Esses estranhos Homens deveriam ficar muito satisfeitos por serem julgados mais maldosos dó que realmente são



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Nipp levou-a a seus aposentos. “Eu não preciso de muito”, disse a Ma­léfica Bruxa do Oeste (como, em contraste, ela permitiu-se ser chamada, ao menos por esses presunçosos munchkineses). “Uma cama por alguns dias, e gostaria de ver o meu pai e ir à cerimônia. Eu pegarei algumas coisas, e irei embora em breve. Agora, você sabe se nosso irmão, Shell, estará aqui?”

“Shell desapareceu de novo”, disse Nipp. “Ele deixou suas saudações, para que eu lhe retransmitisse. Há no Glikkus uma missão de que ele está incumbido, coisa que não pode esperar. Alguns daqui pensam que ele está é desertando, preocupado com uma mudança no governo, agora que a tirana morreu. E ele faz bem em se preocupar”, ele acrescentou friamente. “Você precisa de toalhas?”

“Eu não as uso”, disse a Bruxa. “Está tudo certo. Vá embora agora.” Ela estava muito cansada, e triste.

Aos sessenta e três anos, Frex estava mais calvo, e com a barba mais branca do que estivera na última vez em que ela o vira. Seus ombros se ar­queavam, como se tentassem encontrar um ao outro, sua cabeça afundava numa cavidade natural formada por uma espinha dorsal e um pescoço de­teriorados. Ele estava sentado na varanda, debaixo de um cobertor. “E quem é esta?”, ele disse quando a Bruxa subiu e sentou-se perto dele. Ela percebeu que sua vista estava arruinada.

“É sua outra filha, Papai”, ela disse, “aquela que partiu.”

“Fabala”, ele disse, “o que farei sem minha bela Nessarose? Como viverei sem meu bichinho?”

Ela segurou sua mão até que ele caiu no sono, e enxugou seu rosto, embora suas lágrimas ardessem em sua pele.

Os munchkineses libertados estavam destruindo a casa. A Bruxa não era dada a enfeites, mas parecia uma vergonha arruinar uma propriedade desse jeito. A profanação tinha vistas tão curtas; eles não sabiam que, não importava como houvessem decidido viver agora, Solos de Colwen poderia ser o prédio de seu parlamento?

Ela ficou ao lado do pai por algum tempo, mas eles não falaram mui­to. Numa manhã, quando ele estava mais alerta e enérgico que de costume, perguntou a ela se realmente era uma bruxa. “Oh, bem, o que é uma bruxa? Quem alguma vez confiou na linguagem nesta família?”, ela respondeu. “Pa­pai, você daria uma olhadinha numa coisa para mim? Você me dirá o que viu?” Ela tirou de um bolso escondido a página do Livro das Sombras e desdobrou­-a como um grande guardanapo em seu colo. Ele passou suas mãos sobre ela, como se pudesse apreender significados com a ponta dos dedos, e depois aproximou-a dele, perscrutando e olhando com os olhos apertados.

“O que você vê?”, ela perguntou. “Pode me revelar a natureza desse es­crito? É para o bem ou para o mal?”

“As inscrições são bastante claras, e amplas. Acho que sou capaz de entendê-las.” Ele virou a página de ponta-cabeça. “Mas, pequena Fabala, não consigo ler este alfabeto. É numa língua estrangeira. Você consegue?”

“Bem, de vez em quando eu me sinto capaz, mas é uma habilidade passageira”, disse a Bruxa, “não sei se são meus olhos ou é o manuscrito que está me pregando peças.”

“Você sempre teve olhos poderosos”, disse seu pai. “Mesmo quando en­gatinhava, você conseguia ver coisas que ninguém via.”

“Hah”, ela disse, “eu não sei o que você quer dizer com isso.”

“Você tinha um espelho que Coração de Tartaruga fez para você, e você olhava nele como se pudesse ver outros mundos, outros tempos.”

“Talvez eu estivesse olhando para mim mesma.”

Mas ambos sabiam que isso não era verdade, e Frex, pela primeira vez, disse isso. “Você não olhava para você mesma”, ele disse, “porque odiava isso. Você odiava a sua pele, suas feições pontiagudas, seus olhos estranhos.”

“Onde foi que aprendi esse ódio?”, ela perguntou.

“Ao nascer, você já o conhecia”, ele disse. “Era uma maldição. Você nasceu para amaldiçoar a minha vida.” Ele bateu de leve em sua mão, afetuosamente, como se não quisesse dizer nada de grave com isso. “Quando você perdeu seus estranhos dentes de bebê, e sua segunda dentição veio normalmente, nós todos nos tranqüilizamos um pouco. Mas nos dois primeiros anos ― até que Nessarose nascesse ― você era um monstrinho. Só quando a santa Nessarose foi dada a nós, até mais prejudicada que você, foi que você se estabilizou como uma criança normal.”

“Por que rogaram pragas para que eu fosse diferente?”, ela disse. “Você é um homem santo, você deve saber.”

“Você é meu fracasso”, ele disse. A despeito de suas palavras, ele estava atribuindo culpa mais a ela que a ele mesmo, embora ela não fosse ainda perspicaz o bastante para perceber como isso era feito. “Pelo que eu fracassei em fazer, você nasceu para me amaldiçoar. Mas, não se preocupe com isso agora”, ele acrescentou, “foi há tanto tempo.”

“E Nessarose?”, ela perguntou. “As ponderações e os balanços da vergo­nha e da culpa a afetaram em quanto?”

“Ela é um retrato da moral frouxa de sua mãe”, Frex disse, calmamente.

“E essa é a razão por que você podia amá-la tanto”, disse a Bruxa. “De­vido à fraqueza humana de mamãe não ser culpa sua.”

“Não leve a sério assim, você sempre agrava as coisas”, Frex disse. “E agora ela está morta, então, que mais importa?”

“Minha vida continua a existir.”

“Mas a minha está se esvaindo”, ele respondeu, tristemente. Assim, ela pôs a mão dele de volta no colo, e o beijou afetuosamente, e voltou a dobrar a página do Livro das Sombras e a enfiá-la em seu bolso. Então, virou-se para cumprimentar a pessoa que se aproximava deles, vinda pelo gramado. Ela pensou que era alguém trazendo o chá (Frex concordara em receber um certo número de privilégios, devido à sua idade e à brandura, e, ela supunha, à sua vocação), mas ela se levantou e baixou a frente de sua tosca saia negra quando viu quem era.

“Senhorita Glinda dos Arduennas”, ela disse, com o coração zumbindo.

“Oh, você veio, eu sabia que você viria”, disse Glinda. “Senhorita Elpha­ba, a derradeira e verdadeira Eminente Thropp, não importa o que digam por aí!”

Glinda se aproximou lentamente, devido à idade ou à timidez, ou por­que seu ridículo traje pesava tanto que era difícil para ela obter fôlego su­ficiente para passadas largas. Ela parecia um arbusto repleto de frutinhas “glindinescas”, foi tudo que a Bruxa pôde pensar; debaixo daquela saia devia haver uma anquinha do tamanho da cúpula da igreja de Santa Florix. Havia lantejoulas e debruns de pele e uma espécie de História de Oz, ao que parecia, bordada em pesponto nos seis ou sete panos ovóides em volta da saia toda. Mas, quanto ao rosto: debaixo da pele empoada, das rugas sob as pálpebras e a boca, havia a expressão de uma tímida colegial das Colinas de Pertha.

“Você não mudou nem um tiquinho”, disse Glinda. “Este é o seu pai?”

A Bruxa concordou, mas fez com que ela se calasse; Frex tinha apagado outra vez. “Venha, caminharemos nos jardins antes que eles arranquem as rosas com alguma heróica tentativa de erradicar a injustiça.” A Bruxa tomou o braço de Glinda. “Glinda, você está horrível com essas roupas. Pensei que você adquirira alguma sobriedade, ultimamente.”

“Quando nas províncias”, ela disse, “você tem de mostrar um pouco de estilo a esses caipiras. Não acho que está tão mal assim. Ou será que os sinos de seda no ombro não serão um pouquinho excessivos demais?”

“Excessivos sim”, concordou a Bruxa. “Alguém que vá correndo pegar as tesouras; isso é um desastre.”

Elas riram. “Minha querida, o que fizeram com este antigo lugar gran­dioso”, disse Glinda. “Olhe, aqueles frontões triangulares foram feitos para dar suporte a urnas mortuárias, e aqueles slogans revolucionários estão pintados por todo esse primoroso mirante. Espero que você tome alguma providência aqui, Elfinha. Não há um mirante que se compare a este fora da capital.”

“Eu nunca tive um amor à arquitetura como o seu, Glinda”, disse a Bru­xa. “Eu só leio os slogans: ELA PISOU EM NÓS. Por que eles não deviam pintar isso por todo o mirante? Se ela na verdade pisou em todos eles?”

“Tiranos vêm e vão, mirantes são eternos”, disse Glinda. “Eu posso lhe recomendar os mais finos restauradores no momento que você pedir.”

“Eu soube que você foi dos primeiros a aparecer”, disse a Bruxa, “quando Nessarose morreu. Como foi que isso aconteceu?”

“Sir Chuffrey ― meu maridinho ― tem alguns investimentos em ações no negócio de carne de porco, você sabe, e a Terra de Munchkin está tentando diversificar sua base econômica a fim de não ficar à mercê dos bancos de Gilli­kin e da Bolsa de Cereais da Cidade Esmeralda. Nunca se sabe que espécie de relação poderá se desenvolver entre a Terra de Munchkin e o resto de Oz, e é melhor ficar preparado. Assim, onde Sir Chuffrey faz negócios, eu faço filantropia. É uma parceria celestial. Sabe que tenho mais dinheiro até do que posso gastar?” Ela riu afetadamente e apertou o braço da Bruxa. “Eu nunca imaginei que fazer caridade pública fosse render tamanho progresso.”

“Então, você estava aqui, na terra de Munchkin?”

“Sim, eu fui a um orfanato nas praias de Mossmere, e por farra pensei em dar um passeio num parque de diversões ― há dragões por lá agora, e eu nunca vira um dragão ― então, eu estava a menos que doze milhas de distância quando a tempestade veio. Até lá tivemos ventos terríveis; não con­sigo imaginar como uma cerimônia poderia estar transcorrendo em Munch Central naquele momento. Em Mossmere, vários segmentos do parque foram fechados para os visitantes devido ao temor de que árvores caíssem e Animais fugissem...”

“Oh, então chamam a coisa de parque de diversões, com Animais?”, disse a Bruxa.

“Você deve ir, querida, é uma curtição. Bem, como eu dizia, a casa caiu como um raio em céu azul, e acho que digo isso literalmente ― se tivessem pressentido uma grande tempestade, certamente teriam cancelado o evento e corrido para um abrigo. De todo modo, o serviço de informações está muito avançado agora em algumas partes da Terra de Munchkin; Nessarose em pessoa supervisionou a criação de um sistema de faróis e sinais de código tiquetaqueantes, para alertar quanto a invasões do Mágico e problemas a oeste. Então, foi só uma questão de minutos para que as notícias fossem enviadas em todas as direções. Eu peguei uma Fênix Madura e pedi a ela que me trouxesse a Munch Central, e cheguei antes que os nativos tivessem entendido direito o que os atingira.”

“Fale-me disso”, disse a Bruxa.

“Você ficará satisfeita em saber que não houve sangue. Arrisco imaginar que houve maciços ferimentos internos, mas não houve sangue. Claro que os derradeiros poucos seguidores devotos de Nessarose acharam que isso quis dizer que seu espírito subiu intacto ao céu, e que ela sofreu pouco. Eu não imagino que ela tenha sofrido muito, não com aquele tipo de pancada na cabeça. Seus seguidores mais infelizes, que eram em maior número, acha­ram que era um ato gozador de Lurlina, libertando-os da forma particular de servidão fundamentalista a que Nessarose os submetia. Houve festança quando eu cheguei, e muita saudação para a garota e o cachorro que parecem ter morado na casa.

“Oh, quem é essa?”, disse a Bruxa, que não soubera dessa parte.

“Bem, você sabe como os munchkineses fazem mesura e rasgam seda, apesar de suas inclinações democráticas. Tão longo eu cheguei, já foram me paparicando, apresentando-me como uma bruxa. Tentei corrigi-los, uma fei­ticeira é realmente muito mais adequado, mas, deixa pra lá. Não houve dúvida quanto ao meu traje, ele os intimidou. Eu vestia um costume rosa-salmão naquele dia, e ele realmente combinava bem comigo.”

“Continue”, disse a Bruxa, que nunca gostara de conversas sobre rou­pas.

“Bem, a criança se apresentou: Dorothy do Kansas. Eu não conhecia o lugar, e disse a verdade. Ela parecia tão surpresa quanto os outros com o que acontecera, e ela tinha um cãozinho nojento latindo em seus calcanhares. Tatá ou Totó ou algo assim. Totó. Então, essa Dorothy estava em alguma espécie de estado de choque, posso lhe garantir. Uma garotinha bem grosseira, com pouco gosto para se vestir, mas suponho que na vida alguns só adquiram isso mais tarde.” Ela olhou de lado para a Bruxa. “Muito mais tarde, em alguns casos.” E as duas riram muito com aquilo.

“Dorothy supôs que devia tentar voltar para a sua casa, mas, como ela não conseguia lembrar se havia estudado alguma coisa sobre Oz na escola, nem eu recordar um lugar chamado Kansas, concluímos que ela deveria pro­curar ajuda em outro lugar. Os volúveis munchkineses pareciam dispostos a nomeá-la sucessora de Nessinha, o que teria enraivecido Nipp e todos aqueles ministros de Solos de Colwen que passaram suas carreiras manobrando para alcançar posições quando e se Nessarose estivesse para morrer. Além disso, devem estar acontecendo outros desdobramentos. Dorothy deve ter pegado o seu caminho.”

“Um olho para assuntos públicos, bem, não estou assim tão surpresa”, disse a Bruxa, na verdade completamente satisfeita. “Eu sempre soube que você devia estar fazendo isso em algum lugar, Glinda.”

“Bem, eu achei que o melhor procedimento seria tirar Dorothy da Terra de Munchkin antes que uma guerra civil tornasse esse lugar mais dividido do que já é. Há facções, você sabe, que apóiam a reanexação da Terra de Mun­chkin por Oz. Não faria nenhum bem à garota ser posta no fogo cruzado de interesses antagônicos.”

“Oh, ela não está aqui?”, disse a Bruxa. “Eu pensei que iria conhecê-la.”

“Dorothy? Agora você não vai se virar contra ela, vai?”, disse Glinda. “Ela é uma criança, na verdade. Grande pelos padrões munchkineses, é claro, mas uma coisinha atarracada, apesar disso. Ela é uma inocente, Elfinha; eu vejo pelo brilho em seu olhar que você está ficando tomada por sua velha mania paranóica outra vez. Ela não estava pilotando a casa, você sabe, ela estava presa nela. Esse é o tipo de luta em que você faria melhor não se intrometendo.”

A Bruxa suspirou. “Você pode estar certa. Você sabe, estou ficando acos­tumada a endurecer os músculos de manhã. Às vezes acho que a vingança é uma questão de formação de hábito também. Um endurecimento da atitude. Continuo tendo esperança que o Mágico será derrubado enquanto eu ainda for viva, e essa aspiração parece avessa à felicidade. Suponho que não possa ficar querendo me vingar da morte de uma irmã com quem eu nem me dava tão bem.”

“Especialmente se a morte foi um acidente”, Glinda disse.

“Glinda”, disse a Bruxa. “Sei que você deve se lembrar de Fiyero, e deve ter sabido de sua morte. Há quinze anos.”

“Claro”, disse ela. “Bem, eu soube que ele morreu, em circunstâncias misteriosas.”

“Eu conheci a sua esposa”, disse a Bruxa, “e suas cunhadas. Alguém me insinuou uma vez que ele estava tendo um caso com você na Cidade Esmeralda.”

Glinda ficou amarelo-rosa. “Minha cara”, ela disse. “Eu apreciava Fiyero e ele era um bom homem e um correto estadista. Mas, entre outras coisas, você deve se lembrar que ele tinha pele escura. Mesmo que eu fosse dada a flertar ― uma tendência que acho que raramente traz benefícios a uma pessoa ― você está outra vez sendo desconfiada e ranzinza ao suspeitar de mim com Fiyero! Que idéia!”

E a Bruxa percebeu, humilhada, que isso era certamente verdadeiro; a feia habilidade para o esnobismo estava renascendo em Glinda em seus anos maduros.

Mas, pelo seu lado, Glinda não tinha uma suspeita real de que a Bruxa a estivesse implicando no amor adúltero de Fiyero. Glinda era espalhafatosa demais para ouvir uma coisa dessas atentamente. A Bruxa, na verdade, a alar­mava um pouco. Não era apenas pela novidade de vê-la novamente, mas pelo estranho carisma que Elphaba possuía, capaz de sempre colocá-la em plano secundário. Também havia a empolgação, de fundo indefinível, que tornava Glinda tímida, e a fazia se precipitar em suas palavras, e falar numa falsa voz alta, como uma adolescente. Como alguém pode ser lançado rapidamente de volta à terrível incerteza de sua juventude!

Pois, quando ela escolheu lembrar-se de sua juventude toda, conseguiu trazer à memória uma vaga recordação daquele audacioso encontro com o Mágico. Ela pôde lembrar com mais clareza como ela e Elphaba tinham di­vidido uma cama na estrada para a Cidade Esmeralda. Como aquilo a fizera sentir-se corajosa, e como a deixara vulnerável também.

Elas caminharam por um trecho num silêncio inquieto.

“As coisas devem começar a melhorar agora”, disse a Bruxa, um pouco depois. “Quero dizer que a Terra de Munchkin ficará bagunçada só por algum tempo. Um tirano é uma coisa terrível, mas ele ou ela impõe uma ordem. A anarquia que vem depois da deposição de um tirano pode ser mais sanguiná­ria que a anterior. No entanto, as coisas podem se ajeitar. Papai sempre dizia que, quando deixados a si mesmos, os munchkineses tinham uma grande capacidade de senso comum. E Nessinha era, para efeitos práticos, uma es­trangeira. Ela foi criada no Estado de Quadling e, você sabe, ela pode ter sido metade quadling, como vim a saber. Ela foi uma rainha estrangeira nesta terra, apesar do título que herdou. Com seu desaparecimento, os munchkineses podem dar um jeito em si mesmos.”

“Que a alma dela seja abençoada”, disse Glinda. “Ou você ainda não acredita em alma?”

“Não posso fazer comentários sobre as almas dos outros”, disse a Bruxa.

Caminharam um pouco mais. Aqui e ali a Bruxa via, como antes, os totêmicos homens de palha, presos em túnicas, e erguidos como efígies nos cantos dos campos. “Eu os acho um pouco sinistros”, ela disse a Glinda. “Ago­ra, uma outra coisa que eu quero lhe perguntar; e eu perguntei isso a Nessa uma vez. Você se lembra de Madame Morrible encurralando-nos em sua sala de visitas, e propondo que nos tornássemos três Adeptas, três altas bruxas de Oz? Uma espécie de sacerdotisas locais, formulando um plano de ação pública por trás dos bastidores, contribuindo para a estabilidade ― ou a ins­tabilidade ― de Oz tal como era exigida por alguma indefinida autoridade mais elevada?”

“Oh, aquela farsa, aquele melodrama, como poderia esquecer?”, disse Glinda.

“Eu me pergunto se não fomos enfeitiçadas naquela ocasião? Você se lembra, ela disse que não poderíamos falar daquilo, e não parecia que pu­déssemos?”

“Bem, estamos falando a respeito, então, se havia alguma verdade na coisa, do que duvido, está certamente sem efeito, agora.”

“Mas, olhe o que aconteceu com a gente. Nessarose se tornou a Ma­léfica Bruxa do Leste ― você sabe que era assim que a chamavam, não finja ficar tão chocada ― e eu tenho uma fortaleza no Oeste, e parece que estou arregimentando os arjikis em torno de mim, à força de a família governante estar ausente ― e aí está você, bem estabelecida no Norte com suas contas bancárias e seus lendários talentos para a feitiçaria.”

“Lendários coisa nenhuma; quanto a isso, creio que sou admirada nos círculos apropriados”, disse Glinda. “Agora, minha memória é tão boa quanto a sua. E Madame Morrible propôs que eu fosse uma Adepta de Gillikin, mas que você fosse uma Adepta na Terra de Munchkin, e Nessa fosse uma Adepta no Estado de Quadling. Com o Vinkus ela nem se importava. Se ela estava vendo o futuro, via errado. Ela viu você e Nessa de forma totalmente errada.”

“Esqueça os detalhes”, disse a Bruxa acidamente. “Eu só quero dizer, Glinda, será que é possível que estejamos vivendo nossas vidas adultas por inteiro debaixo do feitiço lançado por alguém? Como poderíamos notar se fôssemos os peões do jogo mais obscuro de alguém? Eu sei, eu sei, eu posso ver no seu rosto: Elfinha, você está farejando teorias de conspiração outra vez Mas você estava lá. Você ouviu o que eu ouvi. Como você sabe se sua vida não tem sido manipulada pelos fios de alguma mágica maligna?”

“Bem, eu rezo bastante”, disse Glinda, “não com muita convicção, eu admito, mas eu tento. Acho que o Deus Inominável teria piedade de mim e me daria o benefício da dúvida, e me libertaria de algum feitiço, se eu aciden­talmente fosse enfeitiçada. Você não? Ou você ainda é tão atéia?”

“Eu sempre me senti como um joguete”, disse a Bruxa. “A cor de minha pele foi uma maldição, meus pais missionários me tornaram abstêmia e pas­sional, meus dias de escola me trouxeram,revolta com os crimes cometidos contra os Animais, minha vida amorosa implodiu e meu amante morreu, e se possuo alguma espécie de trabalho próprio, não o descobri ainda, exceto na frugalidade animal, se você puder chamá-la assim.”

“Eu não sou um joguete”, disse Glinda. “Eu assumo toda a responsabili­dade do mundo por minha própria tolice. Santo Deus, querida, tudo na vida é um feitiço. A gente sabe disso. Mas a gente tem uma margem de escolha.”

“Bem, eu fico em dúvida”, disse a Bruxa.

Elas continuaram caminhando. Grafites estavam pichadas aos lados dos blocos de suporte das estátuas. AGORA O SAPATO ESTÁ EM OUTRO PÉ. Glinda ironizou. “Frugalidade animal?”, ela disse.

Elas cruzaram uma pequena ponte. Pássaros azuis lançavam música sobre elas como um entretenimento sentimental.

“Eu mandei essa Dorothy, essa garota, para a Cidade Esmeralda”, disse Glinda. “Eu lhe disse que nunca tinha visto o Mágico ― bem, tive de mentir, não olhe para mim desse jeito; se eu dissesse a ela a verdade sobre ele, ela nunca sairia daqui. Eu disse a ela que pedisse a ele para que a levasse de volta para casa. Com esses espiões de reconhecimento por toda Oz, e sem dúvida mais além, ele deve saber onde fica o Kansas, estou certa disso. Ninguém mais sabe.”

“Foi uma coisa cruel”, disse a Bruxa.

“Ela é uma criança tão inofensiva, ninguém a leva a sério”, disse Glinda, displicentemente. “Se os munchkineses começarem a se agrupar aqui, a reu­nificação poderá ser um negócio muito mais sangrento do que esperamos.”

“Então, você tem esperanças de uma reunificação?”, murmurou a Bruxa, desgostosa. “Você a apóia?”

“Ademais”, Glinda prosseguiu alegremente, “em algum lugar dentro des­te meu peito empinado deve existir algum instinto maternal, pois eu dei a ela os sapatos de Nessa como uma espécie de proteção.”

“Você o quê?” A Bruxa girou e encarou Glinda. Por um momento fi­cou muda de raiva, mas só por um momento. “Ela não apenas vem do céu e derruba sua grande casa desajeitada sobre a minha irmã, mas pega os sapatos dela também? Glinda, não eram seus para que você os desse! Meu pai fez os sapatos para ela! E, ademais, Nessa me prometeu que eu poderia ficar com eles quando ela morresse!”

“Oh sim”, disse Glinda numa falsa calma, examinando a Bruxa de alto a baixo, “e eles seriam o acessório perfeito para essas roupas tão dentro da moda que você usa. Ora, Elfinha, quando foi que, entre todas as coisas, você se preocupou com sapatos? Olhe só para essas botas do exército que você está usando!”

“Que eu as use ou não, não é coisa que lhe diga respeito. Você não pode ir dispondo do trabalho de uma pessoa desse jeito, que direito você tem? Pa­pai restaurou esses sapatos usando habilidades que aprendeu com Coração de Tartaruga. Você botou sua varinha de condão onde não devia!”

“Deixe-me lembrar você”, disse Glinda, “que esses sapatos estavam se partindo em pedaços até que pus neles uma nova sola, e os consertei com um especial feitiço de ligação de minha própria lavra. Nem seu pai nem você fizeram tanto assim por ela. Elfinha, eu lhe dei amparo quando você a aban­donou em Shiz. Tal como você me abandonou. Você fez isso, não negue, pare de lançar esses olhares feito raios sobre mim, eu não aceito. Eu me tornei a irmã substituta de Nessarose. E, como uma velha amiga, eu dei a ela o poder de ficar em pé nesses sapatos, e se cometi um erro, sinto, Elfinha, mas ainda sinto que os sapatos eram mais meus que seus para que eu dispusesse deles como bem entendesse.”

“Bem, eu os quero de volta”, disse a Bruxa.

“Oh, deixa isso pra lá, por favor, são apenas sapatos”, disse Glinda, “você se comporta como se fossem relíquias sagradas. Eram sapatos, e um pouco fora de moda, verdade seja dita. Deixe a garota ficar com eles. Ela não tem mais nada.”

“Olhe aqui o que o povo daqui pensa delas”, disse a Bruxa; ela apontou para um estábulo onde estava escrito em garranchos, em grandes letras ver­melhas: CAIAM FORA VOCÊS SUAS BRUXAS VELHAS.


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