de Lewes quem se achava à soleira. Com o rosto sem cor, um ar consternado e a mão sobre o crucifixo de ouro que trazia ao pescoço, quem estava ali era seu primo querido, Giles, o abade de Tunbridge Wells.

― Cara Aislin, dói-me ser o encarregado de lhe trazer tão triste notícia: aconteceu outra vez. Enquanto tomava uma úl­tima taça de hidromel na companhia de seus homens, Bartho­lomew de Lewes ofegou e foi para os braços de Deus.

Aislin ainda ouviu o grito que lhe escapou dos lábios antes que tudo a sua volta ruísse num abismo de escuridão.



Capítulo I

Mosteiro de Combwell, Kent, no reinado de Henrique III da Inglaterra

— Não entendo por que o herdeiro de Sem-Terra es­tá patrocinando este torneio ― comentou Coy. ― Dizem que ele é um bronco que não gosta de competições esportivas.

Mas o filho dele, o príncipe Eduardo, é um tático sagaz. Ou Eduardo persuadiu o pai a apadrinhar as competições, ou os rumores sobre a inteligência limitada de Henrique são um tanto exagerados ― observou Desmond, antes de se ajeitar melhor em sua montaria, um garanhão chamado Nevoeiro.

Perto da área destinada às contendas, o barão Desmond Vaudry du Luc esperava sua vez de competir nas justas, o torneio travado entre dois cavaleiros armados de lanças. Ele e Coy de Brambourg eram amigos desde os tempos da Cru­zada e dos estranhos eventos que haviam culminado no casa­mento de seu antigo líder, Brandt le Revenant, com a irmã de Desmond, Rowanne Vaudry. Depois que Desmond herdara a fortuna e os títulos dos du Luc, Coy estava sempre na compa­nhia dele. Ambos dividiam seu tempo entre os torneios e as responsabilidades na fortaleza de Mereworth, porém sem dei­xar de criar oportunidades para outros dois passatempos sem­pre bem-vindos: as mulheres e a falcoaria.

― Vai ver que o rei imaginou que um torneio pudesse esfriar os ânimos dos irascíveis barões que andam resmungando e tramando contra ele ― disse Desmond.

― De fato, há sinais de descontentamento por todos os la­dos. Eu mesmo ouvi falar de vários nobres que se deixaram levar pela conversa ardilosa do jovem Montfort. ― Coy sus­pirou. ― Esse é um dos motivos pelos quais gosto de estar aqui no campo, bem longe da corte. Mas já estão dizendo por aí que em breve o rei irá aumentar os impostos para custear a reivindicação do filho Eduardo à Coroa da Sicília.

― Não creio que seja boa idéia Henrique arriscar-se tanto pelo segundo filho.

― Realmente. E o aumento irá favorecer Montfort, uma vez que os barões se irritarão ainda mais com o rei.

Meneando a cabeça em sinal de anuência, Desmond ficou calado. Tinha muito pouco a dizer a respeito da questão que envolvia os nobres rebeldes, mesmo que a terra seca que se erguia do campo de competições não tivesse se transformado numa nuvem densa a dificultar qualquer conversa. O verme-lho-e-púrpura do pavilhão do rei havia sucumbido à poeira. As cores vivas a proclamarem o mais alto posto da hierarquia so­cial estavam agora maculadas pelo mesmo marrom empoeira­do das túnicas rústicas dos camponeses aglomerados atrás do campo para assistir ao espetáculo de combate e saborear uma aparição fugaz de seu soberano.

Um par de cavaleiros à garupa de suas montarias cobertas por reluzentes xairéis lançou-se um na direção do outro. Os cascos dos garanhões pareciam sacudir o terreno. As lanças se chocaram com um estrépito, em seguida se ouviu um baque de madeira colidindo com metal e um cavaleiro foi ao chão ao fragor de sua armadura. Sua lança partiu-se, e dava a vitória da justa ao seu oponente. Aplausos e vivas ecoaram por todo o pavilhão real e entre a multidão de servos feudais.

― É sua vez de derrotar mais outro cavaleiro, Desmond. Mas como entre todos os desafiantes não há um só à sua altura, nem irei gastar meu fôlego desejando-lhe boa sorte. ― Coy bateu de leve na anca do tordilho de Desmond, e Nevoeiro respondeu ao gesto amável tentando escoicear a montaria do amigo de seu dono.

― Criatura mais mal-humorada... ― Coy fingiu-se zangado.

― E pensar que sou quem cuida para que você desfrute das baias mais limpas e da água mais fresca, cavalo ingrato.

― Ele não fez por mal; é que a justa o deixa de sangue quente. ― Desmond dissimulou uma risada. ― Mas se é você quem tem cuidado de Nevoeiro, o que meu novo escudeiro anda fazendo?

― Só ajudei o rapazinho para que ele pudesse passar sua armadura por uma barrica de areia. ― Coy deu uma piscadela.

― Coisa que, diga-se de passagem, ele fez bastante bem: sua proteção está brilhando tanto que é capaz de ofuscar a visão do seu oponente.

― Pois se eu derrotar meu opositor, diga a Gwillem que sou grato a ele pela vitória. ― Com uma risadinha marota, Desmond levou o queixo ao peito para fazer com que a lâmina superior do elmo deslizasse para baixo e lhe cobrisse os olhos e a porção inferior do rosto, e agora via o campo de embates através das fendas que formavam a viseira do capacete metálico.

O soar de um clarim irrompeu pelo ar. Desmond não pre­cisou esporear os flancos de Nevoeiro: após tomar leve impul­so, o garanhão preto-e-cinza arremessou-se em direção ao cam­po destinado às contendas, veloz e certeiro como uma flecha. No momento exato, o animal deslocou a cabeça ligeiramente para o lado direito, um movimento apreendido por meio de anos de adestramento e que faria a lança de madeira do opo­nente escorregar à lateral da couraça de metal de seu cavaleiro e perder força.

Posicionando sua própria lança à altura do quadril, Desmond preparou-se para o impacto. E quando seu oponente projetou-se da sela numa explosão de madeira contra metal, o clamor dos espectadores ganhou os ares. Governando o animal por meio das rédeas, ele então fez Nevoeiro virar-se e marchar garbosa­mente até o pavilhão do rei, onde o cavalo se empinou duas ou três vezes como a pavonear-se.

Com o sorriso largo enfatizado pela barba quase negra, Coy já esperava ali perto. Gwillem veio correndo para tomar a lança da justa da mão de seu amo, coberta por uma luva rústica de punho largo e comprido.

― Muito bem! ― exclamou o rei Henrique. ― Vitória em três de cinco confrontos. Você é realmente o melhor cavaleiro deste torneio, du Luc. Seu prêmio será dois cavalos de mon­taria, uma armadura completa e uma bolsa de moedas, mas saiba que não teria sido assim tão fácil se o príncipe Eduardo estivesse aqui. O príncipe é o melhor cavaleiro e o mais bravo guerreiro da Inglaterra e da França.

― As proezas dele são cantadas em todos os lugares onde já estive, Majestade. Considero-me um homem de sorte por não ter tido de enfrentá-lo nesta data ― concordou Desmond.

― Bem assinalado, du Luc. Além do talento para a luta, você possui uma inteligência vivaz. Venha, junte-se a nós para um trago de vinho. ― O monarca fez um sinal com a mão, e jarros de vinho apareceram como do nada. ― Ah, eis Pounce, meu bufão. Sente-se, restaure suas forças e divirta-se um pouco com os chistes do meu bobo.

Desmond saltou da garupa de Nevoeiro tentando ignorar que sua armadura rangia da proteção para os joelhos até o pes­coço. Após tirar o elmo e saborear o ar fresco que a poeira encorpava, subiu os degraus de madeira que levavam à plata­forma ocupada pelo rei e seus criados. O tecido espesso que cobria o palanque deixava o ambiente ali embaixo bastante aprazível. Apoderando-se de uma taça de vinho, ele ficou a observar o bobo da corte preferido de Henrique saltitar e dar cambalhotas em frente ao abrigo destinado ao monarca.

Enquanto o rei se distraía como o bufão, um grupo de cam­poneses espalhou-se pelo espaço diante do lugar de honra. A corda que demarcava o campo destinado à justa foi retirada. Os restos de armaduras quebradas e lanças partidas levados dali deram lugar a alvos acolchoados pintados com olhos-de-boi. Com seus arcos longos de madeira, arqueiros puseram-se a lançar pedriscos no ar para testar a direção e a intensidade do vento. Perto das cozinhas do mosteiro de Combwell, as pessoas começaram a se juntar para assistir à próxima compe­tição de perícia.

Rapidamente montaram-se barracas e carrinhos-de-mão, onde, entre uma disputa e outra, mercadores e artesãos ofere­ciam cerveja clara e escura, tortas de carne e pedras de amolar. A excitação provocada pelo torneio elevava os ânimos tanto de nobres como de plebeus. Fidalgos buscavam moedas nos bolsos para apostar nos seus favoritos. As damas flertavam e entregavam fitas coloridas como lembrança aos competidores que mais admiravam.

Contente com que sua participação nas competições tivesse se encerrado, e também bastante satisfeito com seu prêmio, Desmond sorvia grandes goladas do excelente vinho ofertado pelo rei. Ele e Coy partiriam para Mereworth na manhã se­guinte com suas conquistas a reboque.

Depois de atirar uma moeda ao ar e ver o bufão apanhá-la sem errar um só passo de sua exuberante dança, Henrique co­mentou:

― Pounce é o maior bobo da corte do reino, mas meu filho não gosta dele. Mesmo se tratando de excelente guerreiro, Eduardo não tem muita simpatia por brincadeiras e entreteni­mento. Parece que ele só pensa em recuperar o que meu pai perdeu.

Foi o próprio Pounce quem salvou Desmond de ter de res­ponder à observação do monarca: após intrincada cambota, o bufão, que parecia feito de arame, empertigou-se como um pavão diante do palanque real para anunciar alto e claro:

― Nosso bom suserano Henrique III era tão sábio no dia em que nasceu como é hoje. ― Deixando a asserção a pairar sobre a aglomeração de nobres, Pounce pôs-se a fazer mala­barismos com bolas enquanto soprava um apito feito de bambu.

Desmond franziu a testa. Embora ficasse evidente que Henrique entendera o comentário como uma forma de o bobo de­clarar que ele havia nascido com uma sabedoria fantástica, qualquer outra pessoa ali sabia que Pounce quisera dizer que o monarca era tão ignorante quanto um recém-nascido. Afir­mações sarcásticas como aquela eram repetidas com freqüência nas tavernas plebéias de Essex a Chester. Se estivesse entre eles, o temperamental príncipe Eduardo decerto tomaria a brin­cadeira por grave ofensa. Aliás, era de se estranhar que a cabeça de Pounce continuasse bem firme sobre seu pescoço, uma vez que Eduardo não perdia a oportunidade de defender o pai e a Coroa que um dia seria sua.

― Você irá se demorar por aqui, em Combwell, du Luc? ― o soberano perguntou a Desmond assim que Pounce se afas­tou como a galopar. ― Ou pretende participar de algum outro torneio?

― Amanhã pela manhã Coy de Brambourg e eu seguiremos para Mereworth. Tenho me ausentado de lá com certa freqüência ultimamente e, ainda que meu administrador, Galen, seja mais do que competente, ando com vontade de passar um tem-pinho em casa.

― Então quero que se sente comigo à mesa real esta noite. Como campeão do dia, você tem esse direito.

― Será uma grande honra, Majestade.

― Diga-me, du Luc: você gosta de ave bem condimentada? Agora mesmo meu cozinheiro está preparando uma travessa de suculentos melros adocicados para mim. ― Falando com uma alegria quase infantil, o rei lambeu os lábios na expectativa de provar o quitute.

Pego de surpresa, Desmond meneou a cabeça para sinalizar que sim.

― Ah, vejo que logo darão início à demonstração da arte de manejar arco e flecha, mas antes disso preciso trocar algu­mas palavras com o bom abade que está vindo para cá. ― Henrique fez um gesto para indicar Giles, o abade de Tunbridge Wells, que caminhava em direção ao palanque real com uma expressão contrita.

Desmond já ouvira falar do homem que se erguera de uma origem humilde para tornar-se uma das forças mais influentes no seio da Igreja. Diziam que, de tão rico, Giles agora fazia empréstimos que concorriam com os dos mercadores judeus de Londres. O diz-que-diz dava a entender que o abade finan­ciara com recursos próprios várias Cruzadas que tentavam re­tomar Jerusalém.

― Abade, você me parece preocupado e, a julgar pelo que meus conselheiros andaram me dizendo, tem motivos de sobra para tanto. ― O rei Henrique fez sinal para que o clérigo se sentasse numa poltrona vazia perto da sua. ― Diga-me: o que vamos fazer com sua prima já tantas vezes casada? Aquela jovem me deixa profundamente aborrecido.

O abade de Tunbridge Wells baixou a cabeça, depois afastou a barra do manto e se acomodou ao lado do monarca, dizendo:

― Pobre dela, Majestade. A coitadinha não tem culpa, juro por minha alma. Tudo o que ela quer é casar-se e ter filhos honrados.

― Só que não está casada e nem teve criança. ― O olhar do rei era agudo e intenso como o de um falcão.

― Não, Majestade, ela está sem marido e sem descendentes. Mas será que alguma outra mulher já tenha suportado tanto pesar na vida?

― Ou tanta sorte, alguém poderia indagar. ― Os aristocrá­ticos sobrolhos do monarca se ergueram. ― A cada casamento, a fortuna dela aumenta. Meus conselheiros estão pasmos com a facilidade com que ela se vê viúva. Alguns até se perguntam se não haveria a mão dela nessas mortes misteriosas.

― Sei que os boatos não podiam ser piores, Majestade, mas a verdade é que Aislin não tirou proveito algum dessa situação tão trágica. Como cada bom homem foi para Deus sem de­scendentes ou quaisquer outros herdeiros, a Coroa se apoderou da maior parte dos bens que deixaram. Na verdade, Majestade, não seria incorreto dizer que foi a Inglaterra quem mais se beneficiou com a triste sucessão de desgostos de minha prima.

O pavilhão real foi tomado por um silêncio tão denso quanto a poeira nos campos do torneio. Sorrindo de um modo quase provocador, o soberano então comentou:

― Exceto pelos legados que foram parar nas mãos da Igreja, não é verdade?

― Pequenas quantias com o propósito de facilitar a ascensão da alma dos infelizes ao Paraíso. Ninharias, nada de muita im­portância. ― O abade estendeu as mãos cobertas por luvas com as palmas para cima, num gesto de súplica. ― Ainda que fosse da vontade de Deus que os homens de meia-idade com quem ela se casou tivessem de morrer, minha pobre prima está inconsolável.

― Talvez a dama seja ela própria vítima de forças sombrias.

― Majestade, como homem de Deus eu juro que...

Henrique ergueu a mão para silenciar o. clérigo.

― Não se exaspere, abade. Estou propenso a aceitar suas garantias de que sua prima não tem usado de artifícios condenáveis para se livrar de um marido incômodo. Afinal de contas, você é um homem piedoso, e se o rei da Inglaterra não puder acreditar no abade de Tunbridge Wells, então o que será de todos nós?

― Realmente, Majestade. ― Giles passou o dedo pelo gran­de crucifixo de ouro que trazia ao pescoço.

Quando percebeu, Desmond já prestava atenção aos miste­riosos eventos discutidos pelos dois representantes dos mais elevados estratos da sociedade.

― Sua prima precisa de um marido. Fiz o que pude promo­vendo o noivado dela com homens de caráter irreprovável, e mesmo assim nenhum conseguiu resistir após a noite de núp­cias. ― Esparramado sobre a poltrona e envolto pelas peles de excelente qualidade que o faziam parecer um leão modorrento, o monarca suspirou de modo dramático. ― Será que é assim tão penoso dividir o leito nupcial com ela? Será que manter relações conjugais com essa dama é algo tão desagradável que nenhum homem sobrevive ao suplício? Ou será que se trata de uma tarefa mortal, a qual somente alguém em pleno viço da juventude teria como suportar?

O rosto do abade estava rubro, o que fez Desmond indagar-se se o clérigo era realmente puro e casto a ponto de se horro­rizar com os comentários quase obscenos de Henrique, ou se de fato haveria alguma verdade no que o rei acabara de dizer. Seria a tal dama uma atrevida duma insaciável que sugava a vida dos homens com quem se casava e mantinha relações conjugais? Quem seria essa sanguessuga feia e maldosa que matava seus maridos e atormentava o soberano?

― Talvez eu tenha errado ao mandar para ela fracotes e homens já de certa idade ― prosseguiu Henrique. ― Tenho de lhe enviar um vigoroso garanhão da Inglaterra, um homem robusto, saudável e concupiscente que a domine por completo e plante suas sementes nas entranhas dela. Isso iria calar as línguas ferinas que andam chamando sua prima de Flor Vene­nosa, não?

― Flor Venenosa, veja só! ― O abade fez um muxoxo indignado. ― Como alguém pode espalhar zombaria tão cruel? Minha prima Aislin é pessoa cumpridora de seus deveres, Ma­jestade. Dói-me vê-la difamada.

― Ela não terá cumprido seu dever até começar a trazer seus descendentes ao mundo... com freqüência. ― Os olhos de Henrique se estreitaram: ― A Coroa necessita de herdeiros. De cavaleiros e guerreiros, não de cadáveres.

― O senhor tem razão, Majestade. Perdoe-me pelas palavras precipitadas. É que me aflige ver Aislin tão atormentada por conta dos comentários venenosos de vadios que não conhecem a caridade.

― Esses rumores de escárnio e morte têm de cessar. Vou mandar à sua prima um homem capaz de sobreviver aos rigores dos aposentos dela. Enviarei a Aislin um autêntico represen­tante da virilidade inglesa... Um homem renomado como gran­de amante, um valoroso e honrado campeão que cumpra com sua obrigação e produza herdeiros.

― O senhor está se referindo ao príncipe Eduardo? ― O abade tinha os olhos arregalados.

Henrique examinou seu interlocutor por alguns instantes an­tes de declarar:

― Não, ainda que meu filho, sem sombra de dúvida, não fosse ter a menor dificuldade parar domar essa megera. Eu falava de um outro cavaleiro, conhecido como galante e pos­suidor de um coração de trovador. Ele perdoou as multas que seus servos lhe deviam por casarem-se sem sua permissão. Sabe-se que é ele próprio quem paga a taxa devida pelo servo que deixa os limites de sua propriedade para buscar ocupação noutro lugar qualquer. ― O rei olhou para Desmond. ― As histórias sobre a generosidade desse homem alcançaram a casa real, provocando murmurinho e ranger de dentes entre outros barões que não são assim caridosos nem dispostos a demonstrar boa-vontade para com camponeses que se casam por amor.

Desmond sentiu um arrepio na nuca ao imaginar que seu destino pudesse estar por um fio de teia de aranha. No decorrer do ano passado, em Mereworth, não só ouvira as lacrimosas declarações de amor de servos apaixonados por outras criadas como também pagara um punhado de multas por conta dessas paixões desmedidas. Mas não era possível que o monarca ti­vesse ouvido falar de questões pertinentes ao seu castelo...

Ou era?


― O que tem a dizer, Desmond Vaudry du Luc? ― Henri­que o interpelou. ― Como um homem que acredita nos capri­chos do coração, o que tem a dizer a respeito da pobre dama que não consegue manter um marido vivo pelo espaço de tem­po necessário para engravidá-la?

― Majestade... ― Desmond fez força para engolir o nó que apertava sua garganta. ― Como não conheço a dama a que se refere, não tenho opinião formada sobre o assunto.

― Ah, sei. Então me fale a respeito de seus planos quanto a tomar uma dama por esposa, du Luc. Por certo com relação a esse assunto você já tem uma opinião bastante clara.

― Não creio possuir o estofo necessário a um bom marido, Majestade. Aprecio a falcoaria, a companhia feminina, a cer­veja que bebo com meus companheiros. Gosto de cavalgar a pleno galope no lombo de meu cavalo, de dividir meus aposen­tos com raparigas condescendentes, de caçar com meus cães prediletos. Sou por natureza egoísta e negligente demais, jamais seria um bom cônjuge para uma mulher, seja ela quem for.

Henrique Plantageneta continuava a olhar fixamente para ele. Por mais que o povo afirmasse que o monarca era pessoa de pouca esperteza, Desmond via naqueles olhos uma inteli­gência aguçada, mesclada à arrogância de quem não gostava de ser contrariado. Olhos que, o povo também dizia, eram idênticos aos da sagaz avó de Henrique, a célebre Eleanor de Aquitânia.

― Pois então, como seu soberano, é minha responsabilidade providenciar para que você se assente e, assim, mantê-lo pro­tegido de sua natureza negligente. O que tem a dizer quanto a tomar uma esposa de minha escolha?

― Majestade, sou-lhe leal acima de todas as coisas ― res­pondeu Desmond num fio de voz.

― Você ouviu a conversa que tive com o bom abade. O que diz a respeito da dama que passa por seus maridos mais de­pressa do que uma ovelha por uma cerca? Quantos já foram, Giles?

― Quatro ― disse o abade.

― Quatro bravos cavaleiros da realeza não sobreviveram ao leito nupcial daquela mulher. ― Henrique bateu o punho cerrado contra a palma da outra mão. ― Tenho de enviar a ela um homem que já provou ser forte na carne e valente no co­ração, meu bom du Luc.

Desmond abriu a boca para responder no exato momento em que um arauto real fez soar seu clarim.

― Ah, os arqueiros estão se reunindo no campo norte ― disse o rei. ― No mundo não há melhores.

Em busca de um bom ângulo de visão, o abade de Tunbridge Wells inclinou-se sobre o cortinado drapeado que cobria o ba­laústre na parte dianteira do pavilhão, revelando a fina camada de poeira que lhe cobria a tonsura.

― Acho que vou fazer uma aposta no melhor arqueiro... Aquele rapaz de verde, talvez? ― Após levantar-se segurando junto de si os trajes cerimoniais, Henrique fez um gesto vago para os nobres reunidos no palanque. ― Quem de vocês irá pagar minha aposta?

Nenhum deles se manifestou.

― Ora, mas será que são todos uns moleirões? ― o monarca reclamou consigo, então tornou a erguer a voz: ― Quem irá pagar minha aposta?

― Eu, Majestade ― ofereceu o abade.

― Ah, bom, bom... O jogo torna o resultado mais atraente. Bem, mas por que minha travessa de melros está demorando tanto? Será que meu cozinheiro não sabe que estou morto de fome?

Por saber que a pergunta do soberano não pedia uma res­posta, um pajem disparou em direção às cozinhas do mosteiro, desviando dos alvos dispostos em cavaletes para depois desa­parecer no interior de uma edificação de pedras cujas chaminés despejavam rolos de fumaça no ar.

― A primeira salva de flechas está prestes a ser disparada, Majestade ― avisou o abade. ― Creio que apostarei no homem barbado no fim da fileira. Ele tem braços de arqueiro.

― Oh, sim. Aquele um é um autêntico atirador, em Nottinghamshire ele acertou o olho do boi em três de cinco dispa­ros. ― O rei tornou a se levantar no intuito de melhorar a visão que tinha do campo. ― Ainda assim, acredito que meu rapazote de verde irá superá-lo.

Enquanto via salva atrás de salva de flechas com plumas negras voarem na direção dos alvos recheados de palha do outro lado do campo, Desmond calculou que, com sorte, sua situação de celibatário pudesse ser posta de lado. Como o rei tivesse toda a atenção concentrada na competição de arqueiros, talvez lhe fosse possível escapar dali rumo à tranquilidade de Mereworth antes que o aristocrático e penetrante olhar de Hen­rique III pousasse sobre ele novamente.

― Desmond Vaudry du Luc, por acaso já conhece a forta­leza de Sevenoaks? ― indagou o soberano num tom amável, porém sem tirar os olhos da disputa. ― Fica perto de Mere­worth, o castelo de seu baronato, não?

Encolhido em sua poltrona, Desmond sentiu-se como um rato sob o escrutínio de uma águia.

― Sim, Sevenoaks fica a poucas léguas de distância... Mes­mo assim, nunca estive lá, conheço o lugar de nome, somente.

― Então vá para Sevenoaks e trate de se familiarizar com tudo por lá. Estude a situação das terras, inteire-se do anda­mento e do resultado das colheitas e da manutenção e conser­vação da propriedade. Dê o melhor de si para que tudo fique como deveria estar, pois a partir de agora essa responsabilidade será sua. Você irá tomar por esposa essa dama, Aislin, conhe­cida como Flor Venenosa. O que me diz, Vaudry du Luc?

Desmond tinha na ponta da língua alegar alguma enfermidade na mente ou debilidade no corpo que o incapacitava para esse obséquio. Mas no instante em que as palavras estavam a ponto de lhe saltar da boca, a porta da cozinha do mosteiro se abriu. Um arauto fez soar seu clarim e, no momento seguinte, surgiram os pajens trajando librés com travessas fumegantes nas mãos. No fim do cortejo vinha o cozinheiro do rei, carre­gando uma grande bandeja coberta.

― Ah, meu cozinheiro favorito finalmente aparece com mi­nha deliciosa torta de melro. ― Henrique riu com gosto. ― E já não era sem tempo! Estou faminto!

Uma nova salva de flechas cortou o ar, algumas atingindo o solo aqui e ali. Uma delas, porém, foi acertar em cheio o cozinheiro, cravando-se em seu peito. Olhos esbugalhados, bo­quiaberto e mudo, o pobre homem caiu de joelhos e assim permaneceu por alguns instantes antes de tombar para a fren­te. A tampa da bandeja voou longe, e o rosto dele foi de en­contro à torta recém-saída do fogo.

― Pela Cruz Sagrada! ― Revirando os olhos em sinal de estupefação e ira, Henrique bateu o pé. ― Quem disparou aquela flecha?

O rugido real fez os homens que o rodeavam tremerem e esfregarem as mãos.

― É impossível dizer, Majestade, hoje todas as flechas estão enfeitadas com plumas negras, visto ser essa a única maneira de garantir que ninguém seja favorecido ou prejudicado na competição ― explicou um frenético arauto.

Um enxame de criados acercou-se do cozinheiro, mas tanto ele quanto a torta de melro foram declarados sem chances de salvação.

― Pela minha barba, alguém pagará por isso! Minha torta está destroçada, meu cozinheiro predileto jaz morto. ― O mo­narca mirou os arqueiros com lábios crispados e fúria nos olhos. ― Um entre eles é o culpado por esta desgraça. Quero esse homem diante de mim. Tragam-no.

― Mas, Majestade...

― Tragam-no!

― Não temos como saber quem entre todos é o responsável por aquele disparo, Majestade ― um conselheiro real tentou argumentar. ― Somente um dentre eles disparou a flecha fatal, mas não há como saber quem foi.

Os olhos de Henrique se apertaram em duas fendas estreitas.

― Então reúnam todos os arqueiros. Se não se tem como saber quem é culpado ou inocente, mandem decapitar todos eles. Um por um. ― O soberano largou-se sobre sua poltrona, a imagem perfeita e acabada de uma tristeza profunda e de um poder sem limites.

― Mas, Majestade, há trezentos e quinze arqueiros reunidos no campo para as disputas de...

― Trezentos e quinze? ― Pensativo, Henrique pôs-se a co­çar o queixo.

― Sim, Majestade. ― O conselheiro suspirou, aliviado.

― Então sugiro que vocês tratem de providenciar um bom número de verdugos para dar conta do trabalho o mais depressa possível.

― Mas...


Ignorando o apelo de seu conselheiro, o soberano virou-se para Desmond com olhos duros como pedra. Às suas costas, os arqueiros começavam a ser agrupados como ovelhas de um rebanho. Não demorou a que alguém aparecesse com uma grande tora de madeira, ao lado da qual foram se postar dois homens encapuzados com braços musculosos e machados nas mãos. Desmond não teve como não se indagar se ambos fariam parte do séquito real e haviam sido levados para lá para o caso de uma emergência como aquela.

― Quero saber sua resposta, du Luc. Você irá acatar a ordem de seu soberano e casar-se com a dama Aislin de Sevenoaks, conhecida como a Flor Venenosa?

Duas pancadas secas ecoaram pelo campo de provas antes que um par de cabeças rolasse pelo terreno empoeirado. Mais alguns instantes e ouviu-se o ruído surdo de mais dois golpes de machado. Outro par de cabeças rodou pelo chão.

― Penso que é melhor casar-me do que perder a vida, Ma­jestade ― disse Desmond, assim que conseguiu engolir a bile que a matança lhe trazia à garganta. ― Partirei para o castelo de Sevenoaks o mais breve possível.

À busca de se acalmar, Aislin caminhava de um lado para outro nos aposentos senhoriais. Enviara Giles para falar com o rei em seu nome na esperança de que seu primo conseguisse dissuadir Henrique a lhe permitir permanecer solteira, nem que para isso precisasse pagar uma pesada multa. E o mensageiro que viera avisá-la de que o abade já se achava a caminho de volta ao castelo não lhe dera nenhuma indicação quanto à res­posta do monarca... Se era que o rapaz sabia qual tinha sido a decisão de Henrique. Aflita, ela agora rezava para que o rei tivesse se deixado convencer pelas súplicas de Giles e também pela generosa oferta em moedas.

― Não me casarei novamente. Ainda que o soberano decida o contrário, não tornarei a me casar.

Tarde demais, ela deu-se conta de que seu desabafo havia chamado a atenção das criadas que trabalhavam com fusos para fiar num canto ensolarado dos aposentos. Ambas tinham as mãos e os olhos ocupados com seus afazeres, mas decerto seus ouvidos deviam estar mais alertas do que os de uma raposa a vagar pela floresta. Já fazia semanas que Aislin expulsara todas as aias de seu dormitório, porém aquelas duas haviam cismado de rodeá-la tal qual mariposas atraídas por um facho de luz.

Era censura o que via no rosto de uma delas? Era de cons­piração o olhar que a moça trocara com a companheira que enrolava lã marrom na roca? Sobre o que se punham a cochi­char? Aislin não demorou a concluir que as duas estavam ali à cata de histórias para o moinho de intrigas que funcionava sem descanso nas dependências de seu castelo. E o queixume que fizera em voz alta fornecera àquelas mexeriqueiras um bom assunto para novos falatórios, afinal acabara de expor sua intenção de desafiar uma ordem do rei.

Flor Venenosa. Teria ouvido bem? Ou seria imaginação?

― Por que estão olhando para mim desse jeito? ― Aislin pestanejava no intuito de evitar as lágrimas. ― Acham que eu não escuto o murmurinho do lado de fora de minha porta? Acham que eu não sei que vocês dizem que sou perversa? Por acaso imaginam que o escárnio de vocês não me magoa? Ou será que pensam que possuo algum escudo sobrenatural que me protege do veneno de suas palavras?

Uma das criadas ficou rubra, e Aislin sentiu uma pontinha de satisfação por ter se feito entender. Ah, se ao menos pudesse encontrar uma maneira de dar fim de uma vez por todas aos comentários que grassavam pelas dependências do castelo... Um miado desviou a atenção dela para o outro lado do apo­sento, onde seu gato de estimação se espreguiçava sobre as peles que cobriam o grande leito com dossel.

― Ah, Pointisbright... ― Aislin foi tomar o grande bichano alaranjado nos braços, pondo-se a lhe acariciar o pêlo sedoso.

Os olhos das fiandeiras se arregalaram de medo. Mais um pouco e ambas as criadas começariam a sussurrar orações de proteção contra o mal.

― Saiam, as duas. Deixem-me em paz. Não quero mais vê-las por aqui, nem hoje nem em nenhum outro dia. Procurem outro lugar onde tecer e costurar e alimentar suas mentiras abjetas.

As mulheres recolheram seus materiais e correram para a porta, murmurando preces e pedidos de desculpas antes de dei­xarem os aposentos. Foi só depois de ver a pesada porta de carvalho completamente cerrada que Aislin deixou escapar o ar que prendia nos pulmões.

― Oh, Pointisbright, sei que eu devia ter me controlado, mas não demora e começarão a surgir histórias dizendo que eu fiz as labaredas da lareira dançarem e você falar. Céus!... Se você fosse de fato uma criatura mágica, bem que eu gostaria de lhe entregar meu coração para que o aliviasse de tanto pesar. Mas como você é apenas um gatinho, sei que minhas aflições estão bem longe do fim. Tenho a impressão de que o povo deste castelo olha para mim com mais medo e mais rancor a cada dia que passa. Não tenho amigos neste mundo, a não ser você e Giles.

Aislin caminhou lentamente até a janela incrustada nas pe­dras da parede, feita de dispendiosos pedaços de vidro cutilado presos no interior de uma emaranhada teia de chumbo. A vi­draça fora um presente de Theron, seu primeiro marido, por ocasião do noivado de ambos. Aos vinte anos de idade Theron parecia inabalável, um guerreiro destemido que participara de uma Cruzada e enfeitara seu lar com lembranças das batalhas vencidas e ricos ornamentos que só uma grande fortuna per­mitia. Aislin se encantara com a intrepidez de seu noivo e com a vida que ele lhe oferecia como castelã de sua fortaleza.

Theron tinha lhe mostrado surpreendentes passagens ocultas construídas nas paredes de Sevenoaks, um segredo do qual somente os dois sabiam. Durante as duas semanas que ante­cederam o casamento, ele não só lhe desvendara uma série de painéis deslizantes como também dera a entender que, após as núpcias, iria levá-la até um tesouro incalculável. O tesou­ro de tornar-se esposa e mulher, porém, esse ela nunca tinha conquistado.

― Oh, Theron, sinto saudade da sua bondade. O povo de Sevenoaks não tinha medo de mim quando você era vivo. E se antes eu ansiava por descobrir todos os segredos que você me prometeu, hoje já não me importo mais com isso.

Seu gosto pelas descobertas estava sepultado junto de Theron, e a morte de mais três esposos roubara-lhe o entusiasmo pela vida. Agora seus dias eram uma sucessão interminável de mo­mentos de solidão. Os únicos instantes de paz que tinha vinham com a noite, sob as estrelas.

Aislin passou a ponta do dedo pela superfície lisa e fria da janela. Mesmo tão frágil, a linda vidraça que Theron mandara instalar nos aposentos senhoriais durava mais do que o homem e suas promessas de proteção.

― Oh, Senhor, o que tenho de fazer para viver como as outras mulheres? A que penitência devo me submeter? Quais são as preces que devo entoar?

Mas no lugar da resposta de Deus veio o ranger de metal e corda que anunciava o soerguimento do portão levadiço. Pouco depois, Giles entrava no pátio interno do castelo seguido de perto por cerca de vinte guardas de Sevenoaks protegidos por armaduras. Os cavalos pareciam exaustos em conseqüência da longa viagem.

O abade de Tunbridge Wells então olhou para cima, e seus olhos encontraram os olhos de Aislin através da vidraça da janela. Ela não precisou que lhe contassem que Giles cavalgara até Sevenoaks como se tivesse os cães do inferno em seus calcanhares.

O rei condenou mais outro homem a casar-se comigo. Mais outro homem fadado a perder a vida.

― O dia está claro e quente, Desmond, e você está mais rico do que quando chegou para o torneio ― observou Coy num tom animador. ― Por que tem de ficar com essa expressão carrancuda?

Suas montarias trotavam lado a lado pela estrada, com os remanescentes do grupo que os acompanhava seguindo à re­taguarda dos dois. Punhados de cravos, goivos e margaridas brancas brotavam aqui e ali em natural liberalidade. A prima­vera daquele ano era perfeita, do tipo que os trovadores apre­ciavam e todos os ingleses guardavam na memória.

― Aprecie o dia o quanto quiser, mas não me peça para lazer o mesmo ― retrucou Desmond, mal-humorado. ― Não é você quem está a caminho de se agrilhoar a uma dama idosa e encarquilhada, quatro vezes viúva, uma harpia insaciável que suga a vida e depois o tutano dos ossos dos maridos.

― Isso é de fato verdade?

― Por que pergunta?

― Porque até agora você quase não falou da dama que o rei escolheu para você. ― Coy ergueu as sobrancelhas. ― É verdade tudo o que você acabou de dizer? Foi Henrique quem lhe contou que ela já deixou para trás o viço da juventude?

Desmond deixou os ombros caírem sob a armadura. A pe­sada proteção acolchoada e a túnica de lã que vestia começa­vam a ficar quentes demais, no entanto, os fora-da-lei infesta­vam o reino, e nenhum viajante com um pouco de juízo se arriscava a cruzar os campos desarmado ou sem escolta.

― Julguei que seria mais prudente não interromper o rei enquanto ele contava as cabeças que rolavam diante do mos­teiro. Àquela altura dos acontecimentos, fazer perguntas tolas sobre a aparência de minha noiva seria o mesmo que pedir para ter meu sangue somado ao dos arqueiros que tombavam aos pares. Agora, uma mulher quatro vezes viúva deve ter idade para ser minha mãe.

Coy deu uma gostosa gargalhada antes de assinalar:

― Muitos homens têm levado uma vida bastante feliz ao lado de uma bela mulher mais velha. O que de verdade está aborrecendo você, Desmond?

― Eu imaginava ter uma união como a de meus pais adotivos. Lady Alys era mais jovem do que Basil e era louca de amor por ele, adorava-o, mimava-o de todas as maneiras. Eu tinha em mente evitar o matrimônio por algum tempo e depois tomar por esposa uma dama jovem e fecunda... não uma viúva amargurada pela morte de outros maridos.

― Ah, sim. Você queria uma criança a quem educar para mimá-lo. ― Coy balançou a cabeça. ― Que criatura vaidosa e arrogante é você.

― Como pode se divertir com a minha infelicidade?

― Desmond, não creio que...

― Não. Não fale mais comigo a respeito de assunto tão difícil, se tudo o que tem a dizer são comentários jocosos e cruéis. Faça-se útil e vá ver como meu escudeiro está se saindo.

Mas Coy continuou ao lado dele, em silêncio e com uma expressão preocupada no rosto trigueiro.

Desmond suspirou. A maioria dos lares aprazíveis que co­nhecia era formada por cavaleiros bem assentados e suas jo­vens esposas submissas. Todos sabiam que, à medida que en­velhecia, uma mulher ficava cada vez menos propensa a dei­xar-se persuadir, e ele esperava ter um castelo repleto de her­deiros e morrer antes que sua esposa chegasse à idade da tei­mosia. Só que Henrique arruinara seus planos e dera cabo de suas esperanças.

Não tinha escolha. Estava ligado por um compromisso de honra à vontade do monarca, não lhe restava outra opção senão desposar a bruxa de língua afiada que enterrara quatro maridos. Quisesse ou não quisesse, gostasse ou não gostasse. A vontade do rei era definitiva e, se desobedecida, mortal. Para piorar, a morte acidental de seu cozinheiro favorito exacerbara a irascível têmpera Plantageneta de Henrique, de maneira que só um tolo ousaria contrariar o soberano em qualquer questão por pelo menos doze meses. Mesmo que o cozinheiro real fosse substituído e entre suas habilidades culinárias figurasse tem­perar aves à perfeição.

― Estou condenado ― Desmond admitiu. ― E tudo por causa de um cozinheiro morto e de uma três vezes maldita torta de melro. Será que algum outro cavaleiro já teve seu destino aniquilado por conta de um motivo tão tolo? Ah, se ao menos eu não tivesse inventado de participar daquele torneio!

― Desmond, por que não...

― Vá, Coy. Faça-se útil. Vá ver se Gwillem não está tendo algum problema com as novas montarias. Aquele garanhão todo negro me pareceu meio indócil.

Após virar-se para trás e examinar o séquito que os acom­panhava, Coy afirmou com convicção:

― O rapazinho está se saindo bastante bem.

― O que você acaba de fazer eu também poderia ter feito. Gwillem é jovem e ingênuo, o que eu queria era que você o ajudasse com a sua experiência. Se o rapaz tiver algum tipo de dificuldade com os dois cavalos que ganhei na competição, seria bom se você estivesse ao lado dele para orientá-lo. Será que posso pedir esse pequeno obséquio a meu generoso e velho amigo?

― Por São Cuthbert, estou vendo que esta viagem não será sossegada para nenhum de nós. ― Coy revirou os olhos em sinal de impaciência. ― Será um prazer ir verificar se Gwillem necessita de ajuda, pois estou certo de que conversar com ele é bem mais fácil do que tentar falar com você.

Com isso ele fez sua montaria dar meia-volta e retrocedeu alguns metros até alcançar o novo escudeiro de Desmond. Pres­tativo e despachado, o rapaz tinha ambas as montarias sob seu domínio: cavalgava uma e guiava a outra. Perto dos garanhões era quase um pigmeu, mas a linha fina em que crispava a boca indicava que tencionava dar o melhor de si no cumprimento da tarefa que lhe fora destinada.

― Bom dia, Gwillem.

― Bom dia, sir Coy.

― Os cavalos estão dando trabalho?

― Até agora não, senhor. Fiz algo errado? Sir Desmond parece bastante contrariado, fiz alguma coisa que o aborreceu?

Coy sorriu ante a expectativa do rapazote em agradar ao novo amo por quem, evidentemente, tinha grande admiração.

― Não, Gwillem, não é você o motivo da irritação dele. Desmond está amofinado por ter de tomar uma esposa por ordem do rei.

― Ninguém pode culpá-lo por isso, sir Coy. Lá nas cochei­ras muito se falou da mulher que o soberano escolheu. Dizem que é chamada de Flor Venenosa. O rei já ordenou a quatro homens que se casassem com ela.

Venenosa. A palavra ficou ressoando na cabeça de Coy co­mo pedras num balde vazio. Talvez a idade avançada e as qua­tro viuvezes da noiva não fossem os únicos motivos do melan­cólico desânimo de Desmond. Seria possível que seu amigo estivesse lhe escondendo algo mais grave, alguma ameaça a pairar sobre ele? A boa-vontade com que Coy vinha encarando aquele compromisso arranjado pelo monarca cedeu lugar à des­confiança.

― Conte-me o que você andou ouvindo pelos estábulos, rapaz.

Gwillem não fez rodeios:

― Disseram que a dama mata qualquer um que se casar com ela.

― Mas por que envenenar um marido sabendo que o rei irá lhe arrumar outro? ― Coy ponderou em voz alta. ― Nem mes­mo uma nobre de nascimento pode esperar clemência de Hen­rique. Por outro lado... Veneno é a arma típica das mulheres.

― Sim, meu lorde, também ouvi isso. Um homem usaria uma adaga ou uma espada, mas uma mulher usaria uma poção.

― Gwillem, você gosta muito de seu lorde Desmond, não é verdade? ― Coy já tinha um plano em mente.

― Sim, sir Coy. Ele não se importa se sou mais baixo e mais magro do que a maioria dos rapazes, aceitou-me por es­cudeiro assim mesmo. Sir Desmond é o melhor cavaleiro de toda a Inglaterra. Junto do senhor, meu lorde.

― Então você faria um favor para seu amo? Um favor que pode colocar sua vida em risco?

― Sim, sir Coy. ― Gwillem endireitara as costas e aprumara os ombros, ainda assim continuava aflitivamente pequeno à garupa do musculoso cavalo de batalha. ― Darei o melhor de mim.

― Bom rapaz. Agora, preste atenção: não revele a ninguém, homem, mulher ou criança, o que vou lhe dizer.

Muito sério, o jovenzinho meneou a cabeça para demonstrar anuência.

― Quando chegarmos ao castelo de Sevenoaks ― prosse­guiu Coy ―, você e eu teremos de vigiar sir Desmond de perto. Será preciso que um de nós esteja sempre ao lado do barão todas as vezes em que ele for beber ou comer alguma coisa. Ou melhor, antes que ele leve algo à boca.

― Antes que ele coma ou beba algo? ― Gwillem tinha os olhos arregalados. ― O senhor receia que a Flor Venenosa possa tentar matar o barão Desmond?

― Quatro homens já perderam a vida em Sevenoaks. ― Coy baixara a voz a um sussurro. ― Se os boatos que correm por aí forem verdade e a dama for realmente responsável pelo que aconteceu, caberá a você e a mim, se formos aguerridos, evitar que ela seja bem-sucedida mais uma vez. Nós dois ire­mos provar tudo o que for oferecido a Desmond, se alguém tentar matá-lo, nossas mortes servirão de aviso para ele.

― Terei muito orgulho em ajudar o barão Desmond ― Gwillem afirmou com determinação, embora tivesse o rosto destituído de cor, fato que as sardas no alto de suas bochechas ressaltavam ainda mais.

― Agradeço sua lealdade, rapaz. E torço para que, se a tal noiva estiver por trás desse desatino, seja minha a adaga que cortará o pescoço dela.



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