Coleção História em Debate 2 História Ensino Médio



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2. Leia o texto a seguir para, depois, responder às perguntas.

Na antiga língua maia, “Popol” significa reunião, comunidade, casa, junta; e “Vuh”, árvore de cujo corte se fazia papel, por extensão, livro. Popol Vuh é o mais precioso relato – e legado – da antiguidade americana; é o livro sagrado dos índios que habitavam uma região onde é hoje a Guatemala. É em essência um conjunto mítico e teogônico, dividido em três partes: a primeira é uma descrição da origem do mundo e da criação do homem; a segunda trata das aventuras dos jovens semideuses Hunahpu e Ixbalanqué no reino sombrio de Xibalbay; e, finalmente, a terceira parte refere-se à origem dos povos indígenas da Guatemala, suas guerras e emigrações, com o predomínio dos quíchua-maias até pouco antes da conquista espanhola. O livro teria sido escrito no começo do século XVI, possivelmente em pele de veado, e foi transcrito para o latim em 1542, por frei Alonso Del Portillo de Noreña. A versão espanhola apareceu em 1701, feita pelo frei Francisco Ximenez.

COSTA, Flávio Moreira da. Uma flor misteriosa, solitária, na imensidão da América adormecida. In: _______ (Org.). Os melhores contos da América Latina. Rio de Janeiro: Agir, 2008. p. 15.

a) O que é o Popol Vuh?

b) Como o Popol Vuh foi composto?

c) Qual é a importância de algo como o Popol Vuh para um povo?

Professor, as orientações e respostas referentes a esta seção estão no Manual do Professor.



Os astecas

Ao chegar ao México, vindos da região de Aztlán, os astecas (ou mexicas), guerreiros conquistadores, foram paulatinamente influenciados pelas culturas toltecas e zapotecas, que já estavam em declínio.

Por volta de 1325, os mexicas fundaram Tenochtitlán, que se tornou uma das mais importantes cidades astecas. Depois de violentas lutas durante o reinado de Itzcoatl (Serpente de Obsidiana), este, em aliança com o governante de Texcoco, formou a Tríplice Aliança (Tenochtitlán, Texcoco e Tlacopán).

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IT–ip Images/Glow Images

Segundo a lenda, o deus Huitzilopochtli ordenou aos mexicas que se estabelecessem onde encontrassem “uma águia num cacto, em uma ilhota, devorando uma serpente”. Na região pantanosa do Lago Texcoco, fundaram Tenochtitlán. A atual Cidade do México foi construída sobre as ruínas da capital dos astecas. Acima, página inicial do Codex Mendoza apresentando o mito fundador, 1548.

Os astecas chamavam a si mesmos de mexicas, e eram chamados assim também pelos espanhóis. O termo asteca deriva de aztecatl que, na língua nativa dos mexicas, designava os povos vindos da região de Aztlán, sua terra natal, segundo a lenda. Essa denominação passou a ser utilizada pela historiografia a partir do século XIX, popularizando-se desde então.


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O fortalecimento militar, combinado com a confiança que os mexicas tinham em seu próprio destino, possibilitou a contínua expansão política e econômica. Povos de línguas e costumes diferentes – como os totonacas, huaxtecas, mixtecas, zapotecas e outros – foram submetidos de maneiras diversas pelos mexicas.

Com relação à estrutura social, sabe-se que a sociedade asteca era estratificada e diretamente relacionada com a hierarquia política e econômica. O grupo dominante, dividido em vários níveis hierárquicos, referentes a cargos e títulos diversos, controlava os altos cargos administrativos e não pagava tributos. Ciosos de seus privilégios, os nobres teriam forjado a imagem de que eles eram os responsáveis pela urbanização e embelezamento da cidade, pelo estabelecimento de rotas comerciais, por artes e ofícios, pela propagação da língua náhuatl, pela boa administração e pela manutenção e renovação do Sol e da humanidade por intermédio das oferendas, cujo objetivo era a restauração da energia divina. O poder político era centralizado e o tlatoani (“aquele que fala” ou “que comanda”) era eleito vitaliciamente pela elite mexica.

Os escravos, situados na faixa mais baixa da escala social, tinham um estatuto curioso. Trabalhavam sem salário, eram bem tratados e moravam na casa de seus donos, que os alimentavam e vestiam.

As dívidas de jogo eram a causa mais corrente da escravatura, pois, diante da impossibilidade de pagá-las, os devedores ofereciam-se volun - tariamente para a ocupação servil. Em outros casos, uma família que passava necessidades vendia um de seus membros. E, entretanto, esse estatuto não era perpétuo: o escravo ou seus parentes podiam comprar de volta a liberdade, e seus filhos, ne cessariamente, nasciam livres. Além disso, não se podia vendê-los sem seu consentimento.

ACOSTA, Rosário. Astecas: da grandeza à tragédia. História viva, São Paulo, Duetto Editorial, ano 4, n. 44, p. 46.

Os mexicas estabeleceram uma área de comércio intenso na qual os produtos eram exibidos por setores. Na ala dos comestíveis havia feijões, pimenta, cebolas, sal, coelhos, rãs, patos, peixes, cachorros, mel, perus, girinos e milho de diversas variedades. Na ala das vestimentas havia tangas, casacos de peles de coelho, de raposa e de jaguar. No mercado de Tlatelolco era possível comprar utensílios de obsidiana, sílex, cerâmica policromada e louças de vários tipos. Os comerciantes, chamados de pochtecas, constituíam um grupo social diferenciado, que, além dos produtos trazidos pelos mercadores, recebiam tributos pagos pelos povos dominados.

O milho era a base da alimentação, além de legumes, amendoins, flores, formigas, vermes, insetos, gafanhotos, perdizes, rãs, pombos, coelhos e até moscas. As mulheres cuidavam da casa, da tecelagem, dos filhos e do preparo de alguns alimentos.

A principal atividade econômica era a agricultura. Cultivavam-se milho, feijão, baunilha, pimenta, tomate e diversas espécies de algodão, amendoim, abóbora e cacau.

Os astecas adotavam um calendário solar com 18 meses de 20 dias, mais um décimo nono mês de cinco dias, perfazendo 365 dias. A cada ciclo de 104 anos, acrescentavam 25 dias. Havia também um calendário divinatório de 260 dias. Os dois calendários só começavam no mesmo dia de 52 em 52 anos – era o ce-atl, que acreditavam trazer grandes mudanças, uma espécie de nova era.

A arquitetura asteca era grandiosa e sofisticada. A cidade de Tenochtitlán tinha pontes, canais, calçadas, praças e avenidas. Os manuscritos hieroglíficos e pictográficos (chamados códices) atestam a habilidade dos escribas-pintores, que, para escrever, usavam diversos materiais (pele de veado, panos de algodão ou papéis produzidos com a casca da figueira ou do agave).

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Photo Researchers/New York Public Library/Diomedia

Calendário asteca esculpido em basalto. Também chamada de Pedra do Sol, a obra foi encontrada em 1790, tem 3,58 m de diâmetro e está em exposição no Museu Nacional de Antropologia da Cidade do México (México).
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Já a religião mexica caracterizou-se pela variedade de manifestações, pelo politeísmo, pela origem heterogênea e pelos sacrifícios aos deuses. Os astecas empreendiam as chamadas “guerras floridas” (xochiyaoyaotl) para conseguir prisioneiros que, depois, seriam sacrificados. O texto a seguir aborda as razões para os sacrifícios.

A missão do homem em geral, e mais particularmente da tribo asteca, povo do Sol, consistia em conjurar infatigavelmente o assalto do nada. Para isso era preciso garantir ao Sol, à Terra e a todas as divindades a “água preciosa”, sem a qual a engrenagem do mundo deixaria de funcionar: o sangue humano. Dessa noção fundamental decorrem as guerras sagradas e a prática de sacrifícios humanos. Ambas, segundo os mitos, iniciaram-se com a criação do mundo. O Sol exigia sangue: os próprios deuses lhes haviam dado o seu; e depois homens, sob suas ordens, haviam exterminado as serpentes de nuvens do Norte. Huitzilopochtli nasceu guerreando. A única exceção foi Quetzalcóatl, símbolo das teocracias pacíficas da alta época clássica, que nada desejara sacrificar senão borboletas, pássaros e serpentes. Tezcatiploca, porém, o vencera, e os deuses exigiam o seu “alimento”.

SOUSTELLE, Jacques. A civilização asteca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1987. p. 76.



Organizando ideias

O conquistador espanhol Bernal Diaz del Castilho registrou, em 1519, sua surpresa ao deparar-se com a organização de um mercado da cidade asteca de Tenochtitlán.

[...] Quando lá chegamos, ficamos atônitos com a multidão de pessoas e a ordem que prevalecia, assim como com a vasta quantidade de mercadorias [...]. Cada espécie tinha seu lugar particular, que era distinguido por um sinal. Os artigos consistiam em ouro, prata, joias, plumas, mantas, chocolate, peles curtidas ou não, sandálias e outras manufaturas de raízes e fibras de juta, grande número de escravos homens e mulheres, muitos dos quais estavam atados pelo pescoço, com gargalheiras, a longos paus. O mercado de carne vendia aves domésticas, caça e cachorros. Vegetais, frutas, comida preparada, sal, pão, mel e massas doces, feitas de várias maneiras, eram também lá vendidas. Outros locais na praça eram reservados à venda de artigos de barro, mobiliário doméstico de madeira, tais como mesas e bancos, lenha, papel, canas recheadas com tabaco misturado com âmbar líquido, machados de cobre, instrumentos de trabalho e vasilhame de madeira profusamente pintado. Muitas mulheres vendiam peixe e pequenos “pães” feitos de uma determinada argila especial que eles achavam no lago e que se assemelhava ao queijo. Os fabricantes de lâminas de pedra ocupavam-se em talhar seu duro material e os mercadores que negociavam em ouro possuíam o metal em grãos, tal como vinha das minas, em tubos transparentes, de forma que ele podia ser calculado, e o ouro valia tantas mantas, ou tantos xiquipils de cacau, de acordo com o tamanho dos tubos. Toda a praça estava cercada por “piazzas” sob as quais grandes quantidades de grãos eram estocadas e onde estavam, também, as lojas para as diferentes espécies de bens.

DEL CASTILHO, Bernal Diaz apud MEGGERS, Betty J. América pré-histórica. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985. p. 96-97.



1. A palavra atônitos revela a surpresa dos espanhóis. O que os surpreendeu? Justifique a resposta.

2. O local descrito por Bernal pode ser comparado a uma cidade atual? Explique.

Professor, as orientações e respostas referentes a esta seção estão no Manual do Professor.



Glossário
Assaltar: no sentido utilizado no texto, pode ser entendido como ataque súbito, de surpresa.
Conjurar: tramar, reunir pessoas para fins comuns.
Infatigável: que não sente fadiga, incansável.
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Os incas

Na região da Cordilheira dos Andes, na costa oeste da América, desenvolveu-se um grande império: o Império de Tawantinsuyu – que significa “quatro caminhos” –, também chamado de Império Inca. A origem dos incas é incerta, mas sabe-se que eles se estabeleceram na região a partir do século XIV, tendo Cuzco como o centro de seu império.

Ao longo do século XIV, uma série de monarcas guerreiros conquistou a hegemonia local e Cuzco passou a ser o centro do mundo incaico.

A maioria da população inca vivia em uma multiplicidade de pequenas coletividades agropastoris.

Cada aldeia era habitada por um conjunto de famílias unidas por laços de parentesco ou aliança, que representavam um ayllu. Esse grupo localizado e de tendência endogâmica não era, contudo, nem um clã nem uma linhagem. No interior do ayllu, ao que parece, a filiação se traçava em linha masculina direta para os homens e em linha feminina direta para as mulheres, de tal modo que os homens descendiam de seu pai e as mulheres de sua mãe. Esse sistema de descendência paralela era particularmente difundido nos Andes centrais e meridionais [...].

Reduzida ao casal e aos filhos celibatários, a família representava a unidade de produção e consumo no interior da qual se operava a divisão do trabalho. À mulher cabiam as tarefas de cozinhar e cuidar da habitação. Ao homem competiam os trabalhos da lavoura, assim como certas atividades artesanais, tais como a cerâmica e mesmo a tecelagem. O casal constituía-se após um período mais ou menos longo de coabitação matrimonial que os cônjuges virtuais utilizavam para testar sua compatibilidade sob a vigilância estrita de seus pais. Uma vez formalizado, o matrimônio – graças ao qual o indivíduo adquiria a completa autonomia e se tornava membro integral de seu ayllu – não poderia ser dissolvido senão por motivos graves. Ainda que homens de status superior tivessem às vezes numerosas esposas, o casamento monogâmico constituía a regra geral e a união poligâmica, a exceção.

FAVRE, Henri. A civilização inca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. p. 31-32.

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F. A. Alba/Shutterstock.com

Vista da cidade de Machu Picchu, Peru, 2015.

Glossário
Celibatário: solteiro, que não se casou.
Endogamia: casamento entre pessoas da mesma família.
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O chefe do ayllu era o kuraka, que, entre outras funções, distribuía terras, organizava os trabalhos coletivos e era responsável pela resolução dos conflitos. O território do ayllu chamava-se marka. Cada família tinha, para usufruto, lotes de terra. Extensas áreas de estepes eram utilizadas coletivamente para a atividade agropastoril, com a criação da alpaca e da lhama, animais típicos da região.

A terra, em última instância, pertencia ao Império Inca, que recebia parte da produção e tinha o direito de exigir a prestação de serviços dos súditos. Todos tinham de trabalhar, somente os inválidos e doentes estavam dispensados. Os instrumentos de trabalho eram simples, como a enxada de madeira, chamada taclla.

Os incas cultivavam cerca de 300 variedades de batata. Nos vales mais quentes, plantavam milho, alimento muito importante para eles, com o qual também produziam uma bebida chamada de chicha. Nas áreas úmidas, cultivavam a coca; a mastigação das folhas dessa planta reduzia a fome e o cansaço, além de ter importância em rituais religiosos. Produziam, ainda, quinoa, arroz andino, amendoim e legumes diversos. As técnicas agrícolas eram avançadas, com a construção de terraços e canais. O guano (excremento de aves marinhas) era utilizado como fertilizante.

A sociedade inca era hierarquizada e subdividia-se em diversos grupos. No topo da pirâmide social estava o sapa inca (o “único inca”), soberano absoluto e adorado como um deus.

Os incas construíram milhares de quilômetros de estradas pavimentadas, por meio das quais os correios reais (chasquis) levavam e traziam mensagens com grande rapidez. Os templos e palácios, bem como as fortalezas, destacam-se, ainda hoje, pelas técnicas de construção. As construções eram integradas às paisagens andinas, como podemos observar em Machu Picchu e Ollantaytambo.

Em relação à produção de cerâmica e de tecido, os incas assimilaram os avanços das outras culturas andinas. Havia um sistema de contabilidade baseado nos kipus, uma combinação de cordas com nós de várias espessuras e cores, nos quais os diferentes números eram registrados com nós de tamanhos diversos.

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De Agostini/G. Dagli Ori/Getty Images

Ilustração que indica um contador inca e seu kipu. Gravura do séc. XVI.

Quanto à religião, os incas eram politeístas e idólatras. O culto ao Sol (Inti) ocupava lugar de destaque. Acreditavam num deus criador, Viracocha, cultuavam os mortos e realizavam sacrifícios, principalmente de animais, mas também de humanos. Os soberanos eram mumificados e guardados no templo do Sol. Procissões, sacrifícios, danças, jejum e abstinência sexual caracterizavam o ritual dos diversos festivais religiosos.



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imageBROKER/Alamy Stock Photo/Latinstock

Máscara inca produzida antes da chegada dos europeus. Cuzco, Peru.
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Organizando ideias

Analise as informações do texto e responda às questões.

Chamavam lei de irmandade à que mandava que todos os moradores de cada cidade se ajudassem uns aos outros a lavrar, a semear, e a colher suas colheitas, e a lavrar suas casas, e outras coisas desta sorte, e o fizessem sem levar pagamento nenhum. [...]

Tiveram lei sobre o gasto cotidiano, que lhes proibia o fausto com os vestidos ordinários, e as coisas preciosas, como o ouro e a prata, e as pedras finas; eliminava totalmente o supérfluo dos banquetes e comidas; e mandava que duas ou três vezes ao mês comessem juntos os moradores de cada cidade diante de seus curacas, e se exercitassem em jogos militares ou populares para que se reconciliassem os ânimos e guardassem perpétua paz, e para que os pastores e outros trabalhadores do campo se alentassem e regozijassem. A lei em favor dos que chamavam pobres, a qual mandava que os cegos, mudos e coxos, os entrevados, os velhos e velhas decrépitos, os enfermos de longa enfermidade, e outros impedidos que não podiam lavrar suas terras para vestir e comer por suas mãos e trabalho, os alimentassem dos depósitos públicos.

Também tinha a lei que mandava que dos mesmos depósitos públicos provessem os hóspedes que recebessem, os estrangeiros, e peregrinos, e os caminhantes, para todos os quais tinham casas públicas, que chamam corpahuaci, que é a casa de hospedagem, onde lhes davam de graça e em abundância todo o necessário. Ademais disto, mandava a mesma lei que duas ou três vezes ao mês chamassem aos necessitados, que acima os citamos, aos banquetes e refeições públicas, para que com o regozijo comum aliviassem parte de sua miséria.

Outra lei chamavam caseira; continha duas coisas: a primeira que ninguém ficasse ocioso; pelo que, como atrás dissemos, mesmo as crianças de cinco anos se ocupavam em coisas mui leves, conforme sua idade; os cegos, coxos e mudos, se não tinham outras enfermidades, também o faziam trabalhar em diversas coisas. A demais gente, enquanto tinha saúde, ocupava-se cada um em seu ofício e benefício, sendo entre eles coisa de muita infâmia e desonra castigar em público a alguém por ocioso.

Além disto, mandava a mesma lei que os índios comessem e ceassem com as portas abertas, para que os ministros dos juízes pudessem entrar mais livremente a visitá-los. Porque havia certos juízes que tinham o encargo de visitar os templos, os lugares e edifícios públicos e as casas particulares: chamavam-se llactacamayu. Estes por si, ou por seus ministros, visitavam frequentemente as casas, para ver o cuidado e diligência que tanto o varão como a mulher tinham acerca de sua casa e família, e a obediência, solicitude e ocupação dos filhos.

LA VEGA, Garcilaso de. O universo incaico. São Paulo: Educ, 1992. p. 94-96.



1. Qual é a importância das leis descritas nesse relato?

2. Como se pode descrever a sociedade inca com base no texto?

3. Há alguma lei no Brasil semelhante às descritas pelo autor? Se sim, quais?

4. Na sociedade inca, os deficientes físicos podiam trabalhar. Como essa questão é tratada no Brasil atual? Se necessário, busque informações.

Professor, as orientações e respostas referentes a esta seção estão no Manual do Professor.



Glossário
Coxo: manco.
Curaca: tipo de tigela utilizada nas refeições.
Decrépito: muito idoso ou enfraquecido fisicamente.
Entrevado: paralítico, que não pode se mover.
Fausto: luxo, ostentação.
Ordinário: no sentido em que aparece no texto, pode ser entendido como usual, comum, habitual.
Regozijar-se: alegrar-se, ter grande satisfação.
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Os nativos do Brasil

No território do Brasil atual, os portugueses entraram em contato com povos diversos. Havia grande heterogeneidade étnica, linguística e cultural. A maioria dos grupos vivia da coleta, da caça e da pesca, e alguns praticavam a agricultura.

Não há um consenso entre os especialistas sobre a quantidade de nativos que vivia no território hoje pertencente ao Brasil quando ocorreu a invasão portuguesa. Os números oscilam entre 2,5 e 5 milhões de pessoas pertencentes a centenas de povos. Cada povo tinha costumes e tradições próprios.

De forma geral, pode-se dizer que os povos indígenas se organizavam em aldeias fixas ou itinerantes (no caso dos grupos nômades), dependendo do grupo.

A visão religiosa era semelhante, respeitando a diversidade de cada grupo. Cultuavam elementos e algumas forças da natureza, como o Sol, a Lua, o trovão, as águas. Organizavam rituais, danças e festas, criavam adornos e faziam pinturas corporais com motivos religiosos.

Não havia entre eles a noção atual de propriedade. A terra e o que nela fosse produzido ou coletado eram bens comuns a todos da mesma aldeia.

As aldeias eram organizadas hierarquicamente e havia um chefe, responsável pela tomada de decisões e pela liderança do grupo em caso de guerras. As decisões eram tomadas de acordo com os costumes de cada grupo: alguns consultavam os membros masculinos ou os homens mais idosos, por exemplo.

Alguns grupos relacionavam-se com outros, mantendo contatos pacíficos e por vezes reunindo-se em festas e rituais. Outros eram considerados inimigos e era comum guerrearem.

Os nativos produziam instrumentos e utensílios usados para caça, coleta, agricultura e armazenamento. As técnicas de produção também diferiam entre os grupos, dependendo da cultura e do local onde habitavam; alguns, por exemplo, usavam cerâmica queimada, outros não.

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© DAE/Studio Caparroz

Fonte: ARRUDA, José Jobson de A. Atlas histórico básico. 17. ed. São Paulo: Ática, 2011. p. 35.
Página 56

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Albert Eckhout. Tapuia-homem, c.1641. Óleo sobre tela, 2,72 m × 1,65 m.

Para os portugueses, o contato com os saberes dos indígenas foi muito importante. Eram os nativos que conheciam as matas e seus recursos, como as plantas comestíveis ou as que podiam ser usadas como remédios, bem como a localização de fontes de água.

O contato inicial dos portugueses foi com os tupis, habitantes do litoral. Por isso, os missionários que fizeram parte da colonização do Brasil elegeram o tupi como língua geral, desconsiderando a imensa variedade linguística entre os nativos.

Muitas manifestações culturais e línguas indígenas, que existiam quando os portugueses fizeram contato com eles, permanecem entre seus descendentes nos diversos grupos indígenas atuais.

Os tupis se referiam aos demais grupos indígenas como tapuia, que quer dizer “inimigo”. Por isso, os portugueses classificaram os indígenas brasileiros em dois grupos: tupis, os do litoral, e tapuia, os do interior do território.

Organizando ideias

O texto a seguir é do francês Michel Eyquem de Montaigne (1533-1592), que escreveu sobre as tradições culturais dos tupinambás. Esses povos eram criticados pelos europeus em razão dos rituais de antropofagia, os quais Montaigne compara com as guerras realizadas pelos franceses em nome da religião. Leia-o e depois responda às questões.

[…] não vejo nada de bárbaro ou selvagem no que dizem daqueles povos; e, na verdade, cada qual considera bárbaro o que não se pratica em sua terra. […] Não me parece excessivo julgar bárbaros tais atos de crueldade [o canibalismo], mas que o fato de condenar tais defeitos não nos leve à cegueira acerca dos nossos. Estimo que é mais bárbaro comer um homem vivo do que o comer depois de morto; e é pior esquartejar um homem entre suplícios e tormentos e o queimar aos poucos, ou entregá-lo a cães e porcos, a pretexto de devoção e fé, como não somente o lemos mas vimos ocorrer entre vizinhos nossos conterrâneos; e isso em verdade é bem mais grave do que assar e comer um homem previamente executado. […] Podemos, portanto qualificar esses povos como bárbaros em dando apenas ouvidos à inteligência, mas nunca se compararmos a nós mesmos, que os excedemos em toda sorte de barbaridades.

MONTAIGNE, Michel de. Ensaios I. São Paulo: Nova Cultural, 2000. p. 199.



1. Montaigne considera os indígenas bárbaros ou selvagens? Como eles eram geralmente tratados pelos europeus? Explique.

2. Na comparação entre os indígenas e os franceses, qual a conclusão de Montaigne?

Professor, as orientações e respostas referentes a esta seção estão no Manual do Professor.


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Os indígenas da América do Norte

Centenas de grupos indígenas habitavam a região hoje chamada de América do Norte antes da chegada dos europeus. E assim como nos outros lugares do continente, os indígenas norte-americanos também apresentavam grande diversidade étnica e cultural. Estima-se que havia mais de 300 línguas diferentes na região.

Havia tribos nômades e sedentárias que ocupavam a extensão entre os oceanos Atlântico e Pacífico. Sioux (ou dacotas), apaches, comanches iroqueses, cheroquis, algonquinos, cheyennes e crow são alguns dos grupos indígenas norte-americanos.

Nas regiões do Ártico, viviam os inuítes ou esquimós, com características bastante distintas dos demais grupos em razão da adaptação a um ambiente extremamente hostil. A economia desse grupo estava fundamentada na busca pelo que a natureza oferecia, como caça de focas e aves, pesca de baleia e outros animais de grande porte. Dos animais caçados, aproveitavam a pele para o vestuário, e o marf im e os ossos para a confecção de instrumentos de caça, como pontas de lanças e f lechas, além da produção de esculturas. A domesticação do cachorro possibilitou aos esquimós o uso de trenós para locomoção e caça.

Cada etnia indígena tinha seu idioma e, entre os grupos diferentes, a comunicação ocorria por meio de sinais.

Entre as tribos nômades, uma das formas de obter alimentos era a caça de grandes animais, como antílopes, alces, búfalos e bisões.

Dentre os grupos citados destacaram-se os iroqueses, que ocupavam a área dos Grandes Lagos e dos Apalaches centrais. Sua organização social era matriarcal. Tinham uma forte estrutura guerreira, o que lhes possibilitou resistir por quase dois séculos à dominação inglesa, dificultando a expansão das colônias.

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Heritage Images/Diomedia

Corrida de cavalos dos índios sioux próximo ao Forte Pierre. Ilustração do livro Travels in the Interior of North America, publicado em 1843. A vida dos sioux, que habitavam a planície do oeste, foi modificada pelo uso do cavalo trazido pelos espanhóis, prática que se espalhou pelo continente. As montarias facilitaram a caça de búfalos e bisões.
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Organizando ideias

Leia o texto a seguir e faça o que se pede.

Centenas de tribos indígenas habitavam a América do Norte até a chegada dos europeus. Há uma variedade enorme nessas tribos: só em línguas diferentes encontraram-se mais de trezentas.

Grupos indígenas como os cherokees, iroqueses, algonquinos, comanches e apaches povoavam todo o território, do Atlântico até o Pacífico. Alguns outros grupos deram nomes à geografia dos EUA: Dakota, Delaware, Massachusetts, lowa, IlIinois, Missouri. Por toda a América, a história dessas tribos seria profundamente modificada pela chegada dos europeus.

As opiniões dos colonos sobre os indígenas variaram, mas foram, quase sempre, negativas. [...] O preconceito [...] não foi o único dano que os ingleses causaram aos índios. Mesmo se não fossem agressivos, os europeus já seriam perigosos. A imigração europeia havia introduzido na América do Norte doenças para as quais os nativos não tinham defesa. As epidemias nas colônias inglesas atingiram os indígenas da mesma forma que nas áreas ibéricas. O sarampo matou milhares de indígenas em toda a América.

A ocupação das terras indígenas por parte dos colonos baseava-se em argumentos de ordem teológica. Os peregrinos haviam se identificado com o povo eleito que Deus conduzia a uma terra prometida. Tal como Deus dera força a Josué (na Bíblia) para expulsar os habitantes da terra prometida, eles acreditavam no seu direito de expulsar os que habitavam a sua Canaã. John Cotton, pastor puritano, fez vários sermões nos quais destacou a semelhança.

Embora o fato seja bem pouco conhecido da História norte-americana, os índios também foram escravizados. Os colonos das Carolinas, em particular, desenvolveram o hábito de vender índios como escravos. Em 1708, a Carolina do Sul contava com 1.400 escravos índios. Essa prática permaneceria até a Independência.

É natural imaginar uma reação indígena. A expansão agrícola por sobre áreas indígenas originou violentos ataques às terras dos colonos. No começo da colonização, mais de uma aldeia inglesa foi arrasada por ataques de índios, como, por exemplo, a de Wolstenholme, na Virgínia. [...]

A ideia da predestinação, o ideal da empresa, tudo colaborou para enfraquecer a mestiçagem e a catequese dos índios. O mundo inglês conviveria com o índio, mas sem amálgama.

De várias formas os índios resistiram à violência da colonização. Uma maneira comum era fugir para o interior, estratégia que seria utilizada até o século XIX. [...] Ao longo dos séculos XVII e XVIII, os índios fizeram várias alianças com franceses contra os ingleses.

É importante dizer, por fim, que nem todos os colonos tinham o mesmo grau de agressividade contra os índios. Grupos quakers e menonitas recusavam a violência contra índios e também a violência da compra de escravos negros. Porém, quakers, menonitas, católicos e puritanos ocupavam de igual modo as terras que foram, originalmente, dos índios.

KARNAL, Leandro et al. História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto, 2007. p. 59-62.



1. A conquista de colônias na América pelos ingleses provocou a morte de milhares de indígenas. Explique como isso ocorreu.

2. Todos os grupos de colonizadores agiram da mesma forma? Explique.

3. Quais eram as estratégias adotadas pelos indígenas para resistir à dominação inglesa?

4. Com base no que você estudou, compare a dominação espanhola com a dominação inglesa das terras americanas e sua relação com a população nativa, ou seja, com os diversos povos indígenas que ali viviam. Que semelhanças e diferenças você identifica?

Professor, as orientações e respostas referentes a esta seção estão no Manual do Professor.


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A conquista da América

A conquista da América pelos europeus não foi um acontecimento rápido. Foi um longo, contínuo e complexo processo que durou vários séculos sob a visão etnocêntrica do colonizador europeu, acrescida de outros elementos, como a dominação militar (principalmente no caso dos espanhóis), a religiosidade e a desestruturação (demográfica, econômica, social e espiritual) provocada pelo choque entre culturas tão distintas nas sociedades indígenas da América. A religião influenciou tanto os dominadores, que impuseram suas crenças, quanto os dominados; os astecas, por exemplo, interpretaram miticamente que a chegada dos espanhóis era o cumprimento de presságios e sinal de novos tempos.

As primeiras décadas após a chegada europeia foram as mais marcantes. Estima-se que grande parte da população nativa americana tenha sido dizimada nos primeiros 50 anos, principalmente na América Hispânica. Portanto, o contato entre Europa e América pode ser considerado um dos mais violentos da história da humanidade.

A natureza, o clima e os animais encontrados pelos europeus na América encantavam cronistas, viajantes e colonizadores. Isso fez com que plantas como milho, abacaxi, batata e outras fossem levadas e introduzidas na alimentação de suas metrópoles. O “Novo Mundo” começava a inf luenciar os costumes do “Velho Mundo”.

Ao mesmo tempo, a organização de algumas sociedades causava espanto, surpresa e admiração, como pode ser observado na descrição da cidade de Tenochtitlán na imagem e no texto a seguir.

De modo simples, o etnocentrismo pode ser definido como uma visão de mundo fundamentada rigidamente nos valores e modelos de uma dada cultura: por ele, o indivíduo julga e atribui valor à cultura do outro a partir de sua própria cultura. Tal situação dá margem a vários equívocos, preconceitos e hierarquias, que levam o indivíduo a considerar a sua cultura a melhor ou superior.

SILVA, Kalina Vanderlei; SILVA, Maciel Henrique. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2006. p. 127.

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The Bridgeman/Keystone Brasil

Mapa de Tenochtitlán elaborado por Alonso de Santa Cruz, México, 1560.

Glossário
América Hispânica: refere-se às regiões da América colonizada pelos espanhóis.
Página 60

Os espanhóis andam pela cidade (Tenochtitlán) e observam embasbacados o imenso mercado de Tlatelolco. Cada tipo de mercadoria ocupa um lugar determinado. Seus olhares colocam-se sobre os objetos de ouro e prata, sobre as pedras preciosas, as roupas de algodão e os vendedores de cacau. Os mercadores pochtecas têm o aspecto e a autoridade dos grandes mercadores de Burgos e Sevilha.

Um espanto ainda maior arrebata os conquistadores quando chegam ao alto da pirâmide e descobrem a extensão da capital dos astecas. O lago está coberto por uma infinidade de canoas que abastecem a cidade e partem lotadas de mercadorias. Talvez fosse preciso chegar aos relatos de Marco Polo para ter tal emoção. México-Tenochtitlán, com seus 200 ou 300 mil habitantes, era comparável às capitais do mundo conhecido europeu.

BERNAND, Carmen; GRUZINSKI, Serge. História do Novo Mundo: da descoberta à conquista, uma experiência europeia (1492-1550). São Paulo: Edusp, 1997. p. 347.

Já os costumes e modos de vida dos grupos indígenas causavam perplexidade aos recém-chegados. Ainda que admirassem alguns aspectos, outros causavam rejeição e foram severamente combatidos, como a nudez de alguns grupos ou práticas como politeísmo e poligamia. Para a maioria dos europeus, os indígenas viviam em um estágio atrasado, sem normas e religião. Esse discurso foi a base da exploração e do processo de colonização instituído, principalmente, com violência.

Os indígenas foram analisados com base nos parâmetros da sociedade europeia e apontados como primitivos, brutos, sem alma, obscenos. Eram raros os defensores, como Frei Bartolomé de Las Casas e o filósofo francês Michel de Montaigne.

A reação dos indígenas foi variada. A chegada de pessoas tão diferentes nos modos de vestir, agir e falar deve ter causado curiosidade e estranheza. De maneira geral, foram amistosos, como nos relatos de Colombo e Cabral. Em alguns casos, como entre os astecas, os colonizadores foram vistos como deuses, e sua chegada, o cumprimento de profecias. Houve também casos de hostilidade, revelando que os indígenas também resistiram à presença estrangeira.

Mesmo com reações diferentes a princípio, assim que perceberam a real intenção dos estrangeiros que invadiam seu espaço e sua vida, os indígenas reagiram com lutas, fugas e até mesmo acordos. De qualquer maneira, a chegada dos europeus significou, para os nativos, perda do território, necessidade de deslocamento, escravidão e morte.



Organizando ideias

Leia o texto a seguir e responda às questões.

[...] Interessava aos conquistadores compreender, tomar e destruir, usando as palavras de Tzvetan Todorov, o que fizeram com rapidez e obstinação. De outro lado, as civilizações do Novo Mundo que cresceram e se desenvolveram de maneira autônoma, sem contatos com culturas muito diferentes de seus padrões de comportamentos. Para incas, astecas e maias, paralisados por dúvidas e incertezas, o problema era compreender o fato adverso surgido com a chegada dos estrangeiros. Se, num primeiro momento, o aparecimento repentino daqueles estranhos homens confirmava as antigas profecias que anunciavam a volta das divindades criadoras do Universo, mais tarde eles foram qualificados como piores que diabos. Ao mesmo tempo que os estrangeiros se diziam naturais de uma civilização superior e portadores da única e verdadeira fé, agiam com extrema crueldade e nas batalhas não se limitavam a prender o inimigo, como era a tradição, mas sim matá-lo – atitude que para os astecas era intolerável do ponto de vista ético.

FERREIRA, Jorge Luiz. Conquista e colonização da América espanhola. São Paulo: Ática, 1992. p. 9.



1. De que forma o autor do texto caracterizou os conquistadores e as civilizações do Novo Mundo?

2. Por que os indígenas estavam confusos com a chegada dos espanhóis?

3. Houve motivo para que os nativos americanos considerassem os espanhóis “piores que diabos”? Explique.

Professor, as orientações e respostas referentes a esta seção estão no Manual do Professor.


Página 61

Espanhóis na América

Os espanhóis chegaram à América em razão da expansão marítima e comercial, impulsionados pelos princípios mercantilistas. Assim, ao instalar-se no Novo Mundo, buscaram submeter os povos nativos, com o intuito de conquistar suas terras e procurar nelas produtos que lhes rendessem algum tipo de benefício.

A América simbolizava o Eldorado, uma terra que fazia parte do imaginário europeu e que garantiria rápido enriquecimento pela abundância de ouro e prata que lá haveria.

Além da riqueza, a América representava a possibilidade de expansão do catolicismo, que enfrentava, naquele momento, crises causadas pelas reformas religiosas na Europa.

Para se apossar das terras, foram enviadas expedições, a partir do século XVI, encarregadas de explorar a terra e também iniciar a colonização. Colonizar era importante, pois as notícias de riquezas abundantes atraíam a cobiça de outros europeus, pondo em risco a hegemonia espanhola.

A conquista dos astecas

A princípio, os conquistadores levaram vantagem militar nos confrontos com os nativos.

A superioridade militar – expressa na vantagem bélica dos espanhóis, que detinham o domínio do cavalo, das armas de fogo e do aço (usado em espadas, lanças etc.) – ficou explícita nas campanhas do espanhol Hernan Cortés, a partir de 1519, na região do México: mesmo com menor número de soldados, ele massacrou os astecas.

Ao chegar a Tenochtitlán, capital do Império Asteca, Cortés foi recebido pacificamente pelo governante Montezuma II. A princípio, o líder mexica pensou que os espanhóis fossem deuses, que, segundo as profecias, voltariam para dominar o império. Diante disso, Cortés iniciou a invasão da cidade, numa operação de guerra que massacrou parte da população e matou seu líder.

As doenças, principalmente a varíola, também auxiliaram os europeus durante a conquista. Além disso, o apoio das nações inimigas dos astecas (os tlaxcaltecas, por exemplo) tiveram um peso decisivo para o sucesso da conquista espanhola. Outro elemento importante foi a visão mística que os astecas tinham dos espanhóis, hipótese que explicaria a recepção pacífica aos invasores. Num primeiro momento os astecas viram os espanhóis como representantes do deus Quetzalcoatl, porém ao perceberem que eram humanos e que agiam com crueldade passaram a combatê-los e a resistir até serem conquistados.

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Museu Nacional de Arte, Cidade do México

Felix Parra. Episódios da conquista, 1877. Óleo sobre tela, 68 cm × 109 cm.
Página 62

Organizando ideias

O conceito asteca da conquista

[...] O primeiro traço fundamental da visão asteca da Conquista é o que se poderia descrever como o quadro mágico no qual esta haveria de se desenvolver. Os astecas afirmam que, alguns anos antes da chegada dos homens de Castela, houve uma série de prodígios e presságios anunciando o que haveria de acontecer. No pensamento do senhor Motecuhzoma [Montezuma], a espiga de fogo que apareceu no céu, o templo que se incendiou por si mesmo, a água que ferveu no meio do lago, a voz de uma mulher que gritava noite adentro, as visões de homens que vinham atropeladamente montados numa espécie de veados, tudo isso parecia avisar que era chegado o momento, anunciado nos códices, do regresso de Quetzalcoátl e dos deuses.

Mas, quando chegaram as primeiras notícias procedentes das margens do Golfo sobre a presença de seres estranhos, chegados em barcas grandes como montanhas, que montavam uma espécie de veados enormes, tinham cães grandes e ferozes e possuíam instrumentos lançadores de fogo, Motecuhzoma e seus conselheiros ficaram em dúvida. De um lado, talvez Quetzalcóatl houvesse regressado. Mas, de outro, não tinham certeza disso. No coração de Motecuhzoma nasceu, então, a angústia. Enviou, por isso, mensageiros que suplicaram aos forasteiros para que regressassem ao seu lugar de origem.

A dúvida a respeito da identidade dos homens de Castela subsistiu até o momento em que, já hóspedes dos astecas em Tenochtitlán, perpetraram a matança do templo maior. O povo em geral acreditava que os estrangeiros eram deuses. Mas quando viram seu modo de comportar-se, sua cobiça e sua fúria, forçados por esta realidade, mudaram sua maneira de pensar: os estrangeiros não eram deuses, mas popolocas ou bárbaros, que tinham vindo destruir sua cidade e seu antigo modo de vida.

As lutas posteriores da Conquista, registradas pelos historiadores indígenas, testemunham o heroísmo da defesa. Mas a derrota final, ao ser narrada nos textos astecas, já é depoimento de um trauma profundo. A visão final é dramática e trágica. Pode-se ver isto claramente no seguinte “canto triste” ou icnocuícatl:

Nos caminhos jazem dardos quebrados;
os cabelos estão espalhados.
Destelhadas estão as casas,
incandescentes estão seus muros.
Vermes abundam por ruas e praças,
e as paredes estão manchadas de miolos arrebentados.
Vermelhas estão as águas, como se alguém as tivesse tingido,
e se as bebíamos, eram água de salitre.
Golpeávamos os muros de adobe em nossa ansiedade
e nos restava por herança uma rede de buracos.
Nos escudos esteve nosso resguardo,
mas os escudos não detêm a desolação
[...]*.

* Manuscrito anônimo de Tlatelolco (1528).

**Libro de Los Coloquios de Los Doce.

As palavras anteriores encontram novo eco na resposta dos sábios aos doze franciscanos chegados em 1524:



Deixem-nos, pois, morrer, deixem-nos perecer, pois nossos deuses já estão mortos!** Muitas outras citações poderiam acumular-se para mostrar o que foi o trauma da Conquista para a alma indígena. [...] Não se deve esquecer que os astecas eram seguidores do deus da guerra, Huitzilopochtli; que se consideravam escolhidos do Sol e que, até então, sempre creram ter uma missão cósmica e divina de submeter a todos os povos dos quatro cantos do universo. Quem se considerava invencível, o povo do Sol, o mais poderoso da Mesoamérica, teve de aceitar sua derrota. Mortos os deuses, perdidos o governo e o mando, a fama e a glória, a experiência da Conquista significou algo mais que tragédia: ficou cravada na alma e sua recordação passou a ser um trauma.

LEÓN-PORTILLA, Miguel. A conquista da América Latina vista pelos índios. Petrópolis: Vozes, 2001. p. 16-18.



1. Explique a visão de “quadro mágico” a que o autor se refere no texto.

2. De acordo com o autor do texto, os estrangeiros passaram de deuses a bárbaros na visão dos astecas. Por que isso ocorreu?

3. Como é descrita a destruição da civilização asteca no icnocuícatl?

4. Qual é a visão do autor a respeito da derrota asteca?

Professor, as orientações e respostas referentes a esta seção estão no Manual do Professor.


Página 63

A conquista das terras incas

A conquista das terras incas ocorreu sob o comando do espanhol Francisco Pizarro. Em 1527, Pizarro explorou a costa do atual Peru e recolheu informações úteis sobre os territórios andinos. Ficou sabendo das riquezas dos incas, que eles tinham muitos inimigos e que o império estava mergulhado em uma disputa de poder entre os irmãos Huáscar e Atahualpa. Com essas informações, em 1532, Pizarro entrou na cidade de Cajamarca e aprisionou Atahualpa. Houve muitas mortes no confronto e Atahualpa, mesmo pagando um grande resgate em ouro e prata, foi executado. Já Huáscar foi morto por comandantes leais à Atahualpa. Assim, a cidade de Cuzco foi tomada pelos espanhóis. No entanto, a resistência nativa continuou até 1572, quando o último soberano inca, Tupac Amaru, foi executado.

O relato desse primeiro encontro com Atahualpa foi feito por diversas testemunhas oculares [...]. Por meio de seu testemunho, a cena aparece para nós, hoje, como um confronto entre duas visões incompatíveis do mundo: de um lado, a de um soberano para quem a própria natureza do poder que encarna proíbe a comunicação direta com seus súditos e o recurso a mediadores; do outro, a de dois hidalgos espanhóis, Soto e Hermando Pizarro, para os quais os reis são interlocutores diretos a despeito de sua majestade. Quebrando sistematicamente as barreiras rituais que os separam do Inca, apagando os códigos de polidez e de hierarquia, os conquistadores vão marcar uma primeira vitória sobre um homem fechado em sua dignidade solar. Pois, mais do que as armas, são os gestos e as palavras que vão solapar a solenidade do Filho do Deus Sol, anunciando o fim de um império do qual o Inca era a chave-mestra. [...]

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ip archive/Glow Images

BERNAND, Carmen; GRUZINSKI, Serge. História do Novo Mundo: da descoberta à conquista, uma experiência europeia (1492-1550). São Paulo: Edusp, 1997. p. 499-500. Execução do inca Atahualpa, em gravura colorida no relato de viagem de Theodore de Bry, 1597.

Glossário
Hidalgo: fidalgo, pessoa nobre.
Página 64

Organizando ideias

Forme dupla com um colega e, juntos, leiam o texto a seguir e façam o que se pede.

A cruz realizou um trabalho complementar à espada. Um conjunto de circunstâncias de ordem religiosa entre algumas nações indígenas facilitou a tarefa dos dominadores, já que tanto no México como no Peru uma série de profecias e sinais asseguravam a chegada iminente de novos deuses. E os europeus, manipulando o imaginário destes povos, não tiveram dúvidas em se apresentar como tais. O domínio do sagrado sobre o profano se materializou até nas construções das igrejas católicas, ao se aproveitar algumas pirâmides e templos como alicerces para a edificação de suas catedrais. [...]

Juan de Zumáraga, primeiro arcebispo do México, se orgulhava, em uma carta de 1547, de que seus sacerdotes haviam destruído até então mais de 500 templos indígenas e queimado cerca de 2 mil ídolos. Ele próprio ajudou a incinerar os arquivos existentes em Texcoco. O mesmo fez o bispo de Yucatán, Diego de Landa, ao atirar ao fogo purificador os manuscritos maias – único povo da América pré-colombiana que havia criado uma escrita –, fazendo com que se destruíssem os principais documentos históricos e literários.

RAMPINELLI, Waldir José. A falácia do V Centenário. In:; OURIQUES, Nildo Domingos (Org.). Os 500 anos: a conquista interminável. Petrópolis: Vozes, 2000. p. 30-31.

1. Explique a relação entre a cruz (religião) e a espada (guerra) na dominação dos povos que viviam na América pelos espanhóis.

2. Pode-se dizer que os nativos americanos sofreram influência religiosa dos espanhóis? Explique.

3. Há poucos documentos escritos deixados pelos povos que habitavam a América antes da conquista europeia. Assim, quase todas as informações foram colhidas de documentos espanhóis e achados arqueo lógicos. Podemos afirmar, com base nessa ponderação, que temos versões dessa história, mas a maioria delas do ponto de vista dos habitantes das Américas? Explique como isso afeta o conhecimento histórico.

Professor, as orientações e respostas referentes a esta seção estão no Manual do Professor.



Direito e etnocídio na conquista da América indígena

A maioria dos historiadores enfatiza a superioridade bélica dos espanhóis – o uso de canhões, arcabuzes, couraças de aço, espadas, cavalos e cães – e também sua habilidade diplomática, especialmente de Cortés e Pizarro, que se aproveitaram das rivalidades entre os nativos. Entretanto, as superstições sustentadas pelas profecias, que anunciavam grandes mudanças, não devem ser negligenciadas. Além disso, as doenças – sarampo, varíola e gripe – tiveram papel essencial, matando mais que as próprias guerras.

Essa trilogia – doenças, desunião dos indígenas e o aço espanhol – responde por boa parte do resultado da Conquista. Basta remover um de seus elementos para que a probabilidade de fracasso das expedições lideradas por Cortés, Pizarro e outros fique muito alta [...].

Um quarto fator também desempenhou um papel importante: a cultura bélica. Por exemplo, os astecas foram prejudicados por certas convenções de batalha ignoradas pelos hispânicos. Os métodos de guerra astecas salientavam a observação de cerimônias que antecediam as batalhas – que eliminavam a possibilidade de ataques de surpresa – e a captura de inimigos para posterior execução ritual, em vez de matá-los no ato [...]. Por fim, a Conquista espanhola só pode ser plenamente compreendida se situada no contexto histórico mais amplo da expansão ultramarina. Essa história mais ampla não fala de uma superioridade espanhola, ou mesmo da Europa Ocidental, mas aborda, ao contrário, um complexo fenômeno da história mundial que transcende as peculiaridades da Conquista espanhola das Américas [...].

RESTALL, Matthew. Sete mitos da conquista espanhola. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2006. p. 240-242.
Página 65

A violência foi a tônica da conquista e da colonização da América, principalmente na parte espanhola. Guerras, escravidão, maus-tratos, assassinatos em massa, difusão de doenças e catequização foram os principais mecanismos utilizados no que pode ser considerado um massacre dos povos indígenas.

A barbárie cometida pelos conquistadores espanhóis foi descrita em relatos como este, do frei Bartolomé de Las Casas:

Os espanhóis, com seus cavalos, suas espadas e lanças começaram a praticar crueldades estranhas; entravam nas vilas, burgos e aldeias, não poupando nem as crianças e os homens velhos, nem as mulheres grávidas e


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