Código da Vida



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Provocou uma crise dos diabos. O Professor Vicente Ráo, o maior juris­ta do Brasil, o advogado mais famoso de São Paulo, considerava-se, e era, o maior amigo do Guilherme. Eles haviam cursado, juntos, o ginásio e a Facul­dade de Direito. Formaram-se juntos, e juntos festejaram o início da profis­são. E Ráo, no começo do século XX, começou a advogar no escritório do pai do Guilherme, Dr. Estevão de Almeida, advogado célebre na época, que, depois, pediu ao Ráo para abrir um escritório próprio, prometendo que lhe mandaria clientes. Mas exigiu que levasse o Guilherme, pois seu filho per­turbava o ambiente sério do seu escritório com piadas e vivia fazendo versinhos.

Assim, Vicente Ráo começou sua advocacia autônoma sem o Guilher­me, que escreveu poemas maravilhosos e nunca redigiu uma petição. Mas passaram a vida juntos, casaram-se com mulheres que se tornaram amigas, viveram as mesmas coisas, os mesmos ambientes paulistas, e ambos, cada qual sob sua vocação, tornaram-se celebridades nacionais, Guilherme, o Príncipe dos Poetas Brasileiros, e Vicente Ráo, o maior jurista de nosso país naquela época e, para mim, de todos os tempos.

— Preciso que você venha para São Paulo amanhã, sem falta — disse-me o Guilherme pelo telefone. Eu já estava morando em Santos, onde come­cei a estudar Direito, depois de ter feito o colegial em Ribeirão Preto.

— Por que tanta urgência?

— Pela crônica no Diário de São Paulo, em que falei dos dois amigos entre os homens, você e eu. Ráo quer tirar satisfação comigo. Veja bem: ele não quer explicações, quer tirar satisfações, o que é muito mais grave. Ciúme de homem é a pior coisa que pode existir. Acaba sendo mais escandaloso e agressivo do que ciúme de amante francesa. Venha, pois quero ir ao escritório dele, na Rua Sete de Abril, aqui pertinho, levando você.

No dia seguinte, subi a Serra do Mar, pensando comigo: seja o que Deus quiser! Como pode uma simples frase causar tanto barulho entre homens tão ilustres? Mas foi a frase que mudou minha vida para sempre. E como!

51

Guilherme já me havia apresentado o mundo literário de São Paulo. Numa época em que não havia televisão, chegamos a formar um grupo sim­pático, que saía pelo interior, declamando poesias nos teatros: Paulo Bonfim, José Carlos Dias, Selene de Medeiros, Ives Gandra Martins, Eurícledes For­miga e Guilherme de Almeida, que nem sempre estava disposto a nos acom­panhar. Paulo Bonfim e José Carlos Dias eram “prefaciados” de Guilherme. Em geral, eu ficava na porta dos teatros, sentado diante de uma mesinha, quando terminava o espetáculo, vendendo os livros dos poetas. Inclusive o meu, que era o menos procurado.

O público vibrava com os poetas a declamar suas próprias poesias. E um dos sucessos maiores dessas apresentações era o talento para o improviso do paraibano Eurícledes Formiga. Para dar maior sensação e autenticidade ao improviso, ele pedia que alguém da platéia lhe desse um verso para ser glo­sado ou um assunto para ser desenvolvido em sextilhas. Em geral, os poetas locais, pressionados pelo público, forneciam os versos românticos, líricos, fá­ceis de serem glosados pelo nosso fabuloso repentista nordestino.

Uma noite, um espectador resolveu embaraçar o paraibano e o desafiou a improvisar sobre o tema “A saudade é um parafuso”.

Ficamos todos gelados. Não tinha jeito de sair daquela encrenca. O tema era um desastre. Mas o poeta, calmo, pensou um pouco e, com voz pau­sada e rouca, devolveu em sextilha com rimas nas pares:

“A saudade é um parafuso,

Que, quando entra, não cai,

Só entra se for torcendo

Porque batendo não vai.

Depois que enferruja dentro,

Nem destorcendo não sai.”

A platéia delirou. Naquele dia, o livro mais vendido na portaria foi, cla­ro, o do Eurícledes Formiga. Os dos outros poetas, principalmente os meus, encalharam.



52

Nerval entrou em minha sala:

— Pensei que você estivesse trabalhando.

— E não estou?

— Não parece. Quando abri a porta, você estava com os olhos fixos na janela. Parecia perdido num vôo de nuvens lá fora.

— Estava lembrando o tempo dos meus amigos poetas, enquanto des­canso um pouco de umas contra-razões de apelação com prazo para amanhã.

— Se seus clientes souberem que você divaga na hora de trabalhar, nós estamos fritos.

— Por isso não publico livro de poesias. Você tem razão. O cliente, sa­bendo que seu advogado é poeta, pode chegar à conclusão de que, no míni­mo, corre o risco de perder o prazo nos processos judiciais.

— Mas o Ives Gandra publica livros de poesia quase todos os anos e continua sendo um dos advogados mais respeitados do país, com grande clientela.

— Não tenho a mesma coragem. O Ives é excepcional. Ele faz de tudo: conferências, organiza conselhos de estudos e congressos, profere excelentes pareceres jurídicos, é professor, advoga intensamente e bem. Ainda encontra tempo e paciência para criticar a política tributária do governo, tarefa patrió­tica e inútil. E você? Tem novidade sobre a mulher do Olavo Brás?

— Tenho, e muito interessante. A mulher faz tratamento psiquiátrico com uma das mais famosas médicas de São Paulo e, segundo me informa­ram, tem problemas sérios de perturbações mentais.

— Mas não podemos obter nada da médica psiquiatra. Ela tem o dever do segredo profissional.

— O juiz pode.

— Inclusive para o juiz, ela tem o direito de negar-se a fornecer infor­mações sobre sua cliente. Tire isso da cabeça.

— Eu sei, mas o juiz da nossa causa é um dos mais inteligentes e hábeis de toda a magistratura paulista na atualidade. Você sabe disso. Se ele se dis­puser a ouvi-la, acabará conseguindo o que quiser, com integral respeito aos sigilos profissionais de todos os códigos de ética deste mundo. O moço é um craque! — Nerval quase discursava, tecendo loas ao magistrado.

— Realmente, ele é muito bom — concordei. — E está convencido, precisamente por ser excelente magistrado, de que o deslinde da questão deve ser conduzido pensando-se nas crianças, independentemente de direito de mãe e de pai.

— Um valor mais alto se alevanta — disse Nerval, depois de mandar cessar tudo o que antiga musa canta.

— É preciso ter muita coragem. Vamos entrar com uma petição, reque­rendo ao juiz o depoimento da psiquiatra antes da audiência de instrução e julgamento?

— É isso mesmo.

— Seja o que Deus quiser!

No mesmo dia redigi, assinei e mandei protocolar a petição.

53

— Tenho uma excelente notícia para você — disse Sinval, ao entrar na minha sala.

Imediatamente, peguei o maldito cigarro e acendi, para intoxicar mi­nha ansiedade.

— Isso vai matar você — sentenciou Sinval. .

— A notícia?

— Não, o cigarro.

— Pára com isso. Quero a notícia.

— Não é apenas seu cliente que tem mania de suicídio. Você também. Cigarro mata!

Sinval tinha razão. Fumante desde os quinze anos, eu tinha absoluta consciência do mal que o hábito me causava, e já causara um enfarte, duas pontes de safena, uma ponte de mamária, um stent, e eu continuava fuman­do, menos, mas continuava, o que não alterava o juízo que eu mesmo fazia de mim: fumar pouco não me faria menos burro. A burrice era igual. Mas não dei o braço a torcer:

— Se você veio aqui para falar de cigarro, agradeço o gesto de Exército da Salvação, e pode sair, porque tenho um mandado de segurança para redi­gir. Estou lotado de problemas. Quero saber da notícia. Quer um café?

— Não, obrigado. Se eu tomar o café, você também toma, e lá vai outro cigarro. Vamos ao que interessa. Fizemos uma reunião, o perito judicial, o assistente da autora e eu. Concordamos em que a fita apresenta a pausa de­pois de cada pergunta. E isso será unânime.

— Bem, até aí estava mais ou menos previsto. O que mais?

— Aí vem o melhor. Sugeri que o laudo fizesse constar que as pausas indicavam com segurança que as respostas foram induzidas. Nenhuma outra razão poderia justificar a pausa depois de todas as perguntas. E mais: as res­postas fluíram sem hesitação, o que demonstra terem sido as crianças bem ensaiadas para dizer cada uma das frases gravadas.

Em processo judicial, as perícias são efetuadas por três especialistas e profissionais habilitados. Um indicado pelo autor da ação, outro indicado pelo réu, ambos chamados de assistentes. O perito principal é indicado pelo juiz. Não é comum conseguir um laudo unânime. Por isso, minha pergunta:

— Você conseguiu isso do perito judicial e também do assistente da autora?

— Quem conseguiu foi a consciência de cada um de nós. O próprio perito judicial, depois de se convencer desse aspecto relevante, doutrinou o assistente da autora, ponderando estar em jogo não o interesse dela, mas a verdade em favor das crianças. Submetidas a esse tipo de ditado, as crianças sofreram uma violência moral inimaginável. Se fez isso, ou mandou alguém fazer, essa mulher é um perigo para a educação e formação dos próprios filhos.

— E você não quer que eu fume com uma notícia dessas?

— Não fume! Quero que você dure até o final do processo. Pelo menos.

— Mas eles aceitaram colocar no laudo uma opinião dos peritos, que devem se limitar unicamente ao aspecto técnico?

— Aí está a interpretação errada do princípio. O aspecto técnico pode muito bem levar o perito a concluir o porquê de sua existência. Muitas vezes, em caso de assassinato por facadas, pode-se chegar à conclusão de que o as­sassino é canhoto, por simples detalhes na direção e formato da perfuração.

— Mas isso ainda é aspecto técnico. Na gravação, temos apenas a indi­cação da pausa entre a pergunta e a resposta.

— No caso das facadas, veja bem, estou falando de várias facadas, não de uma só, a repetição é que facilita a conclusão. E, no caso da gravação, a re­petição da pausa depois de todas as perguntas faz saltar a conclusão lógica de que a paralisação do gravador só pode ter acontecido para o ditado da res­posta. Não é apenas uma opinião. É uma conclusão plausível, e nós vamos ter que salientar isso no laudo. Farei o rascunho para o perito judicial.

— E há previsão para a entrega do trabalho?

— Não sei exatamente, mas fique tranqüilo. Está decidido: o laudo será unânime.

Quase acendi outro cigarro. Essa afirmação da perícia ia me facilitar demais na defesa do cliente e no convencimento do juiz: devíamos ouvir as crianças. Agora eu tinha um motivo técnico para obter essa prova fundamental.

Lembrei-me do Gervásio:

— E a distância entre a fonte de áudio e o gravador?

— É sempre a mesma. As crianças estão seguramente à mesma distân­cia quando falam. É simples determinar pelos picos da onda senoidal no analisador de espectro de áudio. O volume é sempre o mesmo.

— Onda senoidal?

— Aquelas ondas verdes que o osciloscópio mostra quando reproduz. As mesmas que desaparecem, quando a gravação sofre interrupção pela pausa. Conforme a altura da curva senoidal, pode-se afirmar que as crianças estão imóveis, a uma distância de trinta centímetros do microfone. É constante.

— Isso vai ficar claro no laudo?

— Claríssimo.

— Dá para concluir que as crianças estavam sendo seguradas no mo­mento em que respondiam às perguntas?

— Aí já é demais. Não confunda a conclusão que tiramos das pausas com a hipótese de igualdade da distância entre o gravador e as crianças. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Como a televisão influencia o vocabulário das pessoas!

— Não se preocupe — tranqüilizei-o. — Essa circunstância, se bem sa­lientada no laudo, vai me ajudar a sustentar a existência de um cúmplice na gravação.

Sinval saiu. Fiquei na minha sala, saboreando a notícia e o cigarro. Ah! Ainda tenho um mandado de segurança para redigir. Santo Deus! Os prazos e o cigarro vão me matar! Há tanto tempo já sei disso!

Na época de Shakespeare, o rei James I da Inglaterra já sabia disso tam­bém e era antitabagista em 1615.

“Fumar é um hábito repugnante à vista, odiado pelo olfato, danoso para o cérebro e perigoso para os pulmões”, escreveu o rei, em 1616, sobre o novo “mau costume” procedente da América e popularizado por Sir Walter Raleigh, introdutor do fumo no mundo dito civilizado daquela época.

Até a Rainha Elisabeth I aprendeu a cachimbar. James I, que a sucedeu, ao tornar-se monarca da Inglaterra, em coerência com seu pensamento real, mandou decapitar Raleigh em 1618. Raleigh foi, portanto, um dos fumantes que não morreu de câncer, salvo que foi pela decapitação.



54

Então verifiquei que havia outro caso urgente para resolver. Era um mandado de segurança ao contrário, isto é, requerido e conseguido liminar­mente pelos advogados das concorrentes da NEC, companhia japonesa, que havia ganho a concorrência pública para instalar em São Paulo a telefonia ce­lular. Começaria com 60 mil telefones. Os impetrantes da segurança, advoga­dos competentes, abusaram um pouco: acusaram a NEC de algumas deficiên­cias técnicas, inclusive afirmando que ela não tinha o recurso de rooming, vital para a comunicação entre os telefones celulares de regiões diferentes. A NEC me contratou para defendê-la.

Chamei o vice-presidente da empresa, Renato Ishikawa, e perguntei-lhe:

— O que é rooming?

Ele começou a me contar uma história de mãe e criança recém-nascida, que nada tinha a ver com telefone.

Rooming-in foi o termo utilizado por Arnold Gessel pela primeira vez em 1943 — disse ele —, em seu livro Infant and child in the culture of today, para denominar a prática de permitir a colocação, no mesmo ambiente, de um pe­queno berço para acomodar o recém-nascido ao lado de sua mãe. Esse termo foi uma derivação do termo lying-in, que, em inglês, significa estar deitado, e é utilizado para mulheres em trabalho de parto. Significa alojamento conjunto.

— Mas o que isso tem a ver com telefone móvel?

— Tudo. A expressão foi usada para designar o recurso para o telefone portátil funcionar em áreas distantes de suas provedoras. Você pode levar seu celular de São Paulo para Brasília ou para Manaus, e ele funciona normalmente, tanto para receber chamadas como para fazer ligações. É apenas um exemplo. Ainda não temos o conjunto de sistemas instalados no Brasil. Mas será assim dentro de pouco tempo. É uma tecnologia que permite às várias e diferentes companhias telefônicas o intercâmbio das comunicações e do alojamento conjunto dos serviços ao usuário. O rooming-in. O berço da criança está sempre ao lado do leito da mãe.

— E a NEC tem esse berço? — perguntei.

— Claro que sim.

Com essa informação, redigi um pedido de revogação da liminar con­cedida aos concorrentes. A matéria dependia de prova, existência ou inexis­tência de tecnologia, detalhe de fato, sujeita à verificação técnica. Incabível em mandado de segurança. Fui despachar pessoalmente com o presidente do Tribunal Regional Federal de São Paulo, Américo Lacombe, um craque em Direito. Cassou a liminar.

Os concorrentes da NEC recorreram ao Superior Tribunal de Justiça e se apressaram em ir falar com o relator sorteado, Ministro Peçanha Martins. Também fui. Ao entrar na sala dele, ouvi logo de início:

— Seus adversários estiveram aqui e fizeram uma longa sustentação oral antes da hora. Vou-lhe assegurar o mesmo direito. Comece.

Peçanha Martins é um excelente jurista. Baiano de talento, gozador, bem-humorado, muita gente se engana com ele. Por trás da simplicidade e da enorme barriga, tem uma vasta cultura geral, além de uma perspicácia inve­jável para questões de Direito.

— O senhor sabe o que rooming? — perguntei.

— Não tenho a menor idéia — disfarçou ele, já esboçando um sorriso inteligente. — Sei apenas tratar-se de uma tecnologia que sua cliente não tem.

— É o que afirmam os impetrantes. Mas ela tem e muito bem desenvol­vida. Vocês vão decidir isso em mandado de segurança? Vão fazer perícia em processo que apenas examina direito líquido e certo?

Contei a história do leito da mãe e do bercinho. Alojamento conjunto. Haveria direito líquido e certo em afirmar que a vencedora da licitação não oferece o recurso de rooming, o que depende de prova técnica complexa?

A cassação da liminar foi mantida, a segurança, mais tarde, foi negada, e a NEC, em São Paulo, além dos 60 mil telefones iniciais, acabou instalando milhões de unidades. Uma delas, o meu celular, causa de muitos dos meus tormentos.

55

Autorizados por Dona Sílvia, entramos, Guilherme de Almeida e eu, na sala do Professor Vicente Ráo, para atender ao chamado do amigo ofendido pela crônica do poeta. Tive o cuidado de levar um exemplar de meu livro autografado ao grande jurista.

Ráo irradiava uma simpatia cativante e uma simplicidade comovente. Depois da apresentação, brincou com o Guilherme:

— Você comete o crime e me traz o corpo de delito?

Guilherme, embora poeta, foi prático dessa vez:

— Ráo, não sei quantos advogados recém-formados tentei lhe apresen­tar. Estudantes, perdi a conta. Você sempre me embrulhou com lacinhos de pompom e nunca os recebeu. Somente o impacto que lhe causei, por declarar que tinha um amigo comparável a você, possibilitou esta apresentação. O que desejo, na verdade, é que o Saulo venha trabalhar no seu escritório.

O professor achou curiosa a maneira engendrada pelo amigo de juven­tude e me perguntou:

— O senhor é formado por onde?

— Ainda estou estudando na Faculdade de Direito de Santos.

— Então o senhor pretende ser solicitador acadêmico em meu escritório?

Naquele tempo, não havia a figura do estagiário.

— Senhor Doutor Professor Vicente Ráo — respondi, um pouco emba­raçado —, não pretendo nada. Creio que o Guilherme precipitou algo. O pe­dido que ele acaba de lhe fazer, embora muito honroso para mim, não teve a minha autorização. Minha vinda aqui tem um único motivo: conhecer o se­nhor e oferecer-lhe um exemplar de meu livro.

O professor virou-se para o Guilherme e disse:

— E agora? O que vamos fazer com o seu melhor amigo?

— Leia o livro dele e espere-o formar-se em Direito. Ele voltará para pleitear o ingresso no seu escritório. Não é, Saulo?

— Guilherme, que coisa mais complicada — respondi eu, já meio ner­voso. — Eu dei para o professor um livro de poesia, mas isso não me creden­ciará como advogado. Uma coisa nada tem a ver com a outra.

— Fique quieto. O Ráo é um bom leitor de poesia. Leu todas as minhas. Direito é secundário. Desejo que ele conheça sua facilidade para escrever, para dizer o que sente, o que lhe dará bons elementos para avaliar o futuro advogado, que, em geral, tem que dizer o que perna, e não o que sente. E muitos nem sequer sabem pensar.

A conversa parecia luta de espadachins malucos. Misturar sonetos com razões de Direito, e no futuro. Mas terminou com o professor Vicente Ráo di­zendo que o escritório estaria aberto para mim, quando quisesse, depois de formado, ou antes.

Guilherme saiu com ares de vitorioso:

— O Ráo deu a palavra, pronto. É um dos homens mais honrados deste país. Você terá oportunidade de iniciar sua profissão junto a um dos melho­res juristas do Brasil. O destino está apontando o dedo para você. Não se desvie.

E quase me desviei. Em Santos, acabei conseguindo emprego de repór­ter em A Tribuna. Fiquei fascinado pelo Jornalismo. Mergulhei inteiro na nova profissão, enquanto fazia o curso de Direito. No vestibular para a Facul­dade, passei em primeiro lugar. Festa na família e entre os amigos. Mas o jor­nal, o ambiente, os novos amigos, os novos conhecimentos, a falta de horário, as altas horas na redação, quando havia crises políticas ou eventos extraordinários, tudo isso me fascinava. Cheguei a acreditar que havia encontrado mi­nha profissão. Acabei tendo a honra de ser escalado para, em alguns dias da semana, escrever o artigo de fundo de algumas edições, o editorial. Era o máximo.

Ali convivi com jornalistas excelentes: Olao Rodrigues, Geraldo Ferraz, Patrícia Galvão, Rubens de Ulhoa Cintra, Horneaux de Moura e outros, e mais outros, e mais outros.

Patrícia Galvão, Geraldo Ferraz e eu fundamos o Centro de Estudos Fernando Pessoa, para cultivar e divulgar a poesia do imenso poeta portu­guês. Nisso foi incluída extensa correspondência com Casais Monteiro em Portugal.

Casais era o amigo de Pessoa. A ele, o poeta escreveu a célebre carta explicando seus heterônimos. Um dia apareceu em Santos, vindo de um congresso no Uruguai, e nos deu um susto. Fugiu do navio em que viajava e queria asilar-se no Brasil, porque não tolerava a ditadura de Salazar, que, pelo jeito, também não suportava o intelectual português.

Tivemos que providenciar o asilo. Geraldo Ferraz conseguiu encaixá-lo na redação de O Estado de S. Paulo e, depois, acabou se tornando professor em Araraquara. Livrou-se de Salazar.

Contei essas coisas por uma razão muito simples: Casais Monteiro dis­tinguiu-me com um presente preciosíssimo: deu-me os óculos de Fernando Pessoa, precisamente o célebre pincenê com que foi retratado por Almada Negreiros. O jornalismo me proporcionou tudo isso e, de quebra, traba­lhando na baixada do litoral paulista, vi Pelé estrear no Santos Futebol Clube, em 1956, e tive o privilégio de assistir a todos os seus jogos na Vila Belmiro, nos locais reservados à imprensa, para onde me levavam o Guenaga e o De Vaney, repórteres esportivos de A Tribuna.

Para encurtar toda esta conversa: formei-me em Direito e fui procurar o Professor Vicente Ráo. Admitiu-me no escritório. De início, eu viajava todos os dias de Santos para São Paulo e vice-versa. Com um detalhe: esse vice-versa era à noite. Eu ainda ia para a redação de A Tribuna, trabalhar no período noturno. Vida dura. E continuava fumando!

56

No escritório de Ráo, naquele começo tímido, tive o apoio de um advogado fantástico: Ovídio Rocha Barros Sandoval, o discípulo predileto do velho professor. Ficamos amigos incondicionais. Lutamos juntos em muitas causas. Depois de uns anos, ele nos deixou e foi ser juiz. Mas volta­mos a nos encontrar em Ribeirão Preto, onde hoje somos vizinhos e convi­vemos, como nos velhos tempos. Aposentou-se da magistratura. E ainda advoga. E bem.

Outro companheiro inesquecível foi José Frederico Marques. Veio traba­lhar conosco na Rua Sete de Abril e deixou funcionando o seu escritório da Rua 24 de Maio, que transformamos em departamento criminal. Trouxe de bônus o seu genro, Manuel Alceu Afonso Ferreira, advogado que se tornou célebre por suas admiráveis qualidades profissionais e por ser jurista de talento.

Todo mundo era bom naquele escritório, transformado numa usina de talentos e operadores do Direito. A modéstia me impede de dizer que eu também não era dos piores. Mas, agora que, sob esse subterfúgio de falsificar a modéstia, já disse, explico: o problema é que continuava com a alma de jor­nalista. Mas tinha que escolher.

A notícia ou a razão de direito? A informação ao público ou a sustenta­ção diante apenas de um juiz? A manchete, a consulta das fontes, a rapidez em colher o fato e levá-lo ao texto, ou, diante do fato, a reflexão, o amadure­cimento do raciocínio técnico, o texto refletido? Foi difícil decidir.

O empurrão veio da ditadura em 1964. Acabaram com a liberdade de imprensa. Resolvi dedicar-me somente à advocacia. Era uma forma de lutar pela liberdade das pessoas.

Frederico Marques levantava-se muito cedo, lá pelas quatro da manhã; dormia antes das nove da noite. E Vicente Ráo, ao contrário, ia dormir de madrugada e levantava-se ao meio-dia. Isso me fez observar que o nosso es­critório tinha, durante 24 horas, um gênio de plantão.

Até José Sarney, quando os militares fechavam o Congresso Nacional, vinha trabalhar conosco. Marly, sua mulher, costumava dizer que nessas temporadas podia mandar seus filhos para a escola — Roseana, Zequinha e Fernando — com sanduíches recheados de goiabada. Sempre bem-humo­rada, insistia na defesa da tese de que o marido deveria largar a política e dedicar-se inteiramente à advocacia. Sonhar é preciso.

Estava eu ali, na sala do Professor Vicente Ráo, chefiando, após sua morte, o escritório que fora dele. Sua ausência era um vazio imenso. Chegava a engas­gar. Mas nós, Ovídio Rocha Barros Sandoval e eu, continuamos a conversar com o Professor Ráo, lendo suas obras. É impressionante a sensação de ouvi-lo em silêncio. E quanta sabedoria salta a cada parágrafo do que ele escreveu! E como escrevia simples, claro, sem complicação alguma! Sobre Direito Civil, foi quem melhor escreveu em língua portuguesa. Aliás, no Brasil, o próprio Direi­to Civil se divide em antes e depois de Vicente Ráo, já que ele trouxe doutrina e ensinamentos que alteraram completamente a forma de pensar de nossos juristas, até então limitados a citar Clóvis Beviláqua. Por tudo isso, sobre mim pesava uma responsabilidade enorme: dar continuidade à advocacia fundada por um gênio e um dos homens mais honrados do nosso país, como observara Guilherme de Almeida. Eu não tinha o direito de falhar. Em nada.

Ráo fumava uns cinco maços de cigarro por dia. Ovídio nem tanto, mas seguia os costumes do mestre. Frederico Marques era mais moderado no ta­bagismo. Em Santos, o meu amigo Mário Covas consumia uns quatro maços diariamente, o que contribuía para sua voz ficar ainda mais rouca.

Sarney era a exceção: somente fumou duas vezes na vida — uma quan­do foi pedir a Marly em casamento, e outra, quando estava no colégio, numa rodinha de colegas. O cigarro passava de mão em mão para uma tragada. Quando chegou a vez dele, foi pego por um professor. Teve que escrever tre­zentas linhas contra o cigarro. Salvou-se.

Excluindo o José Sarney, minha vida era cercada de fumaça, diversa dessas neblinas que agora estão se desfazendo para eu descrever os fatos do meu passado.

Fernanda Pessoa, em “Tabacaria”, escreveu:

“Enquanto Deus me conceder, continuarei fumando...”

E acendi um último cigarro, quando acabei de redigir umas razões quaisquer para um outro processo.

Lembrei-me do Sinval. Isto vai acabar me matando. Espero, porém, du­rar até ler, no caso do Sr. Olavo Brás, o laudo assinado por todos os peritos. Não era pedir demais. Fiquei meditando na outra frase: “Não é apenas o seu cliente que tem mania de suicídio!” Mas, enfim, não sou inglês e não vivo no tempo de James I.

Apaguei o cigarro e fui para o Paddock. Quem sabe encontraria por lá o Zé do Pé. Não deu outra. Ele estava no bar.

— Chefe — ele chamava todo mundo de chefe. — Vou lhe contar o que me aconteceu ontem. O Olavo Drummond24 conseguiu me levar ao médico para uma consulta.

— Bendito seja Deus. Afinal você criou juízo.

— Depois da consulta, exames de sangue, aquela baboseira toda, o mé­dico me disse no retorno: “O senhor está tecnicamente morto. Tem que parar de beber imediatamente. Nem mais um gole de hoje em diante!”. — Contou o prognóstico diante de um copo de uísque.

— Até aí — respondi — todos nós sabemos. Você anda abusando de­mais. Não há saúde que agüente. Se o médico disse que você está tecnica­mente morto, pode haver chance de ressurreição. Pare de beber.

Disse que, na saída do consultório, quando ele e o Olavo Drummond chegaram à rua, estava passando um carro fúnebre. Não agüentou e gritou:

— Táxi, táxi!

Deu uma risada gostosa e continuou bebendo.25



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