Louco Amor (Volume ) Charlotte M. Brame Biblioteca das Moças Louco Amor Volume a mad Love



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Louco Amor (Volume 1) - Charlotte M. Brame - Biblioteca das Moças 2

Louco Amor – Volume 1

A Mad Love


Charlotte M. Brame

Leone era uma garota bela, uma filha da Espanha enso­larada, com sua beleza diferente, morena e apai­xonada, destoando do ambiente em que vivia: uma fazenda da Inglaterra cheia de campos de trigo louro e árvores de verde brilhante.

Bela, altiva, arrogante, com ar imperioso e apaixo­nado sentia constantemente a alma constrangida, como se tivesse uma dor no coração. No entanto, um dia conhece Lancelot, Lord Chandos, que causa uma transformação em sua vida, despertando-lhe a sensação de que lhe acontecera algo novo e lindo.

Amando-o profundamente, aceita o seu apaixonado pedido de casamento e casa-se com ele em segredo, sem o consentimento de seus responsáveis. Mas para sua infelicidade, o casamento não é aceito pelos pais de seu marido, sendo anulado devido à menor idade de Lancelot. Agora, a Leone só resta esperar que o amado complete vinte e um anos e volte para ela... Mas, ele se manterá fiel a sua promessa?
Disponibilização: Marisa Helena

Digitalização: Marina

Revisão: Déborah

Tradução revista por Luís Amaral

1° VOLUME 3ª edição

COMPANHIA EDITORA NACIONAL

São Paulo

Do original inglês: A MAD LOVE

1957


Impresso nos Estados Unidos do Brasil

Printed in the United States of Brazil


CAPÍTULO I

BELEZA DESCONTENTE
— Leone! — gritou uma voz forte. — Onde está você? Está aqui, ali, em toda parte, menos onde deveria estar.

Quem assim falava era um homem alto, forte, de boa aparência e disposição. Era conhecido em toda a redon­deza por "Fazendeiro Noel". De pé no terreiro, olhava em volta de si, muito vermelho e suado, pelo esforço de andar à procura da sobrinha, naquele dia de sol quente.

— Leone! — tornou a gritar.

Ouviu-se finalmente a resposta, em voz que contras­tava com a primeira, pela suavidade e delicadeza:

— Estou aqui, titio. Gostaria que o senhor não gritasse tão alto. Tenho a certeza de que todo mundo em Rashleigh ouve seus gritos.

— Já fez os feixes de trigo, como lhe pedi?

— Ainda não.

O fazendeiro manifestou contrariedade.

— Chegarei atrasado à feira. Farei eu mesmo os feixes.

Assim dizendo, entrou de novo em casa. Tinha por hábito nunca repreender Leone, deixando-a fazer tudo quanto quisesse.

No rosto da moça havia indissimulada expressão de zanga. Com gesto de impaciência atravessou o terreiro, abriu a pequena porteira, passou pelo atalho que conduzia à estrada real e, chegando à cerca, debruçou-se nela, pondo-se a mirar o gado que bebia a água cristalina do lago.

O sol iluminava-lhe a beleza agreste. No quadro bu­cólico, entretanto, havia leve mancha: a moça estava em desarmonia com o fundo — aquela paisagem inglesa cheia de campos de trigo louro e árvores de verde brilhante. Leone afigurava-se fora do seu ambiente, pois, embora vivendo em fazenda da Inglaterra e usando vestidos à moda inglesa, era bela como uma filha da Espanha enso­larada. Sua beleza era de tipo diferente: morena, apai­xonada, como a romã, o damasco ou a flor da sau­dade.

Notava-se-lhe nas feições expressão de personalida­de: paixão, vontade firme, talento. Sobre a cerca, seu rosto estava tão fora de lugar como estaria o lírio entre margaridas e malmequeres. Não poderia fazer melhor es­colha o artista em busca de modelo para retrato de alguma rainha que tivesse conquistado o mundo, ou de alguma heroína por quem os homens houvessem lutado e caído nos campos de batalha. Mas no terreiro de uma fazenda! Impossível encontrar palavras para exprimir o quanto es­tava fora do lugar que lhe competia. Segurava entre as mãos, pelas fitas que o adornavam, o grande chapéu de palha — bela, altiva, arrogante, com ar imperioso e apaixo­nado, que era talvez o seu mais forte característico.

Olhou em volta, para a vida sossegada e rotineira da campanha, traduzindo na expressão do rosto o profundo desprezo por tudo aquilo.

— Se eu pudesse fugir, — murmurou, — daria tudo neste mundo para me ver longe daqui. Não me importaria trabalhar, ensinar em alguma escola, fazer qualquer outra coisa; a monotonia enervante desta vida me mata de aborrecimento.

Sorriso amargo passou-lhe pelos lábios vermelhos e brilhou em seus olhos escuros.

— Uma fazenda... O mundo cheio de lugares lin­dos, e eu forçada a viver numa fazenda. Antes um acam­pamento de ciganos, ou algum palácio, ou qualquer lu­gar onde pudesse conhecer o sabor da vida; nunca uma fazenda!

Interrompeu-se subitamente. Viu na estrada algo que jamais, lhe passara pelos olhos, alegrando-lhe o coração: um cavalheiro elegante e jovem, a caminhar descuidadamente. Quando se aproximou, foi a seu encontro outro homem, também elegante e belo, porém um pouco mais idoso. Vi­nham rindo e conversando, e não deram pela sua presença, a não ser no momento em que chegaram junto ao grande olmeiro, perto da cerca. Impressionou-os profundamente aquele rosto de moça, belo e cheio de vida. Um passou sem nada dizer; o outro chegou quase a parar de encan­tado com a inesperada aparição da linda mulher. Passan­do, tirou o chapéu. Leone ficou muito vermelha. Não sorriu, não inclinou a cabeça: recebeu a saudação como tributo à sua beleza, como a rainha que recebe as ho­menagens dos súditos.

Num olhar rápido, distinguiu-o do companheiro, do homem que "não" a cumprimentara. Com esse olhar fez análise completa do jovem. Notou-lhe a cor dos olhos e dos cabelos, a forma do rosto, o estilo das roupas, tão dife­rente das usadas pelos jovens fazendeiros, o perfil deli­cado, a elegância de porte do corpo ereto e varonil. Tu­do lhe ficara para sempre gravado na memória.

Lisonjeara o cumprimento cavalheiresco. Sabia-se do­tada de beleza atraente. Sabia que diante de mulher excep­cionalmente bela os homens se tornam acanhados. A homenagem involuntária do formoso cavalheiro lhe cau­sara certo prazer. Esperava tirar mais alegria da impres­são que produzira. Ouviu-lhe dizer, ao alcançar o compa­nheiro:

— Que lindo rosto, Euston! É o mais belo que já vi em toda minha vida.

Mais lisonjeada ainda, a moça sorriu.

"Talvez o encontre de novo", pensou.

Aí, uma das moças da vila passou junto à por­teira e parou para conversar um pouco.

— Viu aqueles homens? — perguntou a Leone.

— Vi.


— Vieram passar uns tempos em casa do Dr. Hervey, para "ler". Não sei bem o que isso quer dizer. O mais moço, de cabelos claros, é lorde, filho mais velho de um conde importante. Não me recordo o nome.

Era, então, um grande lorde que a cumprimentara e a julgara a mais linda mulher de quantas vira até aquele dia... Seu coração palpitava fortemente, orgulhoso do triunfo. Despediu-se da aldeã e foi para casa. Sorriso de vitória iluminava seu formoso rosto.

Entrando no quarto, foi direito ao espelho. Queria ver mais uma vez o rosto que o moço achara lindo. Leone viu refletidos ali dois grandes olhos negros, cheios de vida, brilhantes e expressivos; olhos capazes de dominar e dirigir um povo; lindo rosto oval, de linhas perfeitas; testa alta, ornada de estreitas sobrancelhas escuras; lá­bios de contorno delicado, vermelhos como botão de rosa vermelha; queixo redondo, com uma covinha a lhe dar raro encanto; cabeça altiva, parecendo destinada a carre­gar o mais rico diadema imperial, tudo em desacordo com o ambiente campestre. Observou também os ombros ele­gantes, os braços redondos, a figura esbelta e graciosa.

Sorriu, satisfeita. Era bela, sem dúvida. Sentia-se feliz, observando que os outros notavam isso. Se um jovem fidalgo a admirava, certamente merecia ser admi­rada. Voltara-lhe o bom humor.

Como se explica que vivesse numa fazenda essa moça bela como princesa? É simples a história. O fazendeiro, Roberto Noel, tinha apenas um irmão, que gostava de aventuras e viagens. Depois de tentar as mais variadas profissões e os mais extravagantes meios de vida, esse aventureiro — Stephen Noel — decidira finalmente fazer-se engenheiro civil. Foi para a Espanha, trabalhar numa estrada de ferro, na província de Andaluzia, e lá se apaixonou e casou com uma bela andaluza, chamada Pepita.

Sua mulher veio a falecer no mesmo dia em que Leone viu a luz, e o pobre pai, desolado com sua morte, vol­tou para a Inglaterra, levando a filha. A velha caseira da fazenda de Rashleigh tomou a si o encargo de cuidar da criança, e Roberto Noel consentiu em que fosse criada como sua filha.

Os dois irmãos pareciam-se tanto quanto o dia e a noite. Stephen era todo dinamismo e talento; Roberto, vagaroso e conservador. Leone dizia que ele levava dez minutos para fazer meia volta, quando o chamavam. Não casara nunca, por absoluta falta de tempo para pensar nisso; mas dedicara todo seu amor àquela linda criança de olhos negros, que, dezesseis anos antes, lhe haviam trazido para casa.
CAPÍTULO II

CASAR COM UM FAZENDEIRO?!
Para se ter idéia da impressão que confiava o ver metida numa fazenda, aquela criança voluntariosa e bela, imagine-se uma águia imperial deitada no ninho de uma pomba. Todos a encaravam com espanto; sua beleza ator­doava, sua altivez divertia. Os vizinhos perguntavam-se constantemente porque seria tão orgulhosa.

No seu tom vagaroso, o tio Roberto freqüentemente declarava ter-se retirado dos negócios no dia em que Leone completara sete anos. Nesse dia, ele deixara a gerência da fazenda nas mãos dela. Leone tomava conta de tudo, desde os pintos, no terreiro, até aos pombos azuis e brancos, no telhado. Tomava conta até do tio, alto e forte como um touro. Bastava lançar-lhe a menina um olhar e bater no chão com o pezinho delicado, para o fazendeiro se sentir desarmado, como um gigante a quem atassem pelos pés e mãos. Possuía um poder estranho, que ela mesma não compreendia bem: estava fora do padrão normal das pessoas que a circundavam. Essas lhe entendiam a bele­za, a altivez, o orgulho, porém não alcançavam aquela for­ça instintiva e inata, que tornava invulgares todos os seus atos e palavras.

O próprio Roberto Noel confessava sinceramente que se sentia desorientado diante daquela menina: fez tudo quanto podia em seu favor, porém compreendia triste­mente que não passava de tentativa inútil o melhor que podia fazer. Enviou a sobrinha à escola, a melhor de Rashleigh onde Leone aprendeu tudo — menos a obe­diência.

Mesmo na escola, ficava como que fora do lugar, uma criança espanhola de cabelos e olhos escuros, no meio de inglesinhas cor-de-rosa, com cabelos amarelos e pupilas azul-celestes. Dominava as próprias colegas, que lhe obe­deciam e em tudo sofriam sua influência. Ensinava-lhe recitativos e brinquedos, incediava-lhes a imaginação com histórias maravilhosas; era elemento novo, brilhante e mag­nífico na vida delas. A professora, enfraquecida por longos anos de sofrimento, venerava e temia aquela crian­ça, que parecia um raio de luz brilhante no meio das outras. Tinha um rosto de tal modo expressivo, e voz tão sonora, que, ao ler em voz alta, na classe, as cole­gas suspendiam geralmente os trabalhos escolares, en­cantadas com o timbre de sua voz. Em pouco tempo aprendera tudo quanto a velha mestra de Rashleigh lhe podia ensinar e aprendeu por si mesma muito mais. Gostava pouco de desenhar, adorava a música, mas en­tregava-se de corpo e alma à leitura de livros.

Ao completar dezesseis anos, seu tio a tirou da es­cola. Recomeçou o martírio de sua vida sossegada na fazenda. Ele queria que Leone assumisse o cargo de dona da casa, dirigisse o serviço da fazenda e da leiteria, se interessasse pelas galinhas e animais, providen­ciasse para que a manteiga fosse sempre cremosa e ama­rela, e para que os ovos frescos fossem enviados logo à feira. Mas desde quando lhe entregou a direção des­ses serviços, a vida se lhe tornou uma carga insuportá­vel, pois eram sempre negligenciados.

O fazendeiro entrava na leiteria e encontrava tudo mal feito, o leite derramado, a manteiga estragada. En­tretanto, ao encarar a princesinha espanhola, perdia a coragem de dizer uma só palavra de queixa.

Insinuava humildemente que as coisas deviam correr de um modo diverso. Leone, porém, respondia-lhe com um sarcasmo que o reduzia a dois dias de silêncio, pelo menos. Entretanto, a menina amava, lá a seu modo, aque­le gigante que a admirava de todo o coração, e o esti­mava com todas as forças da alma.

O tempo assim se foi passando, até Leone completar dezessete anos, mas a vida da fazenda se lhe tornava cada dia mais insuportável.

— Titio, — dizia, — deixe-me correr o mundo. Quero vê-lo. Quero fazer alguma coisa. Às vezes chego a pensar que tenho duas vidas e duas almas, tão intensamente desejo algo com que possa encher o tempo.

O tio Noel não a podia entender. Não tinha ela tanto serviço na fazenda e na leiteria?

— Você deve dar graças a Deus, — respondia-lhe o fazendeiro, — da vida sossegada que lhe coube.

— Quero fazer alguma coisa. Se fizesse todo o serviço desta fazenda e de mais vinte iguais a esta, não me sentiria feliz. Sinto a alma vazia. Dizem que a vida é uma batalha. Se assim for, creio que estou sentada no campo de batalha com os braços cruzados. A falta de atividade é a morte para mim.

— Minha filha, aqui mesmo você poderá encontrar muito que fazer.

— Não, porém, da espécie de ocupação que desejo.

Punha-se a caminhar de um lado para outro, na gran­de cozinha onde os utensílios brilhavam como espelhos, de tão polidos, iluminada pelo fogo da lareira, tendo no ros­to uma expressão de impaciência.

O tio observava-a ansiosamente, sentido certo cuida­do pelo futuro daquela moça, que se mostrava tão insa­tisfeita com o que ele julgava a mais legítima felici­dade. Principiou a compreender muito vagamente que, se tentasse aprisionar na mais dourada gaiola uma águia, esta nunca poderia ser feliz, e que, talentosa e bela, aprisio­nada na fazenda, essa moça estava mais ou menos nas mesmas condições.

— Você casará logo, — disse, tentando consolá-la de qualquer maneira, — e ficará mais satisfeita.

Um olhar penetrante como um raio, e no qual se podia ler o mais fundo sarcasmo, acolheu aquelas pala­vras. O homem encolheu-se, como que completamente aniquilado. A moça parou diante dele e, lançando a cabeça para trás, em gesto de rainha ofendida, perguntou:

— Terei por acaso o direito de perguntar com quem julga que vou casar?

O pobre homem parecia assustado, pois principiava a compreender que cometera algum erro, embora não o pu­desse precisar; julgava que todas as moças gostassem que se lhes falasse em namorados, em casamento; não podendo fugir ao assunto, enfrentou-o corajosamente.

— Quero dizer que mais dia menos dia arranjará um namorado, — disse em tom consolador, embora bastante per­turbado com o olhar penetrante que a sobrinha lhe lançava.

— Arranjarei um namorado, como fizeram a Jennie Barnes ou a Lily Coke. Um namorado... Não quererá o senhor dizer-me quem pensa que poderá ser esse namorado?

— Conheço nas vizinhanças vários fazendeiros jo­vens, que dariam tudo para ocupar este lugar.

A moça riu num tom de desprezo, que fez o tio pis­car rapidamente.

— Quê? Casar com um fazendeiro? Julga então que a vida de mulher de fazendeiro seria agradável para mim? Irei para a sepultura solteira, se não puder casar como quero.

Sua expressão mudou, subitamente. Parecia arrepen­dida de ter pronunciado essas palavras, ditadas pela pai­xão. Atirou-se ao tio, e passando-lhe o braço em volta do pescoço beijou-lhe o rosto:

— Fico com ódio de mim mesma, quando falo desse modo ao senhor, que tem sido tão bom para mim.

— Não se preocupe com isso, — disse sinceramente o fazendeiro. — Nunca fique com raiva de si própria por mi­nha causa, filha.

A moça fitou-o com seus profundos olhos negros.

— Quando eu parecer ingrata para o senhor, tio Ro­berto, lembre-se de que não o sou. Ando sempre triste. Não sei o que tenho. Sinto constantemente a alma constrangida, como se tivesse uma dor no coração.

— Não é provável que você, sendo tão moça, sofra do coração. Essa moléstia geralmente só ataca as pessoas de idade, — foi a resposta do fazendeiro.

Ela o encarou e não disse mais nada; sua irritação chegara ao último limite; o tio Roberto não a compreen­dia, e provavelmente nunca viria a compreendê-la.

— Vou dar um passeio até a roda d’água, disse Leo­ne.

E, com um gesto de impaciência, saiu de casa.

A roda d’água, no regato, era, sem dúvida, o mais lin­do lugar da fazenda — o pequeno curso d’água corria por entre alas de árvores seculares e, depois de acio­nar o moinho, saltava para dentro de pequeno lago fundo e claro. O mais pitoresco recanto que se possa imagi­nar, principalmente à noite, quando as espumas alvas brilham à luz macia da lua.

Leone gostava daquele lugar; encantavam-na as águas inquietas e rumorantes, provavelmente por estarem de acordo com a sua alma, cheia de inquietação e vitali­dade. Ali ficou muitas horas sentada a ouvir a música do riacho. Era o seu refúgio predileto, quando a abor­reciam as coisas prosaicas da vida.


CAPÍTULO III

O ENCONTRO NO MOINHO
Via refletirem-se no espelho das águas as estrelas e fitava-as pensativa, quando uma voz a tirou subitamente do triste cismar. A voz era máscula, mas tinha um tom doce e timbre agradável.

— Queira desculpar; poderá indicar o caminho para Rashleigh? Perdi-me no bosque.

Levantando os olhos, a moça viu o cavalheiro que a cumprimentara ao passar por ela, nessa manhã. Percebeu logo que o jovem a reconhecera, pois notou-lhe no rosto a satisfação em tornar a vê-la.

— Rashleigh fica ali, — respondeu, apontando com o braço estendido. — Para lá chegar, atravesse o campo e passe pela igreja.

— Já agora, — disse o rapaz, com riso leve e descui­dado, — já agora não tenho vontade de o fazer. É extra­ordinário. Talvez a senhorita me julgue um tanto desequilibrado, mas tenho a impressão de estar no reino das fa­das. Ainda não há dois minutos, encontrava-me à toa na estrada real, e agora vejo o mais lindo quadro que pode haver na terra.

— De fato, o ponto é muito lindo, — replicou ela, fitando as águas cristalinas do lago, — ainda mais lindo que de dia, quando o sol brilha.

Leone já lhe havia ensinado o caminho para Rashleigh, de modo que o lógico seria ele cumprimentar e ir-se; mas a pergunta fora simples pretexto. A lua cheia ilumi­nava intensamente a paisagem, quase como de dia, o ven­to cantava nas folhas do arvoredo, as águas límpidas fulgiam e marulhavam docemente. Lá ao longe, o aro­ma das flores silvestres perfumava o ar e ali naquele am­biente poético encontrava ele de novo a mais linda moça que até então vira na vida.

Mais bela ainda lhe parecia com os toques de prata do luar nos negros cabelos e nos braços morenos, que se moviam vagarosamente, enquanto ela brincava com os tufos de grama.

O rapaz era jovem e amava a beleza sob todas as formas; por isso, não se retirou. Estava encantado. Quem seria essa moça? Alguma princesa espanhola? Por que estaria sentada ali, junto ao regato? Desejava saber, e para isso era mister perguntar.

— Sinto-me inclinado, disse, a deitar-me aqui jun­to a este belo regato e dormir toda a noite sob o céu es­trelado, tal o meu cansaço.

A moça lançou-lhe rápido olhar, em que se notava in­tensa simpatia.

— E por que está assim cansado?

Antes de responder, o estranho sentou-se sobre uma das grandes pedras à margem do ribeiro.

— Perdi-me no bosque de Leigh. Estive caminhando, à procura de saída, durante muitas horas. Não imagina­va que esse bosque fosse assim intrincado e grande. Se o soubesse, não me haveria metido lá dentro sozinho.

— De fato, é intrincado e grande. Nem, mesmo eu consigo encontrar logo as veredas certas.

— Disseram-me que veria ali os mais lindos carva­lhos da Inglaterra; como sou apaixonado pelos carvalhos antigos e monumentais, embarafustei-me pelo bosque, para vê-los. Não se haviam passado dez minutos e já me per­dera. Nunca mais sairia de lá, se não encontrasse, um dos guardas.

Leone gostava de o ouvir falar. Sua voz era clara, a pronúncia correta, o timbre musical. Enquanto escutava, sentiu desejos de ouvir falar dela e para ela, constantemente.

Embaraçado com o silêncio da moça, o rapaz conti­nuou a falar.

— Já me esqueci, — disse, — das instruções que teve a bondade de me dar, sobre o caminho. Quer fazer o fa­vor de repeti-las?

Leone assim fez, e ele observou que no lindo rosto não havia a mais leve expressão de aborrecimento, mas só a de satisfação serena e altiva. Pensou, então, não ser necessário retirar-se imediatamente, podia ficar mais alguns minutos. .

— Conhece aquela bonita balada alemã:
Junto ao rio a roda d’água Canta ainda a sua mágoa?
— Não; nunca a ouvi nem a li. Quer recitá-la para mim?
Junto ao rio a roda d’água Canta ainda a sua mágoa. Ali encontrei minha amada, Em linda tarde dourada.

Naquele vale sóbrio À margem fresca do rio. Bem longe vive ela agora E no vale já não mora.

Ali lhe dei um anel

Por selo do nosso amor.

O amor se tornou em fel, E a nossa alegria em dor.

Jurou-me a linda fingida Ser minha por toda a vida. Mas esse anel foi partido E o juramento esquecido.

E ouvindo esta roda d’água Sinto outra vez funda mágoa. Como é triste a minha sorte! Só posso achar paz na morte...
— Pare! — ordenou ela, levantando a mãozinha deli­cada; — pare! É bela, mas muito triste. Não nota que a lua empalideceu e o regato chora, no soluçar das águas?

O moço pareceu não havê-la entendido.

— Esta canção me persegue a memória desde a pri­meira vez que a ouvi. Permita-me recitar os últimos versos; talvez hajam sido escritos a despeito desta mes­ma roda d’água que agora vemos aqui.

— É uma história de amor? — perguntou ela, de­liciada com a beleza das palavras e do ritmo.

— Sim, e como a maioria das histórias de amor, uma história triste: um homem que dedicou todo o amor, que lhe enchia a alma, a alguém que o não merecia; os jura­mentos foram esquecidos e o anel partiu-se. O infeliz clama então pela morte, a fim de esconder na sepultura a sua tremenda desgraça.

Ela o fitou com os brilhantes olhos negros.

— Será que todos os casos de amor terminam em tristeza?

Olhando pensativamente para as águas cristalinas, on­de a lua se espelhava em constante refulgir, o moço res­pondeu com simplicidade:

— Não poderia dizer ao certo, mas creio que é mais freqüente terminar em tristeza do que em alegria. Parece-me que, quando dois corações sinceros se encon­tram, tudo termina bem se há lealdade de ambos os la­dos; mas quando um coração sincero e leal encontra ou­tro falso e mentiroso, o fim é terrivelmente triste.

Leone lembrou-se subitamente de que falava a um estranho e que, havendo tantos outros assuntos, tinham orientado a conversação para o amor.

— Preciso ir-me, — exclamou, em tom apressado; — creio que se lembrará do caminho.

— Por favor, não se vá. Pelo menos agora. A his­tória se repete, porém a vida não. Nunca mais haverá noite linda como esta; a água jamais cantará em marulhar tão doce; nunca as estrelas brilharão tão suavemente; a vida passará e talvez nunca mais nos encontremos. O seu rosto é lindo como um poema. Fique mais al­guns minutos.

— Meu rosto é lindo como um poema. Pensa real­mente assim?

Gostara da frase.

— Dão-se na vida fatos tão extraordinários... Fa­tos que, lidos nos romances, nos fariam rir, por nos parecerem exageradamente românticos para serem reais, ainda mais extraordinário quando souber que o seu rosto não me saiu da memória o dia todo.

A moça o encarou surpresa. Vincou-lhe a testa mo­rena uma ruga, denunciadora de preocupação.

— Como assim?

— Eu a vi esta manhã, quando me dirigia a Rashleigh, em companhia de meu amigo, Sir Frank Euston. A senhorita estava de pé, debruçada sobre a porteirinha branca, e pensei... Bem é melhor não lhe dizer o que pensei.

— E por quê?

— Porque poderia ofendê-la.

Principiava a perceber que a moça não era vaidosa. Tinha orgulho sereno, altivez semitrágica, mas não ali­mentava essa vaidade frívola, tão comum. Não haveria namoro fútil ali ao lado do regato. A bela fazendei­ra não sabia ser vaidosa, nem afetada. Os seus modos altivos arregalaram-se. Parecia antes uma duquesa no seu palácio do que uma camponesa sentada junto à roda. Su­bitamente, passou-lhe pela idéia: Quem seria ela? Que estaria a fazer ali?

— Mora perto daqui? — perguntou.

— Sim. Por trás das árvores poderá ver a chami­né de uma casa de campo. É da propriedade denomi­nada "Fazenda Rashleigh". Ali moram o meu tio Ro­berto Noel e eu.

— Seu tio, — repetiu o rapaz com certa incredulidade. Aquela moça, com ares de princesa espanhola, era afi­nal, sobrinha de fazendeiro.

— Não parece moça inglesa, — disse ele, com ar sé­rio.

— Meu pai era inglês; minha mãe, espanhola... e eu... bem, creio que me circula nas veias mais do sangue quente da raça andaluza do que do sangue gelado dos ingleses; o meu coração é espanhol, tal como o meu rosto.

— Os espanhóis apaixonam-se e odeiam com rapi­dez, perdoam com grandeza de alma e sabem vingar-se sem piedade.

— O senhor não poderia descrever com maior fide­lidade o meu caráter.

— Não creio. Quem possui um rosto como o seu não pode abrigar no coração ódio ou vingança. Então o seu nome é Noel?

— Sim, o meu nome é Leone Noel.

— Leone, que nome bonito! Ainda não o havia ou­vido, mas o acho muito bonito; é raro e musical, dois elementos que o tornam agradável.

— É alemão. Meu tio Roberto acha-o horrível. Diz que lhe faz lembrar um leão. Mas o senhor sabe que a pronúncia é bastante diferente. Minha mãe havia lido um romance alemão no qual um dos personagens tinha esse nome; e por isso me deu.

— Pois está muito bem aplicado. Creio que nenhum outro nome no mundo lhe caberia tão bem. Não sei, — disse a sorrir, — se gostará do meu. É Lancelot Chandos.

— E como não haveria de gostar? Conheço a his­tória de Sir Lancelot. Admiro-o muito; mas creio que era um homem fraco, não lhe parece?

— Por se ter apaixonado pela rainha Genoveva? Não sei. Às vezes o amor é força e não fraqueza.

Leone encarou-o de novo.

— O senhor é filho de um grande lorde? Já me disseram isso.

— Sim, meu pai é o Conde de Lanswell e o povo o chama de grande conde. É rico e poderoso.

— E que motivo trouxe o filho de um grande con­de à vila de Rashleigh?

— Em primeiro lugar a minha ociosidade. Estive na Universidade de Oxford uma porção de anos, desperdiçando o meu tempo.

— Então está estudando?

— Exatamente. Tento agora recuperar o tempo que perdi. Preciso passar nos exames e meu pai enviou-me à casa do Sr. Hervey, que é conhecido em toda a In­glaterra como um dos melhores repetidores.

Uma nuvem encobriu o rosto claro da lua e a sú­bita escuridão assustou Leone.

— Preciso ir-me agora. Não só está ficando tarde, como escurecendo.

— Vê-la-ei outra vez? Prometa-me que me per­mitirá vê-la de novo.

— Não. O senhor não crê em promessas, — respondeu ela, enquanto desaparecia por entre o arvoredo que encobria a casa.

Do encontro inesperado resultaram os mais estra­nhos acontecimentos.



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